domingo, 28 de novembro de 2010

Perguntas sobre o Advento

Pax et bonum!

Fiz, rapidamente, um elenco de questões sobre o Advento. Espero que sejam proveitosas para muitos.
Ainda tentarei atualizar a postagem com passagens da Sagrada Escritura, dos Padres da Igreja e da Liturgia para enriquecer as respostas.

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Por que Advento?
Advento significa literalmente vinda ou chegada. Interessante como lembra oportunamente Epifania: chegada, manifestação, aparição.

Sim, mas vinda ou chegada de quem?
Vinda de Jesus Cristo. A primeira, quando de sua Encarnação, e a segunda, no fim dos tempos, cujo dia e hora não sabemos.

Encarnação... quando ele nasceu da Virgem Maria, correto?
Exatamente. Nós comemoramos o Natal de nosso Senhor Jesus Cristo em 25 de dezembro. Esta é a razão pela qual, nove meses antes, ou seja, a 25 de março, se comemora a Anunciação do Senhor, quando iniciou a gravidez de Nossa Senhora.

Então ele nasceu mesmo em 25 de dezembro, não é?
Não. Não se pode precisar bem o que motivou a escolha do dia, mas a festa pagã do nascimento do Sol certamente teve influência. Passando dos mitos para a verdade, a festa que celebrava a criatura deu lugar a uma festa onde se celebra o Criador. Se o culto era ao sol material (o astro), agora é dirigido ao Sol de Justiça, que é Cristo.

É tão importante assim celebrar o nascimento de Cristo?
Com certeza. Se fazemos questão de celebrar anualmente a passagem dos anos de nosso amigos e familiares, quanto mais recordar a humildade de Deus em seu aniquilamento, ao assumir para si a vida de sua criatura. Por isso importa que nos preparemos para esta Solenidade.

E esta segunda vinda, o que é?
O Senhor prometeu que viria uma segunda vez, na qual julgará os vivos e os mortos. É desta segunda vinda, ou desta volta, que falamos.

Com certeza ela está próxima!
Sabe-se somente que ela se aproxima sempre, mas, diferente de seitas e falsas crendices, não podemos estipular o ano, o mês, o dia e muito menos a hora. Se amanhã, depois, daqui a alguns anos, poucos ou muitos, importa que nos preparemos.

Fala-se em preparação. Como nos prepararmos?
Tratando-se de realidades que são, sobretudo, espirituais, assim também deve ser nossa preparação. É tempo de meditar bem sobre essas duas vindas de Cristo e nos corrigirmos. Que tal uma Confissão?

O que muda na Igreja com o Advento?
Primeiramente o Advento marca o início do novo Ano Litúrgico (ano eclesiástico). O Ano Litúrgico é uma sequência de tempos que se repete dentro do ano civil, mas não na ordem deste, durante o qual celebramos os mistérios da vinda de Cristo,sobretudo aqueles dois que constituem os pólos ou ciclos basilares: o Natal e a Páscoa, sendo este último o mais importante de todos.

Mas na minha Paróquia a Missa do Natal tem muito mais pessoas que a Missa da Páscoa!
Sinal de que nosso povo é muito religioso, mas pouco cristão e muito menos eclesial.

Então os católicos deveriam festejar o reveillon antes?
A mudança do Ano Litúrgico nada tem a ver com "virada" ou "reveillon". Veja que o ano não muda num momento de festa, mas inicia com um tempo de sobriedade, silêncio, penitência, oração e expectativa.
Voltamos ao Ano A (há um ciclo de três: A, B e C), no qual lemos sobretudo o Evangelho segundo São Mateus, nos domingos e festas.

Algo mais muda na Igreja?
Os paramentos dos ministros sagrados (subdiácono, diácono, presbítero e bispo) são de uma cor diferente: é o roxo. Não se canta o Glória. Não se ornamenta a Igreja com flores. E o órgão, ou outros instrumentos, são usados apenas para sustentar o canto.

Ouvi dizer que o roxo é da Quaresma e que no Advento se deveria usar uma cor mais branda, como o lilás.
Essas "instruções" não partem do magistério da Igreja. São achismos e invencionices. O Missal Romano, ao falar da cor do Advento e da Quaresma, usa apenas um nome: o roxo, sem fazer a mínima distinção.

Ouvi dizer que há sacerdotes que usam a cor rosa. Isso não é estranho?
Para a Igreja o rosa não é uma cor feminina. É uma cor que denota uma alegria especial, alegria esperançosa. É usada no penúltimo Domingo do Advento (Terceiro dos 4) e no penúltimo Domingo da Quaresma (Quarto dos 5), simbolizando a alegre ansiedade voltada para a Solenidade que será celebrada (Natal e Páscoa, respectivamente).

Por que não se canta o Glória?
Este hino já se inicia com as palavras dos anjos na noite do Natal! Ele se dirige, na sua maior parte, a Cristo, o Santo, Senhor e Altíssimo, de modo presente, Deus que se encarnou, nasceu, viveu, morreu, ressuscitou e subiu aos céus. Tudo indica que foi inicialmente cantado no Natal e somente depois passou para outros domingos e festas. Como os tempos de preparação (Advento e Quaresma) guardam as alegrias para as Solenidades que virão, o Glória não é cantado.

Na minha Paróquia tiraram as velas do altar e puseram quatro num lugar especial. O que é isso?
As 4 velas num lugar separado, à vista de todos, normalmente, é a chamada Coroa do Advento. Comumente são dispostas em círculo (coroa) e adornadas com folhas verdes. Usa-se três velas roxas e uma rosa, em muitos lugares. Sua finalidade, como veremos, é diferente da finalidade das velas do altar (que sempre devem ser pelo menos duas), logo não as podem substituir.

E essa Coroa do Advento veio de onde e serve para quê?
Provavelmente veio de costumes germânicos, há vários séculos, provavelmente originados no folclore, e mesmo em usos pagãos. Teoricamente simbolizava a espera por luz e calor, pois no hemisfério norte o período em questão é frio. Entre os cristãos demarca a semana corrente do Advento e simboliza nossa espera pelo Senhor. Uma vela é acesa a cada domingo.

Fizeram errado na paróquia vizinha! Não estão usando a Coroa do Advento.
Nada há de errado nisso, uma vez que a Coroa do Advento nem mesmo é citada nos livros litúrgicos. Trata-se de algo mais da piedade popular. Não é obrigatória.

Um conhecido meu, que é de outra igreja, disse que nós católicos guardamos costumes dos pagãos e que somos idólatras!
O que os cristãos muitas vezes fizeram foi converter festas e costumes pagãos, assim como converteram os próprios pagãos.
No dia 25 de dezembro nenhum católico adorará um imperador de Roma ou o sol nascendo pela manhã.
Pelo uso da Coroa do Advento nenhum católico espera que divindades da natureza venham mudar a estação ou trazer sorte ou outras coisas.
Não há nada desse suposto paganismo naquilo que foi inserido no culto cristão. Tudo aí está relacionado ao culto do único e verdadeiro Deus - a Santíssima Trindade.

Tenho que fazer abstinência e jejum no Advento?
Todas as sextas-feiras do ano são dia de penitência em que se deve fazer abstinência, quando nelas não cai nenhuma solenidade. Quanto ao jejum, ele já foi obrigatório há muitos séculos atrás, mas desde alguns tempos não é mais. O Advento, todavia, é, sim, um tempo propício para mais penitências e mortificações, embora não traga um caráter tão penitencial como a Quaresma.

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Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 27 de novembro de 2010

O Tempo do Advento

Caros filhos, eis chegado o tempo tão importante e solene que, conforme diz o Espírito Santo, é o momento favorável, o dia da salvação (cf. 2Cor 6,2), da paz e da reconciliação. É o tempo de que outrora os patriarcas e profetas tão ardentemente desejaram com seus anseios e suspiros; o tempo que o justo Simeão finalmente pôde ver cheio de alegria, tempo celebrado sempre com solenidade pela Igreja, e que também deve ser constantemente vivido com fervor, louvando e agradecendo ao Pai eterno pela misericórdia que nos revelou nesse mistério. Em seu imenso amor por nós, pecadores, o Pai enviou seu Filho único a fim de libertar-nos da tirania e do poder do demônio, convidar-nos para o céu, revelar-nos os mistérios do seu reino celeste, mostrar-nos a luz da verdade, ensinar-nos a honestidade dos costumes, comunicar-nos os germes das virtudes, enriquecer-nos com os tesouros da sua graça e, enfim, adornar-nos como seus filhos e herdeiros da vida eterna.
Celebrando cada ano este mistério, a Igreja nos exorta a renovar continuamente a lembrança de tão grande amor de Deus para conosco. Ensina-nos também que a vinda de Cristo não foi proveitosa apenas para os seus contemporâneos, mas que a sua eficácia é comunicada a todos nós se, mediante a fé e os sacramentos, quisermos receber a graça que ele nos prometeu, e orientar nossa vida de acordo com os seus ensinamentos.
A Igreja deseja ainda ardentemente fazer-nos compreender que o Cristo, assim como veio uma só vez a este mundo, revestido da nossa carne, também está  disposto a vir de novo, a qualquer momento, para habitar espiritualmente em nossos corações com a profusão de suas graças, se não opusermos resistência.
Por isso, a Igreja, como mãe amantíssima e cheia de zelo pela nossa salvação, nos ensina durante este tempo, com diversas celebrações, com hinos, cânticos e outras palavras do Espírito Santo, como receber convenientemente e de coração agradecido este imenso benefício e a enriquecer-nos com seus frutos, de modo que nos preparemos para a chegada de Cristo nosso Senhor com tanta solicitude como se ele estivesse para vir novamente ao mundo. É com esta diligência e esperança que os patriarcas do Antigo Testamento nos ensinaram, tanto em palavras como em exemplos, a preparar a sua vinda.

