domingo, 31 de outubro de 2010

Quando a Virgem Maria visitou o Brasil...

Pax et bonum!

Depois dos últimos fatos vistos neste período eleitoral, e depois do resultado da eleição, achei por bem divulgar uma aparição da Virgem Maria que, pelo visto, é muito pouco conhecida (eu, particularmente, nunca tinha ouvido falar há alguns meses).
Trata-se da aparição de Nossa Senhora [das Graças] na Vila de Cimbres, no município de Pesqueira-PE, na década de 30.

***

Aparições de Maria Santíssima no nordeste do Brasil

Pe. Júlio Maria de Lombaerde* (1878 - 1944)

A primeira edição deste livro estava no prelo quando tive notícia de uma das aparições de Maria Santíssima no norte do Brasil.
A notícia foi-me transmitida por um sacerdote exemplar, incapaz de ilusão ou de fraude.
Preferi esperar e deixar para mais tarde a divulgação do fato, que a autoridade eclesiástica, sempre prudente e justamente desconfiada, conservava secreta, para evitar precipitações ou juízos mal fundados.
Eis que perto de dois anos depois, um amigo enviou-me uma revista alemã, de responsabilidade e de orientação segura: Konnesreuther Jahrbuch - 1936, onde encontrei a narração resumida, mas completa, destas aparições.
É desta revista que traduzo o fato, sem mudar nem acrescentar uma vírgula. Achei as aparições revestidas de todos os requisitos de veracidade, cabendo à autoridade eclesiástica pronunciar-se a respeito, o que cedo ou tarde ela fará, seguindo como sempre segue, as normas do tempo e da prudência.
Sendo aparições e revelações privadas, estas têm apenas um valor humano, e merecem só uma fé humana; porém mesmo assim vale a pena citá-las e meditá-las, porque se a mesma credulidade é um mal, a incredulidade sistemática é um mal maior.
Haverá qualquer coisa de tão singular numa aparição da Mãe de Deus em terras brasileiras?
Não somos nós uma nação consagrada à Virgem Imaculada da Aparecida?
Não somos nós, também, um povo amoroso e dedicado ao culto de nossa Mãe Celeste?
Se ela se dignou mostrar-se um dia em Lourdes, La Salette, Pontmain, Pellevoisin, na França; em Fátima (Portugal) e ultimamente em Bauraing e Baneaux, na Bélgica, porque ela não se mostraria também no Brasil, dando-nos deste modo, uma prova de seu amor maternal e da sua solicitude para com o povo brasileiro?
Cada um poderá acreditar ou não acreditar nos fatos aqui narrados. A Igreja nada determinou; há, pois, liberdade de aceitá-los ou de rejeitá-los; como há liberdade de silenciar os fatos ou de publicá-los.
É apoiado sobre esta liberdade, sem querer adiantar os julgamentos da autoridade eclesiástica, que aqui publico a tradução da Revista de Konnesreuth:

I. PRIMEIRA APARIÇÃO
Maria Santíssima apareceu ultimamente num lugarejo do norte, em agosto de 1936. Se omito o nome do lugar, é atendendo aos desejos das autoridades eclesiásticas.
Era a 6 de agosto de 1936.
Duas meninas foram mandadas ao campo a fim de colher mamona. Uma chama-se Maria da Luz, a outra Maria da Conceição. Esta é de família pobre e conta 16 anos de idade, filha de um empregado do pai de Maria da Luz.
Na ocasião das aparições, aquelas redondezas eram perturbadas por bandos de gatunos que roubavam e saqueavam a valer, causando grande inquietação nos habitantes.
Durante esta saída, Maria da Conceição, perguntou a sua companheira: "Que farias se os ladrões nos encontrassem agora?"
– Ficaria muito quieta, pois Nossa Senhora nos protegeria, respondeu Maria da Luz.
Casualmente aquela, olhando para uma montanha próxima, exclamou: "Veja lá uma Senhora". De fato lá se achava uma Senhora que as chamava por acenos, tendo nos braços um belo menino.
Do lado em que as meninas estavam, era impossível a subida: as rochas e ramos emaranhados impediam a passagem; foi-lhes necessário tomar um desvio, passando perto de sua casa para poderem subir com mais facilidade. Como fossem onze horas da manhã, a mãe de Maria chamou-as para almoçarem. Elas não quiseram ir, contando o que tinham visto e queriam seguir o caminho até aquele lugar.
A mãe – boa senhora, vice-presidente do Apostolado da Oração – disse muito simplesmente: "É história, venham almoçar." Neste momento, chega o pai, Arthur Teixeira, para almoçar. As meninas sentadas de fronte à casa, falavam sobre aquela senhora tendo a criança nos braços, a qual lhes acenara. A janela estando aberta, a mãe de Maria da Luz ouviu a conversa e narrou-a ao pai desta.
O sr. Arthur pediu-lhes que contassem o que haviam visto; as meninas lhe disseram tudo, asseverando com tal segurança que ele quis acompanhá-las. Tomando de uma foice, começou a limpar o caminho, quando, quase sem saber como, as meninas já haviam alcançado o cume do monte.
De lá as meninas lhe gritavam, apontando em direção de uma pedra branca. Com dificuldade ele alcançou o alto, mas nada via do que lhe diziam.
Entretanto, a mãe não ficou tranquila em casa; trouxe consigo as crianças, em número de cinco ou seis. Destas últimas, ninguém conseguiu ver coisa alguma.
Apesar das meninas sustentarem que viam diante de si uma senhora com um menino, o pai, para mais segurança, mandou que elas lhe perguntassem o que desejava.
Perguntaram e a visão respondeu: "Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não fizer muita penitência e oração."
Restava-lhe muito que dizer ainda, mas ficou para mais tarde. As notícias corriam de boca em boca e os homens se aglomeravam naquele lugar onde fora vista aquela senhora com a criancinha, esperando ver qualquer coisa, mas nada viam.

