sábado, 27 de abril de 2013

Diurnale Romanum de bolso - Abadia de Santa Madalena de Barroux

Pax et bonum!

Já há algum tempo eu pensava em adquirir um Breviarium Romanum, o Ofício Divino segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano. É sabido que a tradução brasileira da Liturgia Horarum - Liturgia das Horas é muito louvada por observar questões de métrica e rima. Mas a que custo? Ao custo de se adaptar o texto, embora guarde certa fidelidade ao original bíblico da Nova Vulgata.
Pois bem, adquirir a Liturgia Horarum (4 volumes) sairia razoavelmente caro. Então decidi, até porque já tinha vontade de conhecer, rezar e adquirir o Breviarium
Passou um tempo e tomei conhecimento das edições sem Matinas - os Diurnale Romanum. Fiquei bastante interessado.
Enquanto não adquiria, embora não seja o meio mais adequado e decoroso, rezei muitas vezes o Breviarium através do telefone celular, acessando o site Divinum Officium.
No mês de janeiro deste ano, um consócio da ARS encontrou o Diurnale Romanum, em versão normal e de bolso, entre os livros vendidos pelos monges da Abadia de Santa Madalena de Barroux (Abbaye Sainte-Madeleine du Barroux), na França.
Fizemos o pedido de 2, sendo que o frete permanecia o mesmo para 1 só unidade. Isto nos deixou com o valor de pouco menos de R$ 140 por livro. O preço, na época 35,51 €, atualmente é 38 €.
O documento de venda (Facture Proforma) traz a data de 01/02/2013 e meu caro consócio, por e-mail, avisou-me que os livros tinham chegado no dia 19/02/2013 - um prazo ótimo para uma compra internacional!
Pois bem, desde o dia 20 ou 21 de fevereiro, quando fui pegar, estou a fazer uso do meu Diurnale Romanum. E certamente o recomendo para quem quiser obter uma edição material do Breviarium Romanum, sem Matinas, o que é mais conveniente para a vida dos fieis leigos.
O volume tem 9cm x 14cm, pesa 295g, tem 1353 páginas e 4 fitas (costumo deixar uma no próprio do tempo, outra no ordinário, outra no saltério e outra no próprio dos santos). Os textos e orações usam duas colunas, com exceção dos Salmos, que usam uma apenas. É um volume de fácil manuseio e que ocupa pouco espaço. O tamanho das letras também não é nenhum problema, ou pelo menos até agora não me tem incomodado.
Nele constam todas as Horas com exceção de Matinas, ou seja, Laudes, Prima, Terça, Sexta, Nona Vésperas e Completas.
A única coisa de que senti falta foi o corpus rubricarum, ou seja, as Rubricae Generales Breviarii Romani, sendo bom conhecê-las de antemão. Talvez viessem a ocupar muitas páginas; acho que seria conveniente. Todavia, as linhas gerais para a oração estão no Ordinarium Divini Officii e as Rubricae podem ser consultadas aqui, por exemplo, a partir da página 30.
Seguem algumas fotos que tirei.

















Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A segunda homilia do Pe. Anthony Brankin sobre o Summorum Pontificum


Pax et bonum!

Tenho achado válidas as reflexões deste pároco estadunidense sobre o Motu Proprio, publico a segunda homilia, em 2007, dirigida a seus paroquianos.
Continua, obviamente, bastante atual.
[Os grifos são nossos.]

***
Homilia sobre a Missa Latina - 2
Por Pe. Anthony Brankin,
Pároco da Paróquia Saint Odilo, Berwyn, Illinois,
da Arquidiocese de Chicago, Estados Unidos da América.
Traduzido por Luís Augusto Rodrigues Domingues.

