quarta-feira, 27 de julho de 2011

É RECOMENDÁVEL comungar na boca e DE JOELHOS

Pax et bonum!


Palavras claras vindas da autoridade competente: é disso que precisamos!
O Papa e o Cardeal recomendam na teoria e na prática!
E seu bispo? E seu pároco? E você?
(Todos os negritos são meus.)


REDAÇÃO CENTRAL, 27 Jul. 11 / 01:27 pm (ACI/EWTN Noticias)

Em entrevista concedida à agência ACI Prensa, o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, Cardeal Antonio Cañizares Llovera, assinalou que é recomendável que os católicos comunguem na boca e de joelhos.
Assim indicou o Cardeal espanhol que serve na Santa Sé como máximo responsável, depois do Papa, pela liturgia e os sacramentos na Igreja Católica, ao responder se considerava recomendável que os fiéis comunguem ou não na mão.
A resposta do Cardeal foi breve e singela: "é recomendável que os fiéis comunguem na boca e de joelhos".
Os fieis se ajoelham para comungar com o Santo Padre desde 22/05/2008

Do mesmo modo, ao responder à pergunta da ACI Prensa sobre o costume promovido pelo Papa Bento XVI de fazer que os fiéis que recebam dele a Eucaristia o façam na boca e de joelhos, o Cardeal Cañizares disse que isso se deve "ao sentido que deve ter a comunhão, que é de adoração, de reconhecimento de Deus". 
"Trata-se simplesmente de saber que estamos diante de Deus mesmo e que Ele veio a nós e que nós não o merecemos", afirmou.
O Cardeal disse também que comungar desta forma "é o sinal de adoração que necessitamos recuperar. Eu acredito que seja necessário para toda a Igreja que a comunhão se faça de joelhos".
"De fato –acrescentou– se se comunga de pé, é preciso fazer genuflexão, ou fazer uma inclinação profunda, coisa que não se faz".
O Prefeito vaticano disse ademais que "se trivializarmos a comunhão, trivializamos tudo, e não podemos perder um momento tão importante como é o de comungar, como é o de reconhecer a presença real de Cristo ali presente, do Deus que é amor dos amores como cantamos em uma canção espanhola".
Ao ser consultado pela ACI Prensa sobre os abusos litúrgicos em que incorrem alguns atualmente, o Cardeal disse que é necessário "corrigi-los, sobretudo mediante uma boa formação: formação dos seminaristas, formação dos sacerdotes, formação dos catequistas, formação de todos os fiéis cristãos".
Esta formação, explicou, deve fazer que "celebre-se bem, para que se celebre conforme às exigências e à dignidade da celebração, conforme às normas da Igreja, que é a única maneira que temos de celebrar autenticamente a Eucaristia".
Finalmente o Cardeal Cañizares disse à agência ACI Prensa que nesta tarefa de formação para celebrar bem a liturgia e corrigir os abusos, "os bispos têm uma responsabilidade muito particular, e não podemos deixar de cumpri-la, porque tudo o que façamos para que a Eucaristia se celebre bem será fazer que na Eucaristia se participe bem".
Card. Cañizares dando a Comunhão em Missa na Forma Extraordinária

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"O lugar do sacerdote e do altar na liturgia católica" - por Pe. Uwe Michael Lang

Pe. Uwe Michael Lang

O fato de o sacerdote, frequentemente, celebrar o sacramento da Eucaristia de frente para os fiéis é uma das mudanças mais marcantes que afetaram a liturgia católica nas últimas décadas.  Essa mudança foi acompanhada pela utilização de altares isolados que, muitas vezes, acarretaram transformações tão radicais quanto discutíveis em igrejas marcadas pelo passado histórico.  A impressão que se instalou - não só na opinião pública, mas também no interior da Igreja – foi a de que a posição versus populum do celebrante na Missa era uma obrigação prescrita pela reforma da liturgia introduzida pelo Concílio Vaticano II. No entanto, a leitura dos documentos conciliares e pós-conciliares demonstra que não é exatamente assim. Na Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia (Sacrosanctum Concilium), não se põe em discussão a celebração versus populum nem a construção de novos altares. As normas litúrgicas atualmente em vigor consideram desejável que o altar-mor de uma igreja seja afastado certa distância da parede para permitir que, ao redor dele, se dê uma volta e para que uma celebração de frente para o povo seja possível. Contudo,  em nenhum caso, afirma-se que a orientação do sacerdote de frente para o povo deva ser considerada, sempre e por todos, como a melhor forma de celebrar a Missa. Muitas pessoas, desde os anos sessenta, expressaram uma opinião crítica acerca da expansão do modo versus populum de celebrar a liturgia.  Ao lado do liturgista de Innsbruck, o jesuíta Josef Andrea Jungmann, e do oratoriano francês Louis Bouyer, pode-se mencionar Joseph Ratzinger - que era então um jovem teólogo que participou do Concílio e que, posteriormente, veio a tornar-se o Papa Bento XVI.[1]
A orientação do celebrante de frente para o povo durante toda a cerimônia eucarística, na realidade, jamais foi oficialmente prescrita e nem mesmo introduzida pela reforma litúrgica.  Em geral, os argumentos tirados da história da liturgia e invocados em favor da posição versus populum são referências à presumida prática litúrgica da Igreja dos primeiros séculos.  Os argumentos propriamente teológicos, por sua vez, são derivados da noção de participatio actuosa, a "participação ativa" dos fiéis na liturgia, que havia sido apresentada pelo Papa São Pio X e, posteriormente, colocada no centro da Constituição Sacrosanctum Concilium. Nos últimos anos, contudo, uma nova abordagem crítica surgiu. Ela exige um aprofundamento teológico deste importante conceito em face da interpretação que foi dada no período seguinte ao Concílio. Discute-se se o fato de fiéis e sacerdote estarem permanentemente face a face seja benéfico para uma verdadeira participação dos fiéis – tal como exigida pelo Concílio Vaticano II. Em seu importante livro sobre o Espírito da Liturgia, o Cardeal Ratzinger faz uma distinção fundamental entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística em sentido estrito: “O papel secundário das ações exteriores deveria ser claramente ressaltado. Aliás, quando vem o essencial – a oratio – a ação deve desaparecer totalmente. Como também deve evidenciar-se que, somente a oratio é o essencial, por ser só ela que proporciona espaço para a actio de Deus. Quem compreendeu isto, entenderá facilmente que agora não se trata de olhar o sacerdote, nem de ver o que ele faz, mas sim olhar juntos o Senhor e aproximar-se dele”.[2] 
Nesse mesmo livro, o Cardeal Ratzinger também destacou a natureza trinitária da liturgia: cada celebração da Eucaristia é uma oração ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo. Qual a melhor forma de exprimir esse comportamento interior através dos gestos litúrgicos? Ora, quando falamos com alguém, nós nos voltamos naturalmente para essa pessoa. Isto também se aplica às cerimônias litúrgicas, o que implica que a oração do sacerdote e dos fiéis deve ser orientada a seu divino destinatário.[3] As expressões "de frente para o povo" ou "voltado para o povo", correntemente empregadas, não levam em consideração Aquele a quem se dirigem a prece e o sacrifício: o Senhor. 
Quanto à dimensão histórica da questão, devemos, em primeiro lugar, observar que, desde os primeiros tempos, os cristãos se voltam para o leste, em direção ao sol nascente, para orar. Considerava-se, tanto para a oração privada quanto para a celebração litúrgica, que não se devia mais continuar a seguir o antigo costume judaico de rezar voltado para a Jerusalém terrestre, mas que era necessário voltar-se para a nova Jerusalém, a cidade celeste, que o Senhor ressuscitado construiu para acolher os remidos quando retornar para julgar o mundo. O sol nascente foi considerado pelos primeiros cristãos como uma expressão adequada da esperança da parusia, do retorno de Cristo em sua glória. A orientação para o Oriente tornou-se fundamental para a liturgia e para a construção das Igrejas durante os séculos seguintes. Até o fim da Idade Média, as absides das igrejas e seus altares deveriam ser orientados para o leste, onde isso, naturalmente, fosse possível.  Desta maneira, o simbolismo cósmico da Missa revestiu-se de uma forma concreta. 
Mesmo em lugares em que, provavelmente, foi regra que o sacerdote ficasse de frente para o povo, acredita-se que, em algumas igrejas dos primeiros séculos, cuja entrada era orientada para o leste, em particular em Roma e no Norte da África – o contato visual [entre o sacerdote e os fiéis] não existia, pelo menos durante a Oração Eucarística, uma vez que todos oravam de braços erguidos e com olhar voltado para o céu. Na Antiguidade e no início do período medieval seria estranho associar a participação efetiva de todos na ação litúrgica ao fato de se poder observar as ações do celebrante.  Em todo caso, a celebração versus populum, como atualmente se entende, era desconhecida na Antiguidade cristã. O fato de citarem como exemplo desta forma de celebrar a prática das basílicas romanas – como a de São Pedro - e a orientação dessas igrejas, seria um anacronismo.[4]
A orientação do padre e da comunidade para o leste, na liturgia eucarística, cujo uso já é atestado desde o início da história, não é um mero acaso.  Não se trata apenas da transmissão de um hábito, mas de uma orientação consciente para Deus na oração, ligada intimamente ao sacrifício eucarístico. Guiados pelo sacerdote, o povo de Deus, em peregrinação, põe-se em oração diante do Senhor. A incontestável preferência que se deu à orientação comum da oração reside nesse movimento coletivo de oferta, através do qual se enfatiza a dimensão sacrifical da Eucaristia.  Por meio de Cristo, nós apresentamos uma oração e uma oferenda [ao Pai] e, à frente da procissão pela qual se expressa aquele movimento de oferta (prosphora, oblatio) está o sacerdote, que se volta com os fiéis em direção ao Senhor. A tese de uma relação objetiva entre o caráter sacrifical da Eucaristia e a orientação comum da oração certamente exigiria uma análise detalhada, mas é bastante plausível. A experiência pastoral das últimas décadas mostra que esta relação existe: é difícil contestar o fato de que a celebração versus populum está acompanhada por um decréscimo acentuado da compreensão da Missa como oferta e atualização do único sacrifício de Cristo. Isso não quer dizer que a orientação da celebração seja a única causa dessa mudança. Mas entre os pioneiros do movimento litúrgico do século XX, o principal motivo para a introdução da celebração versus populum era tornar mais presente a compreensão, supostamente esquecida, da Eucaristia como banquete sagrado. É fácil constatar que esta dimensão tem sido sublinhada de forma unilateral, em detrimento da afirmação de que a Eucaristia é "um sacrifício visível, tal como a natureza do homem o exige".[5] Bouyer vê na oposição entre a compreensão da Eucaristia como banquete e a compreensão da Eucaristia como sacrifício um dualismo artificialmente fabricado, que parece absurdo aos olhos da tradição litúrgica 6. A catequese mistagógica, que é sem dúvida muito importante, não poderá recuperar essa perda enquanto o caráter sacrifical da Missa não encontrar sua correspondente expressão na forma litúrgica. Em outras palavras, todos os discursos bem intencionados sobre o mistério da Eucaristia, o sacrifício de Cristo e da Igreja, perdem-se no tempo quando as celebrações são acompanhadas de sinais que os contradizem.
Como argumento a favor da celebração versus populum, muitas vezes se diz que tal posição é importante para o diálogo entre o sacerdote e a assembléia. Não se trata aqui de contestar o papel de tal diálogo em certas partes da liturgia – que tem o seu lugar – mas de ressaltar que o princípio que rege esse intercâmbio é o diálogo entre todo o povo reunido, incluindo o sacerdote, com Deus. O liturgista francês Marcel Metzger chegou, inclusive, a dizer que a celebração da Missa versus populum não exprime a verdadeira forma da Igreja e do ofício litúrgico. O sacerdote não celebra a Eucaristia para o povo, mas é toda a comunidade que celebra voltada para Deus Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo.  Este diálogo entre Deus e seu povo é valorizado de maneira notável quando o celebrante está voltado para a abside.
Uma vez que os homens estão relacionados com o espaço e o tempo, suas orações e louvores a Deus se realizam em locais concretos e momentos específicos e "se encarnam", em certo sentido. Para Metzger, a orientação comum na oração é a maior expressão desta representação espacial de Deus.[7] O que é importante aqui não é a orientação para um determinado lugar do céu, mas a explicação sensível da verdadeira forma da Igreja através da orientação comum do sacerdote e dos fiéis em direção Àquele a quem dirigem suas orações.  Em resposta à banalização e à dessacralização progressiva da vida litúrgica, todo esforço deve ser empreendido para que se dê prioridade absoluta à contemplação e à adoração do Senhor.  Os sacerdotes são servidores humildes e discretos deste mistério - nem mais, nem menos.
A orientação comum da oração na liturgia foi de uso quase universal nas igrejas latinas até muito recentemente.  Ela continua a ser a regra nas Igrejas de tradição bizantina, siríaca, armênia, copta e etíope. A tradição litúrgica e a prática atual de todas as igrejas orientais não católicas e da maioria das igrejas orientais católicas conhecem a orientação comum  do sacerdote e da assembléia, pelo menos durante a anáfora. O fato de se ter introduzido em algumas igrejas orientais católicas, sobretudo nas da diáspora, a celebração de frente para o povo, deve-se às influências ocidentais do período pós-conciliar. Isto representa para estas igrejas um distanciamento de sua própria tradição, o que ocorre, por exemplo, entre os maronitas e os siro-malabares. Há alguns anos, a congregação romana responsável por este tema ressaltou de maneira muito clara que a celebração da liturgia versus orientem é uma tradição viva, cheia de significado e que foi transmitida desde os tempos mais antigos, bem assim que é importante conservá-la.[8]
A orientação comum de frente para Deus, que implica que todos estejam voltados para o altar – quer a orientação para o leste seja real ou não - é a posição mais adequada para celebrar a Eucaristia em sentido estrito, especialmente, durante o Cânon. Somente durante as partes da liturgia em forma de diálogo, durante a proclamação da Palavra e a distribuição da comunhão, é que o sacerdote deveria voltar-se para o povo.  Não se trata de discutir aqui em detalhe como essa proposta poderia ser colocada em prática de maneira concreta. No entanto, permanece a recomendação: o sacerdote deve orar voltado para o altar, especialmente nas igrejas antigas onde um altar principal, cuja importante qualidade estética, muitas vezes, é a característica dominante de todo o espaço.  Os suntuosos altares que se encontram nas igrejas ocidentais da idade média e do barroco, bem assim as estruturas absidais do primeiro século ainda preservadas nas igrejas bizantinas e orientais, contribuem para honrar a Deus e fazê-lo presente de modo sacramental, aos olhos dos cristãos reunidos para a oração e para o sacrifício da Missa, a obra da redenção por Ele realizada. Isso porque o altar é, por assim dizer, uma abertura no céu que, longe de fechar o espaço da igreja, permite a entrada, na comunidade reunida, daquele que é o Oriente e, por sua vez, permite a saída desta comunidade da prisão que é este mundo.[9]

