domingo, 20 de janeiro de 2013

Entrevista com uma monja carmelita de Teresina-PI

Pax et bonum!

Às vezes procuramos tesouros distantes quando estes estão próximos.
No final do ano, aconteceu que uma monja do mosteiro carmelita (OCD - Ordem do Carmelo Descalço) de nossa cidade, Teresina-PI, teve que passar vários dias "aqui fora", para cuidar de sua mãe.
Originalmente ela morava no mesmo bairro que eu e fez parte de um mesmo grupo. Sua amizade fez-me conhecer o Carmelo e enxergar a beleza da vida religiosa, bem como fez com que eu me admirasse ao ver quão grande é o patrimônio místico do ocidente católico. Sou muito grato por isso.
Aproveitando essa passagem prolongada desta monja aqui no "século", pedi-lhe que me respondesse um questionário, que viria a ser publicado como entrevista para o blog da ARS.
Não se trata de nada muito complexo, grandioso. Mas foi um interessante contato entre alguém da vida ativa e alguém da vida contemplativa e que, espero, seja de proveito.
As perguntas foram feitas no dia 29/12, mas só pude preparar a postagem recentemente. Que ela também sirva para despertar o interesse, sobretudo dos católicos teresinenses, em conhecer o único mosteiro cristão que temos em nossa cidade.

Ir. Teresa Maria da Santa Face, a monja entrevistada, em sua profissão de 2005.
1. Cara Irmã, primeiramente agradecemos por nos conceder este pequeno diálogo sobre a vida monástica e a Sagrada Liturgia.

Há quanto tempo a senhora ingressou no único mosteiro católico da capital do Piauí?
Ingressei na Comunidade do Carmelo de Teresina há  quase 10 anos. Mais precisamente no dia 3 de maio de 2003. 

2. Ainda que não corresponda a uma visão completa, num mundo neo-liberal, secularizado, laicista, consumista, anti-cristão e propagador de uma cultura de morte, o que é ser monge/monja?
Ser monja é ser um sinal profético da Vida futura! É anunciar com o testemunho silencioso que estamos à espera da Verdadeira Vida que havemos de alcançar na Ressurreição. É ser para o mundo um “sinal” de que este mundo passa! De que a nossa Pátria é o Céu!! O monge, não vive para si.
Ano passado houve um encontro para a Vida Monástica e Contemplativa de todo o Brasil, realizado pela CNBB e CRB. No final do encontro foi-nos deixada uma mensagem, e há nela um trecho que diz assim: Somos consagrados para responder ao olhar de amor do Senhor por todos nós.
E a Beata Elisabete, num trecho belíssimo de seu Ultimo Retiro nos diz: A Carmelita (a monja), é uma resgatada que, por sua vez, deve resgatar outras almas.

3. No vasto jardim da Igreja, o que dizer do Carmelo?
O Carmelo, como toda a vida contemplativa na Igreja, é um membro indispensável no Corpo místico de Cristo. Nossa missão é mostrar o valor e a importância da Vida de oração, e dela dar testemunho.

4. Mesmo na clausura, os monges não são ignorantes em relação à situação do "sæculum". No Carmelo, o que se faz pelo mundo?
No Carmelo se reza pelo mundo. Por ele, pela salvação das almas, buscamos viver com fidelidade o que a Igreja nos pede. E como Jesus, pedimos ao Pai que não se percam aqueles que o Pai lhe deu. (Jo 6, 39).

5. A vida monástica é pautada não só pela disciplina das regras e constituições de cada ordem, mas vive inteiramente, sobretudo, pelo "relógio" da Sagrada Liturgia. Como é a vida litúrgica no Carmelo?
Nós vivemos verdadeiramente a Liturgia de nossa Igreja. Primeiramente, porque rezamos com Ela todas as Horas do Ofício Divino. Depois, por que vivemos com intensidade cada tempo litúrgico. Iniciamos o novo ano com o Tempo do Advento, e neste tempo não recebemos visitas e procuramos viver ainda mais o silêncio, virtude esta praticada pela Virgem Maria. E na escola da Mãe de Deus, este se torna para nós um tempo de reflexão, de exercício na escuta amorosa da vontade de Deus, da prática dos pequenos atos de caridade, etc... E assim por diante. No Natal temos o costume de cantar para o Menino todos os dias da oitava e, antes da Festa do Batismo, temos a despedida do Presépio. E em cada Tempo, no Carmelo, temos um modo simples e profundo de vivenciá-lo, e me alongaria se fosse falar de cada um deles!

