sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Sagrada Comunhão do Sacerdote na Divina Liturgia de S. J. Crisóstomo

Pax et bonum!
Procurando alguns vídeos sobre a Sagrada Comunhão no rito bizantino (Divina Liturgia de São João Crisóstomo), encontrei um, no Youtube, que mostra dois sacerdotes comungando.
Quem já viu a comunhão na Liturgia Dâmaso-Gregoriana (Missa na Forma Extraordinária) perceberá as semelhanças na reverência e nas orações.




As orações (que no vídeo estão em inglês) são:

Creio, Senhor, e confesso, 
que Tu és, verdadeiramente, o Cristo, 
o Filho de Deus vivo 
e que vieste ao mundo para salvar os pecadores, 
dos quais eu sou o primeiro.
Creio também que estes dons 
são o teu puríssimo Corpo e o teu Sangue precioso.
(Mais ou menos a partir daqui) 
Suplico-te, pois: tem piedade de mim 
e perdoa as minhas faltas voluntárias e involuntárias, 
cometidas por palavras e ações, 
consciente ou inconscientemente, 
e torna-me digno de participar, 
sem incorrer em condenação, 
dos teus puríssimos mistérios, 
para a remissão dos pecados 
e para a vida eterna. Amém.
Recebe-me, Senhor, neste dia, na tua mística Ceia. 
Eu não desvendarei os mistérios aos teus inimigos, 
nem te darei um beijo como Judas; 
mas como o ladrão arrependido, te peço: 
lembra-te de mim, Senhor, no teu reino.
(Não tenho certeza se a seguinte é rezada)
Que a recepção dos teus santos mistérios, Senhor, 
não seja para mim causa de juízo e condenação, 
mas, por tua misericórdia sirva de defesa 
e proteção à minha alma e ao meu corpo 
e de remédio aos meus males.
(Nem esta)
Eu, servo de Deus e presbítero N. ... , 
comungo o precioso e santíssimo Corpo do Senhor 
Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, 
para remissão dos meus pecados e para a vida eterna. Amém.
(Esta é rezada para a comunhão do Cálice)
Eu, servo de Deus e presbítero N. ... , 
comungo o precioso e santíssimo Sangue do Senhor, 
Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, 
para remissão dos meus pecados e para a vida eterna. Amém.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Um exemplo bom de "padres cantores"

Pax et bonum!
Vi num site a propaganda de um CD de um grupo chamado The Priests (Os Padres). Achei aquilo "diferente". Digo, no Brasil há muitos "padres cantores", mas algo pareceu diferente. 
Fui atrás de conhecê-los pela Web e me deparei com um belo vídeo no Youtube.
Assisti e acredito ser um exemplo bom de "padres cantores". 
A música é Pie Iesu. O site dos padres é www.thepriests.com.



Pie Iesu, Pie Iesu (2x)
Qui tollis peccatta mundi, 
dona eis requiem (2x).
Pie Iesu, Pie Iesu (2x)
Qui tollis peccatta mundi, 
dona eis requiem (2x).
Agnus Dei, Agnus Dei (2x)
Qui tollis peccatta mundi,
dona eis requiem (2x) 
sempiternam (3x).

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Teologia Orante da Páscoa II


Pax et bonum!
Dando continuidade ao convite a meditarmos os hinos da Liturgia das Horas, seguem os hinos que temos entoado a Cristo, que subiu ao céu, e que entoaremos neste período de ansiosa espera pela vinda do Espírito Santo em Pentecostes.

Ascensão do Senhor

Hino das Vésperas (Iesu, nostra redemptio)

Ó Jesus, redenção nossa, nosso anelo e nosso amor,
novo Rei dos novos tempos e dos seres Criador.

Que clemência vos venceu para os crimes carregar,
e, na cruz sofrendo a morte, doutra morte nos livrar? 

À mansão dos mortos indo, os cativos libertar,
e do Pai à mão direita triunfante vos sentar? 

Esta mesma piedade nos liberte dos pecados,
e ao clarão de vossa face nós seremos saciados. 

Nosso prêmio no futuro, nosso gozo sois também.
Sede sempre nossa glória pelos séculos. Amém.

Hino das Laudes (Optatus votis)

Esperado com ânsia por todos, hoje o dia sagrado brilhou 
em que Cristo, esperança do mundo, Deus e Homem, ao céu se elevou. 

Triunfou sobre o príncipe do mundo, vencedor num combate gigante, 
e apresenta a Deus Pai,no seu rosto, toda a glória da carne triunfante. 

Dos fiéis ele é a esperança, numa nuvem de luz elevado, 
e de novo abre aos homens o céu que seus pais lhes haviam fechado. 

Ó imensa alegria de todos, quando o Filho que a Virgem gerou, 
logo após o flagelo e a cruz, à direita do Pai se assentou. 

Demos graças a tal defensor que nos salva, que vida nos deu, 
e consigo no céu faz sentar-se nosso corpo no trono de Deus. 

Com aqueles que habitam o céu partilhamos tão grande alegria. 
Cristo a eles se deu para sempre, mas conosco estará cada dia. 

Cristo, agora elevado às alturas, nossa mente convosco elevai, 
e, do alto, enviai-nos depressa vosso Espírito, o Espírito do Pai.

Após a Ascensão do Senhor e até Pentecostes inclusive

Hino das Vésperas (Veni, creator Spiritus)

Oh vinde, Espírito Criador, as nossas almas visitai
e enchei os nossos corações com vossos dons celestiais. 

Vós sois chamado o Intercessor, do Deus excelso o dom sem par, 
a fonte viva, o fogo, o amor, a unção divina e salutar.

Sois doador dos sete dons, e sois poder na mão do Pai, 
por ele prometido a nós, por nós seus feitos proclamais. 

A nossa mente iluminai, os corações enchei de amor, 
nossa fraqueza encorajai, qual força eterna e protetor. 

Nosso inimigo repeli, e concedei-nos vossa paz;
se pela graça nos guiais, o mal deixamos para trás.

Ao Pai e ao Filho Salvador por vós possamos conhecer. 
Que procedeis do seu amor fazei-nos sempre firmes crer.

Teologia Orante da Páscoa I


Pax et bonum!
Recordemos os pontos principais da essência pascal até antes da Ascensão de nosso Senhor. Façamo-lo através da meditação dos hinos da Liturgia das Horas, que em meio ao lirismo dos versos, professam a fé e expõe o mistério pascal da morte e da ressurreição do Senhor.

Antes da Ascensão do Senhor

Hino das Vésperas (Ad cenam Agni)

Às núpcias do Cordeiro em brancas vestes vamos. 
Transposto o mar Vermelho, ao Cristo Rei cantamos. 

Por nós no altar da cruz seu corpo ofereceu. 
Bebendo deste sangue, nascemos para Deus. 

Seu sangue em nossas portas afasta o anjo irado. 
Das mãos dum rei injusto seu povo é libertado. 

O Cristo, nossa Páscoa, morreu como um Cordeiro. 
Seu corpo é nossa oferta, Pão vivo e verdadeiro. 

Ó vítima verdadeira, do inferno a porta abris, 
livrais o povo escravo, dais vida ao infeliz. 

Da morte o Cristo volta, a vida é seu troféu. 
O inferno traz cativo e a todos abre o céu. 

Jesus, Pascal Cordeiro, em vós se alegra o povo, 
que, livre pela graça, em vós nasceu de novo. 

A glória seja ao Cristo da morte vencedor. 
Ao Pai e ao Santo Espírito o nosso igual louvor. 

Hino das Vésperas (O rex æterne, opcional para os dias de semana)

Eterno Rei e Senhor, Filho do Pai muito amado, 
à vossa imagem plasmastes Adão, do barro formado. 

Caiu o homem no mal, pelo inimigo enganado. 
Mas assumistes seu corpo num seio virgem formado. 

Unido a nós como homem, vós nos unistes a Deus. 
Pelo Batismo, nos destes herdar o Reino dos céus. 

Para salvar todo homem, morrer na cruz aceitastes. 
Preço do nosso resgate, o vosso sangue doastes. 

Mas ressurgis, recebendo do Pai a glória devida. 
Por vós, também ressurgidos, teremos parte na vida. 

Sede, Jesus, para nós, gozo pascal, honra e glória. 
Os que nasceram da graça, uni à vossa vitória. 

Glória a Jesus triunfante que a própria morte venceu. 
A ele, ao Pai e ao Espírito louvor eterno no céu.

Hino das Laudes (Aurora lucis)

Desdobra-se no céu a rutilante aurora. 
Alegre, exulta o mundo; gemendo, o inferno chora. 

Pois eis que o Rei, descido à região da morte, 
àqueles que o esperavam conduz à nova sorte. 

Por sob a pedra posto, por guardas vigiado, 
sepulta a própria morte Jesus ressuscitado. 

Da região da morte cesse o clamor ingente: 
'Ressuscitou!' exclama o Anjo refulgente. 

Jesus, perene Páscoa, a todos alegrai-nos. 
Nascidos para a vida, da morte libertai-nos. 