Nesta tarde pensei em falar sobre a nova permissão que o Papa Bento XVI deu para a celebração da "Missa Latina antiga". É uma coisa extraordinária na vida da Igreja - trazer aquele jeito de celebrar a Missa - que eu simplesmente não penso que seja adequado ignorar ou simplesmente relegar às notícias da semana passada o que o Papa atualmente fez.
Não há uma alma nesta igreja, hoje, que há 30 anos atrás não tenha acreditado que a Missa Latina antiga estivesse morta. Morta e perdida nas eras. Mas Sua Santidade disse que aquela forma mais antiga do culto não pode morrer - porque é tão bela, tão rica em história e em experiência humana e em valor sobrenatural que não pode mais estar retida, negada ao mundo - não pode perder-se do mundo que dela tem tanta necessidade. Assim ele a libertou.
Claro, há toda uma multidão aí fora - incluindo bispos - que está clamando indignada, dizendo que o Papa está desfazendo as reformas do Vaticano II; que ele está nos fazendo voltar à idade das trevas onde se tinha Clero x Povo. Bem, ele não está fazendo nada disso.
O Papa diz em sua instrução aos Bispos que está desfazendo o que ele nomeia como equívocos dos líderes da Igreja nos últimos 40 anos, e está decretando simplesmente que as pessoas que desejarem ir para a forma mais antiga da Missa agora têm completa e total liberdade para o fazerem.
O que poderia ser menos ameaçador?
Ele poderia ter dito: "Acabou o tempo, o nobre experimento dos anos 60 acabou. Não funcionou". Ele poderia ter olhado para a falta de vocações - os seminários e conventos vazios, ele poderia ter olhado para o número sempre decrescente de pessoas que vão à Missa - o número sempre crescente de pessoas católicas para quem a Igreja e sua doutrina não significam nada - ele poderia ter dito: "Bem, tudo que mudamos quanto à Missa nos anos 60 - pensando que iria ajudar - bem... não ajudou - então todo mundo volte para o jeito antigo".
Mas ele não disse isso porque ele soube no fundo do coração que mudanças grandes e imediatas são problemáticas - pelo menos quando se toca na Missa. Ele tem ensinado por muito tempo que a Missa cresce e muda - organicamente - lentamente - pouco a pouco no curso dos séculos. Vários séculos. Que você não pode chegar e dizer para uma comissão: "Dêem-me uma forma de celebrar a Missa que seja cheia de energia e moderna e que faça todo mundo rezar". Seria bom se fosse assim tão fácil.
Mas a coisa não funciona assim. Oferecer um culto a Deus é a coisa mais sagrada que alguém pode fazer, e há um instinto da parte das pessoas - de que você realmente não pode mudar as coisas tão drasticamente, ou então você desequilibra as pessoas, empurra-as para o lado errado, e faz com que elas percam qualquer caminho eficaz para Deus que possem ter tido.
Este é um dos pontos do Papa Bento: que quando mudamos a Missa lá nos anos 60, isso foi feito de uma forma brusca demais. Foi algo imposto de cima e veio dos estudiosos, não do povo.
O Papa ensinou muitas vezes nos últimos anos - e mesmo antes de tornar-se Papa - que a única forma pela qual a Missa pode ser mudada é deixá-la lenta e naturalmente ajustar-se ao que está ao redor - que a Missa idealmente deve ser deixada para se desenvolver no decurso do tempo - crescer a partir de mudanças naturais que borbulham do povo - não de comitês de acadêmicos. E pouco a pouco estas mudanças, sutis e delicadas, tomam forma, ultrapassam os séculos e se espalham de país para país, de cultura para cultura.
A Missa que Pedro e os Apóstolos celebraram - e em que os primeiros cristãos participaram - usava canções e leituras da Bíblia e uma antiga versão da Oração Eucarística, numa ordem um tanto semelhante à que sempre temos visto. Nos primeiros anos ela era provavelmente um tanto folgada (N.T.: livre, espontânea), mas dentro de poucas décadas a Missa começou a tomar uma forma e um padrão definidos. Ela começou a ter travas. O padre e o povo estavam voltados para a Cruz juntos - há uma genuflexão aqui, um sinal da cruz ali - e logo cada província do Império tinha sua própria maneira de "fazer" a Missa.
E desta forma, ao longo da lenta marcha dos séculos, num mundo de cataclismas e invasões, tumultos e conflitos, a Missa torna-se a única coisa constante. A forma como a Missa é celebrada, a música que é cantada, a língua que é usada - tudo isso torna-se um grande consolo para o povo.
Sim, a Missa sempre mudou e sempre se desenvolveu - mas de forma tão lenta, que poderia unir gerações entre si - estou unido a meu pai e a meu avô e até mesmo a Carlos Magno - praticamente a mesma Missa. E isso tem um quê de maravilhoso!
Assim, o que o Papa está dizendo é que muitas da mudanças na Missa depois do Concílio Vaticano foram um tanto artificiais e superficiais e nos deram a impressão de que a Missa tinha mais a ver com criatividade e entretenimento do que com o sacrifício de Cristo.
Mais do que isso, ele está dizendo que, se já tivemos a impressão de que a antiga forma de celebrar a Missa era proibida, era terrível e deveria ser jogada fora - bem, essa impressão estava errada.
Ele nos quer convencer de que a forma mais antiga de se celebrar a Missa tem seu próprio gênio, sua beleza e sua graça - os quais nós, neste mundo moderno, não podemos nos dar ao luxo de ignorar ou perder. E que podemos aprender melhor a como adorar a Deus através da celebração da Missa antiga ao lado da Missa nova.
Estou convencido de que Sua Santidade tem uma visão de que em uns 100 anos os bons elementos da Missa de João XXIII e os bons elementos da Missa de Paulo VI se amalgamarão - orgânica e naturalmente - numa Missa mais frutuosa e bela de algum futuro Papa.
Mas, por enquanto, ele diz que aqueles que compreendem que podem rezar melhor numa Missa ou na outra, bem, como um sábio e amoroso pai, o Papa disse: "Façam, por favor".

Fonte: http://latinmass.com/homilyii.html

"Só teremos a nos enriquecer..." - testemunho de um padre sobre o Summorum Pontificum

Pax et bonum!

Tendo recebido permissão do autor, embora eu ainda esteja esperando uma outra comunicação, decidi publicar a seguinte homilia, transcrita, de um presbítero dos Estados Unidos. Ela data de 2007, ano da publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum.
Interessante a abordagem do tema, feita pelo pároco aos seus paroquianos. O fato de tratar do documento foi amplamente enriquecido pelo testemunho pessoal do presbítero, que achei salutar, como o testemunho postado anteriormente, para animar sobretudo os padres jovens a conhecer, aprenderem e celebrarem a Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano.
Confesso que achei alguns trechos não muito claros e, por conta disso, podem haver imprecisões na tradução.
Notifiquem-nos de qualquer imprecisão e equívoco. De já agradecemos.
[Os grifos são nossos.]

***

Homilia sobre a Missa Latina - 1
O autor, Pe. Anthony Brankin
Por Pe. Anthony Brankin,
Pároco da Paróquia Saint Odilo, Berwyn, Illinois,
da Arquidiocese de Chicago, Estados Unidos da América.
Traduzido por Luís Augusto Rodrigues Domingues.

