quarta-feira, 29 de maio de 2013

Adoração Eucarística simultânea em todo o mundo - 02/06/2013 (livreto em português)

Pax et bonum!

O Santo Padre Francisco convocou todos os fiéis para adorarem o Senhor simultaneamente neste Domingo, dia 2 de junho, quando muitas dioceses estarão celebrando a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, instituída para amanhã (quinta-feira depois da Solenidade da Santíssima Trindade, segundo o Calendário Romano Geral).
Deseja-se que seja "uma hora de oração plena, de comunhão fraterna e sustento à fé de todos".
O evento, juntou com outro - o Dia da Evangelium Vitae -, foi apresentado nesta terça-feira.
O Santo Padre indicou duas intenções para esta hora de adoração:

Primeira: Pela Igreja espalhada em todo o mundo e hoje, em sinal de unidade, recolhida na Adoração da Santíssima Eucaristia. Que o Senhor a torne sempre obediente na escuta de sua Palavra, para que ela se apresente diante do mundo sempre "gloriosa, sem mancha nem ruga ou qualquer outro defeito, mas santa e imaculada" (Ef 5,28). Através de seu fiel anúncio, possa a Palavra que salva ressoar também como portadora de misericórdia e provocar um renovado empenho no amor, para oferecer sentido pleno à dor e ao sofrimento e para restituir a alegria e a serenidade.

Segunda: "Por todos aqueles que nas diversas partes do mundo vivem no sofrimento devido às novas formas de escravidão e são vítimas de guerras, do tráfico de pessoas, do narcotráfico e do trabalho escravo; pelas crianças e mulheres que são submetidas a qualquer tipo de violência. Que o seu grito silencioso por ajuda possa encontrar a Igreja vigilante, para que, tendo o olhar fixo em Cristo crucificado, ela não esqueça de tantos irmãos e irmãs deixados à mercê da violência. Também por todos os que se encontram na precariedade econômica, sobretudo os desempregados, os idosos, os migrantes, os sem-teto, os encarcerados e quantos experimentam a marginalização. A oração da Igreja e sua obra ativa de aproximação seja-lhes conforto e sustento na esperança, de força e audácia na defesa da dignidade da pessoa".

No Vaticano, a Solene Adoração Eucarística, presidida pelo Santo Padre, terá início às 17h de Roma (12h no horário de Brasília). O ideal é que as paróquias, dioceses e comunidades religiosas, enfim, todos os fiéis, pastores e ovelhas, se unam espiritualmente no mesmo horário real, observando-se a variação do fuso horário. Aqui no Brasil, portanto, como já falado, inicie-se no horário de cada região equivalente às 17h de Roma. Em Brasília e no Piauí isto se dará ao meio dia.
A Adoração Eucarística mundial foi idealizada por ocasião do Ano da Fé. Sua apresentação deu-se nesta terça-feira.
A ARS preparou, embora às pressas, um esquema que imita o livreto disponibilizado pela Santa Sé. As orações que lá constam, foram traduzidas livremente e os textos bíblicos foram tomados da edição da CNBB utilizada no site Bíblia Católica.


Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 25 de maio de 2013

Comunhão sob as duas espécies - Parte I

Pax et bonum!

Caríssimos, nesta proximidade da Solenidade do Santíssimo Corpo [e Sangue] de Cristo, no 748º [setingentésimo quadragésimo oitavo] ano da solenidade, após a publicação da Bula "Cum transiturus", do Papa Urbano IV (que a instituiu como universal), consideramos por bem tratar da Comunhão sob as duas espécies no Rito Romano, particularmente seu uso moderno. Infelizmente, há ainda muita confusão disciplinar e doutrinal, neste assunto.
Para começar, traduziremos o artigo da Catholic Encyclopedia, de 1908. Dado o seu tamanho, e para otimizar a leitura de cada parte, dividi-lo-emos em três postagens.
Segue, portanto, a primeira.

Laudes ac grátiae sint omni moménto.
Sanctíssimo ac diviníssimo Sacraménto.

***

A Comunhão sob as duas espécies

Comunhão sob uma espécie é a recepção do Sacramento da Eucaristia sob a espécie ou aparência de pão somente, ou de vinho somente; Comunhão sob as duas ou sob ambas as espécies, a recepção distinta sob as duas ou ambas as espécies, sub utraque specie, ao mesmo tempo.

No presente artigo trataremos do assunto sob os seguintes tópicos:
I. Doutrina católica e disciplina moderna; (N.T.: esta postagem)
II. História das variações de disciplina; (N.T.: em breve)
III. Especulação teológica (N.T.: em breve)