Das Cartas Pastorais de São Carlos Borromeu, Ofício das Leituras da Segunda-feira da I Semana do Advento

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Capítulo VI traduzido (Liturgia - princípios fundamentais)

Pax et bonum!

Terminei hoje (pela madrugada) a tradução do sexto capítulo de "Liturgia - princípios fundamentais", obra de D. Gaspard Lefebvre.

Título:

VI - O SANTO SACRIFÍCIO DA MISSA

Este capítulo não apresenta subdivisões. Eis a razão da ausência de tópicos.

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Uma reflexão sobre a Liturgia celebrada "ad orientem"

Pax et bonum!

Peço perdão a todos por não ter podido postar nada sobre o Consistório, nem sobre Cristo Rei, nem sobre a Vigília pela vida humana nascente (pedida pelo papa para este dia 27, sábado).
Encontrei, porém, um texto muito interessante e recente (06/11/10) na internet, que mostra um pouco do panorama de apego a costumes, desconhecimento da tradição, benefício das práticas tão recomendadas no contexto de Reforma da Reforma e excesso de temor nos sacerdotes.
O texto fala da primeira experiência de um padre quanto a celebrar voltado com o povo para a mesma direção. Traz um belo cume, mas termina de modo, diria, "infeliz".
Não culpo o autor do desabafo (Pe. Richard Simon, Paróquia de Saint Lambert, Skokie - Illinois, EUA). Diria que se trata de um daqueles textos que nos interpelam (sobretudo os padres), pedindo de nós uma atitude concreta, que nos retire da estagnação.
O Novo Movimento Litúrgico, sua necessidade e atitudes, é uma realidade tanto na base como no topo da hierarquia. Todavia há resistências (e não poucas), por diversos motivos.
Desejo, pois, uma boa leitura.
Deus abençoe com coragem, prudência e caridade o Pe. Richard (o "Pe. Sabetudo", ou no original: Reverend Know-it-all) e tantos outros sacerdotes que se encontram receosos de colaborar com o Santo Padre, com medo (constato-o com tristeza) do povo ou de seus bispos.

***

Ao contrário do usual "Pe. Sabetudo" desta semana, eu gostaria de partilhar algumas reflexões sobre uma recente experiência. Ao fim de uma conferência sobre os Padres da Igreja, eu rezei a forma ordinária da Missa, o chamado Novus Ordo, em inglês. Não foi diferente de nenhuma outra Missa no Novus Ordo, a não ser por uma exceção.

Para o Ofertório, o Cânon e o Pai nosso eu fiquei voltado para o altar e não para a assembleia. Eu rezei as orações iniciais da cadeira do presidente, onde permaneci para as leituras. Usei um microfone, como de costume. Rezei, então, o Credo e as orações dos fiéis, desci para receber as oferendas do pão e do vinho e, então, voltei-me diretamente para o altar, não indo ficar do outro lado dele. O diácono e eu nos voltamos para a assembleia para o "Orai, irmãos e irmãs..." Voltei-me para ela novamente para a saudação da paz e depois para o "Felizes os convidados..." Depois da distribuição da Sagrada Comunhão, retornei para a cadeira do presidente e terminei a Missa como de costume. A música foi muito simples, com um pouco de órgão, a maior parte com canto plano em inglês, um pouco de latim nas partes ordinárias da Missa, todas as orações e leituras em inglês. Avisei a assembleia que faria isso essa vez apenas como parte da conferência que estávamos tendo na paróquia. Não estive voltado para a assembleia por cerca de 14 dos 55 minutos, ao todo.
Fiz isso como uma experiência. Suspeitei que os Padres do Concílio Vaticano II nunca imaginaram a Missa voltada para o povo. Eu queria saber como a Missa do Vaticano II realmente devia se parecer: um pouco de inglês, de latim, canto gregoriano, canto sem instrumento e um equilíbrio quanto a voltar-se para o povo, ao me dirigir a ele, e voltar-se para o altar, ao me dirigir ao Pai. Penso que seja isso o que é indicado pelas rubricas do Missal quando se fala de seus momentos da Missa em que o padre deve se voltar para a assembleia:

1) Na saudação inicial (IGMR 124);
2) Ao fazer o convite para a oração dizendo: "Orai, irmãos e irmãs..." (IGMR 146);
3) Ao fazer a saudação da paz (IGMR 154);
4) Ao apresentar a Hóstia e o Cálice antes da comunhão dizendo: "Felizes os convidados..." (IGMR 157);
5) Ao convidar o povo para rezar antes da Oração depois da Comunhão (IGMR 165);
6) Ao dar a bênção final (Ordo Missae 141).

O fato de essas rubricas existirem parece assumir que o sacerdote não esteja voltado para a assembleia durante algum tempo na liturgia.

Depois da Missa, os comentários foram variados. Alguns amaram, uma boa parte não gostou e alguns ficaram zangados. Particularmente, alguém zangado apontou para mim e dizia que "o Papa mandou uma carta a todos os padres mandando-lhes ficar de frente para o povo". Ora, como é que você pode provar algo que jamais aconteceu? Roma nunca disse nada sobre ter que ficar de frente para o povo durante a Missa. Deve-se fazê-lo apenas seis vezes. É um dos grandes mistérios do nosso tempo: por que, da noite para o dia, a maioria dos altares nas igrejas católicas foram virados?

Houve certas experiências nos anos 50 por pessoas como Balthasar Fischer, baseado na ideia de que os primeiros Cristãos celebravam a Missa de frente para a assembleia. De acordo com o Dicionário Oxford da Igreja Cristã, o costume de não ficar voltado para o povo se originou no clero franco por volta do ano 700 ou 800. Eu queria saber por que escrevem isso.

Por duas razões, eu fiquei em dúvida se a Missa sempre foi celebrada completamente de frente para a assembleia. Voltar-se para o oriente, o que normalmente significa ficar de costas para o povo, é a postura comum na oração litúrgica da tradição Bizantina, Siríaca, Armênia, Copta e Etíope. Ainda é o costume na maior parte dos ritos orientais, pelo menos durante a Oração Eucarística. Fazem-no desde tempos imemoriais até hoje. Não teriam feito isso só para se adaptar aos bárbaros francos do ocidente, 700 anos depois de Cristo. Este costume da assembleia e do sacerdote estarem voltados para a mesma direção na oração tem sido universal até 1967. Os primeiros Cristãos foram judeus por um século depois de Pentecostes, pelo menos de acordo com o sociólogo Rodney Stark. Voltar-se para uma direção sagrada e não para a assembleia era normal nos serviços da sinagoga, de onde a Missa se desenvolveu. Os judeus ortodoxos ainda se voltam para o oriente, ou mais precisamente, para Jerusalém, e não para a assembleia em grande parte do serviço (culto). É um gesto natural.

Eu, todavia, queria não ter celebrado a Missa sem ser voltado para a assembleia, e não por causa da raiva dirigida a mim. Sou um padre católico. Estou acostumado a pessoas se zangando comigo. Eu queria não ter celebrado a Missa na postura que acredito ter sido a assumida pelos Padres do Concílio Vaticano II, porque esta foi uma das experiências mais belas da minha vida sacerdotal! Você não pode imaginar como foi dizer coisas como "nós", "Pai nosso", "para nós" de pé, à frente da assembleia, estando todos juntos numa expressão física de unidade. Não importa o quanto alguém possa argumentar em contrário: é impossível dizer "nós" enquanto se olha para 500 pessoas sem estar falando para elas.

A Missa é uma oração dirigida ao Pai, e não obstante a nossa melhor intenção, nós clérigos a dirigimos à assembleia, para onde estamos olhando. Não importa o que você faça. A face humana é algo muito poderoso. Último sábado, à noite, eu percebi pela primeira vez que eu sou parte de uma família de fé voltada para o mesmo Pai celeste. Eu senti como se fosse parte de uma Igreja em oração. Nunca tinha me dado conta do quanto é solitário celebrar a Missa de frente para o povo. E estou lá olhando para você, mas não sou parte de você. Já por 13 ou 14 minutos, você não estava olhando para mim. Estávamos olhando para Deus.

Amo a Missa Tridentina, ou como devemos chamar, a "forma extraordinária". Acho que o Santo Padre tem sido sábio ao permitir seu reavivamento para aqueles a quem ela tem seu significado. Seu senso de solenidade é muito bonito e consagra uma dimensão essencial do mistério do culto. Eu ensinei latim por 25 anos, eu entendo os complexos rituais da Missa antiga. Eles significam muito para mim. Ainda, não acho que se deveria retornar para o uso exclusivo do latim. Acho que os Padres Conciliares estavam certos sobre simplificar a Missa.

O Espírito Santo antecipou as dificuldades de nossos tempos. A simplificação dos belos e complexos gestos da Missa Trindentina é inteiramente apropriada aos tempos em que vivemos. No mesmo sentido deveria haver um balanço pastoral entre a língua comum e a "linguagem sagrada". As pessoas rezam melhor em sua própria língua-mãe. Lembremos que o latim era o vernáculo quando a Missa era em grego. O próprio latim foi uma concessão para a mente popular. Dito isto, nós clérigos deveríamos admitir que nós consagramos os abusos litúrgicos que estiveram no coração da rebelião contra a tradição. Nós ficamos estagnados nos anos 60 e nos tornamos incapazes de olhar para a hemorragia de nossas assembleias. Nós falhamos em inspirar o povo com um sentido de sagrado e sublime e gerações foram se perdendo do Senhor e do Evangelho.

