terça-feira, 28 de outubro de 2014

Pequena história do Rosário

Pax et bonum!

Depois de um considerável tempo sem postagens, estamos de volta.
Aproveitando os últimos dias deste mês do Rosário, traduzimos parte do artigo da sempre recomendada New Catholic Encyclopedia sobre a história desta devoção tão cara. O texto que segue é da parte sobre o rosário na Igreja Ocidental. Portanto, o artigo não foi traduzido completamente.
Um ponto que talvez levante discussão é a objeção, com provas, à conhecida tradição de dar a São Domingos de Gusmão (1170?-1221) um papel decisivo à história do rosário. O leitor entenderá as razões com a leitura. Daqui, portanto, torna-se mais do que nunca infundada a crítica de que a recomendação das 5 novas meditações, relacionadas a 5 novos mistérios (os luminosos), por parte de São João Paulo II em 2002, seja "mudar o que Nossa Senhora estabeleceu". A devoção, por mais cara à terra e ao Céu, não teve estabelecimento divino em meio a uma revelação privada comprovada pela Igreja, mas surgiu quase que naturalmente, como se verá. É mais coerente afirmar, com o mesmo santo pontífice, que "ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milênio" (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, 1), embora se vejam origens mais remotas.
Ao inserir o novo ciclo (os mistério luminosos), ele diz (n. 19): "De tantos mistérios da vida de Cristo, o Rosário, tal como se consolidou na prática mais comum confirmada pela autoridade eclesial, aponta só alguns. Tal seleção foi ditada pela estruturação originária desta oração, que adotou o número 150 como o dos Salmos. Considero, no entanto, que, para reforçar o espessor cristológico do Rosário, seja oportuna uma inserção que, embora deixada à livre valorização de cada pessoa e das comunidades, lhes permita abraçar também os mistérios da vida pública de Cristo entre o Batismo e a Paixão".
São João Paulo II, citando (n. 4) o agora Bem-aventurado Paulo VI, afirma: "esta oração não só não se opõe à Liturgia, mas serve-lhe de apoio, visto que introduz nela e dá-lhe continuidade, permitindo vivê-la com plena participação interior e recolhendo seus frutos na vida quotidiana".
Esperamos que este texto ajude nossos leitores a olharem com mais amor para esta devoção que ajudou grandes santos a ganharem o Céu.

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O Rosário
"O Rosário", diz o Breviário Romano, "é uma certa forma de oração onde rezamos quinze décadas ou dezenas de Ave Marias com um Pai Nosso entre cada dezena, enquanto a cada uma recordamos sucessivamente, em piedosa meditação, um dos mistérios de nossa Redenção". A mesma leitura para a Festa do Santo Rosário informa-nos que, quando a heresia Albigense estava a devastar a região de Toulouse, na França, São Domingos logo pediu fervorosamente o auxílio de Nossa Senhora e foi instruído por ela, assim diz a tradição, a pregar o Rosário entre o povo como antídoto contra a heresia e o pecado. Daquele tempo em diante esta maneira de oração foi "maravilhosamente difundida e desenvolvida [promulgari augerique coepit] por São Domingos, que diferentes Sumos Pontífices, em suas cartas apostólicas das épocas passadas, declararam ser o instituidor e o autor da mesma devoção". Que vários papas tenham dito isto é indubitavelmente verdadeiro, e entre os restantes nós temos uma série de encíclicas, começando em 1883, pelo Papa Leão XIII, em que, ao recomendar esta devoção aos fiéis com fervorosas palavras, assumem a instituição do Rosário por São Domingos como fato historicamente estabelecido. (...) Aqui nos deteremos sobre a controversa questão de sua história, um assunto que, tanto na metade do séc. XVIII como novamente em anos recentes, tem atraído muita atenção.
Comecemos com certos fatos que não serão contestados. É toleravelmente óbvio que sempre que alguma oração tiver de ser repetida um grande número de vezes, há a necessidade de se recorrer a algum aparato mecânico menos problemático do que a contagem nos dedos. Em quase todos os países, então, encontramo-nos com algo da natureza dos contadores-de-oração ou contas de rosário. Mesmo na antiga Nínive uma escultura foi encontrada sendo descrita por Lavard em sua obra "Monuments" (I, quadro 7): "Duas fêmeas aladas diante de uma árvore sagrada em atitude de oração; elas levantam a mão direita estendida e seguram na esquerda uma guirlanda ou rosário". O que quer que seja, é certo que entre os maometanos (NT: o islã foi fundado no séc. VII) a Tasbih ou corda de contas, consistindo de 33, 66 ou 99 contas, e usada para contar devotamente os nomes de Alá, tem sido usada por vários séculos. Marco Polo, para sua surpresa, visitando o Rei de Malabar, no séc. XIII, encontrou-o usando um rosário de 104 (ou 108) pedras preciosas para contar suas orações. São Francisco Xavier e seus companheiros ficaram igualmente surpresos ao ver que rosários eram universalmente familiares aos budistas do Japão.