II. PRIMEIRAS AVERIGUAÇÕES

Entretanto, o vigário da Paróquia mandou chamar o pai de Maria da Luz, aconselhando-lhe que trouxesse a menina a fim de participar do retiro espiritual das Filhas de Maria, desde o dia 10 a 15 de agosto, preparando-se então para a primeira comunhão. Nesta ocasião o pai poderia estar com o sr. Bispo.
Mas não foi somente esta a singular aparição da Senhora. Na passagem diária das meninas naquele lugar, ela lhes aparecia.
As opiniões eram, como sói acontecer em tais casos, sempre divididas; uns acreditavam, outros zombavam.
As advertências de Nossa Senhora eram reiteiradas: pedia sempre e insistia que era preciso rezar; senão seu Filho castigaria severamente o País.
Certo dia houve um garoto naquele lugar, que atirou uma pedra em direção à aparição. As meninas disseram que a pedra atingiu a mão de Nossa Senhora e que jorrava muito sangue.
Como dizíamos, atendendo o pedido do vigário, o pai levou a menina para P., apresentando-a ao sr. Bispo, mas este mandou seu secretário ouvi-la, pois estava muito ocupado.
Após a audiência, o padre disse: "Vocês estão enganadas." Porém Maria da Luz sustentou a palavra. Terminou-se a conversa entregando o padre umas perguntas, das quais ela devia pedir resposta à Senhora e enviá-las em seguida, na primeira ocasião, por escrito.
A menina enviou a resposta pedida. Apesar de ela ser um tanto atrasada, não houve a menor inexatidão.
Eram as seguintes as perguntas formuladas:
1 – Quem pode mais que Deus?
2 – Quantas pessoas há em Deus?
3 – Quais são estas pessoas?
4 – Em nome de Deus dizei quem sois e que quereis?
5 – Quereis falar com um padre?
6 – Que significa o sangue que jorra da vossa mão?
Após dois dias, o padre recebeu da menina as seguintes respostas:
1 – Ninguém.
2 – Três.
3 – Pai, Filho e Espírito Santo.
4 – Sou a Mãe da graça e venho avisar ao povo que se aproximam três grandes castigos.
5 – Sim.
Então a menina perguntou com qual padre, enumerando diversos. A aparição respondeu:
Quero falar com o padre que lhe fez estas perguntas.
6 – Representa o sangue que será derramado no Brasil.
Estas respostas fizeram o Padre refletir e decidir-se ir àquele lugar para examinar se encontraria provas ou se eram ilusões ou falsidades.

III. APARIÇÃO DE JESUS E MARIA

O lugar das aparições – "Guarda" – é localizado num alto, circundado de montanhas. Em baixo da montanha, num vale, está a casa dos pais de Maria da Luz, a 500 metros de distância. A subida é muito penosa.
"Só com muita dificuldade cheguei em cima, escreve o sacerdote. Foi-me necessário tirar os sapatos para poder subir. O calor era insuportável. Numa distância de 40 a 50 metros , divisei o lugar das aparições e as duas meninas com o pai, os quais já estavam em cima; elas me diziam que a Senhora olhava para mim de cima, enquanto eu subia.
– Que está fazendo a aparição? – perguntei.
– 'Está sorrindo', disseram elas.
Eu olhei primeiro, examinando o que havia por ali: tudo era pedra e entulho; na nossa frente estava um formidável abismo; no lugar das aparições notava-se um como número em forma de quatro (4); ao lado esquerdo outros números como um (1-1); no meio, uma linha branca, um pouco mais alta, que se podia alcançar só por meio de uma escada.
– 'Lá está a aparição', diziam as meninas; mas eu nada via. Sob a pedra que se achava diante de mim, numa abertura, corria um pouco d'água.
Perguntei ao pai de Maria da Luz se aquela água sempre existiu ali. Ele me disse: 'não; mas como muitos não acreditassem nas aparições, as meninas pediram um sinal; desde então começou a brotar água'.
Fiquei em cima com Maria da Luz e pedi que Maria da Conceição, com o sr. Arthur, se retirasse um pouco abaixo, na montanha. Assim eles dois nos podiam ver, mas não ouvir. Então, eu disse à Maria da Luz: – 'Dize-me agora a verdade e não pregues mentiras, pois do contrário serás infeliz para toda a tua vida'.
Eu queria fazê-la confessar que nada via. Ela, porém, permaneceu inabalável. Quando eu perguntei o que a aparição estava fazendo, disse-me ela, olhando em direção do lugar:
– 'Ela olha para cá e está sorrindo'.
– 'Agora dize-me: como está Ela?'
Maria da Luz olha e diz:
– 'Vejo uma bela Senhora, cujo vestido é creme, quase como vosso capote. O manto é azul celeste, pendendo do pescoço, onde está seguro por uma fivela, com pedras preciosas. Num braço está a criança'.
– 'Em que braço? No direito ou no esquerdo?'
A menina não sabia distinguir o braço direito do esquerdo. Fez uma vira-volta com o corpo e mostrou-me o braço esquerdo.
– 'Ela, como o menino, traz uma coroa de ouro na cabeça', disse-me a jovem.
– 'E a outra mão?' - perguntei.
Fez então uma nova vira-volta (apontando-me) mostrando-me o braço direito estendido para baixo.
– 'A criancinha enlaça o pescoço da mãe com o bracinho direito", disse ela, dando uma vira-volta e apontando o braço. A senhora tem na cinta uma fita da mesma fazenda e da mesma cor que a do vestido. Vejo somente um dos pés.
– 'Qual deles?' - perguntei.
Ela mostrou o pé direito, fazendo outra vira-volta.
– 'Atrás da Senhora vê-se um bonito oratório com duas torres fechadas. O oratório, que tem a forma de uma casinha, tem pedras preciosas nas suas torres'."

IV. NOVAS INVESTIGAÇÕES

"Chamei então o pai com a outra menina, ao qual, tendo chegado, eu disse: 'o senhor tome Maria da Luz e vá ficar no mesmo lugar. Eu fico com Maria da Conceição'.
– 'Compreendeste alguma coisa do que eu disse a tua companheira?', perguntei à moçinha.
– 'Não senhor', disse ela.
Então eu lhe disse: 'Maria da Luz já me disse tudo e confessou a verdade: tudo o que vós arranjastes é mentira e invenção. Agora quero que me digas também a verdade: não é certo que nada vês?' A menina ficou como aterrorizada e olhando para o ponto das aparições, disse-me em tom choroso: 'Se Maria da Luz disse isto ou não, eu não sei; mas agora eu vejo a Senhora como antes'.
Procurei embaraçá-la por meio de muitas perguntas, a fim de averiguar se era imaginação. 'Eu que sou padre, nada vejo! Tu que nada és, dizes que vês Nossa Senhora?' Ela permaneceu sempre firme.
– 'Está bem – disse eu – dize-me o que vês agora'.
Ela narrou tudo minuciosamente e fielmente como a sua companheira.
Quando ela indigitava o lugar da aparição no ponto, eu dizia, para experimentá-la: 'Maria da Luz me disse que é noutro lugar, lá do outro lado'. Então ela olhava para o lugar que eu dizia e respondia: 'Não, eu vejo Nossa Senhora naquele lugar branco. No lugar que Maria da Luz indicou ao senhor, eu nada vejo.'
Não encontrei sequer uma contradição no que as meninas me diziam.
Chamei então Maria da Luz – deixando o pai onde estava – e perguntei a ambas se viam a Senhora. Ambas responderam: 'Sim, vemos'
– 'Perguntem a Nossa Senhora se ela me vê', disse eu. Perguntaram, e Ela respondeu que sim.
– Perguntem a Nossa Senhora se eu posso formular algumas perguntas numa língua estrangeira.
– 'Sim', responderam, por Ela.
Fiz então umas oitenta ou noventa perguntas em alemão, que as meninas não compreendem e recebi todas as respostas certas. Eu recebia as respostas por intermédio das meninas, em português, fielmente conforme eu perguntava em alemão, como: 'Wer bist du?' (quem sois vós?) – 'A Mãe do Céu'. 'Wie heisst das Kind auf deinem Arm?' (como se chama a criança em seu braço?) – 'Jesus'.
– 'Porque apareceis aqui?'
'Para avisar ao povo que três grandes castigos cairão sobre o Brasil'.
– 'Quais são os castigos?'.
Não respondeu, fazendo sinal com a mão para fazer entender, ou que não podia falar, ou que não queria.
– 'Podeis então dizê-lo mais tarde?'
'Sim'.
– 'Por que não dais um sinal visível, para que o mundo possa ver que sois a Mãe de Deus?'
'Já o dei'.
– 'Qual é o sinal?'
– 'A água que está correndo em baixo'.
– 'Para que serve esta água?'
'Para remédio'.
– 'Para todas as doenças?'
'Sim, mas para quem tem fé'.
– 'Quem quiser pode tirar daquela água?'
– 'Não, só as duas meninas'.
– 'Porque não podem tirar quem quiser?'
'Para que todos creiam'."
Cortemos aqui as respostas, para destacar bem o que segue, pois é a parte essencial das revelações da Mãe de Deus.