6. Na tradição espiritual de duas colunas da teologia mística católica (Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, santos e doutores do Carmelo descalço), como se constrói a ponte entre a prática da oração mental, silenciosa, solitária, e as Horas rezadas em coro, em comunidade? Como se relacionam?
Bem, o sino nos chama ao Coro sete vezes ao dia para a recitação dos Salmos e nossas Constituições nos pedem 2 horas de oração metal. Mas todo o nosso dia é de oração silenciosa (com exceção dos momentos de recreação). Santa Madre dizia: “Entre as panelas está o Senhor!”.  E no Livro da Vida, nos ensina que da Oração Vocal (como a recitação dos salmos), pode-se chegar à mais alta contemplação.

7. O liturgista beneditino Cipriano Vagaggini disse: "a liturgia, (...) mais que ensinar, se preocupa em sintonizar todo o homem concreto e imergi-lo num ambiente geral de oração e de dedicação a Deus"; também disse: "a liturgia não é somente, nem principalmente, o ensino de uma doutrina, mas um ato de culto, uma oração" e, por fim, "a liturgia tem por finalidade primária fazer o povo rezar e (...), se não chega a tanto, se torna esvaziada da sua verdadeira força". O que se procura fazer no Carmelo, particularmente nas celebrações abertas aos fiéis, para se alcançar este fim?
No Carmelo, a exemplo de nossos Fundadores, fazemos tudo na Presença de Deus, no espírito de oração e, então tudo o que fazemos tem este único fim: A união com Deus.
Nas celebrações abertas aos fieis, seja no canto, na oração recitada, no silêncio, desejamos que todos os que aqui chegam possam pessoalmente viver o encontro com o Senhor.
O Carmelo é o espaço para este Encontro. 

8. Hoje em dia parece finalmente aparecer a fugacidade de certas novidades, bem como brilhar com novo esplendor a durabilidade do legado das gerações dos séculos passados. Uma notícia bastante recente diz que o número de monjas de clausura no país é o maior desde o séc. XVIII; há um interesse cada vez mais crescente na Forma Extraordinária do Rito Romano (os ritos litúrgicos antigos, em vigor antes das reformas a partir do Concílio Vaticano II)! O que o Carmelo, com sua espiritualidade de séculos, sempre ofereceu e continua a oferecer hoje aos fiéis de vida ativa?
É realmente interessante notar este crescimento. Vejo isso como uma busca do que verdadeiramente “não passa”.  As pessoas estão percebendo aos poucos que a avalanche de novidades não preenche o coração. A espiritualidade de Santa Madre Teresa de Jesus e de nosso Pai João da Cruz, é sempre atual, por que vai na essência do homem. Na escola de Teresa aprendemos o caminho do conhecimento próprio e descobrimos que há em nós uma sede que só pode ser saciada em Deus, com a Vida de oração. 

9. Nos escritos do Doutor Místico, São João da Cruz, não há grandes referências à vida litúrgica. Mas em sua poesia, no cantar da alma que se alegra em conhecer a Deus pela fé, ele diz: "Aquela eterna fonte está escondida / Neste pão vivo para dar-nos vida, / mesmo de noite". Fale-nos sobre o Santo Sacrifício na vida de um monge.
A Santa Missa é o Centro, o Ápice de toda Liturgia e de nossa vida!
Todos os dias nos reunimos para a Celebração do Santo Sacrifício. 
E um fato interessante de se ressaltar, é que em nosso mosteiro, desde a Fundação no dia 19 de março e 1990 até o dia de hoje, nunca se passou um dia sem que houvesse a Santa Missa para a Comunidade. Sempre tivemos a graça de sermos assistidas por padres que com muito zelo e carinho trouxeram o céu a nós. 

