sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Apresentação da Declaração sobre as iniciativas litúrgicas arbitrárias

Pax et bonum!

Neste período entre os anos de 1966 e 1967, reconhecidamente marcado por experiências litúrgicas não autorizadas e além dos limites, a Santa Sé, em seus dois órgãos responsáveis pela reforma litúrgica, emite uma Declaração. Um dos personagens principais dos trabalhos da reforma, o ainda Pe. Annibale Bugnini, faz a apresentação da Declaração, esclarecendo ou complementando, de certa forma, as palavras ali colocadas.
Em breve seguirão duas postagens da série:
- A tradução da alocução do papa Paulo VI aos membros do Consilium (abril/1967), na qual ele também falará das iniciativas arbitrárias, da dessacralização e onde também reafirmará sua confiança nos trabalhos oficiais.
- A tradução da segunda instrução de implementação da Constituição Sacrosanctum Concilium, a Instrução Tres abhinc annos (maio/1967), na qual constam mudanças que teoricamente foram experimentadas a partir de 1965. Assim, teremos, de alguma maneira, a segunda forma do Missal após o Concílio.
Nesta apresentação, Pe. Bugnini cita que a obra da reforma inclui também "uma verdadeira nova criação", deixando claro que a Missa e as demais celebrações litúrgicas não seriam apenas simplificadas.

As iniciativas litúrgicas arbitrárias
Conferência de imprensa do Pe. Bugnini

O número de fevereiro de 1967 do Notitiae (órgão do "Consilium" de liturgia) publicou a declaração da Congregação dos Ritos e do "Consilium" de liturgia sobre as iniciativas arbitrárias, seguida da seguinte conferência de imprensa pela qual o Pe. Annibale Bugnini, CM, subsecretário da Congregação dos Ritos e secretário do "Consilium" de liturgia, apresentou a Declaração à imprensa em 04/01/1967.

O pano de fundo da Declaração

1. Primeiramente, três observações fundamentais:

A liturgia está num período de transição

a) A primeira, é que a liturgia está em pleno período de transição. O Concílio aprovou uma Constituição litúrgica que, para ser realizada plenamente, demanda tempo, reflexão e estudo. Uma reforma do culto católico não pode se fazer em um dia, nem em um mês, nem em um ano. Ela não se faz somente dando retoques a uma obra de arte de grande valor, mas às vezes é preciso dar novas estruturas a ritos inteiros. Faz-se, na verdade, uma restauração fundamental, eu diria que quase uma revisão e, para certos pontos, uma verdadeira nova criação.
Por que este trabalho fundamental?
Porque a imagem da liturgia dada pelo Concílio é completamente diferente daquela que era antes, isto é, sobretudo rubricista, formalista, centralizadora. Atualmente, a liturgia exprime-se vigorosamente nos aspectos dogmático, bíblico, pastoral; ela busca ser inteligível na palavra, no símbolo, no gesto, no sinal; ela esforça-se por se adaptar à mentalidade, ao gênio, às aspirações e às exigências de cada pessoa para penetrar na sua intimidade e para aí levar o Cristo. Sobre o plano jurídico, sua sorte está em boa parte entre as mãos das Conferências episcopais, às vezes dos bispos, e até mesmo dos padres celebrantes. Se a liturgia restaurada - que alguns chamam depreciativamente de liturgia "nova" - não atingir este fim, o trabalho de restauração seria falido. Não trabalhamos para os museus, mas queremos uma liturgia viva para os homens vivos de nosso tempo.

Uma liturgia que seja, ao mesmo tempo, fiel à tradição e adaptada ao nosso tempo

b) Segunda consideração: já falei de restauração e de nova criação. É claro que as duas coisas devem harmonizar-se de forma feliz para que o resultado possa ainda ser considerado como a liturgia que a Igreja criou no curso dos séculos na mais pura tradição e, ao mesmo tempo, uma liturgia adaptada ao nosso tempo.
O primeiro elemento é fundamental e indispensável para o segundo: construiremos sobre bases de granito e não de areia movediça, porque no ato do culto, é a sua fé e, de toda forma, ela própria que a Igreja exprimiu.
Mas quais são as partes verdadeiramente autênticas que formam o coração sólido e indestrutível desta majestosa árvore que exprime a fé permanente da Igreja e ao mesmo tempo é capaz de dar ramos novos para alimentar a fé hoje em dia?
Aí reside a arte, o segredo, o delicado e grave trabalho dos 250 experts que trabalham no "Consilium".