Vocês devem ter visto recentemente nos jornais que o Papa Bento XVI promulgou um documento sobre a Antiga Missa Latina. Em poucas palavras, o Papa está decretando que esta Missa está novamente disponível para os padres, o povo e as paróquias que a desejarem. Ele não está pedindo que todos nós tenhamos que voltar à Missa Antiga. Apenas está dizendo que esta Missa é tão bela que suas riquezas deveriam estar abertas a todo o mundo e não mais perdidas.
Eu fui privilegiado por poder rezar esta Missa quase toda semana por cerca de dez anos na minha última função. E para dizer a verdade, eu aprendi muito - inclusive como celebrar mais adequadamente a Missa comum em inglês.
Eu aprendi que isso [N.T.: a "questão" da Missa] atualmente tem muito pouco a ver com o latim - porque a maior parte é recitada em voz baixa ou cantada. Tem muito pouco a ver com a idade da assembleia - vi que metade da assembleia que ia para esta Missa era muito jovem para tê-la ao menos visto antes [N.T.: o alegado caso da nostalgia]. Lembro de uma jovem que foi pela primeira vez e sua reação foi "Fantástico".
Todavia, eu lembro de quando fomos solicitados pelo Cardeal Bernardin para começar a providenciar a Antiga Missa Latina para Southside. Levou pelo menos três meses de preparação. Lembro de ter procurado e adquirido as velhas sacras, os castiçais adequados, os paramentos e livros corretos, treinado e preparado os coroinhas para um ritual que nunca tinham visto antes.
E isso não era tudo, porque eu tive que aprender a celebrar a Missa toda novamente - só que desta vez no estilo Latino. Eu praticava três ou quatro vezes por dia - uma missa-seca. Praticava até na mesa de jantar. Eu tive que aprender, estudar e memorizar cada novo sinal da cruz e genuflexão - e há bem mais destes do que na Missa em inglês.
Tive que aprender novos cantos, nova notação, nova língua. Há voltas e passos que você tem que fazer - deste jeito e não daquele jeito. Seus braços devem ficar a esta distância e não mais. Há três tipos de vozes - normal, baixo e silencioso. Nada é deixado à escolha, nada é deixado ao estilo ou à criatividade do celebrante, porque se algo está claro quanto à maneira de celebrar a Missa é que esta é a maneira e não outra - é que a Missa não tem a ver com o padre e sua personalidade sempre agitada ou mesmo com o povo. Tem a ver com Jesus. E todos os pequenos personalismos que nós padres tendemos a fazer só distraem. Se há algo que você aprende, enquanto aprende a celebrar a Missa Latina, é que ela é uma oração séria.
E nervoso como nunca estive - mas não tão nervoso - percebi que, tudo sendo feito corretamente, com os "i"s e "t"s pronunciados direito, esta incrível saída de tudo a que crescemos tão acostumados nas últimas três décadas teria êxito - ou pelo menos não seríamos linchados por paroquianos furiosos.
No momento em que eu tinha acabado de celebrar minha primeira Missa Latina, eu estava assustado. Eu não sei o que eu estava esperando, mas eu disse para mim mesmo: "Isso foi realmente bonito! Que oração maravilhosa! Que textos belos! Que orações, gestos e movimentos dignos!"
O que me assustou foi a impressão que a elite litúrgica deixou em todos os anos desde a década de 60, de que mesmo o anseio mais suave de ver a Missa antiga novamente, a menor curiosidade sobre ela, era algo obscuro, doentio e espiritualmente corrupto.
Se eu tivesse ao menos murmurado uma palavra, no meu seminário, de que eu era curioso sobre a Missa antiga, realmente acho que teriam me jogado fora - porque essa coisa de Missa Latina era uma religião fora da lei. Quando vocês pensarem em como era difícil conseguir permissão para celebrar esta Missa, vocês podem ter pensado como se estivessem a pedir para matar galinhas sobre o altar.
Eis por que é tão maravilhoso ler este documento, porque Sua Santidade está nos dizendo que esta Missa Latina tem seu lugar na Igreja - bem ao lado da nova -, que cada forma de celebrar a Missa informará e edificará a outra, e nós, os membros da Igreja, só teremos a nos enriquecer com isso.
Fiquem atentos.

sábado, 20 de abril de 2013

Graduale Simplex - o que é e download

Pax et bonum!

Reproduzimos abaixo um texto de autoria de Alfredo Votta, do ótimo blog Salvem a Liturgia!, acerca do Graduale Simplex.
A postagem é ótima para cantores e interessados no Canto Gregoriano.
A obra, disponível completa na web, poderá também servir de inspiração para composições em vernáculo, tanto no que diz respeito à melodia quanto no texto empregado.
Os que já conhecem o Graduale Romanum, que é o livro oficial de Canto Gregoriano para o Ano Litúrgico, perceberão a grande diferença entre as preciosas, longas e melismáticas melodias originais e as simples, mas também nobres, melodias desta edição, razão pela qual é recomendado para igrejas menores, onde não há cantores tão experientes.
Na situação atual de nossas paróquias e dioceses (falo especificamente da Arquidiocese de Teresina e das demais dioceses da Província Eclesiástica do Piauí), em que o conhecimento e a prática do Canto Gregoriano são praticamente inexistentes, o Graduale Simplex, que apresenta um repertório suficiente para o Ano Litúrgico, apresenta-se como um ótimo começo, sem esquecermos o Jubilate Deo, que seria o repertório mínimo.
O link para download segue no final da postagem.

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O que é o Graduale Simplex?
Por Alfredo Votta


