quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"Celebro com o rito antigo para fazer entender que é normal usá-lo", diz o Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos



O cardeal Cañizares explica por que aceitou presidir, em São Pedro, a missa deste sábado para os fieis da peregrinação “Una cum Papa nostro”

ANDREA TORNIELLI 
Cidade do Vaticano

"Aceitei de bom grado celebrar a Missa do próximo sábado para os peregrinos que vêm agradecer ao Papa pelo dom do motu proprio Summorum Pontificum:  é uma forma de fazer entender que é normal usar a forma extraordinária do único rito romano...". O cardeal Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, respondeu desta forma à pergunta de Vatican Insider sobre o significado da celebração do próximo sábado, 3 de novembro (às 15h), no altar da Cátedra da Basílica de São Pedro. Hoje pela manhã, o porta-voz da peregrinação “Una cum Papa nostro” anunciou a presença do arcebispo Augustine Di Noia, vice-presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, na cerimônia.

Qual é o significado desta peregrinação?
Agradecer a Deus e agradecer ao Papa pelo motu proprio de cinco anos atrás, que reconhece o valor da liturgia celebrada segundo o Missal do Beato João XXIII, sublinhando a continuidade da tradição no rito romano. Ao reconhecer a liturgia anterior, compreende-se que com a reforma não se nega o que se usava anteriormente. 

Por que aceitou celebrar a missa para os peregrinos que seguem o rito pré-conciliar?
Aceitei porque é uma forma de fazer entender que é normal o suo do Missal de 1962: existem duas formas do mesmo rito, mas é o mesmo rito e, por isso, é normal que se use na celebração. Já celebrei em diferentes ocasiões com o Missal do Beato João XXIII, e o farei de bom grado também nesta ocasião. A Congregação, da qual o Papa me chamou a ser Prefeito, não tem nada contra o uso da liturgia antiga, ainda que a verdadeira tarefa de nosso dicastério seja o aprofundamento do significado da renovação litúrgica segundo as diretrizes da Constituição Sacrosanctum Concilium e de seguir a trilha do Concílio Vaticano II. Para isto é preciso dizer que inclusive a forma extraordinária do rito romano deve ser iluminada pela Constituição conciliar, que nos primeiros dez parágrafos detalha o verdadeiro espírito da liturgia, que vale para todos os ritos.

Como o senhor vê, a cinco anos de distância, a aplicação do motu proprio Summorum Pontificum?
Não conhece os detalhes do que sucede no mundo, sobretudo porque a competência sobre este aspecto pertence à Comissão Ecclesia Dei, mas creio que pouco a pouco se começa a compreender que a liturgia é fundamental na Igreja e que nós devemos voltar a dar vida ao sentido do mistério e do sagrado em nossas celebrações. Ademais, parece-me que, a cinco anos de distância, se pode compreender melhor que não se trata somente de alguns fieis que vivem na nostalgia do latim, mas que se trata de aprofundar o sentido da liturgia. Todos somos Igreja, todos vivemos a mesma Comunhão. O Papa Bento XVI o tem explicado muito bem, e no primeiro aniversário do motu proprio recordou que todos têm um lugar na Igreja.

Fonte: http://vaticaninsider.lastampa.it/es/reportajes-y-entrevistas/dettagliospain/articolo/chiesa-church-iglesia-19319/


Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 27 de outubro de 2012

Carta Encíclica QUAS PRIMAS, do Papa Pio XI, sobre a Festa de Cristo Rei

Pax et bonum!

Caríssimos, neste domingo (28/10), último do mês de outubro, o Calendário para a Forma Extraordinária do Rito Romano traz a Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, como estabelecido pelo Papa Pio IX em 11/10/1925.
Com a reforma pós-conciliar do Calendário Romano Geral, a festa passou a se chamar Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, e foi deslocada para o último domingo do ano litúrgico, ou seja, o domingo imediatamente anterior ao primeiro domingo do Advento.
A encíclica Quas primas, de Pio XI, explica de maneira detalhada os fundamentos desta Festa, fundamentos que deveriam ser recordados por cada cristão, em nossos tempos de tantas crises políticas, escândalos de corrupção e ascensão de verdadeiros inimigos de Cristo ao poder. Naquele ano, as palavras vibrantes de Pio XI, no espaço de tempo entre as duas grandes guerras que assolaram o mundo no século passado, traziam à memória imperiosos deveres para com o amado Salvador.
Esperamos que todos tirem bom proveito desta leitura, que vivamente recomendamos.
Como Pio XI pediu, a Festa de Cristo Rei é dia de renovar a Consagração do gênero humano ao Sagrado Coração de Jesus. O ato de consagração, em latim e português, pode ser lido aqui.
A Encíclica em latim pode ser lida aqui, bem como em espanhol aqui.
E em comunhão com tantos mártires cristãos, perseguidos nos anos imediatamente seguintes à publicação desta Encíclica, queiramos também bradar: VIVA CRISTO REI!

***


DOCUMENTOS PONTIFÍCIOS

Pio XI

Sobre Cristo Rei

(Quas Primas)

 II EDIÇÃO
1950

EDITORA VOZES LTDA., Petrópolis, R. J. RIO DE JANEIRO — SÃO PAULO

IMPRIMA-SE
POR COMISSÃO ESPECIAL DO EXMO. E REVMO. 
SR. DOM MANUEL PEDRO DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PETRÓPOLIS. 
FREI LAURO OSTERMANN O. F. M, PETRÓPOLIS, 9-11-1950.

CARTA ENCÍCLICA
aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos 
e Outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: sobre Cristo Rei.

PIO PAPA XI

Veneráveis Irmãos, saúde e bênção apostólica.

INTRODUÇÃO.

1. Na primeira Encíclica, dirigida, em princípios do nosso Pontificado, aos Bispos do mundo inteiro, indagamos a causa íntima das calamidades que, ante os nossos olhos, avassalam o gênero humano. Ora, lembra-nos haver abertamente declarado duas coisas: uma — que esta aluvião de males sobre o universo provém de terem a maior parte dos homens removido, assim da vida particular como da vida pública, Jesus Cristo e sua lei sacrossanta; a outra — que baldado era esperar paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações recusassem reconhecer e proclamar a Soberania de Nosso Salvador. E por isso, depois de afirmarmos que se deve procurar "a paz de Cristo no reino de Cristo", manifestamos que era intenção nossa trabalhar para este fim, na medida de nossas forças. "No reino de Cristo", — dizíamos; porque, para restabelecer e confirmar a paz, outro meio mais eficiente não deparávamos, do que reconhecer a Soberania de Nosso Senhor. Com o correr do tempo, claramente pressentimos o raiar de dias melhores, quando vimos o zelo dos povos em acudir, — uns pela primeira vez, outros com renovado ardor, — a Cristo e à sua Igreja, única dispensadora da salvação: sinal manifesto de que muitos homens, até o presente como que desterrados do reino do Redentor, por desprezarem sua autoridade, preparam, ainda bem, e levam a efeito sua volta à obediência.

PREPARAÇÃO PROVIDENCIAL DA NOVA FESTA. O ANO SANTO.

2. Quanto, ao depois, sobreveio, quanto aconteceu no decorrer do "Ano Santo", digno, na verdade, de eterna memória, porventura não concorreu eficazmente para a honra e glória do Fundador da Igreja, de sua soberania, de sua suprema realeza?

Exposição Missionária.

Realizou-se, primeiro, a "Exposição Missionária", que, nos corações e nos espíritos dos homens, produziu tão profunda impressão. Ali vimos os incansáveis trabalhos empreendidos pela Igreja, para dilatar cada vez mais o reino de seu Esposo, em todos os continentes, em todas as ilhas, até nas mais longínquas, perdidas no oceano. Vimos quantos países conquistaram ao catolicismo à custa de seus suores, de seu sangue, nossos heróicos e destemidos missionários. Vimos as imensas regiões que ainda ficam por sujeitar ao domínio benfazejo de nosso Rei.

Peregrinações jubilares.

Realizaram-se, em seguida, romarias, vindas a Roma, durante o Ano Santo, de todas as partes do mundo, e guiadas por seus Bispos ou sacerdotes. Que motivos impeliam esses peregrinos, senão o desejo de purificarem suas almas e de proclamarem, junto ao Sepulcro dos Apóstolos e em Nossa presença, que estão e querem permanecer sob a autoridade de Cristo?

Canonizações.

Por fim, conferimos a seis Confessores ou Virgens as honras dos Santos, depois de cabalmente provadas suas admiráveis virtudes. Não brilhou, nesse dia, com novo fulgor, o reino de Jesus? Que gozo, que consolação não foi para Nossa alma, depois de proferirmos os decretos definitivos, ouvir, no majestoso recinto de S. Pedro, a imensa multidão os fiéis aclamar com uma só voz, entre cantos de ação de graças, a realeza gloriosa de Cristo — "Tu Rex gloriæ, Christe!" Num tempo em que indivíduos e estados, joguetes das sedições nascidas do ódio e discórdias civis, se precipitam para a ruína e a morte, a Igreja de Deus, prosseguindo a dar ao gênero humano o alimento da vida espiritual, gera e continua a educar para Cristo gerações sucessivas de Santos e Santas, e Cristo, por sua vez, não cessa de chamar à eterna felicidade do seu reino celeste quantos se Lhe demonstraram súditos fiéis e submissos de seu reino terrestre.