A impaciência que quer queimar etapas

c) Ainda uma observação. Não se trata de um trabalho fácil, restaurar a liturgia; no mais, num certo sentido, o tempo trabalha contra nós. Todo o mundo tem em mãos a Constituição sobre a Liturgia: o movimento litúrgico, que depois de meio século trabalha incansavelmente, criou no clero e em numerosos fiéis um interesse e mesmo certa cultura litúrgica. É sem dúvida um mérito. Três anos se passaram, no decorrer dos quais se viu algumas aplicações interessantes mas raras da Constituição.
Daí a tentação em certas regiões e em certos meios de queimar as etapas e de voar com as próprias asas.
Alguns elementos, positivos ou negativos, comuns hoje em dia a todos os meios do mundo moderno, inclusive o mundo eclesiástico, encorajam a ultrapassar aparentes barreiras e um imobilismo muito facilmente deplorável.

As "refeições eucarísticas"

2. Tal é o pano de fundo da Declaração publicada anteriormente. Qual é seu alcance na letra e no espírito? Antes disso, por que uma Declaração à qual os dois organismos encarregados da liturgia na Cúria romana dão tão grande solenidade? Porque os fenômenos e os fatos divulgados de forma espetacular em certas publicações existem um pouco por toda parte ao menos em germes que poderiam amadurecer e se desenvolver. A Declaração, então, é um pouco de sinal vermelho, tanto para o clero como para os fiéis, para indicar às boas intenções e às iniciativas mais audazes que a via não está livre.
Dito isto, devo ainda acrescentar que em tudo que foi publicado há uma certa confusão que precisa de esclarecimentos. Fale-se de "refeições" eucarísticas celebradas em casas privadas. Estamos evidentemente perante um caso limite.
1. Porque, para a celebração eucarística e em geral para os atos do culto, Deus quis e a Igreja reservou um espaço, um lugar, um altar consagrado por um rito solene, para acolher a comunidade cristã, templo vivo de Deus, para oferecer a Deus um sacrifício de louvor. Em casos muito excepcionais e em circunstâncias especiais, pode-se celebrar a Missa em casas privadas, em usinas ao ar livre, etc., mas estes casos não podem ser citados como exemplo.
2. Uma coisa é a eucaristia na qual o Cristo está presente sob as espécies do pão e do vinho, outra coisa é uma refeição familiar, um banquete ou, como diziam os antigos, um ágape. Jamais a eucaristia foi uma refeição ordinária. O Cristo a instituiu no curso de uma refeição pascal. Nos primeiros tempos da Igreja, associou-se às vezes a celebração eucarística ao ágape. Em seguida, deu-se conta dos inconvenientes desta associação e se sentiu a necessidade de distinguir o ágape da celebração eucarística. No séc. III, as dois coisas não se encontravam mais unidas em nenhuma parte do mundo cristão. E a Igreja conservou esta disciplina até atualmente. Querer voltar a uma forma de culto abandonada depois de dezesseis séculos seria um anacronismo que não encontra nenhuma justificativa doutrinal ou pastoral.
E há uma terceira consideração que não pode ser desvalorizada. A celebração eucarística em casas privadas minimizaria e privaria de seu sentido a concepção de Igreja como reunião do povo santo de Deus em toda a sua variedade, multiplicidade e unidade. Reduzir o ato de culto, essencialmente comunitário, a grupos minúsculos, enfraqueceria o senso universal da fé e da caridade para com "todos os homens".

Ritos e ornamentos incomuns

3. A declaração fala "missas com ritos, vestimentas e formulários incomuns e arbitrários".
Ninguém ignora que o cerimonial litúrgico é minuciosamente fixado em leis - as rubricas - que somente a Igreja tem o direito de determinar, e, caso necessário, de alterar. Eis aí o quadro esplêndido em que a Igreja consagrou a joia recebida de Cristo, o quadro que ao mesmo tempo guarda e revela o valor e o mistério desta joia. Rebaixar ao nível humano tudo o que toca o sagrado, quer dizer, que toca o mistério, não aproxima de Deus, mas pode ser que afaste. Eis por que a Igreja não quer que o sagrado seja confundido com o profano, o sobrenatural com o terrestre.

