quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Catequese sobre a Comunhão frequente, por São João Maria Vianney

Pax et bonum!

Como que complementando os dizeres do Santo em suas catequeses sobre a Sagrada Comunhão e sobre a Presença Real, segue nossa tradução de sua catequese sobre a Comunhão frequente.
Que seja de bom proveito para todos!

Meus filhos, todos os seres na criação precisam ser alimentados, para que possam viver; para este propósito Deus fez as árvores e as plantas crescerem; é uma mesa bem servida, para a qual os animais vêm e tomam o alimento que se adequa a cada um. Mas a alma também deve ser alimentada. Onde, então, está a sua comida? Meus irmãos, a comida da alma é Deus. Ah! Que belo pensamento! A alma não pode alimentar-se de nada além de Deus. Só Deus pode bastar para isto; só Deus pode enchê-la; só Deus pode saciar sua fome; ela absolutamente precisa do seu Deus! Em todas as casas há um lugar onde as provisões da família são mantidas; é a despensa. A igreja é a casa das almas; é a casa que pertence a nós, que somos cristãos. Bem, nesta casa há uma despensa. Vedes o tabernáculo? Se fosse perguntado às almas dos cristãos "O que é aquilo?", vossas almas responderiam "É a despensa". Não há nada tão grande, meus filhos, quanto a Eucaristia! Ponde todas as boas obras do mundo contra uma boa Comunhão; elas parecerão um grão de poeira ao lado de uma montanha. Fazei uma oração quando tiverdes o bom Deus no vosso coração; o bom Deus não poderá negar-vos nada, se lhe oferecerdes seu Filho, e os méritos de sua Santa Paixão e Morte. Meus filhos, se tivéssemos entendido o valor da Santa Comunhão, evitaríamos as mínimas faltas, a fim de podermos ter a felicidade de fazê-la mais frequentemente. Deveríamos manter nossas almas sempre puras aos olhos de Deus. Meus filhos, suponho que vos confessastes hoje, e que vigiareis sobre vós mesmos; vós estareis felizes pelo pensamento de que amanhã tereis a alegria de receberdes o bom Deus no vosso coração. Nem sereis capazes de ofender o bom Deus amanhã; vossas almas estarão todas embalsamadas com o precioso Sangue de nosso Senhor. Ó, que linda vida!
Ó, meus filhos, como será bela na eternidade a alma que digna e frequentemente recebeu o bom Deus! O Corpo de nosso Senhor brilhará através de nosso corpo, seu adorável Sangue através do nosso sangue; nossa alma estará unida à alma de nosso Senhor por toda a eternidade. Lá ela gozará a pura e perfeita felicidade. Meus filhos, quando a alma de um cristão que recebeu nosso Senhor entra no paraíso, ela aumenta a alegria do Céu. Os anjos e a Rainha dos anjos vêm ao encontro dela, porque eles reconhecem o Filho de Deus naquela alma. Então, será recompensada aquela alma, pelas dores e sacrifícios que suportou em sua vida na terra. Meus filhos, nós sabemos quando uma alma recebeu dignamente o Sacramento da Eucaristia. Ela fica tão submersa no amor, tão penetrada e mudada, que não mais é para ser reconhecida em suas palavras e ações... Ela agora é humilde, é gentil, é mortificada, é cheia de caridade e é modesta; ela está em paz com todos. É uma alma capaz dos maiores sacrifícios; resumindo, vós não a reconheceríeis.
Ide, pois, para a Comunhão, meus filhos; ide até Jesus com amor e confiança; ide e vivei com ele, a fim de viverdes por ele! Não digais que tendes muito o que fazer. Não disse o Divino Salvador, "Vinde a mim, todos vós que estais cansados a carregar pesado fardo, e eu vos aliviarei"? Podeis resistir a convite assim tão cheio de amor e ternura? Não digais que não sois dignos disto. É verdade, vós não sois dignos; mas sois necessitados. Se nosso Senhor tivesse levado em conta nossa situação de indignos, ele jamais teria instituído seu belo Sacramento de amor: pois ninguém no mundo é digno dele, nem os santos, nem os anjos, nem os arcanjos, nem a Santíssima Virgem; mas ele levou em conta as nossas necessidades, e todos temos necessidade dele. Não digais que sois pecadores, que sois miseráveis demais, e que por esta razão não ousareis aproximar-vos. Preferiria ouvir-vos dizer que estais muito doentes, e que por isso não tomareis medicamento algum e nem ireis ao médico.
Todas as orações da Missa são uma preparação para a Comunhão; e toda a vida de um cristão deve ser uma preparação para esta grande ação. Temos que trabalhar para merecermos receber nosso Senhor todo dia. Como nos devemos sentir humilhados ao vermos os outros indo até a mesa sagrada enquanto permanecemos imóveis em nosso lugar! Quão feliz é um anjo da guarda que conduz uma bela alma à mesa sagrada! Na igreja primitiva comungava-se todo dia. Quando os cristãos esfriaram, trocaram o Corpo de nosso Senhor por pão bento; era uma consolação, mas era uma humilhação também. Tratava-se realmente de um pão abençoado, mas não era o Corpo e o Sangue de nosso Senhor!
Há algumas pessoas que todo dia fazem uma comunhão espiritual com pão bento. Se estamos privados da Comunhão Sacramental, façamos no lugar dela, tanto quanto pudermos, a comunhão espiritual, que podemos fazer em todo momento; pois devemos ter sempre um desejo inflamado de receber o bom Deus. A Comunhão é para a alma como o sopro num fogo que está começando a se apagar, mas que ainda tem várias brasas acesas; nós sopramos e o fogo se reacende. Depois da recepção dos Sacramentos, quando sentirmos que estamos afrouxando no amor de Deus, recorramos imediatamente à comunhão espiritual. Quando não pudermos vir para a igreja, voltemos-nos para a direção do sacrário: uma parede não nos pode separar do bom Deus; rezemos cinco Pai-nossos e cinco Ave-Marias para fazer uma comunhão espiritual. Nós só podemos receber o bom Deus apenas uma vez por dia; uma alma inflamada de amor compensa isto pelo desejo de recebê-lo a todo momento. Ó, homem, como és grande! Alimentado com o Corpo e o Sangue de um Deus! Ó, que vida doce é esta vida de união com o bom Deus! É o Céu sobre a terra; não há mais problemas, não há mais cruzes! Quando tendes a felicidade de terdes recebido o bom Deus, sentis uma alegria, uma doçura no vosso coração por algum momento. As almas puras sentem-no sempre, e nesta união consiste sua força e sua felicidade.

Fonte: The Blessed Curé of Ars in his catechetical instructions, Chapter 13 - Catechism on Frequent Communion

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 23 de setembro de 2012

"Os Mártires da Era Meiji" ou descoberta e martírio dos católicos japoneses no séc. XIX

Pax et bonum!

Embora o foco do nosso blog seja a Sagrada Liturgia, publicamos aqui mais uma tradução nossa, com o testemunho heroico dos católicos japoneses no fim do séc. XIX.
Que a constância e a liberdade interior dos mártires nos revigore e anime neste Ano da Fé que se aproxima!
O original inglês encontra-se aqui: http://pweb.sophia.ac.jp/britto/xavier/flynn/flynn01.html
Takagi Sen'mon & Moriyama Jinsaburo
Os líderes cristãos da bela história que segue abaixo
***

OS MÁRTIRES DA ERA MEIJI
Pe. Robert Flynn, SJ

Esta história aconteceu há cerca de 140 anos atrás (1). É uma história tocante e entusiasmante, e merece ser melhor conhecida. No tempo do nascimento do Japão moderno, 153 cristãos de Nagasaki foram exilados para a cidade montanhosa de Tsuwano no oeste do Japão. Lá, no Passo da Virgem, eles sofreram, e 36 deles morreram. Os líderes sobreviventes nos deixaram um testemunho ocular.

Descobertos os cristãos escondidos (2)

Tokugawa Yoshinobu
Quando o regime Tokugawa (3) começou a ruir e o Japão foi forçosamente aberto por Perry (4) em 1854, o Cristianismo ainda era ilegal. O duro edito de 240 anos antes ainda vigorava, e nenhum japonês podia ser conhecido como cristão, sob pena de morte.
Algumas das nações estrangeiras que estabeleceram relações diplomáticas com o Japão – França, Inglaterra, Estados Unidos – pediram ao governo que concedesse um lugar de culto para as famílias dos diplomatas estrangeiros. Esta permissão foi dada, e então a primeira igreja católica foi construída pelos franceses em 1865, em Oura (parte de Nagasaki) (5). Centenas de japoneses assistiram curiosamente a construção do “templo francês”, mas no dia de sua solene dedicação ninguém ousou ser visto por perto.
Comodoro Perry

Cerca de um mês depois, em 17 de março de 1865, teve lugar um inesquecível incidente. Pe. Petitjean (6), missionário estrangeiro de Paris, estava em oração na obscura igreja, quando uns poucos japoneses entraram silenciosamente. O líder deles cautelosamente perguntou: “O senhor reza para Santa Maria?” O padre apontou para a imagem da Santíssima Virgem. Os visitantes trocaram silenciosos olhares de satisfação, e o líder disse: “Padre, nós temos o mesmo coração que o senhor”.
Eles tinham vindo de Urakami, um distrito de Nagasaki do outro lado do pico de uma montanha. E eles anunciaram que lá havia vários outros cristãos escondidos como eles!
O mundo inteiro ficou assustado e maravilhado: estes cristãos, vivendo sob interdito e na sombra da morte, mantiveram a fé por 240 anos, sem nenhum padre, sem nenhum sacramento, sem nenhuma Bíblia! Nenhuma página da história cristã pode se comparar a esta na fidelidade e na perseverança.
Oura Tenshudou antes da bomba atômica


(1) - N.T. O texto original diz 120, dado o ano em que foi escrito.
(2) - N.T. Cristãos escondidos ou Kakure Kirishitan.
(3) - N.T. O xogunato, espécie de governo militar. O último shogun, Tokugawa Yoshinobu, governou até 1867.
(4) - N.T. Comodoro Matthew Calbraith Perry, da marinha dos EUA.
(5) - N.T. A igreja é chamada de Oura Tenshudou (lit: Templo do Senhor do Céu de Oura). Tenshu ou Senhor do Céu foi a forma católica tradicional japonesa de se chamar a Deus.
(6) - N.T. Pe. Bernard-Thadée Petitjean, das Missões Estrangeiras de Paris, apontado como Vigário Apostólico do Japão em 11/05/1866 e ordenado bispo em 21/10 do mesmo ano.