Eu sei que a maioria das pessoas na minha assembleia se ofenderiam se eu começasse a ficar de frente para o altar regularmente, porque não estão acostumados a isso. Eu seria acusado de sectarismo ou de algum crime parecido, então acho que não vai dar certo. Mas de agora em diante, toda vez que eu celebrar a Missa olhando para a assembleia, e eles olhando para minha cara feia, eu me lembrarei de como poderia ser e de como deveria ser. Tenho medo de estar sendo um apresentador tanto quanto um sacerdote. Eu quero ser um sacerdote, mas o show deve continuar.



Obs: talvez os números citados da IGMR e do OM não correspondam com a edição brasileira ou mesmo com a latina na terceira edição (não verifiquei).

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 13 de novembro de 2010

Melodias oficiais do Missal Romano de Portugal

Pax et bonum!

Um caro irmão chamado Eder Cheloni partilhou [hoje] comigo, por email, um link com áudios de partes fixas do Ordo Missæ do Missal Romano usado em Portugal.
Encontrei o mesmo link também postado no blog Liturgia em Foco.
Recomendo a todos que têm parte no canto litúrgico. São melodias simples e que lembram melhor as melodias gregorianas. Notar-se-á certa diferença nalgumas partes do texto, mas diria que são perfeitamente adaptáveis aos textos usados no Brasil.


Link: Site do Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Raptor de Almas



São Josafá

Pax et bonum!

Passada já a conclusão da Assembleia Especial para o Oriente Médio, do Sínodo dos Bispos (10~24/10), celebramos hoje a memória de São Josafá. Tomemos o dia de hoje como um dia especial para implorar a Deus a unidade dos cristãos.

Nasceu em Wolodymyr, na Volynia (Ucrânia), em 1580, de pais ortodoxos, e é recordado como símbolo de uma Rússia ferida pelas lutas entre ortodoxos e uniatas. A diocese de Polock se encontrava na Rutênia, região que da Rússia passou em parte para o domínio do Rei da Polônia, Sigismundo III. A fé dos Polacos era católica romana, na Rutênia, pelo contrário, como no resto da Rússia, os fiéis pertenciam à Igreja Greco-Ortodoxa. Tentou-se uma união da Igreja grega com a latina. Manter-se-iam os ritos e sacerdotes ortodoxos, mas se restabeleceria a comunhão com Roma. Esta Igreja, dita "uniata", encontrou a aprovação do Rei da Polônia e do Papa Clemente VIII. Todavia, os ortodoxos acusavam de traição os uniatas, que não eram bem aceitos mesmo por católicos latinos. João Kuncevitz, que toma o nome de Josafá, foi o grande defensor da Igreja uniata. Aos 20 anos foi recebido entre os monges basilianos. Monge, prior, abade e finalmente arcebispo de Polock, empreendeu uma reforma dos costumes monásticos da região rutena, favorecendo assim a Igreja uniata. Mas em 1623, por causa de sua obra foi surpreendido por um grupo de ortodoxos que o assassinaram.

São Josafá, "mártir da unidade", foi apelidado por seus perseguidores de "raptor de almas", por pregar o amor à Sé de Pedro e conduzir muitos para a comunhão com a Igreja Católica Apostólica Romana. Infelizmente dizem hoje que a questão da igreja uniata tem perturbações políticas; falam de proselitismo e dizem que tem atrapalhado o diálogo entre Roma e o patriarcado de Moscou.

Diante de tantas coisas, cremos na santidade do intento deste santo pastor e pedimos a Deus que suscite novos pastores e fiéis desejosos da verdadeira unidade dos cristãos, que não se trata simplesmente de misturar pessoas, dogmas e práticas em diálogos superficiais, que não são realizados plenamente na caridade e na verdade.

Rezemos (as 6 Orações do Dia, das Missas pela Unidade dos Cristãos, do Missal Romano de 2002):

- Omnípotens sempitérne Deus, qui dispérsa cóngregas et congregáta consérvas, ad gregem Fílii tui placátus inténde, ut, quos unum sacrávit baptísma, eos et fídei iungat intégritas, et vínculum sóciet caritátis.
- Súpplices te rogámus, amátor hóminum, Dómine: pleniórem Spíritus tui grátiam super nos effúnde benígnus, et præsta, ut, digne qua nos vocásti vocatióne ambulántes, testimónium veritátis exhibeámus homínibus, et ómnium credéntium unitátem in vínculo pacis fidéntes inquirámus.
- Deus, qui diversitátem géntium in confessióne tui nóminis adunásti, da nobis et velle et posse quæ præcipis, ut pópulo ad regnum tuum vocáto una sit fides méntium et píetas actiónum.
- Preces pópuli tui, quæsumus, Dómine, placátus inténde, et præsta, ut fidélium corda in tua laude et commúni pæniténtia iungántur, quátenus, christianórum divisióne subláta, in perfécta Ecclésiæ communióne ad ætérnum tuum regnum properémus lætántes.
- Pópulum tuum, quæsumus, Dómine, propítius réspice, et Spíritus tui super ipsum dona cleménter effúnde, ut in veritátis iúgiter amóre succréscat, et perféctam christianórum unitátem stúdio perquírat et ópere.
- Ubertátem misericordiárum tuárum, Dómine, revéla super nos et, in virtúte Spíritus tui, christianórum divisiónes rémove, ut Ecclésia tua signum inter natiónes elevátum clárius appáreat, et mundus, tuo Spíritu illustrátus, in Christum credat quem misísti.

(Deus eterno e todo-poderoso, que reunis o que estava disperso e conservais o que está unido, atendei propício o rebanho de vosso Filho, para que os consagrados através do mesmo batismo sejam unidos pela integridade da mesma fé e pelo vínculo da caridade.)
(Suplicantes vos rogamos, Senhor, que amais os seres humanos: derramai, benigno, a plenitude da graça do vosso Espírito sobre nós e fazei que, perseverando dignamente na vocação que nos destes, possamos dar testemunho da verdade aos homens e procuremos confiantes a unidade de todos os crentes no vínculo da paz.)
(Ó Deus, que reunistes a diversidade dos povos na confissão do vosso nome, dai-nos desejar e possuir o que nos prometeis, para que haja a mesma fé nos corações e a mesma piedade nas ações do povo chamado ao vosso reino.)
(Atendei propício, Senhor, nós vos pedimos, as preces do vosso povo e fazei que os corações dos vossos fiéis se reúnam no vosso louvor e na penitência e, superada a divisão entre os cristãos, corramos com alegria, na perfeita comunhão da Igreja, rumo ao vosso reino eterno.)
(Olhai, Senhor, para o vosso povo, nós vos pedimos, e com clemência derramai sobre ele os dons do vosso Espírito, para que cresça continuamente no amor à verdade e procure com zelo e pelas obras a perfeita unidade dos cristãos.)
(Mostrai-nos, Senhor, a fecundidade das vossas misericórdias e, pela força do vosso Espírito, desfazei as divisões entre os cristãos, para que vossa Igreja apareça mais claramente como sinal elevado entre as nações e o mundo, iluminado pelo vosso Espírito, creia no Cristo que enviastes.)


Papa Bento XVI e o Patriarca de Constantinopla Bartolomeu I


Papa Bento XVI e o Patriarca de Constantinopla Bartolomeu I


Papa Bento XVI e o Patriarca de Moscou Cirilo I

Papa Bento XVI e o Patriarca de Moscou Cirilo I

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 6 de novembro de 2010

Vós sois santo e fonte de toda santidade!


“Vere Sanctus es, Domine, fons omnis sanctitatis”

Amados irmãos, as palavras acima são bem conhecidas de muitos. São as palavras da Oração Eucarística II, ditas pouco antes da consagração: “Na verdade, Senhor, vós sois santo e fonte de toda santidade”. Relaciono-as a uma passagem do II Livro de Macabeus, quando os sacerdotes judeus, depois da ameaça de Nicanor, de que destruiria o templo e erigiria um a Dioniso, deus do vinho e dos excessos na mitologia greco-romana, imploraram: “Senhor do universo, vós, que bastais a vós mesmo, quisestes possuir entre nós um templo por habitação; ó fonte santa de toda santidade, conservai, pois, sempre livre de toda profanação esta casa que há pouco foi purificada” (2Mc 14,35-36). A expressão usada no livro melhor seria traduzida por “Santo, Senhor de toda santificação”.
Naquele tempo (pouco mais de um século antes de Cristo) costumes pagãos estavam adentrando sempre mais a cultura judaica e sempre havia o risco de o inimigo e opressor destruir o templo ou ao menos profaná-lo. A ameaça acima foi feita pelo general da Judéia, Nicanor, súdito do rei sírio Demétrio I.
Que vergonha, infelicidade, desgraça e horror seria para um judeu ver o templo destruído e sobre sua ruína ser erguido outro para se cultuar um ídolo pagão! Colocando-nos no lugar deles somos capazes de compreender. Não amamos e respeitamos nossas igrejas? Mas o amor pela santidade do templo, da igreja, deve ser reflexo do amor e do zelo pela santidade de outro templo: “Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós” (1Cor 3,16-17), ensina-nos São Paulo. Ora, não é o pecado a grande profanação que pode levar à destruição do templo de Deus que somos nós? Deste questionamento podemos nos deparar com a triste incoerência em nossa vida: a de trabalhar com amor e respeito ao templo de pedra e a de desprezar o respeito pelo próprio corpo e o cuidado pela salvação de nossas almas. Talvez pior que destruir o templo de Deus para edificar um outro para os falsos deuses, seja querer fazer ser adorado sob o mesmo teto Deus e qualquer criatura. Lamentável, mas é essa a atitude de muitos “cristãos”, que em si tentam cultuar Deus e o dinheiro, Deus e o álcool, Deus e o prazer, Deus e o poder, Deus e a auto-imagem, Deus e as honras do mundo... Estes “desconhecem os segredos de Deus, não esperam que a santidade seja recompensada, e não acreditam na glorificação das almas puras” (Sb 2,22). O santo apóstolo nos vem perguntar: “Como conciliar o templo de Deus e os ídolos? Porque somos o templo de Deus vivo, como o próprio Deus disse: Eu habitarei e andarei entre eles, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo (Lv 26,11s)” (2Cor 6,16).
A Sagrada Liturgia nos demonstra tanta santidade (na arquitetura, na música, nas vestes, nos gestos, nos ritos, nas orações), mas não só demonstra: ela exige (as disposições dos ministros e dos fieis)! E não só exige, mas aumenta (quantas graças recebemos)! A Liturgia santifica e exige santidade, pois nos põe junto daquele que é todo santidade!
Podemos, então, refazer a oração dos sacerdotes daquele tempo, nós que sofremos sempre a ameaça de nossa má inclinação, do mundo e do inimigo. Rezemos assim: Senhor do universo, que de nada tendes necessidade, quisestes habitar entre nós por vosso Filho e em nós por vossa graça. Ó fonte santa de toda santidade, fazei que “ajudados por vossa misericórdia sejamos sempre livres do pecado”, nós que uma vez fomos purificados pelo santo Batismo. Por Cristo, nosso Santíssimo Sacramento, a Santíssima Virgem Maria e todos os santos. Amém.

