sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Bispo leva Missa na Forma Extraordinária à Diocese de Marquette (Michigan, EUA)

Pax et bonum!

O jovem Dom Alexander King Sample, bispo da diocese de Marquette (Michigan, EUA), há menos de um mês, celebrou, na Capela do Santíssimo da Catedral, pela primeira vez pública desde a introdução da "Forma Ordinária", uma Missa na Forma Extraordinária.
A Missa foi rezada, mas é esperado que em breve já possa haver o canto litúrgico e a Missa seja celebrada com toda a solenidade também.
Quem nos conta é o Pe. John Boyle no seu blog Caritas in Veritate, acrescentando que jovens coroinhas estavam bem interessados e agradecendo a generosidade dos fiéis leigos para a aquisição dos paramentos.
Isto se deu no dia 05 deste mês (II Domingo do Advento) e o bispo pretende celebrar assim mensalmente (num domingo). Nos outros domingos fazem-no outros padres, inclusive o sacerdote dono do blog e autor da postagem.
(Atitudes como esta eu desejaria ver serem tomadas em nosso Brasil, mas às vezes o cenário é tão desanimador... Deus abençoe Dom Sample e nos ajude!)
Algumas fotos:
Ritos iniciais ao pé do altar
"Orate fratres"/"Orai, irmãos..."
Elevação do Cálice com o Sangue de Cristo
Sagrada Comunhão
Depois de remover os paramentos e rezar, saída do bispo.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Música Sacra a serviço da verdade


Os fiéis deveriam experimentar a universalidade da Igreja a nível local
Por Pe. Paul Gunter, OSB

ROMA, 24 de DEZEMBRO de 2010 (Zenit.org).- Quando Santo Agostinho escreveu "Qui cantat, bis orat" – quem canta reza duas vezes, facilmente se poderia reconhecer quanto o próprio caráter da música sacra torna isto diferente de um simples canto em grupo ou de uma elegante performance de um músico profissional do âmbito secular.
A convicção do fato de que a oração é dobrada se cantada, ao invés de apenas recitada, não se baseia tanto nos méritos do esforço humano, mas na necessidade de descrever a dimensão de admiração perante o divino [existente] na música sacra, seu aspecto artístico e emotivo, ao passo em que ela também é uma troca entre Deus, o Doador de todos os dons, e a resposta de amor do ser humano ao amor do Senhor onipotente.
Um amor maior buscará uma maior qualidade e não apenas uma quantidade mais abundante, e isto ocorre no momento em que a perseverança de um indivíduo ou um grupo fez progressos no âmbito musical e experimentou a beleza de suas consolações espirituais. A "Sacrosanctum Concilium" afirma que "a sagrada liturgia não esgota toda a atividade da Igreja" (nº 9) e muito acertadamente acrescenta que "antes que os homens possam vir à liturgia eles devem ser chamados à fé e à conversão". Ainda mais, o nº 10 esclarece que "é o cume para onde se volta a atividade da Igreja". Daí a liturgia ser precisamente a fonte da força necessária para todo trabalho apostólico. Onde quer que a liturgia da Igreja seja deixada ao acaso, a falta de coerência em seus frutos torna-se evidente. Os músicos litúrgicos devem ser valorizados e patrocinados de todas as formas possíveis, se se mostram próximos de alcançar um nível técnico que lhes permitirá comunicar, através da música sacra, o relacionamento com o tremendo mistério que é Deus. É esta percepção da santidade de Deus, especialmente tratada pela música sacra, que forma uma ponte que permite às pessoas descobrirem seu desejo por Deus e o desejo de conformarem suas vidas a ele.
A música sacra é oração ordenada a elevar os corações e as mentes a Deus. Para além dos desafios representados por preferências culturais ou pessoais, o propósito da música sacra é sempre o louvor de Deus. A participação ativa da assembleia deve ser ordenada para este fim, de modo que a dignidade da liturgia não seja comprometida e as possibilidades para uma participação efetiva no culto divino não sejam obscurecidas. A participação ativa não exclui os diferentes níveis de participação que, sobre eles mesmos, indicam que a "participação em ato" não é diminuída pelo fato de que não seja necessário que todos cantem tudo em todos os momentos. A música sacra deve ser conformada aos textos litúrgicos e a música devocional deve ser inspirada em textos litúrgicos ou bíblicos, tomando cuidado, em todo caso, para não ocultar a realidade eclesiológica da Igreja.
Papa João Paulo II explicou isto a alguns bispos dos Estados Unidos por ocasião da visita "ad limina" em 1998: "A participação plena não significa que todos façam tudo, pois isto levaria a uma clericalização do laicato e a uma laicização do sacerdócio; e isto não era o que o Concílio tinha em mente. A intenção é que  a liturgia, como a Igreja, seja hierárquica e polifônica, respeitando os diferentes papéis designados por Cristo e fazendo que todas as diferentes vozes se unam num grande hino de louvor". Daí, em sua expressão de fé religiosa, fidelidade textual e dignidade medida, a música sacra deve tornar-se símbolo de comunhão eclesial.
O caráter da música sacra não é diminuído quando ela é simples, no grau em que esta simplicidade é nobre, e não banal. O uso generalizado, embora proibido, de música secular gravada e canções "pop" em funerais justifica o distanciamento de tantos fiéis, que se sentem alheios à vida musical da Igreja. Canções "cult", doutrinalmente insípidas, normalmente tomam o lugar dos tesouros litúrgicos cheios de valor catequético, resultando que a cultura da música eclesial, em muitas paróquias, tem "entrado num beco sem saída do qual se pode dizer tudo menos o seu quo vadis (aonde vais)" – esta é a forma com a qual Joseph Ratzinger descreve a separação de cultura moderna de sua matriz religiosa (A New Song for the Lord. Faith in Christ and Liturgy Today, Crossroads, New York, 1996, p. 120).
A "Sacrosanctum Concilium" disse que ao Canto Gregoriano se deve dar o “primeiro lugar” (nº 116) e que o órgão de tubos "acrescenta um maravilhoso esplendor às cerimônias da Igreja e poderosamente eleva a mente humana a Deus e às realidades celestes" (nº 120). Enquanto os efeitos das interpretações antropológicas da pós-modernidade são intolerantes ao encontrar qualquer tendência de refazer o passado, as verdades universais e atemporais são benéficas para as pessoas de todos os tempos e lugares.
É necessário uma efetiva catequese litúrgica no centro da Nova Evangelização para promover uma imersão dos fiéis nos mistérios celebrados per ritus et preces – através dos ritos e das orações (cf. SC 48). O Motu Proprio de 2007, "Summorum Pontificum," ofereceu uma oportunidade determinante para a revitalização do Canto Gregoriano, naqueles lugares em que ele antes era praticado, bem como sua inserção em contextos nos quais ele ainda não é conhecido. Será, contudo, triste, se, por causa do desejo de se entender tudo, o uso do Canto Gregoriano nas paróquias se limitar à celebração da “forma extraordinária”, relegando a antiga língua deste canto à história da Igreja e a um símbolo de polarização. Entre as oportunidades pastorais, não é demais pedir que as pessoas tenham uma experiência da universalidade da Igreja a nível local, sendo capazes de cantar as partes que lhes correspondem em latim (cf. SC 54). Esta era a intenção dos Padres do Concílio. Com a devida moderação e com sensibilidade pastoral, esta prática seria unida harmonicamente à rica expressão da fé católica na língua vernácula.
Enfim, a harmonia e a ortodoxia da música sacra para uma verdadeira pregação do depósito revelado depende da fidelidade do Cristão à vida da graça, em uma decisão muito maior de viver coerentemente, como afirma de modo claro a Regra de São Bento: "Consideremos, pois, de que maneira cumpre estar na presença da Divindade e de seus anjos; e tal seja a nossa presença (...) que nossa mente concorde com nossa voz" (19,6-7).
* * *
Pe. Paul Gunter, OSB, é professor no Pontifício Instituto Litúrgico de Roma e consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"Chega de missa criativa, na igreja silêncio e oração"

Pax et bonum!
Quando ia começar a tradução deste texto, encontrei-o em português. 
A fonte vai citada no final e ao texto só dei pouquíssimos retoques.