Pe. Petitjean
Um problema

Todo o mundo cristão estava jubiloso pelas notícias da descoberta. Mas no Japão havia consternação e um problema. O que o governo japonês faria com esses cristãos?
Num dilema, o governador de Nagasaki enviou a Edo (depois Tokyo) um pedido por direcionamentos. Enquanto isso, ele pôs 68 cristãos na prisão. Era 15 de julho de 1867.
Sob inspeção e tortura na prisão, 21 abandonaram e 47 permaneceram firmes na fé. Outros cristãos foram presos, aumentando o número para 83. Alguns deles foram postos sob tortura tão brutal que todos fraquejaram e apostataram pela palavra, se não pelo coração. Todos menos um: um velho camponês, Sen’emon Takagi (7). Sen’emon, prevendo a perseguição vindoura, já tinha mandado seus dois filhos para a Malásia, exortando-os a aprofundarem seu conhecimento na sua Fé e a voltarem ao Japão como sacerdotes.
Impelido pelos inspetores para seguir os outros em sua “conversão de Cristo” (8), ele retrucou: “Diante de Deus e diante da alma que Deus me deu, isto seria a maior de todas as desgraças. Eu seguirei a Deus, quer o siga com 100 companheiros, quer o siga sozinho”.
O chefe dos inspetores respeitou tal devoção e disse: “Não te exortarei mais. Tens o espírito de um verdadeiro samurai: ser fiel ao próprio senhor até o fim, se preciso sozinho. Podes voltar para casa”.
Quando Sen'emon voltou, os outros lhe perguntaram foi capaz de suportar os tormentos: “Eu sabia que não era forte o suficiente por mim mesmo, então eu rezei ao Espírito Santo”, respondeu.
Logo, os outros que fraquejaram encontraram força na oração com humildade. Eles foram voluntariamente até o magistrado e se anunciaram como cristãos uma vez mais. Foi-lhes mandado esperar a decisão que estava por vir de Edo.
O jovem Imperador Meiji
O falido regime Tokugawa finalmente entrou em colapso, depois de 264 anos. O último shogun foi afastado em novembro de 1867. A restauração do poder ao Imperador foi alcançada. A Era Meiji oficialmente começou em dezembro de 1867.
O novo governo imediatamente ficou diante do problema dos cristãos escondidos. Os competentes e jovens revolucionários, que conquistaram esta restauração, habilidosamente reviveram a antiga e tradicional religião do Shinto (o caminho dos deuses, xintoísmo) como base para a reverência ao Imperador, do qual se ensinava ser descendente e representante dos deuses. Até o budismo perdeu o apoio do governo, e o cristianismo permanecia duramente proibido como até então. Acrescente-se a isso um profundo ressentimento pela intrusão dos estrangeiros, junto com um desejo de modernização e de aceitação pelo mundo ocidental. E agora, mais e mais cristãos escondidos começavam a aparecer. O governo estava num dilema.
Duas soluções foram oferecidas. Uma era: “O banimento ainda está em vigor. Ponham todos os cristãos à espada!” A outra solução era de tolerância, e foi sugerida pelo lorde de Tsuwano, que era o chefe de departamento da Secretaria de Assuntos Religiosos. Ele disse: “Deixem-nos como estão. Estes poucos cristãos de Nagasaki não merecem que sacrifiquemos nossa reputação como um povo civilizado”.
O Imperador Meiji em trajes ocidentais

(7) - N.T. No Japão, normalmente se dá o nome da família primeiro. Como o original inverteu, deixei como está. Portanto, Takagi é o nome da família e Sen'emon é o nome próprio. Em japonês, seu nome é 高木仙右衛門.
(8) - N.T. Ou seja, converter-se do cristianismo para o xintoísmo.

A decisão do governo

A primeira das soluções sugeridas era muito drástica, mas o governo também ainda não estava pronto para admitir a solução da tolerância. Uma solução de compromisso foi então proposta; esta, também, por um acadêmico de Tsuwano (uma cidade pequena, mas importante, nas montanhas do Oeste do Japão). Ele disse: "Convertamo-los ao Shinto. É a antiga religião do Japão e fundamento de nossa história. Estes cristãos são pobres camponeses. Se nós os ensinarmos, tenho certeza de que podemos persuadi-los".
Então o governo decidiu por esta política, e teve início a “reeducação “ dos cristãos de Nagasaki. Eles eram reunidos para uma série de leituras que tinham como objetivo persuadi-los a abandonar a Cristo e adotar o Shinto.
Os cristãos ouviram respeitosamente as palestras, mas se negaram inquebrantavelmente a deixar a sua fé. "Nós mantivemos este coração não obstante grandes provações por 250 anos. Vós pensais que por causa de vossas palestras poderemos trair nossos corações?"

Dispersão para Tsuwano

O próximo passo foi mais drástico. Decidiu-se que aqueles cristãos obstinados deveriam ser arrancados de seus lares e dispersados pelo país.
Eventualmente, 3500 cristãos foram forçados para o exílio. Embarcaram em pequenos grupos para cerca de 20 lugares no Japão: de Kagoshima, no extremo sul de Kyushu, até Nagoya (entre Tokyo e Osaka).  Para a pequena Tsuwano também foi enviado um grupo, apesar de seu tamanho, porque sua antiga universidade era famosa por seus religiosos acadêmicos.
Em 10 de julho de 1868, 28 cristãos (incluindo Sen'emon Takagi e Jinsaburo Moriyama (9)) foram exilados para Tsuwano, onde foram confinados num templo abandonado (Korin-ji). Lá eles foram sujeitos a uma lavagem cerebral, e a severos cortes quanto à alimentação e à vestimenta. Na fraqueza que resultou, seis abandonaram, mas os outros permaneceram inabaláveis.
Falhando a persuasão, as autoridades, guiadas por um jovem administrador de nome Morioka, passaram para métodos mais rígidos. Um deles consistia na prisão em jaulas de cerca de 1m³.

(9) - N.T. Seu nome em japonês é 守山甚三郎.

O primeiro mártir

Estas jaulas infames eram caixas sólidas, de cerca de 1m³, tendo um lado com barras. Os prisioneiros eram postos nela e expostos no lado montanhoso ao frio, à fome e ao isolamento.
Um dos primeiros a ser confinados na jaula foi Wasaburo, de 27 anos. Ele ficou exposto por 20 dias, até suas forças desaparecerem e ele morrer no dia 9 de outubro de 1868. Ele foi o primeiro mártir de Tsuwano.

Yasutaro e Nossa Senhora

No pleno inverno daquele ano, Yasutaro, de 30 anos, foi posto na jaula e sujeito à lavagem cerebral dia e noite por três dias. Foi uma tarefa vã; ele permaneceu firme.
Os outros cristãos estavam preocupados com ele. Sempre quieto, mas alegre e muito generoso, ele costumava partilhar seu escasso alimento com os outros e tomava para si os afazeres mais desagradáveis. Numa gélida noite, Sen'emon e Jinsaburo conseguiram escapar pela porta da prisão e foram furtivamente ao encontro de Yasutaro em sua jaula. Apesar do frio montanhoso do pleno inverno, ele parecia estar tão contente como sempre.
“Não te sentes sozinho e congelando?”, perguntaram-lhe.
“Ó, não, não”, respondeu. “Quase toda noite uma bela senhora vem e me fala coisas maravilhosas. Às vezes ela permanece até a alvorada. Ela está vestida de azul e se parece com a imagem de Santa Maria em nossa igreja de Nagasaki... Mas, por favor, não falem nada disso enquanto eu estiver vivo”.
Imagem da Virgem Maria aparecendo a Yasutaro na jaula
“Yasutaro, se nós pudermos entrar em contato com a tua mãe, o que queres que digamos a ela?”
“Por favor, dizei-lhe que estou feliz por morrer aqui. Eu estou na cruz com nosso Senhor Jesus”.
Sen'emon e Jinsaburo voltaram para o templo para relatar aos outros cristãos, os quais se encheram de alegria e nova coragem pela estranha e maravilhosa notícia. Eles agradeceram a Deus por mandar a Santíssima Virgem para consolá-los.
Uma semana depois, os dois líderes saíram novamente, mas apenas para encontrar a jaula enterrada na neve profunda e Yasutaro morto dentro. Era 22 de janeiro de 1869.

“O Passo da Virgem”

O templo-prisão onde os cristãos foram confinados, e perto do qual estes mártires morreram, estava próximo a uma passagem montanhosa nos arredores de Tsuwano. Em japonês o lugar é chamado de Otome Toge. Em português: “O Passo da Virgem”.
A história remonta a centenas de anos atrás, quando a jovem filha de um lorde deste distrito foi prometida a um jovem príncipe em Kyoto, que, porém, a rejeitou. Em sua desolação, ela vagou por esta passagem e nunca mais foi vista novamente. Em sua honra, o lugar ficou sendo chamado de Passo da Virgem.
O nome, portanto, antecede o martírio em séculos. Mas no ponto de vista das misteriosas aparições para Yasutaro, “o Passo da Virgem” parece ter sido providencialmente cristianizado – é de fato um nome belo e apropriado.

Jinsaburo Moriyama

Jinsaburo Moriyama (Moriyama, o nome da família, vem primeiro em japonês) era um dos líderes dos cristãos aprisionados. Os inquisidores, conduzidos por Morioka, constantemente o exortavam a deixar sua fé cristã e a adorar o ancestral deus-sol. “Nós adoramos o sol que nós vemos”, disse Morioka, “o sol que ilumina nosso caminho e clareia o mundo. Por que adoras a um deus que não podes ver? Deixa desta tolice e segue o Caminho dos Deuses”.
Depois de ouvir por horas este tipo de discurso, Jinsaburo disse: “Senhor, eu tentarei explicar. Supõe que és enviado para longe a negócios. Terminado o trabalho, começas a voltar para casa, mas o dia vai declinando e logo escurece. Na pobre estrada do campo não consegues enxergar três passos à frente. Supõe que um camponês vê teu apuro, acende uma lanterna e diz: ‘Aqui, usa esta lanterna para iluminar teu caminho’. Com a luz da lanterna chegas seguro em casa. Senhor, tu pões a lanterna num pedestal e a ela ofereces teus agradecimentos cheios de veneração?... Não deverias, na verdade, agradecer ao bom camponês que te deu a lanterna? Tu, senhor, dizes-me para adorar o sol que ilumina o nosso caminho. Contudo, nós cristãos oferecemos nossos agradecimentos cheios de veneração ao Deus que fez o sol e o pôs no céu para iluminar o mundo. A ele nós adoramos e louvamos”.
Morioka, furioso com a lógica irrefutável da defesa da fé de Jinsaburo, terminou o interrogatório imediatamente e lançou-o novamente na prisão.
Mais provações estavam guardadas para o dia seguinte.

Provação pelo gelo e pelo fogo

No dia seguinte, Sen'emon e Jinsaburo foram chamados mais uma vez para uma sessão de leitura.
Agora, perto do templo-prisão havia um lago. Ele ainda hoje pode ser visto, mas há 100 anos era umas três vezes maior que agora, que o templo foi derrubado e o lago preenchido.
Naquele inverno, como nevou ininterruptamente por mais de um mês, o lago estava coberto de neve e gelo.
Depois da sessão de lavagem cerebral daquele dia, Morioka jogou os dois líderes fiéis no lago gelado. Tremendo e ofegando, os dois começaram a rezar o “Pai nosso” e o “Meu Deus, eu vos ofereço...”. Os algozes derramaram baldes de água gelada sobre suas cabeças. Finalmente, quando o mais velho dos dois estava a ponto de morrer, eles os puxaram para fora pelos cabelos com umas varas com gancho. Então, com zombaria: “Deveis estar com frio”, lançaram-nos sobre uma fogueira. Posteriormente, diria Jinsaburo, “aquela provação pelo gelo e pelo fogo foi de longe a pior de todas”.
Quase mortos, foram postos novamente na prisão.

Companheiros no exílio

No terceiro ano da Era Meiji (1870), a dispersão dos Cristãos de Urakami foi efetivada. Homens, mulheres e crianças foram forçosamente exilados para diferentes partes do país. 125 foram mandados para Tsuwano, para juntar-se aos que tinham sido mandados dois anos antes. Entre estes estava a irmã mais velha de Jinsaburo, Matsu , e seu irmão mais novo, Yujiro .
Para dar espaço ao novo grupo no velho templo-prisão, Sen'emon e seus companheiros foram transferidos para uma prisão diferente. Por conta disso, Jinsaburo raciocinou: "As autoridades provavelmente dirão aos recém-chegados que todos nós apostatamos, fazendo-os perder a coragem". Assim, com saliva e carvão ele fez uma tinta e escreveu uma nota num pedaço de bambu: "Nós não abandonamos nossa fé em Cristo. Vós, também, sede fiéis, por favor". Ele, então, escondeu a nota na latrina.
Com toda certeza, quando os novos exilados chegaram, as autoridades os exortaram: "Os outros abandonaram sua fé e agora estão vivendo confortavelmente. Agireis sabiamente seguindo o exemplo deles". Isto desanimou os outros, até Matsu encontrar a nota de Jinsaburo e seu desânimo transformar-se em alegria. 
Cada família era chamada por vez e investigada. A fome logo se abateu sobre eles. Kiyojiro, um menino de três anos, foi a primeira vítima do novo grupo. Ele morreu em 24 de janeiro de 1871. Em novembro, mais 24 sucumbiram.

