terça-feira, 30 de junho de 2009

Fotos de D. Sérgio na Imposição do Pálio

PAX et BONVM!
Finalmente encontrei fotos da Solenidade de São Pedro e São Paulo, no Vaticano, mostrando nosso querido arcebispo D. Sérgio da Rocha!
Aproveitando, transcrevo uma palavra especial do Santo Padre aos arcebispos do Brasil que receberam o Pálio:

Acolho com alegria os familiares e amigos dos novos Arcebispos Metropolitanos do Brasil, que vieram acompanhá-los na recepção do pálio, sinal da profunda comunhão com o Sucessor de Pedro. Nesta comunhão dirijo uma particular saudação a Dom Sérgio da Rocha, de Teresina; Dom Maurício Grotto de Camargo, de Botucatu; Dom Gil Antônio Moreira, de Juiz de Fora; e Dom Orani João Tempesta, de São Sebastião do Rio de Janeiro. Transmiti as minhas saudações aos presbíteros e a todos os fiéis das vossas arquidioceses, para que unidos na mesma fé de Pedro possam contribuir para a evangelização da sociedade. Como penhor de alegria e de paz no Senhor, a todos concedo a minha Bênção.
















(Exemplo de uma comunhão reverente)


D. SÉRGIO DA ROCHA, NOSSO ARCEBISPO AD MULTOS ANNOS

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mas o que é o Pálio?




PAX et BONVM!
Aproveitando hoje a Solenidade de São Pedro e São Paulo (não para o Brasil, que foi ontem), junto com o encerramento do Ano Paulino, e ainda mais a graça de nosso Arcebispo, D. Sérgio da Rocha, ter recebido, hoje pela manhã, o Pálio das mãos do Santo Padre (como avisado na postagem anterior), juntei um material razoável que trata exatamente do pálio.
Espero que seja de utilidade para todos!

***

Desenvolvimento e forma

Não se pode determinar o período em que o pálio foi introduzido. De acordo com o liber pontificalis, já estava em uso em Roma na pouco antes da metade do séc. IV, pois lá se diz que o papa Marcos († 336) presenteou com o pálio o bispo de Óstia, consagrador do papa. Por mais fidedigna que seja esta informação, em todo caso o pálio deve ter sido usado em Roma pelo menos desde antes do séc. VI, senão o autor do liber pontificalis, que viveu no início do séc. VI, não teria podido se referir à sua concessão ao bispo de Óstia por parte de um papa da primeira metade do séc. IV. Mas também concessões mais seguramente atestadas, por exemplo, a São Cesário de Arles, em 513, pelo papa Símaco, provam que o pálio entrou em uso em Roma pelo menos no decurso do séc. V.
No ocidente, sempre, apenas o papa tem tido direito próprio de vestir o pálio; todos os outros bispos sempre foram apenas autorizados a usá-lo por uma concessão especial dada por ele. Alguns exemplos de concessões do pálio são já encontrados no séc. VI, especialmente no pontificado de Gregório Magno. Foram, sobretudo, os vigários papais e os metropolitas achados dignos da honra do pálio, mas provavelmente simples bispos também, sufragâneos do metropolita de Roma, bem como bispos que não pertenciam àquela circunscrição, entre os quais o primeiro a obter o pálio foi Siágrio de Autun, das mãos de Gregório Magno. O pálio certamente não terá já se tornado um ornamento geral dos arcebispos por volta do séc. VI, mas provavelmente nem mesmo no séc. VIII. Em todo caso, como podemos ver nas correspondências entre São Bonifácio e o papa Zacarias, durante a época em que viveram não havia obrigação para os metropolitas de pedirem o pálio em Roma. Tal obrigação se pode ver apenas na segunda metade do séc. IX e deve ter entrado em prática aproximadamente entre os anos 750 e 850. Sua introdução teve como propósito uma mais profunda conexão entre os metropolitas e a Sé de Pedro, o centro de unidade da vida eclesial, a eliminação dos esforços de auto-engrandecimento de alguns metropolitas daquele tempo e uma nova consolidação da estrutura de metropolitas, que havia entrado em dissolução e decadência. (...)
Muito interessante é a história do desenvolvimento original do pálio. Tendo sido, sem dúvida, originalmente uma veste dobrada em si mesma na forma de uma faixa, de acordo com todas as evidências já estava em uso no séc. VII, e já no séc. VI como uma mera faixa branca. Era colocado ao redor dos ombros, pescoço e peito de tal maneira que uma extremidade descesse pela frente do ombro esquerdo e a outra por trás. Alfinetes para fixar o pálio não foram usados inicialmente, e provavelmente entraram em uso no séc. VIII, provavelmente conforme uma nova maneira de se colocar o pálio: deixando as duas extremidades caírem pelo meio do peito e das costas, ao invés de pelo ombro esquerdo, como até então; uma inovação que certamente exigiu o uso de alfinetes. A mudança não foi tão significativa, mas foi o primeiro passo para a última mudança completa na remodelagem do pálio. O próximo passo consistiu em dar permanentemente ao pálio, através de uma nova costura das partes unidas, a forma que até então só tinha quando vestido [da última maneira descrita]. Quando isso ocorreu não se pode determinar com exatidão, mas em todo caso logo após o primeiro passo, e tão cedo também fora de Roma, onde o pálio ainda no séc. IX obteve uma forma fixa. O terceiro e ultimo passo foi dar ao pálio a forma de um anel (círculo), com uma tira pendente na frente e atrás. A metade da esquerda era feita, em memória do uso original, de uma camada dupla de tecido. Assim colocado, o pálio, na forma de T, em oposição ao anterior, na forma de Y, agora desce sobre os braços e não sobre os ombros. O pálio moderno agora estava essencialmente completo, sendo apenas necessário diminuir suas medidas. Esta diminuição teve início aproximadamente no séc XIV, mas se acentuou mais desde o fim do séc. XV, até finalmente chegar, no decurso do séc. XVII às dimensões de hoje, sendo que uma posterior diminuição não seria mais possível. Uma visão geral desta transformação do pálio pode ser vista nesta imagem:



Quanto ao material do pálio, desde tempos imemoriais tem sido feito de lã branca, mas mesmo no séc. X outros materiais não eram por si inadmissíveis, como se deduz de uma bula do papa João XV ao Arcebispo Liavizo de Hamburgo.

Como ornamentos do pálio apenas cruzes têm sido empregadas. No início apenas duas eram usadas, uma na extremidade da frente e outra na de trás. Um número maior só parece ter se tornado comum durante o séc. IX, sendo que não existiu nenhum preceito determinado quanto a isso em toda a idade média. O pálio do Arcebispo Klemens August de Colônia († 1761) ainda mostrava oito cruzes, não seis como atualmente.

Quanto à cor, nos monumentos mais antigos as cruzes eram normalmente pretas, sendo que aparecem vermelhas também. A maioria dos liturgistas medievais descrevem as cruzes como vermelhas. Nos poucos pálios que foram preservados da idade média, as cruzes são pretas na sua maioria e azul escuro; são vermelhas no fragmento de um pálio do séc. XV, do museu da catedral de Trier. Das oito cruzes do pálio do Arcebispo Klemens August, duas eram pretas e as outras vermelhas. Em resumo, em relação à cor das cruzes, até os tempos mais recentes não havia nenhuma regra fixa, apenas que seriam pretas (ou azul escuro) ou vermelhas, mas não de outra cor.
[...]
Os alfinetes, com que se fixa o pálio desde o séc. VIII, permaneceram mesmo quando o pálio recebeu uma forma fixa, talvez inicialmente ainda para afixar o pálio à casula. Depois, pelo menos até 1300, eram apenas mera decoração, razão pela qual atualmente há presilhas ou nós junto às cruzes para receber os alfinetes.
[...]
Quanto aos dias de uso, o pálio usado pelos arcebispos e [alguns] bispos é restrito. É apenas em certas festas solenes citadas no Pontificale e em ocasiões muito especiais, como as Sagradas Ordenações e a bênção de abades e religiosas, em que devem usar esta vestimenta, a não ser que lhes tenha sido concedido algum privilégio especial.