10. A Nota da Santa Sé, com indicações para o Ano da Fé, diz que "as Comunidades contemplativas durante o Ano da Fé dedicarão uma intenção de oração especial para a renovação da fé no Povo de Deus e para um novo impulso na sua transmissão às jovens gerações". Estamos seguros de que vocês, do estimado Carmelo de Teresina, já estão a fazer isso por nós?
Sim. De modo particular num momento de Adoração ao Santíssimo, bem como no aprofundamento dos Documentos do Concílio e do Catecismo da Igreja Católica.

11. Gostaria de falar um pouco sobre o mosteiro de Teresina para os fiéis que ainda não o conhecem?
Este Carmelo foi fundado pelo Carmelo de Fortaleza, em março de 1990, a pedido de Dom Miguel, Arcebispo daquela época.
Hoje somos 18 irmãs.
Em julho de 2009 saiu daqui um grupo de 6 irmãs para a fundação de outro Carmelo em Natal-RN.
Graças a Deus, nunca nos faltaram vocações.
Para quem deseja conhecer nosso Carmelo e nossa Comunidade pode vir fazer-nos uma visita: 
Durante a semana, recebemos das 9h às 10h40 e, à tarde, das 15h às 16h40. 
Ou participar das missas: de segunda à sexta, Missa às 6h30. No sábado às 7h e no Domingo às 8h.
Nosso telefone para contato é: (86) 3227-1771/ 3211-7638/9904-0925
E-mail: carmelothe@hotmail.com; carmeloteresina@gmail.com


12. Muito obrigado, Irmã. O bom Deus, neste Santo Tempo do Natal, abençoe a senhora e as demais carmelitas de nossa cidade.
Eu também agradeço.


Visão da capela do mosteiro, localizado no bairro Angelim.

Por Luís Augusto, membro da ARS


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Rito para a bênção de noivado, segundo o Ritual Romano (Forma Ordinária)

Pax et bonum!

Hoje em dia muitos sites apresentam supostos rituais para a bênção de noivado. Comentários, orações, leituras... Mas afinal de contas, essa bênção existe mesmo? Sim!
O Ritual do Matrimônio (parte do Ritual Romano) traz, num apêndice, o Rito para a bênção de noivado.
A respeito da celebração, há explicações interessantes, como a que diz que nunca se deve unir esta bênção à Missa, ou a que diz que a celebração pode ser presidida por um leigo, sobretudo um dos pais.
A celebração é bastante simples e sua estrutura é a seguinte:

Ritos Iniciais
- Sinal da cruz
- Saudação ao povo
- Monição de preparação para a bênção
Leitura da Palavra de Deus
- Leitura
- [Salmo responsorial ou outro canto]
- Explicação
Preces dos fiéis
- Preces
- [Bênção das alianças]
- [Bênção de outros presentes]
Oração da bênção
Conclusão do Rito
- Monição conclusiva
- [Canto]

O arquivo está disponível no Gloria.TV. 
Será de utilidade para estudo e para a preparação da celebração.

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Audiência Geral de 17/03/1965, Paulo VI

Pax et bonum!

Dez dias após a entrada em vigor do Ordo Missae "renovado", Paulo VI retoma o assunto da reforma na audiência de quarta-feira (17/03/1965).
Assim como o fez o Cardeal Lercaro, o Papa analisa os posicionamentos frente à reforma.
Aproximadamente no centro do texto o Santo Padre afirma: "não se deve crer que depois de algum tempo se voltará a ser quieto e devoto ou preguiçoso, como antes; não, a nova ordem deverá ser diferente, e deverá impedir e agitar a passividade dos fiéis presentes à santa Missa; antes bastava assistir, agora é preciso participar; antes bastava a presença, agora a atenção e a ação são necessárias; antes alguém podia cochilar e talvez conversar; agora não, deve escutar e rezar".
O Santo Padre preocupa-se com a correspondência da parte dos fiéis quanto ao participar.
Diferente, todavia, do Cardeal Lercaro, o Santo Padre fala apenas dos posicionamentos apreensivos, nos quais se entrevê, segundo ele, "certa indolência espiritual", e dos que comportam entusiasmos e louvores. Dentre estes ele não citou os que, fugindo à obediência, desprezam os limites e sucumbem à "tentação das experiências", como falou o Pe. Bugnini.
De um modo geral, as palavras do Santo Padre continuam refletindo sua esperança otimista.