Uma luta de vontades

Mencionamos várias vezes o nome de Morioka. Da mesma idade que o cristão Jinsaburo, a este samurai foi confiada a tarefa de fazer os cristãos em Tsuwano abandonarem sua fé. Era seu primeiro encargo e nisto ele pôs toda a sua energia. A prova de fogo seria a "conversão" de Jinsaburo, rebento de uma importante família de cristãos de Urakami, com a responsabilidade da liderança recebida como herança. Estes dois, o determinado samurai e o cristão resoluto, foram lançados um contra o outro numa luta de vontades que duraria cinco anos.
Tendo falhado na tentativa de enfraquecer sua vontade na provação pelo fogo e pela água, Morioka examinou qual seria o ponto fraco de Jinsaburo, e quando o novo grupo chegou ele pensou tê-lo encontrado: o irmão mais novo de Jinsaburo, Yujiro, de 14 anos. Tendo os ataques diretos a Jinsaburo apenas fortalecido a resolução dos cristãos, ele decidiu atacar indiretamente, tomando vantagem da profunda afeição que Jinsaburo tinha por seu irmão mais novo.
Yujiro estava com medo da dor. Ele costumava dizer ao seu irmão: "Por favor, reza por mim. Se eles começarem a me torturar, tenho certeza que deixarei Cristo. Eu não sei como sofrer".
"Não te preocupes. Nós todos rezaremos. Tu ficarás bem, Yujiro. Tu suportarás", seu irmão o encorajou.

O martírio de Yujiro

Um dia,  início de novembro, Morioka deixou Yujiro despido e amarrado numa cruz nas margens do caminho. Os aldeões vinham, cutucavam-no com varas de bambu e zombavam dele por ser um tolo cristão. "Agora eu partilho dos sofrimentos dele", Yujiro gloriava-se com um sorriso orgulhoso.
A cada insulto e exortação para "abandonar Cristo", ele bravamente respondia com uma só palavra: "Não!"
"Eu serei derrotado por um menino deste tamanho?", pensou Morioka. E então, depois de um dia na cruz, ele tirou Yujiro para uma tentativa diferente.
Desta vez, Morioka pôs o garoto sentado, no estilo japonês (sobre os pés), sobre um tapete de tiras de bambu. Aí, despido e amarrado a um poste, ele foi impiedosamente flagelado. Várias vezes, choros e gemidos escaparam de seus lábios, mas a sua única resposta era sempre: "Não!" Água gelada do lago foi derramada sobre ele. E ainda: "Não!"
Por duas semanas completas o rapaz suportou o frio, a fome e os açoites. Enfim, seu corpo começou a ficar roxo e o fim parecia próximo. Morioka, contudo, não queria que ele morresse. Ademais (como ele mesmo escreveria anos depois), ele começou a se odiar pelo que estava fazendo: "Que faço eu? Torturando uma criança! Eu sou um samurai? Eu sou um homem?" Então ele entregou o menino de volta à sua irmã mais velha, Matsu, que tentou revivê-lo com o seu próprio calor corporal.
Quando Yujiro acordou nos braços da irmã, viu-a chorando. Disse-lhe: "Perdoa-me, irmã. Eu não queria gemer e chorar, mas não pude evitar a princípio".
"Tudo bem. Deve ter sido terrível demais", disse Matsu.
"No início foi", sussurrou Yujiro, "mas no oitavo dia, quando eu estava rezando com todo o meu coração, eu vi um pardalzinho no telhado do templo. Ele estava chorando, também, e então a mãe-pardal veio e o alimentou e ele parou de chorar. Quando eu vi isto, eu conheci a Deus. Eu pensei: 'Se uma mãe-pardal cuida de seu pequeno pássaro, eu sei que nosso Pai no Céu deve estar cuidando de mim, e que Maria-sama (10) levar-me-á para o céu'".
Então, ao passo em que foi enfraquecendo, ele predisse o retorno seguro de Matsu e Jinsaburo para Nagasaki. "E vós, então, tomareis de conta de crianças pequenas por toda a vossa vida, e tu, irmão mais velho, darás o teu primeiro filho a Deus como sacerdote". Com esta profecia, morreu o garoto, aos 26 de novembro.

(10) - N.T. No Japão utilizam-se sufixos de tratamentos após os nomes. "San", por exemplo, é o comum, com certo respeito. "Sama" (Lê-se 'samá'), utilizado no texto para a Virgem Maria, dá um tom de superioridade, exigência de muito respeito.

A pequena Mori

Naquele ano (1870), 25 morreram no Passo da Virgem. Entre eles estava uma pequena garota de 5 anos. Seu nome era Mori.
A mãe de Mori estava numa pequena prisão-armazém bem perto da prisão principal (exatamente no lugar onde hoje está a Capela Memorial). Nesta prisão, estavam confinadas as mulheres e as crianças, embora fosse permitido que as crianças saíssem para correr.
Numa manhã, a mãe de Mori olhou pela janela para ver o que sua filhinha estava fazendo. Ela viu um dos carcereiros aproximar-se da criança com deliciosos biscoitos japoneses na mão. Mostrando à criança as guloseimas, ele disse: "Aqui, come-os. Estás com muita fome, não? Diz que odeias o Cristo, e poderás tê-los. Aqui, come-os."
"Ó, não. Assim não poderei ir para o Céu. Há biscoitos muito mais gostosos no Céu".

Alguns fracos

A história dos fracos também deve ser contada. Há a recordação de que 54 daqueles cristãos exilados em Tsuwano abandonaram a sua fé. É verdade que na fraqueza da fome ou no terror da tortura, eles podem ter gritado: "Eu desisto", mas mesmo assim sua "conversão" não era plenamente reconhecida: não se lhes permitiu que voltassem para casa. Eles tiveram que permanecer em Tsuwano, onde, contudo, receberam alimento e comida e a permissão para trabalhar na cidade. Eles estavam cobertos de vergonha tanto diante do povo da cidade quando diante dos outros cristãos.
Com o dinheiro que ganhavam eles compravam comida e, embora fosse proibido fazê-lo, ofereciam aos outros cristãos. Mas estes se recusavam, dizendo: "Não podemos comer a comida de traidores de Cristo".
Assim, os que tinham fraquejado curvavam suas cabeças ainda mais baixo e diziam: "Por favor, não penseis assim de nós. Por favor, tomai o alimento. Se não o comerdes, morrereis. Tomai-o e rezai por nós".
Com esta ajuda muitos conseguiram sobreviver.

Liberdade e retorno

O governo central que apoiava o Imperador, o qual tinha adotado o compromisso da política de "reeducação" dos crentes escondidos, não estava a par das medidas extremas tomadas em Tsuwano. Missionários estrangeiros fizeram uma representação e finalmente, em 1871, quando o vice-cônsul britânico queixou-se da barbaridade, uma investigação foi feita e revelou os fatos vergonhosos.
Imediatamente um decreto foi promulgado ordenando a soltura dos cristãos. Enquanto isso, todavia, mais oito cristãos, incluindo quatro crianças, morreram, elevando para 36 o número dos mártires do Passo da Virgem.
Quando o decreto chegou, comida e roupas foram dadas aos cristãos, e em 1872 os que tinham se "convertido" podiam voltar para casa. Como estavam envergonhados em ir, os cristãos fiéis escreveram uma carta ao sacerdote, por seus irmãos e irmãs que tinham caído:
"Padre, não sejas severo com os chamados traidores, pois eles nos ajudaram a todos. Graças ao alimento que nos deram, fomos capazes de sobreviver. Por favor, escuta as confissões deles e absolve-os, nós te rogamos".
Os 54 voltaram para Nagasaki em maio, levando esta carta de intercessão.
Os outros tiveram que ficar em Tsuwano, mas as duras medidas tomadas contra eles foram minoradas e, enfim, um ano depois (1873), foram todos mandados para casa. Antes de irem, Morioka e os outros oficiais convidaram Sen'emon e Jinsaburo para um festivo jantar em sua casa, no qual pediram perdão pela sua crueldade e expressaram sua profunda admiração pela rara manifestação de lealdade samurai que tiveram por Cristo, seu senhor.

Algumas notas

Cabe-nos acrescentar algumas notas à nossa história do Passo da Virgem.
A profecia de Yujiro. Seu irmão e sua irmã mais velhos voltaram para Nagasaki. Matsu viveu até os 98 anos e até o fim de sua vida devotou-se à educação cristã das crianças das ilhas Goto, ao largo da costa. O filho mais velho de Jinsaburo tornou-se sacerdote na diocese de Nagasaki, cumprindo a profecia de seu tio martirizado.
Os filhos de Sen'emon Takagi. Antes de estourar a perseguição, Sen'emon tinha enviado seus dois filhos para um seminário menor na Malásia. Depois elecebeu uma carta em Tsuwano, notificando que seus filhos tinham chegado com segurança, mas que um deles estava vítima de uma febre. Na carta (que ainda existe), o Padre Diretor do seminário exorta a todos a serem cristãos no sofrimento. Ele pediu que eles oferecessem seus sofrimentos como penitência por seus pecados e pelos pecados dos outros, e que nunca odiassem aqueles que os estavam perseguindo. "Deveis rezar por eles. Deveis oferecer vossos sofrimentos por aqueles que vos causam dor".
Quando um dos descendentes dos carcereiros leu a carta, em tempos mais recentes, disse: "Eu nunca soube que a religião cristã era tão bela. Eu nunca soube".
Pedras memoriais. Vários anos depois dos martírios do Passo da Virgem, a família Takagi quis honrar seu antepassado Sen'emon e seus companheiros. Eles talharam 36 pedras de suas próprias montanhas para colocarem os nomes dos mártires na sepultura comum em Sennintsuka (no vale próximo ao Passo da Virgem). Em 1974, quando o prefeito e o povo de Tsuwano tomaram conhecimento deste plano, eles foram ao pároco e disseram: "Padre, nós mesmo queremos tomar estas pedras nos ombros e levá-las ao sepulcro. Queremos fazer penitência pelos erros de nossos antepassados".
Um estranho encontro. No verão de 1918, Jinsaburo, já idoso, recebeu uma carta de ninguém menos que o filho de seu perseguidor, Morioka. Ele disse que tinha se tornado cristão, que tinha entrado numa ordem religiosa e que queria encontrar Jinsaburo em Tsuwano. Ele mesmo comprou a passagem de trem para esta jornada. Quando Jinsaburo chegou, caminharam até o lugar do templo-prisão, e lá Morioka ajoelhou-se na grama, chorando e pedindo: "Por favor, perdoa meu pai pelos pecados dele".
Lágrimas correram dos olhos de Jinsaburo, também, ao abraçar Morioka e dizer: "Que alegria é ver que te tornaste um cristão"! Eles se ajoelharam juntos para agradecer a Deus pelos seus misteriosos dons de salvação.
A Capela de Nossa Senhora. Houve uma pequena bela igreja na cidade desde 1931. Atualmente, é uma réplica do "templo francês" de Nagasaki, o Oura Tenshudo, que foi declarado Patrimônio Nacional. Mas somente a partir de 1951 uma capela foi finalmente construída no Passo da Virgem.
A capela memorial de Santa Maria, construída no local do templo-prisão
A construção desta capela foi a realização de um sonho do Pe. Nebel, SJ, que foi pastor da igreja por vários anos e que depois tomou o nome japonês de Yujiro Okazaki. Em honra dos mártires e da bondade materna de Maria-sama, ele erigiu a Capela Memorial de Maria, no lugar do antigo templo Korin-ji, no Passo da Virgem.
Todo ano, desde então, ocorre o Festival do Passo da Virgem (Otome Toge Matsuri) no dia 3 de maio. Milhares de peregrinos de todo Japão vêm a Tsuwano neste dia e, junto com os oficiais da cidade, caminham em solene e alegre procissão pela cidade, subindo o vale até a Capela Memorial, louvando a Deus pela glória dos mártires e pela guia da Bem-aventurada Senhora.

