quinta-feira, 26 de junho de 2014

Entendendo a doutrina e o culto ao Sagrado Coração de Jesus

Pax et bonum!


Estando às portas da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, é sempre conveniente perguntarmo-nos se realmente compreendemos o que estamos a fazer quando oramos de modo privado ou comunitário, no dia de amanhã (o dia próprio da Solenidade), bem como na primeira sexta-feira de cada mês ou noutro momento em que a oração tenha como fim este mesmo Coração do Redentor.
Não nos dedicaremos, nesta postagem, à história do culto ou aos detalhes litúrgicos, mas ao aspecto doutrinal, que obviamente é também indispensável para que amemos o que, enfim, conhecemos.
Que diríamos nós a um protestante que nos perguntasse o que significa este culto ao Coração de Cristo?
Pois bem, tomaremos como base a sempre recomendada Catholic Encyclopedia, no tópico sobre a Devoção ao Sagrado Coração de Jesus.
Primeiramente convém afirmarmos categoricamente que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus nada mais é que uma forma especial de devoção ao Senhor Jesus. São o seu objeto, seus fundamentos e seu ato próprio que a distinguem.

Objeto
A palavra "coração" se identifica imediatamente com o órgão vital que bate em nosso peito, mas também a aspectos de nossa vida moral e emocional, com os quais vagamente percebemos alguma íntima conexão. Por esta razão a palavra "coração", na linguagem simbólica, designa estas mesmas coisas simbolizadas por ele. Às vezes ocorre de a palavra passar a designar tão somente as coisas simbolizadas e já não mais a realidade material. Ex: "alma" ou "espírito" não nos sugerem normalmente um pensamento relacionado à respiração; "coração" muitas vezes nos sugere a ideia de coragem, amor, etc. Assim sendo, isto está mais para uma metáfora do que para um símbolo, dado que o símbolo é um sinal real e a metáfora é um sinal verbal.
Em nosso contexto, o culto é tributado ao Coração de carne, ao passo em que este simboliza o amor de Jesus, e sua vida emocional e moral. Direcionado ao Coração material, o culto não para por aí, mas inclui o amor, que é o seu principal objeto, e que é alcançado pelo Coração de carne, sinal e símbolo deste amor.
Nesta devoção, portanto, não se cultua isoladamente o coração físico, nem tão somente a caridade de Cristo, mas consideram-se os dois elementos: o elemento sensível, que é o coração de carne, e o elemento espiritual, que o coração de carne recorda e representa. Estes dois elemento não devem ser entendidos como dois objetos distintos, mas como um todo. Dos dois, todavia, sobressai como essencial o amor de Cristo, que é como a causa e a razão da devoção de que tratamos. Resumamos dizendo que esta devoção é ao coração de Cristo, enquanto ele recorda e representa o seu amor, ou ao amor de Cristo, enquanto recordado e simbolicamente representado por seu coração de carne.
Sendo assim, a devoção se baseia sobretudo no simbolismo do coração e, por isto, não se preocupa tanto com a anatomia. Aliás, deixar o simbolismo menos evidente, em prol de uma precisão anatômica (ex: pintá-lo ou esculpi-lo cheio de veias, artérias, átrios, ventrículos e outros detalhes do órgão humano), seria uma injúria a esta devoção.
A ferida no coração (como se retrata nas imagens) é bastante conveniente e acaba por completar o simbolismo, pois nos recorda e representa o amor ferido do Senhor (ex: por nossas ingratidões).
O Coração de Jesus também designa o próprio e inteiro Senhor, todo amante e amável, sua Pessoa.
Fase indispensável da devoção ao Coração do Senhor é, também, o reconhecimento de que este amor é rejeitado, desprezado, ignorado. Esta realidade é bastante encontrada nas Escrituras e nas experiências das vidas dos santos (particularmente nas próprias aparições do Senhor a Santa Margarida Maria, no fim do séc. XVII, que deram forma a esta devoção). 
Este amor do Senhor manifesta-se nele por inteiro, em suas palavras e atos, mas três mistérios brilham de forma inigualável quando se trata de seu amor: a Encarnação, a Paixão e a Eucaristia.
No Coração de Cristo este amor não é encontrado apenas pelos homens, mas também por Deus. Todavia, esta devoção dirige-se, sobretudo, "ao Coração que tanto amou os homens", como dizem as palavras dirigidas a Santa Margarida Maria.
Por fim, poder-se-ia perguntar se este amor seria o amor de Jesus homem ou o amor de Jesus Deus. Ora, o objeto desta devoção é o amor de nosso Senhor Jesus Cristo, Deus feito homem.

