segunda-feira, 30 de maio de 2016

Natureza e sentido da coroação da imagem da Virgem Maria

Pax et bonum!
Salve Maria!

Nestes últimos dois dias do mês de maio, dedicado tão carinhosamente à devoção filial para com a Santíssima Virgem Maria, gostaríamos de partilhar um link para o Ritual de Coroação de Imagem da Bem-aventurada Virgem Maria (em pdf).
Trata-se aqui do rito de coroação de uma imagem célebre, a quem o povo já acorre com bastante confiança. 
É conveniente que esta coroação seja feita por um bispo. Daqui se entende, como afirma o autor da Apresentação, D. Clemente Isnard, OSB, que não se trata de um rito para as coroações populares no fim do mês de maio. Todavia, a explicação do rito, as rubricas, a estrutura e mesmo parte das orações podem servir de inspiração.
Da explicação do rito, temos uma breve e interessante catequese:

Natureza e sentido da coroação da imagem da Virgem Maria

O costume de representar Nossa Senhora coroada com diadema real foi-se propagando desde os tempos do Concílio de Éfeso, tanto no Oriente como no Ocidente. Os artistas cristãos frequentemente pintavam a gloriosa Mãe do Senhor assentada em trono real, ornada de insígnias régias e rodeada de uma corte numerosa de anjos e santos. Nessas imagens por vezes aparece o divino Redentor cingindo a Mãe com coroa refulgente.
(...)
[Pelo rito de coração de uma imagem de Nossa Senhora,] a Igreja proclama que com razão se deve considerar e invocar a Virgem Maria como Rainha, pois ela é:
- Mãe do Filho de Deus e do Rei Messias: de fato Maria é Mãe de Cristo, do Verbo encarnado, no qual foi criado "tudo o que existe no céu e na terra, o visível e o invisível, Tronos, Dominações e Potestades", Mãe do Filho de Davi, do qual o anjo profetizou: "Será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai, e reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e seu reino não terá fim"; por isso Isabel, cheia do Espírito Santo, saudou Maria, grávida de Cristo, como "Mãe do Senhor".
- Companheira santa do Redentor: a Virgem Maria, nova Eva, por desígnio eterno de Deus, teve parte eminente na obra da salvação, pela qual Cristo Jesus, novo Adão, nos remiu e adquiriu, não com ouro ou prata corruptível, mas com o próprio sangue e fez de nós um reino para o nosso Deus. 
- Discípula perfeita de Cristo: a Virgem de Nazaré, consentindo no projeto divino, progredindo na peregrinação da fé, ouvindo e guardando a Palavra de Deus, e conservando fielmente a união com o Filho até à cruz, mereceu de maneira superior "a coroa da justiça", "a coroa da vida", "a coroa da glória", prometida aos fiéis discípulos de Cristo; portanto, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste. E, para que mais plenamente estivesse conforme a seu Filho, Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16) e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como "Rainha do Universo".
- Membro supereminente da Igreja: a Serva do Senhor, que se tornou a perfeição final do velho Israel e o santo começo do novo Povo de Deus, é "a porção máxima, a porção ótima, a porção principal, a porção distintíssima da Igreja"; bendita entre as mulheres, pelo singular encargo, que lhe foi confiado para com Cristo e todos os membros do seu corpo místico, é também pela abundância de virtudes e plenitude de graça que ela se eleva sobre a raça eleita, sacerdócio real, gente santa que é a Igreja. Pois a glória da Santíssima Virgem, filha de Adão, irmã dos homens, não só honra o povo de Deus, mas ainda enobrece todo o gênero humano.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

É uma presença verdadeira, real e substancial!

Pax et bonum!
Salve Maria!

Poucos anos após o encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II, o papa Bem-aventurado Paulo VI proclamou um Ano da Fé. No encerramento deste Ano, o mesmo Pontífice proclamou uma Solene Profissão de Fé, que ficou conhecida simplesmente como "Credo do Povo de Deus".
Desta Solene Profissão de Fé, dada a passagem, ontem, da Solenidade do Santíssimo Corpo de Cristo (nove semanas após a Quinta-feira Santa, em que celebramos a instituição do Sacrifício e do Sacramento da Santíssima Eucaristia, iniciando o Sacro Tríduo Pascal), destacamos aqui os números 24, 25 e 26, sobre a Santa Missa e a Sagrada Eucaristia. Que sirvam para renovar a fé, sobretudo nos corações tíbios e nas almas ignorantes.

Cremos que a Missa, celebrada pelo sacerdote, que representa a pessoa de Cristo, em virtude do poder recebido no sacramento da Ordem, e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário, que se torna sacramentalmente presente em nossos altares. Cremos que, como o Pão e o Vinho consagrados pelo Senhor, na última ceia, se converteram no seu Corpo e Sangue, que logo iam ser oferecidos por nós na Cruz; assim também o Pão e o Vinho consagrados pelo sacerdote se convertem no Corpo e Sangue de Cristo que assiste gloriosamente no céu. Cremos ainda que a misteriosa presença do Senhor, debaixo daquelas espécies que continuam aparecendo aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial. 

Neste sacramento, pois, Cristo não pode estar presente de outra maneira a não ser pela mudança de toda a substância do pão no seu Corpo, e pela mudança de toda a substância do vinho no seu Sangue, permanecendo apenas inalteradas as propriedades do pão e do vinho, que percebemos com os nossos sentidos. Esta mudança misteriosa é chamada pela Igreja com toda a exatidão e conveniência transubstanciação. Assim, qualquer interpretação de teólogos, buscando alguma inteligência deste mistério, para que concorde com a fé católica, deve colocar bem a salvo que na própria natureza das coisas, isto é, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de sorte que o Corpo adorável e o Sangue do Senhor Jesus estão na verdade diante de nós, debaixo das espécies sacramentais do pão e do vinho, conforme o mesmo Senhor quis, para se dar a nós em alimento e para nos associar pela unidade do seu Corpo Místico.

A única e indivisível existência de Cristo nosso Senhor, glorioso no céu, não se multiplica mas se torna presente pelo Sacramento, nos vários lugares da terra, onde o Sacrifício Eucarístico é celebrado. E depois da celebração do Sacrifício, a mesma existência permanece presente no Santíssimo Sacramento, o qual no sacrário do altar é como o coração vivo de nossas igrejas. Por isso estamos obrigados, por um dever certamente suavíssimo, a honrar e adorar, na Sagrada Hóstia que os nossos olhos vêem, ao próprio Verbo Encarnado que eles não podem ver, e que, sem ter deixado o céu, se tornou presente diante de nós.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Ad Petri Sedem" - Documentário sobre a Peregrinação Populus Summorum Pontificum 2015

Pax et bonum!

Saiu há algumas semanas, legendado em português, o documentário (cerca de 26min) sobre a quarta edição da Peregrinação Populus Summorum Pontificum, ou seja, a edição do ano passado, 2015. Esta peregrinação é chamada de "Ad Petri Sedem" (= à Sé de Pedro).
Neste ano a Peregrinação acontecerá de 27 a 30 de outubro.
O site da Peregrinação define-a/explica-a assim:
A cada ano, desde 2012, o Coetus Internationalis Summorum Pontificum reúne em Roma fiéis e sacerdotes de todo o mundo que são ligados à forma extraordinária do Rito Romano (a Missa Latina e Gregoriana, celebrada segundo o Missal de São João XXIII, de 1962) para mostrarem seu desejo de tomar parte na nova evangelização.
Durante três dias, com a assistência da paróquia pessoal da Santíssima Trindade dos Peregrinos, os participantes tornam-se testemunhas da eterna juventude da liturgia tradicional. No sábado, após a Adoração Eucarística e a procissão pelas ruas da Cidade Eterna, uma Missa Solene é celebrada na Basílica de São Pedro. O celebrante em 2012 foi o Cardeal Cañizares Llovera, prefeito emérito da Congregação para o Culto Divino; em 2013 foi o Cardeal Castrillón Hoyos, prefeito emérito da Congregação para o Clero, e Cardeal Burke, prefeito emérito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, em 2014.
Em 2015, a Missa em São Pedro foi celebrada no sábado, 24 de outubro, pelo Bispo D. Laise, ofm cap, bispo emérito de San Luis (Argentina), enquanto o sermão foi feito pelo Arcebispo D. Negri de Ferrara-Comacchio (Itália).
A peregrinação é colocada sob a proteção de São Filipe Néri.
Ad Petri Sedem VOSTPT from Les Films du Lutrin on Vimeo.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Encontrando o que nunca deveria ter se perdido: Sacerdotes e a Forma Extraordinária

Quatro padres do pós-Vaticano II falam sobre como chegaram a conhecer e a amar celebrar a Missa na Forma Extraordinária [19/08/2014]

Depois que o Papa [Bem-aventurado] Paulo VI introduziu a Missa segundo o Novus Ordo, em 1969, a forma mais antiga do Rito Romano - às vezes chamada de Missa Tridentina, Missa Latina Tradicional e, mais recentemente, Forma Extraordinária - desapareceu virtualmente de muitas dioceses. Sua celebração foi severamente restringida, se não banida totalmente, e tornou-se uma fonte de controvérsia.
A ânsia entre alguns pela forma mais antiga da Missa, junto com decisões dos Papas [São] João Paulo II e Bento XVI, levaram a um uso maior e à desestigmatização de sua celebração com o passar dos anos. A mais significante dessas decisões foi o Motu Proprio Summorum Pontificum, do Papa Bento, em 2007, que declarou que qualquer sacerdote pode celebrar a forma mais antiga da Missa de sua própria vontade sem qualquer permissão especial de um bispo. Hoje, participantes das Missas na Forma Extraordinária são frequentemente jovens, enquanto decai o número de católicos mais velhos que permaneceram devotados à Missa de antes de 1969.
Catholic World Report conversou com quatro sacerdotes que regularmente celebram a Forma Extraordinária da Missa, sendo que cada um passou a maior parte de sua vida participando do, e a maior parte de seu sacerdócio celebrando o, Novus Ordo.