Centenário do Concílio de Nicéia.

Com o grande jubileu coincidiu o 16.° centenário do Concílio de Nicéia. Mandamos festejar este aniversário secular, e Nós mesmo o comemoramos na Basílica Vaticana, com tanto melhor grado, que este Concílio definiu e proclamou dogma de fé católica a "consubstancialidade" do Unigênito de Deus com seu Pai, e, inserindo em sua fórmula de fé, ou "Credo", as palavras: "cujo reino não terá fim — cujus regni non erit finis" — com isto mesmo afirmou a dignidade real de Cristo.

Súplica em favor de Cristo-Rei.

3. Portanto, já que este ano jubilar, em mais de uma ocasião, contribuiu para pôr em realce a realeza de Cristo, julgamos cumprir um dos atos mais próprios do Nosso ofício apostólico, acedendo às súplicas, assim individuais como coletivas, de numerosos Cardeais, Bispos ou fiéis, e encerrar este ano com introduzir na liturgia da Igreja uma festa especial em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. Este argumento temo-lo tanto a peito, Veneráveis Irmãos, que desejamos entreter-nos dele convosco alguns instantes. Empenho vosso será, depois, tornar, acessível à inteligência e aos sentimentos populares quanto dissermos sobre o culto de "Cristo-Rei", de modo que a nova festa anual produza agora e no porvir múltiplos frutos.

FUNDAMENTO DOUTRINAL DA NOVA FESTA.

Cristo-Rei no sentido metafórico.

4. Muito há que a linguagem corrente dá a Cristo o nome de "Rei em sentido metafórico e transposto". "Rei" é Cristo, com efeito, atenta a eminente e suprema perfeição com que sobrepuja a todas as criaturas. Assim, dizemos que "reina sobre as inteligências humanas", por causa da penetração do seu espírito e da extensão de sua ciência, mas sobretudo porque é a própria Verdade em pessoa, de quem, portanto, é força que recebam rendidamente os homens toda verdade. Dizemos que "reina sobre as vontades humanas", porque n'Ele se alia a indefectível santidade do divino querer com a mais reta, a mais submissa das vontades humanas; e também porque suas inspirações entusiasmam nossa vontade livre pelas causas mais nobres. Dizemos, enfim, que é "Rei dos corações", por causa daquela inefável "caridade que excede a toda humana compreensão" (Ef 3, 19); e porque sua doçura e sua bondade atraem os corações: pois nunca houve, no gênero humano, e nunca haverá quem tanto amor tenha ateado como Cristo Jesus.

Cristo Deus-Homem Rei da Humanidade em sentido próprio.

5. Aprofundemos sempre mais o nosso argumento. É manifesto que o nome e o poder de "Rei", no sentido próprio da palavra, competem a Cristo em sua Humanidade, porque só de Cristo enquanto homem é que se pode dizer: do Pai recebeu "poder, honra e realeza" (Dan 7, 13-14). Enquanto Verbo, consubstanciai ao Pai, não pode deixar de Lhe ser em tudo igual e, portanto, de ter, como Ele, a suprema e absoluta soberania e domínio de todas as criaturas.

Testemunho ao Antigo Testamento.

6. Que Cristo seja Rei, não o lemos nós na Escritura? Ele é o "Dominador oriundo de Jacob" (Num 24, 19), Ele o "Rei, dado pelo Pai a Sião, sua Santa Montanha, para receber em herança as nações, e dilatar seu domínio até os confins da Terra" (Sl 2, 6. 8), Ele o verdadeiro "Rei vindouro" de Israel, que o cântico nupcial nos representa sob os traços de um soberano opulento e poderoso, a quem se dirigem estas palavras: "O teu trono, ó Deus, subsistirá por todos os séculos: a vara de retidão é a vara de teu reino" (Sl 44, 7). Omitindo muitos passos análogos, deparamos além, como, para delinear com maior nitidez a fisionomia de Cristo, vem predito que seu reino desconhecerá fronteiras e desfrutará os tesouros da justiça e da paz. "Nos dias d'Ele, aparecerá justiça e abundância de paz... E dominará de mar a mar, e desde o rio até os confins da Terra" (Sl 71, 7-8). A esses testemunhos, juntam-se mais numerosos ainda os oráculos dos Profetas, e notadamente a tão conhecida profecia de Isaías: "Já um Pequenino se acha nascido para nós, e um filho nos foi dado, e foi posto o principado sobre o seu ombro; e o nome com que se apelide será Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai do futuro século, Príncipe da Paz. O seu império se estenderá cada vez mais, e a paz não terá fim; assentar-se-á sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o firmar e fortalecer em juízo e justiça, desde então e para sempre" (Is 9, 6-7).

7. Não é outro o modo como se expressam os demais Profetas. Assim fala Jeremias, quando prenuncia à descendência de David "um germe de justiça", esse filho de David, que reinará como Rei, "será sábio e obrará segundo a equidade e justiça na Terra" (Jer 23, 5). Assim Daniel, quando prediz a constituição por Deus de um reino "que não será jamais dissipado... e que durará eternamente" (Dan 2, 44). E pouco depois acrescenta: "Eu considerava estas coisas numa visão de noite, e eis que vi um, como o Filho do Homem, que vinha com as nuvens do Céu, e que chegou até o Antigo dos dias; e eles o apresentaram diante d'Ele. E Ele Lhe deu o poder, e a honra, e o reino; todos os povos, e tribos e línguas o servirão: o seu poder é um poder eterno, que Lhe não será tirado, e o seu reino tal, que não será jamais corrompido" (Dan 7, 13-14). Assim Zacarias, quando profetiza a entrada em Jerusalém, entre as aclamações do povo, do "Justo e Salvador", do Rei cheio de mansidão "montado sobre uma jumenta, e sobre o potrinho da jumenta" (Zac 9, 9). E não apontaram os Evangelistas o cumprimento desta profecia?

Testemunho do Novo Testamento.

8. Esta doutrina de "Cristo Rei", que acabamos de esboçar segundo os livros do Antigo Testamento, bem longe de apagar-se nas páginas do Novo, vem ali, ao invés, confirmada do modo mais esplêndido e em termos admiráveis. Bastará lembrar apenas a mensagem do Arcanjo à Virgem, a anunciar-lhe que dará à luz um Filho; a este Filho, Deus outorgará "o trono de David, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacob, e seu reino não terá fim" (Lc 1, 32-33). Ouçamos agora o testemunho do próprio Cristo no tocante à sua soberania. Sempre que se Lhe oferece ensejo, — em seu último discurso ao povo, sobre a recompensa e os castigos que, na vida eterna, aguardam os justos e os maus; em sua resposta ao governador romano que Lhe perguntara se era Rei; depois de sua ressurreição, quando confia aos Apóstolos a missão de instruírem e batizarem todas as nações, — reivindica o título de "Rei" (Mt 25, 31-40), e publicamente declara que é "Rei" (Jo 18, 37) e que "todo poder Lhe foi dado no Céu e sobre a Terra" (Mt 28, 18). Que entende com isto, senão afirmar a extensão de sua potência, a imensidade do seu reino? À vista disto, deverá fazer-nos estranheza que S. João o proclame "Príncipe dos reis da terra? (Apoc 1, 5) ou que, aparecendo o próprio Jesus ao mesmo Apóstolo em suas visões proféticas "traga escrito no vestido e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores"? (Apoc 19, 16). O Pai, com efeito, constituiu a Cristo "herdeiro de todas as coisas" (Heb 1, 1). Cumpre que reine até o fim dos tempos, quando "arrojará todos os seus inimigos sob os pés de Deus e do Pai" (1 Cor 15, 25).

Testemunho da Liturgia.

9. Desta doutrina comum a todos os livros santos, naturalmente dimana a seguinte conseqüência: justo é que a Igreja Católica, reino de Cristo na Terra, chamada a estender-se a todos os homens, a todas as nações do universo, multiplicando os preitos de veneração, celebre, no ciclo anual da Liturgia Santa, a seu Autor e Instituidor como a Rei, como a Senhor, como a Rei dos reis. Com admirável variedade de fórmulas, estas homenagens expressam um e o mesmo pensamento; desses títulos servia-se a Igreja outrora no divino ofício e nos antigos sacramentados; repete-os ainda agora, nas preces públicas, que todos os dias dirige à Infinita Majestade e na oblação da Hóstia Imaculada. Nesse louvor ininterrupto de Cristo-Rei, nota-se para logo a formosa harmonia dos nossos ritos com os ritos orientais, verificando-se aqui também a verdade, do prolóquio: "as normas da oração confirmam os princípios da Fé".

Argumento teológico.