Muçulmano rezando com tasbih
Monge budista rezando com nenju
Entre os monges da Igreja Grega ouvimos falar do kombologion ou komboschoinion (komboskini; em russo chotki), uma corda com 100 nós usada para contar genuflexões e sinais da cruz. 
Monge oriental rezando com komboskini
Similarmente, junto da múmia de um asceta cristão, Thaias, do séc. IV, recentemente desenterrada em Antinöe no Egito, foi encontrada uma espécie de tabuleiro de cribbage (um tipo de jogo de baralho) com buracos, que geralmente se pensou ser um acessório para contar orações, do qual Palladius e outras antigas autoridades nos deixaram um relato. Um certo Paulo, o Eremita, no séc. IV, impôs sobre si a tarefa de repetir 300 orações, segundo uma forma estabelecida, todos os dias. Para isto, ele colhia 300 pedrinhas e jogava uma fora a cada oração feita (Palladius, Hist. Laus., xx; Butler, II, 63). É provável que outros ascetas que numeravam suas orações por centenas adotaram alguma forma similar  (Cf. "Vita S. Godrici", cviii.). De fato, quando encontramos um privilégio papal dirigido aos monges de Santo Apolinário in Classe, requerendo deles, em gratidão pelos benefícios papais, a reza de 300 Kyrie eleison duas vezes por dia (veja-se o privilégio de Adriano I, em 782, em Jaffe-Löwenfeld, n. 2437), deve-se pensar que algum acessório para contagem terá sido quase necessariamente usado para este fim.
Todavia, houve outras orações a serem contadas ligadas mais estreitamente ao Rosário do que Kyrie eleisons. Em antiga data, nas ordens monásticas, estabeleceu-se o costume não de celebrar a Missa, como sufrágio pelos irmãos falecidos, mas de rezar orações vocais. Para este propósito a recitação privada dos 150 salmos, ou de 50 salmos, um terço, era constantemente usada. Por volta do ano 800 aprendemos do Pacto entre as Abadias de São Galo e Reichenau ("Mon. Germ. Hist.: Confrat.", Piper, 140) que para cada irmão falecido todos os sacerdotes rezariam uma Missa e também 50 salmos. Uma carta em Kemble (Cod. Dipl., I, 290) prescreve que cada monge deve cantar duas cinquentenas (twa fiftig) pelas almas de certos benfeitores, enquanto cada sacerdote deve cantar duas Missas e cada diácono ler duas Paixões. Mas com o passar do tempo, e o fato de os conversi, ou irmãos leigos, a maioria analfabetos, se distinguirem dos monges do coro, sentiu-se que seria importante que eles usassem alguma forma simples de oração no lugar dos salmos, a que estavam obrigados os irmãos com mais instrução. Assim lemos nos "Ancient Customs of Cluny", coletados por Udalrio em 1096, que, quando a morte de algum irmão distante era anunciada, todo sacerdote deveria oferecer a Missa, e todo não-sacerdote deveria rezar 50 salmos ou repetir 50 vezes o Pater noster/Pai nosso ("quicunque sacerdos est cantet missam pro eo, et qui non est sacerdos quinquaginta psalmos aut toties orationem dominicam", P.L., CXLIX, 776). De modo similar, entre os Cavaleiros Templários, cuja regra data de cerca de 1228, aos cavaleiros que não podiam estar no coro, era pedido que rezassem a Oração do Senhor 17 vezes e, quando da morte de algum dos irmãos, que rezassem o Pater Noster 100 vezes por dia durante uma semana.