Mons. Guido Marini, atual Mestre de Cerimônias do Santo Padre,
celebrando versus Deum em altar da Basílica de Santa Maria Maior
Notas:

1. J. Ratzinger, « Der Katholizismus nach dem Konzil », Auf dein Wort hin. 81. Deutscher Katholikentag vom 13. Juli bis 17. Juli 1966 in Bamberg, Verlag Bonifacius-Druckerei, Paderborn, 1966, pp. 245-264 ; J. A. Jungmann, « Der neue Altar », Der Seelsorger, n. 37, 1967, pp. 374-381 ; L. Bouyer, Liturgy and Architecture, Notre-Dame, Indiana, 1967, trad. française : Architecture et liturgie, Cerf, coll. « foi vivante », 1991.
2. L’Esprit de la liturgie, « Participation active », Ad Solem, Genève, 2001, p. 139.
3. J. Ratzinger, Das Fest des Glaubens. Versuche zur Theologie des Gottesdienstes, Johannes Verlag, Einsiedeln, 1993, pp. 121-123.
4. Sur ce sujet, on peut se référer aux travaux du liturgiste de Ratisbonne Klaus Gamber, même s’il ne sont pas toujours fiables quant aux détails historiques. K. Gamber, Ritus modernus. Gesammelte Aufsätze zur Liturgiereform, Pustet, Ratisbonne, 1972 ; Liturgie und Kirchenbau. Studien zur Geschichte der Meßfeier und des Gotteshauses in der Frühzeit, Pustet, Ratisbonne, 1976.
5. Concile de Trente, 22e session, « exposition de la doctrine touchant le Sacrifice de la messe », chapitre 1.
6. L. Bouyer, postface à Klaus Gamber, Zum Herrn hin ! Fragen um Kirchenbau und Gebet nach Osten, Pustet, Ratisbonne, 1994, p. 74.
7. M. Metzger, « La place des liturges à l’autel », Revue des sciences religieuses, n. 45, 1971, p. 140.
8. Congregatio pro Ecclesiis Orientalibus, Istruzione per l’applicazione delle prescrizioni liturgiche del Codice dei Canoni delle Chiese Orientali « Il Padre incomprensibile », Cité du Vatican, 1996, pp. 85-86 (n. 107).
9. L’Esprit de la liturgie, « Le lieu sacré », pp. 59-60.

Sobre o autor: Uwe Michael Lang. Sacerdote do Oratório de São Filipe Néri, autor do livro Turning towards the Lord: orientation in liturgical prayer (2005) e Oficial da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e Consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Fonte: Revista Catholica n º 89 – Publicado em 11 de fevereiro de 2010. 


Tradução por Edilberto Alves - membro da ARS

Faleceu o Cardeal Virgílio Noé, aquele que revelou o sentido das palavras de Paulo VI sobre a "fumaça de satanás" na Igreja

Pax et bonum!

Na manhã de ontem, domingo (24/07), faleceu Sua Eminência o Cardeal Virgílio Noé, que foi Mestre de Cerimônias do Santo Padre por 12 anos, indo do pontificado de Paulo VI até João Paulo II, sucedido por D. John Magee e, em seguida, pelo conhecido D. Piero Marini.
Há três anos este purpurado foi entrevistado por Bruno Volpe, do site Petrus, e somente hoje tomei conhecimento desta entrevista. Nela ele revela o que Paulo VI quis dizer, quando afirmou na homilia de 29 de junho de 1972 (que infelizmente não foi publicada integralmente pelo Vaticano, junto com várias outras), que a fumaça de satanás tinha entrado no templo de Deus. Dada sua importância e como ela ainda pode ser novidade para muitos, posto-a.