Pintura representando um serafim como descrito na visão do profeta Isaías (cf. Is 6)


Luís Augusto Rodrigues Domingues (publicado na edição nº 166 do Folheto Litúrgico DIES DOMINI, da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, 07/11/2010)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Purgatório

Pax et bonum!

Aqui vai mais um artigo traduzido da Catholic Encyclopedia.
Este deveria ter saído na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, mas não terminei a tradução no dia. Só pude concluí-la hoje, nas I Vésperas de Todos os Santos (no Brasil). Como foi feita com certa pressa, peço perdão por possíveis passagens erradas ou obscuras.
Bom proveito!

***

O PURGATÓRIO


DOUTRINA CATÓLICA

Purgatório (Lat., "purgare", limpar, purificar), de acordo com o ensinamento Católico, é um lugar ou condição de pena temporária para aqueles que, partindo desta vida na graça de Deus, não estão inteiramente livre das faltas veniais ou não cumpriram completamente a satisfação devida por suas transgressões.

A fé da Igreja no que diz respeito ao purgatório é claramente expressa no Decreto de União composto no Concílio de Florença (Mansi, t. XXXI, col. 1031), e no decreto do Concílio de Trento (Sess. XXV) que definiu:

"Já que a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, apoiada nas Sagradas Letras e na antiga Tradição dos Padres, ensinou nos sagrados Concílios e recentemente também neste Concílio Ecumênico, que existe purgatório, e que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do altar, prescreve o santo Concílio aos bispos que façam com que os fiéis mantenham e creiam a sã doutrina sobre o purgatório, aliás transmitida pelos santos Padres e pelos Sagrados Concílios, e que a mesma doutrina seja pregada com diligência por toda parte" (Denzinger, "Enchiridon", 983).

As definições da Igreja não vão além, mas a tradição dos Padres e os Escolásticos devem ser consultados para explicar os ensinamentos dos concílios e para esclarecer a crença e as práticas dos fiéis.

Pena temporária

É claro o ensino da Escritura de que a pena temporal seja devida ao pecado, mesmo depois do próprio pecado ter sido perdoado por Deus. Deus, de fato, fez o homem sair de sua primeira desobediência e deu-lhe o poder para governar todas as coisas (Sb 10,2), contudo o condenou a "comer o seu pão com o suor de seu rosto" até que volte ao pó. Deus perdoou a incredulidade de Moisés e Aarão, mas como pena, não os deixou entrar na "terra prometida" (Nm 20,12). O Senhor apagou o pecado de Davi, mas a vida do seu filho foi tirada porque Davi fez com que os inimigos de Deus blasfemassem contra seu santo Nome (II Sm 12,13-14). No Novo Testamento, como no Antigo, a esmola e o jejum, e de modo geral as obras de penitência, são os verdadeiros frutos do arrependimento (Mt 3,8; Lc 17,3; 3,3). Todo o sistema penitencial da Igreja testemunha que a aceitação voluntária de obras penitenciais tem sido sempre parte do verdadeiro arrependimento e o Concílio de Trento (Sess. XIV, can. xi) lembra aos fiéis que Deus nem sempre redime de toda a pena devida ao pecado junto com a culpa. Deus requer satisfação, e punirá o pecado, e esta doutrina envolve como necessária consequência a crença de que o pecador que falha em fazer penitência nesta vida, deva ser punido no outro mundo e assim não seja separado eternamente de Deus.

Pecados veniais

Aos olhos de Deus os pecados de modo algum são iguais, tanto que ninguém ousa dizer que as faltas cotidianas da fragilidade humana serão punidas com a mesma severidade com que o serão as graves violações da lei de Deus. Por outro lado, qualquer um que entre na presença de Deus deve ser perfeitamente puro, pois no mais estrito sentido os olhos de Deus "são por demais puros para verem o mal" (Hab 1,13). Pelas faltas veniais, pelo pagamento da pena temporal devida ao pecado na hora da morte, a Igreja sempre ensinou a doutrina do purgatório.

Esta crença foi tão enraizada em nossa comum humanidade que foi aceita pelos Judeus, e ao menos de modo obscuro pelos pagãos, muito antes da vinda do Cristianismo. ("Eneida", VI, 735 ss.; Sófocles, "Antígona," 450 ss.).

ERROS

Epifânio (Haer., lxxv, P.G., XLII, col. 513) acusa Aërius (séc. IV) de ter ensinado que as orações pelos mortos eram inúteis. Na Idade Média, a doutrina do purgatório foi rejeitada por Albigenses, Valdenses e Hussitas. São Bernardo (Serm. lxvi in Cantic., P.L. CLXXXIII, col. 1098) afirma que os chamados "Apostolici" negavam o purgatório e a utilidade das orações pelos defuntos. Muitas discussões foram levantadas sobre a posição dos Gregos na questão do purgatório. Parece que a grande diferença de opinião não era sobre a existência do purgatório, mas sobre a natureza do fogo purgatorial; todavia São Tomás prova a existência do purgatório em sua dissertação contra os erros dos Gregos, e o Concílio de Florença também achou necessário afirma a fé da Igreja no assunto (Belarmino, "De Purgatorio," lib. I, cap. i). A Igreja Ortodoxa moderna nega o purgatório, mas é ainda mais inconsistente para manifestar sua crença.

No início da Reforma houve certa hesitação especialmente da parte de Lutero (Disputa de Leipzig) se a doutrina deveria ser retida, mas como a brecha aumentou, a negação do purgatório tornou-se universal entre os Reformadores e Calvino chamou a posição católica de "exitiale commentum quod crucem Christi evacuat... quod fidem nostram labefacit et evertit" ("uma invenção destruidora que esvazia a cruz de Cristo... e que enfraquece e deturpa a nossa fé", Institutiones, lib. III, cap. v, 6). Os Protestantes Modernos, enquanto evitam o nome purgatório, frequentemente ensinam a doutrina do "estado intermediário" e Martensen ("Christian Dogmatics," Edinburgh, 1890, p. 457) escreve: "Já que nenhuma alma deixa esta existência presente num estado plenamente preparado e completo, devemos supor que haja um estado intermediário, uma região de desenvolvimento progressivo, (?) em que as almas são preparadas para o juízo final" (Farrar, "Mercy and Judgment," London, 1881, cap. iii).

PROVAS

A doutrina Católica do purgatório supõe o fato de que alguns morrem com faltas menores, das quais não houve verdadeiro arrependimento, e também o fato de que a pena temporal devida ao pecado não foi completamente paga nesta vida. As provas para a posição Católica, tanto na Escritura como na Tradição, também estão unidas na prática de se rezar pelos mortos. Pois por que razão rezar pelos mortos, se não houver uma crença no poder das orações de proporcionar conforto àqueles que ainda estão excluídos da visão de Deus? Tão veraz é este posicionamento que as orações pelos mortos e a existência de um lugar de purgação são mencionados conjuntamente nas mais antigas passagens dos Padres, os quais alegam razões para se socorrer as almas dos defuntos. Os que se opuseram à doutrina do purgatório confessaram que orações pelos mortos seriam um argumento irrefutável se a moderna doutrina de um "juízo particular" tivesse sido recebida nos tempos primitivos. Mas basta ler os testemunhos alegados em seguida para se assegurar que os Padres falam, de uma vez só, de oblações pelos mortos de um lugar de purgação; e basta consultar as evidências encontradas nas catacumbas para igualmente se assegurar que a fé Cristã lá expressa abraçou claramente uma crença no juízo imediato à morte. Wilpert ("Roma Sotteranea," I, 441) assim conclui o capítulo 21, "Che tale esaudimento", etc.:

A intercessão foi feita pela alma do ente querido falecido e Deus ouviu a oração e a alma passou para um lugar de luz e refrigério". "Certamente," Wilpert acrescenta, "tal intercessão não teria lugar se não se tratasse do juízo particular e sim do final.