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A liturgia católica vive "uma certa crise" e Bento XVI quer dar vida a um novo movimento litúrgico, que volte a trazer mais sacralidade e silêncio à Missa, e mais atenção à beleza no canto, na música e na arte sacra. O Cardeal Antonio Cañizares Llovera, 65 anos, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, que enquanto bispo na Espanha era chamado de "o pequeno Ratzinger", é o homem ao qual o Papa confiou esta tarefa. Nesta entevista a Il Giornale, o "ministro" da liturgia de Bento XVI revela e explica programas e projetos.

Como cardeal, Joseph Ratzinger havia lamentado uma certa pressa na reforma litúrgica pós-conciliar. Qual é a sua opinião?

A reforma litúrgica foi realizada com muita presa. Havia ótimas intenções e o desejo de aplicar o Vaticano II. Mas houve precipitação. Não se deu tempo e espaço suficiente para acolher e interiorizar os ensinamentos do Concílio; de repente, mudou-se o modo de celebrar.
Recordo bem a mentalidade então difundida: era necessário mudar, criar algo novo. Aquilo que havíamos recebido, a tradição, era visto como um obstáculo. A reforma foi entendida como obra humana, muitos pensavam que a Igeja era obra de nossas mãos e não de Deus. A renovação litúrgica foi vista como uma investigação de laboratório, fruto da imaginação e da criatividade, a palavra mágica de então.

Como cardeal, Ratzinger havia prognosticado uma "reforma da reforma" litúrgica, palavras atualmente impronunciáveis, mesmo no Vaticano. Todavia, parece evidente que Bento XVI a deseje. É possível falar dela?

Não sei se é possível, ou se é conveniente, falar de "reforma da reforma". O que vejo absolutamente necessário e urgente, segundo o que deseja o Papa, é dar vida a um novo, claro e vigoroso movimento litúrgico em toda a Igreja. Porque, como explica Bento XVI no primeiro volume de sua Opera Omnia, em relação à liturgia se decide o destino da fé e da Igreja. Cristo está presente na Igreja através dos sacramentos. Deus é o sujeito da história, e não nós. A liturgia não é uma ação do homem, mas de Deus.

O Papa, mais que decisões impostas de cima, fala com o exemplo. Como ler as mudanças introduzidas por ele nas celebrações papais? 

Acima de tudo, não deve haver nenhuma dúvida sobre a bondade da renovação litúrgica conciliar, que trouxe grandes benefícios para a vida da Igreja, como a participação mais consciente e ativa dos fiéis e a presença enriquecida da Sagrada Escritura. Mas além destes e outros benefícios, não faltaram sombras, surgidas nos anos seguintes ao Vaticano II: a liturgia, isso é fato, foi "ferida" por deformações arbitrárias, provocadas também pela secularização que desgraçadamente atinge também o interior da Igreja. Consequentemente, em muitas celebrações já não se coloca Deus no centro, mas o homem e seu protagonismo, sua ação criativa, o papel principal é dado à assembleia. A renovação conciliar foi entendida como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição. Devemos reavivar o espírito da liturgia e para isso são significativos os gestos introduzidos nas liturgias do Papa: a orientação da ação litúrgica, a cruz no centro do altar, a comunhão de joellhos, o canto gregoriano, o espaço para o silêncio, a beleza na arte sacra. É também necessário e urgente promover a adoração eucarística: diante da presenção real do Senhor, não se pode, senão, estar em adoração.

Quando se fala de uma recuperação da dimensão do sagrado, há sempre quem apresente tudo isso como um simples retorno ao passado, fruto de nostalgia. Como o senhor responde?

A perda do sentido do sagrado, do Mistério, de Deus, é uma das perdas de consequências mais graves para um verdadeiro humanismo. Quem pensa que reavivar, recuperar e reforçar o espírito da liturgia e a verdade da celebração é um simples retorno a um passado superado, ignora a verdade das coisas. Colocar a liturgia no centro da vida da Igreja não é em nada nostálgico, mas, pelo contrário, é garantia de estar a caminho em direção ao futuro.

Como julga o estado da liturgia católica no mundo? 

Diante do risco da rotina, diante de algumas confusões, da pobreza e da banalidade do canto e da música sacra, pode-se dizer que há uma certa crise. Por isso é urgente um novo movimento litúrgico. Bento XVI, indicando o exemplo de São Francisco de Assis, muito devoto do Santíssimo Sacramento, explicou que o verdadeiro reformador é alguém que obedece a fé: não se move de maneira arbitrária e não se arroga nenhuma discricionariedade sobre o rito. Não é o dono, mas o guardião do tesouro instituído pelo Senhor e confiado a nós. O Papa, portanto, pede à nossa Congregação promover uma renovação segundo o Vaticano II, em sintonia com a tradição litúrgica da Igreja, sem esquecer a norma conciliar que prescreve não introduzir inovações exceto quando as requererem uma verdadeira e comprovada utilidade para a Igreja, com a advertência de que as novas formas, em todo caso, devem surgir organicamente das já existentes.

O que pretende fazer como Congregação? 

Devemos considerar a renovação litúrgica segundo a hermêutica da continudade na reforma indicada por Bento XVI para ler o Concílio. E para fazê-lo, é necessário superar a tendência de "congelar" o estado atual da reforma pós-conciliar, de um modo que não faz justiça ao desenvolvimento orgânico da liturgia da Igreja.
Estamos tentanto levar adiante um grande empenho na formação dos sacerdotes, seminaristas, consagrados e fiéis leigos, para favorecer a compreensão do verdadeiro significado das celebrações da Igreja. Isso requer uma adequada e ampla instrução, vigilância e fidelidade nos ritos, e uma autêntica educação para vivê-los plenamente. Este empenho será acompanhado pela revisão e pela atualização dos textos introdutórios de diversas celebrações (prænotanda). Somos conscientes também de que dar impulso a este novo movimento não será possível sem uma renovação pastoral da iniciação cristã.

Uma perspectiva que deveria ser aplicada também à arte e à música...

O novo movimento litúrgico deverá fazer descobrir a beleza da liturgia. Por isso, abriremos uma nova seção em nossa Congregação dedicada à "Arte e música sacra" a serviço da liturgia. Isso nos levará a oferecer, o quanto antes, critérios e orientações para a arte, canto e música sacras. Como também pensamos em oferecer o mais rápido possível critérios e orientações para a pregação.

Nas Igrejas desaparecem os genuflexórios, a Missa às vezes é ainda um espaço aberto à criatividade, são cortadas inclusive as partes mais sagradas do cânon. Como inverter esta tendência?

A vigilância da Igreja é fundamental e não deve ser considerada como algo inquisitório ou repressivo, mas como um serviço. Em todo caso, devemos tornar todos conscientes da exigência, não só dos direitos do fiéis, mas também dos "direitos de Deus".

