sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Círio Pascal


A bênção do "círio pascal", que é uma coluna de cera de tamanho excepcional, normalmente fixa num grande castiçal especialmente destinado para este propósito, é um elemento notável da celebração do Sábado Santo. A bênção é feita pelo diácono, paramentado com uma dalmática branca. Uma longa oração eucarística, o "Præconium Paschale" ou "Exsultet", é cantado por ele, e durante o canto o círio é primeiramente ornamentado com os cinco grãos de incenso e, enfim, aceso com o fogo novo abençoado [assim foi até a Reforma da Semana Santa sob Pio XII]. Depois, noutra parte da celebração, durante a bênção da água batismal, o mesmo círio é mergulhado três vezes na água, às palavras: Descendat in hanc plenitudinem fontis virtus Spiritus Sancti (A virtude do Espírito Santo desça sobre a plenitude desta água). Do Sábado Santo até a Ascensão do Senhor o círio pascal permanece no santuário, no lado do Evangelho [junto do ambão, como atestam vários séculos anteriores], e é aceso para a Missa cantada e as Vésperas solenes aos Domingos. É apagado após o Evangelho do dia da Ascensão e, então, removido.
 Sacerdote incensando o Círio Pascal na Vigília Pascal
Os resultados de uma recente pesquisa parecem mostrar ser necessário admitir uma remota antiguidade para o círio pascal. Dom Germain Morin (Revue Bénédictine, Jan., 1891, e Set., 1892), contra Mons. Duchesne e outros, sustentou com êxito a autenticidade da carta de São Jerônimo a Presídio, diácono de Placência (Migne, P.L., XXX, 188), na qual o santo responde a um pedido para que ele compusesse um carmen cerei (poema ao círio), em outras palavras, uma forma de bênção, como o nosso "Exsultet". Esta referência deve claramente pressupor a existência, em 384, do próprio círio, que deveria ser abençoado pelo diácono de um modo particular, e a resposta do santo torna provável que a prática nem era recente e nem peculiar à Igreja da Placência. Santo Agostinho (Cidade de Deus XV,22) menciona casualmente que ele compôs uma laus cerei [louvor ao círio] em verso; e dos exemplares de composições similares — todas, contudo, trazendo uma estreita familiaridade com nosso "Exsultet" — encontradas nas obras de Enódio (Opusc., 14 e 81), parece não poder haver base suficiente para se duvidar da retidão desta afirmação.
Castiçal do Círio Pascal - Abadia de São Clemente de Casauria - Castiglione a Casauria, Itália
Ademais, Mons. Mercati já tem mostrado boas razões para acreditar que o "Præconium paschale" existente do Rito Ambrosiano foi composto, na essência, pelo próprio Santo Ambrósio ou também fundamentado em hinos dos quais ele era o autor (cf. "Studi e Testi", XII, 37-38). Não há, portanto, ocasião para se negar ao Papa Zózimo o crédito de ter concedido o uso do círio pascal às igrejas suburbicárias de Roma, embora a menção deste fato apena seja encontrada na segunda edição do "Liber Pontificalis". Mons. Duchesne argumenta que esta instituição não deixou traço algum nos Ordines romanos mais puros da antiguidade, como o Ordo de Einsiedeln e o de Santo Amando; mas estes falam de duas faculæ (tochas) que eram carregadas até a fonte diante do papa e eram mergulhadas na água, como se faz agora com o círio pascal. A questão do tamanho ou da quantidade não parece ser vital. O concílio mais antigo que trata do assunto, o IV de Toledo (ano de 633, cap. ix), parece colocar juntas a bênção da lucerna e do cereus como sendo de igual importância e parece ligá-los, ambos, simbolicamente a algum sacramentum, isto é, algum mistério da iluminação batismal e à Ressurreição de Cristo. E é sem dúvida que o círio pascal deve ter derivado sua origem dos esplendores da Vigília Pascal nos primeiros séculos cristãos. [A celebração matutina ou pouco mais tarde do Sábado Santo, até a reforma de Pio XII, certamente representava por antecipação uma celebração que acontecia à noite, nos primeiros tempos.] Ela culminava com a bênção da fonte e com o batismo dos catecúmenos, seguido imediatamente da Missa pouco depois da meia-noite, na madrugada da Páscoa. Ainda no tempo de Constantino, Eusébio conta-nos (De Vita Constantini, IV, xxii) que o imperador "transformou a noite da vigília sagrada num fulgor diurno, acendendo por toda a cidade pilares de cera (kerou kionas), enquanto lâmpadas ardentes iluminavam todas as partes, de modo que esta mística vigília tornava-se mais brilhante que a mais brilhante luz do dia". Outros Padres, como São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa, também dão vívidas descrições da iluminação da vigília pascal. É certo, além disso, através de evidências que remontam ao tempo de Tertuliano e Justino, mártir, que os catecúmenos eram batizados nesta Vigília Pascal e que esta cerimônia do batismo era referida como photismos, isto é, iluminação. De fato, parece ser muito provável que a isto se faça referência em Hb 10,22, onde as palavras "ser iluminado" parecem ser utilizadas no sentido de ser batizado (cf. São Cirilo de Jerusalém, Cat. i, n. 15). Se designado conscientemente ou não para este propósito, o círio pascal tipificou Jesus Cristo, "a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo", rodeado pelos seus iluminados, isto é, os discípulos que acabam de ser batizados, cada um portando uma luz menor. Na cera virgem ainda um último simbolismo reconheceu a carne puríssima que Cristo derivou de sua bem-aventurada Mãe, no pavio a alma humana de Cristo, e na chama a divindade da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Ademais, os cinco grãos de incenso postos em forma de cruz recordam as sagradas chagas mantidas no corpo glorificado de Cristo e o acendimento do círio com o fogo novo serviu como uma viva imagem da ressurreição.

Castiçal do Círio Pascal - Abadia de Santa Maria Arabona - Manopello, Itália
Muito se poderia dizer da prática medieval e de tempos posteriores com relação ao círio pascal. Aprendemos da autoridade de Beda, falando no ano 701, que era comum em Roma inscrever a data, e outras coisas particulares do calendário, ou no próprio círio ou num pergaminho fixado a ele. Além disso, em várias basílicas italianas o castiçal pascal era uma construção de mármore que era um adjunto permanente do ambão ou do púlpito. Vários destes ainda existem, como em São Lourenço fora dos muros, em Roma. Naturalmente a tendência medieval era glorificar o círio pascal fazendo-o cada vez maior. Em Durham fala-se de um magnífico com dragões, escudos e sete braço, que era tão grande que tinha que ficar no centro do coro [localizado entre a nave e o presbitério]. O Processional de Sarum de 1517 estabelece que o círio pascal, sem dúvida o da Catedral de Salisbury, deve ter aproximadamente 11m de altura, enquanto aprendemos do diário de Machyn que, em 1558, no reinado da Rainha Maria, cerca de 140kg de cera foram usados para o círio pascal da Abadia de Westminster. Na Inglaterra, estes grandes círios, depois de terem sido usados pela última vez na bênção da fonte na vigília do Domingo de Pentecostes, eram geralmente derretidos para serem feitas pequenas velas a serem usadas gratuitamente nos funerais dos pobres (cf. Wilkins, "Concilia", I, 571, e II, 298). Em Roma, os Agnus Dei [discos de cera abençoados pelo Papa; são um sacramental] eram feitos dos restos dos círios pascais, sendo que Mons. Duchesne parece considerá-los como provavelmente mais antigos que o próprio círio pascal.