Louvor ao que da morte ressuscitado vem, 
ao Pai e ao Paráclito eternamente. Amém.

Hino das Laudes (Chorus novae, opcional para os dias de semana)

A fiel Jerusalém canta um hino triunfal, 
celebrando, jubilosa, Jesus Cristo, a Luz pascal. 

A serpente é esmagada pelo Cristo, leão forte, 
que ressurge e chama à vida os cativos pela morte. 

Ele vence, refulgindo de grandeza e majestade. 
Ele faz de céus e terra uma pátria de unidade. 

Nosso canto suplicante pede ao Rei ressuscitado 
que receba no seu Reino o seu povo consagrado. 

Ó Jesus, do vosso povo sede o júbilo pascal. 
Dai aos novos pela graça a vitória triunfal. 

Glória a vós, Jesus invicto, sobre a morte triunfante. 
Com o Pai e o Santo Espírito sois luz nova e radiante. 

domingo, 24 de maio de 2009

Catena Aurea: Evangelho da Ascensão do Senhor (Mc 16, 15-20)

E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados. Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus. Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.
São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
O Senhor repreende-lhes a dureza, a fim de que ouçamos seus avisos(1). Depois, disse lhes “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”. Sob o nome “toda criatura” designa o homem, uma vez que este tem algo em comum com todas elas, com as pedras o ser, com as árvores o viver, com o animais o sentir e, com o anjos, o entender. Assim, predica-se o Evangelho a toda criatura, quando se prega ao homem. Porque somente este pode-se ensinar e para ele tudo foi criado, nada lhe sendo alheio pela certa semelhança que tem com tudo. Também se pode entender por todas as nações. Antes havia dito “Não ireis ao meio dos gentios” (Mt 10, 5); agora diz: “Pregai o Evangelho a toda criatura”, a fim de que a pregação apostólica, que antes foi rejeitada pelos judeus, venha em nosso auxílio, sendo um testemunho da condenação destes por tê-la rejeitado

Teofilacto.
Ou melhor, a toda criatura, isto é, crentes e incrédulos. “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”, prossegue. Porque não basta crer; eis que aquele que crê e não está batizado, ainda não alcançou a salvação, senão imperfeitamente.

São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
Mas talvez cada um dirá a si mesmo: eu serei salvo porque acreditei. E, com efeito, assim será, se se une as obras à fé; porque a verdadeira fé consiste em que a obra não contradiga o que diz a palavra.

"Mas quem não crê será condenado".

Beda, in Marcum, 4,45.
E que podemos dizer das crianças que, por sua idade, ainda não podem crer? Pois no que diz respeito aos adultos nada há o que dizer. Na igreja de Jesus Cristo, as crianças crêem pela fé dos outros, assim como pelos outros contraíram os pecados que são apagados pelo batismo.

Segue-se: “ Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal”

Teofilacto.
Isto é, dispersarão as potencias sensíveis e intelectuais, conforme o sentido destas palavras: “Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo”(Lc 10,19). Pode entender-se também que se refira às serpentes ordinárias, como a víbora que mordeu a São Paulo sem causar-lhe dano. “E se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal”. Muitos fatos semelhantes encontramos na história dos homens a quem, protegidos sob o estandarte de Cristo, não lhes causou dano o veneno que haviam bebido.

Prossegue: “ imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados”.

São Gregrio Magno, homilia in Evangelia, 29.
Mas, se não fazemos tais milagres, é sinal de que cremos menos? Ora, estas coisa foram necessárias no princípio da Igreja. Foi preciso que a fé dos crentes fosse nutrida com milagres, a fim de que crescesse. Porque, quando plantamos um arbusto, regamo-lo até que cresça suficientemente e, então, suspendemos a rega, quando percebemos que aquele está bem enraizado. Mas é preciso considerar mais atentamente outros milagres espirituais que a Igreja, atualmente, faz todos os dias e que fazia, então, corporalmente por meio os Apóstolos. Quando o sacerdote impõe suas mãos sobre os crentes e se opõe - com a graça de exorcizar que lhe foi dada - à permanência do espírito maligno no coração dos fiéis, não faz outra coisa que lançar fora deles os demônios. E o fiel que abandona as palavras mundanas e passa a cantar os santos mistérios, fala novas línguas; domina as serpentes, se retira a malícia do coração de seu próximo; bebe licor venenoso e não sofre danos, se, ouvindo maus conselhos, não se deixa levar por eles às más ações; imporá, enfim, as mãos aos enfermos e estes ficarão curados todas as vezes que, vendo vacilar seu próximo no caminho do bem, fortifica-lhe com os exemplos das boas obras. E seus milagres são tanto maiores quanto mais espirituais o sejam e enquanto por eles se despertam do sono, não os corpos, mas as almas.

Pseudo Jerônimo.
È Jesus Cristo, Nosso Senhor, quem sobe aos céus, havendo deles descido para curar nossa natureza de suas enfermidade. “Assim o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu”.

Santo Agostinho, de consensu evangelistarum, 3,16.
Aqui se vê claramente que esta foi a última vez que lhes falou o Senhor na terra, ainda que pareça que não estamos obrigados absolutamente a crer que foi assim, pois diz o Evangelista: “Depois que o Senhor Jesus lhes falou”. Se for necessário, podemos supor, pois, que não foi aquela a última vez que lhes falou, mas que estas palavras podem se referir a tudo o que lhes disse naqueles dias. Porém, como o exposto já nos faz ver mais claramente que aquele foi o último dia de Jesus sobre a terra, é preciso crer que, depois destas palavras que diz São Marcos, junto com as escritas nos Atos dos Apóstolos, realizou-se a Ascenção do Senhor ao céu.

São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
No Antigo Testamento, vemos que Elias foi arrebatado ao céu (2R 2). Mas o céu etéreo não é o céu aéreo, porque este se encontra próximo à terra. Elias, pois, foi elevado ao céu aéreo para ser condizido subitamente a certa região desconhecida da terra, onde viveria em um grande repouso de corpo e espírito, até que, ao fim do mundo, volte e pague seu tributo à morte. É de notar também que Elias foi arrebatado em um carro de fogo, para demonstrar abertamente que, mesmo sendo puro, como homem necessitava da ajuda de outro. Nosso Redentor, porém, elevou-se sem necessidade de um carro de fogo nem do auxílio dos anjos, porque aquele que tudo fez poderia elevar-se sobre tudo por sua própria virtude. É de se observar que São Marcos acrescenta “e está sentado à direita de Deus”, enquanto que Santo Estêvão diz: “Estou vendo, agora, os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Deus” (At 7, 55). Mas estar sentado corresponde ao juiz(2) e estar em pé(3) ao combatente ou àquele que ajuda no combate. Santo Estêvão, no combate, vê a Cristo, que lhe ajuda, de pé; e São Marcos diz que Cristo está sentado, porque depois da glória da ascensão, no fim, se verá a Cristo como Juiz.

Santo Agostinho, de symbolo ad catechumenos, 7.
Não devemos considerar esta postura como se ela se referisse à posição tomada pelo corpo humano, isto é, nem que o Pai estava sentado à esquerda nem que o Filho, à direita. Deve-se entender por “direita” o poder que aquele Homem recebeu de Deus para julgar(4), quando vier, depois de haver vindo para ser julgado. “Sentar-se”, em latim, é o mesmo que “habitar”, e por isto se diz de um homem que passou três anos em um país que “In illa patria sedit per tres annos”. Deste modo, pois, devemos acreditar que está Cristo à direita de Deus Pai, porque é bem-aventurado e habita na bem-aventurança, que é a direita do Pai, com o quem tudo é “direita”, pois nada há ali que seja miserável(5).

Segue: “Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles e confirmava a sua palavra com os milagres que a acompanhavam”.

Beda, in Marcum, 4,45.
Observemos que São Marcos estende seu Evangelho a um tempo tão avançado quanto mais tardio é aquele anuncio com que lhe de princípio. Porque o começou desde o princípio da pregação evangélica feita por São João e terminou ao chegar o tempo em que os mesmos Apóstolos semearam por todo o orbe a palavra do Evangelho.

São Gregório Magno, homilia in Evangelia, 29.
Que é de se considerar aqui senão que a obediência seguiu ao preceito e os milagres à obediência?Havia mandado o Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” e, nos Atos dos Apóstolos, lê-se: “E sereis minhas testemunhas até os confins do mundo” (At 1, 8).)

Santo Agostinho, Ad Hesych. , epís. 80.
Por que dizer que esta pregação foi cumprida pelos Apóstolos, quando há nações nas quais ela começa agora e outras em que ela ainda não começou? Ora, este preceito não foi dado aos Apóstolos como se estes fossem os únicos que devessem obedecê-lo, porque assim como as palavras que dirigiu a eles somente “Estarei convosco até o fim do mundo” (Mt 28, 20), são uma promessa feita à Igreja, sempre viva nas gerações que se sucedem umas às outras, como é possível deixar de entender que aquela outra promessa alcança a Igreja até a consumação dos séculos?