Alguma ênfase também foi colocada na objeção de que os antigos Cristãos não tinham concepção clara do purgatório, e que eles pensavam que as almas dos falecidos permaneciam na incerteza da salvação até o juízo; e consequentemente eles rezavam para que os que partiram antes pudessem ser livrados, no juízo final, dos tormentos eternos do inferno. As mais antigas tradições Cristãs são claras quanto ao juízo particular, e mais ainda no que tange a uma nítida distinção entre o purgatório e o inferno. As passagens alegadas como referentes a livrar-se do inferno não podem compensar as evidências dadas abaixo (Belarmino, "De Purgatorio," lib. II, cap. v). Quanto ao famoso caso de Trajano, que inquietou os Doutores da Idade Média, conferir Belarmino, loc. cit., cap. Viii.

Antigo Testamento

A tradição dos Judeus é proposta com precisão e clareza no II Livro dos Macabeus. Judas, o comandante das forças de Israel,

fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas. (2Mc 12,43-46)

No tempo os Macabeus, líderes do povo de Deus, não hesitaram em afirmar a eficácia das orações oferecidas pelos mortos, na intenção de que aqueles que partiram desta vida encontrassem perdão para seus pecados e esperança de eterna ressurreição.

Novo Testamento

Há várias passagens no Novo Testamento que apontam para um processo de purificação após a morte. Assim, Jesus Cristo declara (Mt 12,32): "Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro". De acordo com Santo Isidoro de Sevilha (Deord. creatur., c. xiv, n. 6) estas palavras provam que na próxima vida "alguns pecados serão perdoados e purgados por um certo fogo purificador". Santo Agostinho também argumenta que "não se diria verdadeiramente que alguns pecadores não serão perdoados nem neste mundo nem no próximo a menos que houvessem outros [pecadores] que, não perdoados neste, serão perdoados no próximo" (Cidade de Deus XXI.24). A mesma interpretação é dada por Gregório Magno (Dial., IV, xxxix); São Beda (comentário neste texto); São Bernardo (Sermo lxvi in Cantic., n. 11) e outros eminentes teólogos.

Um outro argumento é fornecido por São Paulo em 1Cor 3,11-15:

"Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo. Agora, se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O dia (do julgamento) demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo; o fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém passando de alguma maneira através do fogo".

Enquanto esta passagem apresenta considerável dificuldade, ela é considerada por muitos dos Padres e teólogos como evidência da existência de um estado intermediário em que o entulho das transgressões mais leves será queimado, e a alma assim purificada será salva. Esta, de acordo com Belarmino (De Purg., I, 5), é a interpretação comumente dada pelos Padres e teólogos; e cita para este efeito:

Santo Ambrósio (comentário ao texto, e Sermo xx in Ps. cxvii),
São Jerônimo, (Comentário sobre Amós, c. iv),
Santo Agostinho (Comentários ao Salmo 37),
São Gregório (Dial., IV, xxxix), e
Orígenes (Homilia VI sobre o Êxodo).
Veja-se também São Tomás, "Contra Gentes", IV, 91. Para uma discussão do problema exegético, ver Atzberger, "Die christliche Eschatologie", p. 275.

Tradição

Esta doutrina de que vários dos que morreram estão ainda num lugar de purificação e que orações são úteis para ajudar os mortos é parte da mais antiga tradição Cristã. Tertuliano, no "De corona militis", menciona orações pelos mortos como um mandato Apostólico, e no "De Monogamia" (capítulo 10) ele aconselha a viúva a "rezar pela alma de seu marido, pedindo repouso para ele e participação na primeira ressurreição"; ele manda também que ela "faça oferendas por ele no aniversário de seu falecimento", e culpa-a de infidelidade se ela for negligente em socorrer sua alma. Este costume estabelecido na Igreja é claro em São Cipriano, que (P.L. IV, col. 399) proibiu as costumeiras orações por aquele que violou a lei eclesiástica. "Nossos predecessores prudentemente advertiram que nenhum irmão, partindo desta vida, pode nomear um clérigo como seu executor [testamentário] (pois este ofício não podia ser recusado no Direito Romano); e se ele o fizer, nenhuma oferenda deverá ser feita por ele, nem o sacrifício oferecido pelo seu repouso". Muito antes de Cipriano, Clemente de Alexandria enveredou pela questão do estado ou condição do homem que, reconciliado com Deus no leito de morte, não teve tempo para cumprir a penitência devida à sua transgressão. Sua resposta é: "o fiel, pela disciplina, despoja-se de suas paixões e passa para a mansão que é melhor que a primeira, ou seja, passa para o maior tormento, exercitando o arrependimento pelas faltas cometidas depois do batismo. Ele, então, é torturado ainda mais, não tendo alcançado o que vê outros terem conseguido. Os maiores tormentos, de fato, são indicados ao fiel. Pois a justiça de Deus é boa, e sua bondade é justa. Embora essas penas cessem no curso da expiação e purificação de cada um, ainda que..." etc. (P.G. IX, col. 332).

Em Orígenes a doutrina do Purgatório é muito clara. Se um homem parte desta vida com faltas leves, ele é condenado a um fogo que queima o material leve, e prepara a alma para o reino de Deus, onde nada sujo pode entrar. "Pois se no fundamento de Cristo tu construíste não só ouro e prata e pedras preciosas (1Cor 3), mas também madeira, feno e capim, o que esperas quando a alma tiver de se separar do corpo? Entrarias no céu com tua madeira, feno e capim e assim sujarias o reino de Deus, ou por causa destes impedimentos ficarias de fora e recompensa nenhuma terias pelo teu ouro, prata e pedras preciosas? Nada disso é justo. Resta, pois, que serás entregue a um fogo que queima o material leve, pois nosso Deus, para os que compreendem as coisas celestes, é chamado de fogo purificador. Mas este fogo não consome a criatura, mas a obra dela, a madeira, o feno e a grama. Está claro que o fogo destrói a madeira de nossas transgressões e nos entrega a recompensa de nossas grandes obras" (P.G., XIII, col. 445, 448).

A prática apostólica de se rezar pelos mortos, que passou para a Liturgia da Igreja, é tão clara no séc. IV como no XX. São Cirilo de Jerusalém (Catequeses Mistagógicas V.9) descrevendo a liturgia, escreve: "Depois ainda rezamos pelos santos padres, bispos adormecidos e, enfim, por todos os que partiram em comunhão conosco, persuadidos de que será de máximo proveito para as almas, pelas quais a súplica é elevada enquanto repousa a santa e tremenda vítima no altar". São Gregório de Nissa (P.G., XLVI, col. 524, 525) afirma que a fraqueza do homem é purgada nesta vida pela oração e pela sabedoria, ou expiada na próxima por um fogo purificador. "Quando ele deixar o corpo e for conhecida a diferença entre o vício e a virtude, ele não poderá aproximar-se de Deus até que o fogo purificador tenha limpado todas as manchas com que sua alma se infestou. Este mesmo fogo em outros cancelará a corrupção da matéria e a propensão ao mal". Pelo mesmo período as Constituições Apostólicas nos dão os formulários usados para socorrer os mortos. "Oremos por nosso irmão que adormeceu em Cristo, para que Deus, que em seu amor pelos homens recebeu a alma deste falecido, perdoe-lhe toda falta, e em misericórdia e clemência o receba no seio de Abraão, com os que nesta vida agradaram a Deus" (P.G. I, col. 1144). Nem podemos passar por cima do uso dos dípticos onde os nomes dos mortos eram inscritos; e sua recordação pelo nome nos Sagrados Mistérios (uma prática vinda dos Apóstolos) era considerada por Crisóstomo como a melhor forma de socorrer os mortos (Homilia 41 na Primeira Carta aos Coríntios, n. 8).

O ensinamento dos Padres e os formulários usados na Liturgia da Igreja, encontram expressão nos antigos monumentos Cristãos, particularmente naqueles contidos nas catacumbas. Nas tumbas dos fiéis eram inscritas palavras de esperança, pedidos por paz e descanso; e os aniversários traziam os fiéis ao redor dos túmulos dos falecidos para fazerem intercessão pelos que os precederam. Na realidade isto não é nada mais que a fé expressada no Concílio de Trento (Sess. XXV, "De Purgatorio"), e para esta fé as inscrições nas catacumbas são, sem dúvida, testemunhas.

No séc. IV no Ocidente, Ambrósio insiste, no seu comentário a São Paulo (1Cor 3), na existência do purgatório, e em seu magistral discurso funeral (De obitu Theodosii), assim reza pela alma do imperador falecido: "Dai, ó Senhor, descanso ao vosso servo Teodósio, aquele descanso que preparastes para os vossos santos... Eu o amei, por isso o seguirei para a terra dos vivos; não o deixarei até que minhas orações e lamentos façam com que seja admitido no monte santo do Senhor, para onde é chamado" (P.L., XVI, col. 1397). Santo Agostinho é ainda mais claro que seu mestre. Ele descreve duas condições dos homens: "alguns lá estão que partiram desta vida não tão ruins para que fossem julgados indignos de misericórdia, nem tão bons para estarem habilitados à felicidade imediata" etc., e na ressurreição ele diz que haverão alguns que "terão passado por estas dores, às quais estão susctíveis os espíritos dos mortos" (Cidade de Deus XXI.24). E assim, pelo fim do séc. IV:

- não só havia orações pelos mortos em todas as liturgias, como os Padres afirmaram que tais práticas vieram dos próprios Apóstolos;
- os que eram auxiliados pelas orações dos fiéis e pela celebração dos Sagrados Mistérios estavam num lugar de purgação;
- de onde, quando purificados, "eram admitidos no Monte Santo do Senhor".

Tão clara é esta Tradição patrística que aqueles que não acreditam no purgatório foram incapazes de mostrar qualquer séria dificuldade dos escritos dos Padres. As passagens citadas como contrárias ou não tocam a questão como um todo ou não são tão claras, de modo que não se equiparam à expressão perfeitamente aberta da doutrina como encontrada na maioria dos Padres que são citados como de opiniões contrárias (Belarmino "De Purg.", lib. I, cap. xiii).