Fundamentos
Históricos
Ainda que se possa dizer que esta devoção foi principalmente propagada pelo movimento nascido em Paray-le-Monial, cidade francesa, com as visões e o apostolado de Santa Margarida Maria Alacoque (22/07/1647~17/10/1690), a devoção não seria menos sólida ou digna se elas fossem falsas. Ainda que ajudada pelas visões, a devoção não depende necessariamente delas. A Igreja, aprovando-a, examinou as duas coisas separadamente.

Teológicos
O coração de Jesus, como tudo que pertence à sua Pessoa, é digno de adoração (culto de latria, que se deve a Deus somente). Não se considera o coração como isolado ou não conectado à Pessoa de Jesus. Como já dito, este culto se estende, do coração de carne, ao amor de Jesus, do qual é símbolo vivo e expressivo. Sendo uma devoção dirigida à Pessoa de Jesus, ela não precisa de nenhuma justificativa ou argumentação especial. Jesus, o rosto vivo da bondade e do amor de Deus, Jesus infinitamente amante e amável, é o objeto da devoção ao seu Sagrado Coração e, enfim, o objeto mesmo de toda a religião cristã.

Filosóficos e Científicos
Para esta devoção não é preciso dizer que o coração é o "órgão do amor". Para a devoção basta que o coração seja o símbolo do amor e que, como base, exista uma conexão entre o coração e as emoções. O simbolismo do coração é um fato; qualquer pessoa pode experimentar e afirmar que no coração há uma espécie de eco de nossos sentimentos. Um estudo fisiológico sobre isso não é, todavia, necessário.

Ato próprio
Este ato é exigido pelo próprio objeto da devoção, e seria exatamente o amor por Jesus. Ele é caracterizado pelo amor recíproco e sua meta é amar a Jesus que tanto nos amou, retribuir amor com amor. Dado que o amor de Jesus manifesta-se para a alma devota como um amor desprezado e ultrajado, o amor expressado na devoção assume naturalmente um caráter de reparação. Daí a importância dos atos de desagravo, a Comunhão reparadora e a compaixão por Jesus padecente. Todavia, nenhum ato especial pode esgotar a devoção ao Sagrado Coração.
Esta devoção nos recorda e ensina a obedecer ao sagrado mandamento: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças" (Mc 12,30).
Segundo o Servo de Deus Pe. João Batista Reus, SJ, "é sobretudo no Sacrossanto Sacrifício da Missa que nos é dado retribuir o Amor do Sagrado Coração de Jesus. Eis porque a Santa Missa em honra do Sagrado Coração é a melhor devoção ao mesmo". Recomendamos nossa postagem sobre esta devoção na vida do Servo de Deus.

Por fim, recomendamos a leitura da Carta Encíclica Haurietis Aquas, do Papa Pio XII, que trata exatamente do culto ao Sagrado Coração de Jesus, e da qual queremos enfatizar a seguinte exortação:

"Desejando ardentemente opor segura barreira às ímpias maquinações dos inimigos de Deus e da Igreja, como também fazer as famílias e as nações voltarem ao amor de Deus e do próximo, não duvidamos em propor a devoção ao Sagrado Coração de Jesus como escola eficacíssima de caridade divina; dessa caridade divina sobre a qual se há de construir o reino de Deus nas almas dos indivíduos, na sociedade doméstica e nas nações, como sabiamente advertiu o nosso mesmo predecessor (Leão XIII), de piedosa memória: 'Da caridade divina recebe o reino de Jesus Cristo a sua força e a sua beleza; o seu fundamento e a sua síntese é amar santa e ordenadamente. Donde necessariamente se segue o cumprir integralmente os próprios deveres, o não violar os direitos alheios, o considerar os bens naturais como inferiores aos sobrenaturais, e o antepor o amor de Deus a todas as coisas'" (Haurietis Aquas, 73).

Por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O Servo de Deus Pe. Reus e o "Prisioneiro do Sacrário"

Pax et bonum!

Aproveitando ainda o esplendor da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que ainda deve estar vivo na memória dos que participaram da Missa e da procissão, em quaisquer paróquias e dioceses, segue um pequeno trecho da vida do Servo de Deus Pe. Reus, onde se apontam alguns de seus exercícios de amor para com o Senhor Jesus no Santíssimo Sacramento.
O amor a Jesus Eucarístico do Pe. Reus teve desenvolvimento admirável. Ao tempo de sua juventude, a Comunhão frequente era bem rara. Apesar disso, desabrochou o amor à Eucaristia em João Batista Reus, na devota capelinha do Seminário Diocesano de Bamberg. O Rei do tabernáculo atraía-o. Batista consumira horas perante o sacrário.
Já feito sacerdote, esse amor aumentou notavelmente. Pois todos os dias contemplava o Cordeiro Imaculado sobre a ara do altar. E o Padre, por vocação, é guarda do tabernáculo. Como coadjutor de Neuhaus experimentou em si os extraordinários efeitos desse amor. A meditação diária, as visitas ao Santíssimo Sacramento fomentavam-lhe o amor ao Prisioneiro do Sacrário. (...)
Jesus o tratava com liberalidade verdadeiramente divina.
O Pe. Reus, porém, sabia ser reconhecido. Correspondia generosamente aos favores.
Fazia demorada ação de graças depois da Missa. Era o momento em que Jesus queria dispor inteiramente de sua alma. Durante o dia, o discípulo ia frequentemente à capela saudar ao Mestre. Ante o Santíssimo recitava todo o breviário e três terços. Quase cada hora fazia uma visita. E o primeiro assomo após uma graça recebida era prostrar-se aos pés do Prisioneiro Eucarístico para lhe agradecer de coração.
Nessas visitas, o seu coração comumente exalava eflúvios de amor, de espiritual embriaguez (...). Enquanto aí permanecia de joelhos, rompiam seguidamente raios de luz do tabernáculo, chamas de fogo, setas de amor que lhe feriam o coração. (...)
Ainda outro exercício nos prova o acendrado amor do Pe. Reus a Jesus Eucarístico: a adoração noturna, que fazia uma vez por semana, por via de regra. Outrora tentava fazê-la mais seguidamente. Constatou, porém, que o fatigava em demasia. Já em Neuhaus, (...) era essa uma de suas devoções prediletas.
Depois que a comunidade se tinha recolhido, portanto, às 21h30, ia à capela demorando-se aí até meia-noite. Ajoelhava-se no chão ou se prostrava humildemente com a face em terra e nessa posição ficava todo o tempo. Só mais tarde, quando um inchaço no joelho ou a saúde debilitada lhe impedia essa posição, ficava de pé. Não se ajoelhava no banco, nem muito menos se sentava. Pois aquilo devia ser um verdadeiro sacrifício, uma mortificação, uma participação da agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras.
Entrando em anos, teve que restringir a adoração a uma hora.
KOHLER, Leo. Vida do P. João Baptista Reus da Companhia de Jesus. 5a edição. Porto Alegre: Edições Paulinas, 1956. P. 135 a 138.

Que seu exemplo anime os sacerdotes dos dias de hoje, para que não se esqueçam das palavras do Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros (em sua edição mais nova), n. 68:

"A centralidade da Eucaristia deverá mostrar-se não só mediante a celebração digna e vivida do Sacrifício, mas também mediante a adoração frequente do Sacramento, de maneira que o presbítero se apresente como modelo do rebanho também na atenção devota e na meditação assídua feita na presença do Senhor no sacrário. É desejável que os presbíteros encarregados da direção de comunidades dediquem largos espaços de tempo à adoração comunitária – por exemplo, todas as quintas-feiras, os dias de oração pelas vocações, etc. – e reservem ao Santíssimo Sacramento do altar, mesmo fora da missa, atenções e honras superiores a qualquer outro rito e gesto. «A fé e o amor à Eucaristia não podem permitir que a presença de Cristo no Tabernáculo permaneça solitária». Impulsionados pelo exemplo de fé dos pastores, os fiéis procurarão ocasiões ao longo da semana para dirigir-se à Igreja e adorar nosso Senhor, presente no Sacrário.
Momento privilegiado da adoração eucarística pode ser a celebração da Liturgia das Horas, a qual constitui, durante o dia, o verdadeiro prolongamento do sacrifício de louvor e de ação de graças que têm na Eucaristia o centro e a fonte sacramental".


Por Luís Augusto - membro da ARS