V. AMEAÇAS E REMÉDIOS

O Sacerdote continua o mesmo interrogatório, penetrando cada vez mais no âmago das questões palpitantes que a Virgem Santa quer revelar.
– Qual é o fim da vossa aparição aqui?
Avisar que três grandes castigos virão sobre o Brasil.
– Quais castigos?
De novo ela fez sinais, fazendo entender que não podia ou não queria falar.
– Que é necessário fazer para desviar os castigos?
Penitência e oração.
– Qual a invocação desta aparição?
Das Graças.
– Que significa o sangue que corre das vossas mãos?
O sangue que inundará o Brasil.
– Virá o comunismo a penetrar no Brasil?
Sim.
– Em todo o País?
Sim.
– Também no interior?
Não.
– Os padres e os bispos sofrerão muito?
Sim.
– Será como na Espanha?
Quase.
– Quais são as devoções que se devem praticar para afastar estes males?
Ao Coração de Jesus e a mim.
– Não basta só uma?
Não.
– Quereis que se pregue sobre este assunto?
Sim.
– Permiti-lo-ão as autoridades eclesiásticas?
Fez um gesto como se não quisesse dizê-lo.
– Darão licença mais tarde?
Sim.
– Quereis que se construa uma igreja aqui?
Não.
– Quereis mais tarde?
Fez os mesmos gestos.
– Esta aparição é a repetição de La Salette?
Sim.
– Haverá uma romaria aqui?
Sim.
– Por que apareceis neste lugar, cuja subida é tão difícil?
Para o povo romeiro poder fazer penitência.
– Quanto tempo faz que estais aqui?
Fez um gesto com o dedo, com se quisesse dizer: "há muito tempo".
– Se sois a Mãe de Deus, então dai-nos vossa benção.
Instantaneamente as duas videntes exclamam: "Olha lá!!! Está nos abençoando"... e fizeram o sinal da cruz.
– Se sois a Mãe de Deus e a criança é o Menino Jesus, manda que Ele nos dê a benção.
Neste momento, as duas pobres camponesas, admiradas e transportadas de júbilo, exclamaram: "Ele já sabe dar a benção também!" Fizeram mais uma vez o sinal da cruz.
Uma das meninas exclamou ainda: "Agora vimos a outra mãozinha do menino. Até agora ela estava enlaçada ao pescoço da Mamãe. Ele estende para o senhor os dois bracinhos."
Fiz ainda muitas perguntas, obtendo respostas certas.
Descendo eu, disse às duas meninas: "Agora vejam se a Senhora ainda está lá". Responderam ambas: "Sim, Ela está em frente de sua casinha, abençoando-nos".
– Para que tanta benção? disse eu, como se estivesse amolado e em tom grave.
As meninas ficaram trêmulas e atemorizadas.
– Pergunta a Ela, para que tanta benção!
Para que sejais felizes, disse Ela.
Perguntei de novo, em alemão: "Somente as duas ou eu também?"
Responderam elas: "Para o senhor também".
Tudo o que vi impressionou-me muito, excedendo as minhas expectativas. Umas das perguntas versou sobre os acontecimentos de Konnesreuth**, perguntando se aqueles fatos eram de Deus ou do demônio.
– "É de Deus", disse a aparição.

VI. PROVIDÊNCIAS E OPOSIÇÕES

As providências do Bispo foram as seguintes: que as meninas fossem examinadas pelo médico. Procedeu-se ao exame e averiguou-se que ambas são completamente sãs.
A aparição repetia-se. Mas as contradições surgiam à medida que se falava nas aparições.
A água corria constantemente, em pouca quantidade, e como que saindo da pedra.
Começaram as curas extraordinárias; foi pena que os médicos não fossem avisados para examiná-las. Em todo o caso, o povo dá veracidade aos fatos e neles crê.
Opinam que tenha havido profanação da fonte, embora não se saiba ao certo; e Nossa Senhora pediu que se fizesse um muro ou uma cerca, pois só as almas contritas e piedosas podiam assim aproximar-se a fim de fazerem orações e penitências.
Fez-se a cerca, visto as pessoas se aglomerarem sempre mais em romaria. Veio a polícia e derrubou a cerca. Imediatamente secou a água até então corrente.
O sacerdote mandou de novo construí-la e fechou as portas; logo depois a água brotou.
Após oito dias veio a polícia novamente, destruiu a cerca e, como na outra vez, desapareceu a água.
Falou-se que houvera sido o Bispo quem mandou a polícia.
Este negou-o, dizendo que não sabia de nada.
A aparição repetidas vezes veio e as meninas afirmaram que a Senhora lhes dissera: "Tenham paciência; as coisas que vêm de Deus são mesmo assim".
Mandou então o padre que as meninas perguntassem a Nossa Senhora quem havia mandado os soldados, e a resposta foi esta: "Quem mandou foi um padre!"
Quinze dias depois, uma carta das meninas chegou, dando-me o nome do culpado.
Entretanto, a água não corria mais naquele lugar, mas um pouquinho acima. As meninas afirmaram que tinham pedido a Nossa Senhora para fazer a água sair novamente; então começou a correr.
Nossa Senhora recomendou que não se dissesse isto a qualquer pessoa, para que só os bons recebessem da água.
Maria da Luz entrou num colégio, a pedido de Maria Santíssima, para mais tarde, após ter adquirido um pouco de instrução, entrar no convento. A aparição pediu que as despezas necessárias fossem feitas pelo Padre, autor daquelas perguntas.
Maria da Conceição está ainda com seus pais, em casa: parece-me que ela nunca mais viu a aparição.
Outro fato sobre Maria da Luz: em todas as festas de Nossa Senhora, ela a viu na montanha de Guarda.
Certo dia, perguntando algo a Nossa Senhora, recebeu esta resposta: "Nunca mais me manifestarei aqui em Guarda e os três castigos não virão já, porque o povo está melhor; mas é necessário ainda rezar muito e fazer penitência".
Recomendou de novo a devoção ao Coração de Jesus e a Ele.

VII. CONCLUSÃO

Tal é a narração publicada na revista de Konnersreuth. As relações escritas que me foram transmitidas, sendo recolhidas dos lábios do próprio sacerdote que formulou as perguntas, são mais extensas, porém a narração acima é o resultado fiel do conjunto, e outros pormenores nada de essencial ajuntam ao fato.