DURAÇÃO E NATUREZA

Duração

A maioria das razões indicadas para a existência do purgatório apontam seu caráter passageiro. Nós rezamos, oferecemos sacrifícios pelas almas aí detidas a fim de que "Deus na misericórdia perdoe toda falta e as receba no seio de Abraão" (Constituições Apostólicas); e Agostinho (Cidade de Deus XXI.13, 16) declara que a pena do purgatório é temporária e será, no mínimo, com o Juízo Final. "Penas temporárias são sofridas por alguns nesta vida apenas, por outros após a morte, por outros tanto agora como depois; mas todos eles antes do último e mais rigoroso juízo".

Natureza da pena

É evidente, pelas Liturgias e pelos Padres acima citados, que as almas por quem se ofereceu o sacrifício pacífico foram impedidas da visão de Deus por um tempo. Elas não estavam "tão boas para estarem habilitadas à felicidade imediata". Para elas, ainda, a morte "não é o salário da natureza, mas do pecado" (Ambrósio, "De obitu Theodos."); e esta incapacidade para o pecado torna-as seguras de sua felicidade final. Este é o posicionamento Católico proclamado por Leão X na Bula "Exurge Domine", que condenou os erros de Lutero.

As almas detidas no purgatório estão cientes de que sua felicidade está apenas prorrogada, ou ainda têm dúvida sobre sua salvação? As antigas Liturgias e inscrições nas catacumbas falam de um "sono de paz", o que seria impossível se houvesse qualquer dúvida acerca da salvação definitiva. Alguns dos Doutores da Idade Média pensavam que a incerteza da salvação era uma das severas penas do purgatório. (Belarmino, "De Purgat." lib. II, cap. iv); mas esta opinião em geral não tem nenhum crédito entre os teólogos da era medieval, nem é possível à luz da crença no juízo particular. São Boaventura dá como razão de se eliminar este medo e esta incerteza, a convicção de que elas não podem mais pecar (lib. IV, dist. xx, p.1, a.1 q. iv): "Est evacuatio timoris propter confirmationem liberi arbitrii, qua deinceps scit se peccare non posse" (O temor é lançado fora por causa do revigoramento do livre arbítrio pelo qual a alma sabe que não pode mais pecar), e São Tomás (dist. xxi, q. i, a.1) diz: "nisi scirent se esse liberandas suffragia non peterent" (se não soubessem que haveriam de ser libertadas, não pediriam sufrágios).

Mérito

Na Bula "Exurge Domine", Leão X condena a proposição (n. 38) "Nec probatum est ullis aut rationibus aut scripturis ipsas esse extra statum merendi aut augendae caritatis" (Não se prova em lugar algum pela razão ou pela Escritura que elas [as almas no purgatório] não possam ganhar méritos ou crescer na caridade). Para elas "chegou a noite, em que o homem não pode mais trabalhar", e a tradição Cristã sempre considerou que somente nesta vida o homem pode trabalhar pelo bem de sua alma. Os Doutores da Idade Média, enquanto aceitando que esta vida é o momento para o mérito e o aumento da graça, ainda alguns com São Tomás pareceram questionar se há ou não uma recompensa não essencial que as almas no purgatório possam merecer (IV, dist. xxi, q. i, a. 3). Belarmino acredita que nesta matéria São Tomás mudou sua opinião, e faz referência a uma afirmação de São Tomás ("De Malo", q. vii, a. 11). Seja qual for o pensamento do Doutor Angélico, os teólogos aceitam que nenhum mérito é possível no purgatório, e se surgir a objeção de que as almas ganham mérito lá pelas suas orações, Belarmino diz que tais orações são úteis por casa de méritos já adquiridos: "Solum impetrant ex meritis praeteritis quomodo nunc sancti orando pro nobis impetrant licet non merendo" (Elas rezam pelos méritos adquiridos, como os que agora são santos e que rezam por nós, mesmo sem ganhar méritos). (loc. cit. II, cap. iii).

Fogo purificador

No Concílio de Florença, Bessarion argumentou contra a existência de um fogo purgatorial real, e os Gregos estavam seguros de que a Igreja romana nunca tinha emitido nenhum decreto dogmático neste assunto. No Ocidente a crença na existência de um fogo real é comum. Agostinho (Comentários ao Salmo 37, n. 3) fala da dor que o fogo purgatorial causa no homem, mais aguda que qualquer outra coisa que o homem possa padecer nesta vida, "gravior erit ignis quam quidquid potest homo pati in hac vita" (P.L., col. 397). Gregório Magno fala daqueles que depois da vida "expiarão suas faltas por chamas purgatoriais", e acrescenta "ser a dor mais intolerável que qualquer outra sofrível nesta vida" (Ps. 3 poenit., n. 1). Seguindo os passos de São Gregório, São Tomás ensina (IV, dist. xxi, q. i, a.1) que junto da separação da alma da vista de Deus, há a outra pena, pelo fogo. "Una poena damni, in quantum scilicet retardantur a divina visione; alia sensus secundum quod ab igne punientur", e São Boaventura não só concorda com São Tomás, como acrescenta (IV, dist. xx, p.1, a.1, q. ii) que esta pena pelo fogo é mais severa que qualquer pena que possa ser dada pelos homens nesta vida; "Gravior est omni temporali poena, quam modo sustinet anima carni conjuncta". Como este fogo afeta as almas dos falecidos os Doutores não sabem, e em tais matérias vale a exortação do Concílio de Trento que manda serem "excluídas das pregações populares à gente simples as questões difíceis e sutis e as que não edificam nem aumentam a piedade" (Sess. XXV, "De Purgatorio").

SOCORRENDO OS FALECIDOS


A Escritura e os Padres mandam orações e ofertas pelos falecidos, e o Concílio de Trento (Sess. XXV, "De Purgatorio") em virtude desta tradição não só afirma a existência do purgatório, como acrescenta "que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do altar". Que aqueles que estão na terra ainda estão em comunhão com as almas do purgatório é o ensinamento mais antigo dos Cristãos, e que os vivos ajudam os mortos por suas orações e obras de satisfação é evidente pela tradição acima mencionada. Que o Santo Sacrifício tenha sido oferecido pelos falecidos é Tradição Católica recebida já nos dias de Tertuliano e Cipriano, e que as almas dos mortos são ajudadas sobretudo "quando repousa a vítima sagrada sobre o altar" é a expressão de Cirilo de Jerusalém, citada acima. Agostinho (Serm. clxii, n. 2) diz que as "orações e esmolas dos fiéis, o Santo Sacrifício do altar ajudam os fiéis falecidos e move o Senhor a tratá-los em misericórdia e bondade" e, acrescenta, "esta é a prática da Igreja universal herdada dos Padres". Se nossas obras de satisfação realizadas em favor dos mortos são aceitas simplesmente pela benevolência e misericórdia de Deus, ou se Deus se obriga em justiça a aceitar nossa reparação no lugar delas, não é uma questão respondida. Francisco Suárez pensa que a aceitação é pela justiça, e alega a prática comum da Igreja que reúne os vivos e mortos sem discriminação (De poenit., disp. xlviii, 6, n. 4).

INDULGÊNCIAS

O Concílio de Trento (Sess. XXV) definiu que as indulgências são "muito salutares para o povo Cristão" e que "se deve manter o seu uso na Igreja". É o ensinamento comum dos teólogos Católicos que:

1. indulgências são aplicáveis às almas do purgatório; e
2. indulgências estão disponíveis para elas "em forma de sufrágio" (per modum suffragii).

(1) Agostinho (Cidade de Deus XX.9) declara que as almas dos fiéis falecidos não estão separadas da Igreja, que é o Reino de Cristo, e por esta razão as orações e obras dos vivos são úteis aos mortos. "Se então", argumenta Belarmino (De indulgentiis, xiv) "podemos oferecer nossas orações e satisfações em favor das almas do purgatório, por sermos membros do grande corpo de Cristo, porque não pode o Vigário de Cristo aplicar a essas almas a satisfação superabundante de Cristo e seus santos, da qual ele é dispenseiro?" Esta é a doutrina de São Tomás (IV, Sent., dist. xlv, q. ii, a. 3, q. 2) que afirma que as indulgências aproveitam principalmente para aquele que realiza a obra indulgenciada, e ao menos em segundo plano pode aproveitar para os mortos, se a forma em que a indulgência é dada estiver expressa de tal modo que possibilite esta interpretação, e ele acrescenta "nem há qualquer razão pela qual a Igreja não possa dispor de seu tesouro de méritos em favor dos mortos, como certamente se faz em favor dos vivos".

(2) São Boaventura (IV, Sent., dist. xx, p. 2, q. v) concorda com São Tomás, mas acrescenta que tal "remissão não se faz a modo de absolvição, como no caso dos vivos, mas como sufrágio" (Haec non tenet modum judicii, sed potius suffragii). Esta opinião de São Boaventura, de que a Igreja através do seu Supremo Pastor não absolve juridicamente as almas do purgatório da pena devida pelos seus pecados, é o ensinamento dos Doutores. Eles apontam (Gratian, 24 q. ii, 2, can.1) que no caso daqueles que partiram desta vida, o julgamento é reservado a Deus; eles alegam a autoridade de Gelásio (Ep. ad Fausturn; Ep. ad. Episcopos Dardaniae) como apoio a seu argumento (Gratian ibid.), e também insistem que os Romanos Pontífices, quando concedem indulgências aplicáveis aos mortos, acrescentam a restrição "per modum suffragii et deprecationis". Esta frase é encontrada na Bula de Sisto IV "Romani Pontificis provida diligentia", 27 de Nov. de 1447.