Para respondermos à pergunta que dá título a este texto, precisamos conhecer primeiro um livro chamado Graduale Romanum.
O Graduale Romanum é um livro litúrgico cujo conteúdo é exclusivamente de partituras de canto gregoriano, quer dizer: ele contém apenas música. Apenas música, e toda a música necessária para a celebração de qualquer Missa do ano litúrgico.
Este livro já existia no Rito Tridentino, e depois da reforma litúrgica de 1969-1970 recebeu alguns ajustes para funcionar no Rito Novo. A edição de 1974 é essa, usada na Forma Ordinária. A edição de 1961 se utiliza na Forma Extraordinária.
Se o leitor quer o Graduale Romanum de 1974, deve comprá-lo; se quer o de 1961, encontra-o para download na internet.
Ambos contêm um “Kyriale”, isto é: peças musicais para o Ordinário da Missa (Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei, junto com as antífonas de aspersão Asperges me e Vidi aquam); e além dele também o Próprio (Introito, Gradual, Ofertório, Comunhão, Trato, Aleluia, Sequência) para o ano inteiro, incluindo as comemorações dos santos e da Santíssima Virgem Maria.
É preciso estudo para cantar as peças musicais do Graduale Romanum. São cantos generosamente ornamentados, pedindo muita concentração e perícia.
Se a paróquia (ou casa religiosa ou qualquer outra igreja) abriga cantores treinados, tem a possibilidade de utilizar integralmente o Graduale Romanum em cada Missa, o que inclui a Comunhão. Claro que nem todo lugar tem esses cantores. Não podemos pensar que antes da reforma litúrgica a Missa Tridentina fosse celebrada em todos os lugares com canto gregoriano do Graduale Romanum. Isso acontecia onde havia recursos para isso: os cantores; se não havia, o Próprio era cantado em tons salmódicos (com abundantes notas repetidas), pois as rubricas só permitiam o Graduale Romanum ou tons salmódicos. No Rito Tridentino continua sendo assim, havendo ainda a terceira possibilidade, a polifonia; mas se não há cantores treinados para o gregoriano, ainda mais improvável é que os haja para a polifonia. Por esta razão, havia muitas Missas sem música, missas “baixas”; ou então os fiéis cantavam cantos devocionais, tanto em vernáculo como em latim; mas era (e continua sendo) proibido que esses cantos usem os textos do Próprio; esses cantos durante a Missa não fazem parte dela, sendo uma maneira piedosa (e legítima) de se unir ao sacrifício da mesma forma que recitar o Rosário. Esses cantos devocionais são chamados “hinos”; na Liturgia das Horas (mesmo antes da reforma litúrgica), os hinos são realmente parte integrante, constando dos livros litúrgicos, contando entre seus espécimes peças como “Veni Creator Spiritus”, “Pange lingua” e muitos outros. Na Missa não.
Rezar o Rosário na Missa do Rito Novo, a Forma Ordinária, continua sendo uma forma legítima de se unir ao sacrifício. Os hinos, mais ou menos. Não são proibidos, mas ocupam o último lugar na lista de opções, lembrando que o pop litúrgico não está na lista nem no mais absurdo sonho (ou pesadelo). A reforma litúrgica colocou mais opções onde o Rito Tridentino oferecia três. O leitor perceba que não estou dizendo que o Rito Tridentino seja mau por causa disso. Na verdade, o Rito Novo também oferece apenas essas mesmas três opções, diferindo apenas ao expandir as fontes de onde se tomam os cantos. O Rito Tridentino nos dava o Graduale Romanum. O Rito Novo nos dá o Graduale Romanum e o Graduale Simplex, abrindo ainda a possibilidade de uso do vernáculo para a qual confia nos compositores da Igreja. Se existem um Graduale Romanum e um Graduale Simplex em latim, a lógica nos leva à necessidade de livros similares nas línguas vernáculas, contendo música que siga o rastro do gregoriano. Mas não marchinhas, nem forrós, nem chamamés, nem guarânias, nem rock, nem reggae.
Repetindo, os livros litúrgicos de música em latim já existem; se há permissão para o vernáculo, também são necessários livros em vernáculo; mas o gênero musical precisa ser aparentado ao gregoriano, precisa continuá-lo, de alguma forma; precisa beber da sua tradição e da sua influência.
Se há pretexto para se usar um gênero folclórico ou popular moderno como os da lista dada mais acima, se se usa rock, marchinha, reggae, pop meloso ou sem mel, há também pretexto para modificar os textos litúrgicos, e assim se inventa um rito que não é da Igreja e não tem a sua aprovação.
Assim, o Graduale Simplex foi organizado para que as igrejas possam ter canto gregoriano mesmo que o Graduale Romanum seja difícil demais para seus cantores. Antes, a dificuldade impunha que o Próprio fosse cantado em tons salmódicos ou que a Missa não fosse cantada; agora existe o Graduale Simplex, com melodias mais simples e Próprios que se podem repetir dentro do mesmo tempo litúrgico.
A elaboração desse livro atende a um mandato do Concílio Vaticano II constante de Sacrosanctum Concilium, 117:
117. Procure terminar-se a edição típica dos livros de canto gregoriano; prepare-se uma edição mais crítica dos livros já editados depois da reforma de S. Pio X.
Convirá preparar uma edição com melodias mais simples para uso das igrejas menores.
A ênfase é nossa. Com efeito, na capa do livro lemos Graduale Simplex in usum minorum ecclesiarum - repetindo exatamente o texto do documento conciliar.
Numa situação mais próxima da ideal, as catedrais, por exemplo, usariam o Graduale Romanum, e mesmo as grandes paróquias. Entretanto, como o leitor sabe, a situação da Liturgia é diferente, e até mesmo em celebrações do papa na Basílica de São Pedro, em Roma, às vezes se utiliza... o Graduale Simplex.
De maneira nenhuma quero dizer que o Graduale Simplex seja proibido para grandes igrejas. Essa proibição não existe e, se a minha opinião vale qualquer coisa, acredito que não faria sentido proibir. Até porque quando existe o desejo de transformar a Liturgia naquilo que ela não deve ser, usar o Graduale Simplex é arma completamente ineficiente; para tal se deve introduzir música pop, folclórica etc. O material do Graduale Simplex é muito bom, e mesmo que uma igreja não chegue nunca a usar o Graduale Romanum, estará muito bem com o Simplex. Teoricamente as catedrais usariam o Romanum, mas se elas usassem sempre o Simplex, já seria um avanço espantoso...
Ademais, o próprio prefácio do Graduale Simplex sugere que este livro seja usado também como fonte de variação do repertório; isto é, além de ser acessível às igrejas pequenas, é também de interesse para as igrejas grandes e catedrais, onde seu uso pode enriquecer a Liturgia.
O Graduale Simplex é mais acessível inclusive no nível paroquial, mesmo às pequenas paróquias. É sempre importante lembrar que quando um fiel faz uma leitura na Missa, ele está usando um conhecimento (a leitura) para cuja aquisição precisou ir à escola ou, mesmo tendo aprendido em casa, não adquiriu da noite para o dia. Para o Graduale Simplex temos a mesma situação. Deve-se valorizar o livro e a função do músico na Liturgia, tratar a celebração com respeito e dedicar-se ao estudo dos rudimentos da notação gregoriana, cuja dificuldade talvez seja igual à de aprender as letras do alfabeto - ou menor.