Teofilacto.
Mas devemos estar cientes de que a palavra se confirma com as obras, como no caso Apóstolos, cujas palavras eram confirmadas pelos milagres que a acompanhavam. Oh Jesus! Dignai-vos fazer que as palavras de santidade que pronunciamos sejam confirmadas por nossas obras e ações, para que, com vossa cooperação, sejamos perfeitos em todas as nossas palavras e obras, porque vossa é a glória das palavras e das obras!

NOTAS
1 São Gregório refere-se aqui a Mc 16, 14: “e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, por não acreditarem nos que o tinham visto ressuscitado”.
2 Vide nota nº 4.
3 Em latim “sto, steti, staturus, stare”, significa não só “estar em pé”, como em “Stabat mater ixta crucem” (Em pé estava a mãe junto à cru), mas também “combater com”, “estar ao lado”, “tomar partido de”, “apoiar”, “sustentar”,etc.
4 Em latim, o verbo “sedeo, sedi, sessum, sedere”, além do sentido trivial de “sentar-se”, pode ter uso específico aplicado ao ato de “assentar-se” na cadeira ou sede do magistrado ou do governo para julgar ou governar; pode, ainda, como indica Santo Agostinho indicar permanência em um lugar ou a situação (localização) de algo ou de alguém, aproximando-se de “habitar”.
5 Aqui Santo Agostinho joga com a polissemia da palavra “sinistra”, que significa não só “à esquerda”, “ a mão ou o lado esquerdo”, mas também “desgraça”, “desfavorável”, “descrédito”, etc. Ao contrário, a palavras latinas “dextra”, “dextera”, “dexterum”, além de “à direita”, “o lado direito”, “a mão direita”, significam “favorável”, “propício”, etc. Lembre-se, por oportuno, da posição em que se sentarão os homens no juízo final.

Obs. Todas as notas também são do tradutor.

Traduzido por Edilberto Alves - Membro da ARS

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Novena de Pentecostes (22-30/05)

Pentecostes (ícone maronita)


“A novena em honra do Espírito Santo é a mais antiga de todas as novenas, pelo fato de ter sido feita primeiramente por ordem de Nosso Senhor quando mandou os apóstolos de volta para Jerusalém para aguardarem a vinda do Espírito Santo no primeiro Pentecostes. Ela ainda é a única novena oficialmente prescrita pela Igreja. Direcionada à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é uma poderosa súplica por luz, força e amor, tão extremamente necessários a todos os cristãos”[1]. 
A Novena inicia no dia seguinte à Solenidade da Ascensão, sexta-feira da VI Semana da Páscoa, mesmo que a Solenidade da Ascensão seja transferida para o VII Domingo (como é o caso do Brasil).

[1] http://www.ewtn.com/devotionals/pentecost/seven_tx.htm


O documento oficial de mandato da novena é a Carta Encíclica Divinum illud munus (09/05/1897) do papa Leão XIII. Eis a ordem: 
Decretamos (...) e mandamos que em todo o mundo católico neste ano, e sempre no futuro, à festa de Pentecostes preceda a novena em todas as Igrejas paroquiais e mesmo também nos demais templos e oratórios, a juízo dos Ordinários.

Por desconhecimento, pode ser que ela não seja rezada e nem ao menos lembrada em nossas paróquias. Por isso recomendamos a todos que rezem ou sozinhos, ou com familiares, ou outros amigos, nesses nove dias (22 - 30/05), para louvor e glória do Espírito Santo e pela unidade dos cristãos.

Para estes fins, proponho três orações a serem rezadas todos os dias:

1. Sequência de Pentecostes (provável autor: D. Stephen Langton (+1228), Arcebispo de Canterbury)
Obs: A versão em português é a do texto litúrgico do Brasil.

VENI, Sancte Spiritus,
et emitte caelitus
lucis tuae radium.

(Espírito de Deus, 
enviai dos céus 
um raio de luz!)

Veni, pater pauperum,
veni, dator munerum
veni, lumen cordium.

(Vinde, Pai dos pobres, 
dai aos corações ou doador dos dons,
vossos sete dons ou luz dos corações.)

Consolator optime,
dulcis hospes animae,
dulce refrigerium.

(Consolo que acalma, 
hóspede da alma, 
doce alívio, vinde!)

In labore requies,
in aestu temperies
in fletu solatium.

(No labor descanso, 
na aflição remanso, 
no calor aragem.)

O lux beatissima,
reple cordis intima
tuorum fidelium.

(Enchei, luz bendita,
chama que crepita, 
o íntimo de nós!)

Sine tuo numine,
nihil est in homine,
nihil est innoxium.

(Sem a luz que acode,
nada o homem pode, 
nenhum bem há nele.)

Lava quod est sordidum,
riga quod est aridum,
sana quod est saucium.

(Ao sujo lavai, 
ao seco regai,
curai o doente.)

Flecte quod est rigidum,
fove quod est frigidum,
rege quod est devium.

(Dobrai o que é duro, 
guiai no escuro, 
o frio aquecei.)

Da tuis fidelibus,
in te confidentibus,
sacrum septenarium.

(Dai à vossa Igreja, 
que espera e deseja, 
vossos sete dons.)

Da virtutis meritum,
da salutis exitum,
da perenne gaudium,
Amen, Alleluia.

(Dai em prêmio ao forte
uma santa morte, 
alegria eterna. 
Amém. Aleluia.)

2. Ato de Consagração ao Espírito Santo (Novena dos Padres do Espírito Santo -1912)

Prostrado, ante a grande multidão de testemunhas celestes, eu ofereço minha alma e meu corpo a vós, Eterno Espírito de Deus. Adoro o brilho da vossa pureza, a absoluta perfeição da vossa justiça e o poder do vosso amor. Vós sois o poder e a luz de minha alma. Em vós eu vivo, movo-me e existo. Desejo nunca vos ofender por infidelidade à graça e peço com todo o meu coração que me mantenhais livre mesmo do menor pecado contra vós. Protegei misericordiosamente todo o meu pensamento e concedei que eu sempre busque a vossa luz, e escute a vossa voz, e siga as vossas inspirações cheias de graça. Agarro-me a vós e vos peço, pela vossa compaixão, que me protejais na minha fraqueza. Segurando os pés traspassados de Jesus e olhando para suas cinco chagas, confiando em seu Sangue Precioso e adorando seu lado aberto e seu coração ferido, eu vos imploro, adorável Espírito que ajudais na minha enfermidade, que me mantenhais em vossa graça e que eu nunca peque contra vós. Dai-me graça, ó Espírito Santo, Espírito do Pai e do Filho, para dizer-vos sempre e em toda parte “Falai, Senhor; vosso servo escuta!" Amém.

3. Oração pelos Sete Dons (Novena dos Padres do Espírito Santo - 1912)

Ó Senhor Jesus Cristo, que antes de ascender ao céu prometestes enviar o Espírito Santo para completar a vossa obra nas almas de vossos Apóstolos e discípulos, dignai-vos conceder-me o mesmo Espírito Santo para que ele aperfeiçoe na minha alma o trabalho de vossa graça e vosso amor. Concedei-me o Espírito de Sabedoria para que eu possa desprezar as coisas deste mundo que perecem e aspirar somente às coisas que são eternas; o Espírito de Entendimento para iluminar minha mente com a luz da vossa verdade divina; o Espírito de Conselho para que possa sempre escolher o caminho mais seguro para agradar a Deus e ganhar o Céu; o Espírito de Fortaleza para que possa levar minha cruz convosco e vencer com coragem todos os obstáculos que se oponham à minha salvação; o Espírito de Ciência para que possa conhecer a Deus e conhecer-me a mim mesmo e crescer perfeitamente na ciência dos santos; o Espírito de Piedade para que possa ter o serviço de Deus como doce e amável; e o Espírito do Temor de Deus para encher-me de reverência a Deus e que possa temer desagradá-lo de qualquer modo. Marcai-me, amado Senhor, com o sinal de vossos verdadeiros discípulos e animai-me em todas as coisas com vosso Espírito. Amém.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 20 de maio de 2009

NOTÍCIA: Missa Antiga - Paz litúrgica e benefício para ambos os ritos

Entrevista com Dom Fernando Arêas Rifan realizada no dia 19 de Maio de 2009


O bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney (Campos, Brasil), Dom Fernando Arêas Rifan, considera que a permissão universal de Bento XVI para se celebrar a missa antiga (chamada também de missa tridentina) promove a paz litúrgica e beneficia tanto tradicionalistas como progressistas.

A Adminstração Apostólica São João Maria Vianney foi criada por João Paulo II em 2002. É uma diocese de caráter pessoal, não territorial, fundada após diálogo com fiéis tradicionalistas que eram numerosos na região.

Nesta entrevista à Zenit, Dom Fernando Rifan fala sobre o caráter sagrado da liturgia.



–Poderia explicar a diferença entre os termos “sagrado” e “profano”?