 Castiçal do Círio Pascal - Catedral de São Lourenço - Trapani, Itália
 Castiçal do Círio Pascal - Basílica de São Clemente - Roma, Itália - lateral e frente
  Castiçal do Círio Pascal - Basílica de São Lourenço fora dos muros - Roma, Itália
 Castiçal do Círio Pascal - Basílica de São Paulo fora dos muros - Roma, Itália

Fonte: Thurston, Herbert. "Paschal Candle." The Catholic Encyclopedia. Vol. 11. New York: Robert Appleton Company, 1911. http://www.newadvent.org/cathen/11515b.htm.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 26 de abril de 2011

Tríduo Pascal - Matriz de Teresina - Celebração da Paixão do Senhor

ALLELUIA

Sexta-feira Santa
Celebração da Paixão do Senhor
Dia de jejum e abstinência no qual temos acompanhado 
o julgamento e a condenação do Juiz do vivos e dos mortos.
Isaac, o filho único de Abraão, foi poupado da imolação;
Jesus Cristo, o Verbo divino, o filho único de Deus e da Virgem Maria,
não foi poupado pelo Pai, mas se fez sacerdote e vítima em favor dos homens.

   Tarde da Sexta-feira da Paixão do Senhor
 A entrada silenciosa
 Prostração do sacerdote
 Oração
 Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.
 Homilia
 Eis o lenho da Cruz
 do qual pendeu a salvação do mundo!
 Vinde, adoremos!
  Adoração da Cruz
O sacerdote, após ter depositado a casula, se possível descalço, aproxima-se primeiramente da Cruz, ajoelha-se diante dela e a beija. A teologia católica não teme em dar aqui à palavra “adoração” seu verdadeiro significado. A verdadeira Cruz, banhada com o sangue do Redentor, torna-se, por assim dizer, uma só coisa com Cristo e recebe a adoração. Por isso, prostrando-nos diante do lenho sagrado, nós nos dirigimos ao Senhor: “Nós vos adoramos, ó Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz redimistes o mundo”.
(Dep. das Cel. Lit. do Sumo Pontífice, em O sacerdote na celebração do Tríduo Pascal)
Após o fim da Celebração
 A noite da Sexta-feira e as horas do sepulcro até a misteriosa hora da Ressurreição

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Tríduo Pascal - Matriz de Teresina - Missa in Cena Domini

ALLELUIA

Caríssimos, depois de um "sagrado recesso", o blog da ARS está sendo atualizado aos poucos, sobretudo com fotos do Sacro Tríduo Pascal na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, Matriz de Teresina-PI.
A todos os amigos, conhecidos e leitores de todo o Brasil e de fora, desejamos uma Páscoa santa, em que cada um traga consigo uma parcela da vitória de Cristo Deus sobre o pecado e a morte, e revigore com alegria a fé recebida da Santa Igreja Católica.
O celebrante é o Pe. José de Pinho Borges Filho, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Amparo e coordenador do Setor de Liturgia da Arquidiocese de Teresina. No Sacro Tríduo Pascal contamos com a ajuda de vários coroinhas da Comunidade Shalom.

Quinta-feira Santa
Missa Vespertina da Ceia do Senhor
Eis o dia de recordar a instituição do mandamento da caridade, 
do Sacrifício e Sacramento da Eucaristia 
e do Sacerdócio da Nova e Eterna Aliança.

Primeira incensação
 Proclamação do Evangelho
Lava-pés
 Mistura da água com vinho no cálice (Ofertório)
 Consagração do pão
 Consagração do vinho
 Elevação do cálice do Sangue de Cristo
  Doxologia (suma glorificação de Deus Pai pelo Sacrifício Eucarístico)
 Comunhão sob as duas espécies sendo distribuída somente pelo sacerdote
 (a ministra extraordinária da comunhão eucarística está apenas segurando o cálice)
 Transladação do Santíssimo Sacramento para a urna
Capela da Reposição

Eis o momento de vigiar e orar junto do Senhor em agonia, traído e preso.

Feliz Páscoa a todos!

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 20 de abril de 2011

6 anos de Bento XVI

Pax et bonum!

Três dias depois do aniversário natalício do Papa Bento XVI (16/04), comemoramos hoje - 19/04 - (lamento por só poder ter postado no fim do dia) o aniversário de eleição do então Cardeal Ratzinger como Bispo de Roma, Sumo Pontífice e Pastor Universal da Igreja de Cristo.
Recordemos aquele dia em que o mundo recebeu com alegria o feliz anúncio: "HABEMVS PAPAM", após 17 dias de Sé Vacante (período entre a morte de um papa e a eleição do sucessor).




Orémus. Deus, qui providéntiæ tuæ consílio super beátum Petrum, céteris Apóstolis præpósitum, Ecclésiam tuam ædificari voluísti, réspice propítius ad papam nostrum Benedictum, et concéde, ut, quem Petri constituísti successórem, pópulo tuo visíbile sit unitátis fídei et communiónis princípium et fundaméntum. Per Dóminum nostrum Iesum Christum, Fílium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sǽcula sæculórum. Amen.

Oremos. Ó Deus, que segundo o juízo da vossa providência quisestes edificar a vossa Igreja sobre o bem-aventurado Pedro, posto à frente dos demais Apóstolos, olhai propício para o nosso papa Bento, e concedei que seja princípio e fundamento visível da comunhão e da unidade da fé do vosso povo aquele que constituístes sucessor de Pedro. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

(Missale Romanum, Missæ et orationes ad diversa, Pro Papa, Collecta II)

Neste Domingo de Páscoa, dia 24 de abril, comemoraremos, enfim, o 6º aniversário do início solene do ministério petrino de Bento XVI.

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Uma Semana Santa para o mundo inteiro

Pax et bonum!