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* Padre Júlio Maria de Lombaerde. O Fim do Mundo está próximo! Prophecias antigas e recentes. Livraria Boa Imprensa, Rio de Janeiro, 2ª edição, 1939, cap. VI, pp. 71 e ss. Nihil obstat dado pelo Cônego José de Lima em 10 de julho de 1936, e Carta de Aprovação do Bispo de Caratinga, de 31 de julho de 1936.
** Os acontecimentos de Konnersreuth, creio eu, são os referentes a Therese Neumman, estigmatizada que vivia da Eucaristia.

Ir. Adélia (a jovem Maria da Luz), da Congregação das Damas da Instrução Cristã,
tem 87 anos e mora em Recife

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(desconheço o conteúdo do site, apenas vi que o artigo em questão era crível, por partir de um livro do famoso Pe. Júlio Maria)

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Capítulo V traduzido (Liturgia - princípios fundamentais)

Pax et bonum!

Terminei hoje a tradução do quinto capítulo de "Liturgia - princípios fundamentais", obra de D. Gaspard Lefebvre.

Título:

V - O ESPÍRITO DIOCESANO E PAROQUIAL

Este capítulo não apresenta subdivisões. Eis a razão da ausência de tópicos.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Papa e temas políticos do Brasil! Dicurso aos Bispos do Maranhão.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS PRELADOS DA CONFERÊNCIA NACIONAL
DOS BISPOS DO BRASIL (REGIONAL NORDESTE V)
EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Amados Irmãos no Episcopado,

«Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo.

Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. Gaudium et spes, 76).

Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem,82).

Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o "Compêndio da Doutrina Social da Igreja"» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. Gaudium et spes 75).

Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17 de setembro de 2010).

Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado.

Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade.

Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.


© Copyright 2010 - Libreria Editrice Vaticana

domingo, 24 de outubro de 2010

Defesa da Vida - URGÊNCIA

Pax et bonum!

A situação em nosso país tem ficado muito séria depois do primeiro turno das eleições.
Espero que ao verem esses vídeos os católicos iludidos sejam iluminados e abram os olhos.
Recomendo vivamente a todos os que visitarem este blog a assistirem esses vídeos.

Deus nos livre da descriminalização do aborto!










sábado, 23 de outubro de 2010

O Sinal da Cruz

Pax et bonum!

Hoje, quando rezava antes de tomar o café da manhã, deu-me vontade de postar algo sobre o Sinal da Cruz. Lembrei-me logo da Catholic Encyclopedia e traduzi o artigo que segue.
Creio que será bastante edificante, para os caros leitores, compreender um pouco mais deste sinal que trazemos como herança da antiguidade cristã. Boa leitura!
Obs: as imagens não estão presentes no artigo original.

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O Sinal da Cruz

Escultura de Cristo no topo da entrada da Basílica de São Pedro, Vaticano

Um termo aplicado a vários atos manuais, de caráter litúrgico ou devocional, que têm ao menos isto em comum: o gesto de traçar duas linhas com interseção formando ângulos retos indicando simbolicamente a figura da cruz de Cristo.

Mais comum e apropriadamente a expressão "sinal da cruz" é usada para a grande cruz traçada da testa para o peito e de um ombro para o outro, como os Católicos são ensinados a fazer sobre si quando começam suas orações, e também como o sacerdote faz aos pés do altar quando começa a Missa com as palavras: "In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti" (no início da Missa o celebrante faz o sinal da cruz deixando a mão esquerda sob o peito; levando a mão direita para a testa, ao tocá-la com as pontas dos dedos, diz: In nomine Patris; tocando o peito com a mesma mão diz: et Filii; tocando o ombro esquerdo e o direito diz: et Spiritus Sancti; e unindo novamente as mãos acrescenta: Amen.) O mesmo sinal ocorre com frequência durante a Missa, por exemplo, às palavras "Adjutorium nostrum in nomine Domini", "Indulgentiam" depois do Confiteor, etc., bem como no Ofício Divino, por exemplo, na invocação "Deus in adjutorium nostrum intende", no início do "Magnificat", do "Benedictus", do "Nunc Dimittis", e em várias outras ocasiões.
Pintura de sacerdote, coroinha e fiel fazendo o sinal da cruz no início da Missa

Outro tipo de sinal da cruz é o que é feito no ar pelos bispos, padres e outros ao abençoar pessoas ou objetos. Esta cruz também ocorre várias vezes na liturgia da Missa e em quase todos os rituais ligados aos sacramentos e sacramentais.

Uma terceira variação é representada pela pequena cruz, geralmente feita com o polegar, a qual o padre ou o diácono traça, por exemplo, sobre o livro dos Evangelhos e na testa, lábios e peito na Missa, bem como sobre os lábios quando se diz "Domine labia mea aperies" no Ofício, ou novamente na testa das crianças no Batismo, e sobre vários órgãos dos sentidos na Extrema Unção, etc.
Sinal da Cruz traçado com o polegar sobre o texto do Evangelho na Missa

Outra variante do mesmo santo sinal pode ser reconhecida no "Lay Folks Mass Book" ("Livro da Missa para o povo leigo", do séc. XIII), ao dizer que o povo, após o Evangelho, deveria traçar uma cruz no banco ou na parede ou num livro e então beijá-la. Isto era prescrito em práticas antigas como a de que o padre subindo ao altar antes do Introito deveria primeiro fazer uma cruz sobre a toalha do altar e beijar a cruz traçada. Ademais parece que o costume, prevalecente na Espanha e noutros países, pelo qual aparentemente se beija o dedo depois de se fazer o sinal da cruz comum, tem uma origem similar. O polegar sobre o indicador forma uma cruz à qual se pressiona os lábios com devoção.

