terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Card. Arinze sobre dança e música na Liturgia - VÍDEO

Pax et bonum!

Acabei de encontrar um ótimo vídeo contendo parte de um "Perguntas e Respostas" com o Cardeal Arinze, prefeito emérito da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. O programa, presumo, é de setembro de 2009, filmado em Familyland, Bloomingdale, Ohio, nos Estados Unidos.
As palavras são claríssimas e aquele que fala tem autoridade suficiente.
Só para citar: "No que diz respeito à América do Norte e à Europa [e certamente a América do Sul, dada a grande semelhança entre nossas culturas] pensamos que a dança não deveria estar presente na Liturgia de maneira alguma. E as pessoas que estão discutindo a dança litúrgica deveriam usar o seu tempo rezando o Rosário. Ou eles deveriam usar o seu tempo lendo um dos documentos do Papa sobre a Sagrada Eucaristia. Nós já temos problemas suficientes. Por que banalizar mais? Por que dessacralizar mais? Já não temos confusão suficiente?"
Recomendo que assistam:

Obras sobre a Orientação Litúrgica e a Reforma Litúrgica em geral

Pax et bonum!

Há alguns anos traduzi algumas obras que, espero, já tenham ajudado várias pessoas a compreender o sentido da Sagrada Liturgia e, sobretudo, a questão da orientação litúrgica (Versus Deum, Ad orientem).
As obras já foram enviadas para muitas pessoas e publicadas em algumas páginas. Teria interesse em que chegassem a sacerdotes.
Bem, a fonte oficial será, pois, esta página, apontando para o Gloria.tv.
Seguem as obras:
Jean Fournée


Mons. Klaus Gamber


Mons. Klaus Gamber


A próxima publicação será "Liturgia - princípios fundamentais", tradução de "Liturgie - ses principes fondamentaux", de Dom Gaspar Lefebvre. Esta tradução tem andado devagar por ser a minha primeira do francês e por eu estar com o tempo menor. Além disso, a obra é maior que as outras.
Agradeço a Deus pela oportunidade de colaborar com o "Novo Movimento Litúrgico".

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Missa católica do ex-bispo Anglicano

Pax et bonum!

Gostaria apenas de enumerar alguns detalhes interessantes da primeira Missa (domingo passado, 16/01/11) do Pe. Andrew Burnham (ordenado no sábado, 15/01/11). Este sacerdote foi bispo da Igreja da Inglaterra (Church of England, Igreja Anglicana) e foi recebido na Igreja Católica no dia 1º deste mês.

- A estrutura da Missa foi semelhante a de uma Missa Cantata (sem diáconos, mas com as procissões e o uso do incenso);
- A Missa foi celebrada "ad Orientem versus populum", com o "arranjo beneditino". De fato, isto talvez não tenha sido noticiado mas o Oxford Oratory está com a abside para o ocidente (o mesmo caso de algumas basílicas de Roma, como a de São Pedro no Vaticano);
- O celebrante vestiu casula romana;
- Houve a ajuda de um presbítero assistente (costume da Forma Extraordinária), de veste coral (batina e sobrepeliz) e pluvial;
- As leituras foram feitas do lado direito do templo e o Evangelho do lado esquerdo ("Lado da Epístola" e "Lado do Evangelho", como se faz na Forma Extraordinária);
- O cálice estava coberto com véu e sobre ele estava a bolsa com o corporal (conforme a Forma Extraordinária);
- Do prefácio até o final da Liturgia Eucarística se empregou a língua latina;
- Ao que parece o Cânon foi em voz baixa (conforme a Forma Extraordinária), pois o canto do Sanctus foi dividido, cantando-se a segunda parte (Benedictus) após a consagração (conforme costume antigo da polifonia).

Certamente podem ter havido outros detalhes. Fotos podem ser vistas aqui.
Eis um grande exemplo de humildade e abraço amoroso às coisas da Igreja. Quantos de nossos sacerdotes, católicos há tanto tempo, seriam tão obedientes e "alinhados" ao Santo Padre no que diz respeito à Sagrada Liturgia?

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Retiro do Clero Arquidiocesano

Pax et bonum!


O clero da Arquidiocese de Teresina está reunido durante este período de 17 (ontem) a 21 (sexta-feira), no Seminário Interdiocesano Sagrado Coração de Jesus, para o seu Retiro anual.
O Retiro está sendo orientado por Dom Bruno Gamberini, Arcebispo de Campinas.
Dom Bruno Gamberini

Peçamos ao bom Deus que este seja um momento frutuoso para todos os que estão lá.

Ajudai-os, com a vossa poderosa intercessão, 
a não esmorecer nesta sublime vocação, 
nem ceder aos próprios egoísmos, 
às lisonjas do mundo e às sugestões do Maligno.

(Adaptação de trecho do Ato de Confiança e Consagração dos Sacerdotes ao Imaculado Coração de Maria, Papa Bento XVI)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sobre a saudação Dominus vobiscum (O Senhor esteja convosco) e sua resposta

Pax et bonum!

Achei por bem procurar algum material acerca de umas das mais usadas saudações litúrgicas e sua resposta: Dominus vobiscum ("O Senhor esteja convosco") / Et cum spiritu tuo ("E com o teu espírito"). Acredito que será de grande proveito para nós, brasileiros, já que a nossa tradução em vigor ("Ele está no meio de nós") é insuficiente no sentido, deixando-nos alheios às origens e significados da saudação e sua resposta.
Os três primeiros textos estão no contexto da Forma Extraordinária do Rito Romano (para alguns detalhes).
Acompanhando o texto estão fotos de São Padre Pio, com as manchas de sangue ao redor dos estigmas, voltado para o povo exatamente para dizer, na Missa, "Dominus vobiscum".


