quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Sacrossanto Concílio Ecumênico de Trento - documentação completa em português

Pax et bonum!

"Sessão do Concílio de Trento", por Matthias Burgleichner, séc. XVI
Foi com espanto e alegria que, há algumas semanas, encontramos a documentação integral do Concílio de Trento (1545-1563) em português! Difícil de encontrar em versão impressa, do antigo site Agnus Dei, que embora não seja mais atualizado, contém muito bom conteúdo.
Pois bem, um colaborador do site traduziu um "compêndio" espanhol do Concílio Tridentino para o português e esta tradução está inteiramente disponível no site. Não sabemos há quanto tempo esta tradução está disponível e nos admiramos de como não a tínhamos conhecido antes.
Trata-se de uma riquíssima fonte de doutrina, que também pode ajudar na pesquisa histórica. Na vida acadêmica muito se ouve falar deste Concílio, mas poucos conhecem o teor de seus documentos.
Recordamos que o Concílio Ecumênico de Trento é dogmático, infalível e vinculante, razão pela qual é considerado um dos mais importantes dos 21 concílios ecumênicos da Igreja.
Segue abaixo o mesmo índice que está disponível aqui. Os links todos remetem ao site Agnus Dei.

Parabenizamos e agradecemos ao tradutor e ao site por tão precioso trabalho para os lusófonos.

Obs: uma versão portuguesa bilíngue (latim - português), do séc. XVIII, está disponibilizada no site da Biblioteca Nacional de Portugal.


INTRODUÇÃO
1º PERÍODO: 1545 - 1547
2º PERÍODO: 1551 - 1552
3º PERÍODO: 1562 - 1563
APÊNDICES

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O nome de São José é incluído nas Orações Eucarísticas II, III e IV (Decreto na íntegra)

Pax et bonum!

Não sabemos dizer em que dia o decreto foi disponibilizado no site da Santa Sé, mas é fato, como noticiado por alguns sites desde ontem (ex: New Liturgical Movement) que a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou um decreto, datado de 01/05, pelo qual o nome do Patrono da Igreja Universal, o justíssimo São José, esposo da Sempre Virgem Maria, é acrescentado às três Orações Eucarísticas universais da Forma Ordinária do Rito Romano. Assim, as Orações Eucarísticas da reforma pós-conciliar seguem a mesma inclusão que o Beato João XXIII fez ao Cânon Romano (Oração Eucarística I) antes do Concílio Vaticano II.
Segue o texto integral disponível no site da Santa Sé.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO
E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS
DECRETO
com o qual se acrescenta o nome de São José
nas Orações Eucarísticas II, III e IV do Missal Romano

Pelo seu lugar singular na economia da salvação como pai de Jesus, São José de Nazaré, colocado à frente da Família do Senhor, contribuiu generosamente à missão recebida na graça e, aderindo plenamente ao início dos mistérios da salvação humana, tornou-se modelo exemplar de generosa humildade, que os cristãos têm em grande estima, testemunhando aquela virtude comum, humana e simples, sempre necessária para que os homens sejam bons e fiéis seguidores de Cristo. Deste modo, este Justo, que amorosamente cuidou da Mãe de Deus e se dedicou com alegre empenho na educação de Jesus Cristo, tornou-se guarda dos preciosos tesouros de Deus Pai e foi incansavelmente venerado através dos séculos pelo povo de Deus como protector do corpo místico que é a Igreja.
Na Igreja Católica os fiéis, de modo ininterrupto, manifestarem sempre uma especial devoção a São José honrando solenemente a memória do castíssimo Esposo da Mãe de Deus como Patrono celeste de toda a Igreja; de tal modo que o Beato João XXIII, durante o Concílio Ecuménico Vaticano II, decretou que no antiquíssimo Cânone Romano fosse acrescentado o seu nome. O Sumo Pontífice Bento XVI acolheu e quis aprovar tal iniciativa manifestando-o várias vezes, e que agora o Sumo Pontífice Francisco confirmou, considerando a plena comunhão dos Santos que, tendo sido peregrinos connosco neste mundo, nos conduzem a Cristo e nos unem a Ele.
Considerando o exposto, esta Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, em virtude das faculdades concedidas pelo Sumo Pontífice Francisco, de bom grado decreta que o nome de São José, esposo da Bem-aventurada Virgem Maria, seja, a partir de agora, acrescentado na Oração Eucarística II, III e IV da terceira edição típica do Missal Romano. O mesmo deve ser colocado depois do nome da Bem-aventurada Virgem Maria como se segue: na Oração Eucarística II: "ut cum beata Dei Genetrice Virgine Maria, beato Ioseph, eius Sponso, beatis Apostolis", na Oração Eucarística III: "cum beatissima Virgine, Dei Genetrice, Maria, cum beato Ioseph, eius Sponso, cum beatis Apostolis"; na Oração Eucarística IV: "cum beata Virgine, Dei Genetrice, Maria, cum beato Ioseph, eius Sponso, cum Apostolis".
Para os textos redigidos em língua latina utilizam-se as fórmulas agora apresentadas como típicas. Esta Congregação ocupar-se-á em prover à tradução nas línguas ocidentais mais difundidas; para as outras línguas a tradução deverá ser preparada, segundo as normas do Direito, pelas respectivas Conferências Episcopais e confirmadas pela Sé Apostólica através deste Dicastério.
Nada obste em contrário.
Sede da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, 1 de Maio de 2013, São José Operário.

Antonio Card. Cañizares LloveraPrefeito
 + Arthur RocheArcebispo Secretário



FÓRMULAS QUE CORRESPONDEM AO NOME DE SÃO JOSÉ

Formulae quae ad nomen Sancti Joseph spectant
in Preces eucharisticas II, III et IV Missalis Romani inserendae,
linguis anglica, hispanica, italica, lusitana, gallica, germanica et polonica exaratae
Probatum
Ex aedibus Congregationis de Cultu Divino et Disciplina Sacramentorum, die 1 mensis Maii 2013.
+ Arturus Roche
Archiepiscopus a Secretis

Anglice
In Eucharistic Prayer II:
"that with the Blessed Virgin Mary, Mother of God, with blessed Joseph, her Spouse, with the blessed Apostles...";
In Eucharistic Prayer III:
"with the most Blessed Virgin Mary, Mother of God,
 with blessed Joseph, her Spouse, with your blessed Apostles and glorious Martyrs...";
In Eucharistic Prayer IV:
"with the Blessed Virgin Mary, Mother of God,
 with blessed Joseph, her Spouse, and with your Apostles...".