Como Mestre de Cerimônias ao lado do papa João Paulo I

***

CIDADE DO VATICANO – Fala com um fio de voz e por vezes a respiração lhe pesa tanto que precisa parar. Mas a mente é lúcida e o coração bondoso. A entrevista com o Cardeal Virgílio Noé, 86 anos [no ano da entrevista, 2008], Mestre de Cerimônias Litúrgicas no Pontificado de Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, Arcipreste Emérito da Basílica de São Pedro e ex-Vigário do Papa para a Cidade do Vaticano, se revela comovente, e ao mesmo tempo contagiante. O purpurado, que há muito abandonou a vida pública por causa das enfermidades da idade avançada, ajuda-nos, levando-nos pela mão, a conhecer melhor um Pontífice esquecido [erroneamente] na pressa da história: Giovanni Battista Montini. E revela pela primeira vez a que se referia precisamente Paulo VI quando, em 1972, denunciou a presença da fumaça de satanás na Igreja.

Servo de Deus Paulo VI

Eminência, quem foi o Papa Paulo VI?
Um verdadeiro cavalheiro, um santo. Lembro-me ainda como ele vivia o Mistério Eucarístico, com amor e participação. Quando penso nele choro, mas não à maneira dos hipócritas. Sinto-me realmente tocado. Devo muito a ele, ensinou-me muito, ele viveu e pagou um grande preço pela Igreja.

O Senhor teve o privilégio de ser Mestre das Cerimônias Litúrgicas precisamente devido à nomeação recebida do Papa Montini nos tempos da reforma pós-conciliar. Como se recorda daquele tempo?
Esplendidamente. Uma vez o Santo Padre disse-me, pessoalmente, e de modo afetuosíssimo, como o Mestre de Cerimônias deveria atuar naquele função e naquele determinado período histórico. Entrou na sacristia. Aproximou-se de mim e disse-me: o Mestre de Cerimônias deve prever tudo e encarregar-se de tudo; tem o dever de aplainar a estrada para o Papa.

Ele acrescentou algo?
Sim. Afirmou que o ânimo de um Mestre de Cerimônias não deve se perturbar nunca por nada, grande ou pequeno, que seja problema pessoal. Um Mestre de Cerimônias, reforçou, deve ser sempre senhor de si mesmo e tornar-se escudo do Papa, pois a Santa Missa deve ser celebrada dignamente, para a Glória de Deus e do seu povo.

Como o Santo Padre recebeu a reforma litúrgica querida pelo Vaticano II?
De bom grado.
Servo de Deus Paulo VI
Diz-se que Paulo VI era um homem bastante triste, é verdade ou é uma lenda?
Uma mentira. Ele era um pai bom e gentil. Ao mesmo tempo, ficou muito triste pelo fato da Cúria Romana tê-lo deixado sozinho. Mas prefiro não falar sobre isso.

De modo geral, contradizendo os historiadores, o senhor, que era um dos seus mais próximos e fiéis colaboradores, descreve o Papa Montini como uma pessoa serena.
Ele era. E sabe por quê? Porque afirmava sempre que aquele que serve o Senhor não pode nunca ser triste. E ele o servia especialmente no sacrifício da Santa Missa.

Da página com os trechos da homilia em italiano, no site da Santa Sé

Continua inesquecível a denúncia de Paulo VI sobre a fumaça de satanás na Igreja. Ainda hoje, aquele discurso parece de uma atualidade incrível. Mas, com exatidão, o que queria dizer o Papa?
Vocês da “Petrus” fizeram uma boa pergunta aqui, pois estou em condições de revelar, pela primeira vez, o que Paulo VI desejava denunciar com aquela afirmação. Aqui está: o Papa Montini, por satanás, queria indicar todos aqueles padres ou bispos e cardeais que não rendem culto ao Senhor, celebrando mal a Santa Missa por causa de uma errônea interpretação e aplicação do Concílio Vaticano II. Ele falou da fumaça de satanás porque sustentava que aqueles prelados que faziam da Santa Missa uma palha seca em nome da criatividade, na verdade estavam possuídos da vanglória e do orgulho do maligno. Portanto, a fumaça de satanás não era outra coisa além da mentalidade que queria distorcer os cânones tradicionais e litúrgicos da cerimônia Eucarística.

E pensar que Paulo VI é citado quase como a causa de todos os males da liturgia pós-conciliar. Mas, de acordo com o que revelou Vossa Eminência, Montini comparou o caos litúrgico, mesmo que de maneira velada, a algo de infernal.
Ele condenou a ânsia de protagonismo e o delírio de onipotência que se seguiu ao Concílio, a nível litúrgico. Repetia muitas vezes que a Missa é uma cerimônia sacra, tudo deve ser preparado e estudado adequadamente respeitando os cânones, ninguém é “Dominus” (Senhor) da Missa. Infelizmente, e muito, depois do Vaticano II não o entenderam, e Paulo VI sofreu isso, creditando o fenômeno a um ataque do demônio.

Eminência, concluindo, o que é a verdadeira liturgia?
É render glória a Deus. A liturgia deve ser sempre, e não importa em que situações, conduzida com decoro: mesmo um sinal da Cruz mal feito é sinônimo de desprezo e pobreza. Além do mais, eu repito, acreditou-se, depois do Vaticano II, que tudo, ou quase tudo, era permitido. Agora é preciso recuperar, e depressa, o senso do sagrado na ars celebrandi, antes que a fumaça de Satanás invada completamente toda a Igreja. Graças a Deus, temos o Papa Bento XVI: sua Missa e seu estilo litúrgico são um exemplo de correção e dignidade.

Por Bruno Volpe

domingo, 24 de julho de 2011

Uma de muitas que virão

Pax et bonum!


Era uma quente manhã de sábado, quando os microfones não foram convidados para a Missa. 
Passara um quarto da hora terça.
Uma assembleia de chamados e de escolhidos: 
almas convidadas após o último crepúsculo; 
almas que entraram no velho e centenário templo e permaneceram.
Seis castiçais adornavam o pobre altar-mor provisório, pois o templo está renascendo. 
Duas finas chamas, porém, é que apontavam para o alto.
Não sei se estalara o lenho do comungatório, que criou um limite naquele caminho do meio, 
pelo qual incontáveis pés de pais e avós já transitaram.
Um Missal imponente, de umas cinco décadas, deu as caras ao pequeno povo.
Puxou o canto um mancebo do meio deste, enquanto em passo grave entrou 
um coroinha estremecido e um jovem padre, padre de fora.
Na Matriz, entre calma e apreensão, fez-se ouvir na língua dos antigos:
In nómine Patris, et Fílii et Spíritus Sancti. Amen.  

 Introíbo ad altare Dei. Ad Deum qui lætíficat iuventutem meam.
A diminuta assembleia, tendo à frente aquele sacerdote de longe, pôs-se por sessenta minutos, 
entre estranhas respostas e um silêncio admirado, 
a se desalterar numa pausa restauradora na caminhada rumo ao Céu. 
 O que se passava nas almas? O que se passava? 
 Dizei-o, ó céus! Dizei-o, anjos do Altíssimo! Sabe-o o Onipotente. 
 Aquela grei, que ao Príncipe dos Pastores suplicava um bom e santo pastor, recordar-se-á deste dia. 
 Não se foi ali para admirar os dramas e tragédias dos teatros, nem se dar como mudo espectador: 
não se foi a um espetáculo. 
 Uma partícula da Igreja da Cidade Verde, fiel ao pescador de múleos e alvo saial, 
se ofereceu em sacrifício com seu Redentor, 
em cerimônias e preces milenares, em simplicidade e temor.

Gostaríamos de agradecer ao Pe. Samuel Brandão de Oliveira, MSC, pela disponibilidade em ter vindo, nesta última semana, dar-nos instruções práticas sobre a Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano e ter celebrado conosco uma Missa rezada na Paróquia Nossa Senhora do Amparo, no centro da cidade.
Esperamos que a pequena assembleia convidada para esta Missa tenha elevado bem o seu coração ao alto. Alegramo-nos por todos que estiveram presentes e que participaram pela primeira vez da Missa na Forma Extraordinária.
A intenção especial pela qual participamos do Sacrifício foi a nomeação do novo Arcebispo de Teresina, a fim de que o único e verdadeiro Deus nos conceda um Bispo virtuoso, obediente ao Santo Padre.
A Missa e o horário (ontem, sábado - dia 23, às 9h) foram decididos apenas no dia anterior. Lamentamos não ter sido possível chamar muitas pessoas.
Pe. José de Pinho Borges Filho, pároco da Matriz de Teresina, está recebendo instrução e estudando as rubricas da Forma Extraordinária do Rito Romano. Todos serão comunicados quando a Arquidiocese de Teresina estiver finalmente capacitada para pôr em prática o desejo do Santo Padre.
Rezem por nós.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 21 de julho de 2011

64º aniversário da morte do Servo de Deus Pe. João Baptista Reus, SJ

Pax et bonum!