Fonte: Pe. Joseph Braun, Die liturgischen Paramente in Gegenwart und Vergangenheit. Trechos em inglês em http://www.newliturgicalmovement.org/2008/01/pallium-history-and-present-use.html.

Significado

Bem cedo no séc. VI o pálio foi considerado uma veste litúrgica, a ser usada apenas na igreja e, de fato, somente durante a Missa, a menos que um privilégio especial determinasse algo mais. Isto se prova pela correspondência entre Gregório Magno e João de Ravena sobre o uso do pálio. As normas que regulavam o uso original do pálio não podem ser determinadas com segurança, mas seu uso, mesmo antes do séc. VI, parece ter um caráter definitivamente litúrgico. Desde tempos antigos algumas restrições mais ou menos limitaram o uso do pálio a certos dias. Seu uso indiscriminado, permitido a Hincmar de Reims, por Leão IV (851), e a Bruno de Colônia, por Agapito II (954), era contrário ao costume geral. Nos séc. X e XI, como hoje, a regra geral era limitar o uso do pálio a poucas festas e a outras ocasiões extraordinárias. O caráter simbólico ligado ao pálio data do tempo em que se tornou obrigação para os metropolitas a petição da permissão à Santa Sé para usá-lo. A evolução deste caráter se concluiu por volta do fim do séc. XI; desde então o pálio é sempre designado nas bulas papais como símbolo da plenitudo pontificalis officii. No séc. VI o pálio era símbolo do ofício e da potestade papal, e por essa razão o papa Félix transmitiu seu pálio ao seu arquidiácono, quando, contrário ao costume, ele o nomeou seu sucessor. Por outro lado, quando usado pelos metropolitas, o pálio originalmente significou simplesmente a união com a Sé Apostólica, e foi símbolo das virtudes que devem adornar a vida daquele que o veste.

Origem

Há muitas e diferentes opiniões sobre a origem do pálio. Alguns o ligam a uma investidura por parte de Constantino Magno (ou um de seus sucessores); outros o consideram uma imitação do efod dos hebreus, paramento umeral do sumo sacerdote. Outros também declaram que sua origem se liga a um manto de São Pedro, que era símbolo de seu ofício de supremo pastor. Uma quarta hipótese encontra sua origem no manto litúrgico que, afirmam, era usado pelos primeiros papas, e que no passar do tempo foi dobrado na forma de uma faixa; uma quinta diz que sua origem data do costume de dobrar o manto comum - pallium, uma veste exterior em uso nos tempos imperiais; uma sexta declara que foi introduzido imediatamente como um adorno litúrgico do papa, o qual, porém, não era inicialmente uma faixa estreita de pano, mas, como o nome sugere, uma veste larga, longa e dobrada. (…) Dar sua origem a uma investidura do imperador, ao efod do sumo sacerdote judeu ou a um lendário manto de São Pedro é completamente inadmissível. A visão correta deve ser a de que o pálio foi introduzido como insígnia litúrgica do papa, e não parece improvável que tenha sido adotado como um similar de sua contraparte, o omofórion pontifical, ainda em uso na Igreja Oriental.


Palavras do Santo Padre, o papa Bento XVI,
na conclusão da homilia da Missa de hoje (29/06/2009)

Volto-me a vós, caros Irmãos no episcopado, que nesta hora recebereis da minha mão o pálio. Ele foi confeccionado com a lã de ovelhas que o Papa abençoou na festa de Santa Inês. Deste modo, ele recorda as ovelhas e os cordeiros de Cristo, que o Senhor resolveu confiar a Pedro com o intuito de os apascentar (cf. Jo 21,15-18). Recorda o rebanho de Jesus Cristo, que vós, caros Irmãos, deveis apascentar em comunhão com Pedro. Recorda-nos o próprio Cristo, que como Bom Pastor levou sobre os ombros a ovelha ferida, a humanidade, para levá-la de volta para casa. Recorda-nos o fato de que Ele, o supremo Pastor, quis fazer-se ele mesmo Cordeiro, para ser carregado dentro do destino de todos nós; para nos carregar e nos curar por dentro. Queremos rezar ao Senhor, a fim de que nos conceda sermos Pastores justos, seguindo seus passos, “não constrangidos, mas espontaneamente, como agrada a Deus… com ânimo generoso… modelos do rebanho” (1Pd 5,2s). Amém.



Bento XVI com o pálio papal atual


Paramentos episcopais orientais (veja o omofórion/omophorion longo dobrado e o curto)

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 27 de junho de 2009

Nosso Arcebispo receberá o Pálio das mãos do Papa.

Às 9h30min, segunda, 29 de junho, Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos, Bento XVI imporá o pálio aos seguintes arcebispos:

Arcebispo Dom Sérgio da Rocha de Teresina, Brasil.

Arcebispo Dom Maurício Grotto de Camargo de Botucatu, Brasil.

Arcebispo Dom Gil Antonio Moreira de Juiz de Fora, Brasil.

Arcebispo Dom Orani João Tempesta de São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil.

Arcebispo Albert Malcolm Ranjith Patabendige Don de Colombo, Sri Lanka.

Arcebispo Allen Henry Vigneron de Detroit, E.U.A.

Arcebispo Timothy Michael Dolan de Nova Iorque, E.U.A.

Arcebispo Robert James Carlson de Saint Louis, E.U.A.

Arcebispo George Joseph Lucas de Omaha, E.U.A.

Arcebispo Gregory Michael Aymond de New Orleans, E.U.A.

Arcebispo Ghaleb Moussa Abdalla Bader de Algiers, Algéria.

Arcebispo Domingo Diaz Martinez de Tulancingo, México.

Arcebispo Victor Sanchez Espinosa de Puebla de los Angeles, México.

Arcebispo Carlos Aguiar Retes de Tlalnepantla, México.

Arcebispo Pierre-Andre Fournier de Rimouski, Canadá.

Arcebispo John Michael Miller, C.S.B. de Vancouver, Canadá.

Arcebispo Giuseppe Bertori de Florença, Itália.

Arcebispo Salvatore Pappalardo de Siracusa, Itália.

Arcebispo Domenico Umberto D'Ambrosio de Lecce, Itália.

Arcebispo Mieczyslaw Mokrzycki de Lviv dos Latinos, Ucrânia.

Arcebispo Joseph Ake Yapo de Gagnoa, Costa do Marfim.

Arcebispo Paul Mandla Khumalo C.M.M. de Pretória, África do Sul.

Arcebispo Marcel Utembi Tapa de Kisangani, República Democrática do Congo.

Arcebispo Manuel Felipe Diaz Sanchez de Calabozo, Venezuela.

Arcebispo Jose Luis Escobar Alas de San Salvador, El Salvador.

Arcebispo Carlos Osoro Sierra de Valencia, Espanha.

Arcebispo Braulio Rodriguez Plata de Toledo, Espanha.

Arcebispo Anicetus Bongsu Antonius Sinaga O.F.M. Cap. de Bedan, Indonésia.

Arcebispo Philip Naameh de Tamale, Gana.

Arcebispo Ismael Rueda Sierra de Bucaramanga, Colômbia.

Arcebispo Andrzej Dziega de Szczecin-Kamien, Polônia.

Arcebispo Vincent Gerard Nichols de Westminster, Inglaterra.

Arcebispo Philippe Ouedraogo de Ouagadougou, Burkina Faso.