Hispanice
En la Plegaria eucarística II:
«con María, la Virgen Madre de Dios, su esposo san Josélos apóstoles y...»;
En la Plegaria eucarística III:
«con María, la Virgen Madre de Dios, su esposo san Josélos apóstoles y los mártires...»;
En la Plegaria eucarística IV:
«con María, la Virgen Madre de Dios, con su esposo san Josécon los apóstoles y los santos...».

Italice
Nella Preghiera eucaristica II:
«insieme con la beata Maria, Vergine e Madre di Dio, con san Giuseppe, suo sposocon gli apostoli...»;
Nella Preghiera eucaristica III:
«con la beata Maria, Vergine e Madre di Dio, con san Giuseppe, suo sposocon i tuoi santi apostoli....»;
Nella Preghiera eucaristica IV:
«con la beata Maria, Vergine e Madre di Dio, con san Giuseppe, suo sposocon gli apostoli...».

Lusitane
Na Oração Eucarística II:
"com a Virgem Maria, Mãe de Deuscom São José, seu esposoos bem-aventurados Apóstolos...";
Na Oração Eucarística III:
"com a Virgem Santa Maria, Mãe de Deuscom São José, seu esposoos bem-aventurados Apóstolos...";
Na Oração Eucarística IV:
"com a bem-aventurada, Virgem Maria, Mãe de Deuscom São José, seu esposoos Apóstolos...".

Gallice
Dans la Prière eucharistique II:
« avec la Vierge Marie, la bienheureuse Mère de Dieu, avec saint Joseph, son épouxles Apôtres ... »;
Dans la Prière eucharistique III:« auprès de la Verge Marie, la bienheureuse Mère de Dieu, avec saint Joseph, son épouxles Apôtres ... »;
Dans la Prière eucharistique IV:
« auprès de la Vierge Marie, la bienheureuse Mère de Dieu, auprès de saint Joseph, son épouxdes Apôtres ... ».

Germanice
Eucharistisches Hochgebet II:
"mit der seligen Jungfrau und Gottesmutter Mariadem seligen Joseph, ihrem Bräutigam,mit deinen Aposteln...";
Eucharistisches Hochgebet III:
"mit der allerseligsten Jungfrau und Gottesmutter Mariamit dem seligen Joseph, ihrem Bräutigammit deinen heiligen Aposteln...";
Eucharistisches Hochgebet IV:
"mit der seligen Jungfrau und Gottesmutter Mariamit dem seligen Joseph, ihrem Bräutigammit deinen Aposteln...".

Polonice
II Modlitwa eucharystyczna:
«z Najświętszą Bogurodzicą Dziewicą Maryjąze świętym Józefem, Jej Oblubieńcemze świętymi Apostołami...»;
III Modlitwa eucharystyczna:
«z Najświętszą Dziewicą, Bogurodzicą Maryjąze świętym Józefem, Jej Oblubieńcemze świętymi Apostołami...»;

IV Modlitwa eucharystyczna:
«z Najświętszą Dziewicą, Bogurodzicą Maryjąze świętym Józefem, Jej Oblubieńcemz Apostołami...».

domingo, 16 de junho de 2013

Formação doutrinal e Comunhão sob as duas espécies

Pax et bonum!

Prosseguindo nossas postagens sobre a Comunhão sob as duas espécies, resolvi não traduzir logo a terceira parte (Especulação teológica) do artigo da Catholic Encyclopedia, já que queremos nos voltar mais para questões práticas.
Recentemente encontrei um texto do Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. Ele relembra alguns pontos da Instrução Redemptionis Sacramentum e toca na necessidade de formação doutrinal, cuidado e organização.
Segue a nossa tradução:
***

DEPARTAMENTO DAS CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS DO SUMO PONTÍFICE
Formação doutrinal e Comunhão sob as duas espécies