Para contar de forma correta, há toda razão para se acreditar que já nos séc. XI e XII entrou em prática o uso de pedrinhas, grãos ou discos de osso unidos por um cordão. Em todo caso é certo que a Condessa Godiva de Coventry (por volta de 1075, ou seja, séc. XI) deixou por testamento, à imagem de Nossa Senhora de um certo mosteiro, "o bracelete de pedras preciosas que ela arranjou num cordão para que, passando uma a uma com os dedos, pudesse contar suas orações com exatidão" (Malmesbury, "Gesta Pont.", Rolls Series 311). Outro exemplo parece ocorrer no caso de Santa Rosália (1160), em cujo túmulo cordas de contas semelhantes foram descobertas. Ainda mais importante é o fato de tais cordas de contas serem conhecidas por toda a Idade Média - e em algumas línguas continentais são conhecidas até hoje como "paternosters". A evidência para isso é claríssima e vem de todos os cantos da Europa. Já no séc. XIII os feitores desses acessórios, que eram conhecidos como "paternostereiros", em quase todo lugar formavam uma associação artesanal de considerável importância. O "Livre des métiers" de Stephen Boyleau, por exemplo, dá uma informação completa sobre as quatro associações de paternôtriers em Paris no ano de 1268, enquanto a Paternoster Row em Londres ainda preserva a memória da rua em que se reuniam seus colegas artesãos ingleses. Agora, a inferência óbvia é que um utensílio que foi persistentemente chamado de "Paternoster", ou em latim fila de paternoster, numeralia de paternoster, e por aí vai, foi designado, ao menos originalmente, para se contar Pai Nossos.
Desenho do séc. XV representando um "paternostereiro"
Esta inferência, desenhada e ilustrada com muito proveito pelo Pe. T. Esser, OP, em 1897, torna-se uma certeza prática quando recordamos que foi apenas da metade do séc. XII que a Ave Maria foi tomada em geral como forma de devoção. É moralmente impossível que o bracelete de joias da Senhora Godiva possa ter sido usado para contar Ave Marias. Por isso não pode haver dúvidas de que as cordas de contas de oração foram chamadas de "paternosters" porque, por um longo tempo, foram principalmente usadas para numerar repetições da Oração do Senhor.
Quando, todavia, a Ave Maria entrou em uso, parece que a consciência de que ela era, em sua natureza, uma saudação, antes que uma oração, induziu ao costume de repeti-la várias vezes, acompanhada de genuflexões ou outro ato externo de reverência. Assim como acontece hoje quando se dão muitas saudações, ou no aplauso dado a alguém que se apresentou em público, ou nos círculos de gracejos entre estudantes por ocasião de ingresso ou partida de alunos, também a honra tributada por tais saudações era medida por números e repetição. Além disso, desde que a recitação dos Salmos divididos em grupos de 50 tornou-se, como inumeráveis documentos atestam, a forma favorita de devoção para religiosos e pessoas instruídas, os que eram simples ou mais ocupados amavam, pela repetição de 50, 100 ou 150 saudações da Ave Maria, sentir que estavam imitando a prática dos mais exaltados servos de Deus. Em todo caso, é certo que, no decorrer do séc. XII e antes do nascimento de São Domingos, a prática de recitar 50 ou 150 Ave Marias tinha em geral se tornado familiar. As evidências mais conclusivas disso são dadas pelas "Mary-legends", ou histórias de Nossa Senhora, que obtiveram larga circulação na época. A história de Eulália, em particular, segundo a qual um devoto da Bem-aventurada Virgem, acostumado a rezar 150 Ave, foi por ela recomendado a rezar apenas 50, porém mais lentamente, foi mostrada por Mussafia (Marien-legenden, Pts I, ii) como de data inquestionavelmente anterior. Não menos conclusivo é o que se diz de Santo Alberto (+1140) através de seu biógrafo contemporâneo: "Cem vezes por dia ele dobrava os joelhos, e 50 vezes ele postrava-se levantando-se com os dedos das mãos e dos pés, enquanto repetia a cada genuflexão: 'Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre'". Esta era, então, toda a Ave Maria que era rezada, e o fato de todas as palavras ainda não constarem implica que a fórmula ainda não tinha se tornado universalmente familiar. Não menos notável é o relato de um exercício devocional similar que ocorria nos manuscritos do Corpus Christi College (em Cambridge, Inglaterra) da Ancren Riwle (código de regras para a vida de mulheres anacoretas, do séc. XIII). Este texto, declarado por Kolbing como tendo sido escrito na metade do séc. XII (Englische Studien, 1885, P. 116), em todo caso dificilmente pode ser posterior a 1200. A passagem em questão dá diretrizes de como 50 Ave deveriam ser rezadas divididas em grupos de 10, com prostrações e outros gestos de reverência (cf. The Month, Julho, 1903). Ao encontrarmos um tal exercício recomendado a um pequeno grupo de anacoretas num canto da Inglaterra, 20 anos antes de qualquer fundação dominicana ser feita neste país, resulta difícil resistir à conclusão de que o costume de recitar 50 ou 100 Ave foi se tornando familiar, independente e antes da pregação de São Domingos. Por outro lado, a prática de meditar certos mistérios definidos, o que corretamente é descrito como a própria essência da devoção do Rosário, parece só ter surgido em data muito posterior à morte de São Domingos. É difícil provar o contrário, mas o Pe. T. Esser, OP mostrou (no periódico "Der Katholik", de Mainz, Out., Nov., Dez., 1897) que  a introdução desta meditação durante a recitação das Ave foi justamente atribuída a um certo monge cartuxo chamado Domingos, o prussiano. Em todo caso, é certo que no fim do séc. XV prevalecia a maior variedade possível de métodos de meditação, e que aos 15 mistérios hoje em dia geralmente aceitos não tinham aderido uniformemente nem os próprios dominicanos (cf. Schmitz, "Rosenkranzgebet", p. 74; Esser em "Der Katholik", 1904-06). Resumindo, temos evidência positiva de que ambas as invenções das contas como acessório de contagem de orações e também da prática da repetição de 150 Ave não podem ser atribuídas a São Domingos, porque elas são notavelmente mais antigas que a época dele. Além disso, estamos certos de que a meditação dos mistérios não foi introduzida até 200 anos depois de sua morte. Somos levados a perguntar: o que nos foi deixado de que São Domingos possa ser chamado o autor?