Doutrina católica e disciplina moderna

1. Sob este tópico notem-se os seguinte pontos:
a. No que se refere à Eucaristia como sacrifício, a comunhão do sacerdote celebrante, sob duas espécies, pertence ao menos à integridade, e de acordo com alguns teólogos, à essência, do rito sacrifical, e não pode, portanto, ser omitida sem violar o preceito sacrifical de Cristo: "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19). Isto é ensinado implicitamente pelo Concílio de Trento (Sess. XXI, c. I; XXII, C. I).
b. Não há preceito divino obrigando os leigos ou os sacerdotes não-celebrantes a receber o sacramento sob as duas espécies (Trento, sess. XXI, C. I).
c. Por conta da união hipostática e da indivisibilidade de sua humanidade glorificada, Cristo está realmente presente e é recebido todo e inteiro, corpo e sangue, alma e divindade, sob cada espécie singular; no tocante aos frutos do sacramento, ninguém que comunga sob uma espécie [somente] está privado de alguma graça necessária para a salvação (Trento, Sess. XXI, c. III).
d. Em referência aos sacramentos em geral, salvo sua substância, salva eorum substantia, isto é, excetuando o que foi estritamente determinado por divina instituição ou preceito, a Igreja tem autoridade para determinar ou modificar os ritos e usos empregados em sua administração, conforme o que ela julgar conveniente para maior proveito dos que recebem ou para a melhor proteção dos próprios sacramentos contra a falta de reverência. Assim, "reconhecendo a Santa Mãe Igreja esta autoridade que tem na administração dos Sacramentos, mesmo tendo sido frequente o uso de comungar sob as duas espécies, desde o princípio [ab initio] da religião cristã, porém verificando, em muitos lugares [latissime], com o passar do tempo, a mudança nesse costume, aprovou, movida por muitas graves e justas causas, a comunhão sob uma só espécie, decretando que isso fosse observado como lei, a qual não é permitido mudar ou reprovar arbitrariamente sem a autorização expressa da Igreja" (Trento, Sess. XXI, c. II). Não só, portanto, não é obrigatória a Comunhão sob as duas espécies para os fiéis, mas o cálice é estritamente proibido por lei eclesiástica a qualquer um que não seja o sacerdote celebrante.
Estes decretos do Concílio de Trento foram direcionados contra os Reformadores do séc. XVI, que, por força de Jo 6,54, Mt 26,26 e Lc 22,17-19, reforçado na maioria dos casos por uma negação da Presença Real e do Sacrifício da Missa, sustentaram a existência de um preceito divino obrigando os fiéis a receber sob as duas espécies, e denunciaram a prática católica de recusar o cálice aos leigos como sendo uma mutilação sacrílega do sacramento. Um século antes, os hussitas [N.T.: seguidores de Jan Huss, teólogo  herege da Boêmia do séc. XV], particularmente o grupo dos calixtinos [N.T.: do latim calix, cálice; eram hussitas mais moderados], tinha afirmado a mesma doutrina, sem negar, todavia, a presença real ou o sacrifício da Missa, e principalmente por conta de Jo 6,54; e o Concílio de Constança, em sua 13ª sessão (1415) já tinha condenado sua posição e afirmado a força vinculante da disciplina existente em termos práticos idênticos aos de Trento (cf. decreto aprovado por Martinho V, 1418, em Denzinger, Enchiridion, n. 585). Deve-se observar que nenhum concílio introduziu uma nova legislação sobre o assunto; ambos contentaram-se em declarar que o costume existente tinha adquirido força de lei. Alguma poucas privilegiadas exceções à lei e umas poucas instâncias de expressa dispensa, ocorrendo depois, serão comentadas abaixo.
2. No que se refere aos méritos da controvérsia utraquista [N.T.: do latim utraque, ambos], se assumirmos os pontos doutrinais envolvidos, isto é, mais precisamente, a ausência de um preceito divino impondo a Comunhão sob as duas espécies, a recepção e presença integrais de Cristo sob cada espécie, e o poder discricionário da Igreja sobre tudo que está ligado aos sacramentos e que não está divinamente determinado, a questão de dar ou recusar o cálice aos leigos torna-se puramente prática e disciplinar e deve ser decidida por uma referência ao duplo propósito a ser mantido, de salvaguardar a reverência devida a este augustíssimo sacramento e de facilitar e encorajar sua recepção frequente e fervorosa. Não se pode duvidar que a disciplina católica atual melhor assegura estes fins. O perigo de se derramar o Precioso Sangue e de outras formas de irreverência; a inconveniência e a demora em ministrar o cálice a grande número - a dificuldade de reservá-lo para a Comunhão fora da Missa; as objeções não sem razão quanto