Na forma ordinária da Missa, a distribuição da Sagrada Comunhão sob as duas espécies é uma opção cujo uso tornou-se uma ocorrência diária em vários países, mas não em todo lugar, mesmo na Europa.
A Instrução Redemptionis Sacramentum, promulgada em 2004, explica o contexto desta prática: "Para que, no banquete eucarístico, a plenitude do sinal apareça ante os fiéis com maior clareza, são admitidos à Comunhão sob as duas espécies também os fiéis leigos, nos casos indicados nos livros litúrgicos, com a devida catequese prévia e no mesmo momento, sobre os princípios dogmáticos que nesta matéria estabeleceu o Concílio Ecumênico Tridentino" (n. 100).
Esta louvável intenção frequentemente encontra a mencionada pedra de tropeço catequética. Sem dúvida, a Sagrada Comunhão sob as duas espécies ilustra a intenção de Cristo de comermos seu Corpo e bebermos seu Sangue. Todavia, este desejo da Sagrada Comunhão nas duas espécies não tem sido necessariamente acompanhado pela fidelidade às normas dos livros litúrgicos e pela formação de apoio para proteger contra os abusos Eucarísticos e equívocos doutrinais.
Enquanto muitos têm assimilado que a Eucaristia é a “fonte e o ápice” da vida cristã, a transmissão dos princípios dogmáticos do Concílio de Trento têm sido vista como algo atrasado. A Instrução deixou claro que, intrínseca à “plenitude do sinal”, está a consistência com os livros litúrgicos e com os ensinamentos de Trento.
A Redemptionis Sacramentum trata das ambiguidades da prática Eucarística e “intenciona conduzir a esta conformação de nossos sentimentos com os sentimentos de Cristo, expressados nas palavras e ritos da Liturgia” (n. 5). Não poucas vezes revela-se uma falta essencial de consciência eucarística quando, por falta de formação, ministros extraordinários escalados fazem referência a “distribuir o vinho”. Esta própria terminologia sugere que, como parte de sua formação adequada, o princípio dogmático de Trento não foi absorvido. Alguns podem ter ouvido sobre “substância” e “acidentes” dentro do contexto da educação religiosa de ontem, mas podem ter sido estimulados a achar que a Igreja, de algum forma, mudou.
Para as gerações modernas, o Concílio de Trento pode não ter sido mencionado em sua formação doutrinal, ele que enfatiza que “nada é perdido do Corpo sendo recebido sem o Sangue pelas pessoas: porque o sacerdote tanto oferece como recebe o Sangue em nome de todos, e o Cristo inteiro está presente sob ambas as espécies” (Suma Teológica, III, q. 80, a. 12, ad 3). Assim, sob as espécies de pão também está presente, por concomitância, o precioso Sangue.
O propósito, então, de receber a Sagrada Comunhão sob as duas espécies, não é de que os fiéis recebam mais graças do que quando recebem sob uma espécie apenas, mas que os fiéis sejam capazes de apreciar vividamente o valor do sinal. Tristemente, esta distinção nem sempre foi feita com clareza e algumas pessoas, quando não é dada a Sagrada Comunhão sob as duas espécies, expressam um senso de desorientação, e até de direito frustrado, ou um sentimento de que, em alguma medida, falte algo à Sagrada Comunhão sob uma espécie apenas.
Conferências episcopais e bispos diocesanos, em particular, são a chave para garantir localmente que a Sagrada Comunhão seja distribuída com reverência e evitando os equívocos. A Redemptionis Sacramentum deixa claro que o mínimo perigo de profanação das sagradas espécies deve ser evitado (n. 101). Ela também expressa preocupação quanto ao “agravo do tão grande mistério” (n. 106). Enquanto a “profanação” e o “agravo de tão grande mistério” sugerem diferentes níveis de abuso Eucarístico, ambos os níveis são expressamente mencionados de modo que sejam evitados.
Todo cuidado deveria ser tomado para evitar a administração do cálice onde as circunstâncias sugerem ambiguidade de recepção ou uma estrutura local onde a segurança do conteúdo do cálice possa não ser garantida. A Redemptionis Sacramentum estabelece que onde houver dificuldade de calcular a quantidade de vinho necessária para uma celebração particular, devido ao grande número de fiéis da assembleia, o cálice não seja ministrado (n. 102).
Métodos alternativos poderiam ser igualmente difíceis de utilizar, tais como o uso de uma colher ou canudo [N.T.: ambos feitos nobremente de metal sólido], onde essas opções não são o costume local. Para a Sagrada Comunhão por intinção, “não se permita ao comungante molhar por si mesmo a hóstia no cálice, nem receber na mão a hóstia molhada” (n. 104).
Futuras traduções da terceira edição do Missal Romano marcam “um momento de graça especial”, como a Conferência Episcopal da Inglaterra e Wales escreveu em sua carta pastoral conjunta de maio de 2011. Espera-se que uma catequese aprofundada sobre a Missa revisite a mentalidade e a maneira com que a Sagrada Comunhão é recebida.
Parece restritivo sugerir que a Sagrada Comunhão recebida com fervor sob uma espécie apenas é mais frutuosa que uma Comunhão tíbia recebida sob as duas espécies, quando objetivos concretos relativos à formação doutrinal, ao cuidado e reverência na celebração litúrgica e previsão organizacional poderiam fazer muito para reconhecer e enfrentar os desafios que surgirem.
O salmista declara o imperativo desta catequese aprofundada: “O que nós ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos aos filhos deles, nós o contaremos à geração futura” (Sl 78,4).
Santo Ambrósio divulga o que as pessoas de fé ganham deste conhecimento: “Pois todas as vezes que comemos deste Pão e bebemos deste cálice, proclamamos a morte do Senhor. Se proclamamos a morte do Senhor, proclamamos o perdão dos pecados. Se, todas as vezes que seu Sangue é derramado, ele o é para a remissão dos pecados, eu deveria sempre recebê-lo, de modo que ele sempre possa perdoar meus pecados. Dado que eu sempre peco, eu sempre deveria ter um remédio” (Santo Ambrósio, De sacr. 4, 6, 28: PL 16, 464).


Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Dúvidas sobre o Rito de Ordenação Presbiteral

Pax et bonum!

Um frade menor conhecido meu, atualmente morando na Itália, apresentou-me duas perguntas sobre o Rito de Ordenação Presbiteral, dizendo-me que elas foram feitas por seu Provincial, após ter participado de uma Missa Ritual de Ordenação aqui no Brasil. Como estas podem ser dúvidas de mais pessoas, resolvi responder numa postagem.
Pois bem, as dúvidas são:

1. Por que os presbíteros, depois da imposição das mãos, continuam com as mãos "levantadas", uma vez que a ação de transferir o Espírito Santo é unica e exclusiva do Bispo?

2. O Rito de Ordenação prevê que o Bispo ordenante amarre as mãos do ordenado? Qual o sentido?

*****
Resposta 1:

Podemos refazer a pergunta em três:
1. Por que os presbíteros impõem as mãos?
2. Por que, depois de impostas, permanecem com as mãos levantadas?
3. Este gesto não pertence somente ao bispo?
Respondemo-las sem distinção abaixo.
Tratando-se de cerimônias, a primeira coisa que devemos fazer é procurar nos rituais. Como se tratou de uma Missa na Forma Ordinária do Rito Romano, dentro da qual ocorreu a Ordenação Presbiteral, segundo o rito reformado, tomemos as rubricas pós-conciliares do ritual deste Sacramento.
Na edição lusitana, como disponível no site do Secretariado Nacional de Liturgia de Portugal, podemos ver (nn. 324-327):

324. O eleito aproxima-se do Bispo, que está de pé, diante da sede, com a mitra, e ajoelha diante dele.
325. O Bispo impõe-lhe as mãos sobre a cabeça, sem dizer nada. 
Depois do Bispo ter imposto as mãos, todos os presbíteros presentes, de estola, impõem as mãos ao eleito, sem dizer nada.
Após a imposição das mãos, os presbíteros ficam junto do Bispo até ao fim da Oração de Ordenação, mas de modo que a acção litúrgica possa ser facilmente vista pelos fiéis.
326. O eleito ajoelha diante do Bispo, e ele depõe a mitra, e de braços abertos diz a Oração de Ordenação (...).
327. Terminada a Oração de Ordenação todos se sentam. O Bispo recebe a mitra. O Ordenado levanta-se. Os presbíteros presentes voltam para os seus lugares. Um deles, porém, impõe ao Ordenado a estola à maneira presbiteral, e reveste-o com a casula.

