domingo, 25 de setembro de 2011

"Greg o Rio" - um gracejo e uma bela máxima sobre o Canto Gregoriano


Pax et bonum!

Aproveitando para fazer um gracejo...
Nestes dias muitos exaltam o rock (através do evento Rock in Rio). Queremos, portanto, exaltar o Canto Gregoriano, que é o modelo da Música Sacra ocidental.
Cantores, instrumentistas, coros, corais, scholæ, solistas, compositores, convém sempre recordar o que foi dito por São Pio X (Motu Proprio Tra le sollecitudini, 3) e recordado pelo Bem-aventurado João Paulo II (Quirógrafo no centenário do motu proprio Tra le sollecitudini, 12):

Uma composição para a Igreja é tanto sacra e litúrgica 
quanto mais se aproximar, no andamento, na inspiração e no sabor,
da melodia gregoriana, 
e tanto menos é digna do templo, 
quanto mais se reconhece disforme daquele modelo supremo.

Meu Deus, isto nos diz tanto, tanto... Mas, pensamos com a Igreja ou nos deixamos guiar por nossos gostos, vontades, teorias e "achismos"?
São Gregório Magno, rogai por nós!

Obs: não é que a Igreja tem que copiar o mundo, obviamente, mas quis aproveitar a oportunidade.

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Aprendeu com São Padre Pio: Pe. Stefano Manelli durante a consagração - vídeo

Pax et bonum!

Falando em São Padre Pio, não pude deixar de lembrar dos Franciscanos da Imaculada e de seu fundador, o Pe. Stefano Maria Manelli. Este fez sua Primeira Comunhão com Padre Pio e foi seu filho espiritual.
O vídeo abaixo é da Consagração numa Missa na Forma Ordinária, em latim, versus Deum, com direito a alva rendada, casula romana e dedos juntos após a consagração. Não há como não perceber a semelhança com Padre Pio:


Por Luís Augusto - membro da ARS

São Padre Pio de Pietrelcina

Pax et bonum!


Hoje, 23 de setembro, a Igreja celebra a Memória de São Pio de Pietrelcina, frade capuchinho e sacerdote, que faleceu no ano de 1968.
É conhecido como o único sacerdote a portar os estigmas visíveis (que antes foram invisíveis), já que o Servo de Deus Pe. João Baptista Reus, jesuíta, também recebeu os invisíveis.
Esses dois santos têm muito em comum, tanto nos estigmas quanto na Missa. E viveram praticamente no mesmo período, sendo que o alemão feito brasileiro (o querido Pe. Reus), morreu na década de 40, 21 anos antes do Padre Pio.
Sobre a Missa, disse o Pe. Gabriele Amorth: "Não era um mistério particular a Missa de Padre Pio; o verdadeiro mistério, que compreendemos muito pouco, é a própria Missa! É um sacrifício, é a memória dolorosa da Cruz, a imolação de Jesus que se oferece ao Pai como vítima por nós e que se dá a nós como sinal de vida eterna" (AMORTH, Pe. Gabriele. Padre Pio - breve história de um santo. Editora Palavra e Prece. 2007. Pág. 75-76).
Somos muitos, leigos e sacerdotes, a elogiar e a nos admirar do "espetáculo sobrenatural" da Missa de São Padre Pio. Consideramos grandiosos seus pensamentos sobre a Missa como renovação do Calvário, mas o que fazemos para que a Santa Missa seja compreendida e vivida assim? Bem disse o Pe. Amorth que isso não era uma característica da Missa do Padre Pio. Por isso, e gosto muito de repetir essas palavras, disse o Beato João Paulo II 10 anos depois da morte de São Padre Pio: "Amai Jesus presente na Eucaristia. Ele está presente de modo sacrifical na Santa Missa, que renova o Sacrifício da Cruz. Ir à Missa significa ir ao Calvário para nos encontrarmos com Ele, nosso Redentor(Discurso aos jovens e crianças de associações e paróquias italianas. 08/11/1978)
Diz o Pe. Amorth que ouviu um bispo dizer: "Para saber quem é Padre Pio, não precisa de nada. Basta assistir à sua Missa". Pois bem, se essas palavras são verdade, eis o Padre Pio:




































São Padre Pio, rogai por nós!
São Padre Pio, rogai pelos sacerdotes!
São Padre Pio, rogai pelo Novo Movimento Litúrgico!

Por Luís Augusto, membro da ARS

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"A Heresia Anti-litúrgica", por Dom Prosper Guéranger, OSB

Pax et bonum!

Há poucos dias encontrei um interessante texto que logo procurei traduzir. Tendo terminado há pouco, disponibilizo-a aos queridos leitores.
Trata-se de um trecho da obra Institutions Liturgiques do conhecido liturgista e sacerdote beneditino Dom Prosper Guéranger, Servo de Deus.
Passeando pela "prática litúrgica" dos reformadores protestantes até o seu tempo, Dom Guéranger enumera doze princípios basilares na reforma protestante da liturgia, o que ele chama de "heresia anti-litúrgica".
Se este não fosse um estudo de fatos históricos, se assim podemos chamar, nós o contemplaríamos como uma grande profecia a apontar para tantas coisas denunciadas desde Pio XII até Bento XVI, no que diz respeito à Liturgia.
Infelizmente poderemos encontrar algumas ou várias destas características no seio da Igreja, até mesmo bem perto de cada um de nós.

Servo de Deus Dom Guéranger, rogai por nós, rogai pelo Novo Movimento Litúrgico!

Obs: Recomendo vivamente que acessem a versão em PDF disponível no Gloria.TV. A ela foram acrescentadas algumas notas explicativas.
Favor avisar sobre quaisquer erros ou imprecisões na tradução.

***
Dom Guéranger

A Heresia Anti-litúrgica
Servo de Deus Dom Prosper Louis Paschal Guéranger, OSB
Abade de Solesmes

Extraído de sua obra “Institutions Liturgiques”
(Cap. XIV – Da heresia anti-litúrgica e da Reforma Protestante do séc. XVI,
considerada em sua relação com a liturgia)
1840

Tradução do francês, com consultas ao inglês,
por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Para se dar uma ideia dos estragos da seita anti-litúrgica, parece-nos necessário resumir a marcha dos pretensos reformadores do cristianismo ao longo de três séculos, e apresentar o conjunto de suas ações e de sua doutrina sobre a purificação do culto divino. Não há espetáculo mais instrutivo e mais apropriado para se fazer compreender as causas da rápida propagação do protestantismo. Certamente aí se verá a obra de uma sabedoria diabólica agindo e levando infalivelmente a vastos resultados.