à higiene e outros aspectos, o ato indiscriminado de se beber do mesmo cálice, que por si só seria algo desencorajador à Comunhão frequente no caso de um grande número de pessoas não tão formadas; estas e outras "muitas graves e justas causas" contra a prática utraquista são mais que suficientes para justificar a Igreja em proibi-la. Sobre os pontos doutrinais mencionados acima, o único que deve ser discutido aqui é a questão da existência ou não de um preceito divino impondo a Comunhão sub utraque. Dos textos levantados pelos utraquistas como prova de tal preceito, o mandato "Bebei dele todos vós" (Mt 26,27), e seu equivalente em São Lucas (22,17, isto é, supondo a referência aqui sendo feita ao cálice eucarístico e não ao pascal), não pode ser tomado honestamente como aplicável a ninguém além dos que estavam presentes na ocasião, e somente a eles nesta particular ocasião. Onde se insiste que a ação de Cristo em administrar a Sagrada Comunhão sob as duas espécies, na Última Ceia, tinha a intenção de baixar uma lei para todas as pessoas que comungariam no futuro, dever-se-ia, pela mesma razão, insistir que várias outras circunstâncias acidentais e temporais ligadas à primeira celebração da Eucaristia (por ex.: os ritos pascais precedentes, o uso de pão ázimo, a tomada das espécies sagradas pelos próprios que as recebem) foram igualmente desejadas para ser obrigatórias para todas as futuras celebrações. A instituição sob as duas espécies, ou a consagração separada do pão e do vinho, pertence essencialmente, na opinião católica, ao caráter sacrifical da Eucaristia, distinto do sacramental; e quando Cristo, em suas palavras "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19), deu aos Apóstolos tanto a ordem como o poder de oferecer o sacrifício Eucarístico, entenderam-no meramente como impondo sobre eles e seus sucessores no sacerdócio a obrigação de sacrificar sub utraque. Esta obrigação a Igreja tem observado rigorosamente.
Em Jo 6,54, Cristo diz: "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós", mas nos versículos 52 e 59 atribui a vida eterna ao comer "este pão" (que é "minha carne dada para a vida do mundo", sem mencionar o beber seu sangue: "se alguém come deste pão viverá eternamente"). Já a interpretação utraquista suporia que, no versículo 54, Cristo quis enfatizar a distinção entre o modo de recepção "pelo comer" e o modo de recepção "pelo beber", e incluir ambos modos distintamente no preceito que impôs. Mas tal literalismo, extravagante de toda forma, resultaria neste caso em colocar o versículo 54 em oposição ao 52 e ao 59, interpretados da mesma forma rígida. Daqui podemos inferir que, qualquer significado especial que esteja ligado à forma da expressão usada no versículo 54, Cristo não recorreu a ela no propósito de promulgar uma lei da Comunhão sub utraque. A dupla expressão é empregada por Cristo a fim de aumentar o realismo da promessa - enfatizar mais vividamente a realidade da presença eucarística, e transmitir a ideia de que seu Corpo e Sangue eram para ser o perfeito alimento espiritual, comida e bebida, dos fieis. No ensinamento católico sobre a Eucaristia verifica-se plenamente este significado. Cristo é recebido real e integralmente sob cada espécie; e do ponto de vista sacramental não importa se esta comunhão perfeita acontece seguindo a analogia na ordem natural só do alimento sólido ou só do alimento líquido, ou seguindo a analogia de ambos combinados (cf. III abaixo). Em 1 Cor 11,28, para o qual os utraquistas às vezes apelam, São Paulo trata da preparação requerida para uma digna recepção da Eucaristia. Sua menção de ambas as espécies, "o pão e o cálice", é meramente incidental, e não implica nada mais que o simples fato de que a Comunhão sob as duas espécies era o uso que prevalecia nos tempos apostólicos. Do versículo imediatamente anterior (27) pode-se levantar uma dificuldade contra as pressuposições dogmáticas da grande maioria dos utraquistas, e um argumento avançado em prova da doutrina católica da presença e recepção integral de Cristo sob cada espécie. "Todo aquele", diz o apóstolo, "que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor", isto é, todo aquele que receber indignamente um deles é réu dos dois. Mas não é preciso insistir neste argumento em defesa da posição católica. Justificamo-nos concluindo que o Novo Testamento não contém prova da existência de um preceito divino vinculante aos fiéis para comungar sob as duas espécies. Mostrar-se-á, ademais, pelo seguinte levantamento histórico, que a Igreja nunca reconheceu a existência de um tal preceito.