10. O fundamento sobre que pousa esta dignidade e poder de Nosso Senhor, define-o exatamente S. Cirilo de Alexandria, quando escreve: "Numa palavra, possui o domínio de todas as criaturas, não pelo ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza" (In Lucam, 10). Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de "hipostática". Portanto, não só merece Cristo que anjos e homens O adorem como a seu Deus, senão que também devem homens e anjos prestar-Lhe submissa obediência como a Homem. E assim, só em força dessa união, a Cristo cabe o mais absoluto poder sobre todas as criaturas, posto que, durante sua vida mortal, renunciasse ao exercício desse domínio. — Mas haverá, outrossim, pensamento mais suave do que refletir que Cristo é nosso Rei não só por direito de natureza, mas também a título de Redentor? Lembrem-se os homens esquecidos de quanto custamos a nosso Salvador. "Não fostes resgatados a preço de coisas perecíveis, prata e outro, mas com o sangue precioso de Cristo, como de cordeiro sem mancha nem defeito" (1 Ped 1, 18-19). Já nos não pertencemos, pois que deu Cristo por nós "tão valioso resgate" (1 Cor 6, 20). Até nossos corpos são "membros de Cristo" (1 Cor 6, 15).

ÍNDOLE DA REALEZA DE CRISTO

A Cristo-Rei cabe o poder legislativo, judicial, executivo.

11. Para dizer, em poucas palavras, a importância e índole desta realeza, será apenas necessário asserir que abrange um tríplice poder constitutivo, essencial de toda realeza verdadeira. Provam-no de sobejo os testemunhos de toda a Escritura no tocante à dominação universal de nosso Redentor, e é artigo de fé católica: Cristo Jesus foi dado aos homens não só como Redentor, que lhes merece toda confiança, mas também como Legislador, a quem devemos prestar obediência (Conc. Trid., Sess. 6, can. 21). E com efeito, não dizem os Evangelhos tão só que promulgou leis, mas no-lo representam no ato de promulgar as leis. A quantos observarem os seus preceitos, declara o Divino Mestre, em várias ocasiões e de diversos modos, que com isto mesmo Lhe hão de provar o seu amor e permanecer em sua caridade (Jo 14, 15); 15, 10). — Quanto ao "poder judicial", declara o próprio Jesus havê-lo recebido de seu Pai, em resposta aos judeus, que o haviam acusado de violar o descanso do sábado, curando milagrosamente, neste dia, a um paralítico. "O Pai, disse-lhes o Salvador, não julga a ninguém, mas deu todo juízo ao Filho" (Jo 5, 22). Esse poder judicial igualmente inclui o "direito", — que se não pode dele separar, — de "premiar" e "punir" aos homens, mesmo durante a vida. — A Cristo compete o "poder executivo", porquanto devem todos sujeitar-se ao seu domínio, e quem for rebelde não poderá evitar a condenação e os suplícios, que Jesus prenunciou.

Realeza espiritual.

12. Esta realeza, porém, é principalmente interna e respeita sobretudo a ordem espiritual. Provam-no com toda evidência as palavras da Escritura acima referidas, e, em muitas circunstâncias, o proceder do próprio Salvador. Quando os judeus, e até os Apóstolos, erradamente imaginavam que o Messias libertaria seu povo para restaurar o reino de Israel, Jesus desfez o erro e dissipou a ilusória esperança. Quando, tomada de entusiasmo, a turba, que O cerca, O quer proclamar rei, com a fuga furta-se o Senhor a estas honras, e oculta-se. Mais tarde, perante o governador romano, declara que seu reino "não é deste mundo". Neste reino, tal como no-lo descreve o Evangelho, é pela penitência que devem os homens entrar. Ninguém, com efeito, pode nele ser admitido sem a fé e o batismo; mas o batismo, conquanto seja um rito exterior, figura e realiza uma regeneração interna. Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz. Foi para adquirir a Igreja que Cristo, enquanto "Redentor", verteu o seu sangue; para isto é, que, enquanto "Sacerdote", se ofereceu e de contínuo se oferece como vítima. Quem não vê, em conseqüência, que sua realeza deve ser de índole toda espiritual, e participar da natureza deste seu duplo ofício?

13. Todavia, fora erro grosseiro denegar a Cristo Homem a soberania sobre as coisas temporais todas, sejam quais forem. Do Pai recebeu Jesus o mais absoluto domínio das criaturas, que Lhe permite dispor delas todas como Lhe aprouver. Contudo, enquanto viveu sobre a Terra, absteve-se totalmente de exercer este domínio temporal, e desprezou a posse e regimento das coisas humanas, que deixou — e deixa ainda — ao arbítrio e domínio dos homens. Verdade graciosamente expressa no conhecido verso: "Não arrebata diademas terrestres, quem distribui coroas celestes. — Non eripit mortalia, qui regna dat cælestia" (Hino Crudelis Herodes, of. da Epif.).

Realeza universal.

14. Assim, pois, a realeza do nosso Redentor abraça a totalidade dos homens. Sobre este ponto, de muito bom grado fazemos Nossas as palavras seguintes de Nosso Predecessor Leão XIII, de imortal memória: "Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que juridicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro" (Encícl. Annum Sacrum, 25 de Maio de 1899). E, neste particular, não cabe fazer distinção entre os indivíduos, as famílias e os estados; pois os homens não estão menos sujeitos à autoridade de Cristo em sua vida coletiva do que na vida individual. Cristo é fonte única de salvação para as nações como para os indivíduos. "Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do Céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos" (At 4, 12). Dele provêm ao estado como ao cidadão toda prosperidade e bem-estar verdadeiro. "Uma e única é a fonte da ventura, assim para as nações como para os indivíduos, pois outra coisa não é a cidade mais que uma multidão concorde de indivíduos" (S. Aug., Epíst. ad Macedonium, c. 3). Não podem, pois, os homens de governo recusar à soberania de Cristo, em seu nome pessoal e no de seus povos, públicas homenagens de respeito e submissão. Com isto, sobre estearem o próprio poder, hão de promover e aumentar a prosperidade nacional.

BENEFÍCIOS SOCIAIS DESTA REALEZA

Crise da autoridade.

15. Ao subirmos à cátedra pontifical, deplorávamos o lastimável decaimento em que vemos abatido o prestígio do direito e a reverência à autoridade. Quanto então dizíamos não é hoje menos atual ou oportuno. "Excluídos da legislação e dos negócios públicos Deus e Jesus Cristo, e derivando, os que regem, o seu poder, não já do alto, mas dos homens, aconteceu que ruiu o próprio fundamento da autoridade, em conseqüência de estar removida a razão fundamental do direito que a uns assiste de mandar, e da obrigação conseqüente que têm outros de obedecer. Seguiu-se daí forçosamente um abalo na humana sociedade inteira, falha assim de amparo e sustentáculo firme" (Encícl. Ubi arcano, DP 19). Se soubessem resolver-se os homens a reconhecer a autoridade de Cristo em sua vida particular e pública, para logo deste ato dimanariam em toda a humanidade incomparáveis benefícios: —: uma justa liberdade, a ordem e o sossego, a concórdia e a paz.

No interior dos estados.

16. Com dar à autoridade dos príncipes e chefes de governo certo caráter sagrado, a dignidade real de Nosso Senhor enobrece com isto mesmo os deveres e a sujeição dos cidadãos. Tanto assim que o Apóstolo S. Paulo, depois de prescrever às mulheres casadas e aos escravos de reconhecerem a Cristo na pessoa de seus maridos e senhores, lhes recomendava, ainda assim, de obedecerem não servilmente, como a homens, mas tão só em espírito de fé como a representantes de Cristo, porque ,é indigno de uma alma resgatada por Cristo obedecer com servilismo a um homem. "Fostes resgatados com grande preço: não estejais sujeitos já como escravos a homens" (1 Cor 7, 23). Se os príncipes e governos legitimamente constituídos tivessem a persuasão de que regem menos no próprio nome do que em nome e lugar do Rei Divino, é manifesto que usariam do seu poder com toda a prudência, com toda a sabedoria possíveis. Em legislar e na aplicação das leis, como haveriam de atender ao bem comum e à dignidade humana de seus súbditos! Então floresceria a ordem, então víramos difundir-se e firmar-se a tranqüilidade e a paz; embora o cidadão reconhecesse nos príncipes e chefes de governo homens iguais a si pela natureza ou mesmo, por algum respeito, indignos ou repreensíveis, não deixara por isto de lhes obedecer, por depreender neles a imagem e autoridade de Cristo, Deus-Homem.

Vantagens sociais para as nações.

17. Pelo que respeita à concórdia e à paz, é manifesto que, quanto mais vasto é um reino, quanto mais largamente abraça o gênero humano, tanto é maior a consciência em seus membros do vínculo de fraternidade que os une. Esta consciência, assim como remove e dissipa os freqüentes conflitos, assim também atenua e suaviza os amargores que dos conflitos nascem. E se o reino de Cristo abarcara de fato, como de direito abarca, as nações todas, porque deveríamos perder a esperança dessa paz que à Terra veio trazer o Rei pacífico, esse Rei que veio "para reconciliar todas as coisas" (Col 1, 20), "que não veio para ser servido, mas para servir aos outros" (Mc 10, 45) e que, embora "Senhor de todos" (Gál 4, 1), deu exemplo de humildade e principalmente inculcou esta virtude, de envolta com a caridade, acrescentando: "Meu jugo é suave, e é leve minha carga" (Mt 11, 30). Oh! que ventura não pudéramos gozar, se os indivíduos, se as famílias, se a sociedade se deixasse reger por Cristo! "Então, finalmente — para citarmos as palavras que, há 25 anos, Nosso Predecessor Leão XIII dirigia aos Bispos do mundo inteiro — então fora possível sanar tantas feridas; o direito recobrara seu antigo viço, seu prestígio de outras eras; então tornaria a paz com todos os seus encantos e cairiam das mãos armas e espadas, quando todos de bom grado aceitassem o império de Cristo, Lhe obedecessem, e toda língua proclamasse que "Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre" (Ene. Annum Sacrum).