Dom Fernand Cabrol, OSB

Na Liturgia, o papel do Dominus vobiscum e de sua resposta Et cum spiritu tuo é talvez de maior importância que a do Alleluia. É, de certa forma, uma tradução da palavra hebraica Emmanuel, que significa Nobiscum Deus (Deus conosco). Entre os hebreus era usado como uma forma de saudação. Booz saudou os ceifeiros com as palavras: "O Senhor esteja convosco". Ao que lhe responderam: "O Senhor te abençoe" (Rt 2,4). Esta saudação é encontrada no Antigo Testamento ainda sob outras formas: "o Senhor, vosso Deus, está convosco" (1Cr 22,18); "o Senhor está convosco" (2Cr 15,2); "o Senhor estará convosco" (2Cr 20,17); "o Deus de Jacó esteja convosco" (Tb 7,15); "o Senhor Deus dos Exércitos estará convosco" (Am 5,14); "estou convosco, diz o Senhor" (Ag 1,13), etc. No Novo Testamento o anjo Gabriel saúda a Virgem Maria com estas palavras: "O Senhor é contigo" (Lc 1,28). São Paulo assim expressa esta saudação: "que a graça de nosso Senhor esteja convosco" (Rm 16,20); "o Deus de amor e paz estará convosco" (2Cor 13,11); "o Deus da paz estará convosco" (Fl 4,9).
O uso litúrgico do Dominus vobiscum com sua resposta é constantemente encontrado em todas as liturgias. Nada poderia haver de mais expressivo ou solene que essas palavras quando usadas em seu lugar apropriado. Com esta fórmula o sacerdote saúda os fiéis na assembleia cristã. O presbítero ou o bispo fala em nome de todos, reúne seus pedidos e é o pontífice que oferece as suas orações a Deus. Antes de agir como representante deles, portanto, volta-se para eles dizendo: Dominus vobiscum ("o Senhor esteja convosco"). E eles respondem: "E com o teu espírito" [já que tu apresentas as nossas orações]. E quando o pontífice conclui a oração em alta voz, o povo responde Amen, como para dizer: "Assim seja. Tu bem expressaste a nossa oração" (por exemplo: a oração Collecta - Oração do Dia).
O Dominus vobiscum encontrou, pois, naturalmente, um lugar antes da Collecta e de cada oração, na Missa ou no Ofício Divino, antes do Prefácio e antes do Evangelho. Neste último exemplo é o diácono que tem o direito de dizê-lo.

Fonte: Liturgical Prayer: its History and Spirit, Part I - Elements of Liturgical Prayer, Chapter V - Liturgical Acclamations and Invocations, 3. 1921.


Catholic Encyclopedia

É uma antiga forma de saudação devota, incorporada à liturgia da Igreja, onde é empregada como um prelúdio a certas orações formais. Sua origem é evidentemente bíblica, sendo claramente emprestada de Rt 2,4 e 2Cr 15,2. A mesma idéia é também sugerida no Novo Testamento, por exemplo, em Mt 28,20: "Ecce ego vobiscum sum", etc. O uso eclesiástico data provavelmente da era apostólica. Menção dela é feita (cap. III) pelo Concílio de Braga (563). Aparece também no "Sacramentarium Gelasianum", do séc. VI ou VII. A frase traz em si um profundo significado religioso e expressa intensamente um dos mais altos e santos desejos. Ora, não é a presença do Senhor — Fonte de todo bem e Autor de todos os maiores dons — uma garantia certa de proteção Divina e uma séria certeza de posse de toda paz e consolação espiritual? Nos lábios, pois, do sacerdote, que age como representante e delegado da Igreja, em cujo nome e com cuja autoridade ele reza, esta fórmula de súplica é preeminentemente apropriada. Daí seu uso frequente nas orações públicas da Liturgia da Igreja. Durante a Missa ela ocorre 8 vezes, que são: antes do sacerdote subir ao altar, antes dos dois Evangelhos, antes da Collecta, antes do Ofertório, antes do Prefácio, antes da Oração depois da Comunhão, e antes da bênção. Em quatro dessas ocasiões o celebrante se volta para o povo enquanto a diz, estendendo e juntando as mãos; nas outras quatro permanece voltado para o altar. No Ofício Divino esta fórmula é dita antes da oratio principal de cada Hora pelos padres, mesmo na oração privada, porque devem rezar em união com a Igreja e em nome da Igreja. Os diáconos a dizem apenas na falta de um presbítero ou com sua permissão, se este está presente (Van der Stappen, De officio divino, 43), enquanto os subdiáconos usam, em seu lugar, "Domine exaudi orationem meam". Diferente do uso geral, o "Dominus vobiscum" não precede a oração do Santíssimo Sacramento antes que a bênção seja dada. Gardellini (Comment. in Inst. Clem., 1531, n. 5) explica que esta anomalia se dá pelo fato de a bênção, com a Hóstia Sagrada no ostensório, conter efetivamente aquilo que está na fórmula. Os bispos usam "Pax vobis" antes da Collecta nas Missas em que o Gloria é cantado ou recitado. A resposta ao "Dominus Vobiscum" é "Et cum spiritu tuo" (cf. 2Tm 4,22; Gl 6,18; Fl 4,23). Originalmente esta resposta era dada a uma só voz por toda a assembleia. Entre os Gregos há uma forma correspondente "Pax omnibus" (Liturgia de São Basílio). O Concílio de Braga, já mencionado, ordenou (Mansi, IX, 777) que os presbíteros, como os bispos, a quem os [hereges] priscilianistas queriam restringir, adotassem esta fórmula.

Fonte: Morrisroe, Patrick. "Dominus Vobiscum." The Catholic Encyclopedia. Vol. 5. New York: Robert Appleton Company, 1909.

Pe. João Baptista Reus


Dominus vobiscum é a saudação litúrgica romana. Os Bispos, nos dias em que há Glória, dizem: Pax vobis, depois do Kyrie da Missa.
1) Origem: Dominus vobiscum era saudação comum do povo israelita (Rute 2,4). Pax vobis disse nosso Senhor (Jo 20,19).
2) Resposta: Et cum spiritu tuo usa São Paulo (2Tm 4,22). Em si estas palavras significam: "Contigo". Mas João Crisóstomo já entende pela palavra "espírito" o Espírito Santo, que pela ordenação é comunicado ao sacerdote. A Igreja favorece esta explicação, pois podem usar esta saudação só aqueles que, pela imposição das mãos do Bispo, receberam o Espírito Santo.
3) O efeito desta saudação é, para o povo, a comunicação das graças divinas. O celebrante dever-se-ia lembrar de pedir a renovação das graças sacerdotais recebidas na ordenação.
4) No ofício dos três últimos dias da semana santa não se emprega esta saudação, para exprimir o horror da saudação com que Judas traiu o amabilíssimo Redentor (conforme Durandus, VI, c. 72, n. 6).

Fonte: Curso de Liturgia, I Parte - Liturgia Geral, Cap. I - As santas palavras, §28 - Aclamações. III Edição - revista e aumentada. 1952. Editora Vozes Limitada. Petrópolis-RJ.