Hoje (21/07) muitos brasileiros recordam a morte, há 64 anos, do grande sacerdote jesuíta tão amado em São Leopoldo - RS: Pe. João Baptista Reus.
Nós da ARS queremos tributar-lhe honra especial neste dia e pedir a Deus que apresse sua beatificação, multiplicando os milagres e sinais que concede pelos méritos deste seu servo. Terminamos ontem uma novena que tínhamos iniciado no dia 12. Nela pedimos de modo particular a celebração da Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano para todos os que a pedem.
Aproveitando este dia, decidi transcrever trechos da "Páscoa" deste nosso santo (embora ainda não canonizado). Lamento só poder ter concluído a postagem já nas últimas horas deste dia. Será edificante, entretanto, a todos e a todo momento.
O ano é 1947...

O declínio das energias e dos órgãos do enfermo seguia seu curso normal. Superada a crise de abril, Pe. Reus não ia mais ao refeitório da Comunidade, mas era servido pelo jovem Ir. Ambrósio Reis (...). De acordo com o Diário, o padre ainda não esteve em condições de celebrar a missa na festa de Pentecostes (a 25 de maio). Mas já no dia seguinte [os dias da Oitava de Pentecostes, na Forma Extraordinária] pôde aproximar-se do altar, onde durante a missa toda, com alguns intervalos, observava como "as graças do Espírito Santo caíam sobre o altar em forma de chuva e uma vez em forma de línguas de fogo". Dando, no fim da missa, a bênção, viu acima de si o Espírito Santo, com a aparência de uma cruz incandescente. (...)
Seu último apontamento no Diário leva a data de 10 de junho de 1947. Depois de mencionar os três êxtases da missa acrescentou estas palavras: "Última missa". Na verdade assim foi. Na sua "missa" de cada instante, na qualidade de "vítima de amor" incluía doravante a renúncia também a essa hora mais bela do dia e que ele próprio chamara de "céu na terra".
Nas últimas semanas abrandara a asma, mas em compensação fizeram-se notar os efeitos da arteriosclerose nas mãos e nos pés, que não eram menos dolorosos. (...)
Em 9 de julho sobreveio nova crise, deixando prever o próximo desenlace. A Comunidade reunira-se em grande número em volta do leito do enfermo, para recitar as orações dos moribundos; entretanto o estado do enfermo tornou a melhorar, se bem que a fraqueza aumentasse a olhos vistos. Sentindo-se pior, pediu, na tarde de 11 de julho, um padre para a absolvição. (...)
Poucos minutos depois (...), o Pe. Reus foi visto sentar-se na cama, entrar em êxtase, estender os braços e virar-se para o lado. Foi chamado o Pe. Reitor. Entrando este no quarto, exclamou o enfermo: "A Mãe está presente!". "Sim, a Mãe virá com certeza buscá-lo", respondeu o Pe. Reitor e, acompanhado pelos presentes, começou a rezar as orações pelos moribundos. Interrompendo as orações, disse o Pe. Reus: "Acha-se presente toda a Sagrada Família". (...)
Contra todas as previsões, o doente começou a sentir-se melhor. Mas, a partir daquela data (11 de julho), rejeitava qualquer remédio, aceitando somente água e um mínimo de alimento. Conquanto, em razão da extrema debilidade, a memória e orientação começassem a falhar um pouco, muito lúcido confessava e recebia a Comunhão todos os dias. Bem nos últimos dias a fala tornou-se-lhe tão difícil, que mal se podia entendê-lo. A 20 de julho, domingo, seu estado parecia satisfatório, pois ele alimentava-se melhor e conversava um pouco. No dia seguinte, 21 de julho, sentiu-se pior e rejeitou o almoço. Às 14 horas, o Irmão Enfermeiro encontrou-o muito debilitado. Às 16 horas, querendo levar-lhe algum leite, reparou que o enfermo não mais falava. Tomou-lhe o pulso e saiu incontinenti a chamar o Pe. Reitor, que tinha o quarto ao lado. Levou um instante apenas até que este viesse, acompanhado do Irmão. E foi precisamente nesse curto intervalo que se extinguiu, sem sinal de agonia, a vida do Pe. João Baptista Reus.
Foi só isso que os olhos corporais puderam averiguar. Entretanto, pelo que sabemos da vida interior desse Servo de Deus, por fora talvez ponteada de arestas, mas por dentro repleta de atrativos e prodígios, não resta nenhuma dúvida acerca da realidade invisível que acompanhou o seu pensamento. Consumou-se e coroou-se, naquele instante, uma existência longa de sacrifícios e de amorosa união com o Divino Redentor das almas. O Eterno e Divino Sumo Sacerdote achegou para sempre ao seu Coração esta alma, que em vida lhe ofertara todo o seu amor fiel e casto, amor de esposa e amor sacerdotal, para dar-lhe a beber a taça pura do Amor Divino e Celestial, de cujo calor e felicidade o padre já tivera um leve antegozo aqui, sobretudo junto do altar. Deus infinitamente fiel converteu em realidade o que, em anos passados, prometera seguidas vezes a seu Servo, a saber, que ele jamais estaria dele separado e que depois da morte, entraria na glória celeste, sem necessidade de expiação. (...)
Traduziu-se, finalmente em realidade o que o padre, inundado de gozo, escrevera a respeito de sua incondicional entrega a Deus por seus primeiríssimos votos, a 1º de novembro de 1895: "Só me resta mais outro dia que me poderá tornar mais feliz: o dia da minha morte". Aquela vez acrescentara ainda: "Embora eu arda em desejos por vós, meu Amantíssimo e Saudosíssimo Jesus, quero contudo viver, para difundir o Reino do vosso Sagrado Coração nos corações daqueles que foram remidos no vosso Preciosíssimo Sangue. Depois, sim, irei ter convosco e descansar aos vossos pés, para nunca mais vos deixar por toda a eternidade".
Este dia almejado e bendito que foi o da morte, veio colher o Pe. Reus, quando contava 79 anos e 11 dias de vida, 54 anos (menos 9 dias) de sacerdócio e 53 anos (e três meses) de vida religiosa. Era o dia 21 de julho de 1947.

Fonte: Pe. Fernando Baumann, SJ. Grande Biografia. Tradução: Pe. Bruno Rabuske, SJ. Pp. 390-393. São Leopoldo, RS. 1987.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Excelências da Batina" - por Pe. Jaime Tovar Patrón

Pax et bonum!

Há mais de três anos traduzi um interessante artigo sobre o uso da batina (que também pode se chamar sotaina). Trata-se de um texto de um sacerdote espanhol, Pe. Jaime Tovar Patrón.
Lembrando ontem desta tradução, achei por bem publicá-la no blog, depois de tê-la revisado, embora ela já esteja presente em muitos outros sites desde quando a publiquei em 2007.
Para quem não leu ainda, boa leitura!
(Dedico este texto ao meu confessor.)

Excelências da batina
Autor: Pe. Jaime Tovar Patrón

Esta breve coleção de textos nos recorda a importância do uniforme sacerdotal, a batina ou hábito talar. Valha outro tanto para o hábito religioso próprio das ordens e congregações. Em um mundo secularizado, da parte dos consagrados não há melhor testemunho cristão que a vestimenta sagrada nos sacerdotes e religiosos. 

Sete excelências da batina
Pe. Jaime Tovar Patrón
"Atente-se como o impacto da batina é grande ante a sociedade, que muitos regimes anticristãos a têm proibido expressamente. Isto nos deve dizer algo. Como é possível que agora, homens que se dizem da Igreja desprezem seu significado e se neguem a usá-la?" 

Hoje em dia são poucas as ocasiões em que podemos admirar um sacerdote vestindo sua batina. O uso da batina, uma tradição que remonta a tempos antiquíssimos, tem sido esquecido e às vezes até desprezado na Igreja pós-conciliar. Porém isto não quer dizer que a batina perdeu sua utilidade, se não que a indisciplina e o relaxamento dos costumes entre o clero em geral é uma triste realidade. 

A batina foi instituída pela Igreja pelo fim do século V com o propósito de dar aos seus sacerdotes um modo de vestir sério, simples e austero. Recolhendo, guardando esta tradição, o Código de Direito Canônico impõe o hábito eclesiástico a todos os sacerdotes. 

Contra o ensinamento perene da Igreja está a opinião de círculos inimigos da Tradição que tratam de nos fazer acreditar que o hábito não faz o monge, que o sacerdócio se leva dentro, que o vestir é o de menos e que o sacerdote é o mesmo de batina ou à paisana. 

Sem dúvida a experiência mostra o contrário, porque quando há mais de 1500 anos a Igreja decidiu legislar sobre este assunto foi porque era e continua sendo importante, já que ela não se preocupa com ninharias. 

Em seguida expomos sete excelências da batina condensadas de um escrito do ilustre Pe. Jaime Tovar Patrón. 


I. Recordação constante do sacerdote

 Certamente que, uma vez recebida, a ordem sacerdotal não se esquece facilmente. Porém um lembrete nunca faz mal: algo visível, um símbolo constante, um despertador sem ruído, um sinal ou bandeira. Aquele que vai à paisana é um entre muitos, o que vai de batina, não. É um sacerdote e ele é o primeiro persuadido. Não pode permanecer neutro, o traje o denuncia. Ou se faz um mártir ou um traidor, se chega a tal ocasião. O que não pode é ficar no anonimato, como um qualquer. E logo quando tanto se fala de compromisso! Não há compromisso quando exteriormente nada diz do que se é.  Quando se despreza o uniforme, se despreza a categoria ou classe que este representa.