De todos os métodos supracitados de venerar este símbolo vivificante e de o adotar como emblema, o traçar uma pequena cruz parece ser o mais antigo. Temos evidências positivas nos antigos Padres de que tal prática era familiar aos cristãos do séc. II. "Em todas as nossas viagens e movimentos", diz Tertuliano (De cor. Mil., iii), "em todas as nossas chegadas e saídas, ao nos calçarmos, no banho, à mesa, acendendo nossas velas, ao nos deitamos, ao nos sentarmos, seja o que for que nos ocupa, marcamos nossas frontes com o sinal da cruz". De outro modo, este deve ter logo se tornado um gesto de bênção, como o mostrariam várias citações dos Padres no séc. IV. Assim São Cirilo de Jerusalém, em suas "Catecheses" (xiii, 36) comenta: "não nos envergonhemos de confessar o Crucificado. Seja a cruz o nosso selo, feita com coragem por nossos dedos em nossa testa e em tudo; sobre o pão que comemos e sobre aquilo que bebemos, em nossas indas e vindas; antes de dormirmos, ao nos deitarmos e ao despertarmos; quando estivermos viajando e quando estivermos descansando".
O desenvolvimento parece ter seguido esta sequência. Originalmente a cruz era traçada pelos Cristãos com o polegar em suas testas. Esta prática é atestada por numerosas alusões na literatura Patrística, e está claramente associada em ideia a certas referências nas Esrituras, notadamente Ezequiel 9,4 (a marca da letra Tau); Êxodo 17,9-14; e especialmente Apocalipse 7,3; 9,4 e 14,1. Dificilmente menos antigo é o costume de traçar a cruz sobre objetos - já Tertuliano fala das Cristãs "assinalando" suas camas (cum lectulum tuum signas, "Ad uxor.", ii, 5) antes de se retirar para o descanso - e logo ouvimos sobre o sinal da cruz sendo traçado nos lábios (Jerome, "Epitaph. Paulæ") e sobre o coração (Prudentius, "Cathem.", vi, 129). Naturalmente se o objeto estivesse longe, a cruz direcionada a ele seria feita no ar. Assim Epifânio nos conta (Adv. Hær., xxx, 12) de um certo homem santo chamado Josefo, que comunicou a um vaso de água o poder de anular encantamentos mágicos "traçando sobre o vaso com seu dedo o sinal da cruz" enquanto pronunciava uma forma de oração. Novamente, meio século após, Sozomen, o historiador da igreja (VII, xxvi), descreve como o Bispo Donato, quando atacado por um dragão, "fez o sinal da cruz no ar com seu dedo e espantou o monstro". Tudo isto obviamente sugere uma cruz maior feita sobre o corpo todo, e talvez o exemplo mais antigo que possa ser citado por nós venha de uma fonte, possivelmente do séc. IV ou V. Na vida de Santa Nino, uma santa mulher, honrada como a Apóstola da Georgia, conta-se-nos nestes termos de um milagre operado por ela: "Santa Nino começou a orar e rogar a Deus por longo tempo. Então ela tomou sua cruz (de madeira) e com ela tocou a cabeça, os pés e os ombros da Rainha, fazendo o sinal da cruz e imediatamente ela foi curada" (Studia Biblica, V, 32).

Parece muito provável que a introdução geral de nossa atual cruz maior (da testa para o peito e de um ombro a outro) tenha sido resultado indireto da controvérsia Monofisita. O uso do polegar sozinho ou do simples indicador, que era inevitável enquanto se fazia apenas uma pequena cruz na testa, parece ter dado lugar, por razões simbólicas, para o uso de dois dedos (o indicador e o médio, ou o polegar e o indicador) como simbolizando as duas naturezas e as duas vontades em Jesus Cristo. Mas se dois dedos eram para ser usados, a cruz maior, em que se tocava testa, peito, etc, sugeria a si mesma como o único gesto natural. De fato um movimento grande destes era requirido para tornar perceptível que alguém estava usando dois dedos ao invés de um. Numa data um tanto posterior, por toda a maior parte do Oriente, três dedos, ou melhor o polegar e dois dedos eram mostrados, enquanto o anelar e o mínimo eram dobrados na palma.
Modo atual de se fazer o sinal da cruz entre os bizantinos
Estes dois simbolizavam as duas naturezas ou vontades em Cristo, enquanto os três estendidos denotavam as três Pessoas da Santíssima Trindade. Ao mesmo tempo esses dedos serviam como que para indicar a comum abreviação I X C (Iesous Christos Soter - Jesus Cristo Salvador, em grego), o indicador representando o I, o médio cruzado com o polegar erguido formando o X e o médio curvado sugerindo o C. Na Armênia, contudo, o sinal da cruz feito com dois dedos permanece até hoje. Muito desse simbolismo passou para o Ocidente, embora mais tarde.
Sinal da Cruz usado antigamente pelos ortodoxos russos

Sinal da Cruz usado nas bênçãos do rito bizantino.
IC XC são as primeiras e últimas letras de IHCOYC XPICTOC (Iesous Christos - Jesus Cristo)

Sacerdote bizantino fazendo o sinal da cruz sobre o cálice

Em geral parece provável que que a última prevalência da cruz grande se deve a uma instrução de Leão IV em meados do séc. IX. "Assinala o cálice e a hóstia", escreve, "com uma cruz reta e não com círculos ou variando os dedos, mas com dois dedos estendidos e o polegar escondido neles, pelo que a Trindade é simbolizada. Acautela-te de fazer o sinal da cruz corretamente, caso contrário não podes abençoar nada" (ver Georgi, "Liturg. Rom. Pont.", III, 37). Embora isto, é claro, se refira primeiramente à posição da mão ao abençoar com o sinal da cruz, parece ter sido adaptado popularmente para fazer o sinal da cruz sobre si. Aelfric (por volta do ano 1000) provavelmente tinha isto em mente quando conta a seus ouvintes num de seus sermões: "Um homem pode acenar admiravelmente com as mãos sem criar nenhuma bênção, a menos que faça o sinal da cruz. Mas se ele o fizer o demônio logo se amedrontará por conta do vitorioso sinal. Com três dedos se deve abençoar a si mesmo pela Santa Trindade" (Thorpe, "The Homilies of the Anglo-Saxon Church" I, 462). Meio século antes estes cristãos anglo-saxões eram exortados a "abençoar todo o seu corpo com o sinal da cruz de Cristo" (Blicking Hom., 47), o qual parece assumir esta cruz maior. Beda em sua carta ao Bispo Egberto aconselha-o a recordar ao seu rebanho "com que frequente diligência fazer sobre eles mesmos o sinal da cruz de nosso Senhor", embora aqui não possamos fazer inferência quanto ao tipo de cruz feita. Por outro lado, quando encontramos no chamado "Prayer Book of King Henry" (Livro de Oração do Rei Henrique, séc. XI) um direcionamento a se marcar com o sinal da cruz, nas orações da manhã, "os quatro lados do corpo", há uma razão para supor que significa o sinal maior com o qual hoje estamos familiarizados.
Neste período a maneira de o fazer no Ocidente parece ter sido idêntica à feita atualmente no Oriente, isto é, apenas três dedos sendo usados, e a mão indo do ombro direito para o esquerdo. O assunto, deve-se confessar, não é de todo claro e Thalhofer (Liturgik, I, 633) é inclinado para a opinião de que nas passagens de Belethus (xxxix), Sicardus (III, iv), Inocêncio III (De myst. Alt., II, xlvi), e Durandus (V, ii, 13), aos quais comumente se apela em prova disso, estes autores tivessem em mente a pequena cruz feita na testa ou sobre objetos externos, em que a mão naturalmente se move da direita para a esquerda, e não a grande cruz feita de um ombro a outro. Ainda, uma rubrica numa cópia manuscrita do Missal de York claramente requer que o padre, quando se assinalar com a patena, toque o ombro esquerdo depois do direito. Além disso é ao menos claro, por muitas pinturas e esculturas, que no séc. XI e XII a prática grega de estender apenas três dedos foi seguida por muitos cristãos latinos. Assim o compilador do Ancren Riwle ("Guia para Monjas", por volta do ano 1200) ensina suas freiras a fazer uma pequena cruz da testa ao peito com três dedos ao "Deus in adjutorium". Todavia pode haver uma pequena dúvida se muito antes do fim da Idade Média o sinal maior era mais comumente feito no Ocidente com a mão aberta e com a barra da cruz sendo traçada da esquerda para a direita. No "Myroure of our Ladye" ("Espelho de Nossa Senhora", p. 80, provavelmente escrito no séc. XV) as Monjas Brigidinas de Sião deram uma razão mística para a prática: "Abençoai-vos com o sinal da santa cruz, para afugentar o demônio com seus embustes. Pois, como disse Crisóstomo, em qualquer lugar que os demônios vêem o sinal da cruz eles fogem, temendo-o como uma vara com a qual são derrotados. E nesta bênção começai com a mão na cabeça, descendo, e da esquerda, crendo que nosso Senhor Jesus Cristo desceu da cabeça, ou seja do Pai, para a terra pela sua santa Encarnação, e da terra para a esquerda, que é o inferno, pela sua dolorosa Paixão, e daí para a direita do Pai pela sua gloriosa Ascensão".