Pe. Edward McNamara

Pergunta: Como no mundo anglófono, nós teremos que mudar a resposta do povo* de "E contigo também" para "E com o teu espírito", estive procurando uma boa explicação histórico-litúrgica e teológica para esta mudança, a fim de torná-la compreensível para os fiéis. Por que esta insistência no espírito? O povo igualmente não tem espírito? Além de um pequeno parágrafo, não encontrei resposta à questão em livros litúrgicos disponíveis para mim. Poderia dar-me algum fundamento? — H.T., Kundiawa, Papua-Nova Guiné.
Resposta: Como bem se sabe, a Santa Sé pediu que a expressão latina "Et cum spiritu tuo", dita em resposta a saudações como "Dominus vobiscum" devesse sempre ser traduzida literalmente, como sendo "E com o teu espírito"**.
A maioria das línguas do mundo traduziu a expressão literalmente, sendo o Inglês e o Português brasileiro notáveis exceções.
A fórmula breve deste diálogo ("O Senhor esteja convosco. E com o teu espírito") é tirada do livro de Rute  2,4 e da 2ª Carta a Timóteo 2,22. Os cristãos provavelmente tomaram estas fórmulas diretamente da sinagoga. Há uma clara evidência, por exemplo, em São Justino, mártir (100-165), de que os cristãos falavam estas expressões desde muito cedo.
O fato de que desde os tempos mais antigos os cristão conservaram estas frases em sua forma original, apesar de serem alheias à mentalidade grega e latina, é um bom argumento para mantê-las intactas em nossas traduções atuais. Desta forma, mantemos um vivo elo com as origens históricas do Cristianismo, assim como fazemos conservando outras formas e expressões hebraicas como Amen (Amém), Alleluia (Aleluia) e Hosanna (Hosana).
A fórmula "esteja convosco" é considerada uma saudação de benevolência e de reconhecimento de uma realidade: O Senhor está presente. A resposta semítica "e com teu espírito" significaria literalmente "e contigo também", já que "teu espírito" (nephesh) literalmente poderia significar "tua pessoa". 
De acordo com um artigo de Paulinus Milner, 'Et Cum Spiritu Tuo', em Estudos sobre Liturgia Pastoral, Volume 3, editado por Placid Murray, OSB (Dublin: The Furrow Trust, 1967), a palavra hebraica nephesh, que significa alma ou espírito, também pode significar o ser, a pessoa. Os exemplos mais próximos que temos desta tradução numa língua semítica, contudo, não utilizam o equivalente a nephesh, mas sim a ruah, que significa apenas respiro ou espírito (cf. a tradução siríaca da Tradição Apostólica). E mais, a palavra grega pneuma*** nunca é usada na Septuaginta ("Bíblia dos Setenta") para verter o hebraico nephesh, mas sim ruah. Sendo assim, 'e contigo também' não é uma versão correta da base hebraica desta frase litúrgica.
Historicamente falando, o texto foi rapidamente separado de seu contexto judaico, e a tradição patrística o interpretou no sentido do espírito que o bispo ou presbítero recebeu na ordenação. Por exemplo, São João Crisóstomo, em sua homilia sobre a 2ª Carta a Timóteo (Homilia sobre a 2Tm, 10,3. PG LXII 659 ff), aponta "teu espírito" como referente ao Espírito Santo que habita: "Não pode haver melhor oração do que esta. Não te entristeças com minha partida. O Senhor estará contigo. E ele diz não contigo, mas com teu espírito. Assim há uma dupla assistência: a graça do Espírito e Deus auxiliando esta graça. E, por outro lado, Deus não estará conosco se não possuirmos a graça espiritual, pois se abandonamos a graça, como poderia ele estar conosco?" Em sua primeira homilia de Pentecostes (PG L. 458 ff) João Crisóstomo vê na palavra "espírito", da resposta, uma alusão ao fato de que o bispo realiza o sacrifício no poder do Espírito Santo.
Tais reflexões patrísticas são uma razão por que desde os tempos antigos a saudação "Dominus vobiscum" foi reservada àqueles que receberam as ordens maiores: bispos, presbíteros e diáconos. Esta restrição da saudação litúrgica aos ordenados está ainda em vigor hoje em dia. Um leigo que dirige, por exemplo, uma celebração da Palavra com a distribuição da Sagrada Comunhão, ou um ofício da Liturgia das Horas, não deve usar a saudação "O Senhor esteja convosco" com sua resposta.
Isto não significa que falta aos fiéis o Espírito ou que eles são meros assistentes passivos da ação litúrgica. Atualmente, por sua resposta ao sacerdote, a assembleia se constitui como assembleia litúrgica, presidida pelo sacerdote, em nome do Senhor, e respondendo assim ao seu chamado. Como escreveu o grande liturgista jesuíta J.A. Jungmann: "Podemos melhor entender o 'Et cum spiritu tuo' como um consenso popular quanto ao trabalho do sacerdote, não que a assembleia aqui confira autoridade ou poder ao sacerdote para que ele aja em seu lugar, mas a assembleia uma vez mais reconhece-o como o orador sob cuja liderança o grupo reunido se aproximará do Deus onipotente. Assim, na saudação e na resposta, temos a dupla nota que reaparece no fim da oração: o 'Dominus vobiscum' parece antecipar o 'per Christum' da conclusão da oração, e o 'et cum spiritu tuo' é um precursor do aceitamento do povo expresso no 'Amen'" (The Mass of the Roman Rite, Volume 1, Page 365).
Ao passo que o dinamismo contido nesta pequena mudança é difícil para assimilarmos hoje, o fato de uma nova tradução poderia apresentar um excelente momento de formação para sublinhar a ativa participação dos fiéis na liturgia e o verdadeiro sentido teológico da comunhão hierárquica.

Fonte: A Zenit Daily Dispatch, "And with your spirit", 14/09/2010.

* - a última tradução do Missal para o inglês (recente) veio com a correção na tradução.
** - isto foi pedido pela Santa Sé em 2001 na Instrução Liturgiam Authenticam, 56: "Certas expressões que pertencem à herança de toda ou de parte da Igreja antiga, bem como outras que se tornaram parte do patrimônio humano em geral, devem ser respeitadas por uma tradução que seja tão literal quanto possível, como, por exemplo, as palavras da resposta do povo Et cum spiritu tuo, ou a expressão mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa no Ato Penitencial, do Ordinário da Missa".
*** - também na Divina Liturgia de São João Crisóstomo a expressão em grego é "Και μετά του πνεύματος σου" (kai meta tou pneumatos sou), que significa exatamente "e com o teu espírito".

Organização, traduções e observações finais por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 16 de janeiro de 2011

Ordo 2011 da Administração Apostólica disponível

Pax et bonum!

Foi disponibilizado no site da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney o Ordo 2011.
Ordo Divini Oficii recitandi Sacrique peragendi ("Organização da Recitação do Ofício Divino e do cumprimento das coisas Sagradas", nome completo do Ordo) é uma espécie de, nos termos atuais, "Diretório da Liturgia e da organização da Igreja". No Brasil é um guia essencial para a vida litúrgica das comunidades e paróquias que já têm a Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano.

Agradeço ao Seminarista Jorge Luís, que foi conselheiro da ARS antes de entrar no Seminário da Administração Apostólica, por informar acerca da disponibilização do Ordo 2011.

Visite a página de download.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Ordenados presbíteros os três ex-bispos anglicanos

Pax et bonum!