–Dom Fernando Arêas Rifan: Um dos motivos pelos quais nós conservamos e amamos a liturgia romana na sua forma antiga –que é chamada atualmente de forma extraordinária do rito romano–, é exatamente porque ela expressa bem o caráter sagrado da liturgia. Não que a outra não expresse, mas esta expressa de modo mais claro. Como, aliás, acontece com a diferença entre os vários ritos. Participei recentemente, ao lado de outros bispos, da Missa no rito maronita. O que os bispos mais admiraram foi o respeito e o caráter sagrado que se expressa naquele rito oriental. São modos de expressar a sacralidade, podemos dizer, o caráter vertical da liturgia, de nós para Deus, e não apenas o horizontal, que seria de homem para homem.

A liturgia é algo sagrado. Portanto, algo que nos fala de Deus. É interessante que qualquer pessoa sabe disso. Uma das coisas mais tocantes da história do Brasil foi aquela passagem da carta de Pero Vaz de Caminha, quando ele narra a primeira missa no Brasil. Ele conta que os portugueses chegaram, os padres formaram o altar, prepararam o órgão e começou a missa. Os índios foram chegando e começaram a imitar os gestos dos portugueses. Um detalhe interessante é que durante a missa chegou um outro grupo de índios. Um índio do primeiro grupo, que já estava ali, quando certamente interrogado por um índio do segundo grupo sobre o que estava acontecendo, apontou para a missa e apontou para o céu. Para mim este é o melhor comentário sobre a missa. Apontou para a missa e apontou para o céu: quer dizer, está-se passando a comunicação da terra com o céu. Está-se fazendo uma coisa sagrada. Esse caráter sagrado é que a gente não pode deixar perder na liturgia.



–Poderia dar exemplos de como se expressa o caráter sagrado?



–Dom Fernando Arêas Rifan: O latim, por exemplo, que nós conservamos na liturgia, mas não em tudo, já que as leituras e os cânticos são em português. O latim que se conserva na liturgia é exatamente para preservar o caráter sagrado, para que todo mundo sinta que ali se passa algo que não é comum no dia-a-dia. É algo diferente. Por isso que a língua é sagrada. Aliás, nas grandes religiões também se usa uma língua diferente. No rito maronita, por exemplo, a consagração é em aramaico. Não é a mesma língua que você fala. Até em outras religiões há uma língua sagrada. Não é a língua comum. Então a liturgia nessas religiões tem uma outra língua. Mesmo o Hino Nacional brasileiro não é no linguajar que se usa a cada dia. Mostra que ali há algo sagrado, é o hino da pátria. Não se precisa entender cada palavra. Precisa entender que é algo sagrado que acontece.

A língua, os gestos, as inclinações, as genuflexões, os símbolos, os panos, as toalhas, tudo tem de exprimir um caráter sagrado. Você não usa uma toalha qualquer. É uma toalha diferente. O espaço celebrativo é diferente. Os cânticos são diferentes. Então não se pode usar aquilo que é comum, profano. A não ser que seja santificado, digamos. O pão, por exemplo, você come; mas o pão eucarístico é diferente. É por isso, por exemplo, que existe o ofertório: a retirada de algo do uso comum que se coloca para uso litúrgico. Assim também com a bênção. Você consagra algo para uso mais sagrado. As vestes sacerdotais, o modo de falar. Outro exemplo: o sermão não é um discurso político, não é para ficar contando piada, não é algo reles. Você está ali para ouvir a palavra de Deus. O “terra a terra” você já ouve toda hora. Para que você precisa disso na Igreja?



–O que o senhor chama de “terra a terra” tem a ver com o termo “profano”?



–Dom Fernando Arêas Rifan: “Profano” vem do latim “pro fanum”, em frente ao templo, fora do templo, não sagrado. Por exemplo, a Igreja diz que o instrumento por excelência a ser usado na liturgia é o órgão de tubos. Ele tem um som que o nosso subconsciente já se acostumou como algo sagrado. A Igreja põe como modelo do canto religioso o canto gregoriano. Porque é um canto em que predomina a oração cantada. A oração de melodia com pouca coisa de harmonia e quase nada de ritmo. Nas músicas modernas, por exemplo, bem profanas, tem-se a predominância do ritmo sobre a melodia e sobre a harmonia. Isso já mostra o caráter profano da música. Ela pode ser boa em outro lugar. É como dizia o próprio cardeal Ratzinger: há muita gente que confunde a igreja com o salão paroquial. Há coisas que você pode fazer no salão paroquial, mas não na igreja. Eu, por exemplo, toco acordeão. Toco música popular. Mas não na igreja. Eu toco no salão paroquial, com as crianças, na quermesse, onde as crianças tocam pandeiro, tamborim. Na igreja é o órgão. É preciso que se ressalte bem o caráter religioso, sagrado, ou seja, a sacralidade na Igreja. Na liturgia há os tempos de silêncio, porque o silêncio é algo bem respeitoso. Na Igreja não se aplaude, como se aplaude em um comício. O silêncio é tão respeitoso que já diz tudo. Não precisa ficar aplaudindo.

Nós preferimos a liturgia tradicional por tudo isso. Mas em qualquer liturgia há que se guardar o caráter religioso, sagrado, e não cair na coisa profana. O próprio Papa João Paulo II lamenta isso na Encíclica Ecclesia de Eucharistia: “às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrifical, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa” (n. 10). Ou, como disse Bento XVI na carta aos bispos apresentando o Motu Próprio Summorum Pontificum, em muitos lugares, não se atendo às prescrições litúrgicas, consideram-se “autorizados ou até obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia ao limite do suportável”. Palavra infelizmente verdadeira: liturgia levada ao limite do suportável! E o Papa acrescenta: “Falo por experiência, porque também eu vivi aquele período com todas as suas expectativas e confusões. E vi como foram profundamente feridas, pelas deformações arbitrárias da Liturgia, pessoas que estavam totalmente radicadas na fé da Igreja”.



–Há um renovado interesse pela liturgia tradicional?



–Dom Fernando Arêas Rifan: Muitos padres novos querem aprender a liturgia na forma antiga. Há dois anos eu participei de um congresso em Oxford, na Inglaterra, promovido por grupos locais, para ensinar aos padres a liturgia tradicional. Foi aberto pelo arcebispo de Birminghan. Na missa, ele falou: ‘vocês todos estão aqui para aprender a forma antiga do rito romano. Vocês vão voltar para suas paróquias e celebrar o rito normal, de Paulo VI, mas vão celebrar melhor, porque, aprendendo o rito tradicional, aprenderão mais sacralidade, a rezar com mais devoção, e isso vai ajudá-los’.

O Papa quis isso. Quando ele permitiu a missa tradicional para o mundo todo, na forma extraordinária do rito romano, ele quis exatamente isso: a paz litúrgica, que um beneficiasse o outro. O rito tradicional pode se beneficiar do rito novo na maior participação que este traz; por outro lado, o rito novo vai aprender com o rito antigo a característica de mais sacralidade.

Depois dessa paz litúrgica que o Papa quis entre os dois ritos, para que um beneficie o outro, tem havido muita procura por sacerdotes. Nós mesmos fizemos um DVD para ensinar o rito tradicional. Muitos padres têm aprendido, muitos bispos têm incentivado nas suas dioceses. Acho que isso é muito importante. Conservar a liturgia tradicional como forma de riqueza da Igreja, uma forma litúrgica de expressar os dogmas eucarísticos e o respeito. Não se trata de confronto, de briga, nada disso. É um modo da Igreja, legítimo, aprovado pela Igreja, sem causar nenhum detrimento à comunhão. Evita divisões. O Bispo local patrocinando a Missa no rito tradicional, colocando-a em suas igrejas com sacerdotes regulares e sob sua jurisdição, evita que alguns católicos caiam na tentação de querer ir buscá-la em grupos separados ou cismáticos. O Bispo poderá dizer: “Nós temos aqui, porque ir buscar a Missa no rito romano antigo em outro lugar?”



Fonte: http://www.zenit.org/article-21624?l=portuguese


Por: Antunes Norberto - Membro da ARS.

domingo, 17 de maio de 2009

Catena Aurea: Evangelho do VI Domingo da Páscoa (João 15,9-17)

Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor.
Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa.
Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.
Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.
Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.
Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda.
O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.

Crisóstomo ut supra.
Se, pois, o Pai vos ama, confiai; se é para a glória do Pai, produzi frutos. Depois, para animar-lhes a diligência, acrescenta: “Perseverai no meu amor”. Para dizer-lhes como se há de fazer isto, explica: “Se guardardes os meus mandamentos”.