A FESTA DE JESUS CRISTO-REI

18. E a fim de que a sociedade cristã goze largamente de tão preciosas vantagens e para sempre as conserve, é mister que se divulgue quanto possível o conhecimento da dignidade real de Nosso Salvador. Ora, nada pode, pelo que Nos parece, conseguir melhor este resultado, do que a instituição de uma festa própria e especial em honra de Cristo-Rei.

Influência da liturgia na vida cristã.

19. Com efeito, para instruir o povo nas verdades da fé e levá-lo assim às alegrias da vida interna, mais eficazes que os documentos mais importantes do Magistério eclesiástico são as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos do Magistério, de fato, apenas alcançam um restrito número de espíritos mais cultos, ao passo que as festas atingem e instruem a universalidade dos fiéis. Os primeiros, por assim dizer, falam uma vez só, as segundas falam sem interminência de ano para ano; os primeiros dirigem-se, sobretudo, ao entendimento; as segundas influem não só na inteligência, mas também no coração, quer dizer — no homem todo. Composto de corpo e alma, precisa o homem dos incitamentos exteriores das festividades, para que, através da variedade e beleza dos sagrados ritos, recolha no ânimo a divina doutrina, e, transformando-a em substância e sangue, tire dela novos progressos em sua vida espiritual.

Origem histórica e providencial das festas na Igreja.

20. Além disso, ensina-nos a própria história, que estas festividades litúrgicas foram introduzidas, no decorrer dos séculos, umas após outras, para responder a necessidades ou vantagens espirituais do povo cristão. Foram-se constituindo para fortalecer os ânimos em presença de algum perigo comum, para premunir os espíritos contra os ardis da heresia, para mover e inflamar os corações a celebrar com mais ardente piedade algum mistério de nossa fé ou algum benefício da divina graça. Assim é que, desde os primeiros tempos da era cristã, quando, acossados das mais cruentas perseguições, os fiéis começaram, com sagrados ritos, a comemorar os mártires, para que — como diz S. Agostinho — "as solenidades dos mártires fossem exortação ao martírio" (Sermo 47, de Sanctis). As honras litúrgicas, mais tardes decretadas aos confessores, às virgens, às viúvas, contribuíram singularmente para promover nos fiéis o zelo pela virtude, indispensável mesmo em tempo de paz. Especialmente as festas em honra da Virgem Beatíssima fizeram com que o povo cristão não só tributasse à Mãe de Deus, sua Protetora por excelência, culto mais assíduo, senão que ao mesmo tempo fosse de contínuo crescendo seu amor filial à Mãe que o Redentor lhe deixara como que em testamento. Dentre os benefícios que dimanaram do culto público e legitimamente prestado à Mãe de Deus e aos Santos do Céu, não é o menor a vitória constante com que a Igreja se cobriu de louros, ao debelar e repelir a heresia e o erro. E nisto devemos admirar os desígnios da Divina Providência, que, segundo costuma, tira o bem do mal. Permitiu que, de tempos a tempos, entibiasse a fé e a piedade popular; permitiu que doutrinas errôneas armassem insídias à piedade católica, mas sempre com o intuito de fazer finalmente fulgir a verdade com novo esplendor e mover os fiéis, espertos da tibieza, a tenderem com novo zelo a graus mais elevados de santidade e perfeição cristã. Idêntica é a origem, idênticos os frutos que produziram as solenidades recentemente introduzidas no calendário litúrgico. Tal é a festa do "Corpus Christi", instituída quando se esfriava a reverência e o culto para com o SS. Sacramento; celebrada com brilho singular, protraída por oito dias de suplicações coletivas, a nova solenidade devia reconduzir os povos à adoração pública do Senhor. Tal é a festa do Coração Santíssimo de Jesus estabelecida na época em que, abatidos e desalentados pelas tristes doutrinas e o rigorismo sombrio do jansenismo, os fiéis sentiam seus corações regelados e com escrúpulo deles excluíam todo sentimento de amor de Deus e a esperança de conseguirem a eterna salvação.

Oportunidade da festa.

21. Para Nós também soou a hora de provermos às necessidades dos tempos presentes e de opormos um remédio eficaz à peste que corrói a sociedade humana. Fazemo-lo, prescrevendo ao universo católico o culto de Cristo-Rei. Peste de nossos tempos é o chamado "laicismo", com seus erros e atentados criminosos.

Excessos do laicismo.

22. Como bem sabeis, Veneráveis Irmãos, não é num dia que esta praga chegou à sua plena maturação; há muito, estava latente nos estados modernos. Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o gênero humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus.

Frutos perniciosos do laicismo.

23. Os frutos sobremodo amargosos que, tantas vezes e com tanta persistência, produziu esta apostasia dos indivíduos e dos estados, que desertam a Cristo, expendemo-los na Encíclica "Ubi arcano". Tornamos a lamentá-los hoje. Frutos desta apostasia são os germes de ódio esparsos por toda parte, as invejas e rivalidades entre nações, que alimentam as discórdias internacionais e dificultam ainda agora a restauração da paz; frutos desta apostasia as ambições desenfreadas, que muitas vezes se encobrem com a máscara do interesse público e do amor da pátria, e suas tristes conseqüências: dissensões civis, egoísmo cego e desmedido, sem outro fito nem outra regra mais que vantagens pessoais e proveitos particulares. Fruto desta apostasia a perturbação da paz doméstica, pelo esquecimento e desleixo das obrigações familiares, o enfraquecimento da união e estabilidade no seio das famílias, e por fim o abalo na sociedade toda, que ameaça ruir.

Pusilanimidade de certos católicos.

24. A festa, doravante ânua, de "Cristo-Rei" dá-nos a mais viva esperança de acelerarmos a tão desejada volta da humanidade a seu Salvador amantíssimo. Fora, com certeza, dever dos católicos, apressar e preparar esta volta com diligente empenho; a muitos deles, contudo, pelo que parece, não toca, na sociedade civil, o posto e a autoridade que conviriam aos apologistas da fé. Talvez deva este fato atribuir-se à indolência e timidez dos bons que se abstêm de toda resistência, ou resistem com moleza, donde provém, nos adversários da Igreja, novo acréscimo de pretensões e de audácia. Mas, desde que a massa dos fiéis se compenetre de que é obrigação sua combater com valentia e sem tréguas sob os estandartes de Cristo-Rei, o zelo apostólico abrasará seus corações, e todos se esforçarão de reconciliar com o Senhor as almas que o ignoram ou dele desertaram; todos, enfim, se esforçarão por manter inviolados os direitos do próprio Deus.

Protesto e reparação.

25. Mas não basta. Uma festa, anualmente celebrada por todos os povos em homenagem a Cristo-Rei, será sobremaneira eficaz para condenar e ressarcir, de algum modo, esta apostasia pública, tão desastrada para as nações, gerada pelo laicismo. Com efeito, quanto mais vergonhosamente se passa em silêncio, quer nas conferências internacionais, quer nos Parlamentos, o nome suavíssimo do nosso Redentor, tanto mais alto o devemos aclamar, tanto mais devemos reconhecer os direitos que a Cristo conferem sua dignidade e poder real.

CONVENIÊNCIAS ATUAIS DA INSTITUIÇÃO DA FESTA.

Precedentes da festa de Cristo-Rei.

26. E quem não vê que, desde os últimos anos do século passado, se ia, de modo admirável, preparando o caminho à instituição desta festa? Ninguém, com efeito, ignora como, com livros que se escreveram nas várias línguas do mundo inteiro, este culto foi explicado e doutamente defendido. Sabem todos que a autoridade e realeza de Cristo foi já reconhecida pela piedosa prática de se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo ato. Antes, por iniciativa e direção de Leão XIII, o universo gênero humano foi felizmente consagrado a este Coração Santíssimo, no correr do Ano Santo de 1900. Não podemos preterir os congressos eucarísticos que nossa época viu multiplicar-se em tão grande número. Tão bem serviram à causa da solene proclamação humana. Reunidos para apresentar à veneração e às homenagens populares de uma diocese, de uma província, de uma nação, ou mesmo do mundo inteiro, Cristo-Rei, oculto sob os véus eucarísticos, esses congressos, em conferências realizadas nas suas assembléias, em sermões proferidos nas igrejas, por meio da exposição pública ou da adoração em comum do Santíssimo Sacramento e de grandiosas procissões, enaltecem a Cristo como a Rei que de Deus receberam os homens. Este Jesus, que os ímpios recusaram acolher quando veio a seu reino, pode-se dizer, com toda a verdade, que o povo cristão, movido de uma inspiração divina, vai arrancá-l'O ao silêncio e, por assim dizer, à obscuridão dos templos, para levá-l'O, qual triunfador, pelas ruas das grandes cidades e reintegrá-1'O em todos os direitos de sua realeza.