Damos graças a Deus pela resolução destes homens, que deixaram a igreja anglicana para entrar em plena comunhão com a Igreja Católica.
Ontem (15/01/2010), na Catedral de Westminster, deu-se a Ordenação Presbiteral dos três diáconos, pelas mãos de Dom Vincent Nichols, arcebispo de Londres.
Assim se dá início concreto ao Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora de Walsingham, de acordo com as disposições da Constituição Apostólica Anglicanorum Cœtibus. O Ordinário apontado pelo Santo Padre é o Pe. Keith Newton e o Ordinariato foi colocado sob o patrocínio do Bem-aventurado Cardeal Newman.
Mais informações e fotos, além do vídeo da ladainha, no The New Liturgical Movement e no Salvem a Liturgia (1, 2, 3, 4, 5 e 6)!
Deus abençoe os neo-sacerdotes: Pe. Keith Newton, Pe. Andrew Burnham e Pe. John Broadhurst 
(da esquerda para a direita)

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Orações litúrgicas para pedir bom tempo


Gostaríamos de mencionar a grande catástrofe natural dos últimos dias na região serrana do Rio de Janeiro, bem como a contínua destruição causada e as novas vítimas.
Até o momento desta postagem, algumas fontes já noticiam mais de 540 mortes. As cidades mais atingidas são Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo.
Convidamos os sacerdotes do Rio de Janeiro e de São Paulo (bem como de outros estados, rezando por estes) a celebrarem o Santo Sacrifício e rezarem a Oração do Dia ad postulandam aeris serenitatem ("para pedir bom tempo"), dentre as Missas para diversas circunstâncias ou necessidades, lembrando que pode ser livremente rezada nos dias de semana do Tempo Comum, ou a Missa Ad postulandam serenitatem das Orationes diversæ, do Missal de 1962.

Assim se reza na Forma Ordinária:


Collecta

Omnípotens sempitérne Deus, qui nos et castigándo sanas et ignoscéndo consérvas, præsta supplícibus tuis, ut optáta áeris serenitáte lætémur, et pietátis tuæ donis ad glóriam nóminis tui salutémque nostram semper utámur. Per Dóminum nostrum...
(Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos curais pela punição e nos conservais pelo perdão, dai aos vossos servos alegrarem-se pela tão desejada serenidade do tempo e usarem sempre dos dons de vossa piedade para a glória do vosso nome e para nossa salvação. Por nosso Senhor...)
[A tradução para o português é minha. Para o texto oficial da oração em português, consultar o Missal Romano utilizado no Brasil.]


Na Forma Extraordinária temos a Missa (com Secreta e Postcommunio) na mesma intenção:

Oratio
Ad te nos, Dómine, clamántes exáudi: et áëris serenitátem nobis tríbue supplicántibus; ut, qui iuste pro peccátis nostris afflígimur, misericórdia tua præveniénte, cleméntiam sentiámus. Per Dóminum nostrum...
(Escutai, Senhor, os nossos clamores a vós, e concedei-nos a serenidade do tempo, a fim de que, afligidos justamente pelos nossos pecados, possamos sentir, por vossa misericórdia, a vossa clemência. Por nosso Senhor...)

Secreta
Prævéniat nos, quǽsumus, Dómine, grátia tua semper et subsequátur: et has oblatiónes, quas pro peccátis nostris nómini tuo consecrándas deférimus, benígnus assúme; ut, per intercessiónem Sanctórum tuórum, cunctis nobis profíciant ad salútem. Per Dóminum nostrum...
(Que a vossa graça nos preceda sempre, Senhor, e nos acompanhe, e aceitai benigno esta oblação, que vamos consagrar ao vosso nome, por nossos pecados, a fim de que, por intercessão dos vossos santos, nos aproveite a todos para a salvação. Por nosso Senhor...)

Postcommunio
Quǽsumus, omnípotens Deus, cleméntiam tuam: ut inundántiam coérceas ímbrium, et hilaritátem vultus tui nobis impertíri digneris. Per Dóminum nostrum...
(Suplicamos, ó Deus todo-poderoso, a vossa clemência, para que reprimais a inundação das chuvas e vos digneis comunicar-nos a alegria da vossa face. Por nosso Senhor...)

Pelas vítimas fatais pedimos a Deus: Requiem æternam dona eis, Domine.
Que ele também abençoe todas as equipes de busca e salvamento e todos os voluntários.


Por Luís Augusto - membro da ARS

2 anos de Associação Redemptionis Sacramentum

Pax et bonum!

Hoje, 14 de janeiro, é o 2º aniversário da 1ª Reunião da ARS. No próximo dia 17 (segunda-feira) comemoramos o aniversário de "batismo" do nosso querido grupo - o dia em que, por votação, foi escolhido o nome Associação Redemptionis Sacramentum (conveniente nome que tenciona guiar nossa atividade, tão interessada nas coisas "que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia".
Em nome dos demais, tenho algumas "palavras" sobre estes 2 anos:

1 - Spera in Deo, quoniam adhuc confitebor illi
2 - Ne respicias peccata mea
3 - Deo gratias

"Anima mea, spera in Deo, quoniam adhuc confitebor illi"
(Ó minh'alma, espera em Deus, porque ainda o louvarei)

Primeiramente, esperança. Continuamente somos tentados ao desânimo, por vermos as coisas andando a passos lentos ou, pior, sem andar, estagnadas. Acreditamos, porém, que muito das ideologias vigentes se dissipará com o erguer-se de uma geração (de ovelhas e pastores) que vem crescendo nos últimos anos; uma geração de católicos que querem verdadeiramente "amar com extremo tudo que é da Igreja". Neste amor encontra-se, em lugar privilegiado, a Sagrada Liturgia, cujo grande protagonista é o Senhor, fons omnis sanctitatis. Acreditamos que este pode ser um ano privilegiado, se cada um se esforçar.

"Ne respicias peccata mea"
(Não olheis os meus pecados)

Contrição. Este período de 2010 a 2011, para a ARS, foi meio difícil. Família, trabalho, outros tantos afazeres pastorais... Pedimos perdão a Deus pela ausência, os vãos temores, até mesmo a inatividade, as negligências... Queremos fazer o propósito de emenda e, neste ano, empenharmo-nos com renovado vigor "pela Liturgia reverente em ambas as formas do Rito Romano", sem modas, sem gostos, sem tendências, sem 'ismos'.

"Deo gratias"
(Graças a Deus)

Ação de graças. Elevamos a Deus onipotente um agradecimento por cada pequena conquista e por cada "conquista em potencial". Agradecemos a Deus por cada membro desta Associação, recordando, de modo especial, os que nela já não estão inseridos, mas que muito colaboraram. Agradecemos a Deus pelo nosso blog, por cada leitor e por cada pessoa ou site/blog que divulgou nossos textos e/ou pôs um link em seu espaço.

Por fim, a todos a quem este texto chegar: precamus vos, fratres, orare pro nobis ad Dominum Deum nostrum (pedimo-vos que oreis por nós, irmãos, ao Senhor nosso Deus). Sim, rezem pela ARS, rezem pela Paróquia Nossa Senhora do Amparo (campo em que creio que as sementes darão muitos frutos), rezem pela Arquidiocese de Teresina e rezem pela Província Eclesiástica do Piauí.