Existe também o risco oposto, isto é, o de se crer que a sacralidade da liturgia depende da riqueza dos paramentos: uma posição fruto de esteticismo que parece ignorar o coração da liturgia...

A beleza é fundamental, mas é algo muito distinto de um esteticismo vazio, formalista e estéril, no qual se cai às vezes. Existe o risco de se acreditar que a beleza e a sacralidade da liturgia dependem da riqueza ou da antiguidade dos paramentos. É necessário uma boa formação e uma boa catequese baseada no Catecismo da Igreja Católica, evitando também o risco oposto, o da banalização, e atuando com decisão e energia quando se recorre a costumes que tiveram seu sentido no passado, mas que atualmente não têm ou não contribuem de nenhum modo para a verdade da celebração.

Poderia nos dar alguma indicação concreta sobre o que poderia mudar na liturgia? 

Mais que pensar em mudanças, devemos nos comprometer em reavivar e promover um novo movimento litúrgico, seguindo o ensinamento de Bento XVI, a reavivar o sentido do sagrado e do Mistério, pondo Deus no centro de tudo. Devemos impulsionar a adoração eucarística, renovar e melhorar o canto litúrgico, cultivar o silêncio, dar mais espaço à meditação. Disso surgirão as mudanças...

"O Atrativo da Missa Tridentina" - por Cardeal Stickler

Pax et bonum!

O texto que segue, conheci-o há um bom tempo (e data de 1995), em espanhol. Por não ter encontrado nenhuma tradução dele para o português (embora possa já existir), traduzi-o e posto-o agora.

O autor


O Cardeal Alfons Stickler, prefeito emérito do Arquivos e da Biblioteca do Vaticano, é normalmente discreto. Nem tanto durante sua viagem à região de Nova Iorque em maio de 1995. Num discurso, numa conferência organizada pelo ChristiFideles do Pe. John Perricon e pelo Keep the Faith de Howard Walsh, o Cardeal denunciou os Católicos dentro do rebanho que minaram a Igreja — e no fim da terceira parte de seu discurso deixou claro sua visão de que a "Missa da Comissão Litúrgica pós-Conciliar" foi uma traição para com os Padres Conciliares.
Este austríaco, salesiano, que serviu como perito em quatro comissões do Vaticano II (incluindo a Liturgia), celebrou seus 70 anos de sacerdote em 2007. Entre suas várias obras está "The Case for Clerical Celibacy" (sobre o celibato), que relata que o celibato sacerdotal foi mandado desde os primeiros dias da Igreja.

Resumo:
- Nasceu em 23/08/1910
- Salesiano professo em 15/08/1928
- Ordenado presbítero em 27/03/1937
- Ordenado bispo em 01/11/1983 por João Paulo II
- Criado Cardeal Diácono em 25/05/1985 por João Paulo II
- Elevado a Cardeal Presbítero em 29/01/1996
- Faleceu em 12/12/2007

***
O ATRATIVO DA MISSA TRIDENTINA

A Missa Tridentina é o rito da Missa fixado pelo Papa Pio V a pedido do Concílio de Trento e promulgado em 5 de dezembro de 1570. Este Missal contém o antigo rito Romano, do qual foram eliminados várias adições e alterações. Quando foi promulgada, preservaram-se outros ritos que já existiam por pelo menos 200 anos. Portanto, o mais correto é chamar este Missal de Liturgia do Papa São Pio V.

Fé e Liturgia. O sacrifício da Missa, centro da liturgia católica

Desde o início mesmo da Igreja, a fé e a Liturgia têm permanecido intimamente conectadas. Uma clara prova disto pode-se encontrar no próprio Concílio de Trento. Este Concílio declarou solenemente que o sacrifício da Missa é o centro da Liturgia Católica em oposição à heresia de Martinho Lutero, que negava que a Missa fosse um sacrifício. Sabemos, a partir da história do desenvolvimento da Fé, que esta doutrina foi fixada com autoridade pelo Magistério no ensinamento dos Papas e Concílios. 
Também sabemos que na totalidade da Igreja, e especialmente nas igrejas orientais, a Fé foi o fator mais importante para o desenvolvimento e a formação da liturgia, particularmente no caso da Missa. Existem argumentos convincentes neste sentido desde os primeiros séculos da Igreja. O Papa Celestino I escreveu aos bispos da Gália, no ano de 422: "Legem credendi, lex statuit supplicandi", o que posteriormente se expressou comumente pela frase: "lex orandi, lex credendi" (a lei da oração é a lei da fé). As Igrejas Ortodoxas conservaram a Fé através da liturgia. Isto é muito importante porque na última carta que o Papa escreveu, há 7 dias (NT: provavelmente a Orientale Lumen, de 02/05/1995), disse que a Igreja Latina deve aprender das Igrejas do Oriente, especialmente sobre a liturgia...

Declarações conciliares: doutrinais e disciplinares

Um tema frequentemente descuidado é o que constitui os dois tipos de declarações e decisões conciliares: as doutrinais (teológicas) e as disciplinares. Na maioria dos concílios tivemos ambas, doutrinais e disciplinares.
Em alguns concílios não houveram declarações ou decisões disciplinares; e o inverso, houve alguns concílios sem declarações doutrinais, com declarações somente disciplinares. Muitos dos concílio do Oriente, depois do de Nicéia, trataram apenas de questões de fé.
O II Concílio de Toulon, do ano de 691, foi um Concílio estritamente oriental, para declarações e decisões exclusivamente disciplinares, porque as Igrejas Orientais tinham sido deixadas de lado nos concílios precedentes. Este atualizou a disciplina para as igrejas orientais, especialmente para a de  Constantinopla.
Isto é importante porque no Concílio de Trento temos claramente ambos: capítulos e cânones que pertencem exclusivamente à fé e, em quase todas as sessões, depois dos capítulos teológicos e cânones, questões disciplinares. Em todos os cânones teológicos temos a declaração de que qualquer um que se oponha às decisões fique excluído da comunidade: "anathema sit".
Porém o Concílio nunca declara excomungado por razões puramente disciplinares, as sanções do Concílio são apenas para as declarações doutrinais.