Neste ano, a celebração da Páscoa do Senhor ocorrerá nos mesmos dias para os católicos e os ortodoxos. Como assim? Os cristãos ortodoxos celebram a Páscoa do Senhor segundo o calendário juliano, enquanto os católicos celebram segundo o calendário gregoriano (que se tornou o calendário civil comum em vigor em todo o mundo).
A coincidência da Páscoa católica e ortodoxa e, portanto, da Semana Santa e da Quaresma ou Grande Jejum (como chamada pelos orientais) ocorre apenas em alguns anos.
Peçamos a Deus, de modo particular, o dom da unidade entre os cristãos.
Que os dois pulmões da Igreja de Cristo, o Oriente e o Ocidente, possam plenos gritar ao fim desta semana:

CHRISTVS SVRREXIT
ΧΡΙΣΤΟΣ ΑΝΕΣΤΗ
Cristo ressuscitou!

domingo, 17 de abril de 2011

O pleito pela Missa Latina

(Todos os grifos são nossos)

O Pleito pela Missa Latina
Dietrich Von Hildebrand

Dietrich von Hildebrand foi um dos filósofos cristãos mais eminentes do mundo. Professor na Fordham University, o Papa Pio XII chamou-o "Doutor da Igreja no século XX". Ele é autor de vários livros, incluindo Transformation in Christ e Liturgy and Personality.

Triumph, Outubro de 1966

Os argumentos da Nova Liturgia foram elegantemente condicionados, e talvez agora sejam estudados por recomendação. A nova forma da missa foi planejada para empenhar o celebrante e o fiel numa atividade comunal. No passado, o fiel servia a missa em isolamento pessoal, com cada crente fazendo suas preces privadas, ou, na melhor, seguindo as fórmulas no missal. Hoje, o fiel pode aproveitar o caráter social da celebração; estão aprendendo a apreciá-la tal quais os almoços comunitários. Antigamente, o sacerdote murmurava em língua morta, o que criava barreiras entre este e o povo. Agora, todos falam em inglês, o que tende a unir estreitamente povo e sacerdote. No passado, o sacerdote realizava a missa de costa para o povo, dando um clima de ritual esotérico. Hoje, a missa é ocasião mais fraternal, pois o sacerdote encara o povo. No passado, o sacerdote entoava estranhos cânticos medievais. Hoje, toda a assembléia executa canções de melodias simples e letras fáceis; estão até flertando com a música popular. Concluindo, o pleito pela missa nova resume-se a isto: fazer o fiel estar mais à vontade na casa de Deus.
Além do mais, dizem ter tais inovações a sanção da Autoridade; elas são apresentadas como resposta obediente ao espírito do Concilio Vaticano II. Todavia, o Concílio diz, na sua Constituição sobre a Liturgia, que a missa vernacular só é permitida em casos em que o bispo local ache-a oportuna; a constituição insiste fortemente na permanência da missa latina e aprova, de forma inconteste, o canto gregoriano. Porém, os "progressistas" litúrgicos não se abalaram com a diferença entre permitir e ordenar. Sequer hesitaram quando autorizaram modificações, tais como o estar de pé ao receber a Santa Comunhão, o que não é mencionado pela constituição. Os progressistas argúem que podem tomar tais liberdades, pois a Constituição é, afinal de contas, apenas o primeiro passo num processo evolucionário. Eles parecem estar neste caminho. Hoje, em qualquer lugar, é mui difícil encontrar a missa latina; nos Estados Unidos, são praticamente inexistentes. Até a missa conventual dos mosteiros é rezada em vernáculo, e o glorioso gregoriano foi substituído por melodias insignificantes.
Minha preocupação não é com o estatuto legal das mudanças. Insisto: não quero dar a entender que reclamo de a constituição ter permitido o vernáculo substituir o latim. O que deploro é que a missa nova está substituindo a latina, que a antiga liturgia está sendo imprudentemente estraçalhada e negada pela maioria do povo de Deus.
Gostaria de levantar algumas questões àqueles que estão a promover tais desdobramentos: a missa nova, melhorará o espírito humano mais que a antiga – evoca o sentido de eternidade? Ajudará a elevar nossos corações acima das preocupações mundanas – acima dos aspectos puramente naturais do mundo – até a Cristo? Aumentará a reverência, a apreciação do sagrado?
Certo, tais questões são retóricas e auto-evidentes. Fi-las, pois penso que cristãos sérios vão querer considerar sua importância antes de chegarem a uma conclusão sobre os méritos da nova liturgia. Qual o papel da reverência numa vida verdadeiramente cristã, e, mais importante, num verdadeiro culto cristão de Deus? A reverência dá ao ser ocasião de falar conosco: a grandeza última do homem é ser capax Dei. A reverência é de importância capital para todos os domínios da vida do homem. Ela pode ser chamada corretamente de "mãe de todas as virtudes", pois esta atitude básica pressupõe todas as virtudes. O gesto mais elementar de reverência é um reflexo do próprio ser. Ela distingue-se da majestade exterior do ser, que provém da mera ilusão ou ficção; a reverência é o reconhecimento da consistência interior e da positividade do ser – de sua independência às modas arbitrárias. A reverência dá ao ser a ocasião de desdobrar-se para como que falar conosco, fecundar nossas mentes. Portanto, a reverência é indispensável a qualquer intelecção adequada do ser. A profundidade e a plenitude do ser, além de todos os seus mistérios, nunca revelar-se-ão senão a uma mente reverente. Recordem-se de que a reverência é elemento constitutivo da capacidade de "contemplar", que, como Platão e Aristóteles insistiam, é condição indispensável para a filosofia. De fato, a irreverência é a principal origem do erro filosófico. Se a reverência é a condição necessária para qualquer conhecimento seguro do ser, é, além disso, indispensável para acessar e compreender os valores baseados no ser. Somente o homem reverente, pronto a admitir a existência de algo maior que ele mesmo e predisposto ao silêncio, deixando o objeto falar-lhe – o homem que abre seu espírito – é capaz de penetrar no mundo sublime dos valores. Reconhecida a gradação dos valores, um novo tipo de reverência surge: a que responde não tão-somente à majestade do ser enquanto tal, mas ao valor especifico de um ser especifico e a sua posição na hierarquia de valores. Esta nova reverência permite ainda a descoberta de novos valores.
Somente numa atitude reverente o homem reflete seu caráter essencialmente receptivo: sua grandeza última é ser capax Dei. Em outras palavras, o homem possui a capacidade de apreender algo maior que ele mesmo, a fim de ser tocado e fecundado, abandonando-se a este algo por vontade própria – como pura resposta a tais valores. A habilidade de transcender-se distingue o homem da planta e do animal; este último empenha-se apenas em desdobrar a própria enteléquia [forma]. Ora, somente o homem reverente pode conscientemente transcender-se, conforme sua condição humana fundamental e situação metafísica. Melhor iremos ao encontro do Cristo elevando-nos a Ele, ou arrojando-O no mundo ordinário? Por sua vez, o homem irreverente aproxima-se do ser numa atitude de superioridade arrogante ou atrevida, de familiaridade presunçosa. Neste caso, está mutilado; é o caso do homem que, por muito se aproximar duma árvore ou construção, não pode mais vê-las. Em vez de manter a distância espiritual que lhe é própria – conservando um silêncio reverente, o ser talvez diga alguma coisa –, fecha-se; desta feita, silencia o ser. No incondicionado, a reverência é mais importante que a religião. Sabemos como isso afeta a relação do homem para com Deus. Existe uma ligação íntima entre a reverência e a sacralidade; a reverência permite-nos experimentar o sagrado, ascender para além do profano; a irreverência cega-nos a todo o mundo do sagrado. A reverência, incluindo o medo – em verdade, temor e tremor – é a resposta adequada ao sagrado.
Isso foi esclarecido por Rudolf Otto em seu famoso estudo The Idea of the Holy. Kierkegaard também chama atenção para o papel essencial da reverência no ato religioso, no encontro com Deus.
Igualmente, os judeus não estremecem profundamente quando o sacerdote conduz o sacrifício para o sanctum sanctorum? Isaias não estremeceu de medo devoto quando viu a Deus no templo e exclamou: "Ai de mim, estou perdido! Eu que sou um homem de lábios impuros... todavia meus olhos não viram o Rei"? Não foram tais as palavras de São Pedro após a pescaria miraculosa: "Aparta-te de mim, ó Senhor, pois eu sou um pecador", testificando que quando a realidade de Deus irrompe sobre nós, somos tomados de temor e reverência? O cardeal Newman expôs num sermão formidável que o homem que não teme nem reverencia não conhece a realidade de Deus. Quando São Boaventura escreve no Itinerarium Mentis ad Deum que somente o homem de desejo (tal como Daniel) pode entender a Deus, quer dizer que certa disposição de alma deve-se atingir a fim de entender o mundo de Deus, para o qual Ele nos quer levar. Este conselho aplica-se, sobretudo, à liturgia da Igreja. O sursum corda – a elevação de nossos corações – é o primeiro requisito para a participação real na Missa. Nada melhor para impedir a confrontação do homem para com Deus que a noção de "irmos ao altar de Deus" como se fôssemos a um divertido e relaxante compromisso social. Eis porque a missa latina com canto gregoriano, que eleva-nos à atmosfera sagrada, é muitíssimo superior à missa vernacular com músicas populares, que nos inclina a uma atmosfera meramente natural e profana.
O erro fundamental da maioria das inovações é imaginar que a nova liturgia traz o Santo Sacrifício da Missa para perto dos fiéis; que a podando dos velhos rituais trará a missa para a substância de nossas vidas. Perguntamos se é melhor encontrar com Cristo na missa elevando-se até Ele, ou arrojando-O em nosso mundo prosaico e ordinário. Os inovadores substituem a sacra intimidade com Cristo por uma inconveniente familiaridade. Realmente, a nova liturgia ameaça frustrar a confrontação com Cristo, pois desencoraja a reverência em face do mistério, elimina o temor, suprime o sentimento do sagrado. Não importa realmente se os fiéis sentem-se em casa na missa, mas se são transportados de suas vidas ordinárias para o mundo do Cristo – seja pela sua atitude de reverência perfeita, seja por estarem impregnados da realidade do Cristo.
Aqueles que decantam a nova liturgia insistem que, com o passar dos anos, a missa perdeu o caráter comunal e tornou-se ocasião de adoração individualista. A missa nova vernacular restauraria o sentimento de comunidade ao substituir as preces privadas pela participação da comunidade. Porém, esquecem-se de que há diferentes níveis e tipos de comunhão com outrem. O nível e a natureza da experiência comunitária são determinados pelo tema da comunhão, em nome de que ou por causa de que os homens estão reunidos. O maior bem representado pelo tema, o qual empenha todos os homens, se for o mais sublime e profundo, é a comunhão. O ethos e a natureza da experiência comunitária no caso duma emergência nacional é, obviamente, radicalmente diferente da experiência comunitária num coquetel. As diferenças mais admiráveis serão encontradas entre comunidades cujo tema é o sobrenatural ou o meramente natural. A base da união comunitária é a realização espiritual dos homens tocados por Cristo – a Santa Comunhão – , muito mais sublime que a de qualquer comunidade natural. O genuíno "nós comungamos" dos fiéis, tão bem expressado pela liturgia da Quinta-feira Santa nas palavras congregavit nos in unum Christi amor, só é possível como fruto da comunhão eu-Tu com o próprio Cristo. Somente a relação direta Deus-homem pode realizar a sagrada união entre os fiéis.
O "nós-experimentamos" despersonalizante é uma versão perversa da comunidade.
Na comunhão em Cristo, não há a auto-afirmação encontrada nas comunhões naturais. Ela exala a Redenção. Liberta o homem de toda auto-centralização. Contudo, essa comunidade não despersonaliza o indivíduo: longe de dissolver o sujeito numa névoa cósmica e panteísta, tão preconizada hoje em dia, realiza por completo o verdadeiro eu do sujeito. Na comunhão com Cristo não existe o conflito entre a pessoa e a comunidade, que se apresenta nas comunhões naturais. Logo, a comunidade da experiência sagrada está realmente em guerra com o despersonalizante "nós-experimentamos" encontrado nas congregações e nas assembléias populares que tendem a absorver e sublimar o individuo. Esta comunhão em Cristo, que fora tão cheia de vida nos primeiros séculos cristãos, de que todos os santos participaram, que descobriu na liturgia uma expressão sem igual, está agora sob ataque – esta comunhão que nunca considerou o individuo apenas como seguimento da comunidade, ou instrumento para servi-la. Para tal propósito, é importante notar que a ideologia totalitária não está só no sacrifício do individual pelo coletivo; algumas das idéias cósmicas de Teilhard de Chardin, por exemplo, implicam no sacrifício coletivista. Teilhard subordina o individual e sua santificação ao suposto desenvolvimento da humanidade. Até na época em que esta teoria perversa foi adotada por vários católicos, havia muitas razões para que se insistisse vigorosamente no caráter sagrado da verdadeira comunhão em Cristo. Creio que a nova liturgia deva ser julgada por este teste: contribui para a autêntica comunidade sagrada? Concordamos que ela direciona o caráter da comunidade; porém, é o caráter desejado? Essa comunhão é baseada no recolhimento, na contemplação e na reverência? Qual das duas – a missa nova, ou a missa latina com canto gregoriano – evoca tais atitudes d’alma de modo eficaz, permitindo comunhão mais profunda e verdadeira? Não é patente que o caráter comunal da missa nova é puramente profano, e que, como quaisquer outros encontros sociais, é mistura de entretenimento casual e atividade incessante, impedindo a confrontação reverente e contemplativa com Cristo e o mistério inefável da Eucaristia?
É claro que nossa época está permeada desse espírito de irreverência. Isso é a noção distorcida da liberdade, que exige direitos ao mesmo tempo em que recusa deveres, que exalta a auto-indulgência, que aconselha o "seja você mesmo". O habitare secum dos Diálogos de São Gregório – o permanecer na presença de Deus, o que pressupõe reverência – hoje é considerado como antinatural, pomposo e servil. Porém, não é a missa nova um compromisso com o espírito moderno? Donde vem a depreciação da genuflexão? Por que a Eucaristia deve ser recebia em pé? Em nossa cultura, não é o ajoelhar-se a expressão clássica da adoração reverente? O argumento de que durante a refeição devemos antes estar de pé que ajoelhados é difícil de engolir. Além disso, esta não é a postura natural para comer: no relógio de Cristo, o estar sentado é o mesmo que dormir. Porém, o mais importante é a concepção irreverente da Eucaristia, para lhe enfatizar o caráter de refeição, em detrimento do caráter especial de mistério sagrado. Enfatizar a refeição às expensas do sacramento certamente denuncia uma tendência a obscurecer a sacralidade do sacrifício. Tal tendência parece ligada à lamentável crença de que a vida religiosa vai se tornar mais vívida, mais existencial se for imersa em nossa vida cotidiana. Todavia, corremos o perigo de absorver o religioso no mundano, de apagar a diferença entre o sobrenatural e o natural. Temo que isso represente uma intrusão inconsciente do espírito naturalista, do espírito tal como expressado pelo imanentismo de Teilhard de Chardin.
Novamente, porque se aboliu a genuflexão às palavras et incarnatus est do Credo? Não era esse um gesto belo e nobre de adoração reverente ao professar o abrasador mistério da Encarnação? Quaisquer que sejam as intenções do inovador, certamente criaram o risco, mesmo que somente psicológico, da diminuição do temor religioso e do respeito ao mistério. Porém, existe mais uma razão para hesitar fazer mudanças desnecessárias na liturgia. As mudanças frívolas ou arbitrárias são aptas a erodir um tipo especial de reverência: a pietas. A palavra latina, como a alemã pietaet, não possui equivalente em inglês, mas pode ser entendida como respeito geral pela tradição; honra àquilo que nos foi legado pelas antigas gerações; fidelidade aos nossos ancestrais e suas obras. Note que pietas é uma palavra derivada de reverência, porém não deve ser confundida com a reverência enquanto tal, que descrevemos como resposta ao grande mistério do ser e sobretudo, uma resposta a Deus. Segue-se que, se o conteúdo de uma dada tradição não corresponde ao objeto de reverência original, não merece a reverência derivada. Se uma tradição incorpora elementos maus, tais como os sacrifícios de seres humanos, no culto dos Astecas, então esses elementos não devem ser tomados por pietas. Não é, todavia, o caso cristão. Os que idolatram nossa época, que se impressionam com o que é moderno simplesmente por sê-lo, que acreditam que, em nossos dias, o homem finalmente "atingiu a maioridade", carece de pietas. O orgulho desses "nacionalistas temporais" não é somente irreverente, mas incompatível com a fé real. Um católico deve observar a liturgia com pietas. Deve reverenciar, e portanto, temer abandonar as orações, as posturas e as músicas que foram aprovadas por tantos santos durante a Era Cristã, deixadas para nós como preciosa herança. Para não ir muito longe, a ilusão de que possamos substituir o canto gregoriano, com seus hinos inspirados e ritmos, por uma música tão boa quanto, senão melhor, denuncia uma auto-afirmação ridícula e falta de auto-conhecimento. Não podemos esquecer que, através da história do cristianismo, silêncio e solidão, contemplação e recolhimento foram considerados necessários para alcançar uma confrontação real com Deus. Este não é apenas um conselho da tradição cristã, a qual deve ser respeitada pela pietas: está enraizado na natureza humana. O recolhimento é a base necessária para a verdadeira comunhão; da contemplação surge a base necessária para a ação efetiva na vinha do Senhor. Uma espécie superficial de comunhão – a camaradagem jovial duma relação social – arrasta-nos para a periferia. Uma verdadeira comunhão cristã arrasta-nos para dentro dos abismos espirituais.
O caminho da verdadeira comunhão cristã: reverência..., recolhimento..., contemplação. Claro que devemos lamentar a carolice sentimental e individualista, reconhecendo que muitos católicos praticam-na. A experiência não é remédio para isso, nem a atividade é cura para a pseudo-contemplação. O remédio é encorajar a verdadeira reverência, a atitude de autêntico recolhimento e devoção contemplativa do Cristo. Somente tal atitude possibilita que aconteça uma verdadeira comunhão em Cristo. As leis fundamentais da vida religiosa que governam a imitação de Cristo, a transformação em Cristo, não se modificam de acordo com as modas e hábitos do momento histórico. A diferença entre a experiência comunitária superficial e a experiência comunitária profunda é sempre a mesma. O recolhimento e a adoração contemplativa do Cristo – que só a reverência torna possível – seria a base necessária para a verdadeira comunhão com os demais em Cristo, em qualquer era da história humana.

Tradução: Desconhecido

Por Luís Augusto - membro da ARS

Hebdomada Sancta - MMXI - Paróquia Nossa Senhora do Amparo

Arquidiocese de Teresina
Paróquia Nossa Senhora do Amparo

HEBDOMADA SANCTA

ANNVS CARITATIS

17/04
Dominica in Palmis de Passione Domini
Sancta Missa - 6h30, 9h (Missa Solemnis), 11h15, 17h30

18/04
Feria Secunda
Sancta Missa - 7h15
Missa Chrismatis - Ecclesia Cathedralis Dominæ Nostræ Perdolentis - 19h

19/04
Feria Tertia
Sancta Missa - 7h15, 17h
Visitatio infirmorum - 9h

20/04
Feria Quarta
Sancta Missa - 7h15, 17h
Visitatio infirmorum - 9h

21/04
SACRVM TRIDVVM PASCHALE
Feria Quinta - Cena Domini
Sancta Missa - 17h
Post Missam Adoratio Sanctissimi Sacramenti

22/04
Feria Sexta - Passio Domini - (Dies abstinentiæ et ieiunii)
Celebratio Passionis Domini - 18h

23/04
Sabbato Sancto
Vigilia Paschalis in Nocte Sancta
Sancta Missa - 20h

24/04
Dominica Paschæ in Resurectione Domini
Sancta Missa - 6h30, 7h45, 9h - Missa Solemnis, 11h, 17h30

sábado, 16 de abril de 2011

Feliz Aniversário, Santo Padre!


Bendito seja o o blog Subsídios Litúrgicos Summorum Pontificum, do querido Pe. Samuel de Fortaleza-CE! Confesso que até agora não tinha me lembrado que hoje, 16 de abril, o nosso Santo Padre, o Papa Bento XVI, completa 84 anos de idade.
O pequeno Joseph Aloisius Ratzinger, de Marktl am Inn (cerca de 60km ao sudoeste de Passau, Baviera), na Alemanha, nascido em 16 de abril de 1927 - Sábado Santo, hoje é o sucessor de São Pedro, bispo de Roma, cabeça visível da Igreja, "doce Cristo na Terra" (no dizer de Santa Catarina de Sena).
Que em sua vida possa ganhar o mérito da virtude e alcançar a misericórdia de Deus! E que no momento de sua passagem (queira Deus que ainda demore a vir), na alegria da perseverança final, sob o cuidado da Sempre Virgem Maria, descanse em paz na amizade de Cristo.
Rogamos a Deus onipotente que lhe dê saúde, vigor e coragem até o fim de seus dias! Amém.

Orémus. Deus, qui in apóstoli Petri successióne fámulum tuum Benedictum elegísti totíus gregis esse pastórem, supplicántem pópulum intuére propítius, et præsta, ut, qui Christi vices gerit in terris, fratres confírmet, et omnis Ecclésia cum ipso commúnicet in vínculo unitátis, amóris et pacis, quátenus in te, animárum pastóre, omnes veritátem et vitam assequántur ætérnam. Per Dóminum nostrum Iesum Christum, Fílium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitáte Spíritus Sancti, Deus, per ómnia sǽcula sæculórum. Amen.

Oremos. Ó Deus, que escolhestes o vosso servo Bento para ser o pastor de todo o rebanho na sucessão do apóstolo Pedro, olhai propício para o vosso povo suplicante, e concedei que, aquele que faz as vezes de Cristo na terra, confirme os irmãos, e que toda a Igreja esteja em comunhão com ele no vínculo da unidade, do amor e da paz, a fim de que em vós, ó pastor das almas, todos alcancem a vida eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

(Missale Romanum, Missæ et orationes ad diversa, Pro Papa, Alia oratio pro Papa)

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Exsultet" - A Proclamação da Páscoa ou Precônio Pascal

Pax et bonum!

Segue a minha tradução do artigo do Catholic Encyclopedia sobre o Exsultet, o Precônio Pascal. Convém lembrar que o texto, sendo das primeiras décadas do séc. XX, diz respeito diretamente às cerimônias na Forma Extraordinária. Algumas adições minhas estão entre colchetes.
Ao fim do artigo disponibilizei uma partitura gregoriana e o aúdio do Vaticano.

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Hino em louvor do círio pascal cantado por um diácono no Sábado Santo. No Missal o título do hino é "Præconium", como aparece na fórmula usada da bênção dada ao diácono: "ut digne et competenter annunties suum Paschale præconium". [Até os Missais da década de 20 (edição pio-beneditina) o nome era grafado como Exultet (sem o 's').] Fora de Roma, o uso do círio pascal parece ter sido muito antigo na Itália, na Gália e na Espanha, e talvez, pela referência de Santo Agostinho (Cidade de Deus, XV, 22), na África. O Liber Pontificalis atribui sua introdução na Igreja Romana local pelo Papa Zózimo. A fórmula usada para o "Præconium" não foi sempre o "Exsultet", embora talvez seja verdade dizer que esta fórmula sobreviveu, onde outras fórmulas contemporâneas desapareceram. No "Liber Ordinum", por exemplo, a fórmula é de natureza de uma bênção, e o Sacramentário Gelasiano traz a oração "Deus mundi conditor", não encontrada em outro lugar, mas contendo o notável "louvor da abelha" - possivelmente uma reminiscência - que é encontrado com algumas modificações em todos os textos do "Præconium" até o dia de hoje.

A regularidade do cursus métrico do "Exsultet" levar-nos-ia a datar sua composição talvez entre o início do séc. V e o fim do séc. VII, não após. Os mais antigos manuscritos em que ele aparece são dos três Sacramentários Galicanos: o Missal de Bobbio (séc. VII), o Missale Gothicum e o Missale Gallicanum Vetus (ambos do séc. VIII). O manuscrito mais antigo do Sacramentário Gregoriano (Vat. Reg. 337) não contém o "Exsultet", mas foi inserido no suplemento do que livremente foi chamado de Sacramentário de Adriano, e provavelmente elaborado sob a direção de Alcuíno.

Na liturgia, pode ser comparado com outras duas formas: a Bênção de Ramos e a Bênção da Fonte Batismal. Brevemente, a ordem dele é:
- Um convite a que os presentes se unam ao diácono na invocação da bênção de Deus, para que os louvores do círio sejam dignamente celebrados. Este convite, que carece nas duas bênçãos mencionadas, pode ser considerado como um "Orate fratres" ampliado, e sua antiguidade é atestada pela sua presença na forma Ambrosiana, que difere em algo da Romana. Esta seção termina com "Per omnia sæcula sæculorum", levando para o...
- "Dominus vobiscum" etc, "Sursum" etc, "Gratias agamus" etc. Esta seção, expressa na forma eucarística para enfatizar sua solenidade, serve como introdução ao corpo do "Præconium".
- O "Præconium" propriamente dito, é de natureza de um Prefácio, ou, como chamado no Missale Gallicanum Vetus, uma contestatio. Primeiro, um paralelo é traçado entre a Páscoa da Antiga e da Nova Aliança, sendo o círio uma espécie de Coluna de Fogo. E aqui a linguagem da liturgia se eleva a um grau que dificilmente é encontrado em qualquer outro texto na literatura cristã. Passamos de uma fria afirmação dogmática para o calor do mais profundo misticismo, para a região onde, à luz do paraíso, até o pecado de Adão é considerado verdadeiramente necessário e chamado de culpa feliz. Segundo, o próprio círio é oferecido como um holocausto, um tipo de Cristo, marcado com os grão de incenso como com as cinco chagas gloriosas da sua Paixão. E, por fim, o Præconium termina com uma intercessão geral pelos presentes, pelo clero, pelo papa, e por todos os governantes cristãos. [O texto rezava pelo governante do Sacro Império Romano. Como em 1804 o Imperador Francisco II da Áustria resignou a estas prerrogativas, por conta das Guerras Napoleônicas, a oração deixou de ser feita até o Papa Pio XII, em 1955, alterar o texto, para que se rezasse por todos os governantes em geral. Esta oração permanece apenas no Exsultet para a Forma Extraordinária do Rito Romano.]

São notáveis três acessórios do "Exsultet": o cerimonial que se desenrola; a música a ser cantada e os "Rolos do Exsultet" ou simplesmente os "Exsultet", que eram rolos em que o texto estava outrora escrito. O diácono veste uma dalmática branca, enquanto o restantes dos ministros sagrados está de roxo. A colocação dos cinco grãos de incenso às palavras incensi huius sacrificium provavelmente se originou de um equívoco na interpretação do texto. O acender do círio é seguido da iluminação de todas as lâmpadas e velas da Igreja, apagadas desde o fim das Matinas. O canto é normalmente uma forma elaborada do bem conhecido recitativo do Prefácio. Em alguns lugares uma longa bravura [=passagem musical que exige grande técnica e agilidade] era introduzida com a palavra accendit, para preencher a pausa que ocorreria para se acender o círio. Na Itália o Præconium era cantado a partir de longas tiras de pergaminho, gradualmente desenrolados ao passo em que o diácono ia cantando. Estes "rolos do Exsultet" eram decorados com iluminuras e com retratos dos soberanos que reinavam no tempo, cujos nomes eram mencionados no decorrer do "Præconium". O uso destes rolos, como se sabe atualmente, ficou restrito à Itália. Os melhores exemplos datam dos séc. X e XI.

[Na falta de um diácono, e se o sacerdote celebrante não o pode cantar ou não é apto para isto, um leigo pode fazê-lo.]

Fonte: Walker, Charlton. "Exultet." The Catholic Encyclopedia. Vol. 5. New York: Robert Appleton Company, 1909. http://www.newadvent.org/cathen/05730b.htm.

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Exsultet cantado na Vigília Pascal celebrada na Basílica de São Pedro em 2010:

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cinco anos Ad Orientem

Pax et bonum!

Há um tempo encontrei este interessante testemunho e, hoje, revendo-o, achei por bem postá-lo.
Que o testemunho deste religioso anime mais sacerdotes a "orientarem" os corações e a Liturgia.

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Dando um passo

O dia 17 de dezembro de 2010 marcará o quinto aniversário da minha posição ad orientem perante o altar para o Santo Sacrifício da Missa. Comecei a oferecer a Santa Missa exclusivamente ad orientem no Mosteiro da Cruz Gloriosa, onde trabalhei por vários anos como capelão. Preparei a mudança no Advento de 2005 com uma catequese pastoral e mistagógica apropriada.


Depois veio o Summorum Pontificum

Depois de 14 de setembro de 2007, o Summorum Pontificum facilitou bastante a celebração do rito tradicional da Santa Missa e, desde que assumi a minha missão em Tulsa, tenho oferecido a Forma Extraordinária diariamente, não tendo nenhum desejo e não vendo nenhuma necessidade, no contexto da vida monástica contemplativa, de celebrar na Forma Ordinária.

Não é um retrocesso

Tendo dito isso, após cinco anos oferecendo a Santa Missa ad orientem, posso dizer que eu não quero nunca ter de voltar à posição versus populum. Quando viajo, entretanto, algumas vezes, sou obrigado a celebrar versus populum, especialmente, na Irlanda, na França e Itália; isso me deixa com um sentimento de inadequação extrema. Sofro do que posso descrever apenas como uma falta de pudeur sagrado, ou modéstia em face aos Santos Mistérios. Quando sou obrigado a celebrar versus populum, sinto visceralmente, como se fosse, que há algo muito errado – teológica, espiritual e antropologicamente – com o oferecimento do Santo Sacrifício voltado em direção à congregação.

Dez vantagens

Quais são as vantagens da posição ad orientem no altar, uma vez que eu as experimentei ao longo dos últimos dois anos? Posso pensar em dez logo de imediato:

1. O Santo Sacrifício da Missa é experimentado como tendo uma direção e enfoque teocêntrico.

2. Os fiéis são poupados do clerocentrísmo cansativo que até então tem tomado conta da celebração da Santa Missa nos últimos quarenta anos.

3. Mais uma vez se tornou evidente que o Cânon da Missa (Prex Eucharistica) é dirigido ao Pai, pelo sacerdote, no nome de todos.

4. O caráter sacrifical da Missa é maravilhosamente expresso e afirmado.

5. Quase que imperceptivelmente alguém descobre o acerto de se rezar silenciosamente em determinados momentos, de recitar determinadas partes da Missa suavemente e recitar outras de maneira musical.

6. Ela permite ao padre celebrante ter o benefício da santa modéstia.

7. Eu me vejo cada vez mais identificado com Cristo, o Eterno Sumo Sacerdote e Hóstia perpétua, na liturgia do santuário celestial, para além do véu, perante a Face do Pai.

8. Durante o Cânon da Missa, sou agraciado com um recolhimento profundo.

9. As pessoas se tornaram mais reverentes em seu comportamento.

10. Toda a celebração da Santa Missa ganhou em reverência, atenção e devoção.
Dom Mark Daniel Kirby é Prior do Mosteiro Beneditino Diocesano de Nossa Senhora do Cenáculo em Tulsa, Oklahoma.
Sua Excelência, Bispo Edward J. Slattery da Diocese Católica Romana de Tulsa estabeleceu o mosteiro em 2009 com a missão distintiva da Adoração Eucarística para a santificação dos sacerdotes.


terça-feira, 12 de abril de 2011

O Tempo da Paixão

Trata-se das duas últimas semanas entre o Domingo da Paixão (V da Quaresma) e a Páscoa. A última semana é a Semana Santa, enquanto a primeira é chamada entre os latinos de "Hebdomas Passionis" (Semana da Paixão), e pelos gregos de "Semana das Palmas" (palmas = ramos, do Domingo seguinte). Durante este tempo os monges do Oriente, que tinham escolhido o deserto para um modo de vida mais severo, retornavam para seus mosteiros (Cirilo de Citópolis em "Vida de Santo Eutímio", n. 11). As rubricas do Missal Romano, do Breviário e do "Cæremoniale Episcoporum" para este tempo são: antes das Vésperas do Sábado que precede o Domingo da Paixão, cruzes, estátuas e pinturas de Nosso Senhor e dos santos, no altar e no corpo da Igreja, excetuando-se apenas as cruzes e pinturas da Via Sacra, deve ser cobertas com um véu roxo, não transparente, e sem adornos. As cruzes permanecem cobertas até depois da solene denudação do crucifixo principal na Sexta-feira Santa. As estátuas e pinturas mantém a sua coberta, não importa se ocorrer alguma festa, até o Gloria in Excelsis do Sábado Santo. De acordo com uma resposta da Sagrada Congregação dos Ritos, de 14 de maio de 1878, deve-se tolerar a prática de manter uma estátua de São José, se for fora do santuário, descoberta durante o mês de março, que é dedicado à sua honra, mesmo durante o Tempo da Paixão. Nas Missas de tempore o Salmo Iudica não é rezado; o Gloria Patri é omitido no Asperges, no Introito e no Lavabo; apenas duas orações são rezadas e o Prefácio é o da Santa Cruz. Nos ofícios de domingo e dos dias de semana, no Breviário, a doxologia é omitida no Invitatorium e nos responsórios, quer sejam curtos ou longos. As cruzes são veladas porque Cristo não mais andou abertamente entre o povo, mas esteve oculto. Por isso, na capela papal, o velamento originalmente tinha lugar às palavras do Evangelho: "Iesus autem abscondebat se" (Jesus, porém, se escondia). Outra razão, adicionada por Durandus, é que a divindade de Cristo escondeu-se quando ele chegou ao tempo de seu sofrimento e morte. As imagens dos santos também são cobertas porque pareceria impróprio os servos aparecerem quando o próprio Mestre está escondido (Nilles, "Kal.", II, 188).

Em alguns lugares as cruzes eram cobertas na Quarta-feira de Cinzas; em outros, no I Domingo da Quaresma. Na Inglaterra era costumeiro, na primeira segunda-feira da Quaresma, cobrir todos os crucifixos, imagens de todo tipo, relicários e até onde se guarda o Santíssimo Sacramento. Os panos usados eram de linho ou seda branca e marcado com uma cruz vermelha (Rock, infra, IV, 258). Os dois belos hinos deste tempo, "Vexilla Regis" e "Pange lingua gloriosi", são obra de Venâncio Fortunato, Bispo de Poitiers. Na sexta-feira da Semana da Paixão, a Igreja honra muito adequadamente as Sete Dores de Nossa Senhora. No sábado os Gregos comemoram a ressurreição de Lázaro.

Fonte: Mershman, Francis. "Passiontide." The Catholic Encyclopedia. Vol. 11. New York: Robert Appleton Company, 1911. <http://www.newadvent.org/cathen/11535b.htm>.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Beleza na Liturgia - entrevista com Mons. Guido Marini

Wlodzimierz Redzioch: – Com o que se parece a colaboração entre Bento XVI e seu Mestre de Cerimônias? O Papa decide tudo?
Mons. Guido Marini:Primeiramente, gostaria de sublinhar que as celebrações que o Santo Padre preside devem ser pontos de referência para toda a Igreja. O Papa é o sumo sacerdote, o único que oferece o sacrifício da Igreja, o único que apresenta o ensino litúrgico através das celebrações – o ponto de referência para todos. Considerando esta explicação, é mais fácil entender qual deva ser o estilo de colaboração entre o Mestre de Cerimônias do Papa e o Santo Padre. Deve-se agir no intuito de fazer das liturgias papais expressões de sua autêntica orientação litúrgica. Por isso, o Mestre de Cerimônias do Papa deve ser um servo humilde e fiel da liturgia da Igreja. Desde o começo tenho entendido desta forma o meu trabalho no Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice.

Todos podemos ver as mudanças introduzidas por Bento XVI nas celebrações litúrgicas. Como podemos sintetizar estas mudanças?
Eu penso que estas mudanças podem ser sintetizadas da seguinte maneira: primeiramente, são mudanças feitas de acordo com a lógica do desenvolvimento em continuidade com o passado. Logo, não lidamos com uma ruptura com o passado e com uma justaposição com os pontificados anteriores. Em segundo lugar, as mudanças introduzidas servem para evocar o verdadeiro espírito da liturgia, como o quis o Concílio Vaticano II. ‘O “sujeito” da beleza intrínseca da liturgia é o próprio Cristo, ressuscitado e glorificado no Espírito Santo, que inclui a Igreja em sua obra'”.

Celebrações voltadas para a cruz, a Sagrada Comunhão recebida diretamente na boca e de joelhos, longos momentos de silêncio e meditação – são estas as mudanças litúrgicas mais visíveis introduzidas por Bento XVI. Infelizmente, várias pessoas não entendem o significado teológico e histórico destas mudanças e, o que é pior, só as enxergam como um “retorno ao passado”. O senhor pode explicar brevemente o significado destas mudanças?
Para contar-lhe a verdade, nosso Departamento tem recebido vários testemunhos de fiéis que receberam favoravelmente as mudanças introduzidas pelo Papa, pois eles as vêem como uma autêntica renovação da liturgia. Como significado de tais mudanças, reflitamos brevemente. Celebrar voltado para a cruz sublinha a correta direção da oração litúrgica, isto é, para Deus; durante as orações os fiéis não devem olhar uns para os outros, mas deveriam dirigir os olhos para o Salvador. Distribuir a Hóstia aos fiéis ajoelhados tenciona valorizar o aspecto de adoração tanto como elemento fundamental da celebração como atitude necessária face ao mistério da presença real de Deus na Eucaristia. Durante a celebração, a oração assume várias formas: palavras, cantos, música, gestos e silêncio. Além disso, os momentos de silêncio nos permitem participar de fato no ato de adoração, e mais, suscita no interior todas as outras formas de oração.

O Papa dá importância às vestes litúrgicas. Isto é questão de puro esteticismo?
A fim de entender melhor as ideias do Papa no que diz respeito ao significado da beleza como um elemento importante das celebrações litúrgicas, gostaria de citar a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis. Esta relação entre a fé e a celebração é evidenciada de uma forma particular pela rica categoria litúrgica e teológica da beleza. Assim como o restante da Revelação Cristã, a liturgia está inerentemente ligada à beleza: é o veritatis splendor. […] Não é mero esteticismo, mas via concreta em que o amor de Deus, em Cristo, nos encontra, nos atrai e nos enche de delícias, tornando-nos capazes de emergir de nós mesmos e nos lançarmos rumo à nossa verdadeira vocação, que é o amor. A beleza mais verdadeira é o amor de Deus, que se revelou definitivamente para nós no mistério pascal. […] A beleza da liturgia é parte deste mistério; é uma sublime expressão da glória de Deus e, de certa forma, um vislumbrar o céu sobre a terra. A beleza, então, não é mera decoração, e sim um elemento essencial da ação litúrgica, por ser um atributo do próprio Deus e de sua revelação.

Bento XVI mudou seu báculo pastoral – atualmente está usando um báculo encimado com uma cruz. Por quê?
Eu gostaria de lembrar você que até o pontificado do Papa Paulo VI os papas não usavam báculos; em ocasiões especiais eles portavam uma férula (báculo em forma de cruz). Papa Montini, Paulo VI, introduziu um báculo terminado com um crucifixo. E assim fez Bento XVI até o Domingo de Pentecostes de 2008. Desde então ele tem usado uma férula porque a considera mais adequada à liturgia papal.

Por que é tão importante para a Igreja preservar o uso do latim na liturgia?
Embora o Concílio Vaticano II tenha introduzido as línguas nacionais, ele recomendou o latim na liturgia. Penso que sejam por duas razões que não devemos deixar o latim. Acima de tudo, temos um grande legado litúrgico em latim: do Canto Gregoriano à Polifonia, bem como ‘texti venerandi’ (textos veneráveis, sagrados) que os Cristãos têm usado por eras. Junto disso, o latim nos permite mostrar a catolicidade e a universalidade da Igreja. Podemos experimentar esta universalidade de uma maneira única na Basílica de São Pedro e durante outros encontros internacionais, quando homens e mulheres de todos os continentes, nacionalidades e línguas cantam e rezam na mesma linguagem. Quem não se sentirá em casa quando, estando na Igreja, puder unir-se aos irmãos e irmãs na fé ao menos em algumas partes pelo uso do latim?

O senhor concorda que a fé do sacerdote é expressa de um modo especial na liturgia?
Não tenho dúvidas sobre isso. Sendo a liturgia a celebração do mistério de Cristo aqui e agora, o sacerdote é chamado a expressar sua fé de duas maneiras. Primeiro, ele deveria celebrar com olhos de quem vê além da realidade visível para “tocar” o que é invisível, isto é, a presença e a obra de Deus. É a ‘ars celebrandi’ (arte de celebrar) que permite aos fiéis analisar se a liturgia é apenas uma performance, um espetáculo do sacerdote ou se é uma relação vívida e atraente com o mistério de Cristo. Segundo, após a celebração o sacerdote está renovado e pronto para seguir o que experimentou, isto é, para fazer de sua vida uma celebração do mistério de Cristo.

Traduzido do inglês por Luís Augusto - membro da ARS