A frase "per modum suffragi et deprecationis" tem sido interpretada de várias formas pelos teólogos (Belarmino, "De indulgentiis", p.137). O próprio Belarmino diz: "A verdadeira opinião é de que indulgências aroveitam como sufrágio, pois não aproveitam ao modo de absolvição jurídica 'quia non prosunt per modum juridicae absolutionis'." Mas de acordo com o mesmo autor, os sufrágios dos fiéis aproveitam às vezes "per modum meriti congrui" (por meio de mérito), às vezes "per modum impetrationis" (por meio de súplica), às vezes "per modum satisfactionis" (por meio de satisfação); mas quando se trata de aplicar uma indulgência a alguém no purgatório, sempre é "per modum suffragii satisfactorii" e por esta razão "o papa não absolve a alma no purgatório das penas devidas pelos seus pecados, mas oferece a Deus, do tesouro da Igreja, tudo o que seja necessário para o cancelamento de sua pena".

Se a questão for refeita indagando se tal satisfação é aceita por Deus por misericórdia e benevolência, ou "ex justitia", os teólogos não estão de acordo — alguns sustentam uma opinião e outros, a outras. Belarmino, depois de investigar os dois lados (pp. 137, 138), não se atreve a deixar nenhuma de lado, mas está inclinado a pensar que a primeira é mais razoável enquanto diz que a última está em harmonia com a piedade ("admodum pia").

Condições

Para que uma indulgência aproveite para os que estão no purgatório, várias condições são necessárias:

A indulgência deve ser estabelecida pelo papa.
Deve haver razão suficiente para se dar a indulgência, e esta razão deve ser algo referente à glória de Deus e o bem da Igreja, não meramente o proveito que resulta às almas no purgatório.
A obra piedosa deve ser como no caso das indulgências para os vivos.
Se o estado de graça não estiver entre os requisitos, em todo caso a pessoa pode lucrar a indulgência para os falecidos, ainda que ele não esteja na amizade com Deus (Belarmino, loc. cit., p. 139). Francisco Suárez (De Poenit., disp. Iiii, s. 4, n. 5 and 6) deixa isso bem claro quando diz: "Status gratiæ solum requiritur ad tollendum obicem indulgentiæ" (o estado de graça só se requer para remover algum impedimento da alma), e no caso das santas almas não pode haver impedimento. Este ensinamento está ligado à doutrina da Comunhão dos Santos, e os monumentos das catacumbas representam os santos e mártires como que intercedendo a Deus pelos mortos. Também as orações das antigas liturgias falam de Maria e dos santos intercedendo pelos que passaram desta vida. Agostinho acredita que um enterro numa basílica cujo titular seja um santo mártir é de valor para o falecido, pois os que ali celebram a memória daquele que sofrem, recomendarão orações ao mártir por aquele que passou desta vida (Belarmino, lib. II, xv). No mesmo lugar Belarmino acusa Dominicus A Soto de imprudência, porque ele negou esta doutrina.

INVOCAÇÃO DAS ALMAS

As almas do purgatório rezam por nós? Podemos chamá-las em nossas necessidades? Não há definição ou decisão da Igreja neste assunto e nem os teólogos se pronunciaram definitivamente no que diz respeito à invocação das almas do purgatório e sua intercessão pelos vivos. Nas antigas liturgias não há orações da Igreja dirigida aos que estão ainda no purgatório. Nas tumbas dos primeiros cristãos nada é tão comum quanto uma oração ou súplica pedindo ao falecido para intercer a Deus pelos amigos vivos, mas estas inscrições parecem supor que o falecido já está com Deus. São Tomás (II-II.83.11) nega que as almas do purgatório rezam pelos vivos, e afirma que eles não estão em condição de rezar por nós, antes nós é que devemos interceder por eles. Não obstante a autoridade de São Tomás, muitos teólogos renomados sustentam que as almas do purgatório rezam por nós e que devemos invocar seu auxílio. Belarmino (De Purgatorio, lib. II, xv,) diz que a razão alegada por São Tomás não é de todo convincente e sustenta que, em virtude de seu amor de Deus e sua união com ele, suas orações devem ter um grande poder de intercessão, pois elas são deveras superiores a nós no amor de Deus e na intimidade da união com ele. Francisco Suárez (De poenit., disp. xlvii, s. 2, n. 9) vai além e afirma "que as almas do purgatório são santas, queridas a Deus, amam-nos com um verdadeiro amor e são cientes de nossos desejos; pois elas sabem, de um modo geral, quais são nossas necessidades e perigos, e quão grande é nossa necessidade do auxílio e da graça divinos".

Quando há a questão de invocar as orações dos que estão no purgatório, Belarmino (loc. cit.) diz que isto é supérfluo, ordinariamente falando, pois elas são ignorantes de nossas circunstâncias e condições. Isto está em desacordo com a opinião de Francisco Suárez, que admite conhecimento, pelo menos de um modo geral, e também com a opinião de muitos teólogos atuais que apontam para a prática hoje comum de quase todos os fiéis dirigirem suas orações e pedidos de ajuda para aqueles que ainda estão no lugar da purificação. Scavini (Theol. Moral., XI, n. 174) não vê razões pelas quais as almas do purgatório não possam rezar por nós, da mesma forma como rezamos uns pelos outros. Ele afirma que esta prática tornou-se comum em Roma, e teve o grande nome de Santo Afonso em seu favor. Santo Afonso, em sua obra "Grandes Meios de Salvação", cap. I, III, 2, depois de citar Sylvius, Gotti, Lessius, e Medina como favoráveis à sua opinião, conclui: "então, as almas do purgatório, sendo amadas por Deus e confirmadas na graça, não têm absolutamente qualquer impedimento para rezarem por nós. Ainda que a Igreja não as invoque ou implore sua intercessão, porque normalmente elas não têm conhecimento de nossas orações. Mas podemos acreditar piamente que Deus torna nossa orações conhecidas a elas". Ele também alega a autoridade de Santa Catarina de Bolonha, a qual "sempre que desejou algum favor, recorreu às almas do purgatório e foi imediatamente ouvida".

UTILIDADE DA ORAÇÃO PELOS FALECIDOS

É da fé tradicional dos Católicos que as almas do purgatório não estão separadas da Igreja, e que a caridade, que é o laço de união entre os membros da Igreja, abraça estes que partiram desta vida na graça de Deus. Assim, uma vez que as nossas orações e nossos sacrifícios podem ajudar aqueles que ainda estão à espera no purgatório, os santos não hesitaram em nos avisar que temos um verdadeiro dever para com aqueles que ainda estão na expiação purificatória. A Santa Igreja, pela Congregação das Indulgências, em 18 de dezembro de 1885, concedeu uma bênção especial ao chamado "ato heróico", pelo qual "um membro da Igreja Militante oferece a Deus, pelas almas do purgatório, todas as obras satisfatórias que ele realizará durante sua vida e também os sofrimentos que poderá passar depois da morte [no purgatório]" (Heroic Act, vol. VII, 292). A prática de devoção aos falecidos é também consoladora para a humanidade e eminentemente digna de uma religião que dá auxílio aos mais puros sentimentos do coração humano. "Doce", disse o Cardeal Wiseman (lecture XI), "é a consolação de um homem morto que, ciente de sua imperfeição, acredita que há outros que intercederão por ele, quando já não há espaço para seus próprios méritos; confortador para os que vivem e se afligem é o pensamento de que eles possuem meios poderosos para livrar seus amigos. No primeiro momento de luto, este sentimento normalmente ultrapassará o preconceito religioso, curvará o descrente sobre seus joelhos ao lado do corpo de seu amigo e lhe roubará uma inconsciente prece por repouso; este é um impulso da natureza que, pelo momento, ajudada por analogias da verdade revelada, toma posse desta crença consoladora. Mas isso é só uma luz melancólica e passageira, enquanto o sentimento Católico, de torcer [pelo falecido] mesmo com um luto solene, assemelha-se a uma lâmpada inextinguível, a qual se diz que a piedade dos antigos pendurou diante dos sepulcros de seus mortos".

Fonte: Hanna, Edward. "Purgatory." The Catholic Encyclopedia. Vol. 12. New York: Robert Appleton Company, 1911. 6 Nov. 2010 http://www.newadvent.org/cathen/12575a.htm.

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Traduzido por Luís Augusto

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Rezando pelos Fiéis Defuntos



Pax et bonum!

Hoje é Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, que muitos chamam de Dia de Finados. Insisto no nome católico, nome litúrgico, porque é mais claro na sua finalidade.
Literalmente significa que se faz memória de todos os cristãos que morreram na amizade com Deus (fiéis). Então não se reza pelos ateus, hereges e infiéis? Não. Não é esta a finalidade deste dia. Diria melhor que neste dia (02 de novembro) rezamos pelos membros vivos da Igreja que já passaram desta vida. Ora, se rezamos por estes, é porque apresentam alguma necessidade. Não são, pois, os que já estão na glória, já que lá não precisam de oração. E quem são os fiéis por quem rezamos depois de mortos e que não estão no céu? Resposta: as almas do purgatório.

Para se entender bem a questão, temos que relembrar algumas verdades:
- Constituição do homem em duas naturezas;
- Realidade da morte;
- Juízo particular;
- Inferno, Purgatório e Céu;
- Aqueles por quem rezamos.