O Concílio de Trento e a Missa

Tudo isto é importante para nossas atuais reflexões. Já mostramos a conexão entre fé e oração (liturgia) e especialmente entre fé e a forma mais elevada da liturgia, o culto comum. Esta ligação tem sua expressão clássica no Concílio de Trento, que tratou do assunto em três sessões: a XIII (de outubro de 1551), a XX (de julho de 1562) e, especialmente, a XXII (de setembro de 1562), que produz os capítulos e cânones dogmáticos do Santo Sacrifício da Missa. 
Existe, ademais, um decreto especial concernente àquelas questões que devem ser observadas e evitadas na celebração da Missa.
Esta é uma declaração clássica e fundamental, autorizada e oficial, do pensamento da Igreja sobre o tema.
O decreto considera primeiramente a natureza da Missa. Martinho Lutero tinha negado de forma clara e pública a própria natureza da Missa, declarando que ela não era um sacrifício. É verdade que, para não perturbar o fiel comum, os reformadores não eliminaram imediatamente aquelas partes da Missa que refletiam a verdadeira Fé e que se opunham a suas novas doutrinas. Por exemplo, mantiveram a elevação da Hóstia entre o Sanctus e o Benedictus (NT: o Sanctus era cantado apenas até o primeiro Hosanna. O Benedictus só se cantava após a Consagração).
Para Lutero e seus seguidores, o culto consistia principalmente na pregação como meio de instrução e edificação, intercalado por orações e hinos. Receber a Santa Comunhão era apenas um episódio secundário. Lutero, todavia, mantinha a presença de Cristo no pão no momento de sua recepção, mas negava firmemente o Sacrifício da Missa. Para ele o altar jamais podia ser um lugar de sacrifício. A partir desta negação, podemos entender os erros consequentes na liturgia protestante, que é completamente diferente da liturgia da Igreja Católica. Também podemos entender por que o Concílio de Trento definiu aquela parte da Fé Católica que diz respeito à natureza do Sacrifício Eucarístico: é uma força salvadora real. No sacrifício de Jesus Cristo o sacerdote substitui o próprio Cristo. Como resultado de sua ordenação ele é um verdadeiro alter Christus.
Mediante a Consagração, o pão se transforma no Corpo de Cristo e o vinho em seu Sangue. Esta realização de seu sacrifício é a adoração a Deus.
O Concílio especifica que este não é um novo sacrifício independente do sacrifício único de Cristo mas o mesmo sacrifício, no qual Cristo se faz presente de forma incruenta, de tal maneira que seu Corpo e seu Sangue estão presentes em substância, permanecendo sob a aparência de pão e vinho. Portanto, não existe um novo mérito sacrifical. Na verdade é o fruto infinito do sacrifício cruento da Cruz que é constantemente aplicado ou realizado por Jesus Cristo na Missa.
Disto deriva que a ação do sacrifício consiste na Consagração. O Ofertório (pelo qual o pão e o vinho são preparados para a Consagração) e a Comunhão são partes constitutivas da Missa, mas não essenciais. A parte essencial é a Consagração, pela qual o sacerdote, in persona Christi e da mesma maneira, pronuncia as palavras consecratórias de Cristo.
Desta maneira, a Missa não é e não pode ser a simples celebração da Comunhão, e nem [a mera ação de] uma simples pessoa que represente a Cristo e, do mesmo modo, pronuncie as palavras de consagração de Cristo.
Consequentemente, a Missa não é e não pode consistir simplesmente numa celebração de Comunhão, ou numa simples recordação ou memorial do sacrifício da Cruz, mas consiste no tornar verdadeiro e presente este mesmo sacrifício da Cruz, razão pela qual podemos entender que a Missa é uma renovação efetiva do sacrifício da Cruz. É essencialmente uma adoração a Deus, oferecida somente a ele. Esta adoração inclui outros elementos: louvor, ação de graças por todas as graças recebidas, dor pelos pecados cometidos, súplica por graças necessárias. Naturalmente, a Missa pode ser oferecida por uma ou por todas estas diferentes intenções. Todas essas doutrinas foram estabelecidas e promulgadas nos capítulos e cânones da Sessão XXII do Concílio de Trento.

Anátemas do Concílio de Trento

Desta natureza teológica fundamental da Missa derivam várias consequências. Em primeiro lugar, o Canon Missæ.
Na liturgia romana, sempre houve um único Cânon, introduzido pela Igreja há vários séculos. O Concílio de Trento estabeleceu expressamente no capítulo IV que este Cânon está livre de erros, que não contém nada que não seja cheio de santidade e piedade e nada que não eleve os fiéis a Deus. Está composto sobre a base das próprias palavras de nosso Senhor, a tradição dos apóstolos e as normas dos papas santos. O cânone 6 do capítulo IV ameaça com a excomunhão aqueles que sustentam que o Canon Missæ contém erros e, portanto, deva ser abolido.
No Capítulo V o Concílio estabeleceu que a natureza humana requer sinais exteriores para elevar o espírito às coisas divinas. Por essa razão, a Igreja introduziu certos ritos e sinais: a oração silenciosa ou vocal, as bênçãos, as velas, o incenso, os paramentos, etc. Muitos destes sinais têm sua origem em prescrições apostólicas ou na tradição.
Através destes sinais visíveis de fé e piedade, acentua-se a natureza do sacrifício. Os sinais fortalecem e estimulam os fiéis a meditarem sobre os elementos divinos contidos no sacrifício da Missa. Para proteger esta doutrina, o cânone 7 ameaça com a excomunhão aquele que considerar que estes sinais exteriores induzem à impiedade e não à piedade. Este é um exemplo do que tratei pouco acima: esta classe de declaração, com o cânone de sanções, tem mormente um significado teológico e não apenas um sentido disciplinar.
No Capítulo VI o Concílio destaca o desejo da Igreja de que todos os fiéis presentes na Missa recebam a Santa Comunhão, porém estabelece que, se somente o sacerdote que celebra a Missa recebe a Sagrada Comunhão, não se pode chamar esta Missa de privada e que, por isto, deva ser criticada ou proibida. Neste caso, os fiéis recebem a Comunhão espiritualmente e, além disso, todos os sacrifícios oferecidos pelo sacerdote, como ministro público da Igreja, são oferecidos por todos os membros do Corpo Místico de Cristo. Consequentemente, o Cânone 8 ameaça com excomunhão todos aqueles que disserem que tais Missas são ilícitas e, portanto, devem ser proibidas (outra asseveração teológica).

Trento e o Latim. O silêncio.

O Capítulo VIII está dedicado à linguagem particular do culto na Missa. Sabe-se que no culto de todas as religiões se usa uma língua sagrada. Durante os primeiros três séculos da Igreja Católica Romana, o idioma era o grego, que era a língua mais comumente usada no mundo latino. A partir do séc. IV o latim transformou-se no idioma comum do Império Romano. O latim permaneceu durante séculos, na Igreja Católica Romana, como língua do culto. Muito naturalmente, o latim era também o idioma do rito Romano em seu ato fundamental do culto: a Missa. Assim permaneceu inclusive depois que o latim foi sendo substituído pela linguagem viva das várias línguas românicas.
E chegamos à questão: por que o latim e não outra alternativa? Respondemos: a Divina Providência estabelece até as questões secundárias. Por exemplo, Palestina (Jerusalém) é o lugar da Redenção de Jesus cristo. Roma é o centro da Igreja. Pedro não nasceu em Roma, ele foi a Roma. Por quê? Porque era o centro do então Império Romano, ou seja, do mundo. Este é o fundamento prático da propagação da Fé pelo Império Romano, somente uma questão humana, um questão histórica, mas na qual certamente  participa a Divina Providência.
Um processo semelhante pode se ver inclusive em outras religiões. Para os muçulmanos, a antiga língua árabe está morta e, não obstante, continua sendo a linguagem de sua liturgia, de seu culto. No caso dos hindus, trata-se do sânscrito (NT: pode-se citar também o páli para o Budismo).
Devido à sua ligação obrigatória com o sobrenatural, o culto naturalmente requer sua própria linguagem religiosa, que não deve ser uma "vulgar".
Os padres do Concílio sabiam muito bem que a maioria dos fiéis que participavam da Missa não entendiam o latim e nem podiam ler traduções. Geralmente eram analfabetos. Os padres também sabiam que a Missa contém uma parte de ensinamento para os fiéis. Não obstante, eles não concordaram com a opinião dos protestantes de que era necessário celebrar a Missa somente na língua vernácula. Para instruir os fiéis, o Concílio ordenou que se mantivesse em todo o mundo o antigo costume do cuidado para com as almas através da explicação do mistério central da Missa, aprovada pela Santa Igreja Romana, mãe e mestra de todas as igrejas.
O cânone 9 ameaça com a excomunhão os que afirmarem que a língua da Missa deve ser apenas a língua vernácula. É notável que tanto no capítulo como no cânone do Concílio de Trento se rechaça somente a exclusividade da língua "vulgar" nos ritos sagrados. Por outro lado, deve se levar em conta, mais uma vez, que estas distintas normativas conciliares não têm apenas caráter disciplinar. Baseiam-se nos fundamentos doutrinais e teológicos que envolvem a própria Fé.
As razões desta preocupação podem ser vistas, primeiramente, na reverência devida ao mistério da Missa. O decreto seguinte sobre o que se deve observar e evitar na celebração da Missa estabelece: "A irreverência não pode separar-se da impiedade". A irreverência sempre implica impiedade. Além disso, o Concílio desejou salvaguardar as idéias expressas na Missa, e a precisão da língua latina protege o conteúdo de mal-entendidos e possíveis erros causados pela imprecisão linguística.
Por estas razões a Igreja sempre defendeu a língua sagrada e inclusive, em época mais recente, Pio XI declarou que esta língua deveria ser non vulgaris.
Por estas mesmas razões, o cânone 9 estabelece a excomunhão dos que afirmarem que deve ser condenado o rito da Igreja Romana no qual uma parte do Cânon e as palavras da consagração sejam pronunciadas silenciosamente. Inclusive o silêncio tem um fundo teológico.