Arcebispo Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij de Bangkok, Tailândia.

Rezemos pelo nosso Arcebispo!

Postado por Tayroni Alves

Membro da ARS

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Natividade de São João Batista


Viva São João, precursor e batista!



Hoje estava pensando em como São João Batista tem grande importância na vida espiritual dos cristãos.
De fato, sua pessoa está tão intimamente relacionada com o plano de salvação de Deus, que não poderia a Igreja deixar de tê-lo como exemplo de virtudes e bondoso intercessor.
As exortações de São João, nos Evangelhos, são lidas principalmente durante o Advento e a Quaresma. A temática da conversão leva exatamente à temática da vinda do Reino de Deus.
Interessante como o próprio Salvador parece repetir as palavras de João.
Os nascimentos de João e do Senhor foram anunciados por Gabriel.
Um nasce da estéril e o outro da Virgem.

A data de hoje (24 de junho) - Solenidade da Natividade de São João Batista - é comemorada tanto no Ocidente quanto no Oriente, onde é mais chamado de precursor do que de batista. Lá também é chamado de anjo (mensageiro) do deserto.
No ocidente temos, na forma ordinária (FO) e extraordinária (FE), a missa da Vigília, para o dia 23.
Na FO, o dia 24 é Solenidade. Na FE é um Festa de I classe, que é o equivalente.
Também o rito do Santo Sacrifício no Ocidente trazem marcas do Santo Batista.

- É citado duas vezes no Confiteor (FE), logo depois da Virgem Maria e de São Miguel;
- É citado logo depois da Virgem Maria na oração "Suscipe Sancta Trinitas" (FE), depois de preparada a matéria do sacrifício;
- É citado no Cânon Romano, no "Nobis quoque" quando fala dos santos apóstolos e mártires;
- Suas palavras são usadas pelo sacerdote e pelo povo: "Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi" e "Agnus Dei qui tollis peccata mundi";
- É citado no Último Evangelho, no fim da Missa (FE);

Na Divina Liturgia de São João Crisóstomo:
- Normalmente é representado junto do Senhor e da Virgem Maria na iconostase;
- É honrado no corte da prósfora, ou seja, na preparação da matéria do sacrifício;
- É honrado antes da conclusão da anáfora, logo após a comemoração da Virgem Maria.

Por fim, São João, já adulto, deixou-nos uma frase belíssima, que, na minha opinião, é ideal para um novo movimento litúrgico: Importa que ele cresça e que eu diminua (Jo 3,30).
Num mundo liberal e relativista, num período em que tanto se fazem "auto-celebrações", uma espiritualidade de despojamento, anúncio do Reino, denúncia do pecado, exemplo de virtude, amor e alegria junto do Cordeiro de Deus, o qual se deve apontar, além do desejo de diminuir para Deus somente aparecer, é conveniente! Muito conveniente!

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Festa do Sagrado Coração: Início do Ano Sacerdotal, promulgado por S. S. Bento XVI

CARTA DO SUMO PONTÍFICE
BENTO XVI
PARA A PROCLAMAÇÃO
DE UM ANO SACERDOTAL
POR OCASIÃO DO 150º ANIVERSÁRIO
DO DIES NATALIS DO SANTO CURA D’ARS

Amados irmãos no sacerdócio,

Na próxima solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, sexta-feira 19 de Junho de 2009 – dia dedicado tradicionalmente à oração pela santificação do clero – tenho em mente proclamar oficialmente um «Ano Sacerdotal» por ocasião do 150.º aniversário do «dies natalis» de João Maria Vianney, o Santo Patrono de todos os párocos do mundo.[1] Tal ano, que pretende contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo, terminará na mesma solenidade de 2010. «O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus»: costumava dizer o Santo Cura d’Ars.[2] Esta tocante afirmação permite-nos, antes de mais nada, evocar com ternura e gratidão o dom imenso que são os sacerdotes não só para a Igreja mas também para a própria humanidade. Penso em todos os presbíteros que propõem, humilde e quotidianamente, aos fiéis cristãos e ao mundo inteiro as palavras e os gestos de Cristo, procurando aderir a Ele com os pensamentos, a vontade, os sentimentos e o estilo de toda a sua existência. Como não sublinhar as suas fadigas apostólicas, o seu serviço incansável e escondido, a sua caridade tendencialmente universal? E que dizer da fidelidade corajosa de tantos sacerdotes que, não obstante dificuldades e incompreensões, continuam fiéis à sua vocação: a de «amigos de Cristo», por Ele de modo particular chamados, escolhidos e enviados?

Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio acto de levar o viático a um doente grave. Depois repasso na memória os inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no exercício diário do seu ministério sacerdotal. Mas a expressão utilizada pelo Santo Cura d’Ars evoca também o Coração traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O envolve. E isto leva o pensamento a deter-se nas inumeráveis situações de sofrimento em que se encontram imersos muitos sacerdotes, ou porque participantes da experiência humana da dor na multiplicidade das suas manifestações, ou porque incompreendidos pelos próprios destinatários do seu ministério: como não recordar tantos sacerdotes ofendidos na sua dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes, mesmo perseguidos até ao supremo testemunho do sangue?

Infelizmente existem também situações, nunca suficientemente deploradas, em que é a própria Igreja a sofrer pela infidelidade de alguns dos seus ministros. Daí advém então para o mundo motivo de escândalo e de repulsa. O máximo que a Igreja pode recavar de tais casos não é tanto a acintosa relevação das fraquezas dos seus ministros, como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da grandeza do dom de Deus, concretizado em figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos inflamados de amor por Deus e pelas almas, de directores espirituais esclarecidos e pacientes. A este respeito, os ensinamentos e exemplos de S. João Maria Vianney podem oferecer a todos um significativo ponto de referência. O Cura d’Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina».[3] Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia».[4] E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há-de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu».[5] Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecónomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós».[6]

Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes, precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação religiosamente precária: «Naquela paróquia, não há muito amor de Deus; infundi-lo-eis vós». Por conseguinte, achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando a sua ternura salvífica: «[Meu Deus], concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por todo o tempo da minha vida!»: foi com esta oração que começou a sua missão.[7] E, à conversão da sua paróquia, dedicou-se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado. Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de podermos também nós assimilar o método pastoral de S. João Maria Vianney. A primeira coisa que devemos aprender é a sua total identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a sua acção salvífica era e é expressão do seu «Eu filial» que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objectiva do ministério e a subjectiva do ministro. O Cura d’Ars principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do ministério que lhe estava confiado, decidindo «habitar», mesmo materialmente, na sua igreja paroquial: «Logo que chegou, escolheu a igreja por sua habitação. (…) Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá»: lê-se na primeira biografia.[8]

O exagero devoto do pio hagiógrafo não deve fazer-nos esquecer o facto de que o Santo Cura soube também «habitar» activamente em todo o território da sua paróquia: visitava sistematicamente os doentes e as famílias; organizava missões populares e festas dos Santos Patronos; recolhia e administrava dinheiro para as suas obras sócio-caritativas e missionárias; embelezava a sua igreja e dotava-a de alfaias sagradas; ocupava-se das órfãs da «Providence» (um instituto fundado por ele) e das suas educadoras; tinha a peito a instrução das crianças; fundava confrarias e chamava os leigos para colaborar com ele.

