sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, rogai por nós

Pax et bonum!

Imagem do santo na igreja do Mosteiro da Luz
Hoje a Igreja no Brasil celebra a memória de Santo Antônio de Sant'Ana Galvão (São Frei Galvão), presbítero franciscano, primeiro brasileiro nato a ser elevado à honra dos altares.
Nascido em 1739, em Guaratinguetá-SP, de família nobre, tentou ingresso na Companhia de Jesus e, por fim, fez-se frade menor (franciscano), proferindo os votos em 1761, com 22 anos. Passou a morar no Convento de São Francisco em São Paulo.
Imagem do santo em Guaratinguetá-SP
No ano de 1762 foi ordenado sacerdote e em 09/11/1766 consagrou-se como filho e escravo perpétuo de Nossa Senhora, assinando sua cédula de consagração com o próprio sangue. 
Em 1774, após a consideração de revelações particulares de uma piedosa mulher, das Recolhidas de Santa Teresa, das quais ele tinha o cuidado pastoral, fundou o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Luz da Divina Providência, conhecido como Mosteiro da Luz. Tornou-se mosteiro de monjas concepcionistas e hoje é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade.
Foto do Mosteiro da Luz no séc. XIX
Adiantado na virtude, ficou muito conhecido pela prudência nos conselhos e pela alma zelosa tão amante da paz e da concórdia. Em sua vida constam também alguns episódios de dons extraordinários, como a bilocação.
Pintura retratando um episódio de levitação do santo
Descansou em Cristo no dia 23/12/1822, com 83 anos.
Aparecendo e multiplicando-se os milagres, após sua morte, a causa de beatificação foi aberta entre 1934 e 1938, sendo reforçada nas décadas de 80 e 90.
Em 25 de outubro de 1998, no dia de sua beatificação, o Beato João Paulo II chamava-o de "ardoroso adorador da Eucaristia, mestre e defensor da caridade evangélica, prudente conselheiro da vida espiritual de tantas almas e defensor dos pobres". Em 11 de maio de 2007, o Papa Bento XVI, na Missa de sua canonização, reforçava: "Conselheiro de fama, pacificador das almas e das famílias, dispensador da caridade especialmente dos pobres e dos enfermos. Muito procurado para as confissões, pois era zeloso, sábio e prudente".
Que ele rogue por nosso Brasil e por todos os cristãos brasileiros. E que estes, hoje, elevem ao Senhor Deus o louvor e a ação de graças pelos inúmeros benefícios dispensados pela intercessão de nosso venerável santo.

Apêndice
Uma longa matéria de 4 páginas sobre São Frei Galvão:
Um documentário de 20min:

A Missa de Canonização (3h de vídeo):

Site mantido por um sobrinho do santo:
http://www.saofreigalvao.com/

Oração do dia
Ó Deus, Pai de misericórdia, que fizestes do Santo Antônio de Sat’Anna Galvão um instrumento de caridade e de paz no meio dos irmãos, concedei-nos, por sua intercessão, favorecer sempre a verdadeira concórdia. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

"Concentremos o espírito para orar", por Santo Agostinho

Pax et bonum!

No Ofício das Leituras desta segunda-feira da XXIX semana do Tempo Comum (Forma Ordinária do Rito Romano), Santo Agostinho, bispo de Hipona (séc. V), exorta-nos à constância do afeto e do desejo da vida divina, mesmo nas atividades corriqueiras da vida. Isto seria estar em oração contínua. Os grifos são nossos.

Da Carta a Proba, de Santo Agostinho, bispo
 (Ep.130,9,18-10,20:CSEL44,60-63)        (Séc.V)

Em horas determinadas concentremos o espírito para orar
Desejemos sempre a vida feliz que vem do Senhor Deus e assim oraremos sempre. Todavia por causa de cuidados e interesses outros, que de certo modo arrefecem o desejo, concentramos em horas determinadas o espírito para orar. As palavras da oração nos ajudam a manter a atenção naquilo que desejamos, para não acontecer que, tendo começado a arrefecer, não se esfrie completamente e se extinga de todo, se não for reacendido com mais frequência.  
Por isso as palavras do Apóstolo: Sejam vossos pedidos conhecidos junto de Deus (Fl 4,6) não devem ser entendidas no sentido de que Deus os conheça, ele que na realidade já os conhece antes de existirem, mas em nosso favor sejam conhecidos junto de Deus por sua tolerância, não junto dos homens por sua jactância.
Sendo assim, se se tem o tempo de orar longamente, sem que sejam prejudicadas as outras ações boas e necessárias, isto não é mau nem inútil, embora, como disse, também nelas sempre se deva orar pelo desejo. Também orar por muito tempo não é o mesmo que orar com muitas palavras, como pensam alguns. Uma coisa é a palavra em excesso, outra a constância do afeto. Pois do próprio Senhor se escreveu que passava noites em oração e que orava demoradamente; e nisto, o que fazia a não ser dar-nos o exemplo, ele que no tempo é o intercessor oportuno e, com o Pai, aquele que eternamente nos atende. 
Conta-se que os monges no Egito fazem frequentes orações, mas brevíssimas, à maneira de tiros súbitos, para que a intenção, aplicada com toda a vigilância e tão necessária ao orante, não venha a dissipar-se e afrouxar pela excessiva demora. Ensinam ao mesmo tempo com clareza que, se a atenção não consegue permanecer desperta, não deve ser enfraquecida, e se permanecer desperta, não deve ser logo cortada.  
Não haja, pois, na oração muitas palavras, mas não falte muita súplica, se a intenção continuar ardente. Porque falar demais ao orar é tratar de coisa necessária com palavras supérfluas. Porém rogar muito é, com frequente e piedoso clamor do coração, bater à porta daquele a quem imploramos. Nesta questão, trata-se mais de gemidos do que de palavras, mais de chorar do que de falar. Porque ele põe nossas lágrimas diante de si (Sl 55,9),e nosso gemido não passa despercebido (cf. Sl 37,9 Vulg.) àquele que tudo criou pela Palavra e não precisa das palavras humanas.


Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Discurso de Paulo VI no fechamento da VIII Sessão Plenária do "Consilium"

Pax et bonum!

Prosseguimos no primeiro semestre de 1967; agrava-se a situação das mudanças arbitrárias; o mundo católico prossegue celebrando há 2 anos a Missa simplificada, segundo as alterações da Inter Oecumenici, de 1964; publicações aparecem com críticas à Reforma ou antes à "reforma" anárquica que se faz em vários lugares, ignorando o que realmente vem da Santa Sé; o Consilium já trabalha nas novas orações eucarísticas, possivelmente no novo ritual das ordenações e, em pouco tempo, um documento oficial citará a Comunhão de pés; após menos de 3 anos é erigida formalmente a Foederatio Internationalis UNA VOCE, da qual falaremos em outra postagem.
Ao fim da oitava sessão do "Consilium", o Papa Paulo VI demonstra sua gratidão, sua confiança e seu apoio ao "Consilium" e seus trabalhos. Ao mesmo tempo reconhece cada vez mais preocupado aquilo que veio a chamar de "uma tendência a 'dessacralizar' (...) a Liturgia (...) e com isso, fatalmente, o cristianismo".

Discurso de Paulo VI 
no fechamento da VIII Sessão Plenária do 
"Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia"
Quarta-feira, 19 de abril de 1967