O ato manual de traçar a cruz com a mão ou o polegar tem sido comumente, em todas as eras, embora não necessariamente, acompanhado por uma forma de palavra. A fórmula, contudo, tem mudado muito. Nos tempos mais antigos temos evidência de tal invocação como "O sinal de Cristo", "O selo do Deus vivo", "Em nome de Jesus", etc. Depois encontramos "Em nome de Jesus de Nazaré", "Em nome da Santíssima Trindade", "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", "O nosso auxílio está no nome do Senhor", "Vinde, ó Deus, em meu auxílio". Membros da Igreja Ortodoxa Grega quando se benzem com três dedos, como explicado acima, comumente usam a invocação: "Santo Deus, Santo Forte, Santo Imortal, tende piedade de nós", palavras essas, como bem se sabe, que são usadas na forma grega pela Igreja Ocidental no Ofício da Sexta-feira Santa.
Sacerdote de Rito Romano abençoando fiéis no fim da Missa

É desnecessário insistir sobre os efeitos de graça e poder atribuídos pela Igreja em todos os tempos ao uso do santo sinal da cruz. Desde o período mais antigo é empregado em todos os exorcismos e conjurações como arma contra os espíritos das trevas, e tem lugar não menos firme no ritual de todos os sacramentos, em todas as formas de bênção e consagração. Uma famosa dificuldade é a sugerida ao se fazer o sinal da cruz repetidamente sobre a Hóstia e o Cálice depois de ditas as palavras da instituição da Missa. A verdadeira explicação é provavelmente encontrada no fato de que no tempo em que essas cruzes foram introduzidas (variam muito nas cópias primitivas para terem sido de instituição primitiva), o clero e os fiéis não se perguntavam claramente em que preciso momento a transbustanciação dos elementos era efetivada. Eles estavam satisfeitos em crer que era o reultado de toda a oração consagratória que chamamos de Cânon, sem determinar o momento exato em que as palavras eram operativas; assim como estamos satisfeitos em saber que o Precioso Sangue é consagrado por todas as palavras ditas sobre o cálice, sem pararmos para refletir se todas são necessárias. Por isso os sinais da cruz continuam até o fim do Cânon e podem ser consideradas como mentalmente referentes a uma consagração tida como ainda incompleta. O processo é o inverso daquele na Igreja Grega durante a "Grande Entrada", a maior honra tributada aos simples elementos do pão e do vinho, antecipando a consagração que receberão pouco depois.

Thurston, Herbert. "Sign of the Cross." The Catholic Encyclopedia. Vol. 13. New York: Robert Appleton Company, 1912. 23 Oct. 2010.

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Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Por um novo movimento litúrgico

O Pe. Barthe acaba de lançar uma pequena bomba que se chama, sem precauções inúteis, “la messe à l`endroit” (a missa no seu lugar). Sabe-se que foi o escritor Paul Claudel que no Le Figaro littéraire, desde 1955, escreveu “la messe à l`envers” (missa ao inverso), um artigo trovejante para estigmatizar o que na época não eram mais que experiências litúrgicas...

Bem, hoje o Pe. Barthe quer “recolocar a missa no seu lugar”. E ele considera que se apóia em uma grande corrente, que se designa na Igreja como a corrente da “reforma da reforma”.

Explicações:

1. Sua última obra (1) nos um pega um pouco de surpresa, pois nós o conhecemos como um sagaz defensor da Missa Tradicional, e agora aqui o senhor se preocupa com a Missa dita “de Paulo VI”. Por que esse interesse de sua parte?

A participação na defesa de uma, ao contrário, jamais me impediu de preocupar-me com a transmutação da outra, a de Paulo VI. Em 1997, vinte anos antes do Motu Proprio, eu publiquei um livro de entrevistas: Reconstruire la liturgie. Entrevistas sobre o estado da liturgia nas paróquias (2), cujo tema era exatamente o desse livro. Está claro que o Motu Proprio de 2007 deixou dinâmica esta proposta, que consiste em observar que as duas críticas paralelas das mudanças operadas por Paulo VI - a saber, a crítica frontal que quer promover uma larga difusão da liturgia anterior dita de São Pio V, e a crítica reformista, dita reforma da reforma, que quer operar uma mudança do interior da liturgia de Paulo VI - são mais do que nunca associadas. O projeto de reforma da reforma não pode realizar-se sem a coluna vertebral que se constitui na celebração mais ampla possível segundo o missal tradicional; esta última não pode esperar se reinserir massivamente nas paróquias ordinárias sem a recriação de um meio vital operado pela reforma da reforma.

2. Os integristas da “forma extraordinária” pensam que o Missal de Paulo VI não pode ser salvo e que seria preciso se livrar dele, enquanto o senhor pensa que ele é reformável e ainda que se pode enriquecê-lo. Como?

Eu penso primeiramente que é totalmente irrealista crer que se pode com um passe de mágica fazer que, em todas as paróquias do mundo, todas as missas sejam celebradas segundo o uso antigo. Por outro lado, eu constato com muitas outras pessoas, entre as quais as principais estão altamente colocadas, que o missal de Paulo VI contém uma quase infinita possibilidade de opções, de adaptações e de interpretações, e que uma escolha progressiva, ou sistemática, ou sistematicamente progressiva, das possibilidades tradicionais que ele oferece, torna possível, no terreno paroquial, e perfeitamente legal (segundo a letra da lei, já que não segundo seu espírito), sua “retradicionalização”. Aliás, uma simples constatação: numerosos padres de paróquias (eu elaborei uma lista rápida para a França, que evitarei cuidadosamente publicar, mas que é impressionante) praticam esta reforma da reforma, muitas vezes por etapas, e na maioria dos casos celebrando também a missa tradicional. Para responder então à sua questão, eu diria que eu creio que a liturgia romana pode ser salva, o que acontece, como se pode constatar concretamente, por uma ação a duas velocidades: difusão do rito de São Pio V; reforma da reforma. Esta permitirá, lembrando um célebre discurso de Paulo VI em sentido inverso, abandonar progressivamente tudo o que na sua reforma já é velho, fora de moda, porque não é tradicional. Nós veremos bem o que será salvo após esta operação...