Fonte: http://www.salvemaliturgia.com/2012/02/o-que-e-o-graduale-simplex.html

(Disponibilizado pela Church Music Association of America)

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Missa de São Padre Pio (em vídeo)

Pax et bonum!

Nesta tarde encontrei o que seria talvez o único vídeo quase completo de uma Missa celebrada por São Padre Pio. O vídeo tem duração de 41min11seg.
É possível percorrer das orações ao pé do altar até o último Evangelho. Há apenas poucos cortes. A Missa foi cantada.
Pode-se perceber um pouco de tumulto ou inquietação nos ministros (frades) e no povo, mas ainda assim é possível perceber a simplicidade e a profundidade em pequenos gestos do santo estigmatizado.
Infelizmente não está disponibilizado o áudio do momento, mas algumas músicas e comentários, a não ser em exceções pequeninas. Além disso, a qualidade visual é baixa, mas satisfatória.
A ocasião da Missa era a inauguração da Casa Alívio do Sofrimento, o grande hospital idealizado por São Padre Pio, que ainda hoje é um dos maiores da Itália. Isto ocorreu em 05/05/1956, festa de São Pio V, sábado da IV semana após a Oitava da Páscoa.
Que ele, da glória dos eleitos, junto de nosso Senhor, interceda pelo novo movimento litúrgico e pela santificação dos sacerdotes.


São Padre Pio de Pietrelcina, rogai por nós.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Da crença batista à Missa na Forma Extraordinária - a história do Pe. Christopher Smith

Pax et bonum!

Nos últimos dias sentia renovar-se a necessidade da Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano na Arquidiocese de Teresina. Bem, estamos na II Semana da Páscoa, convém alegrar-se, mas confesso que o fato de estarmos já há quase 6 anos da publicação do Summorum Pontificum e vermos um interesse ainda muito tímido, por parte do clero, é algo desanimador.
Pois bem, procurando na web outros testemunhos de sacerdotes que celebram na Forma Extraordinária, encontrei a interessante história do Pe. Christopher Smith, um jovem presbítero estadunidense. 
Terminada a tradução, e recebida a permissão do autor, ei-la abaixo. Esperamos que ela interpele, provoque, anime e encoraje novos presbíteros brasileiros (e quem sabe portugueses ou de outras nações lusófonas) para este tesouro precioso que deve ser conservado.

***
Pe. Christopher na Quinta-feira Santa de 2012

Por que estou tão enraizado na Forma Extraordinária da Missa? (1)
Por Pe. Christopher Smith, 
Pároco da Paróquia Prince of Peace, em Taylors, Carolina do Sul, 
da Diocese de Charleston, Estados Unidos da América.