Santo Agostinho ut supra.
Quem duvida de que o amor precede a guarda dos mandamentos? Por que aquele que não ama não tem a base necessária para obedecer aos preceitos. E isto se diz não para mostra de onde nasce o amor, mas para mostrar como este se manifesta, a fim de que ninguém se engane dizendo que O ama sem observar os seus mandamentos. Ainda que, ao dizer “Permanecei em meu amor”, não se explique de que tipo de amor se trata, se é o que devemos ter por Ele ou se é o que Ele tem por nós, conhece-se a espécie de amor por suas palavras anteriores : “Eu vos amei”. Em seguida, diz “permanecei no meu amor”, qual seja, no amor que o Senhor a eles dedicava. Que outra coisa, então, significa “Permanecei em meu amor”, senão “Permanecei em minha graça”? E que outra coisa nos mostra quando diz “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor”, senão o sinal pelo qual saberemos que o amamos, qual seja, quando guardamos seus mandamentos?
Nós não os observamos para que Ele nos ame; antes, sem seu amor não poderíamos observá-los. Esta é a graça visível para os humildes e oculta aos soberbos. Mas porque continua “como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor”? Com efeito, aqui o amor do Pai é aquele que o Pai tem pelo Filho. E por isto também podemos entender que também é graça o amor do Pai para com o Filho assim como o é o do Filho para conosco? Obviamente que não, pois nós somos filhos por graça e não por natureza e o Filho o é por natureza, não por graça. Pode isso se referir ao Filho enquanto homem? Certamente, porque ao dizer “como o Pai me ama, assim também eu vos amo”, demonstra a graça do mediador. Mas Cristo é mediador entre Deus e os homens, não enquanto Cristo é Deus, mas enquanto é homem. Também se pode dizer com justiça que, embora a natureza humana não pertence à natureza de Deus, ela pertence à natureza do Filho de Deus por meio da graça, que não tem outra maior nem igual. Com efeito, nenhum mérito do homem precedeu à graça da Encarnação, mas pelo contrário, todo o mérito do homem iniciou-se a partir dela.

Alcuíno.
A qual mandamento o Senhor se refere, diz o Apóstolo (EF 2, 8): “Cristo se fez obediente até a morte, e morte de cruz”.

Crisóstomo In Ioannem hom., 76.
Como, depois, sua alegria seria interrompida pela futura paixão e ofensas, prossegue: “Disse-vos essas coisas para que minha alegria esteja em vós”, como se dissesse : ainda que a tristeza venha, eu a destruirei para convertê-la em júbilo.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 83.
Que alegria é essa que Cristo inspira em nós, senão deixar-nos recebê-lo? E que gozo será esse que conseguimos, senão termos parte com Ele? Já Ele tinha alegria perfeita quando, pela presciência, predestinando-nos, se alegrava. Mas essa alegria ainda não estava em nós, porque ainda não existíamos. Começou a existir em nós chamou. Porém, com propriedade, podemos chamar nossa essa alegria, mediante a qual seremos bem-aventurados e, iniciada pela fé dos que renascem, chegará à perfeição quando alcançarmos o prêmio da ressurreição.

Teofilacto.
Como havia dito “Se guardardes meus mandamentos”, explica quais são estes mandamentos: “amai-vos uns aos outros”

São Gregório In Evang hom. 27.
Sendo todas as palavras do Senhor cheias de preceitos, por que faz do amor um mandamento especial, senão porque no amor radica todo mandamento? Não podem todos os preceitos reduzirem-se a um, supondo-se que todos se baseiam na caridade? Por que assim como de um só tronco nascem muitos ramos, assim também muitas virtudes derivam da caridade. E não viceja o ramo das boas obras se não estiver radicado no tronco da caridade. Os preceitos do Senhor são muitos, enquanto à diversidade das obras que prescrevem, mas todos se unificam em um só tronco, a caridade.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 83.
Onde está a caridade, o que pode faltar? Onde ela não existe, que proveito pode haver? Mas este amor deve se distinguir daquele que os homens professam enquanto homens. Por isso diz “como eu vos amo”. Para que nos amou o Senhor, senão para que pudéssemos reinar com Ele? Amemo-nos mutuamente também com este desígnio, distinguindo nosso amor do amor dos que não se amam para que Deus seja amado. Estes não se amam verdadeiramente; mas, ao contrário, aqueles, cujo amor busca o amor de Deus, amam-se com verdade.


São Gregório ut supra.
A prova da verdadeira caridade consiste, principalmente, em que se ame, inclusive, os inimigos, porque a Verdade padeceu até o suplício da cruz. Ali professou seu amor aos perseguidores, dizendo (Lc 23, 34): “Pai, perdoa-lhes, por que não sabem o que fazem” e este amor chega ao ápice quando acrescenta: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos”, para ensinar-nos que a sanha de nossos inimigos não só pode se converter em nosso proveito, mas que aqueles também devem-se reputar como amigos.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 84.
Como antes havia dito “ Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”, é lógico o que o mesmo S. João diz em sua epístola: “Assim como Cristo deu sua vida por nós, assim também nós devemos dá-la por nossos irmãos” (1Jo 3,16). Isto fizeram os mártires com fervoroso amor e por isto os comemoramos no altar, não para pedir por eles, mas para que eles peçam por nós a fim de que sigamos suas pegadas. E, ao apresentarem assim a seus irmãos, não fizeram outra coisa que não manifestar as graças que haviam recebido no altar.

São Gregório ut supra.
Quem não dará a seu irmão a túnica em tempo de paz, e a vida por ele em tempo de perseguição? Em tempos de bonança, alimente-se a virtude da caridade por meio da misericórdia, para que esta seja invencível em tempos de borrasca.

Santo Agostinho De Trin. Lib. 88.
Com o mesmo amor amamos a Deus e aos homens, mas amamos a Deus por Deus somente e amamos a nós mesmos e ao próximo por Deus. E estando a lei totalmente nos dois preceitos da caridade (o amor a Deus e ao próximo), não é sem fundamento que a Escritura costuma, em muitos lugares, pôr um em lugar do outro. Porque é lógico que quem ama a Deus, faça o que Deus manda, e assim ame ao próximo, porque Deus o manda. Por isto continua: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando”.

São Gregório Moralium 27,12.
O amigo é como o guardião da alma e por tal razão se chama amigo de Deus aquele que cumpre sua vontade guardando os preceitos.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 80.
Grande mercê! Não podendo ser bom um servo que não obedece os preceitos de seu senhor, aqui Cristo dá a conhecer pelo nome de amigos aos que se fizeram dignos de ser bom servos. Porque pode ser servo e amigo aquele que é bom servo. Para que entendamos como é servo e bom amigo aquele que é bom servo, o Senhor explica, dizendo: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor, mas chamei-vos amigos,”. Já não mais seremos servos quando formos bons servos? Acaso o Senhor não confia seus segredos ao servo bom e provado? É que há dois temores e há também duas servidões: há um temor que o amor perfeito expele fora e com o qual sai juntamente a servidão e há outro mais honesto, que permanece eternamente. À primeira espécie de servidão se referia o Senhor quando disse “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor, mas chamei-vos amigos”. Não fala aqui daquele servo temoroso e honesto de quem São Mateus diz “muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor”, mas daquele, dominado pelo temor servil, ao qual S. João se referiu em outro lugar “ o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre”. Porque, se nos deu a liberdade de fazer-nos filhos de Deus, sejamos filhos, não escravos, para que de um modo admirável nós que somos servos possamos deixar de sê-lo. E isso é Deus quem o faz. Isto ignora aquele servo que não confessa que quem tudo faz é seu Senhor e, quando faz algo de bom, logo se orgulha como se fosse obra sua e atribui a glória a si e não a Deus. E prossegue: “Mas vos chamo amigos, pois vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”.

Teofilacto.
Como se dissesse: o servo desconhece os desígnios de seu senhor, porém a vós, a quem trato como agimos, comuniquei meus segredos.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 85.
Como se deve compreender que Ele manifestou aos discípulos tudo o que ouviu do Pai? Calando tudo aquilo que sabia que os discípulos não compreenderiam, mas descobrindo-lhes tudo o que cabe na plenitude da ciência, da qual diz o Apóstolo aos Coríntios: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido”. Porque assim como esperamos a imortalidade do corpo, assim também devemos esperar o conhecimento futuro de tudo o que o Unigênito ouviu do Pai.

São Gregório In Evang hom 27.
Tudo o que ouviu de seu Pai e quis revelar a seus servos, são os gozos da caridade interior e as festas da pátria celeste que diariamente sentem antecipadamente as almas em seus enlevos de amor, pois quando amamos aquilo que do céu nos é dito, conhecemos já o que amamos, porque o conhecimento é amor. Tudo, pois, havia revelado aos apóstolos, porque, livres dos desejos terrenos, ardiam em chamas de amor divino.

Crisóstomo In Ioannem hom., 76.
Enfim lhes fala de tudo o que lhes convinha saber, dizendo que não fala nada que não seja do Pai.