Nestas rubricas nada se fala sobre o bispo e os demais presbíteros permanecerem com as mãos levantadas. Este texto está fiel ao latino que pode ser conferido aqui (nn. 129-131). Notamos somente que os presbíteros impõem as mãos obrigatoriamente por força das rubricas.
O texto do Cerimonial dos Bispos praticamente usa as mesmas palavras, sem dizer se o bispo e os presbíteros permanecem ou não com a mão estendida.
De onde viria este costume? Pertenceria a algum país em particular? Bem, o prudente é procurarmos nas rubricas do Rito na Forma Extraordinária (mais antiga). 
Leiamos o que manda o Pontificale, logo depois de dizer que o Bispo e os demais sacerdotes impõem as mãos sobre os ordenandos:

Quo facto, tam Pontifex, quam Sacerdotes, tenent manus dexteras extensas super illos. Et Pontifex stans cum mitra, dicit (...).

Eis aqui a razão! A rubrica, no rito mais antigo, manda que tanto o bispo quanto os demais sacerdotes mantenham a mão direita estendida/levantada sobre o(s) ordenando(s).
No Rito reformado nada consta a respeito. Faz-se, portanto, ou por costume originado nas rubricas do antigo, mantido por bispos e padres mais idosos e que o ensinaram a outros (isto é chamado jocosamente de "cacoete litúrgico" por liturgistas que tendem a desprezar as formas mais antigas), ou por novos bispos e padres que querem enriquecer a cerimônia do rito reformado com detalhes do rito mais antigo, sabendo que foi o uso por séculos na Igreja.
Permanecerem com a mão estendida, digamos, tem o mesmo valor de as imporem inicialmente. Sobre o significado, leiamos o que diz uma edição em inglês do Rituale Romanum, de 1964 (tradução livre minha):

{Quando se termina a Ladainha, os candidatos levantam-se e vão ajoelhar-se diante do bispo de dois em dois. O bispo impõe suas mãos sobre a cabeça de cada candidato, sem nada dizer. Esta ação tão simples, embora impressionante, é chamada de matéria essencial do sacramento. Ela significa que o poder do sacerdócio é conferido pelo bispo que impõe as mãos sobre o candidato, transmitindo-lhe o poder que o próprio bispo recebeu de Cristo através dos apóstolos e de seus sucessores.}
Depois de o bispo impor as mãos sobre eles, eles voltam para seus lugares e ajoelham-se. Quando todos estão em seus lugares, o bispo mantém sua mão direita erguida sobre eles. Em seguida os presbíteros que estão presentes aproximam-se e impõem as mãos sobre a cabeça de cada candidato. Então, formando um semicírculo começando do Lado do Evangelho, eles permanecem de pé atrás dos candidatos e mantêm a mão direita estendida sobre eles, da mesma forma como o bispo está fazendo.
O ato de os presbíteros tomarem parte na cerimônia de imposição de mãos é, talvez, um resquício de um tempo em que mais de um bispo participava da ordenação de presbíteros, e cada bispo presente impunha as mãos sobre os ordenandos. A presente cerimônia dos presbíteros de impor as mãos não tem outro propósito a não ser enfatizar o sinal exterior do poder sendo conferido através deste tipo de ação.

A resposta vem também com certa clareza no próprio Ritual de Ordenações reformado, onde se lê: "O ministro da sagrada Ordenação é o Bispo. Convém que a Ordenação do diácono em presbítero seja feita pelo Bispo da diocese. Mas os presbíteros presentes na celebração da Ordenação impõem as mãos sobre os candidatos juntamente com o Bispo 'por causa do espírito comum e semelhante do clero'" (n. 105). "Os presbíteros impõem as mãos aos candidatos juntamente com o Bispo, para significarem a recepção no presbitério" (n. 112).

Resposta 2:

A segunda pergunta já está dividida em duas. Passemos para a resposta.
Se é previsto o gesto de atar ou amarrar as mãos do ordenado, procuremos nas rubricas do Rito (n. 133). O momento em questão seria logo após a unção.

Depois, o Bispo põe o gremial de linho e, após ter sido feita, se parecer oportuno, uma explicação ao povo, unge com o santo crisma as palmas das mãos de cada Ordenado, ajoelhado diante de si (...). 
A seguir o Bispo e os Ordenados lavam as mãos.

Como se vê, este gesto não é previsto no rito reformado. Portanto, já se pode dizer que aí ele não é obrigatório. Na verdade, pode-se dizer que inexiste.
Passemos então para as rubricas mais antigas para procurarmos sua origem:

Tum Pontifex claudit, seu jungit manus cuilibet successive, quas sic consecratas aliquis ministrorum Pontificis albo panniculo lineo simul, videlicet, dexteram super sinistram alligat; et mox unusquisque ad suum redit; et sic clausas, et alligatas manus tenet. (...)  Interea dum Offertorium cantatur, vel etiam prius, ordinati Sacerdotes poterunt lavare manus suas cum medulla panis, et aqua bene mundare, atque extergere mappulis illis, quibus ligatae erant, et aqua ablutionis hujusmodi projiciatur in sacrarium.

Eis aqui a razão! Depois de ungidas e consagradas, as mãos dos ordenados são atadas com um pequeno pano de linho e desta forma voltam para seus lugares. Tocarão a patena e o cálice e somente depois do Evangelho, mais precisamente durante o canto do Offertorium ou um pouco antes, os ordenados poderão desatar as mãos, lavá-las e enxugá-las com esse mesmo pano, que assim já serve como um manustérgio. De fato, alguns textos o chamam de manutergium (ou variações: maniturgium).
Sendo assim, podemos afirmar que na Forma Extraordinária, somente, este gesto é previsto pelas rubricas e, portanto, obrigatório.
Mas qual o sentido?
Após algumas pesquisas podemos dar 3 interpretações:
1. Sentido funcional: como os dedos indicadores e polegares, bem como as palmas, foram ungidos, atar as mãos pode ter a intenção de deixar o óleo impregnar melhor a pele, bem como não permitir que ele pingue no chão ou nas vestes, já que estamos falando do Santo Crisma. Também serve para o momento de lavar as mãos, como já citado acima, estritamente seguindo a rubrica.
2. Sentido alegórico: uma das interpretações que encontrei pela web foi de que este gesto serve para recordar ao ordenado o que nosso Senhor disse a São Pedro, depois de perguntar se o amava e de lhe confiar o cuidado dos cordeiros e ovelhas: "Quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres" (Jo 21,18). Outra interpretação fala do gesto como recordação da expressão de São Paulo: "prisioneiro de Jesus Cristo" (Ef 3,1). Seria um sinal externo, na cerimônia, de que o presbítero está ligado a Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote.
3. Sentido da devoção popular: pessoalmente conhecia este gesto sendo feito da seguinte forma: depois de atado o sacerdote vai até sua mãe, se presente na Missa, para que ela o desate. Alguns o interpretariam como sendo sinal de pertença à Igreja, deixando de pertencer aos pais e aos cuidados meramente humanos. Esta apresentação à mãe parece ser costume antigo (pelo menos de várias décadas) não só no Brasil. Na web encontro a seguinte explicação ligada a esta entrega da fita (chamado também em alguns textos de manutergium), embora aparentemente separada da Missa: "Para sua mãe ele entrega o Maniturgium, que foi usado para limpar suas mãos, consagradas e santificadas quando o bispo as ungiu com o santo crisma na ordenação. O Maniturgium é um simples pedaço de linho branco que representa o sudário de Cristo, que protegeu seu sagrado corpo durante os 3 dias no sepulcro. O Maniturgium é dado à mãe, pois ela foi a primeira protetora do presbítero recém-ordenado, durante seu tempo em seu ventre. O Maniturgium é uma recordação ao povo de Deus de Seu amor e proteção, especialmente pelos sacerdotes. Quando a mãe do presbítero recém-ordenado for chamada por Deus, ela será sepultada segurando o Maniturgium de modo que todos no Céu e na terra saibam que ela é a mãe de um sacerdote. E no último dia, quando ressuscitarmos dos mortos, ela poderá apresentar o Maniturgium a Cristo Senhor e dizer-lhe: 'Meu filho também partilhou do vosso sacerdócio'".
No blog da Arquidiocese de Washington (EUA), um sacerdote chamado Monsenhor Charles Pope escreve: "De acordo com a tradição, a mãe de um padre deve guardar este pano precioso num lugar seguro. Em sua morte, este pano deve ser posto em suas mãos quando seu corpo estiver no caixão. Ele serve para recordar que um de seus filhos é um sacerdote. Ela, de acordo com a tradição, tem isto como uma glória especial, e deverá apresentar este manutergium ao Senhor no seu julgamento. Embora não haja um passe-livre para o Céu, é uma honra especial ter dado à luz um filho que se tornou um sacerdote".
Ainda sobre este mesmo costume e pensamento, lemos noutra página, num texto escrito por um sacerdote  dominicano chamado Louis R. Coronel: "Há também uma prática onde o sacerdote o dá à sua mãe, que continuará a guardá-lo até a sepultura. Assim, caso ela seja barrada de entrar no Céu, ela poderá mostrá-lo como prova de que criou um filho que é sacerdote. 
Este costume pode não ter uma base teológica, mas crê-se que ainda é digno de ser observado por muitas pessoas. Durante meu primeiro ano como sacerdote estive contemplando esta questão: 'Como alguém pode dizer que uma família é afortunada por ter um sacerdote?' Em minha introspecção eu percebi que não há nada a ver com popularidade ou prestígio. Uma família é afortunada por ter um sacerdote porque ela pode prontamente beneficiar-se dos sacramentos de nossa salvação. E os sacramentos são os meios para entrarmos no Céu".

Esperando ter respondido a este meu caro frade, pediria somente a todos que, tendo lido esta postagem, façam uma pequena prece pelas vocações sacerdotais em nossa Pátria. 
Deus nos dê muitos e santos sacerdotes!
***
Abaixo, três fotos de uma bem recente (01/06/2013) ordenação presbiteral (5 novos sacerdotes) da Fraternidade Sacerdotal São Pedro (na Forma Extraordinária do Rito Romano), por D. James D. Conley, na Catedral de Lincoln, Nebraska, EUA.




Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Comunhão sob as duas espécies - Parte II

Pax et bonum!

Embora nossa intenção fosse ter concluído a tradução deste artigo da Catholic Encyclopedia, bem como ter colocado mais material a dispor, referindo-se a este tema, isto não foi possível de se fazer.
Hoje, porém, Solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, trazemos à luz a segunda parte do artigo, tratando sobre as variações disciplinares relativas à Comunhão sob as duas espécies.
Esperamos que seja de bom proveito.

Laudes ac grátiae sint omni moménto.
Sanctíssimo ac diviníssimo Sacraménto.

***

A Comunhão sob as duas espécies

História das variações disciplinares

Do séc. I ao XII

Pode-se afirmar como um fato geral que até o séc. XII, no Ocidente como no Oriente, a Comunhão pública nas igrejas era ordinariamente ministrada e recebida sob as duas espécies. Que assim tenha sido a prática nos tempos apostólicos deduz-se de 1 Cor 11,28 (N.T. ver na postagem anterior), e a referência abreviada à "fração do pão" nos Atos dos Apóstolos (2,46) não prova nada ao contrário. O testemunho tendo o mesmo efeito para as eras pós-apostólica e subsequentes são numerosos o bastante, e o fato por si muito claramente além das disputas, para requerer que a evidência seja citada aqui. Mas lado a lado com o uso litúrgico regular da Comunhão sub utraque, existiu, desde os tempos antigos, o costume de comungar, em certos casos, sob uma espécie somente. Este costume é exemplificado:
(1) na não pouco frequente prática da Comunhão doméstica privada, sendo uma porção da Eucaristia trazida pelos fiéis para suas casas e lá reservada para esta finalidade;
(2) na Comunhão dos enfermos, que era normalmente ministrada sob a espécie de pão somente;
(3) na Comunhão das crianças que, até em algumas igrejas, era normalmente dada sob a espécie de vinho somente, mas às vezes sob a espécie de pão somente;
(4) na Comunhão sob a espécie de pão somente, na Missa dos Pré-santificados, e como prática opcional, em algumas igrejas em ocasiões ordinárias. 
A estes exemplos pode-se acrescentar
(5) a prática da intinctio panis [N.T.: mergulho do pão, ato de molhar o pão], isto é, mergulhar o pão consagrado no Precioso Sangue e sua administração per modum cibi [N.T.: na forma de alimento]. Comentaremos brevemente a história de cada uma destas práticas diferentes.

(1) Durante o séc. III, pelo menos na África, segundo o que aprendemos de Tertuliano e São Cipriano, a prática de parte dos fiéis levar e reservar em suas casas, para a Comunhão privada, uma parte do pão Eucarístico, parece ter sido universal.
Tertuliano refere-se a esta Comunhão doméstica privada como algo comum na vida cristã, e faz dela a base de um argumento dirigido à sua esposa, contra o segundo casamento com um infiel no caso de sua própria morte: "Non sciet maritus quid secreto ante omnem cibum gustes et si sciverit esse panem, non illum credet esse qui dicitur?" [N.T.: Não saberá o marido o que é que saboreias secretamente antes de todo alimento e, se souber que é pão, não acreditará que seja aquilo que se diz ser?] (Ad Uxor. C. v, P.L. I, 1296). Aqui só se pode falar da espécie de pão, e tal é verdade pelas duas histórias contadas por São Cipriano: uma de um homem que, antes da Comunhão, participou de um culto idolátrico, e que retornando do altar e abrindo as mãos, nas quais tinha recebido e levava a Sagrada Espécie, nada encontrou além de cinzas; a outra é de uma mulher que "cum arcam suam, in qua Domini sanctum fuit, manibus indignis tentasset aperire igne inde surgente deterrita est" [N.T.: com sua arca, em que estava aquilo que é santo do Senhor, ao tentar abri-la com mãos indignas, foi impedida por uma chama que dali saía] (De Lapsis, 26). Este costume deve sua origem mais provavelmente aos perigos e incertezas a que os cristãos estavam sujeitos em tempos de perseguição, mas seguindo a autoridade de São Basílio (Ep. xciii, P.G., XXXII, 485) temos que, no séc. IV, quando as perseguições tinham cessado, ele continuou como prática geral na Alexandria e no Egito; e, seguindo a autoridade de São Jerônimo (Ep. xlviii, 15, P.L. XXII, 506), que ele ainda existia em Roma até o fim do mesmo século. É impossível dizer em que período preciso a prática desapareceu.  As várias objeções óbvias contra isso parecem ter levado à sua abolição no Ocidente sem a necessidade de uma legislação formal. O III cânon atribuído ao Concílio de Saragoça (380) e o XIV cânon do Concílio de Toledo (400), excomungando os que não consomem na igreja a Eucaristia recebida do sacerdote (Hefele, Conciliengesch., I, 744; II, 79), eram dirigidos contra os priscilianistas (N.T.: seguidores das doutrinas de Prisciliano de Ávila, bispo espanhol) (que se negavam a consumir qualquer parte da Eucaristia na igreja) e não parecem ter tido intenção de proibir a prática de reservar uma porção do pão Eucarístico para a Comunhão privada em casa. No Oriente, a prática continuou após o seu desaparecimento no Ocidente, e no séc. VIII os fiéis podiam aproveitar-se dela como meio de evitar a associação com os hereges iconoclastas (Pargoire, L'Église byzantine, Paris, 1905, p. 339 sq.). Ela foi ainda adotada pelos anacoretas, como São Basílio (loc. cit.) nos conta, e continuou a ser uma característica da vida anacoreta até cerca do final do séc. IX (ver São Teodoro Estudita (+826), Ep. i, 57, ii, 209, in P.G. XCIX, 1115, 1661).

(2) Que a Comunhão dos enfermos sob a espécie do pão somente tenha sido uso comum na Alexandria pelo séc. III, prova-se pelo relato da Comunhão no leito de morte do velho Serapião, como contado por Eusébio (História Eclesiástica VI.44), na autoridade de Dionísio de Alexandria (+264). Registra-se, de São Basílio, que este recebeu a Sagrada Comunhão várias vezes no dia de sua morte, e somente sob a espécie de pão, como se pode inferir pelas palavras do biógrafo (Vita Basilii, iv, P.G. XXIX, 315). Temos, na autoridade de Paulino, secretário e biógrafo de Santo Ambrósio, que o santo, em seu leito de morte, recebeu de Santo Honorato de Vercelli "Domini corpus, quo accepto, ubi glutivit, emisit spiritum, bonum viaticum secum ferens" [N.T.: o corpo do Senhor, o qual recebido, onde o engoliu, entregou o espírito, levando consigo o bom viático] (Vita Ambr., 47, P.L., XIV, 43). Estes testemunhos são suficientes para estabelecer o fato de que, nos primeiros séculos, a reserva da Eucaristia para os enfermos e moribundos, de que o Concílio de Niceia (325) fala (can. xiii) como "a regra canônica e antiga", é comum sob uma espécie. A reserva da espécie do vinho para uso como viático envolveria tantas dificuldades práticas que, na ausência de clara evidência neste assunto, podemos ter certeza de que nunca foi a prática geral. São Justino mártir conta-nos (Primeira Apologia, 67) que, aos Domingos, depois da celebração do Sacrifício, os elementos Eucarísticos eram recebidos por todos os presentes e levados pelos diáconos aos ausentes. Mas isto só seria possível em comunidades pequenas e compactas e, que isto não tenha sido o costume geral e que não tenha acontecido por muito tempo, pode-se inferir do fato de que não se encontra nenhuma menção subsequente a isto. São Jerônimo (Ep. cxxv, 20, P.L., XXII, 1085) fala de Santo Exupério de Toulouse, "qui corpus Domini canistro vimineo, sanguinem portat in vitro" [N.T.: que leva o corpo do Senhor numa cesta de vime e o sangue num vidro], mas este exemplo de uma prática devocional privada, que também é excepcional em sua forma, não lança nenhuma luz sobre o uso da comunhão para os enfermos. Registra-se na vida de Santa Maria do Egito (21 sq., P.L. LXXIII, 686) que o Abade Zósimo trouxe a Comunhão sob as duas espécies para seu retiro solitário no deserto, e em tempos posteriores há vários exemplos de moribundos comungando sub utraque. Mas tudo leva-nos a supor que tais Comunhões, como regra, foram ministradas junto da Missa, celebrada na casa do enfermo ou numa vizinhança próxima e esta suposição é fortemente confirmada pelo fato bem conhecido de que os enfermos às vezes eram levados para a igreja a fim de receberem tanto a Eucaristia como a Extrema Unção (cf.  Chardon, Hist. Du Sacrem. de l'Eucharistie, c. v, Migne, Theol. Cursus Completus, XX, 282). Deve-se notar, enfim, que ao enfermo que não pudesse consumir a Hóstia era permitido receber somente sob a espécie de vinho (Concílio de Toledo, 675, can. ii, Mansi, XI, 143-4).

(3) Era prática na Igreja Primitiva dar a Santa Eucaristia a crianças mesmo antes de alcançarem o uso da razão. Conclui-se de São Cipriano (De Lapsis, 25) que somente o cálice era oferecido a eles; e Santo Agostinho, em suas referências incidentais à Comunhão das crianças, fala dela sendo ministrada sob as duas espécies (Ep. ccxvii, 5, P.L. XXXIII, 984 sq.) ou sob a espécie de vinho apenas (Opus Imp., II, 30, P.L., XLV, 1154). São Paulino de Nola, falando das crianças neo-batizadas, afirma que o sacerdote "cruda salutiteris imbuit ora cibis" [N.T.: tinge as bocas dos infantes com o alimento que salva] (Ep. xxxii, 5, P.L., LXI, 333), o que é aplicável apenas à espécie de vinho. No Oriente também, pelo menos em algumas igrejas, as crianças, especialmente as que ainda mamavam, comungavam somente sob a espécie de pão (cf. Dom Martene, De Antiq. Eccl. Ritibus, I, xiv, Gasparri, Tract. canon. SS. Eucharista, II, n. 1121). Há exemplos, por outro lado, tanto em igrejas ocidentais quanto orientais, da Comunhão ministrada a crianças somente sob a espécie de pão. Assim o Concílio de Mâcon (586) decretou que os fragmentos de pão consagrado remanescente da Comunhão do domingo fossem consumidos por crianças (innocentes) trazidas à Igreja para este propósito na quarta-feira ou na sexta-feira seguintes (Labbe-Cossart VI, 675); e Evágrio (+594) conta-nos que um costume similar existia em Constantinopla desde tempos antigos (Hist. Eccl., IV, 36, P.G., LXXXVI. 2769).

(4) A Missa dos Pré-santificados, na qual falta a essência do sacrifício como tal, admite somente a Comunhão sob a espécie de pão. O costume de celebrar desta forma foi introduzido no Oriente pelo Concílio de Laodiceia no séc. IV (can. xlix) e confirmado pelo II Concílio de Trullo em 692 (Hefele, op. cit., I, 772). Era a regra para todos os dias de jejum da Quaresma, e os fieis aí estavam habituados a recebê-la (Pargoire, op. cit, p. 341 sq.). Este costume ainda se mantém no Oriente (Gasparri, op. cit., n. 68). No Ocidente, a Missa dos Pré-santificados, celebrada apenas na Sexta-feira Santa, é mencionada no Sacramentário Gelasiano (Gasparri, op. cit., n. 68) e em fontes posteriores, e no início os fiéis costumavam comungar nela. Fora da Classe dos Pré-santificados, permitia-se aos fiéis, às vezes, receber sob a espécie de pão apenas, mesmo na Comunhão pública na igreja. De um incidente registrado por Sozômeno (H.E., VIII, v, P.L., LXVII, 1528 sq.) como tendo ocorrido em Constantinopla, no tempo de São João Crisóstomo, parece seguir-se que a recepção apenas do pão consagrado cumpria os requisitos da disciplina então existente. A questão é que uma esposa não-convertida de um herege macedonista convertido, sendo compelida por seu marido a comungar na Igreja Católica, secretamente substituiu, no momento da recepção, [o Pão consagrado por] um pedaço de pão comum, que seu servo tinha trazido para este fim, mas ela foi impedida em seu desígnio enganoso por um milagre, que petrificou o pão com as marcas de seus dentes nele. No Ocidente, como é esclarecido por São Leão Magno (Serm. xlii, 5, P.L., LIV, 279 sq.), acontecia de os maniqueus, em Roma, em meados do séc. V, às vezes comungarem fraudulentamente na Igreja Católica: "ore indigno corpus Christi accipiunt, sanguinem autem redemptionis nostrae haurire omnino declinant" [N.T.: recebem na boca indigna o corpo de Cristo, mas absolutamente se negam a tomar do sangue de nossa redenção]. Esta sacrilega simulatio da parte dos hereges seria impossível, a menos que fosse costumeiro, naquele tempo, que pelo menos uma parte dos fiéis recebesse apenas sob uma espécie. Que os assim fossem detectados nesta simulatio fossem, por ordem de São Leão, excluídos totalmente da Comunhão, não implica reprovação dos méritos da Comunhão sob uma espécie; e o mesmo vale para o decreto atribuído por Graciano ao Papa Gelásio: "aut integra sacramenta percipiant, aut ab integris arceantur" [N.T.: "ou recebam os sacramentos inteiramente ou sejam afastados de todo"] (De Consec., D. II, c. xii, P.L., CLXXXVII, 1736). Na regra monástica atribuída a São Columbano (+615), prescreve-se que os noviços e os que não foram adequadamente instruídos "ad calicem non accedant" [N.T.: não se aproximem do cálice] (P.L., LXXX, 220). Isto também parece implicar o uso da Comunhão sob uma espécie em alguns casos; e, como um exemplo a mais de divergência nesta diretiva da Comunhão estritamente sub utraque, pode-se mencionar a prática, introduzida por volta deste tempo, de substituir o vinho consagrado, na Comunhão dos fiéis, por vinho comum no qual se punham algumas gotas do vinho consagrado. De acordo com o "Ordo Romanus Primus", que em sua forma presente data do séc. IX, este uso foi seguido na Missa pontifical em Roma (cf. Mabillon, P.L., LXXVIII, 875, 882, 903). Isto também foi adotado em várias outras igrejas (Dom Martène, op. cit., I, ix). Alguns teólogos do período sustentavam, com Amalário de Metz (+837) (De Eccl. off., I, 15, P.L., CV, 1032) que, neste caso, o vinho comum recebia uma certa consagração pela infusão das gotas consagradas; mas a maioria, incluindo São Bernardo (Ep. lxix, 2, P.L., CLXXXII, 181), negava que houvesse qualquer consagração em sentido próprio, ou que a recepção deste cálice fosse, estritamente falando, a recepção do Precioso Sangue.