Eu estava tendo uma deliciosa refeição recentemente com um bispo a quem amo e respeito como um pai, e que tem sido extraordinariamente bondoso para comigo. Minha política pessoal de nunca mencionar a forma extraordinária da Missa à mesa de jantar foi contornada por um de meus irmãos padres, a quem estimo como amigo e colega. "Então, sr. bispo, o que o senhor pensa da Missa Tridentina?" O suor começou a se formar na minha testa enquanto meu estômago se agitou, e o antes deleitável filé mignon, em meu prato, imediatamente me deu repulsa. "De novo não", eu disse para mim mesmo, começando a abafar o que eu sabia que seria um dilúvio de palavreado contra o Missal de Pio V/João XXIII, rezando de cabeça as Orações ao pé do Altar.
É uma cena que ocorreu comigo várias vezes, e que é muito familiar a padres jovens por todo o mundo. De uma hora para a outra, eu já não era só mais um padre no meio dos outros. Eu era um homem marcado. Eu cometi o pecado não tão original de ser um "daqueles padres", do tipo que celebrava a Forma Extraordinária do Rito Romano. Eu era um enigma para vários amigos que eu fiz nas comunidades que gozam exclusivamente dos livros litúrgicos pré-conciliares, que não conseguiam compreender como eu podia acordar toda manhã e rezar o desagradável Novus Ordo, ou Nervosa Desordem (2). E eu era um mistério para meus irmãos padres e até para alguns de meus paroquianos que não conseguiam enquadrar o homem que eles conheciam como seu amigo, que parecia tão jovial, divertido e mente-aberta, com uma liturgia que era caricaturada por muitos como o carro-chefe dos que se acham a última coca-cola do deserto, dos machucadinhos, dos integristas, dos inflexíveis (3).
Por quê? É a pergunta que vários católicos, nos bancos e presbitérios por todo o mundo, têm nos lábios depois que o Summorum Pontificum tirou as algemas de uma forma histórica particular do Rito Romano para lançar sua mágica (ou criar o caos, dependendo do seu ponto de vista) sobre a Igreja. E isso não é uma questão desimportante.
O fato de Bento XVI ter me dado a liberdade de celebrar esta forma da Missa fez-me cantar baixinho um Te Deum no meu quarto, mas não me dá as respostas para esta questão.
Pode-se dar uma resposta convincente para esta pergunta. Padres e leigos por todo o mundo são capazes de rascunhar uma apologia das razões históricas, teológicas e espirituais por que a forma extraordinária do Rito Romano é uma boa coisa, por que sua celebração contínua é uma coisa boa, e por que ela tem seu lugar na Igreja de hoje e de amanhã. Talvez um dia o Magistério da Igreja proponha uma tal apologia de modo que aqueles de nós, que usufruímos do privilégio do Summorum Pontificum, possamos apontar para todas essas razões.
Mas as razões por que o povo ainda coça a cabeça sobre o motivo do Papa Bento XVI "ressuscitar" uma liturgia supostamente morta, numa língua supostamente morta para o que seria uma suposta minoria minúscula de devotos têm pouco a ver com história, teologia e espiritualidade. Elas têm a ver com a experiência do povo com a forma extraordinária do Rito Romano e aqueles que estão ligados a ela. Naquele jantar, meu querido pai em Deus, o sucessor dos apóstolos, partilhou conosco: "Eu lembro da Missa Tridentina quando eu era menino. Eu servia na Missa, eu ainda lembro as respostas: 'Introibo ad altare Dei; ad Deum qui laetificat iuventutem meam'. Mas não era algo bonito. Nós tínhamos padres que celebravam a Missa rezada em 15 minutos e não se tinha ideia do que eles estavam dizendo. Eu passei por tudo isso. Para mim foi o suficiente. Eu gosto da Missa em inglês e não quero voltar atrás". Dificilmente alguém pode argumentar contra a experiência de outra pessoa: é o que é, é a experiência dele e isso você não pode desconsiderar.
Então o padre que jogou a bola de canhão voltou a discussão para as pessoas que atualmente estão ligadas à Missa na forma extraordinária: "Eles são todos loucos. São apenas nostálgicos por um passado que nunca conheceram. E vários deles são apenas uns feridinhos. O Papa celebra a forma atual da Missa, o que para mim é bom o suficiente".
As opiniões de meus companheiros de jantar tinham sido formadas pela experiência deles, e tal experiência tinha deixado um gosto ruim em suas bocas. Não importa se a legislação papal, o estudo teológico ou um testemunho sincero fossem postos diante deles, era improvável que suas mentes pudessem ser mudadas. Nada disso mudaria o fato de que eles seriam sempre meus amigos e mentores, e nem o fato de que eles sempre veriam minha inclinação para o que é "Trad" (4) como uma falha de caráter, uma fraqueza, uma excentricidade inexplicável. Eles amariam o pecador, mesmo odiando o pecado!
Eu sou um simples pároco. Eu não posso prover o argumento intransponível, para a forma extraordinária do Rito Romano, que deslumbraria o mundo de modo que logo puxariam da poeira seus Missais e cantariam o Graduale Romanum (5). Eu celebro a Missa "Trad" porque tenho paroquianos que a desejam, e porque eu desejo celebrá-la. Tudo que posso fazer é partilhar o porquê de minhas experiências de vida terem me dado este amor por algo que tantos de meus amigos católicos não amam. Tenho a certeza de que há vários outros que encontrarão ecos de sua própria jornada de fé rumo a Trento (6)!
Quando criança, cresci sendo Batista. Tão não-litúrgico quanto vocês possam imaginar. Um dia, numa livraria, deparei-me com uma cópia do Livro da Oração Comum (7). Fui fisgado. Todas aquelas orações e cerimônias, o que eram? Economizei minha mesada e comprei um. Há meninos que babam em cima de complicados jogos de futebol americano, que se imaginam em paradas militares num uniforme chamativo e com um rifle bem polido, que balbuciam estatísticas de beisebol e que têm um enciclopédico conhecimento das obras de Beckett (8). E há meninos que se deparam com “As cerimônias do Rito Romano descritas” (9), de Adrian Fortescue (10), e se apaixonam.
À primeira vista, os encantos rubricais de um menino podem ser vistos como algo que nada tem a ver com esportes ou com assuntos militares. Mas vários meninos querem estar num lugar onde possam ser homens com outros homens, onde possam dominar algo que outros não conhecem e assim competir com aqueles que conhecem algo, onde possam estar num time. A liturgia católica tradicionalmente tem sido um lugar onde este sonho de infância pode ser realizado; o santuário, o campo esportivo, o quartel militar, todos proporcionam isto. Eu fui introduzido no mundo da liturgia pelo seu manual, suas regras, seus times e seu companheirismo. Eu fui fisgado.
Rapidamente fiz minha trajetória dentro da Igreja Católica (11), e zelosamente na forma ordinária da Missa em inglês. Tornei-me coroinha, cantor e leitor. Cantava no coro. Eu tinha visto um Liber Usualis (12) no coro, mas não sabia o que significavam aqueles quadrinhos e palavras em latim. Roubei um livrinho vermelho com colunas de texto paralelas em inglês e latim, de algo chamado Comissão em Apoio da Ecclesia Dei (13), que alguém deixou na igreja.
Deparei-me com a Revista da Missa Latina (14) numa livraria, que tinha artigos sobre padres e leigos corajosos, ao longo da história e atualmente, que realizaram atos heroicos de sacrifício por algo que um tal Pe. Faber (15) chamou de "a coisa mais bela debaixo do Céu".
De uma vez o meu mundo se abriu. Havia algo mais para a minha fé e a Missa do que aquilo que eu vim a conhecer como sendo a Missa católica, que era o que se celebrava em minha paróquia todo domingo. Tomei conhecimento de jovens de todo o mundo que caminhavam de Paris até Chartres (16) no dia de Pentecostes para rezar por um retorno ao sagrado. Eu não sabia exatamente o que significava aquilo, mas eu vi aquelas fotos de milhares de jovens como eu, que amavam Jesus, a Igreja Católica e a Missa. Havia algo de diferente com esta Missa, este movimento.