A história continua

O atual pastor de Tsuwano, o sucessor do Pe. Nebel, tem uma das menores paróquias do Japão, mas pode dizer que talvez seja um dos padres mais ocupados no país. Todo dia, centenas de visitantes, e às vezes milhares, vêm à sua igreja, da cidade até o Passo da Virgem, onde ele conta e reconta a história dos mártires, nunca perdendo seu entusiasmo, vendo a luz do interesse e da admiração nos olhos dos que o escutam.
Um dia um professor de uma universidade veio e contou ao padre: "Padre, eu sempre trago meus melhores alunos aqui. Eu não sou um cristão, mas eu acredito que aqui há uma mensagem para meus alunos. Como professor de uma famosa universidade, sou um homem de sorte, mas como educador, frequentemente me sinto um nada: meus alunos têm boas cabeças e bons corações, mas quando eu lhes pergunto: 'O que pensas em fazer após a graduação?' Eles apenas dizem: 'Não sei'. Eles não tem visão de vida, nada pelo que viver, nada pelo que entregar suas vidas. Aqui, no Passo da Virgem, eles podem ouvir e sentir que apenas há 100 anos atrás aqueles jovens de Nagasaki se dedicaram na fé e agora são honrados pelo mundo inteiro. Eu espero que aqui eles aprendam o significado da dedicação a uma meta".

O pastor diz: "Eu sei por experiência que, na maioria das paróquias do Japão, a evangelização é muito difícil, desencorajadora de partir o coração. Mas não em Tsuwano. Aqui, da manhã até a tarde o povo vem e escuta. Eles vêm ouvir a história dos mártires. Estes mártires foram japoneses comuns, como quaisquer outros. Eles não eram altamente educados, não tinham se convertido após um longo estudo e certa luta. Eram almas simples, almas puras. Estas pessoas fazem um grande apelo à presente geração. Jovens mães que escutam a história de Yujiro lembram os próprios filhos e rezam a Yujiro para que seus meninos cresçam com um coração forte e verdadeiro. Outros pensam em Mori-chan, de 5 anos, e rezam a ela pedindo que ajude no crescimento de suas filhinhas. Aqui em Tsuwano a mensagem se espalha numa centena de maneiras simples e belas".

Num dia de outono uma mãe veio. "Padre, nas férias de verão estive aqui com meu filhinho. Nós ouvimos o que o senhor contou no Passo da Virgem. No fim daquele mês, meu filho foi acometido de febre alta. Ele estava deitado e eu estava ao lado dele. Então ele olhou para mim e disse: 'Mamãe, eu não preciso me preocupar'.
'Claro, você não tem que se preocupar. Eu estou aqui com você'.
'Sim, mamãe, eu sei que estou seguro. Porque a senhora é como a mãe-pardal de que o padre estava falando em Tsuwano quando estivemos lá. Então não preciso me preocupar'."
Ela ficou tão tocada que, logo que seu filho se recuperou, ela voltou para contar ao padre como a história de Yujiro e o pardal ajudaram na recuperação de seu filho.

A magnificência do ambiente montanhês, a fama da antiga cidade com sua herança literária, suas ruas com lanternas, suas águas correntes com carpa dourada, a aura dos mártires, a pompa orante do festival de maio: estas coisas fizeram de Tsuwano e do Passo da Virgem matéria de muitos programas de televisão e de artigos de revista nos anos recentes. E isto, por sua vez, fez aumentar o número de visitantes à cidade e ao santuário.

As telhas têm seu próprio segredinho. Por causa das goteiras, todo o telhado teve que ser substituído. Assim, 1200 telhas foram empilhadas ao pé da estrada íngreme, prontas para serem carregadas. Ao lado delas, material para escrita e um cartaz que dizia:
“Estas telhas são para o telhado da capela. Se você for tão gentil a ponto de carregar pelo menos uma até a capela, você pode usar o material para escrita para escrever seu nome no outro lado da telha e tornar-se parte da capela de Maria-sama”.
Dentro de três dias todas as telhas tinham sido levadas para a capela, com pessoas ocupadas em escrever seus nomes e endereços no outro lado delas.
Um jovem homem estava carregando duas telhas. “Você é muito gentil”, disse o padre, “carregando duas telhas”. O jovem homem voltou-se e apontou para trás: sua namorada estava vindo. “Uma é por ela”, disse ele.
Depois outro foi visto carregando três. “Este tem duas namoradas?”, pensou o padre, e disse: “Estas devem estar pesando”. “Não, padre, não é muito pesado. Elas são por nós três”, respondeu e apontou para sua jovem esposa grávida.

Cartas e mais cartas chegam dos visitantes. Alguns escrevem que estão estudando para se tornarem cristãos. Cristãos que caíram escrevem que começaram a voltar para a Igreja. Alguns casais jovens voltam para se casar em Tsuwano, onde seu romance encontrou uma nova profundidade.
A história dos mártires continua.

Claro, o significado do martírio às vezes foge. “Por que Cristo não ajudou esse povo?” é uma pergunta feita comumente.
Esta é uma graça de que temos necessidade através do exemplo e da intercessão dos mártires: a graça de compreendermos que Ele, que disse: “Não há maior amor do que dar a vida pelo amigo”, não nos pode dar maior graça do que a força para darmos nossas vidas testemunhando nosso amor por Ele. Esta é a graça que Ele deu aos mártires do Passo da Virgem.
Bendito seja seu santo nome!

Pe. Robert M. Flynn, SJ, um jesuíta dos Estados Unidos da América, passou vários anos no Japão como missionário. Ele é bastante conhecido no Japão como o autor de uma série de livros-texto de inglês, ainda hoje usados em mais de 100 escolas, tendo sido editados mais de 40 vezes! Após sua carreira como professor de idioma em colégios jesuítas, ele recebeu o desafiador trabalho de ser pastor em Tsuwano, onde fica o Otome Toge. “Martyrs of the Meiji Era” (originalmente intitulado “Não há amor maior: a história do Passo da Virgem”) é um dos vários livretos que o Pe. Flynn escreveu sobre os mártires da Era Meiji.

© Direitos reservados à Província Jesuíta do Japão, 2001. Não pode ser reproduzido em qualquer meio sem permissão. Publicado na web com a permissão do autor.
Traduzido e publicado em português por Luís Augusto Rodrigues Domingues, com permissão concedida em 20/09/2012 pelo sr. Dr. Francis Britto, Ph.D., da Sophia University, do Japão.
Não foram utilizadas as imagens do original, mas outras foram acrescentadas para melhor apresentar alguns detalhes históricos.

domingo, 16 de setembro de 2012

"Católico(a)" - Parte 2

Pax et bonum!

Continuando com nossa tradução do artigo da Catholic Encyclopedia, segue a segunda parte.
Boa leitura!