Parabéns para nós!

Apêndice
Estatísticas sobre o blog (seguindo o exemplo dos caríssimos irmãos do Salvem a Liturgia!).

Início do blog: 27 de março de 2009.
Total de postagens até a atual: 169
Mês em que mais se postou: Abril de 2009, 21 postagens
As 5 postagens mais acessadas desde o início do blog:
 - Rosário em latim (acessada, pelo que parece, diariamente)
 - Mas o que é o Pálio?
 - Sobre a nossa Associação
 - Papa João Paulo II é reconhecido Venerável
 - Por que o silêncio durante o Cânon?
Os 5 países que mais acessaram o blog (até o momento):
 - Brasil - 13.801
 - Portugal - 709
 - Estados Unidos - 528
 - China - 154
 - Rússia - 129
As 3 principais origens de tráfego para o blog (a estes somos muito gratos):
 - http://www.salvemaliturgia.com/
 - http://emdefesadelefebvre.blogspot.com/
 - http://subsidioliturgico.blogspot.com/
Mês de maior acesso no blog: Agosto de 2010, 3312 acessos

Que Deus abençoe abundantemente nossos leitores.

Ordenados diáconos os três ex-bispos anglicanos

Pax et bonum!

Os três ex-bispos anglicanos, que no dia 1º foram recebidos na Igreja Católica, foram ordenados diáconos ontem (13/01) e serão ordenados presbíteros. Mais detalhes podem ser vistos no Salvem a Liturgia.
Algumas fotos:





Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Misericordias Domini"

Pax et bonum!

Baixei o vídeo da Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, no Vaticano, e achei muito belo o canto de ofertório. Depois de umas buscas reuni algumas informações e consegui um vídeo.
A letra está em latim, o canto é originalmente a quatro vozes e a melodia é bem simples.

Título: Misericordias Domini
Missa de Misericordia Domini
Autor: Henryk Jan Botor

Letra:

MISERICORDIAS DOMINI

R. Misericordias Domini in æterno cantabo.
1. Confitemini Domino quoniam bonus
quoniam in æternum misericordia ejus. R.
2. Qui fecit mirabilia magna solus
quoniam in æternum misericordia ejus. R.
3. Quia in humilitate nostra memor fuit nostri
quoniam in æternum misericordia ejus. R.
4. Confitemini Domino dominorum
quoniam in æternum misericordia ejus. R.
5. Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto.
Sicut erat in principio et nunc et semper
et in sæcula sæculorum.
Amen. R.


E para os coros já bons de partitura, o bom blog lusitano O Canto na Liturgia postou a partitura completa existente no Scribd, que segue abaixo:


Misericordias Domini

Vídeo:


sábado, 8 de janeiro de 2011

Mais sobre estola cruzada, véu do cálice e versus Deum no Vaticano

Pax et bonum!

Ainda sobre o uso das casulas romanas (até aqui normal, embora incomum nas concelebrações papais) na Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (01/01), no Vaticano, temos as seguintes observações:
Após a Missa, o Santo Padre e os concelebrantes (no interessante número reduzido de 5)

1. A do Santo Padre realmente pertenceu a Paulo VI e foi usada na Epifania de 2009;
Epifania do Senhor em 2009

2. As casulas dos concelebrantes também datam da década de 60 e, segundo um comentário no The New Liturgical Movement, foram feitas para os cardeais no tempo do Concílio Vaticano II, que na Missa Papal se paramentavam de acordo com seu grau de ordem no cardinalato (cardeal diácono, presbítero ou bispo). Isto se percebe pelo brasão de Paulo VI nos paramentos;
Concelebrantes durante a procissão de entrada

3. O uso da estola cruzada pode ter sido feito, segundo alguns:
3.1. Por estética, sendo visível a estola pela frente, na cavidade do pescoço até o peito, aproximadamente;
3.2. Por uma nova forma de demonstrar a deferência ao Santo Padre;
3.3. Por uma nova forma de acentuar o papel do celebrante principal;
4. Além disso os concelebrantes vestiram belas alvas rendadas.

Sobre o uso do véu do cálice no Vaticano temos também o testemunho da Missa em sufrágio pelos Cardeais falecidos durante o ano de 2010 (04/11). Sobre o cálice pode-se pensar ser uma bolsa de corporal, mas me parece branco (se for dourado pode ser a borda da bolsa), o que poderia ser um corporal grande (dada a quantidade de vasos sagrados sobre o altar), pois ficaria estranho ou sem sentido usar uma bolsa de outra cor ou colocar a pala por cima do véu.


 Procissão das oferendas, Missa em Sufrágio dos Cardeais Falecidos em 2010
(nota-se o diácono carregando o cálice velado)




Uma outra celebração papal "versus Deum" aconteceu no dia 02 de dezembro de 2010, exéquias da sra. Manuela Camagni, uma das Memores Domini (leigas consagradas que servem no dia-a-dia do Santo Padre), na Capela Paolina. Lembramos que este altar é recente e separado da parede.
Saudação pela frente do altar

Santo Padre sentado do lado esquerdo da capela (como na Capela Sistina)

Durante a Oração Eucarística

"A paz do Senhor esteja sempre convosco"

Celebração versus Deum em 01/12/2009, com a Comissão Teológica Internacional

Por Luís Augusto - membro da ARS

Bispos com casula romana e estola cruzada na Missa Papal do dia 1º!

Em concelebração com Bento XVI, bispos paramentados com casula romana


O Santo Padre Bento XVI incensa o altar
acompanhado por mons. Marini e pelos diáconos
enquanto os cardeais-diáconos aguardam

Não que a casula romana esteja intimamente ligada ao tradicionalismo litúrgico. Ela é, de certa forma, recente, ciente que os paramentos sofreram redução dimensional depois do século XII. Contudo, com a má interpretação da reforma litúrgica ordenada pelo Concílio Vaticano II, os paramentos antigos sofreram preconceitos e foram quase que banidos das sacristias, a ponto de serem até danificados, apesar de nunca terem sido abolidos (conforme o n. 119 da Instrução Geral do Missal Romano). Os que usam apenas casulas góticas não percebem que portam paramentos mais antigos. De qualquer modo, quando vemos uma casula romana, logo lembramos da missa que era oficiada antes de 1962 em quase todos os altares do mundo, exclusive aqueles em igrejas pertecentes a outro rito.