São Gregório ut supra.
Mas todo aquele que tenha a honra de ser chamado amigo de Deus, não atribua a méritos próprios a dignidade que vê em si. Por isto diz: “ Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi”.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 86.
Há aqui uma graça inefável! Que éramos nós quando ainda não éramos cristãos, senão uns perversos e perdidos? Pois nem ainda havíamos crido n'Ele para que nos escolhesse; porque se escolheu aos crentes, Ele os fez crente para escolhê-los. Não há lugar aqui para aquela vã argumentação de que Deus nos escolheu antes da criação, porque previu, não que nos faria bons, mas que nós seríamos bons por nós mesmos. E, certamente, se Deus nos tivesse escolhido por que previu que seríamos bons, também teria previso que nós O havíamos de escolher primeiro. Porque esta é a única maneira pela qual poderemos ser bons, a não ser que seja chamado bom aquilo que escolhe o bom. Que é, pois, o que escolheu dentre aquilo que não era bom? Não basta que digas “fui escolhido porque já acreditava”, por que se crias n'Ele, já O havias escolhido. Nem tampouco digas “antes de crer já praticava boas obras e por isso fui escolhido”, porque, que obra pode ser boa antes de se ter fé? Que deveremos dizer, então, senão que éramos maus e fomos escolhidos para que fôssemos bons por meio da graça daquele que nos escolheu.

Santo Agostinho De praedest Sanct cap. 17.
Foram, pois, escolhidos antes da criação do mundo, por ato de predestinação cuja execução Deus previu que ocorreria mais adiante, aqueles que foram chamados do mundo por aquela vocação que Deus predestinou e cumpriu. Porque aqueles a que predestinou a aqueles amou.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 83.
E vede como não escolheu aos bons, mas aos que escolheu fez bons. E continua “vos constituí para que vades e produzais fruto”. E este é o fruto do qual já havia falado “Sem mim, nada podeis fazer”. E Ele próprio é o caminho pelo qual devemos ir.

São Gregório ut supra.
Eu vos constitui e vos plantei na graça para que vades (querendo, pois a alma marcha pelo querer) e recolhais frutos pelo trabalho. Indica de que fruto se trata quando diz: “e vosso fruto permaneça”. Porque tudo que trabalhamos neste século, mal dura até a morte que, ao chegar, corta o fruto do nosso trabalho. Mas o que se faz pela vida eterna, dura ainda depois da morte, quando então começa a aparecer, quando não mais se vêem as obras da carne. Produzamos, pois, frutos tais que permaneçam e que a morte, que a tudo põe fim, seja o princípio de sua duração.

Santo Agostinho ut supra.
Nosso fruto é o amor que agora vive no desejo, mas não na satisfação; e por este mesmo desejo nos dará o Pai, quando pedirmos em nome de seu Filho Unigênito, por isso segue, “a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda”. Nós pedimos em nome do Salvado isto que pertence à ordem da salvação.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 86.
Havia dito o Senhor: “vos constituí para que vades e produzais fruto”. Nosso fruto é a caridade e o mandamento deste fruto nos diz: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”. Por isso, disse o Apóstolo: “o fruto do espírito é a caridade” (Gal 5, 22) e tudo o mais se apresenta como conseqüência desse princípio. Com razão, pois, recomenda o amor como a única virtude, sem o qual não se pode produzir outros bens e o qual não se pode adquirir sem as demais obras pelas quais o homem se faz bom.

Tradução: Edilberto Alves - Membro da ARS

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Catena Áurea: Evangelho Do V Domingo da Páscoa (Jo 15, 1-8)

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará;
e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto.
Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado.
Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á.
Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito.
Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.

Santo Hilário De Trin. lib. 9.
O Senhor se levanta,1 apressando-se para consumar o sacramento de sua paixão corporal por amor ao cumprimento do preceito paterno. Mas a fim de esclarecer o mistério de sua ascensão corpórea, mediante a qual nós estamos radicados nele, como os ramos na videira, acrescenta “ Eu sou a videira verdadeira”.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 80.
O Senhor diz isto porque é a Cabeça da Igreja, o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, e nós somos seus membros. É certo que a videira e os ramos são de uma mesma natureza. Porém, quando se acrescenta a palavra verdadeira, não se refere àquela videira de onde as outras retiram sua semelhança? De tal modo se diz videira por semelhança e não por propriedade, como se diz cordeiro, ovelha e outras coisas análogas, de maneira que são mais verdadeira as coisas que se tomam como modelo de comparação. E dizendo “Eu sou a videira verdadeira”, distingue-se, ainda, daquela outra, da qual afirma Jeremias : “como te transformaste em sarmentos bastardos de uma videira estranha?”(Jr 2, 21). Porque como havia de ser verdadeira videira aquela da qual se esperava que se produzissem uvas e produziu espinhos?

Santo Hilário ut supra.
Mas para distinguir de sua humilde condição corporal a majestade excelsa do Pai, diz que o Pai é o lavrador cuidadoso da videira: “Meu Pai é o agricultor”.

Santo Agostinho De verb. Dom. serm., 59.
Cultivamos (cultuamos) a Deus e Deus nos cultiva2. Mas cultivamos (cultuamos) o Senhor não para torná-lo melhor; cultivamo-lo adorando e não arando. Mas quando ele nos cultiva nos faz melhores, pois sua cultura consiste em não cessar de extirpar com sua palavra todas as más sementes que se arraigam em nossos corações, de abri-lo com o arado da pregação, de nele plantar as sementes de seus mandamentos e de esperar os frutos da piedade.

Crisóstomo In Ioannem hom., 75.
E assim como Cristo se basta a si mesmo, os discípulos necessitam do auxílio do agricultor, por isso nada disse da videira, mas falou dos ramos. “Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará”. Aqui, quando diz fruto, faz alusão implícita ao fato de que ninguém pode estar n'Ele sem as obras.

Santo Hilário ut supra.
Todos os ramos inúteis e estéreis aos quais seja necessário cortar, serão destinados ao fogo.

Crisóstomo ut supra.
E, como mesmo os mais virtuosos necessitam do agricultor, acrescenta “e todo aquele der fruto podará, para que produza mais fruto”. Disse isso por causa das tribulações que então padeciam, mostrando-lhes que as tentações o fariam mais valorosos, porque limpar, isto é, podar os ramos, torna-os mais frutíferos.

Santo Agostinho ut supra.
Quem está tão limpo nesta vida que não possa sê-lo mais ainda? Por isso, se dissermos que não temos pecado em nós, enganamos-nos a nós mesmos (1Jo 1,8). Limpa, pois, aos limpos, isto é, aos que dão frutos, para que dêem mais frutos quanto mais limpos estiverem. A videira é Cristo, que disse: “Meu Pai é maior do que eu”(Jo 14, 28); Mas Cristo também é agricultor, pois disse “Meu Pai e Eu somos um” (Jo 10, 30). E não o é ao modo daqueles que ajudam exteriormente a planta, mas que lhe faz crescer a partir do interior. Por esta razão Ele mesmo se apresenta como agricultor quando diz: “Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado”. Eis, então, que Ele limpa também os ramos, coisa que corresponde ao agricultor, não à videira. E porque não disse “estais limpos pelo batismo, com o qual vos lavei? Será porque na agua a palavra é o que limpa? Se tirarmos as palavras, que ficará na água senão água? Une-se a palavra a este elemento e o sacramento se realiza. De onde a água retira sua virtude de tocar o corpo e limpar o coração senão da palavra? Não porque é pronunciada, mas porque nela se crê. Ainda, mesmo na palavra, uma coisa é o som que se extingue; outra a virtude que permanece. Na Igreja de Deus, é tamanha a virtude desta palavra de fé que por ela aquele que crê, que oferece, abençoa e derrama a água, purifica a criança, ainda que esta não possa crer.

Crisóstomo.
Ou quis dizer: Estais puros pelas palavras que vos falei, isto é, enquanto haveis recebido a luz da doutrina e vos haveis separado do erro judaico.

Crisóstomo In Ioannem hom., 75.
Como havia dito que já estavam limpos pela palavra que lhes havia dito, ensina-lhes por onde tinham que começar as obras que haviam de praticar. Por isso lhes diz: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”.

Santo Agostinho In Ioannem tract., 81.
Eles não permaneceriam nele da mesma maneira que Ele permaneceria neles, porque um e outro são para proveito dos discípulos, não de Cristo; pois os ramos estão na videira de tal sorte que em nada a ajudam para comunicar-lhes a vida, mas dela recebem a vida. Ou seja, a videira está nos ramos para comunicar-lhes a vida, não para recebê-la deles. Desta forma, tendo a Cristo em si e permanecendo eles em Cristo, são eles e não Cristo que aproveitam ambas as coisas. Por isto acrescenta: “Assim com ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim”. Grande prova em favor da graça! Alenta aos corações humildes e abate os soberbos. Porventura não resistem à verdade aqueles que julgam desnecessária a ajuda divina para praticar as boas obras e, antes de ilustrar sua vontade, precipitam-na? Porque aquele que considera que pode dar fruto por si mesmo certamente não está na videira; e o que não está na videira não está em Cristo; e o que não está em Cristo não é cristão.

Alcuíno.
Todo o fruto das boas obras procede daquela raiz que nos salvou com sua graça, que os faz progredir com seu auxílio para que possamos dar mais frutos.

Glossa.
Por esta razão, disse repetidamente e com maior desenvolvimento: “Eu sou a videira e vós sois os ramos; aquele que está em mim (crendo, obedecendo, perseverando) eu também nele estarei (iluminando-o, auxiliando-o, dando-lhe a perseverança), este, e não outro, dará muito fruto”.