***

Consideramos longamente apenas a história e o significado do nome Católico(a). Voltamos agora para sua importância teológica, como tem sido enfatizada e formalizada pelos últimos teólogos. Sem dúvida a enumeração de quatro precisas "notas" pelas quais a Igreja se separa das seitas é de desenvolvimento comparativamente recente, mas a concepção de tais provas externas, como falado antes, baseia-se na linguagem de Santo Agostinho, São Optato e outros, em suas controvérsias com os hereges de seus tempos. Numa famosa passagem do tratado de Santo Agostinho "Contra Epistolam quam vocant Fundamenti", contra os donatistas, o santo doutor declara que, ao lado da intrínseca aceitabilidade da doutrina [da Igreja], "há várias outras coisas que mais justamente me mantêm no seio da Igreja", e depois de indicar a concordância na fé entre seus membros, ou, como diríamos, sua Unidade, bem como "a sucessão de sacerdotes desde a instalação de Pedro Apóstolo, a quem nosso Senhor, depois de sua ressurreição, confiou seu rebanho para ser apascentado, até o presente episcopado", em outras palavras a qualidade que chamamos de Apostolicidade, Santo Agostinho continua numa passagem previamente citada em parte: "Por último, prende-me o próprio nome de Católico que não sem razão tão estreitamente se atribui à Igreja no meio de todos os hereges que a rodeiam, de modo que embora todos os hereges queiram ser chamados de católicos, se um estranho perguntasse onde se celebra o culto católico, nenhum desses hereges ousaria apontar para seu próprio conventículo" (Corpus Scrip. Eccles. Lat., XXV, Pt. I, 196). Foi muito natural que a situação criada pelas controvérsias do séc. XVI levassem a uma determinação mais exata dessas "notas". Teólogos [católicos] ingleses como [Thomas] Stapleton (Principiorum Fidei Doctrinalium Demonstratio, Bk. IV, cc. iii sqq.) e [Nicholas] Sander (De Visibili Monarchia, Bk. VIII, cap. xl) foram dos principais em levantar este aspecto da questão entre as Igrejas, e acadêmicos estrangeiros como [São Roberto] Belarmino, que tomou parte nos mesmo debates, prontamente se afinou a partir deles. Sander distinguia seis prerrogativas da Igreja instituída por Cristo. Stapleton reconhecia dois atributos primários como contidos nas promessas de Cristo - a saber, universalidade no espaço e perpetuidade no tempo - e destes ele deduziu as outras características visíveis. Belarmino, começando pelo nome Católica, enumerou quatorze outras qualidades verificadas na história externa da instituição que levava esse nome (De Conciliis, Bk. IV, cap. iii). Em todos esses esquemas variados, deve-se enfatizar, a universalidade da Igreja teve lugar de destaque dentre suas características distintivas. Todavia, ainda no séc. XV o teólogo Juan de Torquemada [cardeal espanhol, dominicano] estabeleceu as notas da Igreja como sendo quatro, e este esquema mais simples, baseando-se nas palavras do familiar Credo da Missa [o Niceno-constantinopolitano] (Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam), eventualmente logrou aceitação universal. Foi adotado, por exemplo, no "Catechismus ad Parochos" [N.T.: o chamado "Catecismo Romano"], que foi elaborado e publicado em 1566, conforme um decreto do Concílio de Trento, com a mais alta sanção oficial. Neste documento oficial nós lemos:
"O terceiro caráter da Igreja é ser católica, quer dizer, universal. Assenta-lhe bem a designação, porque 'os fulgores de uma só fé', como diz Santo Agostinho, 'se vão dilatando desde o Oriente até ao Ocidente'.
[A Igreja] não se circunscreve aos limites de um só país, nem a uma só raça determinada, como acontece nas instituições políticas e nas agremiações heréticas. Abrange, pelo contrário, todos os homens no regaço de seu amor, sejam bárbaros ou citas, livres ou escravos, homens ou mulheres".
Confirmando isto, várias vozes proféticas da Sagrada Escritura são citadas, depois das quais o Catecismo prossegue: "De mais a mais, enquanto professam a fé verdadeira, todos os crentes que existiram desde Adão até hoje, ou que hão de existir até o fim do mundo, pertencem à mesma Igreja que 'foi edificada sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas'. Todos foram postos e firmados naquela pedra angular, Cristo, que 'congraçou numa só as duas partes', e 'anunciou a paz aos que estavam perto, e aos que estavam longe'.
A Igreja chama-se também universal, porquanto os que desejam a salvação eterna, devem todos professá-la, e prestar-lhe obediência, assim como os que deviam entrar na Arca, para não perecerem nas águas do Dilúvio.
Por conseguinte, esta é uma nota que devemos apresentar como muito segura, para se distinguir a Igreja verdadeira de [qualquer outra] igreja falsa".
Esta apresentação múltipla e um tanto confusa da nota da catolicidade sem dúvida encontra sua garantia na interpretação igualmente difundida de alguns dos antigos Padres. Assim, por exemplo, São Cirilo de Jerusalém diz: "A Igreja chama-se católica porque está espalhada por todo o mundo [isto é, o mundo habitado, oikoumenes] de um canto a outro da terra, e porque ela ensina universalmente e sem mutilação todas as verdades que devem ser conhecidas pelos homens, quer se refiram às coisas visíveis ou às invisíveis, celestes ou terrenas; ainda mais porque ela traz sob o jugo do serviço do Deus verdadeiro todas as raças de homens, os poderosos e os humildes, os letrados e os simples; e finalmente porque ela cuida e cura todo tipo de pecado cometido pelo corpo ou pela alma e porque não há forma de virtude, seja em palavra, feito ou dons espirituais de qualquer tipo, que ela não possua como coisa dela mesma" (Cateches., xviii, 23; P.G., XXXIII, 1043). Em termos similares fala Santo Isidoro (De Offic., Bk. I), dentre os Padres do Ocidente, e também uma variedade de outras explicações, sem dúvida, poderia ser usada como argumento.
Mas de todas essas várias interpretações, que, depois de tudo, não são inconsistentes entre si, e que são provavelmente apenas característica de um estilo de exegese que se agradava na multiplicidade, uma concepção de catolicidade é quase invariavelmente proeminente. Trata-se da ideia da atual difusão local da Igreja, e é o aspecto sobre o qual, indubitavelmente graças à influência da controvérsia protestante, mais se tem insistido pelos teólogos nos últimos três séculos. Alguns professores hereges e cismáticos têm praticamente se recusado a reconhecer a Catolicidade como um atributo essencial da Igreja de Cristo, e na versão luterana do Credo dos Apóstolos, por exemplo, a palavra católica ("A santa Igreja católica") é substituída por cristã. Mas na maioria das profissões de fé protestantes a palavra do original foi mantida, e os representantes desses vários tons de opinião têm se esforçado para encontrar interpretações da frase, que de algum modo sejam conforme a fatos históricos e geográficos. A maioria, incluindo a maior parte dos teólogos anglicanos mais antigos (por exemplo, Pearson sobre o Credo), têm se contentado em insistir na forma ou maneira dada ao desígnio do Fundador da Igreja, de que seu Evangelho deveria ser pregado por todo o mundo. Esta difusão de jure serve suficientemente para seu propósito como justificativa para a retenção da palavra Católica no Credo, mas os que apoiam este ponto de vista precisam admitir que a Catolicidade assim compreendida não pode servir como critério visível pelo qual a Igreja verdadeira se distingue das seitas cismáticas. Aqueles grupos protestantes que não rejeitam completamente a ideia das "notas" ou características distintivas da Igreja verdadeira consequentemente focam na pregação honesta da Palavra de Deus e na administração regular dos sacramentos como único critério (veja-se a "Confession of Augsburg", Art. 7, etc.). Mas tais notas como estas, que poderiam ser reclamadas por vários grupos religiosos diferentes com direito aparentemente igual, são praticamente inoperantes, e, como polemistas católicos têm comumente indicado, a questão somente se resolve na discussão da natureza da Unidade da Igreja sob outra forma. O mesmo se diga daquele grande conjunto de professores protestantes que olham para todas as comunhões sinceras de cristãos como ramos da única Igreja Católica, tendo a Cristo por cabeça invisível. Tomados coletivamente, esses vários ramos reivindicam a difusão pelo mundo de facto bem como de jure. Mas claramente, a questão primariamente envolvida aqui é a que diz respeito à Unidade da Igreja. (...)
Contra estas e outras interpretações que prevaleceram entre os protestantes desde a Reforma até tempos bem recentes, os teólogos escolásticos dos últimos três séculos acostumaram-se a promover a concepção da nota da Catolicidade em várias proposições formais, das quais os elementos mais essenciais são os seguintes. A verdadeira Igreja de Cristo, tal como revelado a nós na profecia, no Novo Testamento e nos escritos dos Padres dos primeiros seis séculos, é um corpo que possui a prerrogativa da Catolicidade, isto é, de uma difusão geral, não apenas em matéria de direito, mas de fato atual. Ademais, esta difusão não é apenas sucessiva - isto é, que uma após outra parte do mundo, no decorrer das eras, seja posto em contato com o Evangelho - mas tal que a Igreja pode ser permanentemente descrita como espalhada pelo mundo. Além disso, como esta difusão geral é uma propriedade que nenhuma outra associação cristã pode justamente reivindicar, podemos dizer que a Catolicidade é uma marca distintiva da verdadeira Igreja de Cristo.
Daqui se verá que o ponto sobre o qual se insiste é a atual difusão local, e dificilmente se poderá negar que tanto os argumentos bíblicos como patrísticos apresentados por Belarmino, Thomassin, Alexander Natalis, Nicole, e outros, para citar apenas alguns dos nomes mais proeminentes, proporcionam uma forte justificativa. O argumento bíblico parece ter sido primeiramente desenvolvido por São Optato de Mileve, contra os donatistas, e foi igualmente empregado por Santo Agostinho quando ele entrou na mesma polêmica poucos anos depois. Aduzindo um grande número de passagens dos Salmos (por exemplo, Sl 2 e 71), de Daniel (Cap. 2), Isaías (ex. 54,3) e outros escritores proféticos, os Padres e também os teólogos modernos chamam a atenção para a imagem pintada do Reino de Cristo, o Messias, como algo gloriosa e  ostensivamente espalhado por todo o mundo, por exemplo: "Eu te darei as gentes como herança e os confins da terra como possessão", "Ele reinará de mar a mar", "Todas as nações hão de servi-lo", etc., etc. Além do mais, junto a estas temos que observar as instruções e promessas de nosso Senhor: "Ide, pois, e ensinai a todas as nações" (Mt 28,19), "E sereis minhas testemunhas... até os confins da terra" (At 1,8), ou as palavras de São Paulo citando o Salmo 18, "Claro que sim! Por toda a terra correu a sua voz, e até os confins do mundo foram as suas palavras" (Rm 10,18), etc. Mas a força real do argumento está na evidência patrística, dado que palavras da Escritura como estas acima são citadas e interpretadas, não por um ou dois apenas, mas por um grande número de diferentes Padres, tanto no Oriente como no Ocidente, e praticamente sempre em termos tais que estão de acordo com a atual difusão por todas as regiões que representavam, moralmente falando, o mundo inteiro. É, deveras, particularmente importante notar que em várias  das passagens patrísticas, o escritor, enquanto insiste na extensão local da Igreja, manifestamente implica que esta difusão é relativa e não absoluta, que ela é para ser geral, de fato, mas num sentido moral e não físico ou matemático. Assim, Santo Agostinho (Epist. cxcix; P.L., XXXIII, 922, 923) explica que as nações que não faziam parte do Império Romano já tinham se unido à Igreja, que frutificava e crescia por todo o mundo. Mas ele acrescenta que sempre haverá necessidade e lugar onde ela possa crescer; e, depois de citar Rm 10,14, continua:
"Naquelas nações, portanto, entre as quais a Igreja ainda não é conhecida, ela ainda deve achar um lugar [in quibus ergo gentibus nondum est ecclesia, oportet ut sit], não, de fato, de uma maneira que todos que estão ali venham a se tornar crentes; porque são todas as nações que foram prometidas, não todos os homens de todas as nações... De outra forma, como se cumpriria a profecia 'Vós serei odiados por todos por causa do meu nome', a menos que em todas as nações haja aqueles que odeiam bem como aqueles que são odiados?"
Por último, dever-se-ia dizer que entre os confusos pensadores da comunhão anglicana, bem como entre alguns representantes das opiniões modernistas, uma interpretação da Catolicidade da Igreja tem entrado em voga, tendo elo com algo que também entrou em nossa observação. Começando com a concepção familiar em certas expressões como "um homem de gostos católicos" [uma expressão não incomum no inglês, pelo visto], significando um homem que não exclui nenhum interesse racional de suas simpatias, estes escritores persuadir-nos-iam de que uma igreja católica ou seria ou deveria significar uma igreja dotada de uma compreensão ilimitada, isto é, que está preparada para acolher e assimilar todas as opiniões honestamente mantidas, ainda que contraditórias. Para responder a isto deve-se dizer que esta ideia é absolutamente alheia à conotação da expressão Igreja Católica como podemos encontrar nos escritos dos Padres. Tomar um termo consagrado por séculos de uso e dar-lhe um significado novo, do qual aqueles que tiveram a palavra nos lábios, por gerações, jamais sonharam, é, para dizer o mínimo, extremamente enganoso. Se esta compreensão e elasticidade de crença são consideradas uma qualidade desejável, todavia se deixe que adquira um novo nome por si só, mas é desonesto dar a impressão, seja ao ignorante como ao crédulo, de que esta é a ideia que os homens devotos do passado estiveram buscando às apalpadelas, e que foi dado aos pensadores religiosos do nosso tempo abstrair do nome católico o seu real e verdadeiro significado. Tão longe da ideia de uma substância absorvente e nebulosa, sumindo imperceptivelmente dentro dos meios que a cercam, a concepção dos Padres era que a Igreja Católica foi aparada pelas linhas mais bem definidas, diferenciando-se de tudo o que restava fora dela. Sua função primária, também podemos dizer, era colocar-se em aguda oposição a tudo que ameaçasse seu princípio vital de unidade e estabilidade. É verdade que às vezes os escritores patrísticos fizeram um jogo com a palavra católica, e que desenvolveram sua sugestividade etimológica com um olhar para a erudição ou para a edificação, mas a única conotação em que insistiram como objeto de muita importância foi a ideia da difusão por todo o mundo. Santo Agostinho, de fato, em sua carta a Vicêncio (Ep. xciii, em "Corpus Scrip. Eccles. Lat.", XXXIV, p. 468) reclama que ele não argumenta meramente a partir do nome. "Eu não considero", declara equivalentemente, "que a Igreja deva se espalhar pelo mundo simplesmente porque é chamada de Católica. Eu baseio minha prova da sua difusão nas promessas de Deus e nos oráculos da Sagrada Escritura". Mas o santo ao mesmo tempo esclarece que a sugestão, de que a Igreja se chamava Católica porque observava todos os mandamentos de Deus e administrava todos os sacramentos, era originária dos donatistas, e dá a entender que não concordava com esta visão. Aqui também a demonstração da unidade da Igreja como construída sobre uma base dogmática é fundamental. (...) O bispo anglicano de Carlisle, num artigo publicado no Hibbert Journal, edição de janeiro de 1908, e intitulado "A Igreja Católica, o que é?", parece levar aos últimos extremos a fórmula moderna: Católico = compreensivo. No lugar de qualquer princípio de coesão, apenas isto, que a Igreja Católica é a que nada proíbe. O bispo a concebe, aparentemente, como uma instituição investida por Cristo com um ilimitado poder para acrescentar em números, mas nenhum para expulsar. Deve ser certamente claro que o senso comum prático não pronuncia contra tal concepção nada menos forte que as palavras claras do Senhor no Evangelho ou a consistente atitude dos Padres.

Fonte: Thurston, Herbert. "Catholic." The Catholic Encyclopedia. Vol. 3. New York: Robert Appleton Company, 1908. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/03449a.htm.

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 15 de setembro de 2012

"Católico(a)" - Parte 1

Pax et bonum!

Ainda com a mente no Ano da Fé, e aproveitando a tradução anterior sobre o Símbolo Apostólico, poderíamos postar pormenores sobre todos os artigos do Credo, e de fato podemos fazer algo neste sentido. Todavia, gostaria de me deter no termo "Católico", aproveitando que a postagem anterior mostra que tal termo não consta no que se tem considerado como antiga forma romana do Credo. Alguém poderia questionar, portanto, o uso do termo, e outras pessoas poderiam desejar aprofundar-se no que significou e significa o nome "católico".
Para isto, segue mais uma tradução de artigo da Catholic Encyclopedia, que achei por bem dividir em duas partes.
Boa leitura!