(5) A prática da intinctio Panis, mencionada acima, que é a última variação disciplinar a ser notada neste período, já tinha sido proibida pelo Concílio de Braga em 675 (Mansi, XI, 155), mas, segundo o "Micrologus" (xix, P.L., CLI, 989 sq.), foi reintroduzida no séc. XI. Foi condenada uma vez mais pelo Concílio de Clermont (1095) sob a presidência de Urbano II, mas com a limitação "nisi per necessitatem et per cautelam" [N.T.: a não ser por necessidade e cautela] (Mansi, XX, 818). A exceção "per cautelam" permite a intinctio quando pode ser necessária como precaução para não derramar o Precioso Sangue, mas a última proibição, de Pascal II (Ep. 535, P.L. CLXIII, 442), faz uma exceção somente para "parvulis ac omnino infirmis qui panem absorbere non possunt" [N.T.: crianças e todos os enfermos que não conseguem engolir o pão]. Não obstante estas proibições, a prática sobreviveu em vários lugares, como sabemos de Robert Pulleyn (+1146; Sent. VIII, iii, P.L., CLXXXVI, 964), que a condena. Esta proibição é renovada por volta de 1175 por um Concílio de Londres ou Westminster (Hefele, op. cit., v, 688). Não há evidência da intinctio no Oriente durante os dez primeiros séculos, mas sua existência no séc. XI é um dos motivos de censura, dados pelo Cardeal Humbert (+1061), contra os Gregos (Adv. Grec. calumnias, 33, B.L., CXLII, 967 sq.). De acordo com Dom Martène (+1739), a prática ainda existia no Oriente em seu próprio tempo (op. cit., I, 13); quanto ao costume de derramar um pouco do Precioso Sangue no pão consagrado, que era secado por calor e reservado durante um ano inteiro para a Comunhão dos enfermos, pode ser considerado como um tipo de intinctio. Este último costume foi proibido por Bento XIV aos ítalo-gregos em 1752, mas o uso, onde este existia entre eles, de receber a Hóstia numa colher com algumas gotas do Precioso Sangue, permitiu-se manter (Gasparri, op. cit., II, 1177).
Está abundantemente claro, deste breve exame sobre as variações disciplinares durante os 12 primeiros séculos, que a Igreja nunca considerou a Comunhão sob as duas espécies como matéria de preceito Divino.

Desde o séc. XII

A supressão final da intinctio foi seguida, no séc. XIII, por uma gradual abolição da Comunhão sob a espécie de vinho para os leigos. O desuso do cálice não era ainda universal nos tempos de São Tomás (+1274): "provide in quibusdam ecclesiis observatur", diz ele, "ut populo sanguis sumendus non detur, sed solum a sacerdote sumatur" [N.T.: Cuida que em todas as igrejas seja observado que ao povo não se dê a consumir o sangue, mas que seja consumido somente pelo sacerdote] (Summa, III, Q. lxxx, a. 12). O Concílio de Lambeth (1281) manda que o vinho seja recebido somente pelo sacerdote, e que vinho não consagrado seja recebido pelos fieis (Mansi, XXIV, 405). É impossível dizer exatamente quando o novo costume tornou-se universal ou quando, por aprovação da Igreja, ele adquiriu força de lei. Mas tal já era o caso ao longo da eclosão das perturbações dos hussitas, como se vê claramente no decreto do Concílio de Constança. O Concílio de Basle concedeu (1433) o uso do cálice aos calixtinos da Boêmia sob algumas condições, sendo a principal o reconhecimento da presença integral de Cristo sob cada espécie. Esta concessão, que nunca foi aprovada por nenhum papa, foi positivamente revogada em 1462 pelo Núncio Fantini sob ordem de Pio II. O Concílio de Trento, ao definir os pontos já mencionados, referiu ao papa a decisão de se conceder, ao urgente pedido do imperador alemão, a autorização do uso do cálice em seus domínios; e em 1564 Pio IV autorizou alguns bispos alemães a que o permitissem em suas dioceses, com o cumprimento de certas condições. Mas, dadas as inconveniências que resultaram, a concessão foi retirada no ano seguinte. Bento XIV afirma (De Missae Sacrif. II, xxii. n. 32) que em seu tempo os reis da França tinham o privilégio de comungar sub utraque em sua coroação e em seu leito de morte. No séc. XVIII o diácono e o subdiácono, servindo na Missa cantada na Igreja de Saint-Denis, em Paris, nos domingos e nas festas solenes, e em Cluny em todas as festas de obrigação, tinham sido permitidos a receber sub utraque (Bento XIV, loc. cit.). O único exemplo sobrevivente deste privilégio é no caso do diácono e subdiácono servindo na Missa Solene do Papa.

Fonte: Toner, Patrick. "Communion under Both Kinds." The Catholic Encyclopedia. Vol. 4. New York: Robert Appleton Company, 1908. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/04175a.htm.

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Missas na Forma Extraordinária durante a JMJ 2013 - Programação

Pax et bonum!

Pedimos perdão por ainda não termos postado mais coisas referentes à Comunhão sob as duas espécies, continuando o artigo da Catholic Encyclopedia, conforme prometido. O tempo tem sido razoavelmente exíguo para traduções e afins, mas virá em breve.
Não podíamos, todavia, deixar de anunciar com pressa e alegria a programação da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Rio de Janeiro-RJ, para os dias em torno da Jornada.
Portanto, todos que forem ao Rio, não deixem de visitar a bela Igreja da Antiga Sé para conhecer ou participar uma vez mais da Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano.
Chamamos atenção para o dia 24/07, às 18h, quando haverá a Santa Missa Pontifical Solene com D. Fernando Rifan. Uma imperdível experiência de oração e de sentido do sagrado!

Clique para ver em maior tamanho
Por Luís Augusto - membro da ARS