II. Presença do sobrenatural no mundo

São João Bosco
Não resta dúvida de que os símbolos nos rodeiam por todas as partes: sinais, bandeiras, insígnias, uniformes... Um dos que mais influencia é o uniforme. Um policial, um guarda, não é sempre necessário que atue, detenha, dê multas, etc. Sua simples presença influi nos demais: conforta, dá segurança, irrita ou deixa nervoso, segundo sejam as intenções e a conduta dos cidadãos. 

Uma batina sempre suscita algo nos que nos rodeiam. Desperta o sentido do sobrenatural. Não é preciso pregar, nem sequer abrir os lábios. Ao que está de bem com Deus dá ânimo, ao que tem a consciência pesada adverte, ao que vive longe de Deus suscita arrependimento. 

As relações da alma com Deus não são exclusivas do templo. Muita, muitíssima gente não pisa na Igreja. Para estas pessoas, que melhor maneira de lhes levar a mensagem de Cristo do que lhes deixar ver um sacerdote consagrado vestindo sua batina? Os fieis têm lamentado a dessacralização e seus devastadores efeitos. Os modernistas clamam contra o suposto triunfalismo, tiram os hábitos, rechaçam a coroa pontifícia, as tradições de sempre e depois se queixam de seminários vazios, de falta de vocações. Apagam o fogo e se queixam de frio. Não há dúvidas: o "desbatinamento" ou "desembatinação" leva à dessacralização. 


III. É de grande utilidade para os fieis

São José Maria Escrivá
O sacerdote o é não só quando está no templo administrando os sacramentos, mas nas vinte e quatro horas do dia. O sacerdócio não é uma profissão, com um horário marcado; é uma vida, uma entrega total e sem reservas a Deus. O povo de Deus tem direito a que o sacerdote o auxilie. Isto é facilitado se podem reconhecer o sacerdote entre as demais pessoas, se este leva um sinal externo. Aquele que deseja trabalhar como sacerdote de Cristo deve poder ser identificado como tal para o benefício dos fieis e melhor desempenho de sua missão. 

IV. Serve para preservar de muitos perigos

São Luís Orione
A quantas coisas se atreveriam os clérigos e religiosos se não fosse pelo hábito! Esta advertência, que era somente teórica quando a escrevia o exemplar religioso Pe. Eduardo F. Regatillo, S.I., é hoje uma terrível realidade.

Primeiro, foram coisas de pouca monta: entrar em bares, lugares de recreio, diversão, conviver com os seculares, porém pouco a pouco se tem ido cada vez mais além.

Os modernistas querem nos fazer crer que a batina é um obstáculo para que a mensagem de Cristo entre no mundo. Porém, suprimindo-a, desapareceram as credenciais e a própria mensagem. De tal modo que muitos já pensam que o primeiro que se deve salvar é o próprio sacerdote, que se despojou da batina supostamente para salvar os outros. 

Deve-se reconhecer que a batina fortalece a vocação e diminui as ocasiões de pecar tanto para aquele que a veste como para aqueles que o rodeiam. Dos milhares que abandonaram o sacerdócio depois do Concílio Vaticano II, praticamente nenhum abandonou a batina no dia anterior ao de ir embora: tinham-no feito já muito antes.


V. Ajuda desinteressada aos demais

São Damião de Veuster
O povo cristão vê no sacerdote o homem de Deus, que não busca seu bem particular, mas o de seus paroquianos. O povo escancara as portas do coração para escutar o padre que é o mesmo para o pobre e para o poderoso. As portas das repartições, dos departamentos, dos escritórios, por mais altas que sejam, se abrem diante das batinas e dos hábitos religiosos. Quem nega a uma monja o pão que pede para seus pobres ou idosos? Tudo isto está tradicionalmente ligado a alguns hábitos. Este prestígio da batina se tem acumulado à base de tempo, de sacrifícios, de abnegação. E agora, desprendem-se dela como se se tratasse de um estorvo?


VI. Impõe a modéstia no vestir

São João Maria Vianney
A Igreja preservou sempre seus sacerdotes do vício de aparentar mais do que se é e da ostentação, dando-lhes um hábito singelo em que não cabem os luxos. A batina é de uma peça (desde o pescoço até os pés), de uma cor (preta) e de uma forma (saco). Os arminhos e ornamentos ricos se deixam para o templo, pois essas distinções não adornam a pessoa se não o ministro de Deus para que dê realce às cerimônias sagradas da Igreja.

Porém, vestindo-se à paisana, a vaidade persegue o sacerdote como a qualquer mortal: as marcas, qualidades do pano, dos tecidos, cores, etc. Já não está todo coberto e justificado pelo humilde saial. Ao se colocar no nível do mundo, este o sacudirá, à mercê de seus gostos e caprichos. Haverá de ir com a moda e sua voz já não se deixará ouvir como a do que clamava no deserto coberto pela veste do profeta vestido com pêlos de camelo.


VII. Exemplo de obediência ao espírito e à legislação da Igreja

Sua Santidade, Bento XVI
Como alguém que tem parte no Santo Sacerdócio de Cristo, o sacerdote deve ser um exemplo da humildade, da obediência e da abnegação do Salvador. A batina o ajuda a praticar a pobreza, a humildade no vestiário, a obediência à disciplina da Igreja e o desprezo das coisas do mundo. Vestindo a batina, dificilmente se esquecerá o sacerdote de seu importante papel e sua missão sagrada ou confundirá seu traje e sua vida com a do mundo. 

Estas sete excelências da batina poderão ser aumentadas com outras que venham à tua mente, leitor. Porém, sejam quais forem, a batina sempre será o símbolo inconfundível do sacerdócio, porque assim a Igreja, em sua imensa sabedoria, o dispôs e tem dado maravilhosos frutos através dos séculos. 

Notas:

- O autor: Padre Jaime Tovar Patrón, coronel capelão, ocupou importantes responsabilidades no Vicariato Castrense. Oriundo de Extremadura, Espanha, foi grande orador sacro. Autor do livro Los curas de la Cruzada, autêntica enciclopédia dos heróicos sacerdote que desenvolveram seu trabalho pastoral entre os combatentes da gloriosa Cruzada de 1936. É, ademais, uma história do sacerdócio castrense. Faleceu em janeiro de 2004. 

- Código de Direito Canônico (1983): Livro II, I Parte, Título III, Capítulo III: 

Can. 284 — Clerici decentem habitum ecclesiasticum, iuxta normas ab Episcoporum conferentia editas atque legitimas locorum consuetudines, deferant.
Can. 285 — § 1. Clerici ab iis omnibus, quæ statum suum dedecent, prorsus abstineant, iuxta iuris particularis præscripta.
§ 2. Ea quæ, licet non indecora, a clericali tamen statu aliena sunt, clerici vitent.

- Tradução oficial brasileira:
Cân. 284 Os clérigos usem hábito eclesiástico conveniente, de acordo com as normas dadas pela Conferência dos Bispos e com os legítimos costumes locais.
Cân. 285 § 1. Os clérigos se abstenham completamente de tudo o que não convém ao seu estado, de acordo com as prescrições do direito particular.
§ 2. Os clérigos evitem tudo o que, embora não inconveniente, é, no entanto, impróprio ao estado clerical.

[O Texto da Legislação Complementar ao Código de Direito Canônico emanada pela CNBBquanto ao cân. 284, diz: Usem os clérigos um traje eclesiástico digno e simples, de preferência o "clergyman"  ou "batina".
Entende-se, pelo Cân. 266 § 1, que se entra no estado clerical pela Ordenação Diaconal.]

- Convém recordar: muitos sacerdotes e religiosos mártires pagaram com seu sangue o ódio à fé e à Igreja desencadeado nas terríveis perseguições religiosas dos últimos séculos. Muitos foram assassinados simplesmente por vestirem a batina. O sacerdote que veste a batina é para todos um modelo de coerência com os ideais que professa, enquanto, ao mesmo tempo, honra o cargo que ocupa na sociedade cristã.

Se bem é certo que o hábito não faz o monge, também é certo que o monge veste hábito e o veste com honra. Que podemos pensar pensar do militar que despreza seu uniforme? O mesmo que do vigário que despreza sua batina!

Original em espanhol: http://es.catholic.net/temacontrovertido/331/1231/articulo.php?id=27446

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 19 de julho de 2011

"O Portão para a Eternidade" em pdf

Pax et bonum!

Conforme prometido, o artigo "O Portão para a Eternidade", postado em três partes no blog (I, II, III), foi publicado em PDF no Gloria.TV.
Boa leitura!

Deus abençoe a todos.

Por Luís Augusto - membro da ARS

"O Antigo Missal Romano: perca e redescoberta" - parte 4/4

Antes das mudanças, toda uma coroa de gestos reverentes tinha se acumulado em torno do sacramento do altar, e estes gestos davam um sermão eloquente, recordando constantemente o sacerdote e o povo da misteriosa presença do Senhor no Pão e no Vinho consagrados. Podemos ter certeza disto: nenhuma doutrinação teológica da parte dos chamados teólogos “iluminados” fez tão mal à crença dos católicos ocidentais quanto a comunhão na mão. Isto imediatamente aboliu todos os antigos cuidados quanto às partículas da Hóstia. É impossível, então, receber a comunhão na mão de modo reverente? Claro que é possível. Mas uma vez que a etiqueta da reverência existe e tem tido seu benefício, sua elevada influência sobre a consciência do fiel, é lógico que a retirada da etiqueta deu um claro sinal (e de modo algum apenas para os simples crentes). Que sinal foi esse? Que o grau de reverência de antes não era requerido. Isto por sua vez, logicamente, produziu a convicção — uma convicção que não se fez explícita inicialmente — de que ali não havia nada presente a que se devesse respeito.