A vida e o exemplo dos ministro do culto

Finalmente, no primeiro cânone do decreto da reforma, na Sessão XXII do Concílio de Trento, encontramos outras normativas que têm um caráter parcialmente disciplinar, mas que também completam a parte doutrinária, posto que nada é mais adequado para orientar os que participam do culto, numa compreensão mais profunda do mistério, do que a vida e o exemplo dos ministros do culto. Estes ministros devem modelar sua vida e conduta nesta intenção, que deve refletir-se em suas vestes, sua postura, sua linguagem. Em todos estes aspectos devem aparecer dignos, humildes e piedosos. Também devem evitar inclusive as faltas leves, posto que em seu caso estas deveriam ser consideradas graves. Os superiores devem exigir aos ministros sagrados o viver fundamentalmente de acordo com toda a tradição do comportamento clerical apropriado.

A Missa de São Pio V e a de Paulo VI

Agora podemos apreciar e entender melhor o fundo e o fundamento teológicos das discussões e normativas do Concílio de Trento no que diz respeito à Missa como culminância da Sagrada Liturgia. Quer dizer, o atrativo teológico da Missa Tridentina se pode compreender em contraposição e como resposta ao grave desafio do Protestantismo, e não somente em relação a este período especial da história, mas também como pauta de referência para a Igreja e frente à Reforma Litúrgica do Vaticano II.
Em primeiro lugar, temos que determinar aqui o significado correto desta última reforma, como o fizemos no caso da Missa Tridentina, destacando a importância de saber precisamente o que se entendia pela Missa do Papa São Pio V, que satisfez os desejos dos padres do Concílio em Trento.
Todavia, devemos destacar que o nome correto que se deve dar à Missa do Concílio Vaticano II é o de Missa da Comissão Litúrgica pós-Conciliar. Um simples olhar para a Constituição Litúrgica do Concílio Vaticano II ilustra de imediato que a vontade do Concílio e a da Comissão Litúrgica estão em várias partes discordantes e, inclusive, são evidentemente opostas.
Examinaremos brevemente as diferenças principais entre as duas reformas litúrgicas assim como a forma em que poderíamos definir seu atrativo teológico.
Primeiramente, frente à heresia protestante, a Missa de São Pio V enfatizava a verdade central da Missa como um sacrifício, baseada nas discussões teológicas e as normas específicas do Concílio. A Missa de Paulo VI (também chamada assim porque a Comissão Litúrgica para a reforma depois do Vaticano II trabalhou sob a responsabilidade última desse Papa) enfatiza mais a Comunhão, resultando que o sacrifício fica transformado no que se poderia denominar uma comida, uma refeição. A grande importância dada às leituras e à pregação na nova Missa, e inclusive a faculdade dada ao sacerdote para inserir palavras pessoais e explicações, é outro reflexo do que se poderia denominar uma adaptação à ideia protestante de culto.
O filósofo francês Jean Guitton disse que o Papa Paulo VI lhe revelou que era sua intenção (a do Papa) a de assemelhar tanto quanto fosse possível a nova liturgia católica ao culto protestante. Evidentemente, é necessário verificar o real significado deste comentário, posto que todas as declarações oficiais de Paulo VI, incluída sua excelente encíclica eucarística "Mysterium Fidei" em 1965, emanada antes da finalização do Concílio, assim como o "Credo do Povo de Deus", demonstram uma perfeita ortodoxia. Então, como se podem explicar estas declarações opostas?
Dentro desta mesma linha podemos tratar de compreender a nova posição do altar e do sacerdote. De acordo com os bem fundados estudos do Monsenhor Klaus Gamber (NT: duas obras foram traduzidas por mim), a respeito da posição do altar nas antigas basílicas de Roma e outros lugares, o critério para a anterior posição não era que deviam olhar para a assembleia que rende culto, mas sim olhar para o Leste, que era o símbolo de Cristo como sol nascente, a quem se devia render culto. A posição completamente nova do altar e do sacerdote olhando para a assembleia, algo previamente proibido, hoje expressa a Missa como um encontro comunitário.
Em segundo lugar, na antiga liturgia o Cânon é o centro da Missa como sacrifício. De acordo com o testemunho do Concílio de Trento, o Cânon reconstrói a tradição dos apóstolos e estava substancialmente completo na época de Gregório Magno, no ano 600. 
A Igreja Romana nunca teve outros cânones. Inclusive no que diz respeio ao "Mysterium fidei" na fórmula da Consagração, temos evidências desde Inocêncio III (NT: papa do fim do séc. XII até meados do séc. XIII), explicitamente, na cerimônia de investidura do Arcebispo de Lião. Não sei se a maioria dos reformadores da liturgia conhecem este fato. São Tomás de Aquino, num artigo especial, justifica este "Mysterium fidei". E o Concílio de Florença confirmou explicitamente o "Mysterium fidei" na fórmula da Consagração.
No entanto, este "mysterium fidei" foi eliminado das palavras da consagração originadas na nova liturgia. Por quê? 
Também se autorizam novos cânones. O segundo deles, que não menciona o caráter sacrifical da Missa, por seu mérito de ser o mais breve, praticamente suplantou o antigo Cânon Romano em todas as partes.
Daqui se entende que se tenha perdido o profundo discernimento teológico outorgado pelo Concílio de Trento.
O mistério do Sacrifício Divino é atualizado em cada rito, se bem que de maneira diferente. No caso da Missa Latina este mistério foi enfatizado pelo Concílio Tridentino com a leitura silenciosa do Cânon em latim. Isto foi descartado na nova Missa pela proclamação do Cânon em voz alta.
Em terceiro lugar, a reforma do Vaticano II destruiu ou alterou o significado de grande parte do rico simbolismo da liturgia (se bem que se mantém nos ritos orientais). A importância deste simbolismo foi destacada pelo Concílio de Trento... Este fato foi deplorado inclusive por um psicanalista ateu muito conhecido, que chamou o Concílio Vaticano II de "Concílio dos Guarda-livros" (NT: ou dos contadores, escrituradores, escribas, colecionadores, não entendi bem o sentido).