Essas razões positivas para desacreditar a tradição corrente poderiam, em certa medida, ser ignoradas como refinamentos arqueológicos, se houvesse alguma evidência satisfatória que mostrasse que São Domingos se identificou com o Rosário pré-existente e tornou-se seu apóstolo. Mas aqui nos deparamos com um absoluto silêncio. Das oito ou nove antigas Vidas do santo, nenhuma faz a menor alusão ao Rosário. As testemunhas que deram evidências na causa de sua canonização são igualmente reticentes. Na grande coletânea de documentos reunidos pelos padres Balme e Lelaidier, OP, em seu "Cartulaire de St. Dominique" a questão é cuidadosamente ignorada. As antigas constituições das diferentes províncias da Ordem foram examinadas, e muitas impressas, mas nenhuma traz qualquer referência a esta devoção. Temos centenas, até milhares de manuscritos contendo tratados devocionais, sermões, crônicas, vidas de Santos, etc., escritos pelos Frades Pregadores entre 1220 e 1450; mas nenhuma passagem verificável foi produzida que fale do Rosário como instituído por São Domingos ou mesmo que faça desta devoção uma especialmente querida pelos seus filhos. As cartas e outras atas dos conventos dominicanos para homens e mulheres, como M. Jean Guiraud aponta com ênfase em sua edição do Cartulaire de La Prouille (I, xxxxxviii), são igualmente mudas. Também não encontramos qualquer sugestão de uma conexão entre São Domingos e o Rosário nas pinturas e esculturas destes dois séculos e meio. Até o túmulo de São Domingos em Bolonha e os inumeráveis afrescos de Fra Angelico que representam os irmãos de sua Ordem ignoram o Rosário completamente.
Impressionados por esta conspiração de silêncio, os Bolandistas, na tentativa de traçar até sua fonte a origem da tradição corrente, encontraram que todas as pistas convergiam para um ponto, a pregação do dominicano Alano de la Roche (NT: venerado por muitos como "bem-aventurado", embora nunca tenha sido beatificado) entre os anos 1470-75. Sem dúvida foi ele quem primeiro sugeriu a ideia de que a devoção do "Saltério de Nossa Senhora" foi instituída ou revisada por São Domingos. Alano era um homem bastante entusiasmado e devoto, mas, como as maiores autoridades admitem, era cheio de ilusões, e baseava suas revelações em testemunhos imaginários de escritores que nunca existiram (cf. Quétif e Echard, "Scriptores O.P.", 1, 849). Sua pregação, porém, era ouvida com muito êxito. As Confrarias do Rosário, organizadas por ele e seus colegas em Douai, Colônia, e em qualquer parte tinham grande popularidade e levaram à impressão de vários livros, todos mais ou menos impregnados com as ideias de Alano. Indulgências foram concedidas para a boa obra que estava sendo feita e os documentos concedendo estas indulgências aceitavam e repetiam, como era natural naquela época não-crítica, os dados históricos que foram inspirados pelos escritos de Alano e que eram dados de acordo com a prática usual dos próprios promotores das confrarias. Foi assim que a tradição da autoria dominicana cresceu. As primeiras Bulas falam desta autoria com certa reserva: "Prout in historiis legitur" ("Como se lê nas histórias"), diz Leão X na mais antiga de todas (Pastoris aeterni, 1520); mas a maioria dos papas seguintes foi menos resguardada.