Fonte: Toner, Patrick. "Communion under Both Kinds." The Catholic Encyclopedia. Vol. 4. New York: Robert Appleton Company, 1908. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/04175a.htm.

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Você já leu "Liturgia - mistério da salvação", do Mons. Guido Marini?

Pax et bonum!


Foi no ano passado que veio à luz, em edição brasileira, a obra Liturgia - Mysterium salutis, de 2010, do Mons. Guido Marini, Mestre das celebrações litúrgicas pontifícias. 
O fino livro, com todo o respeito, parece o seu autor. Neste opúsculo, todavia, nosso caro mestre consegue sintetizar, em linguagem simples e acessível, pensamentos importantes do legado do Papa Bento XVI, que não podem perder-se. Trata-se de pensamentos que já são bastante conhecidos a todos que trabalham em prol dos ideais do Novo Movimento Litúrgico.
O livro, de menos de 50 páginas de tamanho menor que A5, percorre, citando o Introdução ao espírito da Liturgia, do então Cardeal Ratzinger, e a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, por exemplo, temas como o espírito orante, música sacra, orientação, participação, beleza.
Do bom conteúdo podemos citar algumas partes, a nível de ilustração:

Páginas 7-8:
Somente a disposição de olhar o presente e o passado da liturgia da Igreja, como patrimônio único que se desenvolve homogêneo, é que pode levar-nos a obter, com alegria e prazer espiritual, o autêntico espírito da liturgia. Um espírito que precisamos acolher da Igreja e que não é fruto de nossas invenções. Um espírito, digo mais, que nos leva ao essencial da liturgia, ou seja, a uma oração inspirada e guiada pelo Espírito Santo, na qual Cristo continua a ser nosso contemporâneo, irrompendo em nossa vida. De fato, o espírito da liturgia é a liturgia do Espírito.
Página 13:
Chegamos ao ponto de alguns grupos litúrgicos, por própria iniciativa, se apropriarem da liturgia dominical. O resultado é certamente fruto da inventividade de um grupo de pessoas hábeis e capazes. No entanto, dessa maneira se reduz o lugar onde se encontra comigo o totalmente Outro, e no qual o sagrado se oferece a nós como dom. O que estou enfrentando é apenas a habilidade de um grupo de pessoas. Então se percebe que não é o que estamos procurando. É muito pouco, e também algo diferente.
Páginas 22-23:
E não se diga que a imagem do crucifixo obscurece a visão dos fiéis em relação ao celebrante. Os fiéis não devem olhar o celebrante, nesse momento litúrgico! Devem olhar para o Senhor! Tal como o Senhor possa olhar também para aquele que preside a celebração. A cruz não impede a visão; ao contrário, lhe abre o horizonte para o mundo de Deus, e a faz contemplar o mistério, a introduz no céu, de onde provém a única luz capaz de dar sentido à vida neste mundo. Em verdade, a visão ficaria obscurecida, impedida, se os olhos permanecessem fixos naquilo que é apenas presença do homem e obra sua.
Enfim, esta obra pequena, mas substancial, é uma boa leitura, ótima para introduzir nos temas caros ao Novo Movimento Litúrgico, bem como uma boa "introdução à Introdução" [ao espírito da Liturgia].
O valor singelo de menos de R$ 5,00 é bastante atraente. Eu elevaria o livro ao patamar de leitura obrigatória, particularmente para os cerimoniários, também por gratidão ao serviço que o Mons. Guido prestou sobretudo durante o pontificado do Papa Bento XVI.
Pessoalmente, depois da leitura deste livrinho, fiquei com vontade de reler a Sacramentum Caritatis e haurir algo mais desta boa exortação apostólica.

Então, você ainda não conhecia este livro? Pensou que só havia edição de Portugal? Para os interessados, a compra deste livro pode ser feita, por exemplo, no site da Paulus:
E no site da Livraria Loyola:

Boa leitura!

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 21 de maio de 2013

A quarta homilia do Pe. Anthony Brankin sobre o Summorum Pontificum


Pax et bonum!

Estamos na VII Semana do Tempo Comum (Forma Ordinária) e na Oitava de Pentecostes (Forma Extraordinária); findou o grande Tempo Pascal.
Finda também, com esta postagem, a série de homilias do Pe. Anthony Brankin, de Illinois, nos EUA, sobre o motu proprio Summorum Pontificum.
Esta carta apostólica está perto de completar seus 6 anos de publicação e, se muita coisa não mudou no clero, embora o número de celebrações na Forma Extraordinária tenha aumentado e continue a aumentar, muitos fieis leigos atualmente desejam conhecer esta forma da Missa e certamente desejariam que sumissem as invenções que enfraquecem a liturgia como espaço privilegiado da profissão de fé. Se antes a "Missa antiga" era apenas motivo de chacota, uma imagem que remontava aos tempos de pais e avós, tabu, hoje se torna até imagem de fundo para mensagens católicas nas redes sociais, e são compartilhadas por muitas pessoas, até mesmo não tão abertas ou respeitosas para com este tesouro precioso que deve ser conservado. Tudo isto, porém, ainda é muito pouco.
Esperemos que mais esta leitura ajude pastores e ovelhas a compreenderem o bem que poderemos haurir ao amarmos, venerarmos e vivermos a liturgia em sua forma mais tradicional. Afinal, como dizia Santo Irineu de Lião, é necessário amar com extremo amor tudo que é da Igreja.

***
Homilia sobre a Missa Latina - 4
Por Pe. Anthony Brankin,
Pároco da Paróquia Saint Odilo, Berwyn, Illinois,
da Arquidiocese de Chicago, Estados Unidos da América.
Traduzido por Luís Augusto Rodrigues Domingues.