Vulgarização da Missa 
O latim deve se conservar

Há um princípio teológico completamente destruído pela reforma litúrgica, mas confirmado tanto pelo Concílio de Trento como pelo Concílio Vaticano II, depois de uma longa e sóbria discussão (eu assisti e posso confirmar que as claras resoluções do texto final da Constituição do Concílio o reafirmavam substancialmente). O princípio: o latim deve ser preservado no Rito Latino. 
Como no Concílio de Trento, também no Vaticano II os padres do Concílio admitiram a língua vernácula, mas apenas como uma exceção.
Mas, para a reforma de Paulo VI, a exceção se tornou regra exclusiva. As razões teológicas estabelecidas em ambos os Concílios para manter o latim na Missa podem se ver agora justificadas à luz do uso exclusivo da língua vernácula introduzida pela reforma litúrgica. A língua vernácula frequentemente vulgarizou a própria Missa, e a tradução do latim original resultou em erros e graves mal-entendidos doutrinais.
Ademais, a língua vernácula não estava antes nem mesmo permitida para as pessoas iletradas ou completamente diferentes entre si [quanto à nacionalidade]. Agora que os povos católicos de distintas tribos e nações podem empregar diferentes línguas e dialetos no culto, vivendo próximos em um mundo que se torna cada dia menor, esta Babel do culto comum resulta numa perca da unidade externa da Igreja Católica em todo o mundo, outrora unificada numa voz comum.
Além disso, em numerosas ocasiões, isto se tornou causa de desunião interna inclusive na própria Missa, que deveria ser o espírito e o centro da concórdia interna e externa entre os católicos de todo o mundo. Temos muitos, mas muitos exemplos, deste fato de desunião causada pela língua vulgar.
E outra consideração... Antes, cada sacerdote podia celebrar no mundo inteiro a Missa em Latim para todas as comunidades, e todos os sacerdotes podiam entender o latim. Hoje, infelizmente, nenhum sacerdote pode celebrar a Missa para todos os povos do mundo. Devemos admitir que, apenas umas poucas décadas depois da reforma da língua litúrgica, e temos perdido aquela possibilidade de orar e cantar juntos, mesmo nos grandes encontros internacionais, como os Congressos Eucarísticos ou, inclusive, durante os encontros com o Papa, o centro da unidade da Igreja. Já não podemos, atualmente, cantar nem rezar juntos.

A conduta dos ministros sagrados

Finalmente, temos que considerar seriamente, à luz do Concílio de Trento, a conduta dos ministros sagrados, cuja profunda relação com seu sagrado ministério foi enfatizada pelo Concílio de Trento. Uma conduta clerical, vestimenta, porte e comportamento corretos animam o povo a seguir o que seus ministros dizem e ensinam. Infelizmente, a conduta lamentável de muitos clérigos tende a obscurecer a diferença entre ministro sagrado e leigo, e aumenta a diferença entre o ministro sagrado e o alter Christus.

Resumindo nossas reflexões, podemos dizer que o atrativo teológico da Missa Tridentina cresce em relação direta com a inexatidão teológica da Missa do Vaticano II. Por esta razão, o Christi Fidelis (o fiel cristão) da tradição teológica deve continuar manifestando, em espírito de obediência aos superiores legítimos, o legítimo desejo e a legítima preferência pastoral pela Missa Tridentina.


***

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

Publicatio Festorum Mobilium 2011 (Anúncio das Solenidades Móveis)

Pax et bonum!

Próximo Domingo (02/01/11), Solenidade da Epifania do Senhor aqui no Brasil, de acordo com o Diretório da Liturgia e da Organização da Igreja no Brasil 2011, deve-se fazer o Anúncio das Solenidades Móveis, após a Leitura do Santo Evangelho e antes da homilia.
Segue o texto em latim e português. O texto latino está com as datas do Diretório, ou seja, trazendo a Ascensão no Domingo e não na quinta-feira. Depois do texto da CNBB está o texto para a Forma Extraordinária, com as datas "oficiais" (sem as alterações do Brasil).


PVBLICATIO FESTORVM MOBILIVM

Noveritis, fratres carissimi, quod annuente Dei misericordia, 
sicut de Nativitate Domini nostri Iesu Christi gavisi sumus, 
ita et de Resurrectione eiusdem Salvatoris nostri gaudium vobis annuntiamus.
Die nona Martii erit dies Cinerum, et initium ieiunii sacratissimæ Quadragesimae.
Die vigesima quarta Aprilis sanctum Pascha Domini nostri Iesu Christi cum gaudio celebrabitis.
Die quinta Iunii erit Ascensio Domini nostri Iesu Christi.
Die duodecima eiusdem Festum Pentecostes.
Die vigesima tertia Iunii Festum Sanctissimi Corporis et Sanguinis Christi.
Die vigesima septima Novembris Dominica prima Adventus Domini nostri Iesu Christi,
cui est honor et gloria, in sæcula sæculorum. Amen.

- Partitura gregoriana que criei baseado na partitura da Publicatio da Forma Extraordinária, corrigindo-a com a melodia ouvida diretamente do vídeo da Missa da Epifania deste ano (2010) na Basílica de São Pedro.

"Tradução": Publicação das Festas Móveis

Sabei, irmãos caríssimos, que, agraciados pela misericórdia de Deus,
assim como nos alegramos por ocasião do Nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo,
vos anunciamos a alegria por ocasião da Ressurreição do nosso mesmo Salvador.
O dia 09 de Março será o dia das Cinzas, e o início do jejum da sacratíssima Quaresma.
No dia 24 de Abril celebrareis com alegria a Santa Páscoa de nosso Senhor Jesus Cristo.
No dia 05 de Junho, a Ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo.
No dia 12 do mesmo mês, a Festa de Pentecostes.
No dia 23 de Junho, a Festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.
No dia 27 de Novembro, o Primeiro Domingo do Advento de nosso Senhor Jesus Cristo,
a quem é a honra e a glória, nos séculos dos séculos. Amém.

Texto da CNBB: ANÚNCIO DAS SOLENIDADES MÓVEIS DE 2011

Irmãos caríssimos, 
a glória do Senhor manifestou-se, 
e sempre há de manifestar-se no meio de nós 
até a sua vinda no fim dos tempos.
Nos ritmos e nas vicissitudes do tempo, 
recordamos e vivemos os mistérios da salvação.
O centro de todo o ano litúrgico 
é o Tríduo do Senhor crucificado, sepultado e ressuscitado, 
que culminará no Domingo de Páscoa
este ano a 24 de Abril.
Em cada Domingo, Páscoa semanal, 
a Santa Igreja torna presente este grande acontecimento, 
no qual Jesus Cristo venceu o pecado e a morte.
Da celebração da Páscoa do Senhor 
derivam todas as celebrações do Ano Litúrgico: 
as Cinzas, início da Quaresma, a 09 de março; 
a Ascensão do Senhor, a 05 de junho; 
Pentecostes, a 12 de junho; 
o primeiro Domingo do Advento, a 27 de novembro.
Também as festas da Santa Mãe de Deus, 
dos Apóstolos, dos Santos 
e na Comemoração dos Fiéis Defuntos, 
a Igreja peregrina sobre a terra 
proclama a Páscoa do Senhor.
A Cristo, que era, que é e que há de vir, 
Senhor do tempo e da história, 
louvor e glória pelos séculos dos séculos. 
Amém.