Como eu disse, estas coisas foram o resultado da funesta combinação da reforma litúrgica com o Zeitgeist político do Ocidente. Absurdamente, este "espírito dos tempos" pediu a democratização do culto católico, como se a Igreja fosse uma organização política como um estado ou um partido político. Na Ásia, pelo contrário, o crescimento da Igreja, seu poder carismático e cheio do Espírito parece não ter sido minado pela reforma; todo católico deve ser grato de todo o coração por isto. Onde o fogo queima, este pode ser dado aos outros. Não seria a primeira vez na história da Igreja em que territórios de missão retransmitiriam a fé para terras originalmente cristãs que a perderam. Depois da queda do Império Romano, a França foi recristianizada pelos monges irlandeses, que por sua vez devem sua cristandade aos missionários egípcios. Desta forma a lei da mutualidade foi cumprida, pelos irmãos que se revigoraram na fé. Mas também devemos lembrar do verso do poeta John Donne "nenhum homem é uma ilha" – neste sentido: na Igreja universal não há “ilhas de bem-aventurados” e nem lugares que são poupados das venturas e desventuras do corpo mais amplo por longo prazo. A crise no corpo mais amplo da Igreja alcançará todas as partes um dia; devemos estar preparados e equipados para isto. Tais regiões que nunca produziram os sintomas da queda e da debilidade devem perguntar as causas de tal decadência e o que pode ser feito para evitá-las. O ataque à herança litúrgica pela reforma da Missa continua sendo um problema, no sentido estritamente filosófico do termo, porque criou uma situação que não tinha solução óbvia. O povo diz "problemas não têm solução, só uma história". E esta história do problema da reforma litúrgica apenas começou. Mesmo antes de sua eleição, nosso Santo Padre, o Papa Bento XVI, foi um dos bem poucos bispos que sabiam que a ruptura radical com a tradição representava um grande perigo para a Igreja. Agora, em seu famoso Motu proprio, ele afirmou que o Rito Tradicional da Igreja nunca foi proibido porque, por sua própria natureza, não o poderia ser. O Papa não é o mestre da liturgia, mas seu protetor. A Igreja nunca abandona seus ritos herdados, os quais considera uma herança espiritual. Pelo contrário, ela exorta os fiéis a estudá-los e a descobrir, aqui e agora, os seus tesouros ocultos.

O Papa não teve nenhuma intenção de ignorar o passado – o que seria inútil em todo caso – e nem fingiu que os últimos quarenta anos não aconteceram. Ele tomou uma decisão que era almejada, sobretudo, para reconciliar o partido da reforma com os defensores da tradição católica. Segundo o estabelecido pelo papa, há agora um único Rito Romano em duas formas, a "ordinária" e a "extraordinária". As duas formas estão lado a lado numa relação de igualdade. Qualquer uma destas formas pode ser celebrada por qualquer sacerdote sem nenhuma permissão episcopal. Elas se referem entre si de tal modo que o celebrante da forma nova (a ordinária) deve aprender da forma tradicional (a extraordinária) como a tradição da Igreja entende a Santa Missa. O papa exortou a Igreja a reexaminar os antigos livros dos ritos e a aprender, dos padres e santos dos séculos passados, como realizar a solene obra de fazer Deus presente. Todos somos chamados, então, a dar graças pelo resgate do Missal tradicional, que estava quase perdido, e a abri-lo – talvez mesmo “ao cair da tarde” (cf. Mt 20,1-16) – e ler como a Igreja, e todo os povos fieis a quem devemos a nossa fé, costumavam rezar.  Talvez também nós possamos tentar rezar como eles rezaram. Não deveríamos esquecer que este foi o Missal dos papas romanos; ele foi prescrito para toda a Igreja no Concílio de Trento. Por quê? Porque, com absoluta certeza, não continha erro algum, nem a mínima possibilidade de equívoco. Na grande crise da Reforma ele foi considerado uma espécie de Arca de Noé espiritual para a Igreja, salvando-a do dilúvio da apostasia universal.

Descubramos, pois, o Salmo Iudica (Sl 42), com que a Missa tradicional inicia aos pés do altar, preparação ímpar para o rito. Somos convocados a deixar para trás nossas preocupações individuais, cotidianas, para nos voltarmos deste mísero mundo e expulsarmos nossas ansiedades, nossos cuidados e nossas dúvidas profundas. Estamos prestes a subir ao santuário do Senhor, sobre o monte do seu templo. Este Salmo nos convida para a Missa como para uma peregrinação, na qual deixamos para trás tudo o que se torna obstáculo à nossa oração. Em seguida, o sacerdote faz sua confissão dos pecados e a assembleia ouve-o em silêncio antes de rezar para que os pecados dele sejam perdoados. Então a assembleia faz sua própria confissão dos pecados para o sacerdote. De fato, a confissão dos pecados só faz sentido nesta forma dialogada, porque uma confissão precisa de alguém que, enquanto escuta, não esteja falando ao mesmo tempo. Descubramos o grande Credo de Constantinopla, que foi formulado para esclarecer o de Nicéia e repelir os erros do Arianismo. Bem como a Igreja, quando foi ameaçada pelo Arianismo, precisamos novamente da profissão de fé que diz que Jesus é "Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro". Na Alemanha, pelo menos, este Credo desapareceu quase por complete do culto, bem como a genuflexão ao artigo central de nossa fé: "et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria virgine et homo factus est". Com espanto e admiração leiamos as Orações, especialmente as dos Domingos depois de Pentecostes, muitas das quais foram compostas pelo próprio São Jerônimo. São obras-primas de retórica [oratória], formulando verdades teológicas que nutrem a meditação mesmo fora da Missa, e dando voz, de modo singular, ao relacionamento cristão entre Deus e o homem. Uma das maiores percas na reforma da Missa é a perca das orações do Ofertório, durante as quais as oferendas veladas são trazidas para o altar e o sagrado evento da morte sacrifical do Senhor tem seu início. Estas orações vieram de tempos antigos; elas falam, pela primeira vez na história humana, da dignidade do homem, uma dignidade dada por Deus a estas suas criaturas desde as origens, dignidade esta que foi maravilhosamente renovada pela morte sacrifical de Jesus. A Epiclese também é da maior importância: nela o Espírito Santo é invocado sobre os dons. A Igreja Oriental considera esta oração como tendo um efeito especial no ato de transformar os dons; mas a Igreja Ocidental, também, sabe que é o Espírito Santo que trará o milagre da transubstanciação. Então vem o Cânon Romano, que ainda está contido no novo missal, embora só seja rezado em poucos lugares hoje em dia. O Cânon Romano, listando todos os santos da cidade de Roma, une todos os oferecimentos da Missa com Roma, com o Papa e, portanto, com a Igreja universal. Desta forma, aqueles que têm a Missa em comum, vêm de sua terra natal e tornam-se cidadãos de Roma, membros da Igreja que abraça o mundo inteiro. Numa oração muito significante o Cânon Romano une o presente sacrifício do altar aos sacrifícios de todos os homens, em todos os tempos: ao sacrifício de Abel (representando a revelação em sua primeira forma), ao sacrifício do Rei Melquisedec (que não era judeu e, assim, representa os sacrifícios dos povos não-judeus) e ao sacrifício de Abraão, o qual – de forma terrivelmente clara - antecipa o sacrifício da Cruz, este drama que acontece entre o Pai e o Filho.

Só posso dar uma indicação muito superficial da riqueza de formas a ser encontrada na linguagem ritual que passou por milhares de anos de refinamento. O antigo Missal está cheio de referências e alusões, das quais apenas depois de décadas de uso se compreendeu bem o significado. A meta dele é mudar a vida dos fiéis. E isto requer uma meditação a longo prazo. Não se trata de um instrumento para imediata propaganda; seria mais algo a que se deve dar tempo para penetrar a alma. E o que dizer da linguagem do Missal? Os fiéis de língua inglesa, pelo menos, logo estarão possibilitados a usar traduções corretas que substituirão as simplificações e falsificações tão danosas que se encontram atualmente [nt: a tradução mais fiel do Missal em inglês saiu há alguns meses e deve entrar em vigor no dia 27/11/11]. Outras nações, onde a arrogância modernista está mais estabelecida, ainda terão que esperar muito por isto. É, por isto, da maior importância para os sacerdotes, bem como para os fiéis, conhecer a língua-mãe da Igreja, na qual os ensinamentos da Igreja se preservaram de um modo claro e conciso. Uma língua sagrada possui a vantagem de não ser a língua de nenhuma nação particular. Adentramos esta língua como que entrando num edifício sagrado; ela respira uma oração que é mais poderosa que a oração individual. Ela reza uma oração que é pré-existente, que é anterior a nós; temos apenas que nos associarmos a ela, unirmo-nos a ela. A Igreja a que pertencemos está acima do tempo e dos povos; e ela está presente nesta língua sagrada. Pode ser que a crise presente esteja nos presenteando com uma oportunidade: não deveríamos nos permitir afogarmo-nos numa rotina piedosa, mas devemos redescobrir a forma visível da Igreja, aprender a amá-la e a defendê-la como um precioso tesouro que pensávamos ter se perdido: para nossa grande surpresa e alegria, encontramo-lo novamente e percebemos, talvez pela primeira vez, que nada o pode substituir.