3. O senhor nos faz descobrir uma parte bastante desconhecida da história litúrgica desses quarenta últimos anos. Enquanto os partidários da Missa antiga não se preocupam muito em reformar o novo Missal, os adeptos “moderados” deste último, uma corrente muito minoritária, é verdade, não cessaram de propor sua reforma. O senhor poderia nos descrever brevemente esta posição?

É a história do que nós poderíamos chamar “a crítica reformista do novo missal”. Brevemente, e para falar somente da França, nós podemos recordar que um teólogo como Louis Bouyer, que tinha participado ativamente da reforma conciliar, rapidamente entrou em oposição com certo número de seus aspectos (o sentido da celebração). A abadia de Solesmes e em diversos graus algumas de suas filhas, aceitaram a reforma, mas mantendo todo o latim e todo o gregoriano. A Comunidade Saint-Martin, de Dom Guérin, optou também pelo Missal de Paulo VI, mas segundo uma interpretação mais tradicionalizante. Dom Maxime Charles, reitor da basílica de Montmartre, em seguida o padre Michel Gitton, por algum tempo pároco de Saint-Germain Auxerrois em Paris, seu principal herdeiro espiritual, tiveram por linha a preservação do que parecia poder ser preservado em meio às ruínas. E sobretudo, houve o fenômeno Ratzinger. Já, em 1966, Joseph Ratzinger tinha intervindo de maneira muito severa ao Katholikentag de Bamberg a propósito da reforma em curso. O combate contra aquilo que ele pensa ser um “falso espírito de Concílio” tornou-se, por assim dizer, substancial àquele que se tornou Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1981, e depois papa em 2005. Ora, em matéria de liturgia, Joseph Ratzinger ia muito mais longe que os outros reformistas. Sabe-se hoje que ele tinha organizado em Roma uma reunião de cardeais, em 16 de novembro de 1982, a “respeito de questões litúrgicas”, conseguindo que todos os prefeitos das Congregações presentes na reunião afirmassem que o Missal Romano, antigo, devia ser “admitido pela Santa Sé em toda a Igreja para as missas celebradas em latim”. Em 1982: um quarto de século exatamente antes do Motu Proprio Summorum Pontificum.

4. A sua obra tem como subtítulo “Um nouveau mouvement liturgique” (Um novo movimento litúrgico). É um voto piedoso ou a constatação que ao redor de Bento XVI, que parece ser a ponta da lança desta “reforma da reforma”, se constitui um grupo influente de prelados e de clérigos que pretendem, senão de levá-la ao fim sem interrupção, ao menos, começá-la efetivamente?

Justamente, apoiando-se sobre os textos de Joseph Ratzinger (Diálogo sobre a fé; Minha vida; O Espírito da liturgia; Um canto novo para o Senhor; A celebração da fé) e em sua autoridade, se constituiu uma nova geração de teólogos, de historiadores do culto divino, de responsáveis muitas vezes de alto nível. Eles formam hoje o grupo de pensadores da reforma da reforma. Um “novo movimento litúrgico”, como o Papa gosta de dizer, e de sustento do Motu Proprio.

Dito isto, nenhum dentre eles, e especialmente o primeiro dentre eles, o Papa, não pretendem promover uma reforma da reforma pelos textos, por decretos, e a fortiori pela edição de um novo Missal fundido, um missal Bento XVI que se acrescentaria aos missais de Pio V e Paulo VI, mas eles querem proceder pelo exemplo, pela exortação, pela educação, e, sobretudo, para evocar o tema de São Paulo da Epístola aos Romanos, provocando uma sadia “inveja” da forma hoje dita “ordinária” em relação à forma “extraordinária”. É, aliás, uma característica da restauração ratzingueriana desde 1985: ela busca mudar o curso da evolução das coisas conciliares, porém de maneira exortativa e não coercitiva. É assim. A reforma da reforma existe já num grande número de paróquias. Basta então encorajá-la, estendê-la e, sobretudo, fazê-la passar ao nível diocesano. Conviria que no lugar de ser somente uma ação dos párocos na base e do Papa no cume, ela seja posta em prática pelos bispos. Imagine o efeito prodigioso da restauração, não somente litúrgica, mas de tudo o que acompanha a liturgia - vocações, doutrina, catecismos, renovação da prática - que produziria o fato de um bispo, depois dois, depois três..., voltar versus Dei o altar de sua catedral, restabelecer nela a comunhão de joelhos, reintroduzir nela o latim e o gregoriano, aí fazer celebrar regularmente a missa tradicional. Eu insisto: este projeto de reforma da reforma não pode se realizar sem a celebração mais extensa possível segundo o missal tradicional; e inversamente, esta tem necessidade para existir nas paróquias comuns de um estado de espírito de retorno às fontes tradicionais representada pela reforma da reforma.

Os grandes responsáveis favoráveis a este “novo movimento litúrgico” evocam também com muito prazer: a diminuição do número de concelebrantes e mesmo de concelebrações; a redução do número das orações eucarísticas, cuja variedade revela uma situação preocupante, tanto quanto mais que sua qualidade e conveniência teológica estão às vezes no limite do suportável (3); a reintrodução dos elementos da missa tradicional nas múltiplas “lacunas” rituais da forma Paulo VI (genuflexões, ósculos no altar, os antiqüíssimos sinais da cruz do Cânon); a substituição das missas reunindo massas enormes de fiéis, onde o culto se torna uma manifestação, certamente de intenção piedosa porém muito pouco litúrgica, por horas-santas, bênçãos do Santíssimo Sacramento; a restituição do sinal da paz como ação sacra e não um sinal de civilidade burguesa; etc, etc.

Este livro atrai, aliás, numerosas reações favoráveis de padres. Todas as idéias retificadoras são boas desde que sejam colocadas em prática e que elas não fiquem apenas no nível das boas intenções. Elas emanam maciçamente de pastores que, no terreno paroquial, se tornaram bi-ritualistas. Quarenta anos após esta revolução sem precedentes na história do rito romano, que foi a reforma de Paulo VI, e no meio das ruínas de uma secularização do mundo católico que ela “no mínimo” não impediu, é patente que existe um clima de retorno ainda minoritário, mas que não pede senão para crescer. Bem entendido, a liturgia é somente um de seus aspectos, mas, pela natureza do que é a liturgia, ele é um aspecto bastante significativo.

1. Claude Barthe, La Messe à l?endroit. Un Nouveau mouvement liturgique, coll. Hora Decima, Éditions de L?Homme Nouveau, 102 p., 9?.

2. François-Xavier de Guibert.

3. Cardinal Ratzinger, La célébration de la foi, Téqui, 1985, pp. 72-73.

Entrevistado por Daniel Hamiche

Fonte:
Tradução do original em:
http://www.revue-item.com/3706/%C2%ABpour-un-nouveau-mouvement-liturgique%C2%BB/

Pe. Claude Barthe celebrando a Missa na Forma Extraordinária
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Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 19 de outubro de 2010

São Paulo da Cruz e a Santa Missa


Pax et bonum!