Santo Agostinho ut supra.
Mas para que ninguém suspeite que por si mesmo possa dar algum fruto, ainda que seja pequeno, acrescenta: “Porque sem mim nada podeis fazer”. Não disse “pouco podeis fazer”, porque se o ramo não estivesse na videira, vivendo de sua raiz, nenhum fruto daria. E, ainda que Cristo não fosse a videira mas mero homem, não teria poder para dar vida aos ramos, se não fosse Deus também.

Crisóstomo ut supra.
Vede aqui, pois, que o Filho coopera, não menos que o Pai, para o bem de seus discípulos. Porque se o Pai os limpa, Cristo os mantém, o que faz os ramos frutificar. No entanto, está claro que o Filho também limpa e que permanecer na raiz é também próprio do Pai, que gerou a raiz. É, pois, um grande dano nada poder fazer; porém não se detém aqui, mas prossegue: “Se alguém não permanecer em mim será lançado fora”, isto é, não gozará dos cuidados do agricultor, “e secará”, isto é, perderá tudo aquilo que tiver recebido da raiz, será privado de seu auxílio e de sua vida, “e o ajuntarão”.

Alcuíno.
Os anjos serão os podadores que os jogarão ao fogo eterno a fim de que ardam.

Santo Agostinho ut supra.
Tão desprezíveis serão estes ramos se forem separados da videira como gloriosos serão se nela permanecerem. Uma destas duas coisas convém ao ramo: ou estar na videira ou estar no fogo. Se não está na videira, estará no fogo, assim como se não está no fogo, estará na videira.

Crisóstomo ut supra.
Mostrando o que é estar nele, afirma: “ Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito”, isto é, por meio das obras.

Santo Agustinho ut supra.
Só devemos dizer que suas palavras estão em nós quando fazemos o que mandou e amamos o que prometeu. Porque, ainda que suas palavras estejam na memória, se não se manifestam nas obras, não se considera que o ramo está na videira, porque sua vida não nasce do tronco. Que outra coisa se pode querer, ao se estar no Salvador, senão que não separe da salvação? O que queremos quando estamos em Cristo é distinto do que queremos quando estamos no século. Porque, quando estamos na vida deste século, desejamos muitas vezes coisas que ignoramos ser para o nosso dano; mas isso não acontece quando estamos em Cristo, que não nos permite aquilo que nos prejudica. A oração do Pai Nosso pertence aos seu ensinos e, portanto, não devemos nos separar da letra e do espírito desta oração, para que Ele nos conceda o que pedimos.

Crisóstomo In Ioannem hom., 75.
Mostra, depois, o Senhor que todos os que lhe armavam ciladas queimariam, não permanecendo em Cristo. Mas também explica que os discípulos mesmos serão inexpugnáveis (para que assim dêem muito fruto), dizendo: “Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muitos frutos”. Equivale a dizer: Se é para a glória do Pai que vós produzais frutos, o Pai não menosprezará a sua própria glória. Porque o que dá frutos é discípulo de Cristo. Por isto acrescentou “Para que sejais meus discípulos”.

Teofilacto.
Os frutos dos apóstolos são as nações que, pelo seu ensino, converteram-se à fé e foram conduzidas à glória de Deus.

Postado por Tayroni Alves - ARS

PS: Peço desculpas aos leitores pela postagem com um dia de atraso.

1. O Comentário de Santo Hilário retoma aqui o último versículo do capítulo anterior (Jo 14, 31), em que Jesus diz aos discípulos: “O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui”.

2. Aqui Santo Agostinho joga com o duplo significado do verbo latino “colo, -is, -ere”, que significa, ao mesmo tempo, cultuar e cultivar, podendo significar, em alguns contextos, habitar. No original: “Colimus enim Deus et colit nos Deus”, ou seja, cultuamos o Senhor e o Senhor nos cultiva.

domingo, 10 de maio de 2009

Faleceu D. Boaventura Kloppenburg

Pax et bonum!
Pedimos desculpas por postar esta notícia com atraso.
Transcrevemos, adaptada, a notícia disponível no site da CNBB e no site da Província Franciscana.

Faleceu às 14h45 da tarde de anteontem, dia 8, o bispo emérito de Novo Hamburgo (RS), dom Boaventura Kloppenburg, 89 anos. Desde o dia 26 de abril ele se encontrava internado no Hospital Regina, das Irmãs de Santa Catarina, em Novo Hamburgo. Segundo o vigário-paroquial, padre Rodrigo Brigolini, dom Boaventura sofria de problemas pulmonares. O bispo diocesano, dom Zeno Hastenteufel, disse que dom Boaventura “foi chamado para a casa do Pai depois de muitos dias de agonia”.


O velório começa anteontem, a partir das 20h, na catedral diocesana São Luiz, em Novo Hamburgo. Uma primeira missa foi celebrada às 10h da manhã de ontem (sábado). Hoje, às 16h, iniciou a missa de corpo presente. Certamente estão presentes bispos, autoridades, o clero diocesano, seminaristas, religiosos, diáconos, ministros e o povo em geral. Logo após, acontecerá o sepultamento na própria catedral.


Dom Boaventura era franciscano da Ordem dos Frades Menores (OFM). Natural de Molbergen, Oldemnbur, Alemanha, ele foi nomeado bispo em 2 de junho de 1982. Sua ordenação episcopal aconteceu em Rolante (RS). E sua renúncia em 22 de novembro de 1995.


Antes do episcopado, dom Boaventura exerceu várias funções relevantes. Ele foi professor de Teologia Dogmática em Petrópolis (RJ) [1951 – 1971], em Porto Alegre [1972], Roma [1973] e Medelín [1974 – 1982]; redator da Revista Eclesiástica Brasileira [1951 – 1972]; reitor do Instituto Teológico-Pastoral do Conselho Episcopal Latino Americano (Celam), em Medelín, Colômbia [1973 – 1982]; prefeito de estudos em Petrópolis (RJ) [1952 – 1960]; perito da Comissão Teológica do Concílio Vaticano II; membro da Pontifícia Comissão Teológica Internacional [1975 – 1990]; perito nas Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano no Rio de Janeiro [1955], em Medelín [1968] e Puebla [1979].


O bispo emérito de Nova Hamburgo foi ainda bispo auxiliar de Salvador (BA) entre os anos de 1952 e 1960 e consultor de várias congregações da Cúria Romana. Escreveu mais de trinta livros.  Seu lema era: “Sob as sombras fielmente”.



REQVIEM AETERNAM DONA EI DOMINE



ET LVX PERPETVA LVCEAT EI



REQVIESCAT IN PACE

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Card. Cañizares em prefácio ao livro do Pe. Nicola Bux "A Reforma de Bento XVI"

Pax et bonum!
Eu já estava começando a traduzir do inglês, postado no NLM, quando o querido Pe. Samuel Brandão, que celebra na Forma Extraordinária aos Domingos na Igreja de São João Batista do Tauape em Fortaleza, mandou-me a tradução feita pelo OBLATVS. Trata-se do prefácio do Cardeal Cañizares, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que chamou nossa atenção ao celebrar na Forma Extraordinária no altar papal da Basílica do Latrão há poucas semanas.
Obs: cuidei apenas de dar uns retoques minúsculos.

***

Desde a publicação deste livro até a presente edição espanhola não passaram mais que uns poucos meses. Todavia, a transcendência de certos fatos ocorridos neste lapso de tempo modificou enormemente o “clima” em torno de sua temática, especialmente pelo ambiente de controvérsia que se criou em razão do levantamento das excomunhões dos quatro bispos ordenados há vinte anos por Dom Lefebvre. Este gesto de misericórdia gratuita do Santo Padre para tornar possível a sua plena inserção eclesial, que demonstra com fatos que a Igreja não renega sua tradição, fez com que a “Missa Tradicional” acabasse ligada a um problema disciplinar e, pior ainda, político.

Como consequência, existe o risco de uma desfiguração do sentido profundo do Motu Proprio de 7 de julho de 2007; um gesto de extraordinário sentido comum eclesial pelo qual se reconheceu o valor pleno de um rito que nutriu espiritualmente a Igreja Ocidental durante séculos.

Não há dúvida de que um aprofundamento e uma renovação da liturgia eram necessários. Porém, com frequência, esta não foi uma realização perfeitamente alcançada. A primeira parte da Constituição Sacrosanctum Concilium não entrou no coração do povo cristão. Houve uma mudança nas formas, uma reforma, não, porém, uma verdadeira renovação, tal e como pediam os Padres conciliares. Às vezes, mudou-se pelo simples gosto de mudar um passado percebido como totalmente negativo e superado, concebendo a reforma como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição. Isto criou reações e resistências desde o princípio, que em alguns casos se concretizaram em posições e atitudes que levaram a soluções extremas, inclusive a ações concretas que implicavam penas canônicas. É urgente, entretanto, distinguir o problema disciplinar surgido de atitudes de desobediência de um grupo, do problema doutrinal e litúrgico.