Texto para a Forma Extraordinária seguindo as datas oficiais:

Noveritis, fratres carissimi, quod annuente Dei misericordia, 
sicut de Nativitate Domini nostri Iesu Christi gavisi sumus, 
ita et de Resurrectione eiusdem Salvatoris nostri gaudium vobis annuntiamus.
Die vigesima Februarii erit Dominica in Septuagesima.
Nona Martii dies Cinerum, et initium ieiunii sacratissimæ Quadragesimae.
Die vigesima quarta Aprilis sanctum Pascha Domini nostri Iesu Christi cum gaudio celebrabimus.
Secunda Iunii erit Ascensio Domini nostri Iesu Christi.
Duodecima eiusdem Festum Pentecostes.
Vigesima tertia Iunii Festum Sacratissimi Corporis Christi.
Vigesima septima Novembris Dominica prima Adventus Domini nostri Iesu Christi,
cui est honor et gloria, in sæcula sæculorum. Amen.

- Algumas diferenças são: o começo das datas pelo Domingo da Setuagésima; o celebrabimus ("celebraremos") da Páscoa, que na Publicatio da Forma Ordinária foi mudado para celebrabitis ("celebrareis"); o nome da Solenidade de "Corpus Christi", que no Missal da Forma Ordinária é maior.

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 25 de dezembro de 2010

Natal na Matriz de Teresina

Pax et bonum!

Caríssimos, aqui vão informações, fotos e um vídeo no contexto do Natal do Senhor na Igreja Nossa Senhora do Amparo, matriz de Teresina, capital do Piauí.

Detalhes do Repertório

24/12/10

- Entrada - "Cristãos, vinde todos"
- Kalenda
- In nomine Patris
- Kyrie VIII (de angelis)
- Glória (CNBB, CD Partes Fixas, todavia apenas com órgão e de um jeito bem solene)
- Ofertório - "Para nos doar o Cristo"
- Sanctus VIII (de angelis)
- Per ipsum
- Cordeiro de Deus (em português)
- Comunhão - "No presépio pequenino"
- Ite missa est

25/12/10

- Entrada - "Dominus dixit ad me" (da Missa da noite)
- In nomine Patris & Dominus vobiscum
- Kyrie VIII (de angelis)
- Gloria VIII (--//--)
- Gradual - "Viderunt omnes"
- Alleluia (versículo em português)
- Ofertório - "Para nos doar o Cristo"
- Sanctus VIII (de angelis)
- Agnus Dei VIII (--//--)
- Comunhão - "Puer natus in Bethlehem" (hino processional do séc. XV)
- Ite missa est
- Ave Maria (em português)

Vídeo da Kalenda

Kalenda (cantada por mim)

Fotos da Missa da Noite (24/12/10)


Canto da Kalenda antes do In nomine Patris

Pe. José de Pinho durante a homilia

Ofertório

Oferta do pão

Oferta do cálice de vinho e água

Consagração e Transubstanciação do pão

Elevação do Corpo de Cristo

Consagração e Transubstanciação do Vinho

Elevação do cálice com o Sangue de Cristo

Observações

- Como a Igreja Matriz está em reforma, a capela-mor foi isolada. Por esta razão se vê uma parede de madeira no fundo do que atualmente é o presbitério, situado na entrada da capela-mor.
- Daqui também se explica o pobre altar que usamos.
- A Kalenda foi cantada depois da incensação do altar, mas antes do In nomine Patris. A razão para isto é porque sendo eu o cantor da Kalenda e o cerimoniário, não convinha cantar e voltar para a entrada da Igreja para a procissão de entrada. E para mais se assemelhar ao Vaticano (onde a Kalenda é cantada antes dos ritos iniciais), fazendo diferente do indicado pela CNBB no Diretório Litúrgico 2010, achei por bem fazê-la antes do sinal da cruz.
- Alguém mais entendido poderá notar pausas maiores ou mesmo não existentes na partitura [da Kalenda]. Isto se deve ao meu fôlego dificultado pelo nervosismo.
- O uso de 4 e não de 6 castiçais se justifica porque os outros 2 (até onde me consta eram 6) foram roubados há algum tempo.
- Foi a primeira vez que utilizamos o crucifixo no centro voltado para o sacerdote, permanecendo 2 crucifixos (situação vista mesmo em várias Missas com o Santo Padre, em vários lugares).
- Estamos analisando a possibilidade de inserir a celebração "versus Deum" (ficando o sacerdote, durante a Liturgia Eucarística, voltado para o altar pelo lado da frente, como os fiéis). Com fé em Deus isto acontecerá neste novo ano litúrgico.
- Hoje (25/12), ao cantar o Graduale, semitonei, terminando o canto meio-tom acima. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. O nervosismo e os melismas confudiram-me, embora tenha ensaiado várias vezes.
- A Oração Eucarística usada nas duas ocasiões foi o Cânon Romano (como em praticamente todas as solenidades do ano na Igreja do Amparo).
- O coro que cantou a Missa de hoje (25/12, às 17h) é inteiramente masculino, formado por leigos da Paróquia São João Evangelista (Parque Piauí, região sul da cidade), aos quais sou muito grato pela disposição, parabenizando-os pelos esforços. Foi a segunda vez que fizeram ressoar o canto gregoriano na Matriz de Teresina.

Por Luís Augusto - membro da ARS

"Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade"

Pax et bonum!
Feliz Natal a todos!

O belíssimo texto do grande papa do séc. V bem merece estar na primeira postagem deste Natal!

Dos Sermões de São Leão Magno, papa.
(Sermo 1 in Nativitate Domini, 1-3: PL 54, 190-193)

Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasceu a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade.
Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória ; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida.
Quando chegou a plenitude dos tempos, fixada pelos insondáveis desígnios divinos, o Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com o seu Criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que antes vencera.
Eis por que, no nascimento do Senhor, os anjos cantam jubilosos: Glória a Deus nas alturas; e anunciam: Paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14). Eles vêem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo. Diante dessa obra inexprimível do amor divino, como não devem alegrar-se os homens, em sua pequenez, quando os anjos, em sua grandeza, assim se rejubilam?
Amados filhos, demos graças a Deus Pai, por seu Filho, no Espírito Santo; pois, na imensa misericórdia com que nos amou, compadeceu-se de nós. E quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo (Ef 2,5) para que fôssemos nele uma nova criação, nova obra de suas mãos.
Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne.
Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que a cabeça e de que corpo és membro. Recorda-te que fostes arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus.
Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de Cristo.