O seu exemplo induz-me a evidenciar os espaços de colaboração que é imperioso estender cada vez mais aos fiéis leigos, com os quais os presbíteros formam um único povo sacerdotal[9] e no meio dos quais, em virtude do sacerdócio ministerial, se encontram «para os levar todos à unidade, “amando-se uns aos outros com caridade fraterna, e tendo os outros por mais dignos” (Rm 12, 10)».[10] Neste contexto, há que recordar o caloroso e encorajador convite feito pelo Concílio Vaticano II aos presbíteros para que «reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos campos da actividade humana, para que, juntamente com eles, saibam reconhecer os sinais dos tempos». [11]

O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus Eucaristia.[12] «Para rezar bem – explicava-lhes o Cura –, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração, alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a melhor oração».[13] E exortava: «Vinde à comunhão, meus irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver d’Ele para poderdes viver com Ele».[14] «É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!».[15] Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a comunhão adquiria um eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia afirmava que «não era possível encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. (...) Contemplava a Hóstia amorosamente».[16] Dizia ele: «Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do sacrifício da Missa, porque aquelas são obra de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus».[17] Estava convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia da Missa: «A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse um coisa ordinária!».[18] E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida: «Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!».[19]

Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o – por um único movimento interior – do altar ao confessionário. Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este sacramento. Na França, no tempo do Santo Cura d’Ars, a confissão não era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência íntima da Presença eucarística. Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado «o grande hospital das almas».[20] «A graça que ele obtinha [para a conversão dos pecadores] era tão forte que aquela ia procurá-los sem lhes deixar um momento de trégua!»: diz o primeiro biógrafo.[21] E assim o pensava o Santo Cura d’Ars, quando afirmava: «Não é o pecador que regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar para Ele».[22] «Este bom Salvador é tão cheio de amor que nos procura por todo o lado».[23]

Todos nós, sacerdotes, deveríamos sentir que nos tocam pessoalmente estas palavras que ele colocava na boca de Cristo: «Encarregarei os meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita».[24] Do Santo Cura d’Ars, nós, sacerdotes, podemos aprender não só uma inexaurível confiança no sacramento da Penitência que nos instigue a colocá-lo no centro das nossas preocupações pastorais, mas também o método do «diálogo de salvação» que nele se deve realizar. O Cura d’Ars tinha maneiras diversas de comportar-se segundo os vários penitentes. Quem vinha ao seu confessionário atraído por uma íntima e humilde necessidade do perdão de Deus, encontrava nele o encorajamento para mergulhar na «torrente da misericórdia divina» que, no seu ímpeto, tudo arrasta e depura. E se aparecia alguém angustiado com o pensamento da sua debilidade e inconstância, temeroso por futuras quedas, o Cura d’Ars revelava-lhe o segredo de Deus com um discurso de comovente beleza: «O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de vos confessardes, já sabe que voltareis a pecar e todavia perdoa-vos. Como é grande o amor do nosso Deus, que vai até ao ponto de esquecer voluntariamente o futuro, só para poder perdoar-nos!».[25] Diversamente, a quem se acusava de forma tíbia e quase indiferente, expunha, através das suas próprias lágrimas, a séria e dolorosa evidência de quão «abominável» fosse aquele comportamento. «Choro, porque vós não chorais»:[26] exclamava ele. «Se ao menos o Senhor não fosse assim tão bom! Mas é assim bom! Só um bárbaro poderia comportar-se assim diante de um Pai tão bom!».[27] Fazia brotar o arrependimento no coração dos tíbios, forçando-os a verem com os próprios olhos o sofrimento de Deus, causado pelos pecados, quase «encarnado» no rosto do padre que os atendia de confissão. Entretanto a quem se apresentava já desejoso e capaz de uma vida espiritual mais profunda, abria-lhe de par em par as profundidades do amor, explicando a inexprimível beleza de poder viver unidos a Deus e na sua presença: «Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus. (...) Como é belo!»[28] E ensinava-lhes a rezar assim: «Meu Deus, dai-me a graça de Vos amar tanto quanto é possível que eu Vos ame!».[29]

No seu tempo, o Cura d’Ars soube transformar o coração e a vida de muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor misericordioso do Senhor. Também hoje é urgente igual anúncio e testemunho da verdade do Amor: Deus caritas est (1 Jo 4, 8). Com a Palavra e os Sacramentos do seu Jesus, João Maria Vianney sabia instruir o seu povo, ainda que frequentemente suspirava convencido da sua pessoal inaptidão a ponto de ter desejado diversas vezes subtrair-se às responsabilidades do ministério paroquial de que se sentia indigno. Mas, com exemplar obediência, ficou sempre no seu lugar, porque o consumia a paixão apostólica pela salvação das almas. Procurava aderir totalmente à própria vocação e missão por meio de uma severa ascese: «Para nós, párocos, a grande desdita – deplorava o Santo – é entorpecer-se a alma»,[30] entendendo, com isso, o perigo de o pastor se habituar ao estado de pecado ou de indiferença em que vivem muitas das suas ovelhas. Com vigílias e jejuns, punha freio ao corpo, para evitar que opusesse resistência à sua alma sacerdotal. E não se esquivava a mortificar-se a si mesmo para bem das almas que lhe estavam confiadas e para contribuir para a expiação dos muitos pecados ouvidos em confissão. Explicava a um colega sacerdote: «Dir-vos-ei qual é a minha receita: dou aos pecadores uma penitência pequena e o resto faço-o eu no lugar deles».[31] Independentemente das penitências concretas a que se sujeitava o Cura d’Ars, continua válido para todos o núcleo do seu ensinamento: as almas custam o sangue de Cristo e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa a contribuir com a sua parte para o «alto preço» da redenção.

No mundo actual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d’Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e acção, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico. Observou, justamente, Paulo VI que «o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas».[32] Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: «Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais de que o sejam o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?».[33] Assim como Jesus chamou os Doze para estarem com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são chamados a assimilar aquele «novo estilo de vida» que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.[34]

Foi precisamente a adesão sem reservas a este «novo estilo de vida» que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d’Ars. O Papa João XXIII, na carta encíclica Sacerdotii nostri primordia – publicada em 1959, centenário da morte de S. João Maria Vianney –, apresentava a sua fisionomia ascética referindo-se de modo especial ao tema dos «três conselhos evangélicos», considerados necessários também para os presbíteros: «Embora, para alcançar esta santidade de vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado clerical a prática dos conselhos evangélicos, entretanto esta representa para ele, como para todos os discípulos do Senhor, o caminho regular da santificação cristã».[35] O Cura d’Ars soube viver os «conselhos evangélicos» segundo modalidades apropriadas à sua condição de presbítero. Com efeito, a sua pobreza não foi a mesma de um religioso ou de um monge, mas a requerida a um padre: embora manejasse com muito dinheiro (dado que os peregrinos mais abonados não deixavam de se interessar pelas suas obras sócio-caritativas), sabia que tudo era dado para a sua igreja, os seus pobres, os seus órfãos, as meninas da sua «Providence»,[36] as suas famílias mais indigentes. Por isso, ele «era rico para dar aos outros e era muito pobre para si mesmo».[37] Explicava: «O meu segredo é simples: dar tudo e não guardar nada».[38] Quando se encontrava com as mãos vazias, dizia contente aos pobres que se lhe dirigiam: «Hoje sou pobre como vós, sou um dos vossos».[39] Deste modo pôde, ao fim da vida, afirmar com absoluta serenidade: «Não tenho mais nada. Agora o bom Deus pode chamar-me quando quiser!».[40] Também a sua castidade era aquela que se requeria a um padre para o seu ministério. Pode-se dizer que era a castidade conveniente a quem deve habitualmente tocar a Eucaristia e que habitualmente a fixa com todo o entusiasmo do coração e com o mesmo entusiasmo a dá aos seus fiéis. Dele se dizia que «a castidade brilhava no seu olhar», e os fiéis apercebiam-se disso quando ele se voltava para o sacrário fixando-o com os olhos de um enamorado.[41] Também a obediência de S. João Maria Vianney foi toda encarnada na dolorosa adesão às exigências diárias do seu ministério. É sabido como o atormentava o pensamento da sua própria inaptidão para o ministério paroquial e o desejo que tinha de fugir «para chorar a sua pobre vida, na solidão».[42] Somente a obediência e a paixão pelas almas conseguiam convencê-lo a continuar no seu lugar. A si próprio e aos seus fiéis explicava: «Não há duas maneiras boas de servir a Deus. Há apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido».[43] A regra de ouro para levar uma vida obediente parecia-lhe ser esta: «Fazer só aquilo que pode ser oferecido ao bom Deus».[44]

No contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos conselhos evangélicos, aproveito para dirigir aos sacerdotes, neste Ano a eles dedicado, um convite particular para saberem acolher a nova primavera que, em nossos dias, o Espírito está a suscitar na Igreja, através nomeadamente dos Movimentos Eclesiais e das novas Comunidades. «O Espírito é multiforme nos seus dons. (…) Ele sopra onde quer. E fá-lo de maneira inesperada, em lugares imprevistos e segundo formas precedentemente inimagináveis (…); mas demonstra-nos também que Ele age em vista do único Corpo e na unidade do único Corpo».[45] A propósito disto, vale a indicação do decreto Presbyterorum ordinis: «Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais altos».[46] Estes dons, que impelem não poucos para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos mas também para os próprios ministros. Com efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar «um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os recantos do mundo».[47] Queria ainda acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores dabo vobis do Papa João Paulo II, que o ministério ordenado tem uma radical «forma comunitária» e pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu Bispo.[48] É preciso que esta comunhão entre os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no sacramento da Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efectiva e afectiva.[49] Só deste modo é que os sacerdotes poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da primeira pregação do Evangelho.

O Ano Paulino, que está a chegar ao fim, encaminha o nosso pensamento também para o Apóstolo das nações, em quem refulge aos nossos olhos um modelo esplêndido de sacerdote, totalmente «doado» ao seu ministério. «O amor de Cristo nos impele – escrevia ele –, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram» (2 Cor 5, 14). E acrescenta: Ele «morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2 Cor 5, 15). Que programa melhor do que este poderia ser proposto a um sacerdote empenhado a avançar pela estrada da perfeição cristã?

Amados sacerdotes, a celebração dos cento e cinquenta anos da morte de S. João Maria Vianney (1859) segue-se imediatamente às celebrações há pouco encerradas dos cento e cinquenta anos das aparições de Lourdes (1858). Já em 1959, o Beato Papa João XXIII anotara: «Pouco antes que o Cura d’Ars concluísse a sua longa carreira cheia de méritos, a Virgem Imaculada aparecera, noutra região da França, a uma menina humilde e pura para lhe transmitir uma mensagem de oração e penitência, cuja imensa ressonância espiritual há um século que é bem conhecida. Na realidade, a vida do santo sacerdote, cuja comemoração celebramos, fora de antemão uma viva ilustração das grandes verdades sobrenaturais ensinadas à vidente de Massabielle. Ele próprio nutria pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma vivíssima devoção, ele que, em 1836, tinha consagrado a sua paróquia a Maria concebida sem pecado e havia de acolher com tanta fé e alegria a definição dogmática de 1854».[50] O Santo Cura d’Ars sempre recordava aos seus fiéis que «Jesus Cristo, depois de nos ter dado tudo aquilo que nos podia dar, quis ainda fazer-nos herdeiros de quanto Ele tem de mais precioso, ou seja, da sua Santa Mãe».[51]

À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a acção do Santo Cura d’Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre. Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre actual a palavra de Cristo aos seus apóstolos, no Cenáculo: «No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A fé no divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro. Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d’Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo actual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.

Com a minha bênção.

Vaticano, 16 de Junho de 2009.

BENEDICTUS PP. XVI


[1] Assim o proclamou o Sumo Pontífice Pio XI, em 1929.

[2] «Le Sacerdoce, c’est l’amour du cœr de Jésus», in Le Curé d’Ars. Sa pensée – son cœur, obra cuidada por Abbé Bernard Nodet (ed. Xavier Mappus, Foi Vivante, 1966), pág. 98. Em seguida, será citada: Nodet. A mesma frase aparece no Catecismo da Igreja Católica, n. 1589.

[3] Nodet, 101.

[4] Ibid., 97.

[5] Ibid., 98-99.

[6] Ibid., 98-100.

[7] Ibid., 183.

[8] MONNIN A., Il Curato d’Ars. Vita di Gian-Battista-Maria Vianney, vol. I (ed. Marietti, Turim 1870), pág. 122.

[9] Cf. Lumen gentium, 10.

[10] Presbyterorum ordinis, 9.

[11] Ibid., 9.

[12] «A contemplação é o olhar de fé, fixado em Jesus. “Eu olho para Ele e Ele olha para mim” – dizia, no tempo do seu santo Cura, um camponês d’Ars em oração diante do sacrário» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2715).

[13] Nodet, 85.

[14] Ibid., 114.

[15] Ibid., 119.

[16] MONNIN A., o.c., II, pág. 430ss.

[17] Nodet, 105.

[18] Ibid., 105.

[19] Ibid., 104.

[20] MONNIN A., o.c., II, pág. 293.

[21] Ibid., II, pág. 10.

[22] Nodet, 128.

[23] Ibid., 50.

[24] Ibid., 131.

[25] Ibid., 130.

[26] Ibid., 27.

[27] Ibid., 139.

[28] Ibid., 28.

[29] Ibid., 77.

[30] Ibid., 102.

[31] Ibid., 189.

[32] Evangelii nuntiandi, 41.

[33] BENTO XVI, Homilia na Missa Crismal (9 de Abril de 2009).

[34] Cf. BENTO XVI, Discurso à Assembleia plenária da Congregação do Clero (16 de Março de 2009).

[35] Parte I.

[36] Este foi o nome que deu à casa onde fez alojar e educar mais de 60 meninas abandonadas. Para mantê-la, a nada se poupava: «J’ai fait tous les commerces imaginables» - dizia ele sorrindo (Nodet, 214).

[37] Nodet, 216.

[38] Ibid., 215.

[39] Ibid., 216.

[40] Ibid., 214.

[41] Cf. ibid., 112.

[42] Cf. ibid., 82-84.102-103.

[43] Ibid., 75.

[44] Ibid., 76.

[45] BENTO XVI, Homilia na Vigília de Pentecostes (3 de Junho de 2006).

[46] N. 9.

[47] BENTO XVI, Discurso aos Bispos amigos do Movimento dos Focolares e da Comunidade de Santo Egídio (8 de Fevereiro de 2007).

[48] Cf. n. 17.

[49] Cf. JOÃO PAULO II, Exort. ap. Pastores dabo vobis , 74.

[50] Carta enc. Sacerdotii nostri primordia, parte III.

[51] Nodet, 244.


Postado por Tayroni Alves

Fonte: Vaticano

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um ano de genuflexório! Deo gratias!



Pax et bonum!