***

PAULO VI
AUDIÊNCIA GERAL
Quarta-feira, 17 de março de 1965

Tradução por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Diletos Filhos e Filhas!

A nossa conversa familiar, numa audiência como esta, não pode não retornar sobre o tema do dia: aplicação da reforma litúrgica quanto à celebração da santa Missa. Nosso desejo seria perguntar a vós, se o caráter público deste encontro não o impedisse, como fazemos em outros encontros de caráter privado, quais são as vossas impressões sobre esta grande novidade. Essa merece que todos vos dêem atenção. Bem, Nós pensamos que a vossa resposta à Nossa pergunta não seria diferente daquelas que Nos chegam nestes dias.

A reforma litúrgica? Podem-se reduzir estas respostas a duas categorias. A primeira categoria é aquela das respostas que percebem uma certa confusão, e por isso um certo desconforto: antes, dizem estes observadores, estava-se tranquilo, qualquer um podia rezar como quisesse, tudo era conhecido quanto ao desenrolar do rito; agora tudo é novidade, surpresa, mudança; até o som do carrilhão no início do Sanctus foi abolido; e também aquelas orações que não se sabe onde ir procurar, aquela comunhão recebida estando em pé; e a Missa que termina bruscamente com a bênção; todos que respondem, muitos que se movem, ritos e leituras que se recitam em alta voz...; resumindo: não mais temos paz e compreende-se menos que antes; e assim por diante.

Não faremos a crítica destas observações, porque devemos mostrar como essas revelam insuficiente penetração do senso dos ritos religiosos, e deixam entrever não uma verdadeira devoção e um verdadeiro senso do significado e do valor da santa Missa, mas mais ainda uma certa indolência espiritual, que não quer empreender qualquer esforço pessoal de inteligência e de participação para melhor compreender e melhor cumprir o mais sagrado dos atos religiosos, ao qual somos convidados, e mesmo obrigados a nos associar. Repetiremos aquilo que nestes dias se vai repetindo por todos os Sacerdotes pastores de almas e por todos os bravos mestres de religião: primeiro, que se produza no início alguma confusão e algum desconforto é inevitável; está na natureza de uma reforma prática, bem como espiritual, de hábitos religiosos inveterados e piamente observados, o produzir um pouco de agitação, nem sempre agradável a todos; mas, segundo, alguma explicação, preparação e solícita assistência logo removem as incertezas e dão o sentido e o gosto de uma nova ordem. Porque, terceiro, não se deve crer que depois de algum tempo se voltará a ser quieto e devoto ou preguiçoso, como antes; não, a nova ordem deverá ser diferente, e deverá impedir e agitar a passividade dos fiéis presentes à santa Missa; antes bastava assistir, agora é preciso participar; antes bastava a presença, agora a atenção e a ação são necessárias; antes alguém podia cochilar e talvez conversar; agora não, deve escutar e rezar. Esperamos que celebrantes e fiéis possam logo ter os novos livros litúrgicos e que estes reflitam também na nova forma, tanto literal como tipográfica, a dignidade daqueles precedentes. A assembléia se torna viva e operante; intervir quer dizer deixar que a alma entre em atividade, de atenção, de colóquio, de canto, de ação. A harmonia de um ato comunitário, levado a cabo não só com o gesto exterior, mas com o movimento interior do sentimento de fé e de piedade, imprime ao rito uma força e uma beleza particulares: isso se torna coro, concerto, ritmo de uma imensa asa num vôo rumo às alturas do mistério e da alegria divina.