***
Ex Sermónibus sancti Leónis Magni papæ 
(Sermo 1 in Nativitate Domini, 1-3: PL 54, 190-193)


Salvátor noster, dilectíssimi, hódie natus est, gaudeámus. Neque enim locum fas est ibi esse tristítiæ, ubi natális est vitæ; quæ, consúmpto mortalitátis timóre, nobis íngerit de promíssa æternitáte lætítiam.
Nemo ab huius alacritátis participatióne secérnitur, una cunctis lætítiæ commúnis est rátio: quia Dóminus noster, peccáti mortísque destrúctor, sicut nullum a reátu líberum répperit, ita liberándis ómnibus venit. Exsúltet sanctus, quia propínquat ad palmam. Gáudeat peccátor, quia invitátur ad véniam. Animétur gentílis, quia vocátur ad vitam.
Dei namque Fílius secúndum plenitúdinem témporis, quam divíni consílii inscrutábilis altitúdo dispósuit, reconciliándam auctóri suo natúram géneris assúmpsit humáni, ut invéntor mortis diábolus, per ipsam qua vícerat, vincerétur.
Ab exsultántibus ergo ángelis, nascénte Dómino, Glória in excélsis Deo cánitur, et pax in terra bonæ voluntátis homínibus nuntiátur. Vident enim cæléstem Ierúsalem ex ómnibus mundi géntibus fabricári: de quo inenarrábili divínæ pietátis ópere, quantum lætári debet humílitas hóminum, cum tantum gáudeat sublímitas angelórum?
Agámus ergo, dilectíssimi, grátias Deo Patri, per Fílium eius, in Spíritu Sancto, qui propter multam misericórdiam suam, qua diléxit nos, misértus est nostri; et cum essémus mórtui peccátis, convivificávit nos Christo, ut essémus in ipso nova creatúra, novúmque figméntum.
Deponámus ergo véterem hóminem cum áctibus suis; et adépti participatiónem generatiónis Christi, carnis renuntiémus opéribus.
Agnósce, o christiáne, dignitátem tuam, et, divínæ consors factus natúræ, noli in véterem vilitátem degéneri conversatióne redíre. Meménto cuius cápitis et cuius córporis sis membrum. Reminíscere quia érutus de potestáte tenebrárum, translátus es in Dei lumen et regnum.
Per baptísmatis sacraméntum Spíritus Sancti factus es templum: noli tantum habitatórem pravis de te áctibus effugáre, et diáboli te íterum subícere servitúti: quia prétium tuum sanguis est Christi.


Fonte: Ofício das Leituras da Solenidade do Natal do Senhor. 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Confirmada "Luna Decima Nona" da Kalenda

Pax et bonum!

Caríssimos, vi agora no livreto da Santa Missa da Noite da Solenidade do Natal do Senhor, da Santa Sé, que a luna, da Kalenda, é, de fato, a décima nona. Sendo assim, há mais crédito na contagem do Natal após o dia da lua nova (ver postagem anterior sobre a Kalenda).

O livreto está disponível aqui.

Por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 19 de dezembro de 2010

Kalenda ou Anúncio Natalino

Pax et bonum!

Faltando poucos dias para a Solenidade do Natal do Senhor ("Prope est iam Dóminus: veníte, adorémus", como diz a Antífona do Invitatório destes dias), recomendo a todas as paróquias que utilizem o Anúncio Natalino (nome dado pela CNBB) ou Kalenda (nome usado no Martirológio Romano e no livreto da Missa da Santa Sé).
O antigo costume era cantá-la no Ofício de Prima no dia 25. O texto (um tanto diferente) está no Martirológio e foi retocado (ex: o texto antigo dizia que Cristo nasceu 5199 anos depois da criação do mundo) com as reformas do pós-Concílio. A melodia foi simplificada (ouvi um belo tom solene bem mais cheio de melismas).
A luna muda todo ano e, no ano passado, constatei que se trata de quantos dias depois da lua nova cai o dia 24 de dezembro. Como a lua nova caiu, neste ano, em 05/12, o texto será luna décima nona. Ainda assim, isto se trata de algo não oficial. O livreto da Santa Sé ainda não está disponível na web e não encontrei outras fontes. Mas esse raciocínio funcionou para os anos de 2006 até 2009, como vi nos livretos da Santa Sé.
Embora a recomendação da CNBB seja cantar dentro da Missa, antes do Gloria, como foi feito no Vaticano há alguns anos, recomendo o canto antes da Missa (o que poderá ser feito também quando a Missa for na forma extraordinária).

Texto original a ser usado este ano:

KALENDA
(Em 2006 e 2007 foi cantada no Vaticano antes do Gloria, omitindo-se o Ato Penitencial. Em 2008 e 2009 passou a ser cantada antes da Missa e foi usado normalmente o Ato Penitencial)

Octávo Kaléndas ianuárii. Luna décima nona.
Innúmeris transáctis sæculis a creatióne mundi,
quando in princípio Deus creávit cælum et terram
et hóminem formávit ad imáginem suam;
permúltis étiam sæculis, ex quo post dilúvium
Altíssimus in núbibus arcum posúerat, signum fœderis et pacis;
a migratióne Ábrahæ, patris nostri in fide, de Ur Chaldæórum sæculo vigésimo primo;
ab egréssu pópuli Ísrael de Ægýpto, Móyse duce, sæculo décimo tértio;
ab unctióne David in regem, anno círciter millésimo;
hebdómada sexagésima quinta, iuxta Daniélis prophetíam;
Olympíade centésima nonagésima quarta;
ab Urbe cóndita anno septingentésimo quinquagésimo secúndo;
anno impérii Cæsaris Octaviáni Augústi quadragésimo secúndo; toto Orbe in pace compósito,
 Iesus Christus, ætérnus Deus æterníque Patris Fílius,
mundum volens advéntu suo piíssimo consecráre,
de Spíritu Sancto concéptus, novémque post conceptiónem decúrsis ménsibus,
in Béthlehem Iudæ náscitur ex María Vírgine factus homo:
 Natívitas Dómini nostri Iesu Christi secúndum carnem.

Texto do Diretório Litúrgico da CNBB:

ANÚNCIO NATALINO
(a ser proclamado na primeira misa ("da noite de natal") após o sinal da cruz e a saudação presidencial, 
antes da entoação do Glória)

Transcorridos muitos séculos desde que Deus criou o mundo
e fez o homem à sua imagem;
- séculos depois de haver cessado o dilúvio,
quando o Altíssimo fez resplandecer o arco-íris,
sinal de aliança e de paz;
- vinte e um séculos depois do nascimento de Abraão, nosso pai;
- treze séculos depois da saída de Israel do Egito sob a guia de Moisés;
- cerca de mil anos depois da unção de Davi como rei de Israel;
- na septuagésima quinta semana da profecia de Daniel;
- na nonagésima quarta Olimpíada de Atenas;
- no ano 752 da fundação de Roma;
- no ano 538 do edito de Ciro autorizando a volta do exílio e a reconstrução de Jerusalém;
- no quadragésimo segundo ano do império de César Otaviano Augusto,
enquanto reinava a paz sobre a terra, na sexta idade do mundo.
JESUS CRISTO DEUS ETERNO E FILHO DO ETERNO PAI,
querendo santificar o mundo com a sua vinda,
foi concebido por obra do Espírito Santo e se fez homem;
transcorridos nove meses nasceu da Virgem Mariaem Belém de Judá.
Eis o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a natureza humana.
Venham, adoremos o Salvador.
Ele é Emanuel, Deus Conosco.

Tradução minha para o Folheto Litúrgico Dies Domini do dia 24/12/2010:

Oito dias antes do início de Janeiro. Décimo nono dia após a lua nova.
Passados inúmeros séculos da criação do mundo, 
quando no princípio Deus criou o céu e a terra 
e formou o homem à sua imagem;
muitos séculos também, desde quando, após o dilúvio, 
o Altíssimo pôs nas nuvens o arco[-íris] como sinal de aliança e de paz;
2100 anos da saída de Abraão, nosso pai na fé, de Ur dos Caldeus; 
1300 anos do êxodo do povo de Israel do Egito, tendo Moisés como guia;
aproximadamente 1000 anos da unção de Davi como rei; 
na semana sexagésima quinta, como disse a profecia de Daniel;
no tempo da 194ª Olimpíada; aos 752 anos da fundação da Cidade de Roma;
no 42º ano do império de César Otaviano Augusto; estando o mundo inteiro em paz,
Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do Pai Eterno, 
desejando consagrar o mundo com sua vinda piíssima,
sendo concebido do Espírito Santo, e passados daí os nove meses,
nascendo em Belém da Judéia, da Virgem Maria, se fez homem.
Eis o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne!
Por Luís Augusto - membro da ARS