É para nós coisa muita grata exprimir o nosso reconhecimento ao Card. Giacomo Lercaro pelas nobres e deferentes palavras a nós dirigidas, também em nome desta Assembleia.
Atendemos de boa vontade, não obstante a pressão dos empenhos destes dias, ao chamado deste encontro, para saudar os membros deste "Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia", por nós instituído para estudar a revisão dos livros litúrgicos do rito latino, segundo o espírito e as normas do recente Concílio, e para assim procurar uma sábia colaboração, conosco e com o nosso dicastério preposto para a disciplina dos Ritos, em matéria de tanta complexidade e importância.
E em verdade o "Consilium" merece que nós lhe renovemos a expressão de nossa estima, de nossa confiança, de nosso encorajamento. Sabemos, deveras, por quais e quantas pessoas ele é composto: pessoas assaz qualificadas pela ciência e pelo amor da Sagrada Liturgia; sabemos da quantidade de trabalho em que o "Consilium" teria que colocar as mãos, qual a gravidade e a variedade de problemas que devia enfrentar, qual o ritmo de trabalho estabelecido para concluir num tempo razoavelmente breve o dever que lhe foi confiado. Sabemos também quais os critérios que presidem obra tão difícil e delicada; e são aqueles claramente afirmados na Constituição "Sacrosanctum Concilium", no n. 23, fielmente recordados pelo nosso "Consilium". Vale a pena honrá-los citando-os: "Para conservar a sã tradição e abrir ao mesmo tempo o caminho a um progresso legítimo, faça-se uma acurada investigação teológica, histórica e pastoral acerca de cada uma das partes da Liturgia que devem ser revistas. Tenham-se ainda em consideração às leis gerais da estrutura e do espírito da Liturgia, a experiência adquirida nas recentes reformas litúrgicas e nos indultos aqui e além concedidos. Finalmente, não se introduzam inovações, a não ser que uma utilidade autêntica e certa da Igreja o exija, e com a preocupação de que as novas formas como que surjam a partir das já existentes".
E por isso compreendemos quanto esta empresa, à qual atendeis e a partir da qual a Santa Sé atrai matéria e argumento para a sua grande missão animadora e dirigente da oração do Povo de Deus, possa suscitar reações de gêneros diversos, estudos de caso variados, problemas novos, não sem alguma interpretação abusiva, ou qualquer comentário discutível. Se é na natureza das coisas que as inovações produzem às vezes avaliações inadequadas e aplicações imperfeitas, nós, todavia, sentimos dever ao "Consilium" o nosso reconhecimento e a comum satisfação; assim é-nos propícia a ocasião não só para encorajar a árdua obra do "Consilium", mas para exortar clero e fieis a apreciar-lhe o valor e a acolher-lhe a eficácia.
Não podemos, a este propósito, calar a nossa amargura por alguns fatos e algumas tendências, que certamente não favorecem os bons resultados, que a Igreja espera dos operosos estudos do "Consilium". O primeiro destes fatos diz respeito a um injusto e irreverente ataque, proveniente de uma recente publicação, contra a venerada pessoa do ilustre e eminente Presidente do próprio "Consilium", o sr. Cardeal Giacomo Lercaro.
Tal publicação, como é óbvio, não pode ter o nosso consenso; essa não edifica ninguém, e não logra por isso nenhuma vantagem para a causa que deseja defender, a conservação da língua latina na liturgia; questão esta digna de toda atenção, mas que não se resolve em sentido contrário ao grande princípio, reafirmado pelo Concílio, da inteligibilidade, por parte do povo, da oração litúrgica, nem ao daquele outro princípio, hoje reivindicado pela cultura da coletividade, de poder exprimir os próprios sentimentos, mais profundos e mais sinceros, em linguagem viva. Deixando então de lado a questão do latim na liturgia, mais prejudicada do que defendida pela publicação em questão, desejamos manifestar ao Cardeal Lercaro a expressão de nosso lamento e de nossa adesão.
Outro motivo de dor e de apreensão são os episódios de indisciplina, que em várias regiões se difundem nas manifestações do culto comunitário, e que assumem formas deliberadamente arbitrárias, algumas vezes totalmente disformes das normas vigentes na Igreja, com grave perturbação dos bons fieis e com inadmissíveis motivações, perigosas para a paz e a ordem da própria Igreja e pelos desconcertantes exemplos que essas difundem. Queremos recordar, a este propósito, quanto reafirma o Concílio, recém-celebrado, sobre o ordenamento da Sagrada Liturgia; ordenamento que "compete unicamente à autoridade da Igreja" (Const. Sacros. Conc., n. 22); no entanto mais nos impulsiona a exprimir a nossa confiança de que o Episcopado quererá vigiar sobre estes episódios e tutelar a harmonia própria do culto católico no campo litúrgico e religioso, objeto de cuidados assíduos e delicados neste momento pós-conciliar; assim estendemos esta nossa exortação às famílias religiosas, das quais a Igreja espera hoje, mais do que nunca, o contributo da fidelidade e do exemplo; e a manifestamos ao Clero e a todos os fieis, a fim de que não se deixem invadir pela veleidade destas experiências caprichosas, mas procurem antes dar perfeição e plenitude aos ritos prescritos pela Igreja. Recomendação esta que toca também uma das prerrogativas do "Consilium", a de moderar sabiamente as experiências litúrgicas individuais, que pareceram merecer uma atuação responsável e estudada.
Porém mais grave causa de aflição para nós é a difusão de uma tendência a "dessacralizar", como se ousa dizer, a Liturgia (se ela ainda merece conservar este nome) e com isso, fatalmente, o cristianismo. A nova mentalidade, da qual não seria difícil encontrar as turvas fontes, e sobre a qual se tenta fundar esta demolição do autêntico culto católico, implica tais subversões doutrinais, disciplinares e pastorais, que não hesitamos considerá-la aberrante; e dizemo-lo com pena, não só pelo espírito anti-canônico e radical que gratuitamente professa, mas antes pela desintegração religiosa, que ela fatalmente traz consigo.
Não ignoramos que todo movimento ideológico pode conter algum bom fragmento de verdade, e que os promotores de novidade podem ser pessoas boas e cultas; e nós estamos sempre abertos a considerar também os aspectos positivos de todo fenômeno eclesial; mas não devemos esconder, a vós especialmente, a ameaça de ruínas espirituais que este parece-nos representar.
Para evitar tanto perigo, para chamar as pessoas, revistas, instituições que podem ser influenciadas, para a colaboração sábia e positiva com a Igreja de Deus, para defender as doutrinas e as normas do Concílio Ecumênico, vós agora, mais que os outros, sois chamados a delinear aquele rosto da Sagrada Liturgia, que nos mostra a verdade, a beleza, a espiritualidade, e que sempre melhor há de transparecer o mistério pascal que nela vive, para a glória de Deus e para a regeneração espiritual das multidões distraídas, mas sedentas, do mundo contemporâneo.
E confiamos que isto possa felizmente acontecer, com a ajuda de Deus, se devermos julgar pela seriedade e pela importância dos vossos trabalhos, e dos primeiros resultados da reforma litúrgica, os quais são, sob certos aspectos, realmente consoladores e promissores. A oração autêntica da Igreja refloresce em nossas comunidades populares; e isto é aquilo de mais belo e mais promissor que o nosso tempo, tão enigmático, tão inquieto e tão cheio de terrena vitalidade, oferece ao olhar todo-amoroso de Cristo.
Continuai, portanto, serena e diligentemente no vosso trabalho; "Deus o quer", podemos dizê-lo, para sua honra, para a vida da Igreja, para a salvação do mundo; e sempre com a nossa Bênção Apostólica.

Fonte: 

Obs: no texto latino do Osservatore Romano de 20/04/1967, constam essas palavras do Cardeal Lercaro:

(...) As principais atividades desta sessão foram o exame e a aprovação, de nossa parte, dos novos textos para a oração eucarística, bem como a preparação dos esquemas contendo os princípios e leis das partes principais de nosso trabalho, que serão submetidos ao próximo sínodo dos bispos...
Além desses trabalhos, que absorveram a maior parte de nossa atenção, estudamos igualmente outras questões, não menos importantes certamente, mas que não podem ainda ser consideradas como perfeitamente acertadas. Estas questões dizem respeito, sobretudo, ao batismo das crianças e ao matrimônio. Esperamos, no entanto, que elas cheguem logo ao porto com facilidade (...).

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - O Card. Bacci e "A túnica rasgada" de Tito Casini

Pax et bonum!

Prosseguimos no início de 1967. Iríamos começar hoje a tradução da Alocução de Paulo VI ao Consilium, de 19/04/1967 quando, no mesmo texto francês, encontramos uma nota explicando que o Papa, defendendo o Card. Lercaro, em certo ponto, citou uma publicação que seria o livro "La tunica stracciata" (ou seja, "A túnica rasgada"), de Tito Casini (1897-1987), escritor italiano que produziu interessantes textos sobre as consequências más das mudanças que aconteciam após o Concílio.
Pois bem, enquanto Paulo VI defendia o Card. Lercaro, o livro em questão tinha seu prefácio escrito pelo Card. Antonio Bacci.
Achamos por bem traduzir o prefácio da obra, que estará citada na alocução que virá nas próximas postagens. O prefácio por si nos revela que a situação das arbitrariedades no campo litúrgico parece agravar-se. Se no ano anterior (1966) se falava das "ceias eucarísticas", vemos agora outras "missas", como a "missa beat".
"La tunica stracciata" e outros escritos de Tito Casini estão disponíveis neste site:

Cidade do Vaticano, 23 de fevereiro de 1967

Fui convidado a fazer uma breve apresentação deste pequeno volume de Tito Casini. Não posso e nem quero recusá-lo, antes eu o faço de boa vontade, embora com algumas reservas, seja porque conheço Tito Casini desde a infância e o considero como um dos maiores escritores católicos da Itália por seu estilo fresco, cáustico e sincero, que me recorda o ar puro e montanhês da sua e minha Firenzuola, seja porque ele é um cristão íntegro e pode repetir aquilo que dizia de si um antigo escritor sacro: "Christianus mihi nomen, catholicus cognomen"; seja enfim porque se este seu escrito pode parecer pouco reverente para alguns, todos porém devem reconhecer que foi feito tão somente por um ardente amor pela Igreja e seu decoro litúrgico.
Todavia, pode-se e deve-se afirmar que nada quanto ele escreve neste pequeno volume é jamais contra aquilo que o Concílio Vaticano II estabeleceu na sua Constituição Litúrgica, mas sim contra a aplicação prática que da dita Constituição Litúrgica quiseram fazer a qualquer custo alguns inovadores impacientes e exagerados. E não falemos daquilo que, neste chão escorregadio, alguns estão fazendo com as assim chamadas "ceias eucarísticas", "missa beat", "missa iê-iê", "missa dos hippies", e "semelhantes imundícies".
Faço-o de boa vontade, já o disse, porque penso que estas páginas, que recordam aquelas ainda mais inflamadas, ardentes e sem escrúpulos de Santa Catarina de Sena, podem endireitar certas ideias e fazer bem.
Confio portanto que os interessados perdoarão generosamente o autor por certas frases que podem lhes parecer pouco respeitosas, refletindo que essas foram escritas não para ofender, mas somente porque o coração estava exacerbado por certas inovações, que parecem e são verdadeiras profanações.
De resto, há sempre o que aprender de todos; também da voz daqueles leigos, especialmente daqueles leigos que são, como Tito Casini, perfeitos católicos.
E aqui não posso deixar de recordar que foi constituída uma Federação Internacional para a salvaguarda do latim e do canto gregoriano na liturgia católica, Federação que conta com inúmeras pessoas de toda classe de onze nações, e que tem sede na Suíça, em Zurique. Ela publica uma revista que com frase latina se intitula "Una Voce", frase que para nós pode também ser italiana, porque a nossa língua nacional, como se disse, é quase um dialeto latino; e o latim da liturgia, herdeiro do "sermo rusticus" falado pelo povo, pode ser compreendido facilmente, pelo menos em grande parte, melhor que certas traduções bárbaras, nas quais traduzir é o mesmo que trair.
No número de janeiro deste ano, a dita revista afirma que "sente o dever de denunciar certas situações de fato, que absolutamente não correspondem à renovação desejada pelo Concílio". A dita Constituição Conciliar (art. 36, 1) estabeleceu como princípio geral a conservação do latim nos ritos sagrados, concedendo porém que se possa usar nas leituras e em determinadas partes da Missa o vernáculo, se isto for útil para uma maior compreensão por parte do povo. Mas o uso total e exclusivo do vernáculo, como se faz em muitas partes da Itália, não só é contra o Concílio, como causa também um intenso sofrimento espiritual para grande parte do povo.
Penso então que a súplica enviada à Conferência Episcopal, pela sessão italiana da dita Associação Internacional pela salvaguarda da língua latina e da música sacra na liturgia católica, merece ser levada em atenta e favorável consideração, a fim de que não aconteça que, enquanto se celebra a Missa em um péssimo italiano, e os outros ritos sagrados em língua vernácula, e até em esperanto, o Latim - língua oficial da Igreja - seja, pois, banido totalmente dos ritos sagrados como um cão leproso.
Por isso, parece oportuno que, ao menos nas Igrejas Catedrais, nos Santuários, nos centros turísticos e onde quer que haja clero suficiente, celebrem-se ao menos algumas missas em latim, em horários definidos, para responder ao justo desejo daqueles - estrangeiros e italianos - que preferem o latim ao vernáculo e o canto gregoriano a certas cançõezinhas vulgarzinhas que hoje tentam substituí-lo, certamente com pouco decoro do culto católico.

+ Antonio Cardeal BACCI

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - A Instrução Musicam Sacram

Pax et bonum!

Dos tempos do Papa Pio XII nos veio um documento sobre a Música Sacra. Trata-se da Encíclica Musicae Sacrae Disciplina, do Natal de 1955, que embora não tenha aparecido em nosso blog nalguma outra postagem, é muito digna de conhecimento e leitura, sobretudo por ser do punho deste grande Papa que muito amava a Sagrada Liturgia.
Pois bem, no pós-Concílio, os dois dicastérios autores das reformas de que estamos falando nas postagens da série, ou seja, a Sagrada Congregação dos Ritos e o Consilium, trataram do assunto da música sacra numa instrução, conjunta, própria: a Musicam Sacram, de 05/03/1967.
Nela há trechos interessantes sobre a participação, instrumentos, gêneros, desenvolvendo o que fora dito na Constituição do Concílio.
As regras aí expostas deveriam ser consideradas como atuais e válidas, pois não houve outro documento do mesmo porte e qualificação posteriormente. Segundo o Pe. Edward McNamara, de quem já traduzimos alguns trechos de sua coluna de perguntas e respostas, "a 'Musicam Sacram' não foi abrogada e de fato seus princípios ainda estão em vigor. Alguns detalhes do documento tornaram-se obsoletos pela publicação do Missal em data posterior — como a distinção formal entre Missa solene, cantada e rezada — mas ainda é válido no todo. (...) A razão pela qual muito do documento tornou-se letra morta foi talvez, para parafrasear Chesterton, não por ter sido tentado e considerado deficiente, mas por ter sido considerado difícil e deixado sem se tentar".

Alguns trechos da Instrução (que está disponível em inglês no site da Santa Sé, e em português no site da EDMS - Escola Diocesana de Música Sacra de Coimbra, Portugal):

"Tenha-se em conta que a verdadeira solenidade da ação litúrgica não depende de uma forma rebuscada do canto ou de um desenrolar magnificente das cerimônias, quanto daquela celebração digna e religiosa que tem em conta a integridade da própria ação litúrgica; quer dizer, a execução de todas as suas partes segundo a sua natureza própria.
Uma forma mais rica de canto e um desenvolvimento mais solene das cerimônias decerto que são desejáveis onde haja meios para bem os realizar; mas tudo quanto possa contribuir para que se omita, se mude ou se realize indevidamente algum dos elementos da ação litúrgica é contrário à sua verdadeira solenidade". (n. 11)

"Os fiéis cumprem a sua ação litúrgica mediante a participação plena, consciente e ativa que a própria natureza da liturgia requer; esta participação é um direito e um dever para o povo cristão, em virtude do seu Batismo.
Esta participação:
a) Deve ser antes de tudo interior; quer dizer que, por meio dela, os fiéis se unem em espírito ao que pronunciam ou escutam e cooperam com a graça divina.
b) Mas a participação deve ser também exterior; quer dizer que a participação interior deve expressar-se por meio de gestos e atitudes corporais, pelas respostas e pelo canto.
Eduquem-se também os fiéis no sentido de se unirem interiormente ao que cantam os ministros ou o coro, de modo que elevem os seus espíritos para Deus, enquanto os escutam". (n. 15)

"Observar-se-á também, na altura própria, um silêncio sagrado. Por meio deste silêncio, os fiéis não se vêem reduzidos a assistir à ação litúrgica como espectadores mudos e estranhos, mas são associados intimamente ao Mistério que se celebra, graças àquela disposição interior que nasce da Palavra de Deus escutada, dos cânticos e das orações que se pronunciam e da união espiritual com o celebrante nas partes por ele ditas". (n. 17)

"Além da formação musical, dar-se-á aos membros do coro uma formação litúrgica e espiritual adaptadas de modo que, ao desempenhar perfeitamente a sua função litúrgica, não se limitem a dar maior beleza à ação sagrada e um excelente exemplo aos fiéis mas adquiram também eles próprios um verdadeiro fruto espiritual". (n. 24)

"Nada impede que nas missas rezadas se cante alguma parte do próprio ou do ordinário. Mais ainda: algumas vezes pode executar-se também outro cântico diferente ao princípio, ao ofertório, à comunhão e no final da missa; mas não basta que este cântico seja 'eucarístico'; é necessário que esteja de acordo com as partes da missa e com a festa ou tempo litúrgico". (n. 36)

"Assim, na medida do possível, celebrar-se-ão com canto os sacramentos e sacramentais que têm particular importância na vida de toda a comunidade paroquial, como sejam as confirmações, as ordenações, os casamentos, as consagrações de igrejas ou altares, os funerais, etc. Esta festividade dos ritos permitirá a sua maior eficácia pastoral. No entanto, cuidar-se-á especialmente que, a título de solenidade, não se introduza na celebração nada que seja puramente profano ou pouco compatível com o culto divino; isto se aplica em especial à celebração do matrimônio". (n. 43)

A leitura, portanto, é muito recomendada sobretudo aos membros de grupos de cantores e estudiosos da música sacra.
Vê-se que, 46 anos depois da Instrução, muito parece não ter sido feito em muitos lugares. Como vai seu grupo e sua paróquia?
Boa leitura.

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Bula Consueverunt Romani Pontifices, de São Pio V

Pax et bonum!

Hoje, memória de Nossa Senhora do Rosário, apresentamos, talvez pela primeira vez na web, a tradução da Bula (Constituição Apostólica) Consueverunt Romani Pontifices, do Papa São Pio V, na qual, segundo o Papa Paulo VI, o então Sucessor de Pedro "ilustrou e, de algum modo, definiu a forma tradicional do Rosário" (cf. Exort. Apost. Marialis Cultus, 42).
Esta Bula o Papa São Pio V escreveu dois anos antes da gloriosa vitória dos cristãos sobre os invasores muçulmanos na Batalha de Lepanto, que hoje completa 442 anos. Esta vitória deu origem à Festa de Nossa Senhora da Vitória que depois ficou sendo chamada de Nossa Senhora do Rosário.
Para o louvor de Cristo, nosso Deus e Senhor, e da Santíssima Virgem Maria.

CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA
CONSUEVERUNT ROMANI PONTIFICES
DO SANTO PADRE
PIO V

Os Pontífices Romanos, e os outros Santos Padres, nossos predecessores, quando sob a pressão de guerras temporais ou espirituais, ou perturbados por outras provações, a fim de mais facilmente poderem evadir-se destas e, alcançada a tranquilidade, poderem quieta e fervorosamente estar livres para servir a Deus, habituaram-se a implorar a assistência divina através de súplicas e ladainhas pedindo o sufrágio dos santos, e com Davi levantavam os olhos para os montes, confiando com esperança certa de que haveriam de receber deles o socorro.

1. Motivado por seus exemplos, e tal como piamente se acredita, inspirado pelo Espírito Santo, o Bem-aventurado Domingos, fundador da Ordem dos Frades Pregadores (cujas Constituições e Regras Nós mesmos expressamente professamos quando estávamos nas ordens menores), em ocasião similar à do tempo atual, quando partes da França e da Itália eram miseramente perturbadas pela heresia dos Albigenses, que cegaram a tantos seculares que estes mais violentamente grassavam contra os sacerdotes do Senhor e contra os clérigos, levantou os olhos ao Céu e àquele monte que é a gloriosa Virgem Maria, amável Mãe de Deus, que por sua descendência esmagou a cabeça da serpente retorcida, e sozinha destruiu todas as heresias, e pelo bendito fruto de seu ventre salvou o mundo condenado pela queda de nosso primeiro pai, e do qual, sem a mão humana, foi fendida aquela rocha da qual, golpeada pela vara, jorraram abundantemente águas correntes de graças, lançando o olhar sobre aquela forma simples de orar e procurar a Deus, acessível a todos e inteiramente piedosa, que é chamada de Rosário ou Saltério da Bem-aventurada Virgem Maria, na qual a mesma Beatíssima Virgem é venerada pela saudação angélica repetida 150 vezes, isto é, de acordo com o número do Saltério Davídico, e pela Oração do Senhor em cada dezena. Interpostas com essas orações estão certas meditações mostrando a inteira vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, completando assim o método de oração legado pelos Padres da Santa Igreja Romana. 
Este mesmo método São Domingos propagou, e foi difundido pelo Frades do Bem-aventurado Domingos, da mencionada Ordem, e aceito por não pouca gente. Os fiéis de Cristo, inflamados por estas orações, imediatamente começaram a tornar-se homens novos. 
A treva da heresia começou a ser dissipada, e a luz da Fé Católica a ser revelada. Sodalícios para esta forma de oração começaram a ser instituídos em vários lugares pelos Frades da mesma Ordem, legitimamente incumbidos desta obra pelos seus Superiores, e confrades começaram a inscrever-se.

2. Seguindo os passos de nossos predecessores, vendo a Igreja militante, que Deus pôs em nossas mãos, agitada desta forma, em nosso tempo, por tantas heresias, e atrozmente vexada por tantas guerras e costumes depravados dos homens, nós levantamos nossos olhos, em lágrimas, mas cheios de esperança, para o mesmo monte, donde vem todo auxílio, e no Senhor benignamente exortamos e admoestamos cada fiel de Cristo a fazer o mesmo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o Anel do Pescador, aos 17 de setembro de 1569, quarto de nosso Pontificado.


Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A humildade de Deus

Pe. Stefano Maria Manelli, fundador dos Franciscanos da Imaculada
Que o homem todo se espante, que o mundo todo trema, que o céu exulte, 
quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está Cristo, o Filho de Deus vivo (Jo 11,27)!
Oh! grandeza admirável, oh! condescendência assombrosa, 
oh! humildade sublime, oh! sublimidade humilde, 
que o Senhor de todo o universo, Deus e Filho de Deus, 
se humilhe a ponto de se esconder, para nossa salvação, 
nas aparências de um bocado de pão.
Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações (Sl 61, 9); 
humilhai-vos também vós para que ele vos exalte (1Pd 5, 6; Tg 4,10).

(São Francisco de Assis, Carta a toda a Ordem, 26-28)

Que hoje o abrasado São Francisco de Assis rogue pela cristandade, a fim de que cada católico redescubra o valor da Santa Missa!

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O sangue dos mártires no Nordeste - Os bem-avenurados de Cunhaú e Uruaçu

Pax et bonum!


Hoje, 03 de outubro, em nossa pátria, comemora-se a memória obrigatória dos Bem-aventurados Mártires de Cunhaú e Uruaçu, duas localidades do Estado do Rio Grande do Norte, no município de São Gonçalo do Amarante, não muito distantes da capital, Natal.
Durante as invasões holandesas no nordeste do Brasil, no séc. XVII, surgem gloriosos,embora cruéis, os dois episódios de martírio que levaram 30 almas à beatificação, mas cerca de 150 para a glória do Céu.
Destas 30 almas, sobressaem os nomes do Pe. André de Soveral, Pe. Ambrósio Francisco Ferro e Mateus Moreira.
Os massacres, pela mão dos índios potiguares e dos holandeses calvinistas, aconteceram nos dias 16/07 (na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho de Cunhaú) e 03/10 (num porto de Uruaçu) de 1645. Portanto, completam-se neste ano, e hoje particularmente, 368 anos que o solo nordestino foi regado pelo sangue das testemunhas fiéis a Cristo, à Igreja, ao Papa, ao Rei e à Pátria. Os 30 heróis da fé foram beatificados no dia 05/05/2000, pelo Beato João Paulo II.
A memória obrigatória no Brasil foi marcada para o dia 03/10. No Ordo de 2013 da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, a festa foi posta no dia 01/10 (na Forma Extraordinária do Rito Romano, o dia 03/10 é a Festa de Santa Teresinha do Menino Jesus).
A sangrenta história deste homens e mulheres, cujo nascer se desconhece, mas cuja morte se louva, deveria ser de conhecimento obrigatório para os católicos brasileiros.
Recomendamos as leituras das seguintes páginas:

História do martírio:
http://permanencia.org.br/drupal/node/1331
http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=8C2D2A06-F015-8FF9-5B629B9BACD79838

Homilia do Beato João Paulo II na Missa de Beatificação:
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2000/documents/hf_jp-ii_hom_20000305_beatifications_po.html

Página oficial sobre os Bem-aventurados Mártires de Cunhaú e Uruaçu, no site da Arquidiocese de Natal:
http://www.arquidiocesedenatal.org.br/martires/martires.htm

Que o ardor da fé destes mártires ressuscite nos católicos brasileiros o desejo de viver fielmente o seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo!

ORAÇÃO PELA CANONIZAÇÃO DOS MÁRTIRES

Senhor Jesus Cristo, / o vosso sangue derramado na cruz / tornou-se a fonte sagrada / que regou o testemunho dos mártires brasileiros, / mortos pela fé, nos primórdios de nossa evangelização. / Fazei que os bem-aventurados / André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes, / Mateus Moreira e os vinte e sete leigos, seus companheiros, / sejam reconhecidos como santos pela Igreja, / para vossa maior glória / e o fortalecimento de nossa fé. / Por sua intercessão, pedimos esta graça... / Por Cristo, nosso Senhor. Amém!

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Os passos da reforma litúrgica pós-conciliar - Sacrificium Laudis: o abandono do latim e a tristeza de Paulo VI

Pax et bonum!

Iniciaríamos a publicação de documentos do ano de 1967 quando nos damos conta de que tínhamos ignorado um importante e revelador documento de meados de 1966. Trata-se da Carta Apostólica Sacrificium Laudis, do Papa Paulo VI, "sobre a língua latina a ser usada no Ofício Litúrgico coral por parte dos religiosos obrigados ao coro", quem entendemos ser sobretudo os monges.
Pois bem, havíamos dito que o ano de 1966 apresentou, fora do contexto das experiências oficiais e autorizadas, um grande número de experiências arbitrárias. Paulo VI, o Cardeal Lercaro e o Pe. Bugnini levantam a voz contra o que acontecia. Mas ainda assim essas vozes pareciam soar distante dos casos concretos, provavelmente à sombra da conivência dos bispos dos lugares em questão.
Nesta Carta, Paulo VI, abalado e triste pelos pedidos de mudança do latim e do gregoriano, em prol do vernáculo e dos cantos modernos em voga, pergunta: "De onde saiu  e porque se difundiu, esta mentalidade e este fastio desconhecidos no passado?" Todavia, convoca todos à humilde obediência, recordando que, se as línguas vernáculas foram introduzidas para bem do povo, os religiosos têm o imperioso dever de salvaguardar "a tradicional dignidade, a beleza, e a gravidade do Ofício coral, seja na língua como no canto".
Obs.: Os grifos são nossos. Algumas correções e adaptações foram feitas apenas para melhor leitura aos brasileiros.

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SACRIFICIUM LAUDIS
CARTA APOSTÓLICA

Aos Chefes das Ordens Religiosas,
sobre a língua latina a ser usada no Ofício Litúrgico coral
por parte dos religiosos obrigados ao coro.

Diletos filhos,
saudação e Bênção Apostólica.

As vossas Famílias religiosas, devotadas ao serviço de Deus, sempre tiveram em grande consideração, numa tradição jamais interrompida, o Sacrifício de louvor oferecido pelos lábios dos que anunciam o Senhor, no canto dos salmos e dos hinos, com os quais são santificadas pela piedade religiosa as horas, os dias e os tempos do ano, estando no centro de tudo o Sacrifício Eucarístico como um sol esplendoroso que tudo a si atrai. Com efeito, justamente se pensava que nada deveria ser anteposto a uma tão santa prática religiosa. Compreende-se com facilidade quanta glória de tal resulte para o Criador de todas as coisas, e quão grande a utilidade para a Igreja. Com esta forma de oração, fixa e mantida perene através dos séculos, haveis ensinado que o culto divino é de suma importância para a humana convivência.
Das cartas dalguns de vós e das muitas missivas enviadas de várias partes chegamos ao conhecimento que os cenóbios ou as províncias de vós dependentes - falamos somente daqueles de rito Latino - adotaram diferente modos de celebrar a divina Liturgia: alguns são muito contrários à língua Latina, outros no Ofício coral vão pedindo o uso das línguas nacionais, ou querem até que o chamado canto Gregoriano seja substituído cá e lá com os cânticos hoje em voga; outros reclamam mesmo a abolição da própria língua latina.
Devemos confessar que tais pedidos Nos abalaram não levemente e nos entristeceram não pouco; e levaram-nos a perguntar de onde saiu  e porque se difundiu, esta mentalidade e este fastio desconhecidos no passado.
Certamente vos é notório, nem podeis duvidar, o quanto Nós vos amamos, nem às vossas Famílias religiosas, o quanto as estimamos. Frequentemente são para Nós causa de admiração os testemunhos de insigne piedade e os monumentos de refinado engenho, que [a todos] enobrecem. Conservaremos a Nossa alegria se surgir qualquer possibilidade, desde que lícita e conveniente, de favorecer, e de aceder aos vossos pedidos, para melhorar a situação.
Mas, quanto dissemos acima, vem depois de o Concílio Ecumênico Vaticano II se ter pronunciado sobre esta matéria de modo meditado e solene (Cf. CONC. VAT. П, Const. Sacrosanctum Concilium, n. 101 § 1) e depois de terem sido emanadas normas precisas com sucessivas Instruções; na primeira Instrução, para a exata aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, emanada a 26 de Setembro de 1964, estabelece-se o seguinte: "Na récita do Ofício Divino em coro, os clérigos usem a língua latina" (n. 85); e na outra, que trata da língua a usar na celebração do Ofício e da Missa "conventuais", "nas comunidades" próximas às Religiosas, emanada a 23 de Novembro de 1965, aquela disposição ficou confirmada e também tendo em conta a utilidade espiritual dos fiéis e das particulares condições que subsistem nos países de missões. Portanto, enquanto não se determinar em sentido diferente por razões legítimas, estas leis permanecem em vigor e requerem obediência, na qual devem sobressair principalmente os religiosos, filhos caríssimos da Igreja.
Com efeito, não se trata somente de conservar a língua latina no Ofício coral - indubitavelmente digna, nem seria para menos que a guardássemos com cuidado, sendo na Igreja Latina fonte fecundíssima de civilidade cristã e riquíssimo tesouro de piedade -, mas, também de defender indene a qualidade, a beleza e o originário vigor de tais orações e de tais cantos: trata-se, de fato, do Ofício coral, expresso "com as vozes da Igreja que docemente canta" (Cf St.º AGOSTINHO, Confissões, 9, 6: PL 32, 769), e que os vossos fundadores e mestres, e ademais Santos no Céu, luminárias das vossas Famílias religiosas, vos transmitiram. Não são de menosprezar as tradições dos que vos antecederam e ao longo dos séculos construíram a vossa glória. Este maneira de recitar o Ofício divino em coro foi uma das principais razões para a solidez e o feliz crescimento das vossas Famílias. É portanto de espantar que, surgindo com inesperada excitação, alguns pareçam ter negligenciado estas motivações.
Que língua, ou que cânticos vos parece que possam na presente situação substituir as formas de piedade católica que usastes até agora? Haveis de refletir bem, para que as coisas não piorem depois de renegardes a esta gloriosa herança. Porquanto vos é de temer que o Ofício coral seja reduzido a uma recitação disforme, cujas pobreza e monotonia vós sereis certamente os primeiros a notar. Surge ainda uma outra interrogação: os homens desejosos de sentir os valores sagrados entrarão à mesma, e em tão grande número, nos vossos templos, se não ressoar em vós a piedade antiga e a nativa língua daquelas orações, unidas a um canto pleno de gravidade e de beleza? Pedimos portanto a todos os interessados que ponderem bem o que se perderia, e que não deixem secar a fonte que até hoje brotou abundantemente. Sem dúvida que a língua latina cria algumas dificuldades, talvez não leves, aos novatos da vossa sagrada milícia. Mas estas dificuldades, como sabeis, não são tais que não se possam superar e vencer, sobretudo entre vós que, longe dos afã e estrépito do mundo, vos podeis dedicar mais facilmente ao estudo. De resto, aquelas preces repletas de antiga grandeza e nobre majestade continuarão a atrair até vós os jovens chamados à herança do Senhor; de contrário, uma vez eliminado o coro em questão, que supera os confins das Nações e está dotado de admirável força espiritual, e a melodia que flui do profundo da alma, onde reside a fé e arde a caridade, ou seja o canto gregoriano, sereis como uma vela apagada que já não mais ilumina, e não mais atrai a si os olhos e as mentes dos homens.
Seja como for, filhos caríssimos, os pedidos dos quais falamos acima referem-se a uma realidade tão grave que neste momento não Nos é possível de aceder, anulando as normas do Concílio e as Instruções mencionadas. Exortamo-vos portanto que calorosamente pondereis bem sobre todos os aspectos desta questão tão complexa. Pela benevolência com que vos envolvemos, e pela boa estima com que vos acompanhamos, não queremos permitir aquilo que poderia ser causa de uma queda, para pior, de não breve malefício e decerto de mal-estar e tristeza para toda a Igreja. Permiti-Nos, ainda que contra a vossa vontade, que defendamos a vossa causa. A Igreja, que por razões de índole pastoral, isto é, para o bem do povo que não sabe latim, introduziu as línguas nacionais na sagrada Liturgia, dá-vos o mandato de proteger a tradicional dignidade, a beleza, e a gravidade do Ofício coral, seja na língua como no canto.
Assim, com um coração sincero e dócil, sede obedientes às prescrições que não surgiram por um amor exagerado aos modos antigos, mas propostas antes pela caridade paterna que temos por vós e aconselhadas pelo zelo para com o culto divino.
Enfim, concedemo-vos de coração no Senhor a vós e aos vossos religiosos a Bênção Apostólica, propiciadora dos dons celestes e testemunha da boa disposição do nosso ânimo.
Dada em Roma, junto a S. Pedro, a 15 de Agosto do ano de 1966, festa da Assunção da Virgem Maria, quarto do Nosso Pontificado.

PAULO PP. VI