A segunda categoria dos comentários que chegam a Nós sobre as primeiras celebrações da nova Liturgia, é, pelo contrário, aquela dos entusiasmos e dos louvores. Que diz: finalmente se pode entender e seguir a complicada e misteriosa cerimônia; finalmente temos gosto; finalmente o Sacerdote fala aos fiéis, e vê-se que age com eles e por eles. Temos testemunhos comoventes, de pessoas do povo, de rapazes e de jovens, de críticos e de observadores, de pessoas pias e desejosas de fervor e oração, de homens de experiência longa e séria e de alta cultura. São testemunhos positivos. Um velho e distintíssimo senhor, de grande ânimo, e de finíssima, e por isso sempre insatisfeita, espiritualidade, se sentia obrigado, ao fim da primeira celebração da nova Liturgia, a se apresentar ao celebrante para expressar candidamente a sua felicidade por ter finalmente participado, talvez pela primeira vez na vida, com todo o espírito do santo sacrifício.

Pode ser que esta admiração e esta espécie de santa excitação se acalmem e logo se transformem em um novo tranquilo costume. A que não se habitua o homem? Mas é de se acreditar que não será menor o cuidado da intensidade religiosa que a nova forma do rito reclama; e com essa a consciência de dever cumprir simultaneamente dois atos espirituais: um de participação verdadeira e pessoal no rito, com o quanto de essencialmente religioso aquilo possa comportar; o outro de comunhão com a assembléia dos fiéis, com a “ecclesia”; atos que tendem, o primeiro, ao amor de Deus; o segundo, ao amor do próximo. Eis o Evangelho da caridade que vai atuando nas almas do nosso tempo: é verdadeiramente coisa bela, nova, grande, cheia de luz e de esperança.

Mas compreendei, caríssimos Filhos e Filhas: esta novidade litúrgica, este renascimento espiritual, não pode acontecer sem a vossa séria e disposta participação. Tanto Nos interessa esta vossa correspondência que, como vedes, nós a fazemos tema destas nossas palavras; e confiando que vós realmente lhes dareis boa acolhida, Nós vos prometemos tantas e tantas graças do Senhor, que é exatamente isto que a Nossa Bênção Apostólica quer assegurar a cada um de vós. 

***

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Homilia e Angelus, de Paulo VI, em 07/03/65

Pax et bonum!

Amados irmãos, este período de encerramento e início de ano civil não foi tão folgado como esperado. Por outro lado, estive realmente na dúvida se traduziria até o fim a homilia de Paulo VI, do dia 07/03/1965.
Como o foco desta série de postagens é o que se pensou e o que foi feito no contexto de "reforma litúrgica", a partir do Concílio Vaticano II, decidi traduzir apenas a primeira parte da homilia, que toca diretamente no assunto, e junto dela, numa só postagem, colocar o Angelus do mesmo dia.
Recordamos que o dia em questão é a entrada em vigor do Ordo Missae "renovado", que para alguns era uma "missa híbrida", por ter partes em latim e partes em vernáculo.
Vê-se o otimismo com que o Santo Padre considerava a reforma em questão e a esperança nela depositada, bem como a consciência dos sacrifícios que estavam sendo feitos.
Deixamos a palavra com o Papa Paulo VI:


Homilia, Paulo VI
I Domingo da Quaresma, 7 de março de 1965

O que estamos a fazer? Este é o momento das reflexões, e se insere no Rito sagrado para suscitar os pensamentos que devemos acompanhar. Nós estamos atuando numa realidade que, já por si, apresenta-se solene e tem dois aspectos: um extraordinário; outro costumeiro e ordinário.
Extraordinária é a hodierna nova maneira de rezar, de celebrar a Santa Missa. Inaugura-se, hoje, a nova forma da Liturgia em todas as paróquias e igrejas do mundo, para todas as Missas celebradas com o povo. É um grande acontecimento, que se deverá recordar como princípio de uma exuberante vida espiritual, como um novo empenho no ato de corresponder ao grande diálogo entre Deus e o homem.

"O SENHOR ESTEJA CONVOSCO!"

Norma fundamental é, doravante, rezar compreendendo cada uma das frases e palavras, de completá-las com nossos sentimentos pessoais, e de uniformizá-los à alma da comunidade, que faz coro conosco.
Há, pois, uma outra circunstância que torna singular a solenidade de hoje: a presença do Papa, que, por si, autoriza a destacar tudo que possa tornar-se útil à nossa vida cristã.
Quanto ao restante, querendo considerar o segundo aspecto, isto é, aquilo que é costume nestas assembleias, tudo - nós o sabemos - apresenta um caráter precioso e digno da nossa reflexão.
Primeiramente: o que é o Rito que estamos celebrando? É um encontro daquele que oferece o Divino Sacrifício com o povo que lhe assiste. Tal encontro deve ser, por isso, pleno e cordial. Não é portanto fora de lugar que o celebrante - neste caso o Papa - dirija tantas vezes aos assistentes a saudação característica: O Senhor esteja convosco!
Eis: o Papa repete o grande desejo não somente voltando-se com afetuoso gesto aos presentes, mas exprimindo o propósito de reunir a inteira população cristã desta Cidade, da santa Diocese de Pedro e Paulo, a Diocese de Roma. Por isso, com todo o coração, com toda a força que Deus põe na sua voz, no seu ministério, o Santo Padre exclama voltado para o povo romano: Que Deus esteja contigo!
Ao mesmo tempo ele espera que todos respondam de bom grado: E com o teu espírito! De tal modo se inicia este estupendo e fervoroso diálogo entre aquele que tem a responsabilidade de ofício como Ministro de Deus e o povo cristão; entre o Sacerdote e o simples fiel, que recebe estas graças; ele comenta, com elas se enriquece e, por sua vez, as estende a toda a comunidade.

TODOS CHAMADOS À REDENÇÃO E À SALVAÇÃO

Como é óbvio, porém, os participantes diretos da Ação Litúrgica recebem a saudação de maneira especial. Esteja o Senhor - explica o Santo Padre - com a dileta comunidade de sacerdotes, clérigos, estudantes, que moram na antiga casa de Don Orione; com o Pároco que tem a responsabilidade pastoral por esta porção do rebanho diocesano; com todos os fieis confiados à sua solicitude. Esteja o Senhor com as comunidades religiosas pouco antes saudadas; com os caríssimos enfermos os quais, por antecipado pensamento, estão no primeiro posto na assembleia; impetram tanta mercê suas orações e sofrimentos oferecidos em prol de todos os outros; com os coroinhas, que adornam o altar e representam todos os da sua idade, esperanças da família, da Igreja e da sociedade; esteja com as várias Associações, masculinas e femininas, da Ação Católica e de caráter religioso; e finalmente o augúrio de bênção alcance toda casa, levando-lhe a graça e a paz do Senhor!
Tal auspício não se limita às pessoas: estende-se também às atividades temporais: ao estudo, ao trabalho, à fadiga, às profissões, a fim de que o conjunto da vida material, a busca do pão de cada dia, recebam uma saudação de paz, de harmonia, de prosperidade.
E os que estão longe? Há alguém aqui - pergunta com paterna preocupação o Santo Padre - que está fora do chamado? Bem - ele acrescenta - eu teria o direito de chamar um a um os cristãos desta paróquia, e de perguntar-lhes se são fieis. Deveria recordar, a cada um destes, o caráter que levam impresso na alma para conhecer, amar e servir a Cristo. E se alguém fosse ou esquecido ou inerte, acolha hoje, de minha parte, o convite mais cordial e paterno: Tu que não compreendes as coisas da Igreja, tu que não sabes mais rezar, que te crês distante, te consideras talvez excluído da grande Família e visto com maus olhos, sabe, ao invés, que a Igreja te procura, te chama, te solicita, te espera. Por quê? Porque também em ti resplandece o direito dos filhos de Deus; tens, então, o dever de responder ao grande chamado da tua salvação. Todos, de fato, temos por vocação suprema a sorte de compartilhar a grande história da nossa Redenção.