I. A primeira característica da heresia anti-litúrgica é o ódio pela Tradição nas fórmulas do culto divino. Não se pode negar esta característica especial em todos os hereges, desde Vigilâncio até Calvino, e a razão é fácil de se explicar. Todo sectário, querendo introduzir uma nova doutrina, encontra-se inevitavelmente na presença da Liturgia, que é a tradição em seu mais alto poder, e não consegue encontrar repouso até ter feito calar esta voz, até estarem rasgadas as páginas que contêm a fé dos séculos passados. Com efeito, como se estabeleceram e se mantiveram em meio às massas o luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo? Tudo se consumou através da substituição dos livros e fórmulas antigos por livros e fórmulas novos. Nada mais incomodaria os novos doutores; poderiam pregar à vontade: a fé das gentes estava doravante sem defesas. Lutero cumpriu esta doutrina com uma sagacidade digna de nossos jansenistas, dado que no primeiro período de suas inovações, à época em que se via obrigado ainda a guardar uma parte das formas exteriores do culto latino, estabeleceu o seguinte regulamento para a Missa reformada:

Nós aprovamos e conservamos os intróitos dos domingos e das Festas de Jesus Cristo, a saber, da Páscoa, de Pentecostes e de Natal. Nós preferiríamos de bom grado os salmos inteiros de que são tirados estes intróitos, como se fazia outrora, mas queremos bem nos conformar ao uso presente. Nem mesmo culpamos aqueles que desejam reter os intróitos dos Apóstolos, da Virgem e dos outros Santos, desde que estes três intróitos sejam tirados dos Salmos ou de outras passagens da Escritura”.

Ele tinha grande ódio dos cânticos sacros compostos pela própria Igreja para expressão pública da fé. Neles ele sentia pesado o vigor da Tradição que ele desejava banir. Reconhecendo à Igreja o direito de unir sua voz, nas santas assembleias, aos oráculos das Escrituras, ele se exporia a ouvir milhões de bocas a anatematizar os seus novos dogmas. Portanto, ódio a tudo que, na Liturgia, não era exclusivamente extraído das Sagradas Escrituras.

II. Com efeito, é o segundo princípio da seita anti-litúrgica a substituição das fórmulas de estilo eclesiástico pelas leituras da Sagrada Escritura. Ela aí encontra duas vantagens: a primeira, a de fazer calar a voz da Tradição que ela sempre teme; em seguida, um meio de propagar e de apoiar os seus dogmas, pela via da negação ou da afirmação. Pela via da negação, passando em silêncio, através de escolhas astutas, os textos que exprimem a doutrina oposta aos erros que eles querem fazer prevalecer; pela via da afirmação, pondo à luz passagens cortadas que só apresentam um lado da verdade, escondendo o outro dos olhos dos mais simples. Sabe-se, desde muitos séculos, que a preferência dada, por todos os hereges, às Sagradas Escrituras sobre as definições eclesiásticas, não tem outra razão que a facilidade que eles têm de fazer dizer pela Palavra de Deus tudo o que quiserem, apresentando-a segundo o que lhes convém. (...) Quanto aos protestantes, eles quase reduziram a Liturgia inteira à leitura da Escritura, acompanhada de discursos nos quais ela é interpretada pela razão. Quanto à escolha e à determinação dos livros canônicos, acabaram por cair no capricho do reformador, que, como último recurso, decide não somente o sentido da palavra de Deus, mas se esta palavra é verdadeira ou não. Assim, Martinho Lutero conclui, em seu sistema panteísta, que a inutilidade das obras e a suficiência da fé são dogmas a serem estabelecidos e a partir daí declara que a Carta de São Tiago é uma carta de palha, e não uma carta canônica, somente pelo fato de aí se ensinar a necessidade das obras para a salvação. Em todos os tempos e sob todas as formas, funcionará sempre do mesmo jeito: nada de fórmulas eclesiásticas, somente a Escritura, mas interpretada, escolhida e apresentada por aquele ou por aqueles que sabem tirar proveito para a inovação. A armadilha é perigosa para os simples, e somente depois de um longo tempo é que se percebe o engano em que se caiu, e que a palavra de Deus, esta espada de dois gumes, como diz o Apóstolo, abriu grandes feridas, pois foi manuseada pelos filhos da perdição.

III. O terceiro princípio dos hereges acerca da reforma da Liturgia é, digamos, depois de ter expulsado as fórmulas eclesiásticas e proclamado a necessidade absoluta de se empregar apenas as palavras da Escritura no serviço divino, visto que a Escritura nem sempre se dobra, como eles gostariam, a todas as suas vontades, fabricar e introduzir fórmulas novas, cheias de perfídia, pelas quais as pessoas sejam mais solidamente ainda acorrentadas ao erro, e todo o edifício da ímpia reforma venha a se consolidar pelos séculos.

IV. Alguém poderá se admirar da contradição que a heresia apresenta em suas obras, quando vier a saber que o quarto princípio, ou, se assim se desejar, a quarta necessidade imposta aos sectários pela própria natureza de seu estado de revolta, é uma habitual contradição frente aos seus próprios princípios. Deverá ser assim, para a confusão deles, naquele grande dia, que cedo ou tarde vem, quando Deus revelar a nudez deles à vista dos povos que foram por eles seduzidos, e também porque não é da natureza do homem ser coerente, consistente. Somente a verdade pode sê-lo. Por isso, todos os sectários, sem exceção, começam por reivindicar as prerrogativas da antiguidade. Eles querem abstrair o cristianismo de tudo o que o erro e as paixões dos homens nele misturaram de falso ou de indigno de Deus; tudo o que querem é o que é primitivo, e pretendem fazer voltar ao berço a instituição cristã. Para isto, eles podam, cortam e arrancam; tudo cai sob os seus golpes, e quando alguém esperar ver reaparecer em sua pureza primeva o culto divino, encontrar-se-á coberto de fórmulas novas que mal datam de ontem e que são incontestavelmente humanas, posto que aqueles que as redigiram ainda vivem. Toda seita sofreu esta necessidade; vimos isto nos Monofisitas, nos Nestorianos; reencontramos a mesma coisa em todos os ramos do protestantismo. Sua afetação ao pregar a antiguidade é a medida usada para fazer sumir diante de si todo o passado, e assim se põem diante do povo seduzido e lhe juram que tudo está muito bem, que o aparato papista supérfluo foi-se embora, que o culto divino retornou à sua santidade primitiva. Observemos ainda uma coisa característica na mudança da Liturgia por parte dos hereges. É que, em sua sanha inovadora, eles não se contentam em retirar as fórmulas de estilo eclesiástico, que eles menosprezam sob o nome de palavra humana, mas estendem sua rejeição até mesmo às leituras e orações que a Igreja tomou emprestadas da Escritura. Mudam-nas, substituem-nas. Não querem mais rezar com a Igreja. Excomungam, por isso, a si mesmos, e temem assim a menor parcela da ortodoxia que ordenou a escolha daquelas passagens.