***
Última página do Fragmento de Muratori (ano 180 aproximadamente),
em que se encontra a palavra "católica" (catholicam/catholica) relacionada à Igreja de Cristo (linhas 4 e 7)

A palavra católico(a) (katholikos, de katholou — que passa pelo todo, isto é, universal) ocorre em clássicos gregos como, por exemplo, em Aristóteles e Políbio, e era livremente usada pelos antigos escritores cristãos naquilo que podemos chamar de seu sentido primitivo e não-eclesiástico. Assim encontramos certas frases como "a ressurreição católica" (Justino Mártir), "a bondade católica de Deus" (Tertuliano), "os quatro ventos católicos" (Irineu), onde poderíamos falar de "a ressurreição geral", "a bondade absoluta ou universal de Deus", "os quatro ventos principais", etc. A palavra, usada assim, parece ser oposta a merikos (parcial) ou idios (particular), e um exemplo familiar desta concepção ainda permanece na antiga expressão "cartas católicas" aplicada àquelas de São Pedro, São Judas, etc., que foram assim chamadas por serem endereçadas não a alguma comunidade local particular, mas à Igreja toda.
A combinação "a Igreja Católica" (he katholike ekklesia) é encontrada pela primeira vez na carta de Santo Inácio aos cristãos de Esmirna, escrita por volta do ano 110. As palavras ocorrem aqui: "Onde quer que se apresente o bispo, ali também esteja a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus também nos assegura a presença da Igreja universal (katholike)". Todavia, tendo em vistas o contexto, alguma diferença de opinião prevalece  quanto à precisa conotação da palavra em itálico, e Kattenbusch, o professor protestante de teologia de Giessen, está preparado para interpretar esta mais antiga ocorrência da expressão no sentido de mia mone, a Igreja "una e única" [Das apostolische Symbolum (1900), II, 922]. Doravante, o significado técnico da palavra católica encontra-nos com frequência crescente tanto no Oriente quanto no Ocidente, até por volta do início do séc. IV parecer ter quase totalmente suplantado o significado primitivo e mais geral. Os exemplos mais antigos foram reunidos por Caspari (Quellen zur Geschichte des Taufsymbols, etc., III, 149 sqq.). Vários deles ainda admitem o significado de "universal". A referência (+- 155) ao "bispo da igreja católica em Esmirna" (Carta sobre o Martírio de São Policarpo, xvi), uma frase que necessariamente pressupõe um uso mais técnico da palavra, deve-se, pensam alguns críticos, à interpolação [N.T.: inserção de algo que não é originário do autor]. Por outro lado, este sentido ocorre sem dúvida mais de uma vez no Fragmento de Muratori (+- 180), onde, por exemplo, é dito sobre certo escritos heréticos que "não podem ser recebidos na Igreja católica". Um pouco depois, Clemente de Alexandria fala muito claramente. "Nós dizemos", declara ele, "que tanto na substância como na aparência, tanto na origem como em seu desenvolvimento, a igreja primitiva e católica é a única, concordando como assim o faz na unidade de uma fé" (Stromata, VII, xvii; P.G., IX, 552). Desta e de outras passagens que podem ser citadas, o uso técnico parece claramente se estabelecido pelo início do séc. III. Neste sentido da palavra, implica-se a sã doutrina como oposta à heresia e a unidade de organização como oposta ao cisma (Lightfoot, Apostolic Fathers, Part II, vol. I, 414 sqq. e 621 sqq.; II, 310-312). De fato, católica logo se tornaria em muitos casos um simples apelativo - o nome próprio, em outras palavras, da verdadeira Igreja fundada por Cristo, assim como frequentemente falamos da Igreja Ortodoxa, quando nos referimos à religião estabelecida pelo Império Russo, sem nos darmos conta da etimologia do título usado. Foi provavelmente neste sentido que Paciano, o espanhol (Ep. i ad Sempron.) escreve, por volta de 370: "Christianus mihi nonem est, catholicus cognomen", e é digno de nota que em várias exposições latinas do Credo, notadamente a de Niceta de Remesiana, que data aproximadamente do ano 375 (ed. Burn, 1905, p. lxx), a palavra Católica no Credo, embora sem dúvida unida nesta data às palavras Santa Igreja, não sugere nenhum comentário especial. Até em São Cipriano (+- 252) é difícil determinar até onde ele usa a palavra Católica significativamente, e até onde usa como um mero nome. O título, por exemplo, de sua maior obra é "Sobre a unidade da Igreja Católica", e frequentemente nos deparamos em seus escritos com expressões tais como catholica fides (Ep. xxv; ed. Hartel, II, 538); catholica unitas (Ep. xxv, p. 600); catholica regula (Ep. lxx, p. 767), etc. A única ideia clara subjacente a todas é ortodoxa como oposta a herética, e Kattenbusch não hesita em admitir que em Cipriano vemos pela primeira vez como católica e romana vêm eventualmente a ser referidas como termos intercambiáveis [N.T. ou seja, praticamente como sinônimos] (Cf. Harnack, Dogmengeschichte, II, 149-168.). Ademais, dever-se-ia notar que a palavra Catholica [sozinha] foi às vezes utilizada concretamente como equivalente de ecclesia Catholica. Um exemplo encontra-se no Fragmento de Muratori, outro aparentemente em Tertuliano (De Praescrip, xxx), e vários mais aparecem em data posterior, particularmente entre os escritores africanos.
Entre os gregos era natural que, enquanto católica servia como descrição distintiva da única Igreja, o significado etimológico da palavra não se perdesse de vista. Assim, nos "Discursos Catequéticos" de São Cirilo de Jerusalém (+- 347), ele insiste por um lado (sect. 26): "E mesmo se estiveres de passagem nalguma cidade, pergunta não simplesmente onde está a casa do Senhor - pois as seitas dos profanos também tentam chamar suas próprias tocas de casas do Senhor - nem meramente onde está a igreja, mas onde está a Igreja Católica. Pois este é o nome peculiar do Santo Corpo, a mãe de todos nós". Por outro lado, ao discutir a palavra católica, que já aparece na sua fórmula do credo batismal, São Cirilo observa: (sect. 23) "Agora ela [a Igreja] é chamada de Católica porque está presente no mundo inteiro, de um canto a outro da terra". Mas teremos ocasião de citar esta passagem mais demoradamente à frente.
Não pode restar dúvida, todavia, que foi o debate com os Donatistas que primeiro extraiu o significado teológico completo do epíteto católica e que o passou aos escolásticos como posse permanente. Quando os Donatistas disseram representar a única verdadeira Igreja de Cristo, e formularam certas características da Igreja, que eles professavam encontrar em seu próprio grupo, eles não deixariam de atacar seus oponentes ortodoxos que diziam que o título Católica, pelo qual a Igreja de Cristo era universalmente conhecida, fornecia uma prova muito mais certa, e que era totalmente inaplicável a uma seita confinada a um pequeno canto do mundo. Os Donatistas, ao contrário de todos os hereges anteriores, não erravam em nenhum questão cristológica. Era a sua concepção de disciplina e organização da Igreja que era defeituosa. Daqui, na refutação a eles, uma teoria mais ou menos definida sobre a Igreja e suas características foi desenvolvida por São Optato (+- 370) e Santo Agostinho (+- 400). Estes doutores insistiram particularmente na nota da Catolicidade, e indicaram que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento representaram a Igreja como espalhada por toda a terra (veja-se Turmel, Histoire de la theologie positive, 1904, I, 162-166, com as referências lá dadas). Além disso, Santo Agostinho insiste no consenso dos cristãos quanto ao uso do nome Católica. "Queiram ou não", diz ele, "os hereges têm que chamar a Igreja Católica de Católica" ("De vera religione", xii). "Embora todos os hereges queiram ser denominados católicos, ainda que alguém perguntasse onde está o lugar católico de culto, nenhum deles arriscaria apontar para seu próprio conventículo" (Contra Epistolam quam vocant Fundamenti, iv). Dos expoentes posteriores da mesma tese, o mais famoso é Vicente de Lérins (+- 434). Seu cânon de catolicidade é "Aquilo que foi acreditado em todo lugar, sempre e por todos". "Isto", acrescenta, "é aquilo que verdadeira e apropriadamente é católico" (Commonitorium, I, ii).
Embora a crença na "Santa Igreja" tenha sido incluída na forma mais antiga do Credo Romano, a palavra católica não parece ter sido posta no Credo em nenhum lugar do Ocidente até o séc. IV. Kattenbusch acredita que nossa forma existente encontra-se primeiramente dentro da "Exhortatio" que ele atribui a Gregório de Elvira (+- 360). É possível, todavia, que o credo recentemente impresso por Dom Morin (Revue Bénédictine, 1904, p. 3) seja de data ainda mais antiga. Em todo caso, a frase "a santa Igreja Católica" aparece na forma comentada por Niceta de Remesiana (+- 375). Quanto ao uso moderno da palavra, católica romana é a designação empregada nos atos legislativos da Inglaterra Protestante, mas Católica é que é usada ordinariamente no continente europeu, especialmente nos países latinos. De fato, historiadores de todas as escolas, ao menos por conta da brevidade, frequentemente contrastam Católico e Protestante, sem nenhuma outra qualificação. Na Inglaterra, desde o séc. XVI, protestos indignados têm sido feitos constantemente contra "a usurpação exclusiva e arrogante" do nome Católica pela Igreja de Roma. O Arquidiácono Philpot, protestante, que foi condenado à morte em 1555, foi tido como bastante obstinado neste ponto (veja-se a edição de suas obras publicadas pela Parker Society); e dentre outras várias controvérsias similares posteriores pode-se citar aquela entre Dr. [William] Bishop, depois vigário apostólico, e Dr. [Robert] Abbot, depois Bispo [anglicano] de Salisbury, sobre a "Catholicke Deformed", que durou de 1599 a 1614. De acordo com alguns, tais expressões como Católico Romano, ou Anglo-Católico, trazem uma contradição nos termos (veja-se o Bispo Anglicano de Carlisle em "The Hibbert Journal", Janeiro, 1908, p. 287.) Perto do ano 1580, ao lado do termo papista, empregado com intenção infamante, os seguidores da antiga religião foram frequentemente chamados de Romanistas ou Católicos Romanos. Sir William Harbert, em 1585, publicou uma "Carta a um Romano pretensamente Católico", e em 1587 um livro italiano de G.B. Aurellio foi impresso em Londres e dizia respeito às diferenças doutrinas "dei Protestanti veri e Cattolici Romani". Os católicos nunca pareceram ser contra tal apelativo, mas eles mesmos o utilizaram algumas vezes. Por outro lado, escritores protestantes frequentemente descreveram seus oponentes simplesmente como "Católicos". Um notável exemplo é o "Pseudomartyr" de Dr. John Donne, impresso em 1610. Ademais, levando em conta apenas a brevidade, certas questões polêmicas como a "Emancipação Católica" [N.T.: a respeito das restrições impostas pela lei aos católicos na Inglaterra] têm sido comumente discutidas por ambos os lados sem nenhum prefixo qualificativo. Relacionado a este assunto, podemos chamar a atenção a uma visão anglicana comum representada numa obra popular de referência, como o "Church Dictionary" de Hook (1854), onde se vê em "Católico" - "Que o membro da Igreja da Inglaterra afirme seu direito ao nome de Católico, já que somente ele tem direito a este nome na Inglaterra. O Romanista inglês  é um cismático romano e não um católico". A ideia é ainda mais desenvolvida no "Dictionary of Sects and Heresies" de Blunt (1874), onde "Católicos romanos" são descritos como "uma seita organizada pelos Jesuítas dentre os escoceses fiéis à Rainha Mary Stuart no reinado da Rainha Elizabeth". Uma visão mais antiga e menos extrema será encontrada nos "Essays Critical and Historical" de Newman [N.T. que se converteu à Igreja Católica e beatificado em 2010], publicados por ele quando ainda anglicano (ver No. 9, "The Catholicity of the Anglican Church"). A própria nota do Cardeal sobre este ensaio, na última edição revisada, pode ser lida com proveito.