Talvez pareça estranho o título desta postagem. O intuito dela é fazer memória a uma salutar decisão do Santo Padre, em conjunto com seu mestre de cerimônias e demais servidores das liturgias pontifícias.
Os que têm boa memória devem lembrar que exatamente há um ano (litúrgico, ou seja desde a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo do ano passado, a 22/05) o Santo Padre, o papa Bento XVI, passou a adotar o genuflexório para os fiéis que comungarem com ele.
Obviamente esta atitude é uma promoção da comunhão de joelhos, um forte convite a que seja revalorizada. Não é nenhum "julgamento" dizê-lo, apenas uma dedução lógica.
Passemos então para alguns lembretes:

A Solenidade

A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (pop.: Corpus Christi) foi instituída universalmente pela Bula "Transiturus de hoc mundo" (passando deste mundo), do Papa Urbano IV, de 11 de agosto de 1264.
Há exatas nove semanas (63 dias) estivemos à mesa com nosso Senhor, no drama daquela noite em que foi entregue, contemplando o mistério da instituição da Sagrada Ordem e da Eucaristia: era a Ceia do Senhor – início do Sagrado Tríduo Pascal (09/04).
Percorremos, então, jubilosos os cinquenta dias da Páscoa. 
Tendo o Senhor Jesus se elevado ao Céu, enviou sobre a Igreja o Divino Consolador, o Espírito que procede do Pai e do Filho (31/05).
Manifestando-se, Deus, como três Pessoas consubstanciais, de única, igual e indizível majestade e santidade, celebramos o seu amor no último domingo (07/06).
Hoje (11/06) voltamos o olhar para o mistério Eucarístico – mistério de redenção , mistério de caridade , já não na gravidade da noite da ceia derradeira, mas numa efusão de alegria e numa solene profissão de fé.
Por trás de tudo isso, tiveram grande importância as revelações particulares recebidas por Santa Juliana de Mont Cornillon, que nasceu em 1193 perto de Liège.
Notemos que neste ano a instituição da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo comemora 745 anos!

Mais sobre a solenidade: 

A bula

Quem quiser dar uma olhada no texto da bula, em latim, pode ver aqui:

O genuflexório

Coloco apenas um trecho da homilia do Santo Padre no ano passado e mais uma imagem.

Ajoelhar-se diante da Eucaristia é profissão de liberdade: quem se inclina a Jesus não pode e não deve prostrar-se diante de nenhum poder terreno, mesmo que seja forte. Prostramo-nos diante de um Deus que foi o primeiro a inclinar-se diante do homem, como Bom Samaritano, para o socorrer e dar a vida, e ajoelhou-se diante de nós para lavar os nossos pés sujos. Adorar o Corpo de Cristo significa crer que ali, naquele pedaço de pão, está realmente Cristo, que dá sentido verdadeiro à vida, ao imenso universo como à menor criatura, a toda a história humana e à existência mais breve. A adoração é a oração que prolonga a celebração e a comunhão eucarística na qual a alma continua a alimentar-se: alimenta-se de amor, de verdade, de paz; alimenta-nos de esperança, porque Aquele diante do qual nos prostramos não nos julga, não nos esmaga, mas liberta-nos e transforma-nos.
A homilia completa pode ser conferida aqui:



A comunhão de joelhos

Coloco apenas três citações sobre a Comunhão ser recebida pelo fiel ajoelhado:

"A prática de ajoelhar-se para a Santa Comunhão tem uma tradição de séculos a seu favor, e é um sinal particularmente expressivo de adoração, completamente apropriado à luz da presença verdadeira, real e substancial de nosso Senhor Jesus Cristo sob as espécies consagradas" (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Prot. n. 1322/02/L, de 01/07/2002).

"Não é lícito negar a sagrada Comunhão a um fiel, por exemplo, só pelo fato de querer receber a Eucaristia ajoelhado ou de pé" (Instrução Redemptionis Sacramentum, 91).

"Os fiéis podem comungar de joelhos ou em pé (...). Não é lícito negar a Santa Comunhão a um fiel pelo fato de que ele queira recebê-la de pé ou de joelhos, na mão ou na boca" (Arquidiocese de Teresina, Diretrizes para a Celebração da Eucaristia, de 24/11/2005).

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 9 de junho de 2009

Rosário em Latim

Initium

Signum Crucis: In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.


Ad Crucem (No crucifixo)

Credo in Deum Patrem omnipotentem, Creatorem cæli et terræ. Et in Iesum Christum, Filium eius unicum, Dominum nostrum, qui conceptus est de Spiritu Sancto, natus ex Maria Virgine, passus sub Pontio Pilato, crucifixus, mortuus, et sepultus, descendit ad inferos, tertia die resurrexit a mortuis, ascendit ad cælos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis, inde venturus est iudicare vivos et mortuos. Credo in Spiritum Sanctum, sanctam Ecclesiam catholicam, sanctorum communionem, remissionem peccatorum, carnis resurrectionem, vitam æternam. Amen.

Ad Grana Maiora (Nas contas maiores)


Pater Noster, qui es in cælis, sanctificetur nomen tuum. Adveniat regnum tuum. Fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra. Panem nostrum quotidianum da nobis hodie, et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo. Amen.

Ad Grana Minora (Nas contas menores)

Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Iesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc, et in hora mortis nostræ. Amen.

Ad finem decadum (No fim de cada Mistério)

Doxologia Minor: Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in sæcula sæculorum. Amen.

Oratio Fatima: O mi Iesu, dimitte nobis debita nostra, libera nos ab igne inferni, conduc in cælum omnes animas, præsertim illas quæ maxime indigent misericordia tua.

Meditationes Rosarii


I. Mysteria Gaudiosa (In feria secunda et sabbato)
 1. Quem, Virgo, concepisti. [Mt 1:18, Lc 1:26-38];

2. Quem visitando Elisabeth portasti. [Lc 1:39-45];
3. Quem, Virgo, genuisti. [Lc 2:6-12];
4. Quem in templo præsentasti. [Lc 2:25-32];
5. Quem in templo invenisti. [Lc 2:41-50].

II. Mysteria Luminosa (In feria quinta)
1. Qui apud Iordanem baptizatus est. [Mt 3:13, Mc 1:9, Jn 1:29];
2. Qui ipsum revelavit apud Canense matrimonium. [In 2:1-11];
3. Qui Regnum Dei annuntiavit. [Mc 1:15, Lc 10:8-11];
4. Qui transfiguratus est. [Mt 17:1-8, Mc 9:2-9];
5. Qui Eucharistiam instituit.[In 6:27-59, Mt 26:26-29, Mc 14:22-24, Lc 22:15-20].

III. Mysteria dolorosa (In feria tertia et feria sexta)
1. Qui pro nobis sanguinem sudavit. [Lc 22:39-46];
2. Qui pro nobis flagellatus est. [Mt 27:26, Mc 15:6-15, In 19:1];
3. Qui pro nobis spinis coronatus est. [In 19:1-8];
4. Qui pro nobis crucem baiulavit. [In 19:16-22];
5. Qui pro nobis crucifixus est. [In 19:25-30].

IV. Mysteria gloriosa (In feria quarta et Dominica)
1. Qui resurrexit a mortuis. [Mc 16:1-7];
2. Qui in cælum ascendit. [Lc 24:46-53];
3. Qui Spiritum Sanctum misit. [Acta 2:1-7];
4. Qui te assumpsit. [Ps 16:10];
5. Qui te in cælis coronavit. [Apoc 12:1].

Orationes ad Finem Rosarii Dicendæ (Orações ditas no fim do Rosário)


Salve, Regina, mater misericordiæ, vita, dulcedo, et spes nostra, salve. Ad te clamamus exsules filii Hevæ. Ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle. Eia, ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos converte. Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende. O clemens, O pia, O dulcis Virgo Maria.

V. Ora pro nobis, Sancta Dei Genetrix.
R. Ut digni efficiamur promissionibus Christi.

Oremus: DEUS, cuius Unigenitus per vitam, mortem et resurrectionem suam nobis salutis æternæ præmia comparavit, concede, quæsumus: ut hæc mysteria sacratissimo beatæ Mariæ Virginis Rosario recolentes, et imitemur quod continent, et quod promittunt assequamur. Per eundem Christum Dominum nostrum. Amen.