A música sacra

4. Algo que igualmente se diz do canto que é executado nestas celebrações é que se define como "profano e mundano". Creio que o primeiro adjetivo se refira à natureza, o segundo ao modo de execução.
Poder-se-ia dizer muita coisa sobre este assunto que interessa tanto à opinião pública, mas serei breve.
São Pio X, que em primeiro lugar ocupou-se do canto como elemento pastoral, exclui em seu célebre motu proprio "Tra le sollecitudini" (de 1903) os cantos "lascivos" e os instrumentos "ruidosos e ligeiros". É necessário admitir que se fala de dois elementos difíceis de precisar. Para as palavras, reconhece-se facilmente o estilo quando se cede às bizarrices e à moda do tempo.
Mas e quanto à melodia? Cada época tem seus gostos, suas preferências e suas expressões. A música também, como a arte em geral, leva a marca de seu tempo revela a sua época.
E quanto aos instrumentos? São Pio X deu uma indicação: são excluídos do lugar sagrado os instrumentos "ruidosos e ligeiros". É claro que ele teve presente ao espírito a cultura ocidental da Igreja latina. O critério ainda é válido hoje  dia? Em parte, somente. Isto porque a Constituição sobre a Liturgia, no artigo 120, acrescenta depois de ter recomendado os instrumentos tradicionais: "Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis".
É sobre esta base que se deve julgar as novas formas musicais. A Declaração afirma que, no meio de certos casos, não são respeitadas as três condições: elas são profanas, indignas do lugar sagrado; elas são mundanas, isto é, seu modo de execução exige ou ao menos parece exigir movimentos, gestos, atitudes indignas de uma ação sagrada.
Fecha-se assim a porta a todo eventual desenvolvimento da música moderna com percussão nas ações sagradas? Não se pode deduzi-lo do texto da Declaração. Mas não é difícil enxergar que um grande trabalho de sacralização seria necessário antes de que pudesse legitimamente cruzar o limiar do santuário.

As experiências litúrgicas

5. A Declaração fala do motivo do aggiornamento pastoral.
É o motivo que revela, e de certo modo justifica, a intenção correta de todos os que se lançam nas iniciativas litúrgicas pessoais e arbitrárias. Alguém quis favorecer a prática cristã, remediar algum descontentamento, algum distanciamento progressivo - às vezes bem acentuado - da prática religiosa. Mas tanto aqui como em outros lugares, o fim não justifica os meios. E os meios escolhidos têm sido realmente pouco esclarecidos. É em vão repetir que a liturgia é hierárquica, ou seja, que a regulamentação da liturgia não pode ser assunto de todos, pertence à Igreja. Toda tentativa individualista "é contrária ao sentido eclesial da liturgia e prejudica a unidade e a dignidade do povo de Deus". Ademais, surpreende, atrapalha e desorienta os fiéis.
Fala-se às vezes de experiências num sentido completamente errôneo e contrário àquele indicado pelo Concílio.
Raciocina-se da seguinte maneira: os indivíduos e os grupos privados fazem as experiências litúrgicas, a partir das quais a hierarquia escolherá em seguida as que correspondem melhor às exigências do povo.
Todo o mundo vê que o perigo da desordem, da anarquia e das reações contrárias se encontra em germe neste princípio. A Constituição fala duas vezes das experiências, no n. 40 e no n. 44. No n. 40, trata-se de experiências preliminares à adaptação de certos ritos que a autoridade eclesiástica territorial competente (a Conferência Episcopal) permitirá e dirigirá "em alguns grupos que sejam aptos para isso e por um tempo determinado", depois de ter recebido a autorização da Sé Apostólica. No n. 44, trata-se de experiências promovidas pela autoridade eclesiástica competente (a Conferência Episcopal), em vista de adaptação a serem submetidas à Santa Sé, ou seja, as adaptações de que fala o art. 40. Segundo a Constituição, toda "experiência" litúrgica é de domínio da hierarquia (Conferências Episcopais, Santa Sé). Toda outra experiência que não segue esta via é ilegal.
Toda arbitrariedade atenta contra a Constituição, a Liturgia e o sentido da Igreja.

O papel das Conferências Episcopais

6. Enfim, tenho que enfatizar o convite de velar pelo movimento litúrgico e de o promover, que foi dirigido aos Ordinários.
Duas obrigações, por consequência.
A Constituição, com efeito, criou uma nova situação jurídica entre o centro e a periferia, entre, de um lado, a Santa Sé e os organismos de governo e, do outro, os bispos. Estes não são mais, como antes do Concílio, simples executores fiéis dos dispositivos dados pela Santa Sé, mas devem promover a ação litúrgica no sentido querido pela Constituição, ter as iniciativas no quadro de sua competência, organizar as Comissões litúrgicas diocesanas, regionais, nacionais, internacionais, preparar as traduções dos textos litúrgicos, estudar e propor adaptações e experiências, etc. Eles têm um imenso domínio de trabalho e uma grande responsabilidade.
Eles devem aproveitar. Às vezes, os organismos de direção dão prova de um imobilismo ou de uma lentidão que, por consequência, geram as iniciativas pessoais arbitrárias que ameaçam o verdadeiro movimento litúrgico e que são prejudiciais a todos.
Por amor da verdade, devo acrescentar que, até onde sei, as Conferências Episcopais e as Comissões litúrgicas nacionais, às quais em última análise dirige-se o convite, conscientizam-se gradualmente de seus deveres e das imensas possibilidades que lhes são dadas. Na grande maioria dos casos, as Comissões trabalham seriamente em prol da preparação dos textos e da catequese adaptada ao povo.
Avança-se com dificuldade, mas também com muita esperança, e sobretudo com muito amor, para que a liturgia torne-se novamente, como desejou São Pio X, a primeira e indispensável fonte do verdadeiro espírito cristão.


Tradução livre por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Uma nota do Consilium sobre as experiências litúrgicas (1966)

Pax et bonum!

Dando continuidade à nossa série, estamos ainda no final de 1966. Pouco antes da Declaração vaticana ser publicada, vem à luz uma Nota do Consilium sobre as experiências litúrgicas. A causa da nota é a multiplicação de atos que cabem no que chamamos de anarquia litúrgica de 1966, na postagem anterior.
O órgão vaticano, máximo responsável direto pelas mudanças oficiais na liturgia romana, cita o Cardeal Lercaro afirmando que Deus não abençoa tais iniciativas pessoais.

EXPERIÊNCIAS LITÚRGICAS
Nota do "Consilium" de Liturgia

Sob o título de "Experiências litúrgicas", o Notitiae, órgão oficial do Consilium para a aplicação da Constituição sobre a liturgia, publicou em francês o seguinte artigo, sem assinatura, no topo do número de dezembro de 1966 (publicado em Roma no fim de dezembro):