Com o olhar que tudo critica, tudo sabe e tudo julga, de alguém de 16 anos, comecei a ver tudo ao meu redor como "falso" (17), nas palavras de Holden Caufield (18). Eu nunca me senti muito bem com a Missa da Life Teen (19). Parecia apenas um bando de adultos tentando desesperadamente entrosar-se comigo, e todos nós sabemos que os adultos, dos 33 anos mais ou menos (como eu atualmente (20)) simplesmente não conseguem entender o jovem. Eu tinha amigos que iam para a Life Teen, e logo deixaram de ir para a Missa completamente. Eu estava chateado com a Missa. Parecia só ter a ver com a personalidade do padre. Piadinhas, bandeirolas, música ruim.
Eu permaneci no coro, e nunca fui tão feliz como quando cantamos Mozart, Gounod e Bach. Então veio o Glory and Praise (21) e logo me desapontei. No mais, meu padre foi transferido por acusação de abuso de crianças.
Para alguém de 16 anos, isso era demais. Eu me senti traído, confuso e, sobretudo, chateado. Onde ficava este mundo encantado das Missas Cantadas, procissões e Horas Santas? Por sorte, no meu último ano (22), passei por duas coisas que mudaram minha vida. Comecei a ir para igrejas Ortodoxas na região, uma grega e outra russa, por curiosidade, que incutiram em mim um senso de sagrado e de culto litúrgico. E fui a uma conferência sobre Canto Gregoriano, numa abadia trapista.
Durante a conferência, onde somente aí eu vim entender o que significavam os quadrinhos e as palavras em latim do livro que vi anos antes no coro, fui de mansinho à cripta, no meio da noite, para conhecer o lugar e rezar. No corredor fracamente iluminado, eu ouvi as palavras “Dominus vobiscum(23). Entrei, para acabar vendo um monge idoso de frente para um altar junto da parede, com umas poucas pessoas ajoelhadas atrás dele. “O que eles estão fazendo às quatro da manhã”?
Eu fiquei lá para o restante do que quer que fosse que eu estava vendo, extasiado. Depois de tudo, eu parei o monge e perguntei: “Isso foi a Missa Tridentina?” Ele disse naturalmente: “Sim”. Eu perguntei: “O senhor vai celebrá-la de novo?” “Toda manhã, no mesmo horário, no mesmo lugar. Você pode vir amanhã e servir na Missa comigo?” “Mas, eu não sei como”. “Aqui tem um livrinho vermelho que você pode estudar para amanhã. Você tem que começar de algum jeito”. “Legal!”, eu disse. De repente, aquele livrinho vermelho e um velho monge de uns noventa anos tornaram-se meu elo a um mais amplo mundo da fé, e eu estava dentro. Eu era parte de algo novo e emocionante.
Quando fui para casa, eu me pus para aprender tudo que pudesse sobre esta Missa. Cheguei aos livros de Michael Davies (24), a figura do Arcebispo Lefebvre (25) e a história do que aconteceu depois do Vaticano II. Também me deparei com “A fé em crise – o Cardeal Ratzinger se interroga” (26) e comecei a ler tudo que pude dos escritos deste Joseph Ratzinger, que se tornou meu novo herói!
No tempo em que entrei para a faculdade (27), eu estava bem formado sobre a história da crise na Igreja depois do Vaticano II. Mas eu nunca tinha estudado filosofia ou teologia, nunca tive um diretor espiritual e nunca tive uma comunidade de jovens católicos da qual eu me sentisse parte. Na faculdade, eu finalmente tive acesso a todas essas coisas. Encontrei estudantes e professores que cuidadosamente me ajudaram a avaliar tudo que li e a desenvolver uma mentalidade e espiritualidade autenticamente católicas.
Na faculdade, pude encontrar o Novus Ordo sendo bem celebrado e de forma bela, e também pude participar da “Missa Antiga”.
Havia ainda algo de “inquietante” (28) em ser um autodenominado “Trad” (29). Era algo excêntrico, diferente, legal. Organizei uma imensa biblioteca litúrgica e comecei a encontrar-me com outros jovens como eu, e os contatos foram se organizando pelo mundo todo. Eu não estava mais ligado a polêmicas e rancores. Ao passo em que fui estudando a liturgia romana, ela tornou-se viva para mim, e eu cresci no amor às orações, às cerimônias e à música.
No meu ano de calouro, inventei a brilhante ideia de querer participar da Semana Santa no rito antigo. Com seis amigos meus pegamos um carro e viajamos para Scranton, Pensilvânia, para o seminário da Fraternidade São Pedro. As três celebrações das Tenebrae (30), os paramentos pretos na Sexta-feira Santa, a Vigília Pascal e a festa depois, o canto do Haec festa dies: tudo isso ficou gravado na minha memória como sendo algo tão belo e tão precioso para mim e para toda a Igreja. Quem não gostaria de ter tudo isso como parte do patrimônio da Igreja? Voltei para lá todo ano, e como o convite boca-a-boca se espalha, no último ano levamos uns 70 outros jovens conosco.
No dia seguinte ao da minha formatura, fui para a famosa peregrinação de Chartres. No meio do caminho da peregrinação, paramos no meio de uma floresta para a Solene Missa Cantada de Pentecostes. A suntuosa procissão do clero, a participação ativa de milhares de jovens cantando a uma voz cantos em latim de todas as eras, tudo isso era um grande alívio para nossa exaustiva caminhada. Logo, depois do Ofertório, começou a chover. Eu esperei o alvoroço para encontrar abrigo, as reclamações e o abandono total do que estávamos participando. Ninguém saiu do lugar, exceto os escoteiros, que abriram as longas toalhas de linho em fileiras (31) e as seguraram como soldados segurando bandeiras sobre um caixão.
Os padres vieram com o Santíssimo Sacramento, acompanhados por escoteiros com guarda-chuvas brancos com amarelo, da cor do Papa e da Hóstia Sagrada. E, quando a chuva caiu ainda mais forte sobre nossos rostos e abafou o canto, todos se ajoelharam na lama, seguraram as toalhas, e receberam o Senhor e Deus na boca, com grande devoção e amor.
Esta era a fé que eu tinha buscado a vida inteira. Isso era tão bonito, ao mesmo tempo antigo e novo, que arrebatou meu coração e me deu forças. Lá na lama, no meio de uma floresta na França, longe de casa, eu soube que minha vocação era tornar-me um sacerdote, para trazer o Senhor da fé e da beleza para os outros, como aqueles padres que iam ao encontro daquela multidão adoradora, coberta de sujeira e poeira no corpo, mas de graça e caridade na alma. E esta experiência foi durante a Missa na forma extraordinária. Poderia eu ter tido uma experiência semelhante ou até a mesma experiência em outra forma da Missa, ou até em outro momento? Claro. Mas Deus escolheu aquele momento para revelar a si e a seu plano para mim de uma forma especial, e por esta razão eu estarei sempre ligado à liturgia e ao povo que tem se sacrificado para encorajar sua celebração.
Agora eu sou um sacerdote de Deus e da Igreja Católica (32), fiel ao Papa e à Tradição. Toda vez que vejo um jovem com um missal nas mãos e aquele olhar de admiração e reverência, que se estampa naqueles que encontram a fé através da sua digna celebração, eu sorrio e lembro. Agora, até eu tenho que consultar algumas de minhas filhas espirituais, cujo conhecimento de Fortescue e calendários litúrgicos de vários ritos é bem maior que o meu. Enquanto eu não celebro a Forma Extraordinária tanto quanto eu gostaria, seguindo a vocação que Deus me deu, sou grato ao papa Bento, porque eu, e outros como eu, não somos mais estrangeiros ou órfãos. Somos católicos e, como tais, alegramo-nos por sê-lo, com uma bela herança litúrgica e um Papa que nos mostra o caminho. Minha predileção pela “Missa Antiga” não é uma condenação dos que não têm tal predileção, ou do poder da Igreja para reformar a liturgia; é uma expressão de algo positivo e maravilhoso que encontrei no culto da Igreja, e por isto sou grato a Deus!
Se vocês querem saber como o jantar terminou, eu fiquei em silêncio porque me ocupei demais pensando em todas as coisas que estou escrevendo aqui, sobre como eu poderia responder ao “Por quê?” dos meus comensais. Ao longo disso, meu filé foi retirado e um amável crème brûlée (33) tomou seu lugar, vindo não sei de onde, enquanto o resto da mesa estava em outros tópicos das políticas eclesiais. Afinal, depois de vaguear e me preocupar tanto, estavam bem aí o leite e mel da Terra Prometida.