Excelentes disposições dos fiéis ao saírem do jubileu.

27. Para a realização deste Nosso desígnio, de que acabamos de falar, oferece-Nos ensejo sumamente oportuno o "Ano Santo" que finda. Este ano veio relembrar ao espírito e ao coração dos fiéis os bens celestes que sobrepujam todo sentimento natural. Em sua bondade infinita, Deus restitui a uns a sua graça, e confirma a outros no bom caminho, infundindo-lhes novo ardor para aspirarem a dons mais perfeitos. Quer atendamos às numerosas súplicas que nos foram dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se deram no correr do "Ano Santo", sobeja razão nos assiste de pensarmos que deveras para Nós soou a hora de proferirmos a sentença tão ansiosamente de todos aguardada e que decretemos uma festa especial em honra de Cristo, Rei de todo o gênero humano. Durante este ano, com efeito, como a princípio dissemos, este divino Rei, deveras admirável em seus Santos, conquistou novos triunfos, com a elevação às honras dos altares de mais um manípulo de soldados seus. Durante este ano, uma exposição extraordinária pôs ante os olhos do mundo as fadigas e, de algum modo, os próprios trabalhos dos arautos do Evangelho, e todos puderam admirar as vitórias ganhas por esses campeões de Cristo, para a extensão do seu reino; durante este ano, finalmente, com o centenário do Concílio de Nicéia, comemoramos, contra os seus detratores, a defesa e definição do dogma da consubstancialidade do Verbo Humanado com seu Pai, verdade na qual descansa, como em fundamento, a soberania de Cristo sobre todos os povos.

Data e modalidade da festa.

28. Portanto, em virtude de Nossa autoridade apostólica, instituímos a festa de "Nosso Senhor Jesus Cristo Rei", mandando que seja celebrada cada ano, no mundo inteiro, no último domingo de Outubro imediato à solenidade de Todos os Santos. Prescrevemos igualmente que, cada ano, se renove, nesse dia, a consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, que já Nosso Predecessor de saudosa memória Pio X ordenara se fizesse anualmente. Contudo, queremos que, neste ano, a renovação se faça a 31 de Dezembro; nesse dia, celebraremos missa pontifical em honra de "Cristo-Rei", e mandaremos proferir, em Nossa presença, o ato de consagração. Quer parecer-Nos que não pode haver melhor encerramento do "Ano Santo", e que destarte daremos a "Cristo, Rei Imortal dos séculos", o testemunho mais eloqüente de nossa gratidão e do reconhecimento do universo católico, de quem Nos fazemos intérpretes, pelos benefícios que, neste período de graças, concedeu a Nós mesmo, à Igreja, à cristandade toda.

Objeto formal da nova festa.

29. É escusado, Veneráveis Irmãos, explicar-vos longamente os motivos de uma festa especial em honra de "Cristo-Rei". Pois, conquanto outras festas, já existentes, enalteçam e de algum modo glorifiquem sua dignidade real, basta, contudo, observar que, se todas as festas de Nosso Senhor têm a Cristo, segundo a linguagem dos teólogos, por "objeto material", de modo algum é o poder e apelativo de Rei "objeto formal" das mesmas.

Seu lugar no ciclo litúrgico.

30. Fixando a nova festa em um domingo, quisemos que o clero não fosse o único em prestar suas homenagens a "Cristo-Rei", com a celebração do Santo Sacrifício e a reza do Santo Ofício, mas que o povo, desimpedido de suas ocupações ordinárias, e animado de santa alegria, pudesse dar a Cristo, como a seu Senhor e Soberano, um manifesto testemunho de obediência. Finalmente mais apropriado Nos pareceu o último domingo de Outubro, porque este domingo, em certo modo, encerra o ciclo do ano litúrgico; destarte, os mistérios da vida de Jesus Cristo, comemorados no decorrer do ano que finda, terão na solenidade de "Cristo-Rei" seu como termo e coroa, e antes de celebrar a glória de todos os Santos, a liturgia proclamará e enaltecerá a glória d'Aquele que em todos os Santos e em todos os eleitos triunfa. É dever, é direito vosso, Veneráveis Irmãos, fazer preceder a festa por uma série de instruções que se dêem, em dias determinados, nas diferentes paróquias, para instruir acuradamente o povo da natureza, significado e importância desta festa, por onde os fiéis regulem a sua vida em modo a torná-la digna de súbditos leais e submissos de coração à soberania do Divino Rei.

Esperanças e augúrios.

31. Ao fecharmos esta carta, quiséramos ainda, Veneráveis Irmãos, expor-vos brevemente os frutos, que, tanto para a Igreja e a sociedade civil, como para cada um dos fiéis, esperamos deste culto público prestado a Cristo-Rei.

Melhor compreensão dos direitos da Igreja.

32. A obrigação de tributar à soberania de Nosso Senhor as homenagens, a que nos referimos, relembra, juntamente, aos homens os direitos da Igreja. Instituída por Cristo, que lhe deu a forma orgânica de sociedade perfeita, exige, em virtude deste direito, que dimana de sua origem divina e que ela não pode abdicar, a plena liberdade, a independência absoluta do poder civil. No desempenho de sua divina missão, de ensinar, reger e conduzir à eterna felicidade todos os membros do reino de Cristo, não pode, de modo algum, depender de vontade estranha. Antes, idêntica liberdade deve o estado conceder às ordens e congregações religiosas de ambos os sexos, pois são os auxiliares mais firmes dos Pastores da Igreja, os que mais eficazmente se empenham em difundir e confirmar o reinado de Cristo, primeiro debelando em si, com a profissão religiosa, o mundo e sua tríplice concupiscência, e depois, pelo fato de haverem abraçado uma profissão de vida mais perfeita, fazendo resplandecer aos olhos de todos, com fulgor contínuo e cada dia crescente, esta santidade de que o divino Fundador quis fazer uma nota distinta de sua Igreja autêntica.

Restauração do culto público e oficial.

33. Com a celebração ânua desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes.

Grande impulso à piedade dos fiéis.

34. Que energias, além disso, que virtude não poderão os fiéis haurir da meditação destas verdades, para amoldar seus espíritos aos princípios verdadeiros da vida cristã! Se todo o poder foi dado ao Senhor Jesus, no céu e na terra, se os homens, resgatados pelo seu sangue preciosíssimo, se tornam, com novo título, súditos de seu império, se, finalmente, este poder abraça a natureza humana em seu conjunto, é claro que nenhuma de nossas faculdades se pode subtrair a essa realeza. É mister, pois, que reine em nossas inteligências: com plena submissão, com adesão firme e constante, devemos crer as verdades reveladas e os ensinos de Cristo. É mister que reine em nossas vontades: devemos observar as leis e os mandamentos de Deus. É mister que reine em nossos corações: devemos mortificar nossos afetos naturais, e amar a Deus sobre todas ,as coisas. É mister que reine em nossos corpos e em nossos membros: devemos transformá-los em instrumentos, ou, para falarmos com S. Paulo (Rom 6, 13), "em armas de justiça, oferecidas a Deus", para aumento da santidade de nossas almas. Eis os pensamentos que, propostos à reflexão dos fiéis e atentamente ponderados, hão de facilmente levá-los a mais elevada perfeição.

Augúrio final.

35. Praza a Deus, Veneráveis Irmãos, que os homens, afastados da Igreja, procurem e aceitem, para salvação de suas almas, o jugo suave de Cristo. Quanto a nós todos, por divina misericórdia, súbditos e filhos seus, queira Deus que levemos este jugo, não de má vontade, mas com prazer, mas com amor, mas santamente. Assim, no decorrer de uma vida pautada pelas leis do reino do céu, recolheremos, alegres, grande cópia de frutos, e mereceremos que Cristo, reconhecendo-nos por bons e fiéis servidores de seu reino terrestre, nos admita, depois, a participar com Ele da eterna felicidade e da glória sem fim em seu reino celeste.

Aceitai, Veneráveis Irmãos, ao decorrerem as festas natalícias do Senhor, este presságio e este augúrio, como prova de Nosso paternal afeto, e, como penhor de divinos favores, recebei a bênção apostólica, que, com toda a alma, vos concedemos a Vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e à vossa grei.

Dada em Roma, junto a S. Pedro, aos 11 de Dezembro do Ano Santo de 1925, quarto do Nosso Pontificado. PIO PP. XI

***

A única versão em português da Encíclica que encontramos na web está disponível em
No ano passado apenas fizemos referência ao link. Desta vez retiramos daí o texto, omitindo o número das páginas do documento em sua versão impressa, de 1950.

Por Luís Augusto, membro da ARS

Vídeos do DVD da Fraternidade São Pedro sobre a Missa na Forma Extraordinária

Pax et bonum!