V. Sendo a reforma da Liturgia realizada pelos sectários com o mesmo objetivo que a reforma do dogma, de que é consequência, segue-se que, assim como os protestantes se separaram da unidade para crer menos, eles são levados a subtrair do culto todas as cerimônias e todas as fórmulas que exprimem mistérios. Tacharam de superstição e de idolatria tudo o que não lhes pareceu puramente racional, restringindo assim as expressões da fé e obstruindo, pela dúvida e até pela negação, todas as vias que se abrem para o mundo sobrenatural. Por isso, nada mais de sacramentos, a não ser o Batismo, à espera do Socinianismo que o deixaria ao arbítrio de seus adeptos; nada de sacramentais, bênçãos, imagens, relíquias de santos, procissões, peregrinações, etc. Nada também de altar, mas simplesmente uma mesa; nada de sacrifício, como em toda religião, mas simplesmente uma ceia; nada de igreja, mas só um templo, como nos Gregos e Romanos; nada mais de arquitetura religiosa, dado que aí não há mistérios; nada de pintura ou escultura cristãs, dado que aí não há uma religião sensível; enfim, nada de poesia, num culto que não foi fecundado nem pelo amor e nem pela fé.

VI. A supressão das coisas misteriosas na Liturgia protestante produziu infalivelmente a extinção total do espírito de oração que se chama de Unção no Catolicismo. Um coração revoltado não tem amor, e um coração sem amor no máximo poderá gerar expressões de respeito ou de temor, com aquele frio orgulho farisaico. Tal é a Liturgia protestante. Sente-se que aquele que a reza aplaude a si mesmo por não ser contado no número dos cristãos papistas, que trazem Deus até a sua baixeza pela familiaridade de seu linguajar vulgar.

VII. Tratando nobremente com Deus, a liturgia protestante não tem necessidade de intermediários criados. Ela creria faltar com o respeito devido ao Ser soberano ao invocar a intercessão da Santa Virgem, a proteção dos santos. Ela exclui toda esta idolatria papista que roga à criatura aquilo que se deve rogar a Deus somente. Ela remove do calendário todos os nomes dos homens que a Igreja temerariamente inscreveu ao lado do nome de Deus. Ela tem, sobretudo, um horror àqueles monges e outros personagens dos tempos passados que aí se vê figurar ao lado dos veneráveis nomes dos apóstolos que Jesus Cristo escolheu, e pelos quais foi fundada a Igreja primitiva, a única que foi pura na fé e livre de toda superstição no culto e de todo relaxamento na moral.

VIII. Tendo, a reforma litúrgica, como um de seus principais fins a abolição dos atos e fórmulas místicas, segue-se necessariamente que seus autores devam reivindicar o uso da língua vulgar no serviço divino. Por isso, este é um dos pontos mais importantes aos olhos dos sectários. O culto não é algo secreto, dizem; é preciso que o povo entenda o que canta. O ódio à língua latina é inato ao coração de todos os inimigos de Roma. Nela eles vêem o elo entre os católicos de todo o universo, o arsenal da ortodoxia contra todas as sutilezas do espírito das seitas, a arma mais poderosa do Papado. O espírito da revolta que os leva a confiar a oração universal ao idioma de cada povo, de cada província, de cada século, já deu seus frutos, e os reformados estão diariamente a perceber que os povos católicos, não obstante suas orações latinas, têm mais gosto e cumprem com mais zelo os deveres do culto que os povos protestantes. A cada hora do dia, o serviço divino tem lugar nas igrejas católicas; o fiel que aí participa deixa sua língua mãe na porta; com exceção das horas de pregação, ele só ouve os misteriosos acentos [do latim], que até cessam de ressoar no momento mais solene, no Cânon da Missa; e, contudo, este mistério o encanta de tal forma que não inveja a sorte do protestante, embora o ouvido deste último nunca escute um som sem perceber seu significado. Enquanto o Templo Reformado reúne, com grande dificuldade, uma vez por semana, os cristãos puristas, a Igreja Papista vê incessantemente os seus numerosos altares cercados pelos seus filhos religiosos. Cada dia eles deixam seus trabalhos para ouvir as palavras misteriosas que devem ser de Deus, pois elas alimentam a fé e aliviam as dores. Admitamos: é um golpe de mestre do protestantismo o ter declarado guerra à língua sagrada; se conseguir êxito em a destruir, seu triunfo já estará bem avançado. Entregue aos gostos profanos, como uma virgem desonrada, a Liturgia, a partir deste momento, perdeu seu caráter sagrado, e o povo logo achará que não vale a pena deixar os trabalhos ou os prazeres para ir até aí e ouvir alguém falar como qualquer um fala na praça pública. (…)

IX – Tirando da Liturgia o mistério, que rebaixa a razão, o protestantismo tem o cuidado de não esquecer a consequência prática, ou seja, a libertação da fadiga e do desconforto que as práticas da Liturgia Papista impõem ao corpo. Primeiramente, nada mais de jejum e de abstinência; nada de genuflexão para rezar; para o ministro do templo, nada mais de ofícios diários a serem cumpridos, nem mesmo preces canônicas para se recitar em nome da Igreja. Tal é uma das formas principais da grande emancipação protestante: diminuir a quantidade de orações públicas e particulares. O decorrer dos fatos tem mostrado rapidamente que a fé e a caridade, que se alimentam da oração, foram sendo extintas na Reforma, enquanto elas não cessam, entre os católicos, de alimentar todos os atos de devoção a Deus e aos homens, fecundados que são pelas fontes inefáveis da oração litúrgica, realizada pelo clero secular ou regular, ao qual se une a comunidade dos fieis.

X – Como falta ao protestantismo uma regra para discernir entre as instituições papistas quais as que poderiam ser as mais hostis aos seus princípios, foi-lhe preciso cavar até os fundamentos do edifício católico, e encontrar a pedra fundamental que sustenta tudo. Seu instinto fez descobrir tudo que segue este dogma que é inconciliável com toda inovação: o poder Papal. Daí Lutero ter escrito em seu estandarte: “Ódio a Roma e às suas leis”. Ele não fazia nada mais que proclamar uma vez por todas o grande princípio de todos os ramos da seita anti-litúrgica. Daqui vem a necessidade de abrogar em massa o culto e as cerimônias, como idolatria de Roma; a língua latina, o ofício divino, o calendário, o breviário, todas as abominações da grande Prostituta da Babilônia. O Romano Pontífice oprime a razão pelos seus dogmas e os sentidos pelas suas práticas rituais; é preciso proclamar que os dogmas não passam de blasfêmia e erro, e suas observâncias litúrgicas, um meio de assegurar mais fortemente uma dominação usurpada e tirânica. Eis por que, em suas ladainhas emancipadas, a Igreja luterana continua a cantar inocentemente: “Do furor homicida, da calúnia, da ira e da ferocidade do Turco e do Papa, livrai-nos, Senhor”. Cabe aqui recordar as admiráveis considerações de Joseph de Maistre, em seu livro “Sobre o Papa”, onde ele mostra, com tamanha sagacidade e profundidade, que, não obstante as dissonâncias que isolam as diversas seitas separadas umas das outras, há uma característica que reúne todas elas: a de serem não-Romanas. Imaginai uma inovação qualquer, seja em matéria de dogma, seja em matéria de disciplina, e vereis se é possível empreendê-la sem incorrer, queira ou não queira, no apelido de não-Romana, ou se quiserdes, de meio Romana, se falta audácia. Resta saber que tipo de descanso poderá encontrar um católico seja na primeira ou na segunda das duas situações.