Pe. Anthony, o autor das quatro homilias
Vocês vão me perdoar se eu passar mais um domingo [focado] na nova permissão que o Papa deu para a celebração da Missa Latina antiga - que ele chama de Missa de João XXIII. Simplesmente não posso relegar isto às notícias das últimas semanas.
Junto com o ensinamento cada vez mais claro de que a Igreja Católica é a Única Verdadeira Igreja de Cristo, esta permissão para a Missa Latina definirá para todos os tempos o papado do Papa Bento XVI.
É também algo que muito espero, que nós em Saint Odilo, num futuro próximo, possamos estar capazes de trazer de volta esta Missa com certa regularidade e toda a sua beleza.
Penso que seria maravilhoso para a vida desta paróquia e para a vida espiritual de toda esta área. Nós poderíamos ser um centro do melhor da tradição católica, do melhor do culto católico, do melhor da música e da arte católicas. E tudo isto se tornaria um ímã para trazer as pessoas a Cristo. Não é para isso que estamos aqui? É para ficarmos mais próximos de Jesus e então atrairmos os outros.
E na verdade esta é uma das esperanças de Sua Santidade, Bento XVI: que se a Missa Latina antiga estiver liberada, e o povo e os padres se tornarem mais familiarizados com ela, isso tenha um maravilhoso efeito na forma como celebramos e entendemos a Missa em inglês.
Agora algumas pessoas podem dizer: Como pode ser? Como é que o povo rezaria numa Missa que não só é toda em latim, mas também onde o padre passa quase a Missa toda virado sem ser para o povo? Ele está de costas para eles! Primeiro ele está resmungando em latim e depois, para qualquer propósito prático, parece que ele está ignorando o povo, evitando-o, escondendo-se dele.
Mas não é isso que ele está fazendo. Ele está de frente para Deus. Dado que o padre dirige as orações a Deus Pai, faz sentido que o padre esteja de frente para Deus mais do que para o povo enquanto diz essas orações.
A palavra usada pela Igreja para explicar porque ele está virado daquele jeito é "orientação". Ele está simbolicamente voltado para o Leste, o Oriente, o lado da Aurora, a cidade de Jerusalém, o momento da Páscoa, a última vinda de Jesus na Glória.
As igrejas ortodoxas são bem rígidas quanto a isto, e jamais construiriam uma igreja sem que ela estivesse literalmente voltada para o leste. Nós latinos, nós romanos, sempre fomos mais brandos quanto a isto. Era-nos suficiente considerar que o padre estava voltado para o leste simbólico.
Eu sei que estamos muito acostumados com o padre olhando para nós quando ele celebra a Missa, mas o que pode acidentalmente acontecer é de começarmos a sentir como se o padre estivesse falando conosco.
Eu algumas vezes, quando estou de frente para o povo,  pergunto-me se a impressão que estou dando não é a de estar me dirigindo a Deus, mas a de estar discutindo coisas maravilhosas sobre Deus.
Eu me lembro de alguns anos atrás, em Cicero, em Our Lady of Charity - estava fazendo muito frio numa manhã, algo entre 10 e 15 graus negativos -, e na Missa de 6h30, neste dia, só estávamos o coroinha e eu. E ele perguntou-me: "Padre, se ninguém aparecer, para quem você vai celebrar a Missa?"
Eu respondi, é claro, "para Deus".
Mas isso me fez pensar que este pequeno garoto, e talvez mais alguns outros, acha que a Missa seja algo como o padre dando um tipo de lição ao povo sobre Deus e coisas sagradas, ao invés de a Missa ser um ato objetivo de culto sacrifical.
Nós temos que perceber que o padre não está dando as costas para nós, como se ele estivesse evitando que tomássemos parte em algo que é sua propriedade privada. Ironicamente, isto pode acontecer quando ele está de frente para o povo, porque há a tentação de crer que, a fim de as pessoas tirarem o máximo proveito possível da Missa, elas precisam de suas infinitas explicações e exortações, que tudo depende dele, e que é melhor ele fazer tudo rápido e animado, ou não vai dar certo.
Se estar voltado para a mesma direção nos diz algo, é que este ritual, esta cerimônia, não depende do padre ou de sua personalidade ou dos gracejos irreverentes de seu estilo de liderança, nos diz que ele não é um Bob Barker do Catolicismo Romano (NT: ou seja, uma espécie de "Sílvio Santos"), mas antes o humilde e indigno representante do povo de Deus, que está com ele e diante dele como aquele que nos guia para o místico Calvário de Cristo, todos nós marchando juntos rumo à Nova Jerusalém.
Esse não é um entendimento diferente da Missa. Isso é o que acreditamos acerca de toda missa, e é o que sempre temos acreditado, tenha sido a Missa em inglês ou em latim, com o padre de frente para o povo ou de frente para Deus. O que sempre tem lugar é o invisível e incruento Sacrifício de Cristo.
O que a nova permissão do Papa sobre a Missa quer dizer é que nós entenderemos mais claramente aquilo em que cremos. Nós veremos algo na celebração de cada Missa que nos ensinará algo sobre toda missa.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Inicia-se hoje (10/05/13) a Novena de Pentecostes

Pax et bonum!
Um ícone maronita de Pentecostes
Amados irmãos, ontem, no Calendário Romano Geral, celebrou-se a Solenidade da Ascensão do Senhor. Alguns lugares, contudo, como o Brasil, transferem, com autorização da Santa Sé, esta solenidade para o VII Domingo da Páscoa.
Pois bem, na sexta-feira da VI semana da Páscoa, ou seja, hoje, inicia-se no orbe católico a Novena de Pentecostes.
Passada esta verdadeira quaresma de graça e alegria na presença do Senhor vitorioso e incorruptível, aguardamos agora o Prometido do Pai, o Dedo da Destra de Deus, o Espírito Santo.
A antífona do Magnificat na Ascensão, em ambas as Formas do Rito Romano, reza:

Texto oficial:
O rex glóriæ, Dómine virtútum, 
qui triumphátor hódie super omnes cælos ascendísti, 
ne derelínquas nos órphanos; 
sed mitte promíssum Patris in nos, Spíritum veritátis, allelúia.
Versão da CNBB:
Jesus, ó Rei da glória, Senhor do universo,
que, hoje glorioso, subistes para os céus:
Mandai-nos vosso Espírito Prometido pelo Pai
e não nos deixeis órfãos. Aleluia.
Tradução livre:
Ó rei da glória, Senhor das virtudes,
que hoje triunfante ascendeis sobre todos os céus,
não nos deixeis órfãos,
mas enviai-nos o prometido do Pai, o Espírito da verdade, aleluia.