Os últimos cardeais
são os que receberam igrejas diaconais em Roma
e, portanto, oficiam como diáconos,
assistem ao trono papal e não concelebram
À esquerda, Cardeal Angelo Amato
À direita, Cardeal Mauro Piacenza

Essa introdução deve-se à magnífica novidade que aconteceu na Basílica Vaticana no primeiro dia deste ano. Perdoem-me se minha ignorância não me permite saber que essa notícia não é novidade e que os mármores de São Pedro já tinham testemunhado tal fato depois do último Concílio. Mas, é a primeira vez que isso acontece na presença de um papa, pois, mesmo antes do Concílio e tão comum o uso de casula romana, o rito latino não permitia a concelebração. É verdade que Bento XVI já tem restaurado muitos costumes esquecidos; com o mons. Guido Marini já foi substituída por duas vezes a férula papal [de acordo com o costume dos papas: encimada com uma cruz grega, diferentemente da moderna projetada por Lello Scorzelli], foi restaurado o antigo pálio papal [primeiro um de longa dimensão, e agora um reduzido], os paramentos, os castiçais sobre o altar, tendo a cruz ao centro... Contudo, uma grata novidade nos alegra no primeiro dia do ano: os poucos bispos que concelebraram na Missa da Solenidade da Santa Mãe de Deus endossaram casulas romanas. Os em.mos Angelo Amato e Mauro Piacenza, cardeais-diáconos, estavam paramentados com dalmáticas.

Nota-se, por baixo da casula,
o venerável e antiquíssimo uso cruzado da estola
Contudo, incompreensível [o uso] por se tratarem de bispos
Maior ainda do que a novidade do uso de casula romana pelos bispos concelebrantes, é o uso por estes da estola cruzada por baixo da casula. Só não entendo a causa disso: segundo as rubricas dos livros da forma extraordinária do rito romano, apenas os sacerdotes usam a estola cruzada por baixo da casula ou do pluvial, não sendo assim quando usam sobrepeliz. Contudo, os bispos sempre usam a estola a cair paralelamente diante do peito, pois não precisa que nada figure como uma cruz (um dos motivos para que o sacerdote use a estola cruzada), já que ele usa a cruz peitoral.

O ano começou com mudanças relevantes. Esperemos mais. No próximo 29 junho, o Santo Padre comemorará 60 anos de sua ordenação presbiteral. Antigamente, era comum nessas ocasiões os Romanos Pontífices proclamarem tempo indulgenciado. Aguardemos.


***

Até então eu só tinha olhado umas fotos, mas de modo muito superficial. Um afilhado meu, coroinha da paróquia, telefonou-me relatando-me. Eu achei estranho, mas acabei de confirmar.
A casula usada pelo Santo Padre, até onde me recordo, foi de Paulo VI e ele a utilizou em 2010.

- Vídeo da Missa completa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (benedictxvi.tv):

O Véu do Cálice

Pax et bonum!


Aproveitando as últimas postagens que falavam do véu do cálice, percebi a necessidade de conhecê-lo melhor a fim de bem o recomendar. É fato que alguns fiéis podem mesmo nunca ter ouvido falar dele. Reuni algum material e espero que seja de utilidade aos caríssimos leitores.
Véu de brocatel (séc. XVI)
Museu Lázaro, Fundación Lázaro Galdiano, Espanha

A origem do véu do cálice, que atualmente é usado de modo geral nos ritos latinos da cristandade ocidental, para cobrir o cálice do início da Missa até o Ofertório e novamente depois das abluções, é obscuro. Desenvolveu-se na idade média tardia (entre os séc. XIV e V) de uma ou outra de três possíveis origens. Deve derivar simplesmente de uma coberta (sacculum ou lintheum), no qual o cálice e a patena eram levados ao altar para a Missa Rezada. Ou deve derivar do véu humeral, com o qual o subdiácono ou algum outro ministro levava o cálice para o altar na Missa Solene. Outra origem sugerida é que, assim como a pala, o véu do cálice deriva do grande corporal no qual se punha o cálice sobre o altar, e que era dobrado para cima, quando necessário, para cobrir o cálice.
Véu de damasco, com centro em terciopelo e alguns detalhes de seda e ouro (séc. XVIII)
Museu Lázaro, Fundación Lázaro Galdiano, Espanha

Qualquer que seja sua origem, o véu do cálice só começa a surgir como um item entre os vários entre os séc. XV e XVI. Não é tão fácil identificar a ocorrência do véu na idade média tardia por conta da falta de precisão na nomenclatura dos acessórios da Missa. É difícil, por isto, identificar que objeto exatamente era referenciado, por exemplo, nos inventários antigos. Esta falta de precisão afeta as referências a três acessórios da liturgia da Missa: o corporal, a pala e o cálice. Dos três o mais importante é o corporal. Trata-se de uma peça quadrangular de linho que é aberta sobre o altar. O cálice e a hóstia nele são postos e, antes do séc. XI ou XII, o corporal era suficientemente grande para ser dobrado para cima, sobre o cálice, para proteger dos insetos o seu interior. 
Por volta do séc. XII o corporal foi reduzido, permanecendo de linho, e deveria ter uma cruz ou monograma bordado no centro. Provavelmente o mais famoso corporal medieval seja o de Bolsena, conservado na Catedral de Orvieto, por conta do milagre que originou a Solenidade do Corpo de Cristo.
Retábulo com o relicário onde fica o corporal de Bolsena, Catedral de Orvieto, Itália

A inconveniência de dobrar o corporal para cima, sobre o cálice, foi diminuída pelo uso de dois corporais: um que era aberto sobre o altar, sob o cálice e a hóstia, e outro, dobrado na forma de um pequeno quadrado, colocado sobre a copa do cálice para o cobrir. Estes dois juntos formavam o "par de corporais", regularmente mencionados nos inventários medievais da Inglaterra, por exemplo.
O corporal dobrado assumiu gradativamente a forma de um pequeno quadrado de linho rígido (ocasionalmente de linho bordado ou de ricos materiais, contrariando a regra) e recebeu o nome de palla. Há muitos inventários, na Escócia, por exemplo, em que a pala continuou sendo referenciada como corporal.
O terceiro item, o véu do cálice, que atualmente no Rito Romano é uma peça quadrada de seda ou outro tecido rico, correspondendo à cor litúrgica dos demais paramentos, não era considerado parte dos paramentos, mas acessório do altar, podendo ser de qualquer cor. O nome que parece ser o mais comum para o designar, ao menos na Escócia, é coopertorium calicis - cobertura do cálice (o que justifica o termo espanhol cubre cáliz).
Nas Acta Ecclesiæ Mediolanensis (Atos da Igreja de Milão) de 1583, tratando de um inventário, pode-se encontrar, por exemplo, citados os seguintes itens: Calix, Patena, Velum Calicis, Corporale, Sacculus corporalis e Purificatorium. Se o costume milanês (ambrosiano) foi manter o termo sacculus (saco, sacola), o Missal Romano de 1570 usa a expressão Bursa (bolsa). De fato, o Ritus Servandus in Celebratione Missæ (Rito a ser observado na celebração da Missa) de um Missal datado de 1577 (sendo a edição típica de 1570) cita sobre o cálice: Purificatorium, Patena, Palla, Velum, Corporale e Bursa.
Trecho do Ritus Servandus (1962) citando a preparação do cálice

O mesmo trecho do Ritus Servandus, porém do Missal de 1570

Com a reforma tridentina, temos bem definido o uso do véu do cálice: cobre o cálice, a partir da pala, por todos os lados, se possível, até a base. Se ele for curto, deve cobrir pelo menos a parte dianteira. Quando o sacerdote leva o cálice da sacristia para a Missa, esta parte fica para a frente e é comumente adornada com uma cruz, igual às cruzes do manípulo e da estola, já que têm sido considerado parte do conjunto de paramentos: manípulo, estola, casula, véu e bolsa do corporal.
O cálice permanece coberto até o ofertório, quando o descobre, deixando o véu dobrado ao meio sobre o altar, do lado direito. O véu cobrirá novamente o cálice após as abluções, antes de o levar para a credência.
Pode surgir uma dúvida sobre o fato de se usar o véu e não se mencionar a bolsa do corporal na Missa na Forma Ordinária. Num vídeo mostrando cenas da Missa que o Santo Padre celebra em sua capela privada, é possível ver o cálice com o véu já sobre o altar, desde o início da Missa. Não se vê um corporal sobre ele nem sob o cálice. Supõe-se que esteja sobre a pala, igualmente sob o véu.
Cálice coberto com véu sobre o altar da capela privada do Palácio Apostólico 
em Missa diária do Santo Padre, Vaticano

Para a Missa na Forma Extraordinária o véu é orbigatório e tem sempre a cor litúrgica usada.
Para a Missa na Forma Ordinária, o uso véu é louvável, embora não obrigatório no texto latino, e pode ser sempre da cor branca: "Calix laudabiliter cooperiatur velo, quod potest esse aut coloris diei aut coloris albi" - "o cálice, como convém, seja coberto com um véu, que pode ser da cor do dia ou de cor branca" (IGMR 80, no texto da segunda edição, ou 118, no texto da terceira edição).
Sendo considerado um item do conjunto de paramentos, convém que o véu seja do mesmo tecido da casula e da estola [e do manípulo] (seda, cetim, etc). Como se vê, o Ritus Servandus (Missa na Forma Extraordinária) pede que ele seja de seda (velum serico). Assim, o véu também deve ter a estrutura dos demais paramentos (ex: entretela de algodão, forro de tafetá, etc).
Conjunto: Manípulo, Véu, Bolsa e Estola (veja a harmonia/unidade de estilo)
(Luzar Vestments, Inglaterra)


Quanto a suas dimensões, é comum que ele tenha o lado três vezes maior que o lado da bolsa do corporal. Parece ser muito comum (nas lojas atuais) encontrá-lo com o tamanho de 50cm x 50cm (aproximadamente 20" x 20"). Podem, contudo, ser encontrados até com 60cm x 60cm ou 45cm x 45cm. Alguns véus de séculos passados não são quadrados perfeitos, mas atualmente o uso comum parece ser o dos quatro lados iguais.
De acordo com Judy Fradl, na obra Adventures in Vestments, o tamanho mínimo do véu do cálice é de 18" x 18" e o máximo de 24" x 24", respectivamente: 45,72cm² e 60,96cm².
Véu e bolsa (compare os tamanhos)
(Luzar Vestments, Inglaterra)

Casula com os respectivos véu e bolsa (mais uma vez a harmonia de estilo)
(Luzar Vestments, Inglaterra)
Sacerdote dirigindo-se ao altar levando o cálice coberto com o véu
(Missa na Forma Extraordinária, DVD da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, Itália)
Sacerdote retirando o véu do cálice no Ofertório, Missa na Forma Extraordinária
(Cônegos de São João Câncio, Estados Unidos da América)
 
Conjunto (casula, estola, manípulo, véu e bolsa) em cor roxa, vermelha, preta e branca (modelo gótico)
(Susan Maria Evans Liturgical Art Studio, Estados Unidos da América)

Referências:
- Acta Ecclesiae Mediolanensis (1583)
Adventures in Vestments, a basic guide to make Church vestments, por Judy Fradl (1991, revisado em 2005)
General Instruction on the Roman Missal (1975)
Institutio Generalis Missalis Romani, editio tertia (2002)
Instrução Geral sobre o Missal Romano, 3ª edição (2002)
- Luzar Vestments
Missale Romanum (1570)

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O véu, o cálice e a dignidade do homem

Assim como os vasos sagrados na Missa, fomos feitos para receber Cristo
Por Pe. Jerry Pokorsky

De acordo com a legislação litúrgica da Igreja, o cálice usado na Missa deveria estar coberto com um véu. A Instrução Geral sobre o Missal Romano [IGMR 80c, 2ª edição típica] afirma: “O cálice esteja coberto com um véu, que sempre pode ser da cor branca”. Como a maioria das vestes litúrgicas, o véu do cálice é uma misteriosa peça. Podemos até ser tentados a rechaçá-lo como mera decoração, mas o cálice e o véu não têm apenas uma função durante a celebração da Missa, eles também nos recordam uma dignidade que está normalmente velada.
Um véu é usado para cobrir o cálice quando este é carregado para o altar e trazido dele durante a celebração da Missa. É normalmente da mesma cor dos paramentos. Como peça litúrgica, foi provavelmente introduzido na Idade Média, e deve ter tido uma origem funcional, provavelmente se desenvolveu de um sacculum ou pequena bolsa ou sacola para carregar os vasos sagrados.
O véu tem ainda uma função. Por exemplo, o véu é um sinal útil para os paroquianos acostumados a recitar a antífona de Entrada e Comunhão em Missas no meio da semana, já que elas variam de acordo com a festa. Ao sacerdote normalmente é dada a possibilidade de celebrar a memória de algum santo. Quando ele usa o véu vermelho, indica já antes da Missa começar que ele escolheu celebrar a memória.
O cálice velado também acentua tanto a relação como a distinção entre as duas partes principais da Missa, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Assim como o Evangeliário, que contém a Palavra de Deus, é adornado e dignificado com belas capas, assim is vasos que conterão o Corpo e o Sangue do Senhor deveriam ser adornados e dignificados com o véu. Desde que o cálice também é o sinal visível da Eucaristia, parece apropriado que ele esteja velado durante a primeira parte da Missa, a Liturgia da Palavra.
A fonte de um significado simbólico mais profundo do véu do cálice é encontrada nas Escrituras. Como prescrito no Êxodo e descrito na carta aos Hebreus, um véu ou cortina separava o Santo dos Santos do restante do Templo:
“Consistia numa tenda: a parte anterior encerrava o candelabro e a mesa com os pães da proposição; chamava-se Santo. Atrás do segundo véu achava-se a parte chamada Santo dos Santos. Aí estava o altar de ouro para os perfumes, e a Arca da Aliança coberta de ouro por todos os lados; dentro dela, a urna de ouro contendo o maná, a vara de Aarão que floresceu e as tábuas da aliança” (Hb 9,2-4).
O véu do cálice nos lembra a cortina que separa o Santo dos Santos, e nos prontifica para nos aproximarmos do altar cientes de não sermos dignos de entrar na união com Deus.
O ato de descobrir o cálice, retirando o véu, é uma das primeiras ações litúrgicas do Ofertório, em preparação para a recepção dos dons do pão e do vinho, que podem ser levados por fiéis da assembleia. Retirar o véu em seguida à Liturgia da Palavra significa que os sagrados mistérios estão prestes a serem revelados. Novamente, esta ação é um eco simbólico da Escritura:
Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. (Mt 27,50-51).
O véu rasgado no momento da morte de Jesus significa a transição da Antiga Aliança para a consumação da Nova Aliança, prometida por Jesus na última Ceia: “Do mesmo modo tomou também o cálice, depois de cear, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós...” (Lc 22,20). Retirar o véu significa a transição da Liturgia da Palavra para a Liturgia Eucarística, a “liturgia celeste”.
Apesar da barreira de nossa indignidade, o descobrimento do cálice convida-nos a adentrarmos a celebração dos sagrados mistérios. Quando o véu é removido, o esplendor do cálice é exposto.
A legislação litúrgica requer que o cálice, “a juízo das Conferências Episcopais, e com a confirmação da Sé Apostólica, podem ser fabricados com outros materiais sólidos e que sejam, segundo o modo de sentir de cada região, mais nobres (...). Neste caso, dê-se preferência aos materiais que não se quebrem nem deteriorem facilmente.” (IGMR, 290). “Quanto aos cálices e outros vasos, destinados a receber o Sangue do Senhor, a copa deve ser de material que não absorva os líquidos. O pé do cálice pode ser de outra matéria sólida e digna” (IGMR, 291).
Uma vez que um cálice é usado para a celebração da Missa, ele não deveria ser profanado pelo uso fora da Missa. O cálice é um vaso sagrado. Ele foi separado para as coisas sagradas. (É inquietante ver catálogos de lojas de objetos litúrgicos com propaganda de “taças nupciais” de cerâmica, para serem usadas na Missa do Matrimônio e depois dado de lembrança para o casal após a cerimônia. Um cálice é consagrado para o serviço do altar, porque tornou-se vaso sagrado, destinado a conter o Sangue de Jesus Cristo.
O cálice que eu uso foi feito no séc. XIX. Ele é de prata genuína e tem a copa banhada a ouro. Foi encontrado numa joalheria de peças de segunda mão. O cálice foi pego e restaurado. Recuperado como vaso sagrado e abençoado pelo meu bispo, voltou, enfim, para o serviço do altar.
Um cálice normalmente deveria ser nobre e belo, pois, por si mesmo, expressa nosso culto e estimo pela Presença Real (fogem à regra situações bem delicadas como, por exemplo, as histórias sobre sacerdotes que celebraram a Missa em campos de concentração nazistas ou em prisões comunistas).
O cálice é também um sinal de nossa dignidade para estar diante de Deus. Quando Jesus Cristo tornou-se homem, ele assumiu a natureza humana. Ele tomou a nossa humanidade e consagrou-a quando se tornou homem. O homem tornou-se um “vaso sagrado” por meio de Maria quando, em nome da humanidade, ela concebeu pelo poder do Espírito Santo. Alguém pode imaginar Jesus, como qualquer outro filho de qualquer outra mãe, tendo muitas das características físicas de Maria!
Quando contemplamos o cálice na Missa, deveríamos nos lembrar daquilo em que nos tornamos – e daquilo em que poderíamos nos tornar – por causa da Encarnação [de Cristo]. A natureza divina e a natureza humana tornaram-se inseparáveis na Pessoa de Jesus Cristo. A Encarnação em si e de si mesma revela a dignidade da humanidade. Assim, Santo Agostinho pode fazer esta surpreendente afirmação: “Deus tornou-se homem a fim de que o homem possa tornar-se Deus”.
Ele não quis que cada indivíduo fosse se tornando um “deus”. Há apenas um único Deus. Mas nossa fé nos ensina que “nós nos tornamos Deus” sendo incorporados ao Corpo Místico de Cristo pelo Batismo. Pelo Batismo nós “nos tornamos Deus” - sem perder nossa identidade distinta de servos e servas do Pai – por nossa união com Cristo em seu Corpo Místico.
A Encarnação também revela que Jesus, nascido de Maria, é o “unigênito de Deus”. Há apenas um Filho gerado pelo Pai. Mas no Batismo, nós nos tornamos “filhos no Filho” , filhos e filhas adotados por Deus. Entretanto, em certo sentido ainda nós nos tornamos “filhos no Filho” mesmo antes do Batismo, porque a humanidade foi deveras consagrada pelo fato da Encarnação: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Nossa dignidade – e a dignidade de todo ser humano desde o momento da concepção até a morte natural – pode ser encontrada neste simples fato. Tornando-se homem, Deus transformou todo homem, mulher e criança em um vaso sagrado que é capaz de o receber.
A Encarnação, seguida de nossa incorporação ao Corpo de Cristo pelo Batismo, separa-nos como um povo santo, como um cálice consagrado para ser usado na Missa. Já não pertencemos a um mundo profano, mas a Deus. No mundo, mas não do mundo (cf. Jo 17,16), fomos consagrados e pertencemos ao Pai, por Cristo. E assim com os vasos sagrados na Missa, somos destinados por decreto divino a receber o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo.
O véu do cálice, portanto, torna-se um lembrete de que essas poderosas verdades da nossa fé estão muitas vezes escondidas.
Mas se realmente acreditamos na Encarnação; se acreditamos que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade tornou-se homem, por que não desvelaríamos notícias tão admiráveis? Se realmente acreditamos que todo ser humano encontra sua dignidade na Encarnação, por que não proclamaríamos a boa nova sobre os telhados? E se realmente acreditamos que nos tornamos vasos sagrados por meio do Batismo, ousando chamar Deus de “Pai” e destinados a recebê-lo na Santa Comunhão, por que não desejaríamos que todos partilhassem desta alegria que conduz à vida eterna? De posse de tais dons, como poderíamos não ser impelidos a proclamar cada um deles?
A Igreja, é claro, ensina que, no mistério da providência de Deus, é dada a cada ser humana a graça suficiente e necessária para a salvação. Todavia, Deus espera nossa colaboração para desvelar os mistérios de nossa fé. O papa Paulo VI faz eco às palavras de São Paulo quando escreve que a questão não é tanto se os outros serão salvos se não desvelarmos os mistérios do Evangelho, mas se nós seremos salvos se não o fizermos. “Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1Cor 9,16).
Descobrir o cálice na Missa é um lembrete diário dos imensos dons de Deus para nós e de nossa solene obrigação de revelar o esplendor da inestimável dignidade do homem como filhos adotados por Deus em Cristo.

Fonte: http://www.adoremus.org/0297VeilChalice.html
Tradução por Luís Augusto - membro da ARS