XI – A heresia anti-litúrgica, para estabelecer para sempre o seu reinado, tem necessidade de destruir de fato e de princípio todo o sacerdócio no cristianismo, pois ela sente que, onde há um pontífice, há um altar, e aí onde há um altar, há um sacrifício e, portanto, um cerimonial misterioso. Depois de ter abolido a qualidade de Sumo Pontífice, é preciso aniquilar o caráter episcopal, donde emana a mística imposição das mãos que perpetua a hierarquia sagrada. Resulta daí um vasto presbiterianismo, que é exatamente a consequência imediata da supressão do soberano Pontificado. Daí, não há mais um padre propriamente dito. Como a simples eleição, sem uma consagração, fará dele um homem sagrado? A reforma de Lutero e de Calvino não conhecerá outra coisa senão Ministros de Deus, ou dos homens, como se queira. Mas é impossível ficar só nisso. Escolhido e empossado por leigos, portando no templo uma toga de alguma bastarda magistratura, o ministro não passa de um leigo revestido de funções acidentais; não há nada mais que leigos no protestantismo. E assim deve ser, posto que não há mais Liturgia. Bem como não há mais Liturgia, posto que não há nada mais que leigos.

XII – Por fim, no último degrau de embrutecimento, não existindo mais o sacerdócio, dado que a hierarquia está morta, o príncipe, única autoridade possível entre leigos, proclamar-se-á chefe da Religião, e se verá os mais orgulhosos reformadores, depois de ter lançado fora o jugo espiritual de Roma, reconhecerem o soberano temporal como sumo pontífice, e colocarem o poder sobre a Liturgia entre as atribuições de direito majestático. Não mais haverá dogma, moral, sacramentos, culto e cristianismo, a não ser que agrade ao príncipe, dado que o poder absoluto lhe foi entregue sobre a Liturgia, pela qual todas aquelas coisas têm sua expressão e sua aplicação na comunidade de fieis. Tal é, portanto, o axioma fundamental da Reforma, na prática e nos escritos dos doutores protestantes. Este último traço completará o quadro, e permitirá ao próprio leitor julgar sobre a natureza desta pretensa libertação, operada com tanta violência no que tange ao papado, para estabelecer, em seguida, porém necessariamente, uma destrutiva dominação sobre a própria natureza do cristianismo. É verdade que, no começo, a seita anti-litúrgica não tinha o costume de bajular os poderosos: albigenses, valdenses, wycliffitas, hussitas, todos ensinaram que era preciso resistir e mesmo atacar todos os príncipes e magistrados que se encontrassem em estado de pecado, pretendendo que um príncipe perdia o direito no momento em que não estivesse mais na graça de Deus. A razão disso é que os sectários temiam a espada dos príncipes católicos, bispos de fora, tendo tudo a ganhar minando sua autoridade. Mas a partir do momento em que os soberanos, associados à revolta contra a Igreja, quiseram fazer da religião uma coisa nacional, um meio de governo, a Liturgia, bem como o dogma, reduzida aos limites de um país, ficou submetida naturalmente à mais alta autoridade do país, e os reformadores não tinham como deixar de prestar um vivo reconhecimento àqueles que davam, assim, o auxílio de um braço poderoso para estabelecer e conservar suas teorias. É bem verdade que aí há toda uma apostasia nesta preferência dada ao temporal sobre o espiritual, em matéria de religião; mas agem assim pela necessidade de se manter. Precisam não só ser consistentes, mas sobreviver. É por isso que Lutero, que se separou brilhantemente do Pontífice Romano, este considerado como fautor de todas as abominações da Babilônia, não teve vergonha de si mesmo ao declarar teologicamente legítimo um duplo casamento para o landgrave de Hesse, e é por isso também que o Abade Gregório encontrou em seus princípios o meio de associar, de uma vez, a Convenção inteira no voto de execução contra Luís XVI, e de se fazer o defensor de Luís XIV e de José II contra os pontífices romanos.

Tais são as principais máximas da seita anti-litúrgica. De modo algum estão exageradas. Apenas enfatizamos a doutrina centenas de vezes professada nos escritos de Lutero, de Calvino, dos Centuriadores de Magdeburgo, de Hospiniano, de Kemnitz, etc. Estes livros são fáceis de consultar, ou melhor, a obra que resultou daí está sob os olhos de todo o mundo. Cremos ter sido útil pôr à luz estas principais características. Sempre é bom ter conhecimento acerca do que é errado. O conhecimento prático e direto é, às vezes, menos vantajoso e menos fácil.
Cabe aos pensadores católicos tirar a conclusão.


Dom Guéranger
***

O texto francês utilizado para a tradução esteve disponível em:
Ele confere com o original do autor, disponível em:
O texto inglês utilizado como fonte secundária está disponível em:
http://www.catholicapologetics.info/modernproblems/newmass/antigy.htm

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 17 de setembro de 2011

Audiência Geral de 26/11/1969 - Paulo VI

Pax et bonum!

Continuando o assunto das duas Audiências de Paulo VI, posto agora a de 26 de novembro de 1969.
Interessante como o próprio Paulo VI reconheceu que o abandono do Gregoriano se seguiria ao "abandono" do latim. Dito e feito... Este seria, na visão do papa, o preço da "inteligência", ou seja, o preço a ser pago para que os fieis compreendessem a oração litúrgica, ajudando-lhes a participar de modo ativo.
Acontece, infelizmente, que em muitos lugares, mesmo com a Missa em vernáculo, sua realidade essencial permanece uma grande desconhecida. Não se trata meramente de um problema de língua. Bem disse o Santo Padre, o papa Bento XVI: "a arte da celebração é a melhor condição para a participação ativa (actuosa participatio). Aquela resulta da fiel obediência às normas litúrgicas na sua integridade, pois é precisamente este modo de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida de fé de todos os crentes, chamados a viver a celebração enquanto povo de Deus, sacerdócio real, nação santa (1 Pd 2, 4-5.9)" (Exort. Apost. Sacramentum Caritatis, 38)
A "liturgia verdadeira (...), tal como a Igreja tem querido e estabelecido, como está prescrito nos livros litúrgicos e nas outras leis e normas" (cf. Instrução Redemptionis Sacramentum, 12) não é reconhecível em muitas de nossas paróquias. Um clamor de Paulo VI (segundo o Card. Virgílio Noé: "ninguém é Dominus da Missa"), recordando o Concílio Vaticano II ("por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica" - Const. Conc. Sacros. Conc., 22, §3) e repetido posteriormente pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos ("cada um lembre-se sempre que é servidor da sagrada Liturgia", Instrução Redemptionis Sacramentum, 186), parece ter sido abafado e esquecido por muitos de nossos sacerdotes.

*****

PAULO VI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 26 de novembro de 1969

Tradução por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Efusão dos ânimos na Assembleia Comunitária, riqueza do novo rito da Santa Missa

Diletos filhos e filhas,

nós ainda queremos convidar os vossos ânimos a se voltarem para a novidade litúrgica do novo rito da Missa, o qual será instaurado em nossas celebrações do Santo Sacrifício, a começar pelo próximo domingo, Primeiro Domingo do Advento, dia 30 de novembro. Novo rito da Missa: é uma mudança, que diz respeito a uma venerável tradição secular, e por tocar o nosso patrimônio religioso hereditário, que parecia ter que gozar de uma intangível fixidez, e ter que carregar sobre nossos lábios a oração dos nossos antepassados e dos nossos santos, e dar a nós o conforto de uma fidelidade ao nosso passado espiritual, é que nós o tornamos atual para transmiti-lo em seguida às gerações que hão de vir.
Compreendamos melhor neste caso o valor da tradição histórica e da comunhão dos Santos. Esta mudança toca o desenvolvimento cerimonial da Missa; e avisamos, talvez com algum incômodo, que as coisas ao altar não se desenvolvem mais com aquela identidade de palavras e de gestos, à qual estávamos tão habituados, quase a não mais nos darmos conta. Esta mudança toca também os fieis, e seria de interesse para cada um dos presentes, tirando-lhes assim de suas devoções pessoais de costume, ou de sua sonolência habitual.

Devemos nos preparar para este múltiplo distúrbio, que é aquele de todas as novidades, que se inserem em nossos hábitos costumeiros. E podemos notar que as pessoas piedosas serão as mais inquietadas, porque tendo um modo respeitável de ouvir a Missa se sentirão abstraídas de seus pensamentos usuais e obrigadas a seguir os demais. Os próprios sacerdotes provarão talvez algum incômodo a este respeito.

PREPARAR-SE PARA AS MUDANÇAS

O que fazer nesta especial e histórica ocasião?

Antes de tudo: prepararmo-nos. Esta novidade não é uma coisa pequena; não devemos nos deixar surpreender pelo seu aspecto, e talvez pelo transtorno, de suas formas exteriores. É próprio de pessoas inteligentes, e de fieis conscientes, informar-se bem sobre a novidade de que se trata. Pelo mérito de tantas boas iniciativas eclesiais e editoriais isto não é difícil. Como dizíamos outra vez, é bom que nos demos conta dos motivos pelos quais é introduzida esta grave mudança: a obediência ao Concílio, a qual agora se torna obediência aos Bispos que o interpretam e que seguem suas prescrições; e este primeiro motivo não é simplesmente canônico, isto é, relativo a um preceito exterior; está ligado ao carisma da ação litúrgica, isto é, ao poder e à eficácia da oração eclesial, a qual tem no Bispo a sua voz mais autorizada, e assim nos sacerdotes que ajudam seu ministério, e que, como ele, agem “in persona Christi” (cf. S. IGN., Ad Eph., IV): é a vontade de Cristo, é o sopro do Espírito Santo, que chama a Igreja a esta mudança. Devemos reconhecer o momento profético, que passa no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, e que a faz tremer, que a desperta, e que a obriga a renovar a arte misteriosa da sua oração, com um desejo que constitui, como já dito, o outro motivo da reforma: associar de maneira mais próxima e eficaz a assembleia dos fieis, estes também revestidos do “sacerdócio real”, isto é, da capacidade de um colóquio sobrenatural com Deus, ao rito oficial seja da Palavra de Deus, seja do Sacrifício eucarístico, de que se compõe a Missa.

A PASSAGEM PARA A LÍNGUA VERNÁCULA

Aqui, é claro, será percebida a maior novidade: a da língua. Não será mais o latim a língua principal da Missa, mas a língua vernácula. Para quem conhece a beleza, a potência, a sacralidade expressiva do latim, certamente a substituição pela língua vulgar é um grande sacrifício: percamos o discurso dos séculos cristãos, tornemo-nos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sagrada, e assim perderemos grande parte daquele estupendo e incomparável fato artístico e espiritual, que é o canto gregoriano. Temos, sim, razões para nos arrependermos e até de nos sentimos perdidos: pelo que substituiremos esta língua angélica? É um sacrifício de preço inestimável. E por qual razão? O que vale mais que estes altíssimos valores da nossa Igreja? A resposta parece banal e prosaica, mas é válida, porque é humana, porque é apostólica. Vale mais a inteligência da oração do que as vestes sedosas e antigas de que ela é revestida; vale mais a participação do povo, deste povo moderno cheio de palavra clara, inteligível, traduzível em sua conversação profana. Se o astro latino nos separasse da infância, da juventude, do mundo do trabalho e dos negócios, se fosse uma membrana opaca, ao invés de um cristal transparente, nós, pescadores de almas, faríamos bem conservando-lhe o domínio exclusivo na conversação orante e religiosa? O que diria São Paulo? Leia-se o capítulo XIV da Primeira Carta aos Coríntios: “na assembleia prefiro dizer cinco palavras segundo a minha inteligência, para assim instruir também os outros, a dizer dez mil palavras em virtude do dom das línguas” (v. 19) E Santo Agostinho parece comentar: “A fim de que todos sejam instruídos, não se tema os professores” (P.L. 38, 228, Serm. 37; cfr. anche Serm. 299, p. 1371). Mas no restante o novo rito da Missa estabelece que os fieis “aprendam a cantar juntos em latim ao menos algumas partes do Ordinário da Missa, principalmente o símbolo da fé e a oração do Senhor” (IGMR, 19; N.T.: nº 41 na 3ª edição do Missal). Mas recordemos bem, para nosso conforto e alívio: não é por isso que o latim desaparecerá da nossa Igreja; ele permanecerá como a língua nobre dos atos oficiais da Sé Apostólica; como instrumento escolástico dos estudos eclesiásticos e como chave de acesso ao patrimônio da nossa cultura religiosa, histórica e humanística; e, se possível, em florescente esplendor.

PARTICIPAÇÃO E SIMPLICIDADE

E finalmente, pensando bem, ver-se-á que o plano fundamental da Missa permanece o tradicional, não só no seu significado teológico, mas também no espiritual; assim, se o rito for seguido como se deve, manifestará uma sua maior riqueza, evidenciada pela maior simplicidade das cerimônias, pela variedade e pela abundância dos textos da Escritura, pela ação combinada dos vários ministros, pelos momentos de silêncio que marcam o rito em momentos diversamente profundos, e sobretudo pela exigência de dois requisitos indispensáveis: a íntima participação de cada assistente, e a efusão dos ânimos na caridade comunitária; requisitos que devem fazer da Missa, mais do que antes, uma escola de profundidade espiritual e uma tranquila, mas desafiadora, palestra de sociologia cristã. A relação da alma com Cristo e com os irmãos alcança a sua nova e vital intensidade. Cristo, vítima e sacerdote, renova e oferece, mediante o ministério da Igreja, o seu sacrifício redentor, no rito simbólico da sua última ceia, que nos deixa, sob as aparências de pão e vinho, o seu corpo e o seu sangue, para nosso alimento pessoal e espiritual, e para nossa fusão na unidade de seu amor redentor e de sua vida imortal.

INDICAÇÕES NORMATIVAS

Resta-nos, porém, uma dificuldade prática, que a excelência do rito sagrado torna não pouco importante. Como faremos para celebrar este novo rito, quando não temos ainda um missal completo, e quando ainda tantas incertezas circundam a sua aplicação? Eis que convém, para terminar, que vos leiamos algumas indicações, que nos vêm do órgão competente, isto é, a Sagrada Congregação para o Culto Divino. E são as seguintes:

“Quanto à obrigatoriedade do rito:

1) Para o texto latino: os sacerdotes que celebram em latim, em privado, ou mesmo em público, para os casos previstos pela legislação, podem usar, até 28 de novembro de 1971, ou o Missal Romano ou o rito novo.

Se usam o Missal Romano, poderão, porém, servir-se das três novas anáforas e do Cânon Romano com os encurtamentos previstos no último texto (omissão de alguns Santos, conclusões, etc). Podem também dizer em vernáculo as leituras e a oração dos fieis.

Se usam o rito novo devem seguir o texto oficial com as concessões em vulgar supracitadas.

2) Para o texto vernáculo: na Itália, todos os que celebram com o povo, a partir do próximo 30 de novembro, devem usar o “Rito dela Messa”, publicado pela Conferência Episcopal Italiana ou por outra Conferência Nacional.

As leituras, nos dias festivos, serão tiradas:

- ou do Lecionário editado pelo Centro Azione Liturgica
- ou do Missal Romano festivo usado até então

Nos dias de semana se continuará a usar o Lecionário ferial, publicado há três anos.

Para quem celebra em privado não há nenhum problema, porque deve celebrar em latim. Se, por indulto particular, celebra em vernáculo: para os textos deve seguir quanto foi dito acima sobre a Missa com o povo; para o rito, pelo contrário, deve seguir o “Ordo” especial, publicado pela Conferência Episcopal Italiana”.

Em todo caso, e sempre, lembremos que “a Missa é um Mistério para ser vivido numa morte de Amor. A sua Realeza divina ultrapassa toda palavra... É a Ação por excelência, o próprio ato da nossa Redenção no Memorial, que a torna presente” (ZUNDEL). Com a Nossa Bênção Apostólica.

(Seguem-se saudações particulares para alguns grupos.)

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Obs: Favor avisar sobre qualquer problema, imprecisão ou equívoco na tradução.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Audiência Geral de 19/11/1969 - Paulo VI

Pax et bonum!

Normalmente quando se estuda algo sobre a entrada em vigor do novo Ordinário da Missa, em 1969, por conta da Constituição Apostólica Missale Romanum de Paulo VI (03/04/1969), cita-se as audiências gerais de 19 e 26 de novembro do mesmo ano. Por conta disso decidi traduzir as duas.
É possível ver nas palavras do Santo Padre uma mescla de entusiasmo e de preocupação.
Três anos (1972) foram suficientes para depois encontrarmos um Paulo VI aparentemente decepcionado, fazendo menções ao demônio e afirmando numa homilia de uma grande Solenidade em Roma - a dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo (29 de junho) - que "por alguma fissura a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus". Esta afirmação, como revelado pelo Card. Virgílio Noé, tratava daqueles "prelados que faziam da Santa Missa uma palha seca em nome da criatividade" dado que Paulo VI sustentava que "na verdade estavam possuídos da vanglória e do orgulho do maligno" e que por isso sofreu "creditando o fenômeno a um ataque do demônio".
Hoje, 39 anos depois, convém refletir seriamente (o que é imperioso sobretudo para os sacerdotes) e fazer algo a respeito.

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PAULO VI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 19 de novembro de 1969

Tradução por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Acolher com alegria e aplicar com unânime observância o novo ordenamento litúrgico

Diletos filhos e filhas,

queremos chamar a vossa atenção sobre o que está prestes a acontecer na Igreja católica latina, e que terá sua aplicação obrigatória nas Dioceses italianas a partir do próximo Primeiro Domingo do Advento, que neste ano cai no dia 30 de novembro. Trata-se da introdução na Liturgia do novo rito da Missa. A Missa será celebrada em uma forma um tanto diferente daquela a que, de quatro séculos até hoje, isto é, desde São Pio V, depois do Concílio de Trento, estávamos acostumados a celebrar.
Esta mudança tem algo de surpreendente, de extraordinário, já que a Missa é considerada como expressão tradicional e intangível de nosso culto religioso, da autenticidade da nossa fé. As pessoas tendem a perguntar: para que tal mudança? E em que consiste esta mudança? Quais as consequências que isto comporta para aqueles que participam da Missa? As respostas a estas perguntas, e a outras similares provocadas por uma novidade tão singular, ser-vos-ão dadas e amplamente repetidas em todas as igrejas, em todas as publicações de índole religiosa, em todas as escolas, onde se ensina a doutrina cristã. Exortamo-vos a dardes atenção a elas, procurando assim apurar e aprofundar qualquer tanto a estupenda e misteriosa noção da Missa.

A INTENÇÃO DO CONCÍLIO

Todavia, por este discurso breve e elementar, procuramos tirar de vossas mentes as primeiras e espontâneas dificuldades levantadas por tal mudança, em relação às três perguntas, que de imediato isso fez surgir em vossas almas.

Para que tal mudança? Resposta: deve-se a uma vontade expressa do Concílio ecumênico, há pouco celebrado. O Concílio assim falou: “O Ordinário da missa deve ser revisto, de modo que se manifeste mais claramente a estrutura de cada uma das suas partes bem como a sua mútua conexão, para facilitar uma participação piedosa e ativa dos fiéis. Que os ritos se simplifiquem, bem respeitados na sua estrutura essencial; sejam omitidos todos os que, com o andar do tempo, se duplicaram ou menos utilmente se acrescentaram; restaurem-se, porém, se parecer oportuno ou necessário e segundo a antiga tradição dos Santos Padres, alguns que desapareceram com o tempo” (Sacr. Concilium, 50).
A reforma, portanto, que está para ser divulgada, corresponde a um mandato autorizado da Igreja; é um ato de obediência; é um fato de coerência da Igreja consigo mesma; é um passo avante de sua autêntica tradição; é uma demonstração de fidelidade e de vitalidade, à qual todos devem prontamente aderir. Não é um arbítrio. Não é um experimento caduco e facultativo. Não é uma improvisação de qualquer amador. É uma lei pensada por cultores autorizados da Sagrada Liturgia, há muito discutida e estudada; faremos bem em acolhê-la com alegre interesse e em aplicá-la com pontual e unânime observância. Esta reforma põe fim às incertezas, às discussões, aos arbítrios abusivos; e chama-nos àquela uniformidade de ritos e de sentimentos, que é própria da Igreja católica, herdeira e continuadora daquela primeira comunidade cristã, que era toda “um só coração e uma só alma” (At 4,32). Este “ser um coro”, da oração na Igreja, é um dos sinais e uma das forças da sua unidade e de sua catolicidade. A mudança, que está para chegar, não deve romper, nem perturbar este coro: deve confirmá-lo e fazê-lo ressoar com novo espírito, com ar juvenil.

SUBSTÂNCIA INALTERADA

Outra pergunta: em que consiste a mudança? Vereis. Consiste em várias novas prescrições rituais, as quais exigirão, especialmente de início, um tanto de atenção e cuidado. A devoção pessoal e o senso comunitário tornarão fácil e gradual a observância destas novas prescrições. Mas que esteja bem claro: nada se mudou na substância da nossa Missa tradicional. Alguém pode talvez deixar-se impressionar por alguma cerimônia particular, ou por alguma rubrica anexa, como se fosse ou ocultasse uma alteração ou uma minimização da verdade desde sempre abraçada e oficialmente sancionada pela fé católica, como se a equação entre a lei da oração, “lex orandi”, e a lei da fé, “lex credendi”, resultasse comprometida.

Mas não é assim. De modo algum. Antes de tudo porque o rito e a rubrica não são por si uma definição dogmática, e são suscetíveis a uma qualificação teológica de valor diferente segundo o contexto litúrgico a que se referem; são gestos e termos que se referem a uma ação religiosa vivida e vivente de um mistério inefável de presença divina, nem sempre realizada de forma unívoca, ação que somente a crítica teológica pode analisar e exprimir em fórmulas doutrinais logicamente satisfatórias. E depois, porque a Missa do novo ordinário é e permanece, ainda que com uma evidência acrescida em certos aspectos seus, a de sempre. A unidade entre a Ceia do Senhor, o Sacrifício da Cruz, a renovação representativa de uma e de outro na Missa é inviolavelmente afirmada e celebrada no novo ordinário, como no precedente. A Missa é e permanece a memória da última Ceia de Cristo, na qual o Senhor, mudando o pão e o vinho no seu Corpo e no seu Sangue, instituiu o Sacrifício do Novo Testamento, e quer que, mediante a virtude do seu Sacerdócio, conferida aos Apóstolos, fosse renovado na sua identidade, somente oferecido de modo diverso, isto é, de modo incruento e sacramental, em perene memória dele, até seu último retorno (cf. DE LA TAILLE, Mysterium Fidei, Elucid. IX).

MAIOR PARTICIPAÇÃO

E se no novo rito encontrardes posta em melhor clareza a relação entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia propriamente eucarística, esta quase como resposta realizadora daquela (cf. Bouyer), ou se observardes quanto se reclama à celebração do sacrifício eucarístico a assistência da assembleia dos fieis, os quais na Missa estão e se sentem plenamente “Igreja”, ou se verdes ilustradas outras maravilhosas propriedades da nossa Missa, não acrediteis que isto tenha a intenção de alterar-lhe a genuína e tradicional essência; sabei ademais apreciar como a Igreja, mediante esta linguagem nova e comum, deseja dar maior eficácia à sua mensagem litúrgica, e quer de maneira mais direta e pastoral aproximá-la de cada um de seus filhos e de todo o Povo de Deus junto.

E respondamos assim à terceira pergunta que nos propomos: que consequências produzirá a inovação, de que estamos tratando? As consequências previstas, ou melhor, desejadas, são as de uma participação mais inteligente, mais prática, mais desfrutada e mais santificante dos fieis no mistério litúrgico, à escuta da Palavra de Deus, viva e ressoante nos séculos e na história singular de nossas almas, e à realidade mística do sacrifício sacramental e propiciatório de Cristo.

Não falemos doravante de “nova Missa”, mas sim de “nova época” da vida da Igreja. Com a Nossa Bênção Apostólica.

(Seguem-se saudações particulares para alguns grupos.)

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Obs: Favor avisar sobre qualquer problema, imprecisão ou equívoco na tradução.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

CONVITE - Solenidade de Nossa Senhora das Dores - Padroeira da Arquidiocese de Teresina

Pax et bonum!

Hoje a Arquidiocese de Teresina celebra a Solenidade de Nossa Senhora das Dores, sua padroeira.
A programação é a tradicional:

- Liturgia das Horas: II Vésperas na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo (Praça da Bandeira/Praça Rio Branco), às 18h
- Procissão: da Igreja Matriz até a Igreja Catedral
- Santo Sacrifício: Missa Solene na Igreja Catedral de Nossa Senhora das Dores (Praça Saraiva), às 19h

Após as celebrações solenes dos grandes mistérios do Senhor e da Bem-aventurada Virgem Maria, que estão no Calendário Romano, este é o dia mais importante para nossa Arquidiocese.
Façamo-nos presentes todos nós (fieis de Teresina e cidades das foranias rurais).

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Glória a Deus por tudo isto! - São João Crisóstomo

Pax et bonum!

Vida
Ontem, 13 de setembro, celebramos a memória do grande Bispo e Doutor da Igreja São João Crisóstomo (="boca de ouro"), considerado geralmente como "o mais proeminente doutor da Igreja Grega e o maior pregador do púlpito cristão de que já se ouviu falar" (cf. Catholic Encyclopedia).
Nasceu em 347 na Antioquia. Com pouco mais de 20 anos, cativado pela caráter do bispo Melécio, estudou as Escrituras, recebeu o Batismo e foi ordenado Leitor. Ingressou numa comunidade ascética próxima a Antioquia, sob a guia de Diódoro. Mais tarde, desejando mais austeridade, passou a viver como anacoreta numa caverna. Todavia, as vigílias e os jejuns o deixaram muito debilitado, razão pela qual, por prudência, retornou à vida mais simples na Igreja como Leitor.
Muito provavelmente foi ordenado diácono por Melécio em 381. Como tal, ele tinha que servir nas funções litúrgicas, cuidar dos doentes e pobres, e provavelmente esteve um tanto encarregado do ensino dos catecúmenos. Enquanto isso continuava sua obra literária, e podemos supor que foi no fim deste período, ou nos primeiros anos de sacerdócio, que ele compôs seu livro mais famoso: "Sobre o Sacerdócio".
Foi ordenado presbítero pelo bispo Flaviano em 386 e, no curso normal das coisas, sucederia a Flaviano na sé de Antioquia. A Providência, porém, mudou os rumos e, após a morte de Nectário, Patriarca de Constantinopla, em 397, João Crisóstomo foi elevado ao patriarcado, como seu sucessor, a 26 de fevereiro de 398.
Posto numa metrópole nascente, meio ocidental e meio oriental, junto a uma corte cheia de intrigas e luxúrias, como cabeça de um clero tão heterogêneo, João começou a perceber que tipo de vida eclesiástica se iniciara para ele.
Diz-se que começou a "varrer a escada" pelos degraus de cima, reformando o clero e os religiosos. Entre o povo, passou a atrair tanto a simpatia como a inveja com suas homilias inflamadas.
Desfeita a amizade, a Imperatriz Eudóxia passou a persegui-lo. Junto dela estavam até grandes eclesiásticos, que igualmente cultivavam antipatia por João.
Em 403, o bispo Teófilo, Patriarca de Alexandria, e outros bispos se reuniram num sínodo (conhecido como Sínodo do Carvalho), levantando acusações ridículas e absurdas sobre João Crisóstomo. Fizeram o chamado para que ele, então, se retratasse. Tendo João recusado, em nome da verdade, seus inimigos, junto com o imperador, concluíram que ele devia ser deposto e exilado. Para evitar maiores confusões, ele se entregou. Mas as ameaças do povo fizeram tremer a imperatriz, que, temendo um castigo do céu, mandou trazerem-no de volta para Constantinopla. O povo recebeu-o exultante.
Em 24 de junho de 404, porém, por mais uma raiva da imperatriz e pela acusação [por Teófilo] de ter infringido um artigo do Sínodo de Antioquia de 341 (de cunho herético ariano), João Crisóstomo foi conduzido ao exílio.
João foi mandado para Cúcuso na fronteira leste da Armênia. Manteve correspondência com seus amigos e nunca deixou a esperança de regressar. Quando sua deposição chegou ao conhecimento do Papa Inocêncio I, este manteve-se a seu favor.
No ano de 407, por estar vivendo demais, aos olhos de seus inimigos, foi mandado para Pítio, região já próxima ao Cáucaso, nos extremos do império. A longa viagem seria feita a pés.
Os soldados o expunham a vários sofrimentos e o santo bispo, com 60 anos, já beirava o fim de suas forças corporais.
João Crisóstomo, grande amigo de São Basílio Magno, desterrado pelos poderes do mundo, grande defensor da unidade da Igreja, veio a falecer em Comana, cidade do Ponto (região da costa sul do Mar Negro), no dia 14 de setembro. Segundo consta, suas últimas palavras foram:
ΔΟΞΑ ΤΩ ΘΕΩ ΠΑΝΤΩΝ ΕΝΕΚΕΝ
Doxa to Theo panton eneken
(Glória a Deus por tudo isto!)
Desde 1626 seu corpo repousa na Basílica de São Pedro, em Roma. No ano de 2004, parte das relíquias foi entregue à Sé de Constantinopla pelo Beato João Paulo II. A carta do Papa e do Patriarca de Constantinopla, na ocasião, podem ser vistas no site da Santa Sé:
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/2004/documents/hf_jp-ii_let_20041127_consegna-reliquie_po.html

Obras
Obras em inglês: http://www.ccel.org/ccel/chrysostom?show=worksBy
Obras em espanhol: http://www.mercaba.org/TESORO/cartel_san_juan_crisostomo.htm
Obras em português: A postagem do Salvem a Liturgia! sobre o santo traz um link com trechos de homilias.


Liturgia
Desejo fazer o quanto antes uma postagem sobre a chamada "Divina Liturgia de São João Crisóstomo" (o rito oriental mais usado no mundo), sobretudo porque muitos leitores, sobretudo do meu estado (Piauí) desconhecem a existência de ritos orientais e a beleza da Divina Liturgia. Ela não pode ser considerada obra de São João Crisóstomo, mas veremos porque traz seu nome.
Fico devendo esta. Aguardem.

Fontes
Baseei-me quase integralmente no artigo da Catholic Encyclopedia:
http://www.newadvent.org/cathen/08452b.htm

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

7 de setembro - Independência do Brasil

Pax et bonum!

Hoje, 7 de setembro, comemoramos a Independência do Brasil [em relação a Portugal, tornando-se uma nação livre e soberana], proclamada no ano de 1822, sob a regência do príncipe Dom Pedro I. 
Embora tendo sido obscurecida, outra data que tem grande relevo no assunto é 12 de outubro, do mesmo ano, quando se deu a coroação de Dom Pedro I como Imperador do Brasil.
Para a ocasião foi composto o Hino da Independência (letra e música).

O Missal Romano traz, em sua Forma Ordinária, uma Oração PRO PATRIA VEL CIVITATE, que nos faz bem recordar e rezar no dia de hoje. Segue o texto latino com uma tradução livre minha:


Deus, qui mirábili consílio univérsa dispónis, súscipe benígnus quas pro pátria nostra tibi fúndimus preces, ut sapiéntia moderatórum et honestáte cívium concórdia et iustítia firméntur, atque fiat cum pace prospéritas perpétua. Per Dóminum.
Ó Deus, que de modo admirável dispondes todas as coisas, recebei benigno as preces que vos apresentamos pela nossa pátria, para que, pela sabedoria dos governantes e pela honestidade dos cidadãos, firmem-se a concórdia e a justiça, bem como se alcance na paz a perpétua prosperidade. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina na unidade do Espírito Santo, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

É-nos também conhecida a Oração dita "pela Pátria, pela Igreja e pelo Santo Padre":
Deus e Senhor nosso, protegei a vossa Igreja, dai-lhe santos pastores e dignos ministros. Derramai as vossas bençãos sobre o nosso Santo Padre, o Papa, sobre o nosso (Arce)bispo, sobre o nosso pároco e sobre todo o clero; sobre o Chefe da Nação e do Estado para que governem com justiça. Dai ao povo brasileiro paz constante e prosperidade completa. Favorecei, com os efeitos contínuos de vossa bondade, o Brasil, este (arce)bispado, a paróquia em que habitamos, a cada um de nós em particular e a todas as pessoas por quem devemos orar ou que se recomendaram às nossas orações. Tende misericórdia das almas dos fiéis que padecem no purgatório: dai-lhes, Senhor, o descanso e a luz eterna. Amém.

Pensando no dia de hoje, recordei-me da Aparição de Nossa Senhora das Graças em Pernambuco, na década de 30. É necessário que rezemos e façamos penitência pelo nosso país. Se isso foi pedido nos anos 30 do século passado, olhemos para nossa nação e temamos, pois grandes males têm se abatido sobre nós, sobretudo pela libertinagem das ideias defendidas pelos nossos governantes e por tantos que acreditam estar numa "marcha da liberdade" ao defenderem a revolução, os contra-valores e outras tantas imoralidades.

Renovai-nos, nosso Deus e Salvador, 
esquecei a vossa mágoa contra nós!
Ficareis eternamente irritado? 
Guardareis a vossa ira pelos séculos? 
Não vireis restituir a nossa vida,
para que em vós se rejubile o vosso povo? 
Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, 
concedei-nos também vossa salvação!
Sl 84(85),5-8

Deus abençoe o Brasil.
Por Luís Augusto - membro da ARS