Fonte: Preces Latinæ

***

Rosário Romano

[Segue a estrutura romana de se rezar o Santo Rosário, como foi (e teoricamente ainda é) transmitido pela Radio Vaticana. Parece-nos que os áudios não mais estão disponíveis na seção on demand do site da rádio. Nós os postamos no Gloria.TV e seguem incorporados abaixo, juntos dos respectivos mistérios. O início é diferente, pois não se reza o Credo, com o Pai nosso, as 3 Ave Maria e o Glória ao Pai, mas sim o Deus in adiutorium (como na Liturgia das Horas). Para os mistérios permanecem a meditação, o Pater noster, as 10 Ave Maria e o Gloria Patri. No final da coroa ("terço"), reza-se a Salve Regina, sem o Ora pro nobis. Ao final da transmissão, um sacerdote dá a bênção.]

Rosarium Beatae Mariae Virginis corona.

Oratio secundum intentionem Vicarii Christi.

In nomine...
Amen.

Salutis mysteriorum contemplatio.

Deus, in adiutorium meum intende.
Domine, ad adiuvandum me festina.
Gloria Patri...


Mysteria gaudiorum

– Incarnationis mysterium: Angelus Gabriel nuntiavit Mariae, Maria concepit de Spiritu Sancto, et verbum caro factum est.
– Visitationis mysterium: Maria Virgo Elisabeth visitat et magnificat Dominum.
– Nativitatis mysterium: Iesus in Bethlehem nascitur.
– Praesentationis mysterium: Iesus in templo praesentatur.
– Inventionis mysterium: Puer Iesus de iis, qui patres ipsius sunt, sollicitus.

Mysteria lucis

– Baptismatis mysterium: Iordane in flumine Iesus a Ioanne baptizatur et Spiritus super eum descendit.
– Nuptiarum in Cana mysterium: Iesus aquam in vinum commutat propter Mariae intercessionem.
– Proclamationis regni Dei mysterium: Iesus adventum regni Dei nuntiat et ad conversionem hortatur.
– Transfigurationis mysterium: Iesus in monte Tabor transfiguratur.
– Eucharistiae mysterium: Iesus in cenaculo Eucharistiam instituit, corpus ac sanguinem suum nobis donans.

Mysteria passionis

– Agoniae mysterium: Iesus in horto Gethsemani orat.
– Flagellationis mysterium: Iesus flagellis caeditur.
– Ecce homo mysterium: Iesus spinis coronatur.
– Viae crucis mysterium: Iesus cruce oneratus Calvariae locum adit.
– Mortis mysterium: Iesus in cruce moritur, stabat iuxta crucem Iesu mater eius.

Mysteria gloriae

– Resurrectionis mysterium: Iesus a mortuis resurgit.
– Ascensionis mysterium: Iesus caelos ad Patris gloriam ascendit.
– Missionis Spiritus Sancti mysterium: Spiritus Paraclitus supra discipulos descendit.
– Assumptionis Beatae Mariae Virginis mysterium: Assumpta est Maria in caelum.
– Glorificationis Beatae Mariae Virginis mysterium: Maria Virgo in caelis regina coronatur.


Salve Regina...

Benedicat vos omnipotens Deus Pater et Filius et Spiritus Sanctus.
Amen.

***


Texto encontrado na página de fórum alemão: http://kath-zdw.ch/forum/index.php?topic=332.0


Por Tayroni Alves e Luís Augusto - membros da ARS

sexta-feira, 5 de junho de 2009

"Mas que festa? A liturgia é um drama"


A liturgia é um drama, não uma festa. Hoje não se contempla mais a Cruz, frequentemente deixada como um adorno. Celebrar voltados ad orientem a segunda parte da Missa tem um sentido escatológico e recupera o sentido do sagrado.

“Mas que festa? A liturgia é um drama”: afirma Monsenhor Nicola Bux, teólogo e liturgista de clara fama. Com ele confrontamos o tema do sentido do sagrado na liturgia: “Creio que este sentido do sagrado se poderá recuperar quando compreendermos que a Missa não é de modo algum um espetáculo, uma diversão ou uma propriedade do sacerdote, mas um próprio e verdadeiro drama. Frequentemente enchemos a boca com a palavra festa, mas que festa? Na Missa recordamos o sacrifício de Cristo, eis a verdade. Cristo se imolou por nós e aí se usa a palavra festa. Só é correto falar de festa depois de termos compreendido e aceitado o conceito de que Cristo deu a vida por nós. Então, é lícito falar de festa, mas nunca em primeiro lugar”.

Depois acrescenta: “Uma boa liturgia deve ter a cruz ao seu centro, mas esta, sempre mais frequentemente colocada ao lado, ou em lugares pouco visíveis, perdeu o seu verdadeiro e autêntico significado. Parece muito mais um acessório do que um centro de adoração. Às vezes tenho a sensação de que uma cruz no centro do altar incomode, quase como se causasse um impacto. Para ser radical: na maioria das vezes ninguém olha para ela”.

Mons. Bux fala do conceito de devoção: “Para devolver à liturgia o sentido do sagrado, é necessário a devoção. Chega de missas celebradas como se fosssem acontecimentos mundanos e entretenimento. É necessário a devoção, o encontro com a face de Deus. Mas infelizmente isto acontece muito, muito raramente. Sem um encontro com a face verdadeira de Deus, sem devoção, a Missa se torna um ritual, uma auto-celebração do sacerdote que não tem sentido algum”.

Provocatoriamente mons. Bux se questiona e questiona: “Quantos hoje, celebrando a Missa, voltam o olhar para Deus e para a cruz? Poucos, eis porque o sentido do sagrado vai se atenuando em nossas missas”.

E agora, o que fazer? "Penso que uma boa ideia possa ser a seguinte: na segunda parte da Missa, do ofertório em diante, o sacerdote poderia celebrar voltado para a cruz, ad orientem".

Por que razão "ad orientem"? "Deste modo, os fiéis não veriam mais a figura do sacerdote, que não é o protagonista, mas junto a ele, contemplam a cruz, o mistério".

Por isso, então, uma posição "ad orientem" na segunda parte da Missa: "Parece-me conveniente. Desta maneira a liturgia ganharia valor mormente escatológico, de mistério e adoração,  e as próprias pessoas começariam a compreender e a apreciar o valor escatológico, para usar um termo difícil, da liturgia. Olhar para o oriente equivale a contemplar o Senhor que vem, penso que esta posição, usada enfim pelos orientais, possa ajudar a encontrar maior recolhimento. Eis a minha modesta proposta para uma reforma gradual e sensata: olhar para o oriente na segunda parte da Santa Missa".

Numa entrevista que nos concedeu há alguns dias o histórico Franco Cardini falou de crise do sentido do sagrado: "É necessário ver em que sentido se fez esta afirmação. Mas o sentido do sagrado é Deus. Aparentemente este sentido do sagrado, isto é, de proximidade e procura de Deus, hoje parece ofuscado realmente. Mas eu não seria tão pessimista. No fundo, o homem por natureza sempre procura a Deus. Muitas vezes mesmo por comodidade pessoal ou com formas corrompidas e confusas como a superstição ou a magia, mas enfim o que se procura é o contato. A aliança com Deus, mesmo egoisticamente, convém ao homem".