Em 2008 foi lançado o DVD, da Fraternidade Sacerdotal São Pedro, de instruções acerca da Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano. O mesmo foi produzido em parceria com a EWTN (canal católico estadunidense) e gravado no belo Santuário do Santíssimo Sacramento, no Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos, das Pobres Clarissas da Adoração Perpétua (fundado pela famosa religiosa e comunicadora estadunidense, Madre Angélica), em Hanceville, no Alabama, EUA.
Para proveito de sacerdotes, seminaristas, cerimoniários, coroinhas e demais interessados, postamos aqui as cinco partes do DVD disponibilizadas no canal FSSPTraining, do Youtube, desde janeiro deste ano.
O áudio das explicações está em inglês, mas cremos que, não obstante, será de grande utilidade.

Primeira parte (Da preparação do altar até o Credo)

Segunda parte (Do Ofertório até o fim do Cânon)

Terceira parte (Do Pater noster até o fim da Missa, o retorno à sacristia, etc.)

Quarta parte (Princípios dos movimentos e gestos na Liturgia)

Quinta parte (Variações na celebração da Missa)

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Sobre o Juízo Universal (ou Final)

Pax et bonum!

"Juízo Final", por Hans Memling, séc. XV

Aproveitando o Ano da Fé, em que nos convém conhecer melhor as verdades cristãs, bem como a inusitada aparição alardeada pela mídia de um "profeta", aqui na cidade de Teresina-PI, que predisse o "fim do mundo" para as 16h do último dia 12 de outubro (o que levou muitos incautos a se assustarem e mais de 100 pessoas, já há algum tempo, a morarem junto com este "profeta"), muito embora nosso foco, como já o declarei em outras postagens, seja a Sagrada Liturgia, decidi reunir algumas informações sobre o que a Igreja crê quanto ao "fim do mundo".
Espero assim colaborar para que nós, cristãos, levemos aos ignorantes as verdades acerca dos últimos acontecimentos. 
Infelizmente, até entre católicos de formação razoável, existe inclinação e verdadeira crença em supostas aparições e sinais, reprovados pela Igreja, que insinuam certas coisas. Sejamos atentos!
Portanto, segue primeiro um artigo da Catholic Encyclopedia, de 1910, traduzido, depois as páginas digitalizadas do Manual de Instrução Religiosa [Doutrina Católica] do Pe. Boulenger, de 1927, mais ou menos, e depois as citações do Catecismo da Igreja Católica.

***
Juízo Universal (ou Juízo Final)

Existência do juízo universal

1.
Poucas verdades são mais frequentemente ou mais claramente proclamadas nas Escrituras do que a do juízo universal. A isto os profetas do Antigo Testamento se referem quando falam do "Dia do Senhor" (Joel 2,31; Ezequiel 13,5; Isaías 2,12), no qual as nações serão chamados para o julgamento. No Novo Testamento, a Parusia, ou segunda vinda de Cristo, como Juiz do mundo, é uma doutrina várias vezes repetida. O próprio Salvador não somente prediz o evento, mas graficamente retrata as suas circunstâncias (Mateus 24,27ss; 25,31ss). Os Apóstolos dão a esta doutrina um lugar mais proeminente em suas pregações (Atos 10,42; 17,31) e escritos (Romanos 2,5-16; 14,10; 1Coríntios 4,5; 2Coríntios 5,10; 2Timóteo 4,1; 2Tessalonicenses 1,5; Tiago 5,7). Ao lado do nome Parusia (parousia), ou Advento (1Coríntios 15,23; 2Tessalonicenses 2,19), a Segunda Vinda também é chamada de Epifania, epiphaneia, ou Aparição (2Tessalonicenses 2,8; 1Timóteo 6,14; 2Timóteo 4,1; Tito 2,13), e Apocalipse (apokalypsis), ou Revelação (2Tessalonicenses 2,7; 1Pedro 4,13). O tempo da Segunda Vinda é referido como sendo "aquele Dia" (2Timóteo 4,8), "o dia do Senhor" (1Tessalonicenses 5,2), "o dia de Cristo" (Filêmon 1,6), "o dia do Filho do Homem" (Lucas 17,30), "o último dia" (João 6,39-40).

2.
A crença no juízo universal predominou na Igreja em todos os tempos e lugares. Ela está contida como artigo de fé em todos os credos antigos: "Subiu ao céu. Donde há de vir para julgar os vivos e os mortos" (Credo Apostólico). E de novo há de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos" (Credo Niceno). "Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. E quando vier, todos os homens ressuscitarão com os seus corpos, para prestar conta dos seus atos" (Credo Atanasiano). Baseando-se na autoridade de Papias, vários Padres dos primeiros quatro séculos avançaram no rumo da teoria de um reino terrestre de Cristo com os santos por mil anos a preceder o fim do mundo. Embora esta ideia esteja entrelaçada com os ensinamentos escatológicos destes escritores, isto em nada prejudicou sua crença num juízo do mundo inteiro. O testemunho patrístico deste dogma é claro e unânime.

3.
O Catecismo Romano assim explica porque, ao lado do juízo particular de cada indivíduo, um juízo universal também deva acontecer tendo o mundo reunido: "Ora, os mortos deixam às vezes filhos que imitam os pais; parentes e discípulos que seguem e propagam seus exemplos em palavras e obras. Esta circunstância deve aumentar os prêmios ou castigos dos próprios mortos. Tal influência, que a muitos empolga, em seu caráter benéfico ou maligno, não acabará senão quando romper o último dia do mundo. Convinha, pois, fazer-se então uma perfeita averiguação de todas essas obras e palavras, quer sejam boas, quer sejam más. O que, porém, não seria possível sem um julgamento geral de todos os homens. (...) Como também a fortuna e a desgraça não fazem escolha entre bons e maus, era necessário provar que tudo é dirigido e governado pela infinita sabedoria e justiça de Deus. Convinha, pois, não só reservar prêmios aos bons e castigos aos maus, na vida futura, mas também decretá-los num juízo público e universal, que os tornasse mais claros e evidentes a todos os homens".

Sinais que precederão o juízo universal
As Escrituras mencionam certos eventos que terão lugar antes do juízo final. Estas predições não foram feitas na intenção de servir como indicações do tempo exato do julgamento, pois o dia e a hora só são conhecidos pelo Pai, e virá quando menos esperado. Eles foram feitos para prenunciar o juízo final e tornar o fim do mundo presente à mente dos cristãos, sem, contudo, excitar neles a curiosidade inútil ou os vãos temores. Teólogos comumente enumeram os seguinte nove eventos como sinais do juízo final:

Pregação universal da religião cristã
Quanto a este sinal, o Salvador diz: "A Boa Nova do Reino será proclamado em todo o mundo, como testemunho para todas as nações. E então virá o fim" (Mateus 24,14). Este sinal é entendido por Crisóstomo e Teófilo como referindo-se à destruição de Jerusalém, mas, de acordo com a maior parte dos interpretadores, Cristo aqui está falando do fim do mundo.

Conversão dos judeus
De acordo com a interpretação dos Padres, a conversão dos judeus próxima do fim do mundo é predita por São Paulo na Carta aos Romanos (11,25-26): "Para que não confieis demais em vossa própria sabedoria, irmãos, desejo que conheçais este mistério, a saber: o endurecimento de uma parte de Israel vai durar até que tenha entrado a totalidade dos pagãos. E então todo Israel será salvo, como está escrito: 'De Sião virá o libertador; ele removerá as impiedades do meio de Jacó'".

O retorno de Enoque e de Elias
A crença de que estes dois homens, que nunca experimentaram a morte, estão reservados para os últimos tempos, para serem precursores do Segundo Advento, foi praticamente unânime entre os Padres, os quais a baseavam em vários textos da Escritura (quanto a Elias, cf. Malaquias 4,5-6; Eclesiástico 48,10; Mateus 17,11; quanto a Enoque, cf. Eclesiástico 44,16).

Uma grande apostasia
Sobre este evento, São Paulo admoesta os Tessalonicenses (2Tessalonicenses 2,3) a que não devam ter medo, como se já estivesse chegando o dia do Senhor, pois primeiro deveria haver uma revolta (he apostasia). Os padres e intérpretes compreendem por esta revolta uma grande redução no número de fiéis por causa do abandono da religião cristã por parte de várias nações. Alguns comentaristas citam como confirmação desta crença as palavras de Cristo: "Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar fé sobre a terra?" (Lucas 18,8).

O reino do Anticristo
Na passagem mencionada acima (2Tessalonicenses 2,3ss), São Paulo indica como outro sinal do diado Senhor, a revelação do Iníquo, o filho da perdição. "O Iníquo" aqui descrito é geralmente identificado com o Anticristo que, diz São João (1João 2,18), está para vir nos últimos dias. Embora prevaleça muita obscuridade e diferença de opiniões neste assunto, admite-se geralmente, pelos textos citados e por outros, que, antes da Segunda Vinda, erguer-se-á um poderoso adversário de Cristo, que seduzirá as nações por suas maravilhas, e que perseguirá a Igreja.

Extraordinários abalos da natureza
As Escrituras claramente indicam que o julgamento será precedido por inusitadas e assustadoras perturbações do universo físico (Mateus 24,29; Lucas 21,25-26). As guerras, pestilências, fome e terremotos preditos em Mateus 24,6ss são também entendidos por alguns escritores como entre as calamidades dos últimos tempos.