Encarregado de preparar a reforma dos livros litúrgicos, o "Consilium" trabalha duro por quase três anos, com a colaboração dedicada e competente de 200 experts. Munidos de aprovação provisória do "Consilium" e com o consentimento do Soberano Pontífice, alguns ritos restaurados constituem atualmente o objeto de "experiências" em diversos países, sob o controle imediato do bispo do lugar: assim para o batismo de adultos e as exéquias de adultos. Sabe-se também que, após um ano, os lecionários feriais foram autorizados "ad experimentum", atendendo a reformulação completa do lecionário romano. Os rituais da concelebração e da comunhão sob as duas espécies, antes de serem promulgados em 07 de março de 1965, foram submetidos, durante vários meses, a uma fecunda experimentação. Assim procede sabiamente a reforma litúrgica, aprovando, no concreto da vida, os trabalhos dos experts. Porém, é preciso recordar, essa experimentação faz-se na ordem, sobre projetos longamente preparados, cuidadosamente criticados, depois devidamente aprovados para um uso limitado e controlado, com contas a serem prestadas periodicamente à autoridade superior.
Totalmente diferentes são as "experiências" que proliferam aqui ou ali sob a iniciativa privada ou seguindo no rastro dos organismos. Toma-se conhecimento disso no decurso de uma viagem, durante conversas com sacerdotes ou leigos ou ainda lendo revistas. Fica-se aturdido, assustado...
Em 20 de junho de 1965, Sua Eminência, o Cardeal G. Lercaro, presidente do "Consilium", pediu aos presidentes das Conferências Episcopais que "fizessem desaparecer as iniciativas pessoais, prematuras, prejudiciais, que Deus não abençoa e que não podem, por consequência, dar frutos duráveis" (cf. Notitiae, 1 [1965] 259). Vinte meses após este apelo, a situação não mudou: aqui formulários novos, criados do nada, para a Missa e até para o Cânon, circulam por baixo dos panos ou ao ar livre e são usados nas celebrações; ali ignora-se completamente os limites fixados pelo atual direito para o uso da língua vernácula; alhures, os gestos litúrgicos não dependem mais do que do juízo individual do celebrante ou da comunidade reunida.
E começa-se principalmente a querer legitimar tal situação: lá onde a liturgia é viva, diz-se, ela é naturalmente criadora. Esta força criadora não pode ser o monopólio dos organismos de autoridade: ela está também em todo o povo cristão celebrando uma liturgia que está em estado de renascimento, onde se manifesta todo o seu dinamismo. Com certeza, acrescenta-se, é preciso evitar a licença/licenciosidade que conduz à anarquia. Isto é dizer que se deve usar do discernimento dos espíritos para distinguir os verdadeiros carismas das novidades impróprias...
A parcela de verdade que se encontra nesta maneira de ver não pode destruir o aspecto fundamental do culto cristão, que é o ser hierárquico, bem como comunitário. Os documentos oficiais não cessam de recordar, e seria inconveniente querer opor, neste domínio, a Constituição De sacra liturgia a outros documentos conciliares (a Constituição De Ecclesia, o Decreto Christus Dominus, a Constituição Gaudium et spes).
A Constituição conciliar sobre a liturgia fala duas vezes das "adaptações" (n. 40) e dos "estudos e experiências necessários" (n. 44). Aí se repete a cada vez que tudo aquilo deve ser feito na ordem, sob controle imediato da hierarquia, e com a autorização explícita da Santa Sé: “de consenso Apostolicae Sedis”, “ab Apostolica facilitas tribuatur”. Como o recorda Sua Eminência o Cardeal Lercaro, na sua carta citada anteriormente, as experiências “são previstas como algo de limitado aos melhor preparados e escolhidos, e isto por um tempo bem definido e sob a vigilância da autoridade eclesiástica... A ninguém é permitido fazer 'experiência' sem autorização explícita" (loc. cit., 260). Tanto quanto o "Consilium" deseja receber as sugestões construtivas, donde quer que venham, "para que a reforma seja a obra de toda a santa Igreja" (ibidem, 259), ele reprova, deplorando, as iniciativas de pessoas ou de grupos conduzidas de forma arbitrária e que atrapalham profundamente a marcha da restauração litúrgica. A obra empreendida é o preço da paciência e da obediência.


Tradução livre por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Festa do Santíssimo Nome de Maria - 12 de setembro