Duas considerações apoiam fortemente a visão da tradição do Rosário acima exposta. Primeiro é o gradual abandono de quase toda coisa notável que vez ou outra foi usada para reivindicar a suposta autoria de São Domingos. Touron e Alban Butler apelavam para as Memórias de um certo Luminosi de Aposa, que dizia ter ouvido São Domingos pregar em Bolonha, mas há longo tempo provou-se que essas Memórias foram forjadas. Danzas, Von Loe e outros deram demasiada importância a um afresco em Muret; mas o afresco não existe mais, e há boas razões para crer que o rosário visto no afresco foi pintado em data posterior ("The Month", Fev. 1901, p. 179). Mamachi, Esser, Walsh e Von Loe citam alguns alegados versos contemporâneos sobre Domingos relacionado a uma coroa de rosas; o manuscrito original desapareceu, e é certo que os escritores citados imprimiram Dominicus onde Benoist, a única pessoa que viu o manuscrito, lê Dominus. O famoso testamento de Anthony Sers, que deixava um pedido à Confraria do Rosário em Palencia, em 1221, foi apontado como uma peça de testemunho conclusiva por Mamachi, mas hoje em dia as autoridades Dominicas admitem ser forjado ("The Irish Rosary", Jan., 1901, p. 92). De modo similar, uma suposta referência ao assunto por Tomás de Kempis na "Chronicle of Mount St. Agnes" é puro engano ("The Month", Fev., 1901, p. 187). Com isto pode-se notar a mudança de tom observada em autorizados trabalhos de referência. No "Kirchliches Handlexikon" de Munique e na última edição do "Konversationslexikon" de Herder, nenhuma tentativa se faz em defender a tradição que liga São Domingos pessoalmente com a origem do Rosário. Outra consideração que não pode ser desenvolvida é a multidão de legendas conflitantes sobre a origem desta devoção do "Saltério de Nossa Senhora" que prevaleceu até o fim do séc. XV, bem como a antiga diversidade de prática na forma de o recitar. Estes fatos não concordam bem com a suposição de que ela teve sua origem numa revelação definida e que foi zelosamente protegida desde o começo por uma das mais ilustres e influentes ordens religiosas. Não pode haver dúvida de que a imensa difusão do Rosário e de suas confrarias nos tempos modernos, e da vasta influência que exerceu são principalmente devidas aos trabalhos e às orações dos filhos de São Domingos, mas a evidência histórica serve claramente para mostrar que seu interesse no assunto foi despertado somente nos últimos anos do séc. XV.
Que o Rosário seja preeminentemente a oração do povo adaptada para o uso dos simples e dos letrados não se prova apenas pelas longas séries de afirmações papais, mas pela experiência diária de todos que são familiares a ele. A objeção tão frequentemente feita contra suas "vãs repetições" é dada tão somente por aqueles que falharam em perceber quão inteiramente o espírito do exercício reside na meditação dos mistérios fundamentais da nossa fé. Para os familiarizados, as palavras da saudação angélica formam apenas uma espécie de acompanhamento meio-consciente, algo que podemos comparar ao "Santo, Santo, Santo" dos coros celestes, e certamente não sem sentido. E não é necessário insistir que a livre crítica da origem histórica da devoção, que não envolve nenhum ponto de doutrina, seja compatível com uma plena apreciação dos tesouros devocionais que este pio exercício põe ao alcance de todos.
Com respeito à origem do nome, a palavra rosarius significa uma guirlanda ou buquê de rosas, e era não pouco usada num sentido figurativo, por ex: como título de um livro, para denotar uma antologia ou coleção de trechos. Uma antiga legenda que, depois de atravessar toda a Europa, penetrou até na Abissínia, ligava este nome a uma história de Nossa Senhora, que foi vista pegando botões de rosa da boca de um jovem monge, quando ele estava rezando Ave Marias, e entrelaçando-as numa guirlanda que punha sobre a cabeça. Uma versão alemã em métrica desta história ainda existe, datando do séc. XIII. O nome "Saltério de Nossa Senhora" também pode ser sua origem traçada para o mesmo período. Corona ou chaplet (no inglês) sugerem a mesma ideia que rosarium. O velho nome inglês encontrado em Chaucer e em outros lugares era "pair of beads" (par de contas), em que a palavra bead originalmente significava orações.

Fonte: Thurston, Herbert, and Andrew Shipman. "The Rosary." The Catholic Encyclopedia. Vol. 13. New York: Robert Appleton Company, 1912. Disponível em http://www.newadvent.org/cathen/13184b.htm.

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS