quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Missa da noite do Natal (2012) na Matriz do Amparo, Teresina-PI


Pax et bonum!

Amados amigos, exultamos desde a vigília e a noite do Natal de nosso Senhor Jesus Cristo! Esta alegria, que dura por esta Oitava, deve ainda permanecer até a Solenidade da Epifania do Senhor (06/01/13). A liturgia, por si só, fala tudo que pode deste tempo sacrossanto!
Além de expressar nossos votos de um Santo Natal a todos que visitam nosso blog, deixamos aqui a exortação de São Leão Magno, no Ofício das Leituras do dia 25 (Forma Ordinária do Rito Romano):

Toma consciência, ó Cristão, da tua dignidade!

Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com promessa da eternidade.
Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque nosso senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida.
Quando chegou a plenitude dos tempos, fixada pelos insondáveis desígnios divinos, o Filho de Deus assumiu a natureza do homem para reconciliá-lo com seu criador, de modo que o demônio, autor da morte, fosse vencido pela mesma natureza que antes vencera.
Eis por que, no nascimento do Senhor, os anjos cantam jubilosos: Glória a deus nas alturas; e anunciam: Paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14). Eles vêem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo. Diante dessa obra inexprimível do amor divino, como não devem alegrar-se os homens, em sua pequenez, quando os anjos, em sua grandeza, assim se rejubilam?
Amados filhos, demos graças a Deus Pai, por seu Filho, no Espírito Santo; pois, na imensa misericórdia com que nos amou, compadeceu-se de nós. E quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo (Ef 2,5) para que fôssemos nele uma nova criação, nova obra de suas mãos.
Despojemo-nos, portanto, do velho homem com seus atos; e tendo sido admitidos a participar do nascimento de Cristo, renunciemos às obras da carne.
Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não voltes aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Lembra-te de que cabeça e de corpo és membro. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus.
Pelo sacramento do batismo te tornaste templo do Espírito Santo. Não expulses com más ações tão grande hóspede, não recaias sob o jugo do demônio, porque o preço de tua salvação é o sangue de cristo.
Seguem também as fotos da Missa da noite do Natal (24/12) na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo. O sacerdote é o pároco, o Pe. José de Pinho Borges Filho.
Além do tradicional Anúncio do Natal (Kalenda) e da Missa VIII (de Angelis), foi cantado em latim o Credo Niceno-constantinopolitano.
Para a Sagrada Comunhão, o sacerdote mandou ser posto diante de si um genuflexório, para os fieis que quisessem comungar de joelhos. O mesmo ele pediu no dia seguinte, na Missa do Dia.

Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior


Procissão de entrada
 




Incensação do altar

Oração do dia (Collecta)


Proclamação do Evangelho
Homilia



Ofertório



Incensação das ofertas (pão e vinho)
Incensação do sacerdote
Incensação da assembleia

Consagração

Doxologia (per ipsum)
Oração do Senhor (Pai nosso)
"A paz do Senhor..."
"Eu sou a luz do mundo... Eis o Cordeiro de Deus..."

Comunhão

Bênção final

Translado da pequena imagem do Menino Jesus até o presépio

Apresentação do presépio e votos natalinos
Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Os dois opostos, segundo o Cardeal Lercaro

Pax et bonum!

O Ordo de 1965 foi apresentado, os abusos cometidos já nesse tempo, antes do Ordo renovado entrar em vigor, foram indicados pelo Pe. Bugnini como fruto da "tentação das experiências"... Seis dias antes do I Domingo da Quaresma daquele ano (07/03), ou seja, no 1º de março, Sua Eminência, o Cardeal Giacomo Lercaro, então presidente do Consilium, ou seja, o superior imediato do Pe. Bugnini, e também Arcebispo de Bolonha, fez uma exposição sobre o que chamou de dois aspectos opostos nas reações suscitadas por conta da reforma litúrgica anunciada. Segundo ele, haviam "os que consideram a reforma como nociva" e "aqueles que vão longe demais". Seriam estes os autores das reações que criam obstáculos à reforma litúrgica.
A perspectiva do autor é interessante e revela alguns problemas enfrentados naquele período, ainda meses antes do término do Concílio, como fazemos questão de lembrar. Também esclarece o posicionamento provavelmente compartilhado por todos ou quase todos os membros do Consilium acerca tanto do "tradicionalismo" como do "progressismo" litúrgicos.
A conferência está disponível aqui no Gloria.TV.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - "Quo vadis, liturgia?", um desabafo do Pe. Bugnini

Pax et bonum!

Nesta nossa série de postagens, estamos dois anos após a promulgação da Sacrosanctum Concilium e cerca de um mês antes da entrada em vigor do Ordinário da Missa "renovado", segundo a Instrução Inter Oecumenici. Vimos a apresentação de janeiro e já vimos o próprio Ordinário, tal qual passou a ser, em seguida, utilizado no Brasil. Recordamos que o Concílio Vaticano II ainda estava a meses antes de ser concluído.
Pois bem, na metade de fevereiro de 65, o Pe. Bugnini que, lembremos, era secretário do Consilium, escreve algumas linhas no Notitiae, revista/jornal sobre assuntos litúrgicos que, atualmente, é bimestralmente editada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
Dada a brevidade do texto, nós o colocamos abaixo:

"Quo vadis, liturgia?"
Pe. Annibale Bugnini, CM

Publicado no Notitiae do Consilium ad exsequandam Constitutionem de sacra liturgia, de 15 de fevereiro de 1965.

Com muita frequência, em matéria de liturgia, ouve-se falar coisas surpreendentes; nas revistas e jornais, lê-se coisas surpreendentes; nas fotografias, vê-se coisas surpreendentes; nas conferências, declarações, debates, diz-se coisas surpreendentes.
Com muita frequência, devo confessar, meus cabelos se arrepiam (cf. Jó 4,15).
Aonde vais, liturgia? Ou melhor, para onde vós conduzis a liturgia, ó especialistas da liturgia ou da pastoral?
Talvez, sem cair no conformismo, esteja faltando resistir à tentação das "experiências". Tal tentação vem certamente do "Maligno"; não é uma inspiração do alto.
A via segura, luminosa, larga e espaçosa da renovação é indicada pela Igreja, pelo Pastor supremo; toda outra via é falsa.
As publicações devem manter os esforços de renovação sem cair na tentação de querer fazer ou dizer novidades para atrair seus leitores, pois essas podem decepcioná-los, ao invés de edificá-los.
Que todos, neste momento, e particularmente os membros do Consilium, tomem consciência de suas responsabilidades.


***

O panorama, que às vezes nos parece desolador hoje, teve início há décadas. Tais palavras causam certo espanto e vemos como a reforma desejada pelo Concílio estava sendo traída desde o princípio pela "tentação das experiências". O mal que alguns teimam em pensar que veio do Concílio, estava presente antes mesmo dele, e disso vemos um pouco em algumas opiniões combatidas na Encíclica Mediator Dei, de Pio XII, publicada em 1947.
Todavia, se em 1965 as "coisas" já eram negativamente "surpreendentes", o que se dirá das "coisas" de hoje?

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - O Ordinário da Missa de 1965 utilizado no Brasil

Pax et bonum!

Prosseguindo nossa caminhada através da reforma litúrgica, apresentamos agora o Ordo Missae (Ordinário da Missa) de 1965.
Sim, este foi o primeiro rito da Missa oficialmente reformado após a Sacrosanctum Concilium e com certo impacto. Vê-se nele ainda a Missa como chegou ao Concílio Vaticano II. As diferenças para com o Ordinário anterior (edição típica de 1962 utilizado atualmente como Forma Extraordinária do Rito Romano, graças ao Motu Proprio Summorum Pontificum, de 07/07/2007), foram elencadas na apresentação do Pe. Bugnini, na postagem anterior.
Interessante notar que, neste Ordo, a resposta para "O Senhor esteja convosco" é "E contigo também", que atualmente só permaneceu na resposta do fiel, após receber o dom do Espírito Santo no Sacramento da Confirmação, quando o bispo diz "A paz esteja contigo". Neste tempo ainda não tinham inventado as versões que se distanciam do texto oficial, como é o caso do "Ele está no meio de nós".
Para muitos, a Missa deste Ordinário era já suficientemente a reforma pedida pelo Concílio. Para outros, era uma Missa híbrida e inaceitável, ainda carregada de pesos antigos, era uma Missa de transição. Para outros ainda, era uma dolorosa mutilação do rito romano herdado das gerações do passado, com tantas omissões e e supressões.
Gostaríamos de recordar que, embora chamemos de reforma pós-conciliar, queremos significar com isso a reforma empreendida não só após o término do Concílio, mas a partir da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium. De fato, na atual postagem, continuamos no ano de 1965, em cujo dezembro, somente, o Concílio foi concluído.
O Ordinário oficial foi apresentado em janeiro (como vimos na postagem anterior). Aqui disponibilizamos a versão utilizada no Brasil, datada do segundo semestre de 1965, como parte de um Missal Dominical. Digitalizamos apenas o Ordinário e, como de costume, disponibilizamos aqui no Gloria.TV. Leitura e análise recomendadas.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - A apresentação do Ordinário da Missa de 1965

Pax et bonum!

Depois de termos recebido as devidas permissões para tradução e publicação pelo sr. Athanasios Dimitrakopoulous (Bélgica), do site Sacrosanctum Concilium (que contém uma boa coleção de documentos sobre o Concílio e a Reforma), finalmente continuaremos com nossa documentação sobre os passos da reforma litúrgica pós-conciliar.
Depois de termos visto as ordens do Motu Proprio Sacram Liturgiam e, sobretudo, da Instrução Inter Oecumenici, de setembro de 1964, chegamos ao ano de 1965, em cujo 7 de março entraria em vigor o uso do Ordinário da Missa com as modificações mandadas por esses dois documentos citados.
Aqui temos a apresentação que o então Pe. Annibale Bugnini, personagem "chave" deste período da história do Rito Romano, fez, para a edição de 29/01/1965, do L'Osservatore Romano (o "jornal vaticano").
Mais uma vez, disponibilizamos o documento aqui no site Gloria.TV, vivamente recomendado.

Por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 2 de dezembro de 2012

"Sinais"



Começa um novo Ano Litúrgico, sem festa, sem foguetes, sem Reveillon. Reinicia-se, sóbrio, silencioso, o ciclo em que entramos em contato com os mistérios da vida de nosso Redentor.
No mundo, os homens olham para o céu, para os sinais do “tempo”. Em menos de um mês, uma metade do planeta entrará no inverno e a outra no verão.
Na natureza, o que temos visto ultimamente por aqui foi a florada do ipê (de julho a setembro), a entrada do período mais quente e seco do ano, a florada do flamboyant (de outubro a dezembro) e as “promessas” de chuvas (que nos meados e no fim de novembro já me trazem o tempo do Advento à mente).
Quando o Senhor veio visitar o mundo (bem como quando vier novamente), o mundo estava árido, sedento, como nossos sertões têm estado. E assim como os homens, as plantas e os animais esperam a chuva, o Tempo do Advento põe em nossas bocas o lirismo da profecia de Isaías, como se fosse um refrão a permear as quatro semanas deste tempo: “Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo faça germinar a justiça!” (Is 45,8).
O flamboyant, depois de ter se despido de sua folhagem, deu alegres vivas a Cristo Rei com suas flores laranjas [avermelhadas]... Esta árvore, fora de nossos templos, onde as flores serão usadas com grande modéstia durante este Tempo, estará nos apontando, assim como a cor rosa dos paramentos, que poderá ser usada no Terceiro Domingo do Advento, a alegria das solenidades futuras, e mais, a alegria de nossa esperança ao clamar: “Venha a nós o vosso Reino”, a alegria que deve haver em nossos corações ao dizer: “Vinde, Senhor Jesus”, pois sabemos que virá, “e o seu Reino não terá fim”!
Quanto às chuvas, que o refrigério delas, e a vida nova que, com fé em Deus, brotará nos sertões, nos recordem a nova história da humanidade, que se iniciou com a encarnação do Filho de Deus, bem como a nossa própria nova história, a partir de quando renascemos pelas águas do Batismo, mais ainda, cada corajoso reinício que fazemos quando renovamos a consciência de nossa vocação à santidade, esta caminhada rumo àquele que veio, que vem e que virá.
Veni, Dómine Iesu - Vinde, Senhor Jesus!

Por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 11 de novembro de 2012

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - A Instrução INTER OECUMENICI

Pax et bonum!

No dia 04/12/1963 vinha à luz a Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, a Sacrosanctum Concilium.
Quase dois meses depois, em 25/01/1964, o Papa Paulo VI, com a Carta Apostólica Sacram Liturgiam, sob a forma de motu proprio, determinava algumas coisas como aplicações da Constituição, a entrarem em vigor menos de um mês depois, em 16/02/1964. Neste motu proprio, Paulo VI fala da comissão especial instituída com o objetivo de "pôr em prática, pelo melhor modo, as prescrições da referida Constituição sobre a Sagrada Liturgia".
Oito meses depois, em 26/09/1964, esta comissão - o Consilium [ad exsequandam Constitutionem de Sacra Liturgia] apresentava sua primeira Instrução, a entrar em vigor cerca de cinco meses depois, em 07/03/1965.

Apresentamos, enfim, a possivelmente única versão em português, desta I Instrução para reta aplicação da Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, disponível na web.
Dentre várias mudanças na Missa, figuram neste documento, por exemplo, a omissão do Salmo 42 (Iudica me), dos beijos ao dar e receber objetos, do Último Evangelho, e a supressão das Preces Leoninas, bem como a recomendação, onde fosse possível, da construção de altares separados da parede, citando a celebração de frente para o povo.
Ótima fonte para quem estuda a Reforma pós-conciliar ou deseja conhecer os passos dados até a promulgação, anos depois, do Novus Ordo Missæ.

O documento está disponível aqui no Gloria.TV.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - O motu proprio Sacram Liturgiam

Pax et bonum!

Nas próximas semanas estaremos postando alguns documentos provavelmente inexistentes em português na web, ou pelo menos presentes em poucos sites.
Trata-se de documentos importantes quanto à implementação da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (uma leitura obrigatória, por assim dizer), em que vemos os passos dados para a "transformação" do Missal Romano (sobretudo), em sua edição de 1962 (hoje referido como parte da Forma Extraordinária do Rito Romano), no novo Missal Romano, promulgado por Paulo VI, que é parte da Forma Ordinária do Rito Romano.
Primeiramente queremos chamar a atenção para dois textos de antes do Concílio: a Encíclica Mediator Dei, de Pio XII, de 1947, bem como sua Alocução por ocasião da conclusão do Congresso Internacional de Liturgia Pastoral, de 1956, que nos resumem algo da doutrina sobre a teologia litúrgica no período imediatamente anterior ao Concílio Vaticano II.
Na atual postagem, pomos como primeiro documento a Carta Apostólica motu proprio Sacram Liturgiam, de Paulo VI, de janeiro de 1964. Trata-se do primeiro documento oficial "implementando a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II".
Nele, por exemplo, concede-se a omissão da hora Prima, fora do coro, e se estabelece a obrigatoriedade da homilia nos domingos e festas, dentre outras coisas.
Contamos com uma tradução já existente no site do Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal.

O documento, em formato pdf, está disponível aqui.
O texto original em latim está disponível no site da Santa Sé, bem como uma versão em italiano.
Boa leitura.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"Celebro com o rito antigo para fazer entender que é normal usá-lo", diz o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos



O cardeal Cañizares explica por que aceitou presidir, em São Pedro, a missa deste sábado para os fieis da peregrinação “Una cum Papa nostro”

ANDREA TORNIELLI 
Cidade do Vaticano

"Aceitei de bom grado celebrar a Missa do próximo sábado para os peregrinos que vêm agradecer ao Papa pelo dom do motu proprio Summorum Pontificum:  é uma forma de fazer entender que é normal usar a forma extraordinária do único rito romano...". O cardeal Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, respondeu desta forma à pergunta de Vatican Insider sobre o significado da celebração do próximo sábado, 3 de novembro (às 15h), no altar da Cátedra da Basílica de São Pedro. Hoje pela manhã, o porta-voz da peregrinação “Una cum Papa nostro” anunciou a presença do arcebispo Augustine Di Noia, vice-presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, na cerimônia.

Qual é o significado desta peregrinação?
Agradecer a Deus e agradecer ao Papa pelo motu proprio de cinco anos atrás, que reconhece o valor da liturgia celebrada segundo o Missal do Beato João XXIII, sublinhando a continuidade da tradição no rito romano. Ao reconhecer a liturgia anterior, compreende-se que com a reforma não se nega o que se usava anteriormente. 

Por que aceitou celebrar a missa para os peregrinos que seguem o rito pré-conciliar?
Aceitei porque é uma forma de fazer entender que é normal o suo do Missal de 1962: existem duas formas do mesmo rito, mas é o mesmo rito e, por isso, é normal que se use na celebração. Já celebrei em diferentes ocasiões com o Missal do Beato João XXIII, e o farei de bom grado também nesta ocasião. A Congregação, da qual o Papa me chamou a ser Prefeito, não tem nada contra o uso da liturgia antiga, ainda que a verdadeira tarefa de nosso dicastério seja o aprofundamento do significado da renovação litúrgica segundo as diretrizes da Constituição Sacrosanctum Concilium e de seguir a trilha do Concílio Vaticano II. Para isto é preciso dizer que inclusive a forma extraordinária do rito romano deve ser iluminada pela Constituição conciliar, que nos primeiros dez parágrafos detalha o verdadeiro espírito da liturgia, que vale para todos os ritos.

Como o senhor vê, a cinco anos de distância, a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum?
Não conhece os detalhes do que sucede no mundo, sobretudo porque a competência sobre este aspecto pertence à Comissão Ecclesia Dei, mas creio que pouco a pouco se começa a compreender que a liturgia é fundamental na Igreja e que nós devemos voltar a dar vida ao sentido do mistério e do sagrado em nossas celebrações. Ademais, parece-me que, a cinco anos de distância, se pode compreender melhor que não se trata somente de alguns fieis que vivem na nostalgia do latim, mas que se trata de aprofundar o sentido da liturgia. Todos somos Igreja, todos vivemos a mesma Comunhão. O Papa Bento XVI o tem explicado muito bem, e no primeiro aniversário do motu proprio recordou que todos têm um lugar na Igreja.

Fonte: http://vaticaninsider.lastampa.it/es/reportajes-y-entrevistas/dettagliospain/articolo/chiesa-church-iglesia-19319/


Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 27 de outubro de 2012

Carta Encíclica QUAS PRIMAS, do Papa Pio XI, sobre a Festa de Cristo Rei

Pax et bonum!

Caríssimos, neste domingo (28/10), último do mês de outubro, o Calendário para a Forma Extraordinária do Rito Romano traz a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, como estabelecido pelo Papa Pio IX em 11/10/1925.
Com a reforma pós-conciliar do Calendário Romano Geral, a festa passou a se chamar Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, e foi deslocada para o último domingo do ano litúrgico, ou seja, o domingo imediatamente anterior ao primeiro domingo do Advento.
A encíclica Quas primas, de Pio XI, explica de maneira detalhada os fundamentos desta Festa, fundamentos que deveriam ser recordados por cada cristão, em nossos tempos de tantas crises políticas, escândalos de corrupção e ascensão de verdadeiros inimigos de Cristo ao poder. Naquele ano, as palavras vibrantes de Pio XI, no espaço de tempo entre as duas grandes guerras que assolaram o mundo no século passado, traziam à memória imperiosos deveres para com o amado Salvador.
Esperamos que todos tirem bom proveito desta leitura, que vivamente recomendamos.
Como Pio XI pediu, a Festa de Cristo Rei é dia de renovar a Consagração do gênero humano ao Sagrado Coração de Jesus. O ato de consagração, em latim e português, pode ser lido aqui.
A Encíclica em latim pode ser lida aqui, bem como em espanhol aqui.
E em comunhão com tantos mártires cristãos, perseguidos nos anos imediatamente seguintes à publicação desta Encíclica, queiramos também bradar: VIVA CRISTO REI!

***


DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS

Pio XI

Sobre Cristo Rei

(Quas Primas)

 II EDIÇÃO
1950

EDITORA VOZES LTDA., Petrópolis, R. J. RIO DE JANEIRO — SÃO PAULO

IMPRIMA-SE
POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO. E REVMO. 
SR. DOM MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PETRÓPOLIS. 
FREI LAURO OSTERMANN O. F. M, PETRÓPOLIS, 9-11-1950.

CARTA ENCÍCLICA
aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos 
e Outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: sobre Cristo Rei.

PIO PAPA XI

Veneráveis Irmãos, saúde e bênção apostólica.

INTRODUÇÃO.

1. Na primeira Encíclica, dirigida, em princípios do nosso Pontificado, aos Bispos do mundo inteiro, indagamos a causa íntima das calamidades que, ante os nossos olhos, avassalam o gênero humano. Ora, lembra-nos haver abertamente declarado duas coisas: uma — que esta aluvião de males sobre o universo provém de terem a maior parte dos homens removido, assim da vida particular como da vida pública, Jesus Cristo e sua lei sacrossanta; a outra — que baldado era esperar paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações recusassem reconhecer e proclamar a Soberania de Nosso Salvador. E por isso, depois de afirmarmos que se deve procurar "a paz de Cristo no reino de Cristo", manifestamos que era intenção nossa trabalhar para este fim, na medida de nossas forças. "No reino de Cristo", — dizíamos; porque, para restabelecer e confirmar a paz, outro meio mais eficiente não deparávamos, do que reconhecer a Soberania de Nosso Senhor. Com o correr do tempo, claramente pressentimos o raiar de dias melhores, quando vimos o zelo dos povos em acudir, — uns pela primeira vez, outros com renovado ardor, — a Cristo e à sua Igreja, única dispensadora da salvação: sinal manifesto de que muitos homens, até o presente como que desterrados do reino do Redentor, por desprezarem sua autoridade, preparam, ainda bem, e levam a efeito sua volta à obediência.

PREPARAÇÃO PROVIDENCIAL DA NOVA FESTA. O ANO SANTO.

2. Quanto, ao depois, sobreveio, quanto aconteceu no decorrer do "Ano Santo", digno, na verdade, de eterna memória, porventura não concorreu eficazmente para a honra e glória do Fundador da Igreja, de sua soberania, de sua suprema realeza?

Exposição Missionária.

Realizou-se, primeiro, a "Exposição Missionária", que, nos corações e nos espíritos dos homens, produziu tão profunda impressão. Ali vimos os incansáveis trabalhos empreendidos pela Igreja, para dilatar cada vez mais o reino de seu Esposo, em todos os continentes, em todas as ilhas, até nas mais longínquas, perdidas no oceano. Vimos quantos países conquistaram ao catolicismo à custa de seus suores, de seu sangue, nossos heróicos e destemidos missionários. Vimos as imensas regiões que ainda ficam por sujeitar ao domínio benfazejo de nosso Rei.

Peregrinações jubilares.

Realizaram-se, em seguida, romarias, vindas a Roma, durante o Ano Santo, de todas as partes do mundo, e guiadas por seus Bispos ou sacerdotes. Que motivos impeliam esses peregrinos, senão o desejo de purificarem suas almas e de proclamarem, junto ao Sepulcro dos Apóstolos e em Nossa presença, que estão e querem permanecer sob a autoridade de Cristo?

Canonizações.

Por fim, conferimos a seis Confessores ou Virgens as honras dos Santos, depois de cabalmente provadas suas admiráveis virtudes. Não brilhou, nesse dia, com novo fulgor, o reino de Jesus? Que gozo, que consolação não foi para Nossa alma, depois de proferirmos os decretos definitivos, ouvir, no majestoso recinto de S. Pedro, a imensa multidão os fiéis aclamar com uma só voz, entre cantos de ação de graças, a realeza gloriosa de Cristo — "Tu Rex gloriæ, Christe!" Num tempo em que indivíduos e estados, joguetes das sedições nascidas do ódio e discórdias civis, se precipitam para a ruína e a morte, a Igreja de Deus, prosseguindo a dar ao gênero humano o alimento da vida espiritual, gera e continua a educar para Cristo gerações sucessivas de Santos e Santas, e Cristo, por sua vez, não cessa de chamar à eterna felicidade do seu reino celeste quantos se Lhe demonstraram súditos fiéis e submissos de seu reino terrestre.

Centenário do Concílio de Nicéia.

Com o grande jubileu coincidiu o 16.° centenário do Concílio de Nicéia. Mandamos festejar este aniversário secular, e Nós mesmo o comemoramos na Basílica Vaticana, com tanto melhor grado, que este Concílio definiu e proclamou dogma de fé católica a "consubstancialidade" do Unigênito de Deus com seu Pai, e, inserindo em sua fórmula de fé, ou "Credo", as palavras: "cujo reino não terá fim — cujus regni non erit finis" — com isto mesmo afirmou a dignidade real de Cristo.

Súplica em favor de Cristo-Rei.

3. Portanto, já que este ano jubilar, em mais de uma ocasião, contribuiu para pôr em realce a realeza de Cristo, julgamos cumprir um dos atos mais próprios do Nosso ofício apostólico, acedendo às súplicas, assim individuais como coletivas, de numerosos Cardeais, Bispos ou fiéis, e encerrar este ano com introduzir na liturgia da Igreja uma festa especial em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. Este argumento temo-lo tanto a peito, Veneráveis Irmãos, que desejamos entreter-nos dele convosco alguns instantes. Empenho vosso será, depois, tornar, acessível à inteligência e aos sentimentos populares quanto dissermos sobre o culto de "Cristo-Rei", de modo que a nova festa anual produza agora e no porvir múltiplos frutos.

FUNDAMENTO DOUTRINAL DA NOVA FESTA.

Cristo-Rei no sentido metafórico.

4. Muito há que a linguagem corrente dá a Cristo o nome de "Rei em sentido metafórico e transposto". "Rei" é Cristo, com efeito, atenta a eminente e suprema perfeição com que sobrepuja a todas as criaturas. Assim, dizemos que "reina sobre as inteligências humanas", por causa da penetração do seu espírito e da extensão de sua ciência, mas sobretudo porque é a própria Verdade em pessoa, de quem, portanto, é força que recebam rendidamente os homens toda verdade. Dizemos que "reina sobre as vontades humanas", porque n'Ele se alia a indefectível santidade do divino querer com a mais reta, a mais submissa das vontades humanas; e também porque suas inspirações entusiasmam nossa vontade livre pelas causas mais nobres. Dizemos, enfim, que é "Rei dos corações", por causa daquela inefável "caridade que excede a toda humana compreensão" (Ef 3, 19); e porque sua doçura e sua bondade atraem os corações: pois nunca houve, no gênero humano, e nunca haverá quem tanto amor tenha ateado como Cristo Jesus.

Cristo Deus-Homem Rei da Humanidade em sentido próprio.

5. Aprofundemos sempre mais o nosso argumento. É manifesto que o nome e o poder de "Rei", no sentido próprio da palavra, competem a Cristo em sua Humanidade, porque só de Cristo enquanto homem é que se pode dizer: do Pai recebeu "poder, honra e realeza" (Dan 7, 13-14). Enquanto Verbo, consubstanciai ao Pai, não pode deixar de Lhe ser em tudo igual e, portanto, de ter, como Ele, a suprema e absoluta soberania e domínio de todas as criaturas.

Testemunho ao Antigo Testamento.

6. Que Cristo seja Rei, não o lemos nós na Escritura? Ele é o "Dominador oriundo de Jacob" (Num 24, 19), Ele o "Rei, dado pelo Pai a Sião, sua Santa Montanha, para receber em herança as nações, e dilatar seu domínio até os confins da Terra" (Sl 2, 6. 8), Ele o verdadeiro "Rei vindouro" de Israel, que o cântico nupcial nos representa sob os traços de um soberano opulento e poderoso, a quem se dirigem estas palavras: "O teu trono, ó Deus, subsistirá por todos os séculos: a vara de retidão é a vara de teu reino" (Sl 44, 7). Omitindo muitos passos análogos, deparamos além, como, para delinear com maior nitidez a fisionomia de Cristo, vem predito que seu reino desconhecerá fronteiras e desfrutará os tesouros da justiça e da paz. "Nos dias d'Ele, aparecerá justiça e abundância de paz... E dominará de mar a mar, e desde o rio até os confins da Terra" (Sl 71, 7-8). A esses testemunhos, juntam-se mais numerosos ainda os oráculos dos Profetas, e notadamente a tão conhecida profecia de Isaías: "Já um Pequenino se acha nascido para nós, e um filho nos foi dado, e foi posto o principado sobre o seu ombro; e o nome com que se apelide será Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai do futuro século, Príncipe da Paz. O seu império se estenderá cada vez mais, e a paz não terá fim; assentar-se-á sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o firmar e fortalecer em juízo e justiça, desde então e para sempre" (Is 9, 6-7).

7. Não é outro o modo como se expressam os demais Profetas. Assim fala Jeremias, quando prenuncia à descendência de David "um germe de justiça", esse filho de David, que reinará como Rei, "será sábio e obrará segundo a equidade e justiça na Terra" (Jer 23, 5). Assim Daniel, quando prediz a constituição por Deus de um reino "que não será jamais dissipado... e que durará eternamente" (Dan 2, 44). E pouco depois acrescenta: "Eu considerava estas coisas numa visão de noite, e eis que vi um, como o Filho do Homem, que vinha com as nuvens do Céu, e que chegou até o Antigo dos dias; e eles o apresentaram diante d'Ele. E Ele Lhe deu o poder, e a honra, e o reino; todos os povos, e tribos e línguas o servirão: o seu poder é um poder eterno, que Lhe não será tirado, e o seu reino tal, que não será jamais corrompido" (Dan 7, 13-14). Assim Zacarias, quando profetiza a entrada em Jerusalém, entre as aclamações do povo, do "Justo e Salvador", do Rei cheio de mansidão "montado sobre uma jumenta, e sobre o potrinho da jumenta" (Zac 9, 9). E não apontaram os Evangelistas o cumprimento desta profecia?

Testemunho do Novo Testamento.

8. Esta doutrina de "Cristo Rei", que acabamos de esboçar segundo os livros do Antigo Testamento, bem longe de apagar-se nas páginas do Novo, vem ali, ao invés, confirmada do modo mais esplêndido e em termos admiráveis. Bastará lembrar apenas a mensagem do Arcanjo à Virgem, a anunciar-lhe que dará à luz um Filho; a este Filho, Deus outorgará "o trono de David, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacob, e seu reino não terá fim" (Lc 1, 32-33). Ouçamos agora o testemunho do próprio Cristo no tocante à sua soberania. Sempre que se Lhe oferece ensejo, — em seu último discurso ao povo, sobre a recompensa e os castigos que, na vida eterna, aguardam os justos e os maus; em sua resposta ao governador romano que Lhe perguntara se era Rei; depois de sua ressurreição, quando confia aos Apóstolos a missão de instruírem e batizarem todas as nações, — reivindica o título de "Rei" (Mt 25, 31-40), e publicamente declara que é "Rei" (Jo 18, 37) e que "todo poder Lhe foi dado no Céu e sobre a Terra" (Mt 28, 18). Que entende com isto, senão afirmar a extensão de sua potência, a imensidade do seu reino? À vista disto, deverá fazer-nos estranheza que S. João o proclame "Príncipe dos reis da terra? (Apoc 1, 5) ou que, aparecendo o próprio Jesus ao mesmo Apóstolo em suas visões proféticas "traga escrito no vestido e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores"? (Apoc 19, 16). O Pai, com efeito, constituiu a Cristo "herdeiro de todas as coisas" (Heb 1, 1). Cumpre que reine até o fim dos tempos, quando "arrojará todos os seus inimigos sob os pés de Deus e do Pai" (1 Cor 15, 25).

Testemunho da Liturgia.

9. Desta doutrina comum a todos os livros santos, naturalmente dimana a seguinte conseqüência: justo é que a Igreja Católica, reino de Cristo na Terra, chamada a estender-se a todos os homens, a todas as nações do universo, multiplicando os preitos de veneração, celebre, no ciclo anual da Liturgia Santa, a seu Autor e Instituidor como a Rei, como a Senhor, como a Rei dos reis. Com admirável variedade de fórmulas, estas homenagens expressam um e o mesmo pensamento; desses títulos servia-se a Igreja outrora no divino ofício e nos antigos sacramentados; repete-os ainda agora, nas preces públicas, que todos os dias dirige à Infinita Majestade e na oblação da Hóstia Imaculada. Nesse louvor ininterrupto de Cristo-Rei, nota-se para logo a formosa harmonia dos nossos ritos com os ritos orientais, verificando-se aqui também a verdade, do prolóquio: "as normas da oração confirmam os princípios da Fé".

Argumento teológico.

10. O fundamento sobre que pousa esta dignidade e poder de Nosso Senhor, define-o exatamente S. Cirilo de Alexandria, quando escreve: "Numa palavra, possui o domínio de todas as criaturas, não pelo ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza" (In Lucam, 10). Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de "hipostática". Portanto, não só merece Cristo que anjos e homens O adorem como a seu Deus, senão que também devem homens e anjos prestar-Lhe submissa obediência como a Homem. E assim, só em força dessa união, a Cristo cabe o mais absoluto poder sobre todas as criaturas, posto que, durante sua vida mortal, renunciasse ao exercício desse domínio. — Mas haverá, outrossim, pensamento mais suave do que refletir que Cristo é nosso Rei não só por direito de natureza, mas também a título de Redentor? Lembrem-se os homens esquecidos de quanto custamos a nosso Salvador. "Não fostes resgatados a preço de coisas perecíveis, prata e outro, mas com o sangue precioso de Cristo, como de cordeiro sem mancha nem defeito" (1 Ped 1, 18-19). Já nos não pertencemos, pois que deu Cristo por nós "tão valioso resgate" (1 Cor 6, 20). Até nossos corpos são "membros de Cristo" (1 Cor 6, 15).

ÍNDOLE DA REALEZA DE CRISTO

A Cristo-Rei cabe o poder legislativo, judicial, executivo.

11. Para dizer, em poucas palavras, a importância e índole desta realeza, será apenas necessário asserir que abrange um tríplice poder constitutivo, essencial de toda realeza verdadeira. Provam-no de sobejo os testemunhos de toda a Escritura no tocante à dominação universal de nosso Redentor, e é artigo de fé católica: Cristo Jesus foi dado aos homens não só como Redentor, que lhes merece toda confiança, mas também como Legislador, a quem devemos prestar obediência (Conc. Trid., Sess. 6, can. 21). E com efeito, não dizem os Evangelhos tão só que promulgou leis, mas no-lo representam no ato de promulgar as leis. A quantos observarem os seus preceitos, declara o Divino Mestre, em várias ocasiões e de diversos modos, que com isto mesmo Lhe hão de provar o seu amor e permanecer em sua caridade (Jo 14, 15); 15, 10). — Quanto ao "poder judicial", declara o próprio Jesus havê-lo recebido de seu Pai, em resposta aos judeus, que o haviam acusado de violar o descanso do sábado, curando milagrosamente, neste dia, a um paralítico. "O Pai, disse-lhes o Salvador, não julga a ninguém, mas deu todo juízo ao Filho" (Jo 5, 22). Esse poder judicial igualmente inclui o "direito", — que se não pode dele separar, — de "premiar" e "punir" aos homens, mesmo durante a vida. — A Cristo compete o "poder executivo", porquanto devem todos sujeitar-se ao seu domínio, e quem for rebelde não poderá evitar a condenação e os suplícios, que Jesus prenunciou.

Realeza espiritual.

12. Esta realeza, porém, é principalmente interna e respeita sobretudo a ordem espiritual. Provam-no com toda evidência as palavras da Escritura acima referidas, e, em muitas circunstâncias, o proceder do próprio Salvador. Quando os judeus, e até os Apóstolos, erradamente imaginavam que o Messias libertaria seu povo para restaurar o reino de Israel, Jesus desfez o erro e dissipou a ilusória esperança. Quando, tomada de entusiasmo, a turba, que O cerca, O quer proclamar rei, com a fuga furta-se o Senhor a estas honras, e oculta-se. Mais tarde, perante o governador romano, declara que seu reino "não é deste mundo". Neste reino, tal como no-lo descreve o Evangelho, é pela penitência que devem os homens entrar. Ninguém, com efeito, pode nele ser admitido sem a fé e o batismo; mas o batismo, conquanto seja um rito exterior, figura e realiza uma regeneração interna. Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz. Foi para adquirir a Igreja que Cristo, enquanto "Redentor", verteu o seu sangue; para isto é, que, enquanto "Sacerdote", se ofereceu e de contínuo se oferece como vítima. Quem não vê, em conseqüência, que sua realeza deve ser de índole toda espiritual, e participar da natureza deste seu duplo ofício?

13. Todavia, fora erro grosseiro denegar a Cristo Homem a soberania sobre as coisas temporais todas, sejam quais forem. Do Pai recebeu Jesus o mais absoluto domínio das criaturas, que Lhe permite dispor delas todas como Lhe aprouver. Contudo, enquanto viveu sobre a Terra, absteve-se totalmente de exercer este domínio temporal, e desprezou a posse e regimento das coisas humanas, que deixou — e deixa ainda — ao arbítrio e domínio dos homens. Verdade graciosamente expressa no conhecido verso: "Não arrebata diademas terrestres, quem distribui coroas celestes. — Non eripit mortalia, qui regna dat cælestia" (Hino Crudelis Herodes, of. da Epif.).

Realeza universal.

14. Assim, pois, a realeza do nosso Redentor abraça a totalidade dos homens. Sobre este ponto, de muito bom grado fazemos Nossas as palavras seguintes de Nosso Predecessor Leão XIII, de imortal memória: "Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que juridicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro" (Encícl. Annum Sacrum, 25 de Maio de 1899). E, neste particular, não cabe fazer distinção entre os indivíduos, as famílias e os estados; pois os homens não estão menos sujeitos à autoridade de Cristo em sua vida coletiva do que na vida individual. Cristo é fonte única de salvação para as nações como para os indivíduos. "Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do Céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos" (At 4, 12). Dele provêm ao estado como ao cidadão toda prosperidade e bem-estar verdadeiro. "Uma e única é a fonte da ventura, assim para as nações como para os indivíduos, pois outra coisa não é a cidade mais que uma multidão concorde de indivíduos" (S. Aug., Epíst. ad Macedonium, c. 3). Não podem, pois, os homens de governo recusar à soberania de Cristo, em seu nome pessoal e no de seus povos, públicas homenagens de respeito e submissão. Com isto, sobre estearem o próprio poder, hão de promover e aumentar a prosperidade nacional.

BENEFÍCIOS SOCIAIS DESTA REALEZA

Crise da autoridade.

15. Ao subirmos à cátedra pontifical, deplorávamos o lastimável decaimento em que vemos abatido o prestígio do direito e a reverência à autoridade. Quanto então dizíamos não é hoje menos atual ou oportuno. "Excluídos da legislação e dos negócios públicos Deus e Jesus Cristo, e derivando, os que regem, o seu poder, não já do alto, mas dos homens, aconteceu que ruiu o próprio fundamento da autoridade, em conseqüência de estar removida a razão fundamental do direito que a uns assiste de mandar, e da obrigação conseqüente que têm outros de obedecer. Seguiu-se daí forçosamente um abalo na humana sociedade inteira, falha assim de amparo e sustentáculo firme" (Encícl. Ubi arcano, DP 19). Se soubessem resolver-se os homens a reconhecer a autoridade de Cristo em sua vida particular e pública, para logo deste ato dimanariam em toda a humanidade incomparáveis benefícios: —: uma justa liberdade, a ordem e o sossego, a concórdia e a paz.

No interior dos estados.

16. Com dar à autoridade dos príncipes e chefes de governo certo caráter sagrado, a dignidade real de Nosso Senhor enobrece com isto mesmo os deveres e a sujeição dos cidadãos. Tanto assim que o Apóstolo S. Paulo, depois de prescrever às mulheres casadas e aos escravos de reconhecerem a Cristo na pessoa de seus maridos e senhores, lhes recomendava, ainda assim, de obedecerem não servilmente, como a homens, mas tão só em espírito de fé como a representantes de Cristo, porque ,é indigno de uma alma resgatada por Cristo obedecer com servilismo a um homem. "Fostes resgatados com grande preço: não estejais sujeitos já como escravos a homens" (1 Cor 7, 23). Se os príncipes e governos legitimamente constituídos tivessem a persuasão de que regem menos no próprio nome do que em nome e lugar do Rei Divino, é manifesto que usariam do seu poder com toda a prudência, com toda a sabedoria possíveis. Em legislar e na aplicação das leis, como haveriam de atender ao bem comum e à dignidade humana de seus súbditos! Então floresceria a ordem, então víramos difundir-se e firmar-se a tranqüilidade e a paz; embora o cidadão reconhecesse nos príncipes e chefes de governo homens iguais a si pela natureza ou mesmo, por algum respeito, indignos ou repreensíveis, não deixara por isto de lhes obedecer, por depreender neles a imagem e autoridade de Cristo, Deus-Homem.

Vantagens sociais para as nações.

17. Pelo que respeita à concórdia e à paz, é manifesto que, quanto mais vasto é um reino, quanto mais largamente abraça o gênero humano, tanto é maior a consciência em seus membros do vínculo de fraternidade que os une. Esta consciência, assim como remove e dissipa os freqüentes conflitos, assim também atenua e suaviza os amargores que dos conflitos nascem. E se o reino de Cristo abarcara de fato, como de direito abarca, as nações todas, porque deveríamos perder a esperança dessa paz que à Terra veio trazer o Rei pacífico, esse Rei que veio "para reconciliar todas as coisas" (Col 1, 20), "que não veio para ser servido, mas para servir aos outros" (Mc 10, 45) e que, embora "Senhor de todos" (Gál 4, 1), deu exemplo de humildade e principalmente inculcou esta virtude, de envolta com a caridade, acrescentando: "Meu jugo é suave, e é leve minha carga" (Mt 11, 30). Oh! que ventura não pudéramos gozar, se os indivíduos, se as famílias, se a sociedade se deixasse reger por Cristo! "Então, finalmente — para citarmos as palavras que, há 25 anos, Nosso Predecessor Leão XIII dirigia aos Bispos do mundo inteiro — então fora possível sanar tantas feridas; o direito recobrara seu antigo viço, seu prestígio de outras eras; então tornaria a paz com todos os seus encantos e cairiam das mãos armas e espadas, quando todos de bom grado aceitassem o império de Cristo, Lhe obedecessem, e toda língua proclamasse que "Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre" (Ene. Annum Sacrum).

A FESTA DE JESUS CRISTO-REI

18. E a fim de que a sociedade cristã goze largamente de tão preciosas vantagens e para sempre as conserve, é mister que se divulgue quanto possível o conhecimento da dignidade real de Nosso Salvador. Ora, nada pode, pelo que Nos parece, conseguir melhor este resultado, do que a instituição de uma festa própria e especial em honra de Cristo-Rei.

Influência da liturgia na vida cristã.

19. Com efeito, para instruir o povo nas verdades da fé e levá-lo assim às alegrias da vida interna, mais eficazes que os documentos mais importantes do Magistério eclesiástico são as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos do Magistério, de fato, apenas alcançam um restrito número de espíritos mais cultos, ao passo que as festas atingem e instruem a universalidade dos fiéis. Os primeiros, por assim dizer, falam uma vez só, as segundas falam sem interminência de ano para ano; os primeiros dirigem-se, sobretudo, ao entendimento; as segundas influem não só na inteligência, mas também no coração, quer dizer — no homem todo. Composto de corpo e alma, precisa o homem dos incitamentos exteriores das festividades, para que, através da variedade e beleza dos sagrados ritos, recolha no ânimo a divina doutrina, e, transformando-a em substância e sangue, tire dela novos progressos em sua vida espiritual.

Origem histórica e providencial das festas na Igreja.

20. Além disso, ensina-nos a própria história, que estas festividades litúrgicas foram introduzidas, no decorrer dos séculos, umas após outras, para responder a necessidades ou vantagens espirituais do povo cristão. Foram-se constituindo para fortalecer os ânimos em presença de algum perigo comum, para premunir os espíritos contra os ardis da heresia, para mover e inflamar os corações a celebrar com mais ardente piedade algum mistério de nossa fé ou algum benefício da divina graça. Assim é que, desde os primeiros tempos da era cristã, quando, acossados das mais cruentas perseguições, os fiéis começaram, com sagrados ritos, a comemorar os mártires, para que — como diz S. Agostinho — "as solenidades dos mártires fossem exortação ao martírio" (Sermo 47, de Sanctis). As honras litúrgicas, mais tardes decretadas aos confessores, às virgens, às viúvas, contribuíram singularmente para promover nos fiéis o zelo pela virtude, indispensável mesmo em tempo de paz. Especialmente as festas em honra da Virgem Beatíssima fizeram com que o povo cristão não só tributasse à Mãe de Deus, sua Protetora por excelência, culto mais assíduo, senão que ao mesmo tempo fosse de contínuo crescendo seu amor filial à Mãe que o Redentor lhe deixara como que em testamento. Dentre os benefícios que dimanaram do culto público e legitimamente prestado à Mãe de Deus e aos Santos do Céu, não é o menor a vitória constante com que a Igreja se cobriu de louros, ao debelar e repelir a heresia e o erro. E nisto devemos admirar os desígnios da Divina Providência, que, segundo costuma, tira o bem do mal. Permitiu que, de tempos a tempos, entibiasse a fé e a piedade popular; permitiu que doutrinas errôneas armassem insídias à piedade católica, mas sempre com o intuito de fazer finalmente fulgir a verdade com novo esplendor e mover os fiéis, espertos da tibieza, a tenderem com novo zelo a graus mais elevados de santidade e perfeição cristã. Idêntica é a origem, idênticos os frutos que produziram as solenidades recentemente introduzidas no calendário litúrgico. Tal é a festa do "Corpus Christi", instituída quando se esfriava a reverência e o culto para com o SS. Sacramento; celebrada com brilho singular, protraída por oito dias de suplicações coletivas, a nova solenidade devia reconduzir os povos à adoração pública do Senhor. Tal é a festa do Coração Santíssimo de Jesus estabelecida na época em que, abatidos e desalentados pelas tristes doutrinas e o rigorismo sombrio do jansenismo, os fiéis sentiam seus corações regelados e com escrúpulo deles excluíam todo sentimento de amor de Deus e a esperança de conseguirem a eterna salvação.

Oportunidade da festa.

21. Para Nós também soou a hora de provermos às necessidades dos tempos presentes e de opormos um remédio eficaz à peste que corrói a sociedade humana. Fazemo-lo, prescrevendo ao universo católico o culto de Cristo-Rei. Peste de nossos tempos é o chamado "laicismo", com seus erros e atentados criminosos.

Excessos do laicismo.

22. Como bem sabeis, Veneráveis Irmãos, não é num dia que esta praga chegou à sua plena maturação; há muito, estava latente nos estados modernos. Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o gênero humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus.

Frutos perniciosos do laicismo.

23. Os frutos sobremodo amargosos que, tantas vezes e com tanta persistência, produziu esta apostasia dos indivíduos e dos estados, que desertam a Cristo, expendemo-los na Encíclica "Ubi arcano". Tornamos a lamentá-los hoje. Frutos desta apostasia são os germes de ódio esparsos por toda parte, as invejas e rivalidades entre nações, que alimentam as discórdias internacionais e dificultam ainda agora a restauração da paz; frutos desta apostasia as ambições desenfreadas, que muitas vezes se encobrem com a máscara do interesse público e do amor da pátria, e suas tristes conseqüências: dissensões civis, egoísmo cego e desmedido, sem outro fito nem outra regra mais que vantagens pessoais e proveitos particulares. Fruto desta apostasia a perturbação da paz doméstica, pelo esquecimento e desleixo das obrigações familiares, o enfraquecimento da união e estabilidade no seio das famílias, e por fim o abalo na sociedade toda, que ameaça ruir.

Pusilanimidade de certos católicos.

24. A festa, doravante ânua, de "Cristo-Rei" dá-nos a mais viva esperança de acelerarmos a tão desejada volta da humanidade a seu Salvador amantíssimo. Fora, com certeza, dever dos católicos, apressar e preparar esta volta com diligente empenho; a muitos deles, contudo, pelo que parece, não toca, na sociedade civil, o posto e a autoridade que conviriam aos apologistas da fé. Talvez deva este fato atribuir-se à indolência e timidez dos bons que se abstêm de toda resistência, ou resistem com moleza, donde provém, nos adversários da Igreja, novo acréscimo de pretensões e de audácia. Mas, desde que a massa dos fiéis se compenetre de que é obrigação sua combater com valentia e sem tréguas sob os estandartes de Cristo-Rei, o zelo apostólico abrasará seus corações, e todos se esforçarão de reconciliar com o Senhor as almas que o ignoram ou dele desertaram; todos, enfim, se esforçarão por manter inviolados os direitos do próprio Deus.

Protesto e reparação.

25. Mas não basta. Uma festa, anualmente celebrada por todos os povos em homenagem a Cristo-Rei, será sobremaneira eficaz para condenar e ressarcir, de algum modo, esta apostasia pública, tão desastrada para as nações, gerada pelo laicismo. Com efeito, quanto mais vergonhosamente se passa em silêncio, quer nas conferências internacionais, quer nos Parlamentos, o nome suavíssimo do nosso Redentor, tanto mais alto o devemos aclamar, tanto mais devemos reconhecer os direitos que a Cristo conferem sua dignidade e poder real.

CONVENIÊNCIAS ATUAIS DA INSTITUIÇÃO DA FESTA.

Precedentes da festa de Cristo-Rei.

26. E quem não vê que, desde os últimos anos do século passado, se ia, de modo admirável, preparando o caminho à instituição desta festa? Ninguém, com efeito, ignora como, com livros que se escreveram nas várias línguas do mundo inteiro, este culto foi explicado e doutamente defendido. Sabem todos que a autoridade e realeza de Cristo foi já reconhecida pela piedosa prática de se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo ato. Antes, por iniciativa e direção de Leão XIII, o universo gênero humano foi felizmente consagrado a este Coração Santíssimo, no correr do Ano Santo de 1900. Não podemos preterir os congressos eucarísticos que nossa época viu multiplicar-se em tão grande número. Tão bem serviram à causa da solene proclamação humana. Reunidos para apresentar à veneração e às homenagens populares de uma diocese, de uma província, de uma nação, ou mesmo do mundo inteiro, Cristo-Rei, oculto sob os véus eucarísticos, esses congressos, em conferências realizadas nas suas assembléias, em sermões proferidos nas igrejas, por meio da exposição pública ou da adoração em comum do Santíssimo Sacramento e de grandiosas procissões, enaltecem a Cristo como a Rei que de Deus receberam os homens. Este Jesus, que os ímpios recusaram acolher quando veio a seu reino, pode-se dizer, com toda a verdade, que o povo cristão, movido de uma inspiração divina, vai arrancá-l'O ao silêncio e, por assim dizer, à obscuridão dos templos, para levá-l'O, qual triunfador, pelas ruas das grandes cidades e reintegrá-1'O em todos os direitos de sua realeza.

Excelentes disposições dos fiéis ao saírem do jubileu.

27. Para a realização deste Nosso desígnio, de que acabamos de falar, oferece-Nos ensejo sumamente oportuno o "Ano Santo" que finda. Este ano veio relembrar ao espírito e ao coração dos fiéis os bens celestes que sobrepujam todo sentimento natural. Em sua bondade infinita, Deus restitui a uns a sua graça, e confirma a outros no bom caminho, infundindo-lhes novo ardor para aspirarem a dons mais perfeitos. Quer atendamos às numerosas súplicas que nos foram dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se deram no correr do "Ano Santo", sobeja razão nos assiste de pensarmos que deveras para Nós soou a hora de proferirmos a sentença tão ansiosamente de todos aguardada e que decretemos uma festa especial em honra de Cristo, Rei de todo o gênero humano. Durante este ano, com efeito, como a princípio dissemos, este divino Rei, deveras admirável em seus Santos, conquistou novos triunfos, com a elevação às honras dos altares de mais um manípulo de soldados seus. Durante este ano, uma exposição extraordinária pôs ante os olhos do mundo as fadigas e, de algum modo, os próprios trabalhos dos arautos do Evangelho, e todos puderam admirar as vitórias ganhas por esses campeões de Cristo, para a extensão do seu reino; durante este ano, finalmente, com o centenário do Concílio de Nicéia, comemoramos, contra os seus detratores, a defesa e definição do dogma da consubstancialidade do Verbo Humanado com seu Pai, verdade na qual descansa, como em fundamento, a soberania de Cristo sobre todos os povos.