De hoje até o dia 18, os que já fomos confirmados, entreguemo-nos confiantes à oração, pedindo que o Espírito Santo opere em nós o necessário para vivermos fielmente a vida de cristãos. A ele, que vive e reina com o Pai e o Filho, honra e glória para sempre. Amém. Os que ainda não receberam o Dom de Deus no Sacramento da Confirmação, animem-se a procurá-lo em suas paróquias ou, se já percorrem a preparação para este Sacramento, supliquem ao Paráclito para que encontre em si uma habitação bem preparada.
Em uma postagem nossa para a Novena de 2009, traduzimos duas orações de 1912, dos Padres do Espírito Santo. Recomendamos também a leitura das demais postagens relacionadas a Pentecostes.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Os bastidores da reforma através dos escritos do Cardeal Antonelli

Pax et bonum!

Já era vontade nossa retomar a série de postagens com traduções de documentos e textos do tempo das primeiras aplicações da reforma litúrgica iniciada logo após a Sacrosanctum Concilium.
Nossa última publicação foi da Audiência de Paulo VI de 17/03/1965, no dia 08 de janeiro deste ano. Há vários textos interessantes para serem postados, mas o tempo às vezes é exíguo para o trabalho da tradução.
Pois bem, estivemos em contato com a 30Giorni, uma publicação mensal internacional, antes sob a direção do sr. Giulio Andreotti, ex-primeiro ministro italiano recém falecido (requiescat in pace), para pedir permissão para tradução e publicação de um artigo de 1998 com vários trechos dos escritos do Cardeal Antonelli.
Este Cardeal, Ferdinando Giuseppe Antonelli, nascido em 1896, frade menor desde 1909, sacerdote desde 1922, ordenado bispo em 1966, criado cardeal em 1973 e falecido em 1993, foi membro da comissão de reforma litúrgica de Pio XII, foi secretário da Comissão Conciliar de Liturgia, assumiu o secretariado da Congregação dos Ritos em 1965 e foi membro do Consilium para aplicação da reforma. Portanto, conheceu de perto e, diríamos, de dentro, o grupo de pessoas responsáveis pelo conjunto ritual que hoje temos como Forma Ordinária do Rito Romano.
As anotações do purpurado nos oferecem uma visão não-romântica. Diria que nos mostram o lado fraco, bastante imperfeito e definitivamente não-atraente da reforma que nos legou a atual forma ordinária do Rito Romano. Esta realidade nos interpela...
Por conta do tamanho (5 páginas), o texto está disponível somente aqui, no Gloria.TV. A leitura é bastante recomendada.

As anotações do cardeal encontram-se compiladas na obra de Fr. Nicola Giampietro, "Il Card. Ferdinando Antonelli e gli sviluppi della riforma liturgica dal 1948 al 1970" (O Cardeal Ferdinando Antonelli e os desenvolvimentos da reforma litúrgica de 1948 a 1970), já traduzida para o espanhol e para o inglês.
O artigo original da 30Giorni é de Gianni Cardinale e encontra-se, em italiano, aqui.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Páscoa de 2013 no Calendário Juliano

Pax et bonum!

"Cristos aneste" ou "Christos Anesti" = "Cristo ressuscitou", em grego

Aleluia! Cristo ressuscitou! Nós, católicos romanos, seguidores do calendário gregoriano (da reforma do calendário no séc. XVI), rezamos, cantamos e nos felicitamos pelo início do Santo Tempo Pascal há seis semanas. Pois bem, neste último domingo, para nós o VI da Páscoa, ou V após a Oitava da Páscoa, celebrou-se o Domingo de Páscoa de acordo com o calendário juliano. Em certos anos, acontece de coincidirem a Páscoa dos dois calendários e, portanto, de toda a cristandade, como foi em 2010 e 2011 e será em 2014 (isto pode ser verificado neste site).
Os cristãos da Igreja ortodoxa, que mantêm o calendário juliano (já em vigor no tempo do Concílio de Niceia, em 325), neste dia 05 de maio (22 de abril no calendário juliano), celebraram solenemente a Grande e Santa Páscoa, dando início ao tempo do Pentekostarion.
Manifestamos nossos votos desejando que vivam na alegria este tempo sacrossanto que, para nós,católicos,  neste ano de 2013, já se aproxima de sua solene e divinamente inflamada conclusão em Pentecostes. A partir de hoje, véspera da Ascensão, após os quarenta dias de aparição do Senhor ressuscitado, entramos na reta final, que conta também com os dias da Novena de Pentecostes, instituída por Leão XIII, no chamado Tempo da Ascensão.
O Patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa Russa, em sua mensagem, disse:
O Senhor na verdade nos salvou através de Sua Ressurreição. Para entendermos o que passou conosco, com o gênero humano, talvez seja oportuno citar este exemplo: imaginem que alguém assumiu os crimes de todos os delinquentes e, sendo inocente, sofreu uma terrível punição. E mercê dessa punição todos os criminosos recobraram a liberdade. Jesus fez algo semelhante. Mas apenas com uma condição. Ele não abriu de par em par as portas dos cárceres diante de todos nós, os que pecamos ante Deus. Ele só tirou as fechaduras. Quanto ao abrir a porta para sair à liberdade ou seguir permanecendo na prisão, é questão de nossa livre escolha.
Seguem abaixo algumas imagens da Páscoa "juliana" deste ano (em Moscou, Rússia; Istambul, Turquia; Jerusalém):