De Bruno Volpe (22/04/2009)

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sermão sobre Pentecostes, de São Leão Magno (séc. V)


Todos os corações católicos sabem, caríssimos, que a solenidade de hoje deve ser celebrada como uma das festas mais importantes. Ninguém ignora ou contesta a reverência com que se deve festejar este dia, consagrado pelo Espírito Santo com o milagre excelente de seu dom. Sendo, na verdade, o décimo dia depois daquele em que o Senhor subiu ao céu, para se assentar à direita de Deus, refulge como o dia qüinquagésimo após a sua Ressurreição, e traz em si grandes mistérios, referentes a antigos e novos sacramentos, na mais clara manifestação de que a Graça foi prenunciada pela Lei e a Lei cumprida pela Graça. Sim, do mesmo modo como outrora, no monte Sinai, a Lei fora dada ao povo hebreu, libertado dos egípcios, no dia qüinquagésimo após a imolação do cordeiro, assim também, após a Paixão de Cristo, imolação do verdadeiro Cordeiro de Deus, é no qüinquagésimo dia desde sua Ressurreição que se infunde o Espírito Santo nos apóstolos e na multidão dos fiéis. O cristão diligente facilmente vê como os inícios do Antigo Testamento serviram aos primórdios do Evangelho, e como a segunda Aliança foi criada pelo mesmo Espírito que instituiu a primeira.
Com efeito, diz a narrativa dos apóstolos: 

"Como se completassem os dias de Pentecostes e estivessem todos os discípulos juntos no mesmo lugar, repentinamente se fez ouvir do céu um ruído como o de vento que soprava impetuosamente, e encheu toda a casa onde estavam. Apareceram-lhes então como línguas de fogo, que se puseram sobre cada um deles; e todos ficaram cheios do Espírito Santo, começando a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia falarem" [1].

É veloz a palavra da Sabedoria, e onde Deus é o Mestre quão rapidamente se aprende a doutrina! Não houve necessidade de interpretação para o entendimento, não houve aprendizado, não houve prazo para estudo, mas, assim que o Espírito da verdade soprou como quis, as línguas particulares dos diversos povos se tornaram comuns na boca da Igreja.

A partir desse dia ressoou a trombeta da pregação evangélica. A partir desse dia as chuvas de graças, os rios das bênçãos irrigaram todos os desertos e a terra inteira, pois a fim de renovar sua face "o Espírito de Deus pairava sobre as águas" [2]. E, para a expulsão das trevas de antes, coruscavam os relâmpagos da nova Luz no esplendor das línguas flamejantes. Assim se manifestava a luminosa e ígnea palavra do Senhor, dotada da eficácia de iluminar e da força de abrasar, necessárias ao entendimento e à destruição do pecado.

Porém, caríssimos, embora tenha sido admirável a própria aparência desses acontecimentos e não haja dúvida de que a majestade do Espírito Santo tenha estado presente à harmonia exultante das vozes humanas, não se pense que apareceu a sua divina essência naquilo que se mostrou aos olhes corporais. A natureza invisível e comum ao Pai e ao Filho manifestou a qualidade de seu dom e de sua obra por meio do sinal de santificação que bem lhe aprouve, mas conteve em sua divindade a propriedade de sua essência.

Assim como a visão humana não pode perceber o Pai e o Filho também não percebe o Espírito Santo. Na Trindade, com efeito, nada é dissemelhante, nada é desigual, e todas as coisas que se possam pensar a respeito dessa substância não se distinguem pela excelência, pela glória ou pela eternidade. É verdade que, conforme as propriedades das Pessoas, um é o Pai, outro o Filho, outro o Espírito Santo, mas não há divindade diferente, natureza distinta. Assim como o Filho precede do Pai, igualmente o Espírito Santo é Espírito do Pai e do Filho. Não como as criaturas, que são também do Pai e do Filho, mas como alguém que, como ambos, vive, é poderoso e existe eternamente, desde que existem o Pai e o Filho. Por essa razão o Senhor, quando prometeu a vinda do Espírito Santo aos discípulos, antes do dia da Paixão, disse: 

"Ainda muitas coisas vos tenho a dizer: quando, porém, vier o Espírito da verdade, ele vos conduzirá para toda a verdade. Pois não falará de si mesmo, mas falará o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que deverão suceder. Tudo o que o Pai tem é meu; per isto disse que receberá do que é meu e vos anunciará" [3].

O Pai, portanto não tem algo que não o tenham o Filho ou o Espírito Santo. Tudo o que tem o Pai, tem o Filho e tem o Espírito Santo. Nunca faltou na Trindade essa perfeita comunhão; nela são uma mesma coisa "tudo possuir" e "sempre existir". Não imaginemos sucessão de tempo na Trindade, não imaginemos gradações ou diferenças. Se, de um lado não se pode explicar o que Deus é, de outro não se ouse afirmar o que Deus não é. Seria melhor deixar de discorrer sobre as propriedades da natureza inefável de Deus, do que afirmar o que não lhe convém. O que concebem, pois, os corações piedosos a respeito da glória eterna e imutável do Pai, entendam-no ao mesmo tempo do Filho e do Espírito Santo, de um modo inseparável e sem diferença. Nossa confissão é ser a Trindade um só Deus, já que nas três Pessoas não existe diversidade de substancia, poder, vontade ou operação.

Assim, se reprovamos os arianos, que pretendem existir diferença entre o Pai e o Filho, reprovamos igualmente os macedonianos, os quais, embora atribuindo igualdade entre o Pai e o Filho, pensam que o Espírito Santo seja de natureza inferior. Eles não vêem estarem incidindo naquela blasfêmia indigna de ser perdoada tanto no século presente como no futuro, consoante a palavra do Senhor: 

"A todo o que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado, mas ao que disser contra o Espírito Santo não será perdoado nem neste século nem no vindouro" [4].

Quem permanece, portanto, nessa impiedade fica sem perdão, pois expulsou de si aquele por meio do qual seria capaz de confessar a verdadeira fé. Jamais se beneficiará do perdão quem não tiver advogado para protegê-lo.

Ora, é do Espírito Santo que procede em nós a invocação do Pai, dele são as lágrimas dos penitentes, dele os gemidos dos que suplicam, "... e ninguém pode dizer Senhor Jesus senão no Espírito Santo" [5].

O Apóstolo prega de maneira evidente a onipotência do Espírito, igual à do Pai e do Filho, bem como sua divindade, ao dizer:

"há diversidade de graças, mas um mesmo é o Espírito; e há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor; e há diversidade de operações, mas um mesmo é o Deus que opera tudo em todos" [6].

Por estes e outros documentos, através dos quais, de inumeráveis modos brilha a autoridade das palavras divinas, sejamos incitados, caríssimos, unanimemente, à veneração de Pentecostes, exultando em honra do Santo Espírito, por quem toda a Igreja é santificada e toda alma racional é penetrada. Ele é o inspirador da fé, o Mestre da ciência, a fonte do amor, o selo da castidade, o artífice de toda virtude.

Regozijem-se as mentes dos fiéis com o fato de, em todo o mundo, ser louvado pelas diferentes línguas o Deus uno, Pai, e Filho e Espírito Santo; com o fato de prosseguir em seu trabalho e dom aquela santificação que apareceu na chama do fogo. O mesmo Espírito da verdade faz refulgir com sua luz a morada de sua glória, nada querendo de tenebroso ou morno em seu templo.

Foi também por auxílio e instrução desse Espírito que recebemos a purificação do jejum e da esmola. Com efeito, segue-se ao venerável dia de hoje um costume de salutar observância, que os santos julgam de grande utilidade e nós vos exortamos, com pastoral solicitude, a que o celebreis com o maior zelo possível. Assim, se a negligência vos fez contrair em dias passados algo de pecaminoso, seja isto penitenciado pela censura do jejum e pelo devotamento da misericórdia. Jejuemos na quarta e na sexta-feira, para sábado celebrarmos juntos as vigílias, com a habitual devoção. Por Cristo, Nosso Senhor que vive e reina com o Pai e o Espírito santo, pelos séculos dos séculos. Amém.


[1] At 2,1-4.
[2] Gn 1,2.
[3] Jo 16,12-13.15.
[4] Mt 12,32.
[5] lCor 12,3.
[6] lCor 12,4-6.

Fonte: Mercaba