Se cremos de verdade que a Eucaristia é realmente a “fonte e o ápice da vida cristã” – como nos recorda o Concílio Vaticano II – não podemos admitir que seja celebrada de um modo indigno. Para muitos, aceitar a reforma conciliar significou celebrar uma Missa que de um modo ou de outro devia ser “dessacralizada”. Quantos sacerdotes vimos ser tratados como “retrógrados” ou “anticonciliares” pelo simples fato de celebrarem de maneira solene, piedosa ou simplesmente por obedecerem cabalmente às rubricas! É peremptório sair desta dialética.

A reforma foi aplicada e principalmente vivida como uma mudança absoluta, como se se devesse criar um abismo entre o pré e o pós Concílio, em um contexto em que o termo “pré-conciliar” era usado como um insulto. Aqui também se deu o fenômeno que o Papa observa em sua recente carta aos bispos de 10 de março de 2009: “Às vezes se tem a impressão de que nossa sociedade tenha necessidade de um grupo, ao menos, com o qual não tenha tolerância alguma, o qual se pode atacar com ódio”. Durante este ano foi o caso, em boa medida, dos sacerdotes e fiéis ligados à forma de Missa herdada através dos séculos, tratados muitas vezes como “leprosos”, como dizia de forma contundente o então cardeal Ratzinger.

Hoje em dia, graças ao Motu Proprio, esta situação está mudando notavelmente. E em grande medida está acontecendo porque a vontade do Papa não foi unicamente satisfazer aos seguidores de Dom Lefebvre, nem limitar-se a responder aos justos desejos dos fiéis que se sentem ligados, por diversos motivos, à herança litúrgica representada pelo rito romano, MAS TAMBÉM, E DE MANEIRA ESPECIAL, ABRIR A RIQUEZA LITÚRGICA DA IGREJA A TODOS OS FIÉIS, TORNANDO POSSÍVEL ASSIM A DESCOBERTA DOS TESOUROS DO PATRIMÔNIO LITÚRGICO DA IGREJA A QUEM AINDA O IGNORA. Quantas vezes a atitude dos que os menosprezam não é devida a outra coisa senão a este desconhecimento! Por isso, considerado a partir deste último aspecto, o Motu Proprio tem sentido transcendente à existência ou não de conflitos: ainda quando não houvesse nenhum “tradicionalista” a quem satisfazer, este “descobrimento” teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa.

Foi dito também que tais prescrições seriam um “atentado” contra o Concílio, isto, porém mostra um desconhecimento do mesmo Concílio, cuja intenção de dar a todos os fiéis a ocasião de conhecer e apreciar os múltiplos tesouros da liturgia da Igreja é precisamente o que desejou ardentemente esta magna assembleia: “O Sacrossanto Concílio, apegando-se fielmente à tradição, declara que a Santa Mãe Igreja atribui igual direito e honra a todos os ritos legitimamente reconhecidos e quer que no futuro sejam conservados e fomentados por todos os meios” (SC 4).

Por outro lado, estas disposições não são uma novidade; a Igreja sempre as manteve, e quando ocasionalmente não foi assim, as consequências foram trágicas. Não apenas foram respeitados os ritos do Oriente, mas também no Ocidente dioceses como Milão, Lião, Colônia, Braga e diversas ordens religiosas conservaram pacificamente seus diversos ritos através dos séculos. Porém, o antecedente mais claro da situação atual é, sem dúvida, a Arquidiocese de Toledo. O Cardeal Cisneros usou de todos os meios para conservar como “extraordinário” na arquidiocese o rito moçárabe que estava em vias de extinção; não somente fez imprimir o Missal e o Breviário, como criou uma capela especial na Igreja Catedral, onde se celebra ainda hoje cotidianamente neste rito.

Esta variedade ritual não significou nunca, nem pode significar, diferença doutrinal, mas pelo contrário, põe em relevo uma profunda identidade de fundo. Entre os ritos atualmente em uso é necessário que se dê também esta mesma unidade. A tarefa atual, tal e como nos indica o presente livro do Pe. Nicola Bux, é pôr em evidência a identidade teológica entre a liturgia dos diversos ritos que foram celebrados através dos séculos e a nova liturgia fruto da reforma, ou ainda, se esta identidade se houvesse desfigurado, recuperá-la.

A Reforma de Bento XVI é, pois, um livro rico em dados, reflexões e ideias, e dentre os múltiplos assuntos nele tratados gostaria de ressaltar alguns pontos:

O primeiro é acerca do nome com o qual chamar a esta Missa. O autor propõechamá-la, ao estilo oriental, “liturgia de São Gregório Magno”. É talvez melhor que dizer simplesmente “gregoriana”, pois pode prestar-se a um duplo equívoco (que poderia em todo caso evitar-se com a denominação “dâmaso-gregoriana”). Também é mais conveniente que “Missa tradicional”, onde o adjetivo corre o perigo de contaminar-se com uma carga ou bem polêmica ou bem “folclórica”; ou que “modo extraordinário”, que é uma denominação demasiadamente extrínseca. “Usus antiquior” tem o defeito de ser uma referência meramente cronológica.

Por outro lado, “usus receptus” seria muito técnico. “Missal de São Pio V” ou “do Beato João XXIII” são termos demasiadamente limitados. O único inconveniente é que no rito bizantino já há uma liturgia de São Gregório, Papa de Roma; a dos dons pré-santificados usada na Quaresma.

Em segundo lugar, o fato de que o uso seja “extraordinário” não deve significar que deva ser usado somente por sacerdotes e fiéis que se ligam ao modo extraordinário. Como propõe o padre Bux, seria muito positivo que quem celebra habitualmente no modo “ordinário”, o faça também, extraordinariamente, no “extraordinário”. Trata-se de um tesouro que é herança de todos e ao qual, de uma maneira ou de outra, todos deveriam ter acesso. Por isso, poder-se-ia propor especialmente para ocasiões em que há alguma riqueza peculiar do antigo missal que se pode aproveitar (sobretudo se no outro calendário não há nada especialmente previsto): por exemplo, para o tempo da Septuagésima, para as quatro Têmporas ou para a Vigília de Pentecostes e, talvez, até no caso de certas comunidades especiais, tanto de vida consagrada como confrarias ou irmandades. A celebração “extraordinária” também seria de grande utilidade para os ofícios da Semana Santa, ao menos em alguns deles, pois todos os ritos conservam no Tríduo Sagrado cerimônias e orações que remontam a épocas mais antigas da Igreja.

Outro ponto que é necessário destacar é a atitude de Bento XVI; não constitui tanto uma novidade nem câmbio de rumo de governo, mas sim leva à sua concretização o que já João Paulo II havia empreendido como iniciativas tais como o documento papal Quattuor abhinc annos, a consulta à comissão de Cardeais, o Motu Proprio Ecclesia Dei e a criação da Comissão de mesmo nome, ou as palavras dirigidas à Congregação do Culto Divino (2003).

Algo que se deve urgentemente ter em conta é a repercussão ecumênica destas discussões; as críticas dirigidas ao rito recebido da tradição romana alcançam também a outras tradições e sobretudo a dos irmãos ortodoxos. Quase todos os ataques dos que se opõem à reintrodução do missal antigo são precisamente ataque aos lugares que temos em comum com os orientais! Um sinal que confirma este fato são as expressões positivas do recentemente falecido Patriarca de Moscou ao publicar-se o Motu Proprio.

Não é um dos aspectos menos importantes deste livro o fato de que nos ajude a tomar consciência dos diversos aspectos da situação em que nos encontramos atualmente. Nossa geração enfrenta grandes desafios em matéria litúrgica: ajudar toda a Igreja a seguir plenamente o que indicou o Concílio Vaticano II na Constituição Sacrosanctum Concilium e o que o Catecismo da Igreja Católica diz sobre a liturgia, aproveitar o que o Santo Padre – quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger – escreveu sobre o tema, especialmente em seu belíssimo livro Introdução ao Espírito da Liturgia, enriquecer-se com o modo com que o Santo Padre – assistido pela Oficina das celebrações litúrgicas presidida pelo Mons. Guido Marini, e da qual é consultor o autor deste livro – celebra a liturgia. Estas liturgias pontifícias são exemplares para todo o orbe católico.

Por último, acrescento que seria de grande importância que tudo isto se expusesse com profundidade nos seminários como parte integrante da formação para o sacerdócio, para proporcionar um conhecimento teórico-prático das riquezas litúrgicas, não somente do rito romano, mas também, na medida do possível, dos diversos ritos do Oriente e do Ocidente, e assim criar uma nova geração de sacerdotes livres de preconceitos dialéticos.

Oxalá este valioso livro do Pe. Nicola Bux sirva para conhecer melhor as intenções do Santo Padre e descobrir as riquezas da herança recebida e, desse modo, para iluminar-nos em nossa ação. Para isto, peçamos ao Senhor saber interpretar, como dizia Paulo VI, os “sinais dos tempos”.

+ Antonio, cardeal Cañizares

Prefeito da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

Administrador Apostólico de Toledo

8 de abril de 2009
Por Luís Augusto - membro da ARS