***

Por Luís Augusto - membro da ARS

"O Antigo Missal Romano: perca e redescoberta" - parte 3/4

A própria reforma do Papa Paulo [VI] teve consequências pesadas, mas a forma com que ela foi levada a cabo, particularmente na maioria das dioceses da Europa e dos Estados Unidos, é que lançou ao lixo tudo o que, no Rito Paulino, ainda tinha ligação com a tradição católica. Neste ano do eixo, 1968, reforma tornou-se revolução. Começou com a liturgia. E aqui podemos ver o papel central dela na Igreja: tudo o mais, a teologia, a pessoa do sacerdote, a constituição hierárquica da Igreja, as orações cotidianas dos fiéis, o edifício da cultura católica, as obras missionárias, e por fim até os artigos centrais da fé, estava intimamente ligado à Liturgia. Com a liturgia, ou todos ficam firmes ou todos caem. A liturgia não era uma forma historicamente condicionada que poderia ser substituída ou adaptada para todas as necessidades cotidianas, sem que sua substância sofresse algum prejuízo. Isto seria óbvio até para as pessoas que equivocadamente pensavam que o amor pela liturgia tradicional era um tipo de esteticismo religioso, moralmente duvidoso. Requisitos pastorais foram citados como os mais estranhos argumentos para a reforma. Um rito severamente simplificado, com orações em vernáculo que eram teologicamente gerais e não desafiadoras no tom, certamente ajudaria a manter as pessoas modernas dentro da Igreja. Até mesmo esta noção deveria ter feito as pessoas se questionarem; em terras de missão da Ásia, por exemplo, com sua civilização avançada, o povo foi acostumado a ritos extraordinariamente ricos em línguas sagradas difíceis por milênios. Recusar a tradição católica para eles seria equivalente a um ato de paternalismo colonialista. Em terras cristãs, contudo, as simplificações dos reformadores tiveram consequências devastadoras. Quando, apesar de muita resistência, a reforma foi posta em prática num último exercício de poder da parte das autoridades romanas centrais, os fiéis começaram a sair das igrejas. Como alguém ironicamente observou: "A reforma da Missa foi desejada para abrir as portas da Igreja para os de fora; o que aconteceu foi que os de dentro correram e fugiram!" O culto solene e hierático foi abolido, e a tentativa foi feita, por assim dizer, para se ir atrás dos fiéis por meio dos sacramentos. Mas eles rejeitaram a proposta. Em áreas inteiras da Europa toda a compreensão dos sacramentos sumiu. O desenvolvimento inteiro foi desconcertante: agora que toda palavra - declaradamente – poderia ser entendida, todo o evento eucarístico tornou-se de algum modo estranho ao povo. A grande obra da Igreja de tornar Deus presente não mais fazia sentido. Ao mesmo tempo, o conhecimento da fé católica se esvaiu. Hoje, na Europa, há muitos católicos que dificilmente sabem rezar o Pai nosso, muito menos o Credo. Muitos têm apenas a noção mais vaga acerca do ensinamento da Igreja.

Um dano terrível foi causado ao sacerdócio católico no alvorecer da reforma. No ocidente, desapareceu a antiga consciência de que, no altar, o sacerdote está agindo in persona Christi. O clero reformado [e remodelado] se redesenhou com linhas elegantemente democráticas. Ele não pode carregar a ideia de que o padre é homo excitatus a Deo (um homem suscitado por Deus do meio da multidão). Um padre moderno sente a distinção entre o laicato e o sacerdócio – uma distinção encontrada nos Atos dos Apóstolos – como um forte incômodo; ele não pode negar esta distinção, então ele tenta esquecê-la. Leigos invadem o santuário, mulheres agem como servas do altar (= coroinhas) (e assim obscurecem o fato de que atualmente os acólitos pertencem à menor categoria do clero). Na Europa, falando de modo geral, os padres abandonaram as vestes clericais. Eles já não querem ser reconhecíveis; eles consideram seu papel no meio da sociedade secularizada uma espécie de fonte de embaraços. Na Alemanha há um dito antigo: "O hábito não faz o monge". Está correto, mas o oposto é igualmente verdade, e temos que entender isto no nosso tempo: "É o hábito que faz o monge". Em outras palavras, é a harmonia entre a forma exterior e a atitude interior que faz o sacerdote católico. Ele deve cumprir sua função in persona Christi de um jeito corporal: deve ser visível e estar ao alcance de todos.

Liturgia, leitourgia no grego, significa "serviço público" ou "serviço em favor do povo". A Oração Litúrgica difere da oração individual. O indivíduo fala com Deus em qualquer língua que ele conhecer e com quaisquer palavras que ele puder, enquanto a Igreja reza em nome dos anjos, dos santos, das almas do purgatório e de todos os vivos na terra. Esta oração de todos e por todos deve ser modelada com uma forma que está aberta ao exame de todos. A Igreja ocidental preocupou-se com a possibilidade de haver um fosso crescente entre uma sociedade consumista, libertária e sem religião e o mundo da fé; nesse sentido tentou suprimir tudo que era específico a ela mesma e que pudesse ofender [ser uma pedra de tropeço] na esfera secular. Ela tentou amparar os princípios do mundo moderno. Resultou que, como alguém disse: “batizaram-se ideias que não tinham se convertido”. Quarenta anos se foram deste jeito e a Igreja ocidental perdeu mais e mais clareza de perfil, tentando mais e mais adaptar-se favoravelmente às ideias de uma sociedade sem religião. Há algo de misterioso e mágico nestes números. O povo de Israel passou 40 anos errante no deserto. A ocupação Comunista na Alemanha Oriental com o seu regime de fantoche também durou 40 anos. 40 anos foram gastos "reformando" a Igreja e quando se completaram estes 40 anos, o fruto tinha amadurecido. Ele estourou e espalhou seu conteúdo de mal cheiro por toda parte. Estou falando aqui dos escândalos de imoralidade que abalaram muitas províncias do ocidente da Igreja. Obviamente, podemos dizer que no presente ambiente, que é hostil à Igreja, os escândalos foram maliciosamente exagerados, distorcidos e generalizados. Mas o que os escândalos revelam acima de tudo é uma Igreja que está muda e desamparada, tendo se secularizado. Tendo cortejado o público descaradamente, já não pode comunicar seu próprio ser; não pode mais comunicar sua realidade central. Quarenta anos de aggiornamento, quarenta anos de popularização e secularização do sacramento do altar, produziram uma catástrofe das mais altas proporções. Não se trata de um exagero. E assim como as pessoas que, desde o início, assistiram o experimento da secularização, com ansiedade e apreensão, não estão agora dizendo presunçosamente “eu não disse?”, não há satisfação alguma em estar no lado correto quando todos temos diante de si este terrível colapso e o esquecimento [banimento da sociedade] da moral da Igreja. Nós percebemos que gerações têm estado abandonadas e perdidas, e que sua reconstrução seria infinitamente dura e laboriosa. Tomar-se-á muito tempo para repor o sangue que jorrou por conta da hemorragia da Igreja ocidental.
Houve antes um tempo, na história da Igreja, em que a fé começou a mudar de habitat. Ela deixou áreas em que já existia e logrou novos territórios em outros lugares. Poucos cristãos vivem hoje nas terras natais das origens da cristandade: Palestina, Egito, Ásia Menor particularmente – lugares onde a jovem Igreja floresceu e em que ocorreu o primeiro importante Concílio. Por que com a Europa cristã seria diferente? O cristianismo viajou por todo o mundo a partir de sua base na Europa. Na Ásia pode ainda ser uma minoria, mas trata-se de uma minoria espiritual e intelectualmente forte, resoluta e pronta para o sacrifício. É uma minoria considerada com respeito pela maioria.

Para mim fica claro que a destruição da tradição católica causou menos danos em regiões que não tinham ligações com o espírito de 1968. Embora estas reformas tenham sido nitidamente contrárias à tradição da Igreja, era possível, obviamente, implementá-las num espírito de devoção e com um coração modelado por esta tradição. Ademais, muitas das mais ofensivas infrações cometidas contra a lei da tradição católica de modo algum estavam enraizadas na reforma do Papa Paulo. Elas cresceram da desobediência que proliferou em toda parte no Ocidente como resultado do colapso estrutural durante o pontificado deste pobre Papa. Uma vez que Paulo VI começou a perceber a extensão da destruição, ele observou com grande emoção que "a fumaça de Satanás entrou na Igreja". O Missal de Paulo VI, por exemplo, não ordenou que se virassem os altares – um dos mais graves atos contra a tradição da oração no mundo inteiro. Papa Paulo não necessariamente quis pôr fim à tradição do sacerdote, junto com os fiéis, ficar voltado para o Cristo Crucificado, o Cristo que deve vir do Oriente; nem quis suprimir a tradição conforme à qual o sacerdote dirige suas orações, junto com a assembleia, a Cristo, presente sobre o altar na forma dos dons transubstanciados. Esta inversão da orientação da oração fez mais dano na Europa e nos Estados Unidos do que todos os teólogos relativizadores, desmitificadores e humanizadores. De imediato, pareceu ao simples crente que as orações não eram mais dirigidas a Deus, mas à assembleia. Agora, o propósito da oração era deixar a assembleia de bom humor, em bom estado de espírito a fim de que pudesse celebrar a si mesma como "Povo de Deus". Coisa parecida aconteceu quando a Sagrada Comunhão foi dada na mão, em vez de na língua, como antigamente. Esta mudança também não foi prevista pelo Missal de Paulo VI: ela foi forçada por alguns bispos alemães.

***

Por Luís Augusto - membro da ARS

"O Antigo Missal Romano: perca e redescoberta" - parte 2/4

Após esta prolongada introdução, retornarei agora ao desenvolvimento que teve lugar no despertar do Concílio Vaticano II. Algo então aconteceu e que nunca tinha acontecido antes. Era algo novo. Era novo de tal forma que os católicos só podiam olhar para isto com medo e apreensão. Eu tentei descrever o relacionamento da Igreja com a sua liturgia: por quase dois mil anos a liturgia da Igreja foi aceita sem questionamento como a presença corporal de Jesus, a Cabeça da Igreja. Era o corpo visível da Igreja. Para um católico esta visibilidade não é algo subordinado: ela não está subordinada a um mundo superior, invisível. O próprio Deus assumiu um corpo humano e até mesmo levou as chagas consigo para sua glória. Desde que o Deus-homem viu com nossos olhos e ouviu com nossos ouvidos, nossos sentidos (que são por natureza tão facilmente enganados) estão fundamentalmente habilitados para reconhecer a verdade. Como um resultado da Encarnação de Cristo o mundo material não é mais o reino da ilusão; agora, a matéria pode ser vista novamente como aquilo que ela é: os pensamentos de Deus, expressos nos termos do mundo material. Esta constatação deu origem à absoluta seriedade com que a Igreja se acostumou a realizar todas as ações físicas da liturgia. Todo gesto das mãos, toda inclinação da cabeça e do corpo, toda genuflexão, todo beijo dado nos objetos sagrados eram feitos com seriedade e liberdade. As velas, os vasos e os dons sacrificais do pão e do vinho eram manejados com respeito. A linguagem em que os pensamentos divinos eram expressos dizia respeito literalmente como que a uma instância da revelação. Assim, São Basílio Magno, um dos Padres do Oriente, disse expressamente que a Santa Missa era tão parte da revelação como a Sagrada Escritura. Um pequeno exemplo ilustrará a atitude da Igreja frente ao mundo das coisas que ela delineia em seus Sacramentos (ou delineou antes do Concílio Vaticano II). Na idade média os Cistercienses frequentemente costumavam gravar o nome de Maria em seus cálices de ouro: assim como o corpo de Maria carregou o Deus-homem, o cálice continha o Sangue Divino. Desta maneira, toda a história da salvação é indicada nos objetos usados na Eucaristia. O Concílio Vaticano II repete expressa e enfaticamente a tradicional teologia da Missa; solenemente reconhece a língua sagrada e a música sacra (o Canto Gregoriano, que paira entre o Ocidente e o Oriente, não pertencendo exclusivamente a nenhuma das duas culturas). O Concílio pediu uma revisão cautelosa dos livros litúrgicos - o tipo de revisão que era comum a cada 200 anos ou mais, a fim de prevenir qualquer equívoco que estivesse se arrastando [pelo tempo]. Recordemos o que a Liturgia Católica alcançou até então. A começar da Ásia Menor, conquistou o mundo Greco-Romano. Triunfou, afinal, no Império pagão; testemunhou o declínio deste e foi vitoriosa sobre os povos pagãos do Norte e do Oriente. Tornou-se o instrumento de um êxito missionário único na história do mundo. A quantas desintegrações históricas e revoluções sobreviveu! Expandiu-se para além dos limites da Europa e veio para a Ásia, a África, a América, e a toda parte em que inicialmente era algo estranho - aos povos Germânicos e Irlandeses, bem como para os Indianos, Singaleses e Chineses. Os Germânicos não entendiam o latim, nem poderiam ler, quando o grande missionário, Bonifácio, trouxe-lhes a Santa Missa. Isto tornou-se o caso por um longo tempo, notadamente nos períodos mais brilhantes da Igreja, quando os fiéis sentiram que o mais importante na celebração da Missa não era a compreensão de todas as palavras, mas a experiência da presença do Redentor. Um homem pode ter entendido cada palavra da Missa individualmente, mas se ele não experimentou esta presença, ele não entendeu coisa alguma, estritamente falando. Revoluções incendiaram o mundo, ditaduras se multiplicaram, apenas para entrar em colapso e sumirem, mas a Santa Missa permaneceu sempre a mesma. Para o mundo inteiro, a Santa Missa representou, de modo tangível, a imutável natureza da Igreja ao longo das gerações. Até mesmo os inimigos da Igreja reconheceram que a sua força repousava em sua atemporalidade - ou seja, não é que ela era antiquada, mas ela e sua liturgia não eram identificadas com qualquer período ou cultura; ela sempre teve um pé fora do tempo, em todos os períodos da história. A liturgia não era celebrada no momento presente, mas em omnia sæcula sæculorum, por todos os tempos desde a criação do mundo, até o fim do mesmo, e, enfim, na eternidade. Esta eternidade já começou e é o pano de fundo dourado por trás de todas as épocas históricas; é contra este pano de fundo que a Liturgia - "as Núpcias do Cordeiro" como é chamada no Apocalipse - sempre foi e sempre será celebrada.

Percebo que estou perdendo o foco do meu discurso! A razão para isto é que eu fico um tanto inibido quando me dou conta deste evento único que teve lugar na Igreja. É claro que posso dar abundantes razões sociológicas, políticas e históricas para este evento, o qual, em seus efeitos, só pode ser comparado, talvez, com os cem anos da controvérsia iconoclasta em Constantinopla, embora o iconoclasmo tenha afetado apenas uma pequena região dentro da vasta abrangência da Igreja Católica universal. Mas não acho nenhuma destas razões convincentes. Eu acredito na essência sobrenatural da Igreja: isto significa que não posso me satisfazer com quaisquer explicações naturais para os triunfos ou os desastres da Igreja. Consequentemente, eu me nego a adivinhar ou a supor as razões que moveram tantos reformadores de seu tempo a abandonarem o tesouro herdado da Igreja, seu próprio coração, e a elaborarem uma nova liturgia. Esta nova liturgia foi construída com elementos da antiga liturgia, mas, como o Papa Bento disse, ela tende a uma direção que em vários caminhos é oposta à antiga.

Já disse que esta reforma foi totalmente diferente de qualquer coisa na história da Igreja. Ela foi fundamentalmente nova e inovadora e constituiu uma profunda quebra com a tradição. Também houve algo especialmente infeliz sobre a reforma e que diz respeito não apenas à intenção dos reformadores, mas ao tempo em que ela foi introduzida, pois ela teve lugar no fatídico ano de 1968, um ano ao qual é preciso que os historiadores dêem mais atenção. Nós damos o nome de “anos do eixo” para os anos em que – sem nenhuma conexão intelectual ou política óbvia – ideias similares e movimentos religiosos florescem em todo o mundo. São, por exemplo, os anos quando Buda estava ensinando na Índia, Confúcio na China, Zoroastro na Pérsia, Jeremias em Israel e Pitágoras na Grécia. Foi como se todos estes eventos tivessem acontecido em volta de um eixo comum no mundo. E 1968 também foi como um ano do eixo. Viu-se, por todo o mundo, o estouro de uma revolta contra a tradição, a autoridade e os valores herdados. Na França, o último chefe de estado patriarcal do mundo ocidental, o General de Gaulle, foi derrubado do poder. Na América do Norte, surgiu um movimento juvenil aparentemente irresistível, tornando impossível que se continuasse a Guerra no Vietnã. Na Alemanha, o tradicional e muito eficiente sistema de universidades livres foi destruído como resultado de greves. Em Praga houve uma revolta contra a União Soviética, e a China viu a Revolução Cultural como sua grande devastação. Em 1967, o Novo Ordinário da Missa foi promulgado contra o desejo expresso de um sínodo de bispos convocado somente para considerar este assunto. Foi o primeiro Missal na história da Igreja a ser colocado nas escrivaninhas dos estudiosos e amplamente tirado de rascunhos. Agora, todavia, a reforma, que poderíamos bem chamar uma reinvenção, foi arrastada para dentro do tornado do Ano da Revolução: 1968. Num momento em que o Zeitgeist [o espírito dos tempos] estava completamente fora de controle, quando toda forma de obediência, autoridade, respeito e reverência estava sendo fundamentalmente rejeitada, esta medida radical estava para ser implementada em toda a Igreja universal, de Roma até a mais isolada comunidade clandestina na China. E devemos sempre recordar que esta medida era totalmente contrária ao espírito da Igreja. O resultado foi que em muitos lugares, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, mas também na América Latina, foi como se todas as barragens tivessem estourado. O que era intocável mostrou que poderia ser tocável. Isto significou que, doravante, jamais haveria algo intocável novamente. Daqui em diante tudo estaria disponível, à vontade, para cada geração. Tudo tornou-se, no princípio, disponível e passível. [Tudo agora valia]

***

Por Luís Augusto - membro da ARS