Data e modalidade da festa.

28. Portanto, em virtude de Nossa autoridade apostólica, instituímos a festa de "Nosso Senhor Jesus Cristo Rei", mandando que seja celebrada cada ano, no mundo inteiro, no último domingo de Outubro imediato à solenidade de Todos os Santos. Prescrevemos igualmente que, cada ano, se renove, nesse dia, a consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, que já Nosso Predecessor de saudosa memória Pio X ordenara se fizesse anualmente. Contudo, queremos que, neste ano, a renovação se faça a 31 de Dezembro; nesse dia, celebraremos missa pontifical em honra de "Cristo-Rei", e mandaremos proferir, em Nossa presença, o ato de consagração. Quer parecer-Nos que não pode haver melhor encerramento do "Ano Santo", e que destarte daremos a "Cristo, Rei Imortal dos séculos", o testemunho mais eloqüente de nossa gratidão e do reconhecimento do universo católico, de quem Nos fazemos intérpretes, pelos benefícios que, neste período de graças, concedeu a Nós mesmo, à Igreja, à cristandade toda.

Objeto formal da nova festa.

29. É escusado, Veneráveis Irmãos, explicar-vos longamente os motivos de uma festa especial em honra de "Cristo-Rei". Pois, conquanto outras festas, já existentes, enalteçam e de algum modo glorifiquem sua dignidade real, basta, contudo, observar que, se todas as festas de Nosso Senhor têm a Cristo, segundo a linguagem dos teólogos, por "objeto material", de modo algum é o poder e apelativo de Rei "objeto formal" das mesmas.

Seu lugar no ciclo litúrgico.

30. Fixando a nova festa em um domingo, quisemos que o clero não fosse o único em prestar suas homenagens a "Cristo-Rei", com a celebração do Santo Sacrifício e a reza do Santo Ofício, mas que o povo, desimpedido de suas ocupações ordinárias, e animado de santa alegria, pudesse dar a Cristo, como a seu Senhor e Soberano, um manifesto testemunho de obediência. Finalmente mais apropriado Nos pareceu o último domingo de Outubro, porque este domingo, em certo modo, encerra o ciclo do ano litúrgico; destarte, os mistérios da vida de Jesus Cristo, comemorados no decorrer do ano que finda, terão na solenidade de "Cristo-Rei" seu como termo e coroa, e antes de celebrar a glória de todos os Santos, a liturgia proclamará e enaltecerá a glória d'Aquele que em todos os Santos e em todos os eleitos triunfa. É dever, é direito vosso, Veneráveis Irmãos, fazer preceder a festa por uma série de instruções que se dêem, em dias determinados, nas diferentes paróquias, para instruir acuradamente o povo da natureza, significado e importância desta festa, por onde os fiéis regulem a sua vida em modo a torná-la digna de súbditos leais e submissos de coração à soberania do Divino Rei.

Esperanças e augúrios.

31. Ao fecharmos esta carta, quiséramos ainda, Veneráveis Irmãos, expor-vos brevemente os frutos, que, tanto para a Igreja e a sociedade civil, como para cada um dos fiéis, esperamos deste culto público prestado a Cristo-Rei.

Melhor compreensão dos direitos da Igreja.

32. A obrigação de tributar à soberania de Nosso Senhor as homenagens, a que nos referimos, relembra, juntamente, aos homens os direitos da Igreja. Instituída por Cristo, que lhe deu a forma orgânica de sociedade perfeita, exige, em virtude deste direito, que dimana de sua origem divina e que ela não pode abdicar, a plena liberdade, a independência absoluta do poder civil. No desempenho de sua divina missão, de ensinar, reger e conduzir à eterna felicidade todos os membros do reino de Cristo, não pode, de modo algum, depender de vontade estranha. Antes, idêntica liberdade deve o estado conceder às ordens e congregações religiosas de ambos os sexos, pois são os auxiliares mais firmes dos Pastores da Igreja, os que mais eficazmente se empenham em difundir e confirmar o reinado de Cristo, primeiro debelando em si, com a profissão religiosa, o mundo e sua tríplice concupiscência, e depois, pelo fato de haverem abraçado uma profissão de vida mais perfeita, fazendo resplandecer aos olhos de todos, com fulgor contínuo e cada dia crescente, esta santidade de que o divino Fundador quis fazer uma nota distinta de sua Igreja autêntica.

Restauração do culto público e oficial.

33. Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes.

Grande impulso à piedade dos fiéis.

34. Que energias, além disso, que virtude não poderão os fiéis haurir da meditação destas verdades, para amoldar seus espíritos aos princípios verdadeiros da vida cristã! Se todo o poder foi dado ao Senhor Jesus, no céu e na terra, se os homens, resgatados pelo seu sangue preciosíssimo, se tornam, com novo título, súditos de seu império, se, finalmente, este poder abraça a natureza humana em seu conjunto, é claro que nenhuma de nossas faculdades se pode subtrair a essa realeza. É mister, pois, que reine em nossas inteligências: com plena submissão, com adesão firme e constante, devemos crer as verdades reveladas e os ensinos de Cristo. É mister que reine em nossas vontades: devemos observar as leis e os mandamentos de Deus. É mister que reine em nossos corações: devemos mortificar nossos afetos naturais, e amar a Deus sobre todas ,as coisas. É mister que reine em nossos corpos e em nossos membros: devemos transformá-los em instrumentos, ou, para falarmos com S. Paulo (Rom 6, 13), "em armas de justiça, oferecidas a Deus", para aumento da santidade de nossas almas. Eis os pensamentos que, propostos à reflexão dos fiéis e atentamente ponderados, hão de facilmente levá-los a mais elevada perfeição.

Augúrio final.

35. Praza a Deus, Veneráveis Irmãos, que os homens, afastados da Igreja, procurem e aceitem, para salvação de suas almas, o jugo suave de Cristo. Quanto a nós todos, por divina misericórdia, súbditos e filhos seus, queira Deus que levemos este jugo, não de má vontade, mas com prazer, mas com amor, mas santamente. Assim, no decorrer de uma vida pautada pelas leis do reino do céu, recolheremos, alegres, grande cópia de frutos, e mereceremos que Cristo, reconhecendo-nos por bons e fiéis servidores de seu reino terrestre, nos admita, depois, a participar com Ele da eterna felicidade e da glória sem fim em seu reino celeste.

Aceitai, Veneráveis Irmãos, ao decorrerem as festas natalícias do Senhor, este presságio e este augúrio, como prova de Nosso paternal afeto, e, como penhor de divinos favores, recebei a bênção apostólica, que, com toda a alma, vos concedemos a Vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e à vossa grei.

Dada em Roma, junto a S. Pedro, aos 11 de Dezembro do Ano Santo de 1925, quarto do Nosso Pontificado. PIO PP. XI

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A única versão em português da Encíclica que encontramos na web está disponível em
No ano passado apenas fizemos referência ao link. Desta vez retiramos daí o texto, omitindo o número das páginas do documento em sua versão impressa, de 1950.

Por Luís Augusto, membro da ARS