I. CONSTITUIÇÃO DO HOMEM EM DUAS NATUREZAS

É simples compreender que o ser humano é constituído de duas naturezas. Uma delas, a física, material (o corpo), não precisa de demonstração. A ela estão ligados os fatos ou fenômenos fisiológicos. É uma realidade palpável e inquestionável.
Já os fenômenos que não estão restritos ao físico, como é o pensamento, as recordações, o raciocínio, os quais chamamos de psicológicos nos forçam admitir um segundo princípio no homem - é aquilo que chamamos de alma.
A nossa consciência percebe um princípio pelo qual nos temos como a mesma pessoa, idêntica, desde nossa primeira recordação até o momento presente, por mais que o corpo tenha se desenvolvido, se ferido, se renovado em suas células e tecidos, recebido sangue ou órgãos alheios, perdido membros, em poucas palavras, mudado completamente. Este princípio que constitui nossa identidade pessoal é aquele mesmo que chamamos de alma.
Por não depender ou estar restrita ao físico, dizemos que a alma é espiritual, ao contrário do corpo que é material.
A fé católica professa a dicotomia (corpo e alma) e não a tricotomia (corpo, alma e espírito). Clássicas três faculdades do homem, como sejam vontade, entendimento e memória (ou sensibilidade, noutros pensadores) são todas compreensíveis como faculdades de um só princípio ou substância, aquele espiritual: a alma. Fora isso, as faculdades e sentidos do homem são os que dependem do seu corpo como, por exemplo, os cinco sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato).
Alguns relatos das Escrituras mostram essa divisão:
"Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela como a terra árida e sequiosa, sem água". (Sl 62,2)
"Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo". (Sl 83,3b)
"Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena". (Mt 10,28)
"Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito". (1Cor 7,34b)
"Assim como o corpo sem a alma é morto, assim também a fé sem obras é morta". (Tg 2,26)

II. REALIDADE DA MORTE

A morte é para nós a interrupção da atividade vital corporal. Podemos rapidamente pensar em coisas como parada cardíaca, perca total de sangue, parada respiratória, parada cerebral, etc. Há pessoas que relatam ter passado por experiências de quase morte, ou seja, sofreram algo que em condições normais constituiria a morte de qualquer outra pessoa, mas recobraram logo depois a atividade vital corporal.
Diríamos que aquilo que conhecemos por morte é a interrupção ou término da atividade vital corporal, de um modo irrecuperável. A partir daí, dá-se a decomposição da matéria.
Sendo a alma imaterial, ou seja, espiritual, não sofre decomposição, nem de átomos, células, tecidos ou órgãos, ou seja, não sofre a morte do corpo. Interessante também é que temos capacidade de provocar nossa morte corporal, mas ninguém é capaz de causar a extinção de sua própria alma.
A imortalidade da alma também é uma exigência da justiça divina (não podemos entrar agora no assunto dos atributos de Deus, pode ficar para outra postagem). Ora, na vida vemos pessoas boas serem humilhadas, esquecidas e morrerem sob muitos tormentos enquanto pessoas más recebem louvores, homenagens, morrem cercadas de toda espécie de bens e honrarias. Se Deus é justo e "cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus" (Rm 14,12), um princípio nosso subsistirá para isso: a alma, que é imortal.

III. JUÍZO PARTICULAR

Depois de dar o assentimento à existência de Deus e a seus atributos, bem como à criação do homem, sua dupla constituição e a realidade da morte, chegamos inevitavelmente ao que chamamos de juízo particular, dado que Deus é justo e que os homens darão conta de seus pensamentos, palavras e obras. A Escritura diz: "está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo" (Hb 9,27), pelo que se conhece um juízo imediato à morte e a inconciliabilidade da crença na reencarnação com a doutrina cristã.
A justa retribuição, imediata ao juízo, está manifesta, por exemplo, na parábola que conta a história de um rico opulento e de um pobre Lázaro (Lc 16,19-31).

IV. INFERNO, PURGATÓRIO E CÉU

Todo juízo resulta numa sentença. Ao falarmos do homem e do que lhe acontece após a morte, falamos de retribuição, que acontece segundo as obras.
Aqui não acontece ainda a ressurreição da carne, pela qual a alma do homem se reunirá ao seu corpo, ainda que tenha sido cremado, despedaçado ou perdido, pois para Deus que o criou, nada é difícil ou impossível (noutra postagem podemos falar sobre a necessidade racional da ressurreição dos corpos).
Pois bem, vindo o juízo [particular] após a morte, depois deste vem a retribuição.
Os que tiverem morrido na amizade com Deus (em sua graça) e não necessitando de mais purificação pelas penas dos pecados, entrarão no céu.
Os que tiverem morrido na amizade com Deus, mas ainda carregando penas devidas pelos pecados já perdoados, passarão por uma purificação ou purgatório até que estejam nas disposições para gozar eternamente da Glória de Deus.
Os que não tiverem morrido na amizade com Deus, ou seja, sobretudo com pecados graves e dos quais não se manifesta um mínimo de arrependimento, entrarão no inferno. São os réprobos (=reprovados).
O Céu (glória, vida eterna, Reino de Deus, paraíso, bem-aventurança) é onde estão as almas aprovadas. Esta glória existe para os homens, como disse o Senhor (já tratando do juízo universal): "tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo" (Mt 25,34b). Lá se goza de Deus perfeitamente, numa felicidade indizível. A própria razão supõe esta felicidade, considerando que o homem estará na intimidade daquele que possui em grau infinito todas as perfeições.
O Inferno (condenação, abismo, fogo eterno) é onde estão as almas reprovadas. Esta desgraça existe não para os homens, como o Senhor atesta na mesma passagem acima: "Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos" (Mt 25,41b). Lá a alma sofre tormentos morais, como a eterna separação de Deus e o eterno remorso da consciência, e tormentos sensíveis. "Por uma visão momentânea, logo após a morte Deus se revela a todos os homens. Quando o pecador mergulha no tormento, seu primeiro grito não é de dor. Seu primeiro grito é de saudade de Deus".
O Purgatório é a purificação pela qual a alma passa para poder entrar no Céu. Daqui elas só partem para lá. No purgatório há penas sensíveis, pelas quais o homem satisfaz pelos pecados perdoados dos quais não pôde fazer uma devida reparação.
A razão concebe um "ponto intermediário" entre o estado de completa purificação e o de completa escravidão do pecado. Ademais, o apóstolo São João declarou: "Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não o conduza à morte, reze, e Deus lhe dará a vida; isto para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado que é para morte; não digo que se reze por este" (1Jo 5,16). Eis a distinção entre os pecados, fato inegável.
Não se pode dizer quanto "tempo" alguém fica no Purgatório.
(Sobre o Juízo Universal podemos escrever outra postagem.)


V. AQUELES POR QUEM REZAMOS

É exatamente pelos que estão no purgatório que rezamos. Se já não entraram no Céu, é na purificação que cremos estarem os que foram fiéis de fato.
Como não se precisa de oração no Céu, e como não adianta orar pelos condenados, é por estes do Purgatório que rezamos, pedindo a Deus que sua purificação se complete o quanto antes, para que se lhes seja dado gozar do que tanto anseiam. Ora, todo fiel de Cristo, ao pensar no Céu, anela como o salmista: "Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário" (Sl 26,4).
A crença de que nossas orações servem para estes irmãos está unida à de que as orações dos santos nos servem. Tudo isso faz parte da mesma profissão de fé na Comunhão dos Santos - comunhão de bens espirituais entre todos os cristãos (vivos e falecidos, na terra, no purgatório e no céu). De modo muito coerente estas duas datas litúrgicas estão bem unidas: na Solenidade de Todos os Santos honramos e pedimos oração a todos os da Igreja Triunfante (no Céu); na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos oferecemos nossa oração e nosso sacrifício a Deus pela Igreja Padecente (no Purgatório).
Tal prática já é vista no II Livro de Macabeus (12,43-46), em breves orações escritas nas paredes das catacumbas e em primitivos escritores da Igreja como Tertuliano.
Por estas almas já rezamos, sobretudo, em todas as Missas, visto que no Cânon Romano e nas outras Orações Eucarísticas existe uma recordação e uma prece pelos fiéis que estão na purificação. Além da Missa temos a aplicação de indulgências pelas almas do purgatório. Aliás, toda indulgência recebida de Deus no dia da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, só a eles é aplicável.
É provável que muitos santos tenham recomendado a bela obra de caridade que é rezar pelas almas do purgatório. Diria que, quando um dos irmãos do purgatório, pelo qual rezamos, completar sua purificação e for admitido na pátria celeste, ele nos retribuirá, sendo um santo anônimo a interceder por nós.


VI. ESCLARECIMENTOS

Rezar pelos fiéis defuntos:
- é um dever de caridade;
- não é dirigir-se aos mortos;
- muito menos invocá-los;
- também não significa de maneira alguma que podemos tirar uma alma da condenação do inferno;
- é exercício da comunhão dos santos;
- não é rezar por quem não precisa;
- faz parte da doutrina e da prática cristã desde a antiguidade.


VII. APÊNDICE - Manual de Indulgências - Pelos fiéis defuntos

§ 1. Concede-se indulgência plenária, aplicável somente às almas do purgatório, ao fiel que:

1°55 Visitar devotamente o cemitério, a cada dia, de primeiro a oito de novembro, e aí rezar pelos defuntos, mesmo que só mentalmente;

2°56 Visitar devotamente uma igreja ou oratório e aí recitar o Pai nosso e o Creio, no dia da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (ou, de acordo com o Ordinário, no domingo anterior ou posterior à Solenidade de Todos os Santos).

§ 2. Concede-se indulgência parcial, aplicável somente às almas do purgatório, ao fiel que:

1°57 Visitar devotamente o cemitério e aí rezar pelos defuntos, mesmo que só mentalmente;

2°58 Rezar devotamente Laudes ou Vésperas do Ofício dos Defuntos ou a invocação Dai-lhes, Senhor.

Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. Amen.
(Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno. E a luz perpétua os ilumine. Descansem em paz. Amém.)

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Por Luís Augusto - membro da ARS