CRISTO PRESENTE NA ORAÇÃO E COM A PALAVRA

Segundo pensamento. Além do encontro, tão sugestivo e promissor, estamos aqui para celebrar o grande Rito sacrifical, eucarístico: a Santa Missa; aquilo que quer dizer a presença de Cristo em meio a nós. Agora o papa, antes ainda de levar a essa presença sacramental e real, deseja repropor aos diletos ouvintes uma grande verdade. Pelo simples fato de que nos encontramos juntos, congregados em nome de Cristo, unidos para pensar nele e dirigir-lhe a oração, nós já possuímos a sua presença. Jesus mesmo no-lo assegurou: sempre que dois ou três estiverem unidos em meu nome - eis o mistério da presença mística de Cristo - eu estarei aí no meio deles. Nós assim podemos nos dar conta desta misteriosa presença de Jesus que paira entre nós, hoje, concentrando-nos sobre tal realidade, e mesmo porque o seu Nome nos reúne, a 1965 anos de seu nascimento; por que nele cremos; e daqui a pouco celebraremos os seus Mistérios sacramentais.
Cristo está aqui: a paróquia atua a sua presença entre os fieis, de tal modo que o mesmo povo cristão torna-se, pode-se dizer, sacramento, isto é, sinal sagrado da presença do Senhor. Mas isso não é tudo. Gozamos de uma outra presença do Senhor: a sua Palavra; o seu Evangelho. Há uma coincidência entre a vida de Jesus e a sua palavra, dado que ele é o Verbo, é a Palavra. Quando repetimos suas palavras, tornamos, de certa forma, Jesus presente conosco. Entre um mestre e aquilo que ele ensina existe uma certa distância; entre Jesus e a sua palavra há coincidência. Enquanto queremos que o Senhor esteja conosco, a sua palavra já o traz. De certo modo – misterioso, mas quase mais próximo à nossa capacidade de aprender – esta sua presença vive em nossas almas, a sua voz ecoa em nossos corações, o seu pensamento se faz nosso, o seu ensinamento circula em nosso ser. Resumindo: nós entramos em comunhão com Cristo se escutamos bem a palavra de Deus.
Encontramo-nos, assim, bem preparados para o grande e misterioso Rito da Ceia sacrifical: a Santa Missa.
É comum, neste ponto, comentar a palavra do Senhor. É evidente que desejamos adquiri-la, introduzi-la pelos ouvidos até o coração, escutá-la interiormente, fixá-la em nós, torná-la como um suprimento de energia para o intelecto e para o coração, observá-la sempre na prática, vivê-la.

(N.T.: No restante da homilia o Santo Padre tratou do duelo entre o bem e o mal, a partir das tentações do Senhor, tema do evangelho da ocasião, e do aspecto de "miles Christi" - soldado de Cristo, a partir do sacramento da Confirmação.) 


Angelus, Paulo VI
I Domingo da Quaresma, 7 de março de 1965

Este domingo marca uma data memorável na história espiritual da Igreja, porque a língua falada entra oficialmente no culto litúrgico, como já tendes visto nesta manhã.
A Igreja considerou imperiosa esta medida - o Concílio a sugeriu e deliberou - e isto para tornar inteligível e fazer entender a sua oração. O bem do povo exige este cuidado, a fim de tornar possível a participação ativa dos fiéis no culto público da Igreja. É um sacrifício que a Igreja fez de sua própria língua, o latim; língua sagrada, grave, bela, extremamente expressiva e elegante. Sacrificou tradições de séculos e, sobretudo, sacrifica a unidade de linguagem nos vários povos, em homenagem a esta maior universalidade, para chegar a todos.
E isto por vós, fiéis, para que saibais melhor unir-vos à oração da Igreja, para que saibais passar de um estado de simples espectadores ao de fiéis participantes e ativos, e se souberdes de fato corresponder a este cuidado da Igreja, tereis a grande alegria, o mérito e a fortuna de uma verdadeira renovação espiritual.
E nós também rezamos ainda a Nossa Senhora, rezaremos ainda em latim por enquanto, para que nos conceda o desejo da vida espiritual ativa e autêntica e nos dê este senso desperto de comunidade, de fraternidade, de coletividade que reza junto, de povo de Deus, para que agora tenhamos certamente asseguradas a nós as vantagens desta grande reforma litúrgica.


Tradução livre do italiano por Luís Augusto - membro da ARS