Fiéis no Santo Sepulcro
Digne-se o bom Deus levar à plenitude a unidade de sua Igreja, para que todos sejam um, sendo um só rebanho, à guia de um só pastor.

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 7 de maio de 2013

A Cristandade a caminho na 31ª Peregrinação de Chartres

Pax et bonum!

Recordando uma postagem anterior, em que, no seu testemunho, um sacerdote falava sobre a Peregrinação de Chartres, na França, compreendi que seria interessante falar um pouco da mesma, bem como fazer a publicidade da Peregrinação deste ano, que se trata da 31ª.
A Peregrinação de Pentecostes de Notre-Dame de Paris a Notre-Dame de Chartres, talvez pouco conhecida no Brasil, é uma peregrinação católica de três dias, organizada pela Association Notre-Dame de Chrétienté (= Associação Nossa Senhora da Cristandade) que acontece anualmente em torno da Solenidade de Pentecostes. Como diz a apresentação do site da Associação, são três diz para se viver e construir a cristandade do terceiro milênio.
Notre-Dame (= Nossa Senhora) de Paris é a famosa Catedral gótica parisiense, cuja construção foi iniciada no séc. XII. Notre-Dame de Chartres é também uma catedral gótica, cuja construção igualmente foi iniciada no séc. XII. Ambas, como os nomes dizem, têm a Virgem Maria como titular.
Esta fervorosa caminhada de três dias percorre cerca de 100 quilômetros e conta normalmente com 8 a 10 mil peregrinos. Estes são organizados em grupos de 20 a 60 pessoas, chamados de "capítulos". A caminhada passa pelas ruas de Paris e depois segue pelas estradas rurais, que podem ter pedra, lama, etc. 
Cada capítulo é acompanhado por pelo menos um capelão, que ouve as confissões e dá direção espiritual a cada peregrino.
A Peregrinação, que está na sua 31ª edição, utiliza a Forma Extraordinária do Rito Romano em suas celebrações. Esta é fomentada por estar impregnada de séculos de história. A língua latina, como recomendada pela Igreja, é bastante conveniente para este momento, que já chegou a reunir peregrinos de 21 países diferentes. Ela se apresenta assim, na oração, no canto, como eficaz sinal de unidade.
Neste ano, os peregrinos se encontrarão diante da Catedral parisiense às 6 da manhã do dia 18. O tema desta edição é: Education - Chemin de Sainteté (= Educação - Caminho de Santidade).
Esta enérgica, viva e fervorosa manifestação da fé e da tradição católicas têm como contexto uma Europa que, em meios a sinais duradouros de suas raízes cristãs, apresenta sinais de um laicismo exacerbado e de um ateísmo prático. Que este exemplo fortifique as peregrinações católicas em nossa pátria e anime em nós aquela alegria de guardarmos a fé católica frente ao mundo que lhe é hostil.
Seguem algumas fotos da peregrinação do ano passado (2012):




















Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A terceira homilia do Pe. Anthony Brankin sobre o Summorum Pontificum


Pax et bonum!

Iniciamos as postagens deste terceiro bimestre com mais uma homilia do pároco estadunidense que tão bem se preocupou em explicar aos seus paroquianos o significado, a importância e as consequências da Carta Apostólica sob a forma de motu proprio Summorum Pontificum, do Papa Bento XVI, que caminha rumo a um sexênio de sua publicação.
Esperamos que seja de bom proveito para nossos leitores.
[Os grifos são nossos.]

***
Homilia sobre a Missa Latina - 3
Por Pe. Anthony Brankin,
Pároco da Paróquia Saint Odilo, Berwyn, Illinois,
da Arquidiocese de Chicago, Estados Unidos da América.
Traduzido por Luís Augusto Rodrigues Domingues.

Vocês me perdoarão por continuar o que basicamente se tornou uma pequena sequência [de homilias] sobre as recentes regras do Papa quanto a qualquer grupo ou padre poder, agora, celebrar a Missa Latina antiga - que ele chama de Missa do Papa João XXIII, mas eu devo continuar falando sobre isso. Penso nisso como algo gigante - porque isso tem algo incrivelmente importante a fazer com nossa vida de oração como católicos - e com a mais importante e poderosa oração que podemos fazer: a Missa.
Não há um só de nós que tenha vivido nos anos 60 que teria alguma vez predito que a Missa, tal como a conhecemos em nossa juventude, retornaria. Todos nós pensávamos que ela estava morta.
O mundo inteiro pensava que ela estava morta. Até o Papa, quando era Cardeal, disse que achou incrível como a forma mais antiga de celebrar a Missa era atualmente tão desprezada por algumas pessoas, e o Cardeal perguntava-se: como isso poderia ter acontecido - que a coisa que considerávamos nossa mais sagrada oração, a liturgia que nos definiu, fosse agora fora-da-lei e que se você gostasse da Missa antiga você era de certa forma desobediente e desleal à Igreja de Cristo?
E é verdade que o Papa enfrentou por meses os bispos americanos e franceses que eram absolutamente contra dar liberdade aos católicos de irem para esta missa.
Todos pensavam: como os bispos finalmente responderiam ao que o Papa estava planejando?
Bem, eu acho que este Documento é a resposta do Papa aos bispos, às suas falhas por mais de 40 anos em transmitir a fé, em manter a cultura católica da vida e da família, em fomentar as vocações e a devoção à Missa. O Papa [como que] disse mais ou menos: "Vocês tiveram 40 anos para fazer tudo funcionar - bem, aqui está minha resposta a vocês".
E eu tenho certeza de que o Papa está confiante de que muitas coisas boas virão a partir da Missa antiga sendo celebrada mais livre e abertamente. Muitas graças entrarão em nossas vidas e na vida da Igreja.
Primeiramente, haverá uma boa influência sobre a forma com que nós, padres, e o povo celebramos a nova Missa - a Missa de Paulo VI. Pela celebração ocasional da Missa antiga nós entenderemos mais claramente que há algo de especial com todas as missas, que elas não são [apenas] um culto que consiste de canções, homilias e orações unidos numa ordem.
Aprenderemos muito sutilmente que a Missa não tem a ver com o sermão - embora tenha que ser bom; não tem a ver com a música - embora também tenha que ser boa. Quando vez ou outra celebrarmos a antiga Missa em latim com todos voltados para a mesma direção, com uma centena a mais de genuflexões, sinais da cruz, bênçãos e beijos no altar, nós aprenderemos que a Missa é um ato objetivo de adoração, [que está] além do padre, além do povo, uma cerimônia estabelecida na qual o Filho de Deus desce sobre nossos altares e traz presente - de 2000 anos atrás - seu próprio Sacrifício.
Agora eu posso imaginar que há um monte de pessoas que pode dizer: "Missa em latim? Você só pode estar brincando! Ninguém mais sabe latim. Talvez ninguém nem o soubesse antigamente. Por que alguém iria querer fazer uma celebração numa língua que não entende? Nela não se pode ter a menor ideia do que está acontecendo".
Bem, é uma boa questão, exceto por falhar em saber que nós entendemos muitas coisas em nosso mundo sem que se envolva a nossa língua falada. Precisamos de um informativo para entendermos a Quinta Sinfonia de Beethoven? Um concerto de piano [com as composições] de Chopin seria melhor se houvesse palavras?
Por quê a Capela Sistina não tem aqueles balões dos quadrinhos sobre as cabeças dos santos para nos dizer o que se passa? Porque nós não precisamos sempre da nossa língua para entender alguma coisa. Nós precisamos de luz e escuro, som e silêncio, movimento e repouso. Não precisamos de uma tradução linha por linha da Missa. Tudo que precisamos saber é que de alguma forma Cristo se deu a nós como nosso Sacrifício e que se deu a nós como nosso Alimento. São os gestos e movimentos, os sons e visões que no-lo dizem - e talvez mais seguramente que as próprias palavras.
Latim, inglês, espanhol, boêmio - isso não faz uma diferença -, as palavras agem como um veículo para o real movimento [que acontece] na Missa, que é o nosso coração sendo transportado - em certo sentido - sem palavras, através do coração do padre até o próprio coração de Deus. Coração fala ao coração.
E a prova de que a Missa é mais profunda que as palavras é que aquela forma de celebrar a Missa nutriu uma sociedade católica inteira por séculos e séculos. Meus pais iam àquela Missa - bem como meus avós e bisavós - e assim foi por milênios. Meu povo falava irlandês e italiano antes de falar inglês. E a última vez em que alguém da minha família falou latim foi lá por volta da queda do Império Romano: mas eles não tiveram problema em entender tão profundamente o que se passava na Missa. Tinha a ver com Jesus e eles.
Eu não tenho dúvidas de que minha vocação urgiu enquanto eu servia naquela Missa em Santa Rita. E eu não sabia latim nem um pouco melhor que a criança da 5ª série perto de mim, mas eu amava a Missa e queria ser padre.
Nós sabemos que as vocações de milhões de jovens ao sacerdócio, e de mulheres para a vida consagrada, foram nutridas nesta Missa - não obstante o fato de eles realmente não saberem latim.
Numa última análise, ninguém precisa ouvir ou entender o significado literal de toda palavra ou de qualquer palavra. Basta saber que de alguma forma Cristo é oferecido de uma maneira incruenta pelo bem de nossas almas. Se vocês souberem isso, sabem tudo sobre o que a Missa é.