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1. N.T. No original: “Why am I So “Into” the Extraordinary Form of the Mass?”. Disponível em:
2. N.T. No original soa o trocadilho Novus OrdoNervous Disorder. Novus Ordo é o rito da Missa reformado, publicado em 1970, ou seja, é a Forma ordinária da Missa, celebrada em quase todas as paróquias católicas do mundo, cuja última edição típica é de 2002, com emendas em 2008.
3. N.T. No original se utilizam expressões muito próprias do inglês que talvez ficariam estranhas se traduzidas literalmente. O original diz: “the hobbyhorse of the Chosen Frozen, the Walking Wounded, the Integristes, and the Rigid Frigid.”
4. N.T. Ou seja, relativo a Tradição, Tradicional.
5. N.T. O livro oficial com o canto gregoriano para todo o Ano Litúrgico.
6. N.T. Referindo-se ao Concílio de Trento (séc. XVI), do qual veio a uniformização do Missal Romano e ao qual se refere a expressão "Missa Tridentina".
7. N.T. É o chamado “Book of Common Prayer”, livro de orações da igreja Anglicana.
8. N.T. Seria Samuel Beckett, dramaturgo e escritor irlandês, considerado um dos mais influentes do séc. XX?
9. N.T. Título original: “The Ceremonies of the Roman Rite Described”.
10. N.T. Pe. Adrian Fortescue (1974-1923), liturgista inglês.
11. N.T. Foi recebido na igreja aos 13 anos.
12. N.T. Outro livro oficial de canto gregoriano.
13. N.T. Referência à Carta e à Pontifícia Comissão responsável pelos fiéis ligados à Forma Extraordinária do Rito Romano. A Carta sob forma de motu proprio Ecclesia Dei, de 1988, dentre outras coisas pedia: "em toda a parte deverá ser respeitado o espírito de todos aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina, mediante uma ampla e generosa aplicação das diretrizes, já há tempos emanadas pela Sé Apostólica, para o uso do Missal Romano segundo a edição típica de 1962".
14. N.T. No original: Latin Mass Magazine.
15. N.T. Pe. Frederick William Faber (1814-1863). Teólogo inglês anglicano que se converteu à Igreja Católica seguindo John Henry Newmman (que morreu como cardeal católico e foi beatificado em 2010).
16. N.T. A famosa Peregrinação de Pentecostes, de Paris a Chartres, com percurso de cerca de 120Km, estruturada em cinco dias.
17. N.T. No original: "phony".
18. N.T. Adolescente rebelde protagonista da obra "The Catcher in the Rye" (O apanhador no campo de centeio), de 1951, do escritor estadunidense J. D. Salinger.
19. N.T. Life Teen é um apostolado ligado à juventude, com base numa espiritualidade eucarística.
20. N.T. Pe. Christopher nasceu em 28/06/1977.
21. N.T. Um certo hinário ou livro de cantos litúrgicos.
22. N.T. Pela idade, entendemos ser o último ano do equivalente ao ensino médio brasileiro.
23. N.T. Ou seja, “O Senhor é convosco” ou “O Senhor esteja convosco”.
24. N.T. Michael Davies (1936-2004) foi um professor inglês e escritor católico que foi presidente da Federação Internacional Una Voce.
25. N.T. D. Marcel Lefebvre (1905-1991) foi um bispo francês, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
26. N.T. Aqui utilizei o título com que a obra “Raporto sulla fede” foi publicada, em 1985, aqui no Brasil. Trata-se de um conjunto de entrevistas de Vittorio Messori com o então Cardeal Joseph Ratzinger, nosso atual Papa Emérito Bento XVI.
27. N.T. Christendom College, uma faculdade católica de Front Royal, Virginia.
28. N.T. No original: "edgy".
29. N.T. No original: "Traddie".
30. N.T. O chamado “Ofício das Trevas”, parte do Ofício Divino com certas particularidades durante o Tríduo Pascal.
31. N.T. Isto se refere ao uso das toalhas seguradas sob as bocas dos comungantes em fila lateral, cobrindo ou fazendo as vezes das “mesas da comunhão”.
32. N.T. Pe. Christopher foi ordenado presbítero em 23/07/2005.
33. N.T. Um tipo de creme servido como sobremesa.

Tradução e notas por Luís Augusto - membro da ARS