Fonte: Thurston, Herbert. "Catholic." The Catholic Encyclopedia. Vol. 3. New York: Robert Appleton Company, 1908. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/03449a.htm.

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

"O Credo dos Apóstolos"

Pax et bonum!

Há menos de um mês para a abertura do Ano da Fé, apresentamos esta tradução de mais um artigo da Catholic Encyclopedia, desta vez, sobre o Símbolo Apostólico.

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Facsímile de página do Sacramentarium Gellonense, de origem francesa,
escrito por volta do ano 780, onde aparece o Símbolo dos Apóstolos

É uma fórmula contendo, em breves afirmações, ou "artigos", os princípios fundamentais da crença cristã, e tendo por seus autores, segundo a tradição, os Doze Apóstolos.

Origem do Credo

Por toda a Idade Média, acreditava-se geralmente que os Apóstolos, no dia de Pentecostes, enquanto ainda sob inspiração direta do Espírito Santo, compuseram nosso presente Credo entre si, cada um dos Apóstolos contribuindo com um dos doze artigos. Esta lenda data do séc. VI (cf. Pseudo-Agostinnho em Migne, P.L., XXXIX, 2189, e Pirmínio, ibid., LXXXIX, 1034), e é prenunciado ainda mais antes num sermãoa tribuído a Santo Ambrósio (Migne, P.L., XVII, 671; Kattenbusch, I, 81), que toma nota de que o Credo foi "montado, construído por doze operários distintos". Por volta do mesmo período (+- 400) Rufino (Migne, P.L., XXI, 337) dá uma detalhada explicação da composição do Credo, explicação esta que diz ter recebido de gerações anteriores (tradunt maiores nostri). Embora ele não atribua explicitamente cada artigo à autoria de um Apóstolo individualmente, ele afirma que se trata de uma obra conjunta de todos, e implica que esta deliberação tomou lugar no dia de Pentecostes. Ademais, ele declara que "eles decidiram por várias justas razões que esta regra de fé chamar-se-ia Símbolo", palavra grega que ele explica como sendo tanto indicium, isto é, um distintivo ou senha pelo qual os cristãos poderiam reconhecer-se, e collatio, que quer dizer uma oferta feita de contribuições separadas. Alguns anos antes disso (+- 390), a carta do Concílio de Milão, endereçada ao Papa Sirício (Migne, P.L., XVI, 1213) fornece o uso mais antigo conhecido da expressão Symbolum Apostolorum ("Símbolo dos Apóstolos") nestas notáveis palavras: "Se não dais crédito aos ensinamentos dos sacerdotes... ao menos seja dado ao Símbolo dos Apóstolos, que a Igreja Romana sempre preservou e manteve inviolado". A palavra Symbolum, neste sentido, sozinha, vem ao nosso encontro primeiramente no séc. III numa correspondência de São Cipriano e Santa Firmília, esta última, particularmente, falando do Credo como sendo o "Símbolo da Trindade", e reconhecendo-o como parte integral do rito do batismo (Migne, P.L., III, 1165, 1143). Deve-se acrescentar, além disso, que Kattenbusch (II, p. 80, nota) acredita que o mesmo uso das palavras pode ser traçado até o tempo de Tertuliano. E mais, nos dois primeiros séculos depois de Cristo, embora frequentemente encontremos menção ao Credo sob outras designações (ex: regula fidei, doctrina, traditio), o nome symbolum não aparece. Rufino, portanto, estava errado quando declarou que os próprios Apóstolos, "por várias justas razões", selecionaram este exato termo. Este fato, junto com a intrínseca probabilidade da história e o surpreendente silêncio do Novo Testamento e dos Padres Pré-Nicenos, não nos dão outra escolha senão classificar a narrativa circunstancial de Rufino como não-histórica.

Entre os críticos recentes, alguns atribuem ao Credo uma origem bem posterior à Era Apostólica. Harnack, por exemplo, afirma que em sua forma atual ele somente representa a confissão batismal da Igreja do Sul da Gália, datando no mínimo da segunda metade do séc. V (Das apostolische Glaubensbekenntniss, 1892, p. 3). Interpretados de uma maneira estrita, os termos desta afirmação são precisos o suficiente, embora pareça provável que não tenha sido na Gália, mas em Roma, que o Credo tenha realmente assumido sua forma final (cf. Burn em "Journal of Theol. Studies", Julho, 1902). Mas o destaque dado por Harnack na data recente de nosso texto recebido (T) é, para dizer o mínimo, um tanto enganador. É certo, como Harnack concede, que outra e mais antiga forma do Credo (R) veio a existir, em Roma mesmo, na primeira metade do séc. II. Ademais, como veremos, as diferenças entre R e T não são tão importantes e é provável que R, se não foi elaborado pelos Apóstolos, é ao menos baseado num esboço que data da Era Apostólica. Assim, tomando o documento como um todo, podemos dizer confiantemente, nas palavras de uma moderna autoridade Protestante, que "no Credo e com o Credo nós confessamos aquilo que desde os dias dos Apóstolos tem sido a fé da cristandade unida" (Zahn, Apostle's Creed, tr., p, 222). A questão da apostolicidade do Credo não deve ser descartada sem se dar a devida atenção às cinco considerações seguintes:

1. Há traços bastante sugestivos, no Novo Testamento, do reconhecimento de uma certa "forma de doutrina" (typos didaches, Romanos 6,17) que moldou, por assim dizer, a fé dos novos convertidos à lei de Cristo, e que envolvia não somente a palavra da fé acreditada no coração, mas "a confissão com a boca para a salvação" (Romanos 10,8-10). Em estreita ligação com isto, devemos recordar a profissão de fé em Jesus Cristo, exigida do eunuco (Atos 8,37) como uma preliminar para o batismo (Agostinho, "De Fide et Operibus", cap. ix; Migne, P.L., LVII, 205) e a fórmula do próprio batismo em nome das Três Pessoas da Santíssima Trindade (Mateus 28,19; e cf. Didakê 7,2, e 9,5). Além disso, tão cedo quanto passamos a obter qualquer tipo de descrição detalhada da cerimônia do batismo, vemos que, como preliminar à atual imersão, uma profissão de fé era exigida do convertido, o que apresenta desde os tempos mais antigos uma confissão claramente dividida e separada do Pai, do Filho e do Espírito Santo, correspondendo às Pessoas Divinas invocadas na fórmula do batismo. Dado que não encontramos em nenhum documento anterior a fórmula completa da profissão de fé, não podemos assegurar que era idêntica ao nosso Credo, mas, por outro lado, é certo que nada ainda foi descoberto que seja inconsistente com tal suposição. Veja-se, por exemplo, o "Cânon de Hipólito" (+- 220) ou a "Didascália" (+- 250) na "Bibliothek der Symbole" (8, 14, 35) de Hahn; junto com ligeiras alusões em Justino Mártir e Cipriano.

2. Não obstante as dificuldades que podem ser postas quanto à existência da Disciplina Arcani nos tempos antigos (Kattenbusch, II, 97 sqq.), não se pode questionar que em Cirilo de Jerusalém, Hilário, Agostinho, Leão, o Sacramentário Gelasiano, e em várias outras fontes dos séc. IV e V, insiste-se muito na ideia; que conforme a antiga tradição o Credo era para ser aprendido pelo coração (de cor), e que nunca fosse entregue para ser escrito. Isto indubitavelmente provê uma explanação plausível do fato de nenhum credo primitivo ser o texto preservado para nós completo ou numa forma contínua. O que sabemos destas fórmulas em seu estado mais antigo é derivado do que podemos construir de citações, mais ou menos dispersas, que se encontram em certos escritores como, por exemplo, Irineu e Tertuliano.

3. Embora nenhum tipo de Credo uniforme possa ser certamente reconhecido entre os mais antigos escritores do oriente antes do Concílio de Niceia, argumento que tem sido levado em conta por muitos para negar a existência de alguma fórmula Apostólica, é um fato interessante que as Igrejas Orientais, no séc. IV, são tidas como possuidoras de um Credo que reproduz, com variações, o tipo romano antigo. Este fato é plenamente admitido por certas autoridades protestantes como Harnack (em Hauck's Realencyclopädie, I, 747) e Kattenbusch (I, 380 sq.; II, 194 sqq., e 737 sq.). É óbvio que estes dados se harmonizariam muito bem com a teoria de que um Credo primitivo foi entregue aos cristãos da comunidade de Roma, seja pelos próprios São Pedro e São Paulo ou por seus sucessores imediatos, e que no decorrer do tempo se espalhou pelo mundo.

4. Além do mais, note-se que indo rumo ao fim do séc. II nós podemos extrair, dos escritos de Santo Irineu, no sul da Gália, e de Tertuliano, na distante África, dois Credos semi-completos concordando ambos com o antigo Credo Romano (R), como sabemos por Rufino e por outro. Será útil traduzir de Burn (Introduction to the Creeds, pp. 50, 51) sua apresentação em tabela da evidência no caso de Tertuliano (cf. MacDonald em "Ecclesiastical Review", Fevereiro, 1903):

De Virg. Vel., 1
De Praecept., 13 e 26
(1) Crendo em um Deus todo-poderoso, criador do mundo,
(1) Cremos em um só Deus,
(1) Eu creio em um Deus, criador do mundo,
(2) e em seu Filho, Jesus Cristo,
(2) e no Filho de Deus, Jesus Cristo,
(2) e no Verbo, chamado de seu Filho, Jesus Cristo,
(3) nascido da Virgem Maria,
(3) nascido da Virgem,
(3) feito carne no seio de Maria, pelo Espírito e o poder de Deus Pai, e dela nascido,
(4) crucificado sob Pôncio Pilatos,
(4) que padeceu, morreu e foi sepultado,
(4) preso a uma cruz.
(5) no terceiro dia trazido à vida, dos mortos,
(5) trazido de volta à vida,
(5) Ele ressuscitou ao terceiro dia,
(6) recebido no céu,
(6) levado de volta para o céu,
(6) foi arrebatado para o céu,
(7) sentado agora à direita do Pai,
(7) ele que senta à direita do Pai,
(7) sentou-se à direita do Pai,
(8) virá para julgar os vivos e os mortos
(8) virá julgar os vivos e os mortos,
(8) virá com glória para levar os bons para a vida eterna, e condenar os maus ao fogo perpétuo,
(9) o qual enviou do Pai o Espírito Santo.
(9) enviou o poder vicário de seu Santo Espírito,
(10) para governar os crentes (nesta citação os artigos 9 e 10 precedem o 8)
(12) pela ressurreição da carne.
(12) e [creio] na restauração da carne.

Uma tabela como esta serve admiravelmente para mostrar quão incompleta é a evidência dada por meras citações do Credo, e quão cuidadosamente se deve tratar esta matéria. Se tivéssemos somente o "De Virginibus Velandis", teríamos dito que o artigo sobre o Espírito Santo não faz parte do Credo de Tertuliano. Tivesse o "De Virginibus Velandis" sido destruído, teríamos declarado que Tertuliano não conhecia a cláusula "padeceu sob Pôncio Pilatos". E assim por diante.