Nós veneramos o nome de Maria porque ele pertence àquela que é a Mãe de Deus, a mais santa das criaturas, a Rainha do céu e da terra, a Mãe da Misericórdia. O objeto da festa é a Santa Virgem que traz o nome de Mirjam (Maria); a festa comemora todos os privilégios dados a Maria por Deus e todas as graças que temos recebido através de sua intercessão e mediação. Ela foi instituída em 1513 em Cuenca, na Espanha, e estabelecida para o dia 15 de setembro com Ofício próprio, o dia da oitava da Natividade de Maria. Depois da reforma do Breviário por São Pio V, por um Decreto de Sixto V (16 de janeiro de 1587), ela foi transferida para 17 de setembro. Em 1622 foi estendida para a Arquidiocese de Toledo por Gregório XV. Depois de 1625 a Congregação dos Ritos hesitou por um tempo antes de autorizar que se estendesse mais (cf. os sete decretos "Analecta Juris Pontificii", LVIII, decr. 716 sqq.). Mas era celebrada pelos trinitarianos espanhóis em 1640 (Ordo Hispan., 1640). Em 15 de novembro de 1658, a festa foi concedida ao Oratório do Cardeal Berulle sob o título: Solemnitas Gloriosae Virginis, dupl. cum. oct., em 17 de setembro. Trazendo o título original, "SS. Nominis B.M.V.", ela foi concedida a toda a Espanha e ao Reino de Nápoles em 26 de janeiro de 1671. Após o cerco de Viena e a gloriosa vitória de [João III] Sobieski [, rei da Polônia] sobre os Turcos (12 de setembro de 1683), a festa foi estendida para a Igreja universal por Inocêncio XI, e marcada para o Domingo depois da Natividade de Maria por um decreto de 25 de novembro de 1683 (duplex majus); foi concedida à Áustria como duplex II classis em 01 de agosto de 1654. Segundo um Decreto de 08 de julho de 1908, sempre que esta festa não puder ser celebrada no próprio domingo, por conta da ocorrência de alguma festa de maior grau, deve-se mantê-la em 12 de setembro, o dia em que a vitória de Sobieski é comemorada no Martirológio Romano. O Calendário das Irmãs da Adoração Perpétura, O.S.B., na França, do ano de 1827, possui a festa com um Ofício especial em 25 de setembro. A festa do Santíssimo Nome de Maria é a festa patronal dos Cônegos Regulares das Escolas Pios (padres escolápios) e da Sociedade de Maria (Maristas), em ambos os casos com um ofício próprio. In 1666 os Carmelitas Descalços receberam a faculdade de recitar o Ofício do Nome de Maria quatro vezes por ano (duplex). Em Roma uma das igrejas gêmeas no Fórum de Trajano é dedicada ao Nome de Maria. No Calendário Ambrosiano de Milão a festa está marcada para o dia 11 de setembro.

Fonte: Holweck, Frederick. "Feast of the Holy Name of Mary." The Catholic Encyclopedia. Vol. 10. New York: Robert Appleton Company, 1911. Disponível em:
http://www.newadvent.org/cathen/10673b.htm.

Apêndice

No período de reformas pós-conciliares a festa não foi colocada no Calendário Romano Geral em 1969, na publicação do novo Missal Romano. Assim, para os que celebram a Sagrada Liturgia utilizando a Forma Ordinária, a festa "desapareceu" por 33 anos até que a Santa Sé decidiu devolvê-la ao calendário na terceira edição típica do Missal Romano, em 2002. Todavia, nos países em que as traduções dos livros da terceira edição típica ainda não foram publicados, como no caso do Brasil, a memória facultativa não consta no Missal e permanece esquecida ou desconhecida para muitos.
É interessante como a Santíssima Virgem é honrada de forma especial no aniversário de duas batalhas entre cristãos e maometanos, nas quais saímos vencedores: 
07/10 - Nossa Senhora do Rosário - Batalha de Lepanto, 1571
12/09 - Santíssimo Nome de Maria - Batalha de Viena, 1683
Que a Bem-aventurada Sempre Virgem Maria, chamada por Pio XII de "vencedora de todas as grandes batalhas de Deus", abençoe a cristandade e toda a humanidade nestes tempos em que a paz é duramente ameaçada.
A festa/memória de hoje é ocasião de recordarmos que ao nome de Maria, como ao nome de Jesus, durante as celebrações litúrgicas, faz-se inclinação de cabeça (IGMR, III ed. típ., 275). 
Pela inclinação se manifesta a reverência e a honra que se atribuem às próprias pessoas ou aos seus símbolos. Há duas espécies de inclinação, ou seja, de cabeça e de corpo:
a) Faz-se inclinação de cabeça quando se nomeiam juntas as três Pessoas Divinas, ao nome de Jesus, da Virgem Maria e do Santo em cuja honra se celebra a Missa.
É uma prática exterior que deve ser motivada pelo interior reconhecimento da grandeza da Serva do Senhor.

Bendito seja o nome de Maria, virgem e mãe!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Uma declaração vaticana contra a anarquia litúrgica de 1966

Pax et bonum!

Finalmente depois de tanto tempo temos o prazer de prosseguir com nossa série de postagens com traduções referentes ao período da reforma litúrgica imediatamente posterior ao Concílio Vaticano II.
Nossa última postagem da série trouxe a lume várias citações dos escritos do Cardeal Antonelli, escritos que apresentam de maneira surpreendente os bastidores da reforma.
Estamos agora no final do ano de 1966. Lembramos que em 07/03/65 entrou em vigor o Ordo Missae "renovado". Ou seja, há mais de um ano o orbe católico inteiro, digamos, celebra a Santa Missa com um rito não novo, mas simplificado. Todavia, a "tentação das experiências", como falou o Pe. Bugnini, move ainda muita gente para uma verdadeira anarquia litúrgica que tinha raízes há mais tempo.
A Sagrada Congregação dos Ritos e o Consilium, juntos, emitem a seguinte declaração, que viria a ser publicado em italiano no dia 5 de janeiro de 1967, no L'Osservatore Romano:

Declaração da Sagrada Congregação dos Ritos e do “Consilium” de Liturgia
sobre as iniciativas litúrgicas arbitrárias

Há algum tempo, certos jornais e revistas oferecem aos seus leitores novidades e reproduções fotográficas sobre as cerimônias litúrgicas, sobretudo sobre as celebrações eucarísticas alheias ao culto católico e bem dessemelhantes, tais como as “Ceias eucarísticas familiares” celebradas em casas particulares, que consistem numa refeição, missas com ritos, vestimentas e formulários incomuns e arbitrários e às vezes acompanhados de música de um caráter totalmente profano e mundano, indigno de uma ação sagrada. Todas estas manifestações cultuais, resultantes de iniciativas privadas, tendem fatalmente a dessacralizar a liturgia que é a mais pura expressão do culto rendido a Deus pela Igreja.
É absolutamente fora de propósito alegar o motivo do aggiornamento pastoral, o qual, é bom que se repita, se efetua na ordem e não na arbitrariedade. Nada disto está de acordo nem com a letra nem com o espírito da Constituição Litúrgica votada pelo Segundo Concílio Vaticano; é contrário ao sentido eclesial da liturgia e prejudica a unidade e a dignidade do povo de Deus.
“A variedade das línguas — disse o papa Paulo VI a 13 de outubro passado —, a novidade dos ritos que o movimento de renovação introduziu na liturgia não devem admitir nada que não seja devidamente reconhecido pela autoridade responsável dos bispos e da Sé apostólica, nada que não seja digno do culto divino, nada que seja claramente profano e inapto para exprimir a interioridade e o caráter sagrado da oração, nada que seja de tal modo singular e incomum que, ao invés de favorecer a devoção da comunidade em oração, a inquiete e perturbe, e impeça a expressão de seu espírito religioso tradicional justo e legítimo”.
Enquanto se deplora os fatos enumerados acima e a publicidade que lhes é dada, nós dirigimos um urgente convite aos Ordinários, tanto locais como religiosos: que cuidem de vigiar pela justa aplicação da Constituição litúrgica, de chamar à ordem, com bondade e firmeza, os promotores, ainda que bem intencionados, de tais manifestações e, se for o caso, de reprimir os abusos, de evitar toda iniciativa que não seja autorizada e guiada pela hierarquia, de promover com prontidão a verdadeira renovação litúrgica querida pelo Concílio, a fim de que a grandiosa obra desta renovação possa se realizar sem desvio e possa colher os frutos de vida cristã que a Igreja espera. 
Nós, ademais, recordamos que não é permitido celebrar a missa em casas particulares, salvo nos casos previstos e bem definidos pela legislação litúrgica.

Roma, 29 de dezembro de 1966.

GIACOMO, card. LERCARO,
arcebispo de Bolonha,
presidente do “Consilium” para a aplicação da Constituição sobre a liturgia.

ARCADIO M., card. LARRAONA,
prefeito da S. C. dos Ritos.

FERDINANDO ANTONELLI,
arcebispo titular de Idicra,
secretário da S. C. dos Ritos.


Tradução livre por Luís Augusto - membro da ARS