A conflagração ou incêndio universal
Nos escritos Apostólicos conta-se que o fim do mundo será trazido por um incêndio universal, o qual, todavia, não aniquilará a presente criação, mas mudará sua forma e aparência (2Pedro 3,10-13; cf. 1Tessalonicenses 5,2; Apocalipse 3,3 e 16,15). A ciência natural apresenta a possibilidade de uma tal catástrofe sendo produzida pelo curso ordinário das coisas, mas os teólogos geralmente tendem a acreditar que sua origem será inteiramente miraculosa.

A Trombeta da Ressurreição
Vários textos no Novo Testamento fazem menção de uma voz ou trombeta que despertará os mortos para a ressurreição (1Coríntios 15,52; 1Tessalonicenses 4,15; João 5,28). De acordo com São Tomás (Suplemento 86,2) há referências nessas passagens à voz ou à aparição de Cristo, que causará a ressurreição dos mortos.

"O sinal do Filho do Homem aparecendo nos céus"
Em Mateus 24,30, isso indica um sinal que precederá imediatamente a aparição de Cristo para julgar o mundo. Por este sinal os Padres da Igreja geralmente entendem a aparição da Cruz, em que o Salvador morreu, no céu, ou também de uma maravilhosa cruz de luz.

Circunstâncias relativas ao juízo universal

Tempo
Como dito acima, os sinais que hão de preceder o julgamento não dão indicação precisa do tempo em que ele ocorrerá (Marcos 13,32). Quando os discípulos perguntaram ao Salvador: "Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel?" Ele respondeu: "Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder" (Atos 1,6-7). Cristo e os Apóstolos insistem continuamente na incerteza do dia do julgamento como incentivo à vigilância. O dia do Senhor virá "como um ladrão" (Mateus 24,42-43), como relâmpago aparecendo subitamente (Mateus 24,27), como uma armadilha (Lucas 21,34), como o Dilúvio (Mateus 24,37).

Lugar do julgamento
Todos os textos em que se menciona a Parusia, ou Segunda Vinda, parecem implicar de modo claramente suficiente que o juízo universal ocorrerá na terra. Alguns comentaristas inferem de 1Tessalonicenses 4,16, que o julgamento ocorrerá nos ares, sendo os recém-ressuscitados levados entre as nuvens para encontrar-se com Cristo; de acordo com outros, a profecia de Joel (3,1ss) localiza o juízo final no Vale de Josafá.

A vinda do Juiz
Que este julgamento esteja atribuído a Cristo, não só como Deus, mas também como Homem, é algo expressamente declarado na Escritura; muito embora o poder de julgar seja comum a todas as Pessoas da Trindade, é ainda especialmente atribuído ao Filho, porque a ele se atribui a sabedoria de uma maneira especial. Mas quanto a julgar o mundo enquanto Homem, é algo confirmado pelo próprio Cristo (João 5,26-27). Na Segunda Vinda, Cristo aparecerá nos Céus, sentado numa nuvem e rodeado pelas falanges angélicas (Mateus 16,27; 24,30; 25,31). O anjos servirão ao Juiz trazendo todos diante dele (Mateus 24,31). Os eleitos auxiliarão a Cristo com certa capacidade judicial (1Coríntios 6,2). As vidas dos justos serão por si mesmas uma condenação dos ímpios (Mateus 21,41), cuja punição eles publicamente aprovarão. Mas os Apóstolos serão juízes do mundo num senso ainda mais exato, pois a promessa de que eles sentarão sobre doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mateus 19,28) parece implicar uma real participação na autoridade judicial. De acordo com uma opinião muito provável, esta prerrogativa é de se estender a todos quantos cumpriram fielmente os conselhos evangélicos (Mateus 19,27-28). Nada se sabe ao certo sobre a maneira em que esta autoridade delegada será exercida. São Tomás conjetura que os maiores santos darão a conhecer aos outros a sentença de Cristo (Suplemento 88,2).

Os que hão de ser julgados
Todos os homens, bons e maus, de acordo com o Credo Atanasiano, aparecerão no julgamento para prestar contas de seus atos. Quanto às crianças que pessoalmente não praticaram nem o bem e nem o mal, as batizadas devem ser distinguidas das não-batizadas. As primeiras aparecerão no julgamento, não para serem julgadas, mas apenas para manterem a glória de Cristo (Suplemento 80,5), enquanto as seguintes, classificadas com os ímpios, embora não julgadas, serão capazes de perceber a justiça da eterna perdição deles (Suarez). Os anjos e os demônios não serão julgados diretamente, posto que seu destino eterno já foi fixado; mas ainda, por terem exercido uma certa influência sobre a sorte dos homens, a sentença pronunciada sobre estes terá neles um efeito correspondente (Suplemento 89,8).

Objeto do julgamento
O julgamento abraçará todas as obras, boas ou más, os pecados perdoados e os não perdoados, toda palavra vã (Mateus 12,36), todo pensamento secreto (1Coríntios 4,5). Com exceção de Pedro Lombardo, os teólogos ensinam que mesmo os pecados secretos dos justos serão manifestos, a fim de que o julgamento possa ser completo e que a justiça e a misericórdia de Deus sejam glorificadas. Isto não causará dor ou embaraço aos santos, mas aumento de glória, assim como o arrependimento de São Pedro e de Santa Maria Madalena são para estes santos uma fonte de alegria e de honra.

A forma do julgamento
O procedimento do julgamento é descrito em Mateus 25,31-46, e em Apocalipse 20,12. Comentaristas vêem nestas passagens [apenas] descrições alegóricas com o intuito de transmitir de forma vívida o fato de que no juízo final as condutas e os merecimentos de cada indivíduo serão tornados claros não somente para suas próprias consciências mas para o conhecimento de todo o mundo reunido. É provável que nenhuma palavra seja dita no julgamento, mas que num instante, através de uma iluminação divina, cada criatura passe a conhecer inteiramente sua própria condição moral e a de cada outra criatura (Romanos 2,15). Muitos acreditam, todavia, que as palavras de sentença: "Vinde, vós, benditos", etc. e "Afastai-vos de mim", etc. serão realmente dirigidas por Cristo à multidão dos salvos e dos perdidos.

Resultados do juízo universal
Com o cumprimento da sentença pronunciada no juízo final, as relações e tratos entre o Criador e a criatura encontram seu cume, são explicados e justificados. Alcançado o divino propósito, a raça humana, consequentemente, chega a seu destino final. O reino de Cristo sobre a humanidade será a consequência do Juízo Universal.

Fonte:  McHugh, John. "General Judgment." The Catholic Encyclopedia. Vol. 8. New York: Robert Appleton Company, 1910. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/08552a.htm.

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Da obra Doutrina Católica do Pe. Boulenger, 114-116






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Do Catecismo da Igreja Católica, 675-679

Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o "mistério da iniquidade", sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado.
Esta impostura anticrística já se esboça no mundo, sempre que se pretende realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela, através do juízo escatológico. A Igreja rejeitou esta falsificação do Reino futuro, mesmo na sua forma mitigada, sob o nome de milenarismo, e principalmente sob a forma política dum messianismo secularizado, "intrinsecamente perverso".
A Igreja não entrará na glória do Reino senão através dessa última Páscoa, em que seguirá o Senhor na sua morte e ressurreição. O Reino não se consumará, pois, por um triunfo histórico da Igreja segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal, que fará descer do céu a sua Esposa. O triunfo de Deus sobre a revolta do mal tomará a forma de Juízo final, após o último abalo cósmico deste mundo passageiro.

Na sequência dos profetas e de João Batista, Jesus anunciou, na sua pregação, o Juízo do último dia. Então será revelado o procedimento de cada um e o segredo dos corações. Então, será condenada a incredulidade culpável, que não teve em conta a graça oferecida por Deus. A atitude tomada para com o próximo revelará a aceitação ou a recusa da graça e do amor divino. No último dia, Jesus dirá: "Sempre que o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes" (Mt 25, 40).
Cristo é Senhor da vida eterna. O pleno direito de julgar definitivamente as obras e os corações dos homens pertence-Lhe a Ele, enquanto redentor do mundo. Ele "adquiriu" este direito pela sua cruz. Por isso, o Pai entregou "ao Filho todo o poder de julgar" (Jo 5, 22). Ora, o Filho não veio para julgar, mas para salvar e dar a vida que tem em Si. É pela recusa da graça nesta vida que cada qual se julga já a si próprio, recebe segundo as suas obras e pode, mesmo, condenar-se para a eternidade, recusando o Espírito de amor.

Disponível em: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap2_422-682_po.html

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Por Luís Augusto - membro da ARS


sábado, 13 de outubro de 2012

A Carta Apostólica de Pio XI que constituiu Nossa Senhora Aparecida como Padroeira Principal do Brasil

Pax et bonum!

Infelizmente não foi possível concluir esta postagem ontem, mas eis que trazemos uma tradução livre (e possivelmente contendo alguns pequenos erros) da Carta Apostólica do Papa Pio XI, o papa de Cristo Rei, que constituiu Nossa Senhora da Conceição Aparecida como Padroeira Principal de nosso país.
O desejo de apresentar uma tradução desta carta é o desconhecimento nosso de alguma versão em português, pela internet, que nos remontasse àquele ato pontifício que atendeu a inúmeros pedidos do clero e o dos fiéis brasileiros.
O ano, 1930, foi o início da década que iniciou com a Grande Depressão nos EUA, e que terminou com a Segunda Guerra Mundial; década que abrigou a Guerra Civil Espanhola com o satânico ódio dos comunistas aos cristãos; década do golpe de estado de Getúlio Vargas, em 1930, e do Levante Comunista no Brasil, em 1935; década da aparição de Nossa Senhora das Graças na vila de Cimbres, no município de Pesqueira-PE, em 1936, a pedir penitência e oração, sobretudo a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a ela. Portanto, compreendamos em que momento da histórica fomos providencialmente agraciados com o patrocínio especialíssimo da Virgem Imaculada, aquela que, 13 anos antes, em Portugal, prenunciou o nome do Papa Pio XI, durante o pontificado de Bento XV, bem como a Segunda Guerra, mostrando que o povo permaneceu ofendendo a Deus, mas que também disse que seu Imaculado Coração, por fim, triunfará.
Que cada católico brasileiro possa se voltar mais confiante e amorosamente à Santíssima Virgem, concebida sem pecado, rainha e padroeira do Brasil.
Seguem os textos latino e português.


LITTERA APOSTOLICA
B. M. V. IMMACULATA SUB TITULO «APPARECIDA»
PRINCIPALIS PATRONA BRASILIÆ CONSTITUITUR.

PIUS PP. XI

Ad perpetuam rei memoriam. — Ab Archiepiscopo Sancti Sebastiani Fluminis Ianuarii ceterisque Archiepiscopis, Episcopis, Prælatis atque Apostolicis Præfectis Brasiliæ rogati sumus ut tanquam principalem Patronam Brasiliæ Beatam Virginem sine labe conceptam, vulgo Nossa Senhora da Conceição Apparecida statuere dignemur. Nil quidem, magis opportunum Nobis videtur quam votis concedere non modo eorundem Antistitum sed omnium Brasiliæ christifidelium, qui studio pietateque continentibus ab annis fere primæve inventionis regionis Brasilianæ ad nostra usque tempora Deiparam Virginem Immaculatam venerati sunt. Quorum filialem devotionem cultumque erga Immaculatam Virginem ultro testatur templum, ingenti mole conspicuum artisque operibus affabre factis ornatum, in quo antiqua prodigiisque clara Beatæ Mariæ sub titulo de Apparecida effigies servatur. Christifideles turmatim ad hoc templum conveniunt peregrinantium more ex variis Brasiliæ locis ad opem auxiliumque implorandum Nostræ Dominæ; cuius quidem simulacrum, decreto Capituli sacrosanctæ Patriarchalis Vaticanæ Basilicæ, anno quinquagesimo recurrente a definitione dogmatica de Immaculato Virginis Conceptu, aurea corona coronatum est. Leo autem Pp. XIII, rec. mem., votis omnium ex Brasilia annuens, Beatæ Mariæ sub titulo de Apparecida festum celebrandum concessit, ac præterea Pius Pp. X proprium de eadem festivitate officium Missamque indulsit. Id profecto attento seduloque studio Nos considerantes, concedendum existimavimus tantorum Præsulum precibus, quas Nuntius Apostolicus Noster in Brasilia suffragiis suis amplissime auget, vel una cum iisdem Antistitibus vota facit impensa ut, quinti ac vicesimi anni a memorata sollemni coronatione occasionem nacti, huiusmodi Virginem Immaculatam apud Deum totius Brasiliæ Patronam constituamus. Conlatis proinde consiliis cum Camillo Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinali Laurentii Diacono Sanctæ Mariæ Scalaris, Sacrorum Rituum Congregationis Præfecto, motu proprio atque ex certa scientia ac matura deliberatione Nostris, deque apostolicæ Nostræ potestatis plenitudine, præsentium Litterarum tenore Beatissimam Virginem Mariam sine labe conceptam, sub titulo de Apparecida nuncupatam, præcipuam apud Deum Patronam totius Brasiliæ, privilegiis liturgicis adnexis ceterisque honorificentiis, quæ de more Patronis locorum principalium competunt, constituimus ac declaramus.
Hæc, ad spirituale christifidelium Brasiliæ bonum provehendum, eorundemque erga Deiparam Immaculatam ad magis in dies devotionem augendam concedentes, statuimus; decernentes præsentes Litteras firmas, validas atque efficaces iugiter exstare ac permanere, suosque plenos atque integros effectus sortiri et obtinere; illisque, ad quos spectant sive spectare poterunt, amplissime suffragari; sicque rite iudicandum esse ac definiendum, irritumque ex nunc et inane fieri, si quidquam secus, super his, a quovis, auctoritate qualibet, scienter sive ignoranter attentari contigerit. Non obstantibus contrariis quibuslibet.

Datum Romæ apud Sanctum Petrum, sub anulo Piscatoris, die xvi mensis Iulii anno MDCCCCXXX, Pontificatus Nostri nono.

E. CARD. PACELLI, a Secretis Status.

Fonte: AAS (Acta Apostolicæ Sedis) 23 [1931], pág. 7-8. Disponível em:


CARTA APOSTÓLICA
PELA QUAL SE CONSTITUI A BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA IMACULADA,
SOB O TÍTULO DE “APARECIDA”, COMO PADROEIRA PRINCIPAL DO BRASIL

PIO XI, PAPA

Para perpétua memória. – Da parte do Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro e dos outros Arcebispos, Bispos, Prelados e Prefeitos Apostólicos do Brasil, fomos rogados a que nos dignássemos estabelecer a Bem-Aventurada Virgem concebida sem mancha, chamada de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, como Padroeira principal do Brasil. Nada deveras mais oportuno que aceder aos desejos, não só dos Bispos, mas de todos os fiéis do Brasil, que com fervor e piedade constantes, desde os anos do descobrimento das regiões brasílicas até nossos tempos, têm venerado e venera a Imaculada Virgem Mãe de Deus.
Tal culto e devoção filial para com a Virgem Imaculada atesta-o também o templo, notável por suas dimensões e engenhosamente adornado com obras de arte, no qual se guarda a antiga e prodigiosa imagem da Bem-aventurada Maria sob o título de Aparecida. A este templo acorrem os fiéis congregados como peregrinos, das várias partes do Brasil, para implorar a virtude e o auxílio de Nossa Senhora, cuja imagem, por decreto do Cabido da Sacrossanta e Patriarcal Basílica Vaticana, foi coroada com uma coroa de ouro, no quinquagésimo ano da definição dogmática da Conceição Imaculada da Virgem.
O papa Leão XIII, de venerada memória, anuindo aos desejos de todos do Brasil, outorgou a celebração da Festa da Bem-aventurada Maria sob o título de Aparecida, e depois o Papa Pio X concedeu o Ofício e a Missa próprios da mesma festividade. Dado isto, refletindo com atento e cuidadoso zelo, consideramos atender às preces de tantos Prelados, as quais o nosso Núncio Apostólico no Brasil, com seus auspícios, grandemente aumenta, com os votos que se fazem inumeráveis dos mesmos bispos para que, na ocasião de passado o vigésimo quinto ano da recordada solene coroação, constituamos a Virgem Imaculada como Padroeira de todo o Brasil junto a Deus.
Portanto, tomados os conselhos com o Eminentíssimo Sr. Camillo Laurenti, Cardeal da Santa Igreja Romana, Diácono de Santa Maria da Escada, Prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, por nossa iniciativa, e a partir de ciência segura e madura deliberação nossas, pelo teor da presente Carta, constituímos e declaramos a Bem-aventurada Virgem Maria, concebida sem mancha, invocada sob o titulo de Aparecida, especial Padroeira de todo o Brasil junto a Deus, com os privilégios litúrgicos e demais honras anexas, os quais de costume competem aos Padroeiros principais dos lugares.
Nós assim estabelecemos para o bom proveito espiritual dos fiéis do Brasil, bem como para o aumento de sua devoção à Imaculada Mãe de Deus nos dias de hoje; decretando que a presente carta seja e permaneça plenamente firme, válida e eficaz; que tenha e consiga os seus efeitos plenos e íntegros; que seja amplamente apoiada por aqueles a quem diz ou poderá dizer respeito; que assim se deve julgar e definir; e que desde este momento se deve ter como nulo e sem valor tudo quanto se fizer em contrário, por qualquer indivíduo ou autoridade, conscientemente ou por ignorância. Não obstante qualquer disposição em contrário.

Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 16 de julho de 1930, nono do nosso Pontificado.

EUGENIO CARDEAL PACELLI, Secretário de Estado

Tradução livre por Luís Augusto Rodrigues Domingues (lardpi@gmail.com)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Uma homenagem à Virgem Imaculada - dois vídeos das Meninas Cantoras de Petrópolis

Pax et bonum!

Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida!
Hoje, Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira principal do Brasil, gostaríamos de expressar nosso amor filial e nossa veneração de súditos desta Rainha, pelas vozes do 1º grupo brasileiro formado exclusivamente por meninas, em 1976, as Meninas Cantoras de Petrópolis.

Hino a Nossa Senhora Aparecida

Ó Maria concebida

Por Luís Augusto - membro da ARS