5. Não se pode esquecer que, enquanto não há afirmação explícita da composição de uma fórmula de fé antes do fim do séc. IV, antigos Padres como Tertuliano e Santo Irineu insistem de uma forma bastante enfática que a "regra de fé" é parte da tradição apostólica. Tertuliano, particularmente em sua "De Praescriptione", depois de mostrar que por esta regra (regula doctrinae) ele compreende algo praticamente idêntico ao nosso Credo, insiste que a regra foi instituída por Cristo e entregue a nós (tradita) como de Cristo pelos Apóstolos (Migne. P.L., II, 26, 27, 33, 50). Como conclusão desta evidência o presente escritor, concordando totalmente com certas autoridades como Semeria e Batiffol, em que não podemos seguramente afirmar a composição apostólica do Credo, ao mesmo tempo considera que negar a possibilidade de tal origem é ir além dos dados que se tem no presente. Uma visão mais pronunciadamente conservadora é dada por MacDonald no "Ecclesiastical Review", Janeiro a Julho, 1903.

O Antigo Credo Romano

O Catecismo do Concílio de Trento aparentemente assume a origem apostólica de nosso Credo existente, mas tal pronunciamento não tem força dogmática e deixa a opinião livre. Apologistas modernos, ao defender a apostolicidade, estendem-na apenas à forma romana antiga (R), e vêem certo obstáculo na objeção de que se R tivesse sido realmente a voz inspirada dos apóstolos, ela não teria sido modificada como aprouvesse às várias igrejas locais (Rufino, por exemplo, testemunha tal expansão no caso da Igreja de Aquileia), e particularmente não teria sido totalmente suplantada pela T, nossa forma existente. A diferença entre as duas será melhor visualizada pondo-as lado a lado (os Credos R e T):

R.
T.
(1) Creio em Deus Pai todo-poderoso;
(1) Creio em um Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra
(2) e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor;
(2) e em Jesus Cristo, seu Filho único, nosso Senhor;
(3) que nasceu pelo Espírito Santo e da Virgem Maria;
(3) que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria,
(4) crucificado sob Pôncio Pilato e sepultado;
(4) padeceu sob Pôncio Pilato, foi crucificado, morto e sepultado;
(5) ao terceiro dia ressuscitou dos mortos,
(5) desceu ao inferno; ressuscitou dos mortos ao terceiro dia;
(6) subiu ao céu,
(6) subiu ao céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso;
(7) está sentado à direita do Pai,
(7) donde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
(8) donde virá para julgar os vivos e os mortos.
(8) E no Espírito Santo,
(9) E no Espírito Santo,
(9) a santa Igreja católica, a comunhão dos santos,
(10) a santa Igreja,
(10) a remissão dos pecados,
(11) a remissão dos pecados;
(11) a ressurreição da carne, e
(12) a ressurreição do corpo.
(12) a vida eterna.


Deixando de lado pontos menores de diferença, os quais para uma discussão adequada pediriam um estudo do texto latino, podemos notar que R não contém as cláusulas "Criador do céu e da terra", "desceu ao inferno", "a comunhão dos santos", "a vida eterna", nem as palavras "concebido", "padeceu", "morto", e "católica". Várias das adições, mas não exatamente todas, foram provavelmente do conhecimento de São Jerônimo na Palestina (+- 380. --Veja-se Morin em Revue Benedictine, Janeiro, 1904) e por volta da mesma data a Niceta, da Dalmácia (Burn, Niceta of Remesiana, 1905). Outras adições aparecem nos credos do sul da Gália no início do século seguinte, mas T provavelmente assumiu sua forma final na própria Roma em algum tempo antes do ano 700 (Burn, Introduction, 239; e Journal of Theol. Studies, Julho, 1902). Nada sabemos ao certo sobre as razões que levaram a adoção de T em preferência a R.

Artigos do Credo

Embora T realmente contenha mais que doze artigos, sempre foi costume manter a divisão em doze partes que se originou com R e que a ela mais estritamente se aplica. Alguns dos itens mais debatidos pedem algum breve comentário. O primeiro artigo de R apresenta uma dificuldade. Da linguagem de Tertuliano tem-se que R originalmente omitiu a palavra Pai e acrescentou a palavra "um"; assim, "Creio em um Deus todo-poderoso". Donde Zahn infere um original grego subjacente ainda sobrevivente parcialmente no Credo Niceno, e defende que o primeiro artigo do Credo sofreu modificação para contrariar os ensinamentos da heresia monarquiana. Basta dizer aqui que embora a língua original de R possa ter sido o grego, as premissas de Zahn acerca do texto do primeiro artigo não são aceitas por certas autoridades como Kattenbusch e Harnack.

Outra dificuldade textual aparece na inclusão da palavra "único" no segundo artigo; mas uma questão mais séria é levantada pela recusa de Harnack em reconhecer, seja no primeiro ou no segundo artigo de R, qualquer  confirmação de uma relação eterna ou pré-existente de filiação e paternidade nas Pessoas Divinas. A teologia trinitariana das últimas épocas, declara ele, leu no texto um significado que ele não teria para os seus autores. E diz, novamente, com relação ao nono artigo, que o escritor do Credo não concebeu o Espírito Santo como Pessoa, mas como um poder e dom. "Nenhuma prova pode ser apresentada de que por volta da metade do séc. II o Espírito Santo fosse crido como uma Pessoa". É impossível fazer aqui mais do que direcionar o leitor a certas respostas católicas como as de Baumer e Blume; e entre os anglicanos ao muito conveniente volume de Swete. Para citar apenas uma ilustração do antigo ensinamento patrístico, Santo Inácio, no fim do séc. I, repetidamente se refere a uma Filiação que está além dos limites do tempo: "Jesus Cristo... veio de um Pai", "estava com o Pai antes que o mundo existisse" (Carta aos Magnésios, 6-7). Enquanto, no que diz respeito ao Espírito Santo, São Clemente Romano, em data ainda mais antiga escreve: "Assim como Deus vive, e o Senhor Jesus Cristo vive, e o Espírito Santo, assim é a fé e a esperança dos eleitos" (cap. lviii). Esta e outras passagens semelhantes claramente indicam a consciência de uma distinção entre Deus e o Espírito de Deus análoga àquela reconhecida entre Deus e o Logos. Um similar apelo a antigos escritores deve ser feito em relação ao terceiro artigo, que afirma o parto virginal. Harnack admite que as palavras "concebido pelo Espírito Santo" (T), realmente nada acrescenta ao "nasceu pelo Espírito Santo" (R). Ele admite consequentemente que "no início do séc. II a crença na concepção milagrosa estabeleceu-se como parte da tradição da Igreja". Mas ele nega que esta doutrina tenha sido parte das mais antigas pregações do Evangelho, e ele consequentemente pensa ser impossível que o artigo possa ter sido formulado no séc. I. Nós só podemos responder aqui que o ônus da prova recai sobre ele, e que o ensinamento dos Padres Apostólicos, como citado por Swete e outros, apontam para uma conclusão bastante diferente.

Rufino (+- 400) afirma explicitamente que as palavras "desceu ao inferno" não estavam no Credo romano, mas existiam no de Aquileia. Elas também estão em alguns credos gregos e no de São Jerônimo, posteriormente recuperado por Morin. Sem dúvida foi uma recordação de 1 Pedro 3,19, como interpretada por Irineu e outros, o que causou essa inserção. A cláusula "comunhão dos santos", que aparece primeiro em Niceta e em São Jerônimo, deveria ser referida inquestionavelmente como uma mera expansão do artigo "a Santa Igreja". "Santos", da forma como é usado aqui, significava originalmente nada mais que os membros vivos da Igreja (veja o artigo de Morin na Revue d'histoire et de litterature ecclesiastique. Maio, 1904, e a monografia de J.P. Kirsch, Die Lehre von der Gemeinschaft der Heiligen, 1900). Para o restante, podemos somente notar que a palavra "católica", que aparece primeiro em Niceta, é tratada separadamente; e que "remissão dos pecados" é provavelmente para ser entendida primariamente como o batismo e que deveria ser comparada com o "um só batismo para a remissão dos pecados" do Credo Niceno.

Uso e autoridade do Credo

Como já indicado, devemos nos voltar para o ritual do Batismo para encontrarmos o mais primitivo e importante uso do Credo dos Apóstolos. É altamente provável que originalmente o Credo não fosse nada mais que a profissão de fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo da fórmula batismal. O cerimonial plenamente desenvolvido que encontramos no Ordo Romanus VIII, e no Sacramentário Gelasiano, e que provavelmente representava a prática do séc. V, indica um dia especial para o "escrutínio", para a entrega do Credo (traditio symboli), e outro, imediatamente antes da administração do Sacramento, para a redditio symboli, quando o neófito dava prova de sua capacidade recitando o Credo em voz alta. Uma admoestação acompanhava a traditio e num importante artigo, Dom de Puniet (Revue d'Histoire Ecclesiastique, Outubro, 1904) mostrou recentemente que esta admoestação é quase certamente uma composição de São Leão Magno. Além disso, três questões (interrogationes) eram postas ao candidato no momento do batismo, as quais eram apenas um sumário da forma mais antiga do Credo. Tanto a recitação do Credo quanto as questões ainda estão presentes no Ordo baptizandi de nosso atual Ritual Romano; enquanto o Credo em forma interrogativa aparece também na Celebração do Batismo do "Book of Common Prayer" anglicano. Fora da administração do batismo, o Credo dos Apóstolos é recitado diariamente na Igreja, não somente no início de Matinas e Prima, e no fim das Completas, mas também ferialmente no decurso de Prima e Completas. Vários sínodos medievais ordenam que deva ser aprendido por todos os fiéis, e há uma grande quantidade de evidências que mostram que, mesmo em países com Inglaterra e França, ele era originalmente aprendido em latim. Como resultado desta íntima associação com a liturgia e com o ensinamento da Igreja, sempre se considerou o Credo dos Apóstolos como tendo a autoridade de uma afirmação ex cathedra. Ensina-se comumente que todos os pontos de doutrina contidos nele são parte da Fé Católica, e que não podem ser postos em questão, sob pena de heresia (São Tomás, Summa Theologica, II-II:1:9). Daí os católicos terem geralmente se contentado em aceitar o Credo na forma e no sentido em que tem sido oficialmente exposto pela viva voz da Igreja. Para os protestantes que somente o aceitam naquilo que ele representa como ensino evangélico da Era Apostólica, tornou-se um assunto de suprema importância investigar sua forma e sentido original. Isto explica a quantidade preponderante de pesquisas devotadas a este assunto entre os acadêmicos protestantes, se comparada às contribuições de seus rivais católicos.

Fonte: Thurston, Herbert. "Apostles' Creed." The Catholic Encyclopedia. Vol. 1. New York: Robert Appleton Company, 1907. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/01629a.htm.

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O texto oficial latino do Símbolo Apostólico, como empregado na Liturgia, e sua tradução brasileira

Credo in unum Deum,
Patrem omnipotentem, Creatorem caeli et terrae,
Et in Iesum Christum, Filium eius unicum,
Dominum nostrum,
qui conceptus est de Spiritu Sancto,
natus ex Maria Virgine, 
passus sub Pontio Pilato,
crucifixus, mortuus et sepultus,
desdendit ad inferos,
tertia die resurrexit a mortuis,
ascendit ad caelos, 
sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis,
inde venturus est iudicare vivos et mortuos.
Credo in Spiritum Sanctum, 
sanctam Ecclesiam catholicam,
sanctorum communionem, 
remissionem peccatorum,
carnis resurrectionem,
vitam aeternam. Amen.


Creio em Deus Pai todo-poderoso,
criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor;
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado.
Desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos céus;
está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo;
na santa Igreja católica;
na comunhão dos santos;
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
na vida eterna. Amém.

Dica de leitura

A imagem do início da postagem foi encontrada na obra "Facsimiles of the creed from early manuscripts", de 1909, de Andrew Ewbank Burn, teólogo anglicano.
O livro está disponível para leitura/download aqui (no Internet Archive, da Universidade da Califórnia).
Logo em seguida encontrei o Sacramentário Gelasiano, dito Gellonense, com imagens coloridas de seus fólios, no site da Biblioteca Nacional da França. É bastante interessante. Clique aqui para ir direto ao fólio 181, onde está o Credo.


Por Luís Augusto - membro da ARS