Hoje, 19 de outubro, Dia do Piauí, há a memória facultativa de São Paulo da Cruz.
Este grande Santo, fundador da Congregação da Paixão de Jesus Cristo, comumente conhecidos como os passionistas, nasceu com o nome de Francisco Danei Massari, em Ovada, Itália, aos 3 de Janeiro de 1694.
Apaixonado pela Paixão de Cristo, dedicou-se a uma vida de solidão e pobreza e idealizou a fundação de uma congregação.
Foi ordenado sacerdote pelas mãos do Papa Bento XIII em 07/06/1727, na Basílica de São Pedro, onde futuramente foi canonizado, em 1866, pelo Papa Pio IX.
As Regras foram aprovadas pelo Papa Bento XIV em 1741.
Gostaria de transcrever algumas passagens de uma biografia sua, em que se fala de seu amor zeloso pela Sagrada Liturgia.
Há quem tente identificar o zelo pelas rubricas com um espírito distante do amor ao próximo ou superficial na vida espiritual. Neste caro Santo encontramos o contrário: uma profunda caridade para com o próximo, aliada a uma vida intensamente mística e um zelo ardente pela Sagrada Liturgia. Seja ele um modelo para todos os sacerdotes de Cristo! Eu diria que esta é a forma mais completa e autêntica da ARS CELEBRANDI!
São Paulo da Cruz, rogai por nós!

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O SANTO NO ALTAR

O nosso santo é, pois, sacerdote!... Vai tomar nas mãos o sangue do Cordeiro divino e oferecer a Vítima imaculada... Tudo eram transportes de alegria e êxtases de amor... (...)

Imaginemos com que fé e amor subiria Paulo ao altar!

Apesar de absorto nos augustos mistérios, cumpria escrupulosamente as cerimônias, nada julgando de somenos nas coisas de Deus. Inflamava-se-lhe paulatinamente o rosto e lágrimas copiosas umedeciam os paramentos sagrados. Com o decorrer dos tempos, diminuíram as lágrimas, particularmente nas aridezes e desolações espirituais. Porém, jamais deixou de chorar depois da Consagração.

Qual a fonte misteriosa e inesgotável dessas lágrimas? Ouçamo-lo em palestra com seus filhos
Acompanhai a Jesus em sua Paixão e Morte, porque a missa é a renovação do Sacrifício da Cruz. Antes de celebrardes revesti-vos dos sofrimentos de Jesus Crucificado e levai ao altar as necessidades de todo o mundo.

Quando celebrava, afigurava-se-lhe estar no Calvário, ao pé da Cruz, em companhia da Mãe das Dores e do Discípulo predileto, a contemplar Jesus em suas penas. Essa a causa de tantas lágrimas, verdadeiro sangue da alma que, mesclado com o Sangue divino do Cordeiro, eram oferecidas ao Eterno Pai para aplacá-Lo e atrair sobre os homens graças e benefícios.

Revestir-se de Jesus Crucificado antes do santo Sacrifício, Paulo o fazia diariamente, pois não subia ao altar seu macerar com disciplina terminada em agudas pontas, enquanto meditava a dolorosa Paixão do Senhor, unindo-se espiritual e corporalmente aos tormentos do seu Deus. Terminada a santa missa, retirava-se a lugar solitário, entregando-se aos mais vivos sentimentos de gratidão e amor.

E prescreveu nas santas Regras este método de preparação e ação de graças à santa missa.

Ao comentar as palavras do Evangelho COENACULUM STRATUM, dizia ser o cenáculo o coração do padre, cuja integridade deve ser defendida a todo custo, mantendo-se sempre acesas as lâmpadas da fé e da caridade. Comparava também o coração sacerdotal ao sepulcro de N. Senhor, sepulcro virgem, onde ninguém fora depositado. E acrescentava:
O coração do sacerdote deve ser puro e animado de viva fé, de grande esperança, de ardentíssima caridade e veemente desejo da glória de Deus e da salvação das almas.
Zeloso da rigorosa observância das rubricas, corrigia as menores faltas. Velava outrossim pelo asseio das alfaias sagradas.
Tudo o que serve ao santo Sacrifício, dizia, deve ser limpo, sem a menor mancha.
Vez por outra mostrou N. Senhor com prodígios quão agradável lhe era a missa celebrada pelo seu fiel servo.

Celebrava certo dia na capela do mosteiro de Santa Luzia, em Corneto. Tinha como ajudante o ilustre personagem Domingos Constantini. Pouco antes da Consagração, envolveu-o tênue nuvem de incenso, embalsamando o santuário de perfume desconhecido, enquanto o santo se elevava a cerca de dois palmos acima do supedâneo. Terminada a Consagração, envolto sempre naquela misteriosa nuvem, alçou-se novamente ao ar, com os braços abertos. Dir-se-ia um Serafim em oração.

O piedoso Constantini de volta à casa, maravilhado, relatou o fato, glorificando a Deus, tão admirável nos seus santos.

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Fonte: Pe. Luís Teresa de Jesus Agonizante, Vida de São Paulo da Cruz, Capítulo XII.

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 16 de outubro de 2010

Oportet vivere

Pax et bonum!

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É PRECISO VIVER

Chegamos, amados, à última etapa ou perspectiva do Mistério Eucarístico, nessa série de textos pelos quais desejamos aprofundar aquilo que foi celebrado no II Congresso Eucarístico Arquidiocesano.
A Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força”, reza o Concílio Vaticano II. Eis a razão pela qual não podemos separar os três aspectos da fé, da celebração e da vivência.
Sabemos que os Sacramentos “alimentam, fortificam e exprimem” a fé, como reza ainda o Concílio. Esta é a razão pela qual começamos pela fé e passamos para a celebração a fim de chegarmos à prática. É igualmente um “amor sólido, prático” que se pede numa muito conhecida oração atribuída a São Padre Pio de Pietrelcina, santo de uma vida eucarística totalmente admirável.
O “viver” é uma resposta à graça de Deus doada e é o culto genuíno que oferecemos no altar do coração, no cotidiano, no ordinário da vida, “sendo o essencial da religião imitar aquele que adoras”, como diz Santo Agostinho. Ora, é-nos muito familiar a afirmação de São Tiago: “Assim como o corpo sem a alma é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2,26).
Na quinta-feira santa o Senhor lavou os pés aos apóstolos e disse: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15). Na Liturgia compreendemos que este exemplo abrange muito mais do que o lava-pés. Toda a nossa vida deve se espelhar na vida do Redentor. Por isso, não são apenas as orações da Liturgia que devem ser feitas em nome de Cristo, mas “tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3,17).
É necessário, com efeito, viver sempre em Cristo, dedicar-se todo a ele, a fim de que nele, com ele e por ele, se dê glória ao Pai”, relembra-nos Pio XII na Encíclica Mediator Dei. Isso é possível através de tudo quanto assimilamos da vida do Redentor, na nossa, pela Divina Eucaristia.
O mundo deve reconhecer-nos como cristãos pela fé que professamos, pelo culto que prestamos e pela vida irrepreensível que devemos ter aos olhos de Deus e dos homens.
Glória ao mesmo Cristo do Céu, da Virgem e do Sacrário!

Luís Augusto Rodrigues Domingues (publicado na edição nº 163, de 17/10/2010)