"Ambas as formas podem coexistir"
Pe. Mark Mazza serviu por vários anos como pastor da Igreja Estrela do Mar, próximo à Ponte Golden Gate na Arquidiocese de San Francisco, e como capelão da Sociedade da Missa Latina Tradicional de San Francisco. Recentemente iniciou uma licença médica de seis meses.
Ordenado sacerdote em 1980, Pe. Mazza celebrou o Novus Ordo por mais de 30 anos, quando o Arcebispo de San Francisco, D. Salvatore Cordileone, pediu-lhe para iniciar uma Missa na Forma Extraordinária regular na paróquia em 2012. Ele aceitou, e passou vários meses aprendendo suas precisas rubricas.
Há muito tempo Pe. Mazza lamentou o fim da celebração da forma mais antiga da Missa em várias dioceses após o Concílio Vaticano II. "Eu sempre pensei nisso como uma grande perda, mesmo quando eu era criança", disse. "Nós a celebramos por tantos séculos e ela entrou num eclipse. É uma bela parte de nossa vida de fé que não deveria ter se perdido".
Ele rapidamente se agradou com a celebração da Forma Extraordinária, e planeja continuar celebrando-a privadamente enquanto estiver de licença médica. "Eu realmente gosto dela", explica. "Ela tem uma qualidade mística, contemplativa, misteriosa, com seu uso do Latim, os gestos, a posição do altar e as orações, que são mais ornadas do que as que temos hoje. Eu me vejo celebrando a Missa tradicional bem mais do que a Forma Ordinária".
Pe. Mazza enfatizou que, de acordo com o Papa Bento, a "Missa Antiga" não é sum rito separado, mas parte de um único rito com duas formas, a Ordinária e a Extraordinária. "Acredito que não precisa ser uma questão de ou uma ou outra, mas que ambas as formas podem coexistir", diz.
A Missa na Forma Extraordinária em Estrela do Mar traz mais de 200 participantes nos fins de semana, de todos os grupos étnicos. O alto custo de se viver em San Francisco tem sido um inconveniente, apontou Pe. Mazza, já que poucas jovens famílias podem bancar a vida na cidade. Disse, "temos um monte de igrejas na cidade, mas precisamos de pessoas para enchê-las".
A reação dos colegas clérigos do Pe. Mazza à sua promoção da Forma Extraordinária tem sido mista. Vários apoiam, diz ele, mas outros opõem-se como a algo "contrário ao Concílio Vaticano II". "Eles gostariam de vê-la banida", diz. O Arcebispo Cordileone tem sido um grande apoiador, aponta, e virá à paróquia em 14 de setembro para celebrar uma Missa Pontifical Solene.
Dois sacerdotes do Oratório de São Filipe Néri agora ajudam na paróquia e comprometeram-se em continuar a oferecer a Missa na Forma Extraordinária.
Pe. Mazza é grato pela oportunidade de aprender e celebrar regularmente a forma mais antiga da Missa, que ele vê como "refrescante". "Nunca me canso dela", diz. "Fico à espera de ir para o altar e celebrá-la todo dia. De fato, celebrar a Missa é o ponto alto do meu dia".

Mais batismos do que funerais
Pe. Paul Beach é o pastor da Igreja de São Martinho de Tours, em Louisville, Kentucky. A paróquia foi fundada em 1853, e serviu uma comunidade de imigrantes alemães. É uma igreja bela, histórica, nas proximidades do centro da cidade, que tem experimentado um quê de renascimento nos últimos anos. A paróquia teve primeiramente permissão para reviver a "Missa antiga" em 1988. Hoje, é uma das três paróquias na arquidiocese a regularmente oferecer a Missa na Forma Extraordinária.
Pe. Beach, 38 anos, é rápido em apontar que celebra a forma mais antiga da Missa por escolha, não por um senso de nostalgia. "Eu nasci 10 anos depois do fim do Concílio Vaticano II, e vários anos depois das mudanças litúrgicas serem implementadas", diz. "Minhas únicas lembranças são da Forma Ordinária, começando nos anos 70 até os 80".
Ele nasceu em Louisville, e estudou o ensino médio numa escola dos Irmãos Xaverianos. A escola de meninos exigia que os estudantes aprendessem uma língua estrangeira; as escolhas tipicamente eram Espanhol, Alemão e Francês. O Latim era oferecido, mas da classe de 350 estudantes, apenas Pe. Beach e 6 outros meninos escolheram o Latim. Ninguém no quadro de professores ensinava Latim, então o Ir. John Joseph, de 83 anos, que morava na comunidade de retiro dos Irmãos Xaverianos, aceitou lecionar. "Foi uma experiência que influenciou a todos nós", lembra Pe. Beach.
Ir. John Joseph usava textos da Missa Antiga para suas instruções. Pe. Beach inconscientemente aprendeu as orações da Missa Antiga sem perceber de onde eram as orações.
Em 1988, o pastor de São Martinho de Tours, Pe. Vernon Robertson, uniu-se aos paroquianos para pedir a D. Thomas Kelly, Arcebispo de Lousiville, a permissão para trazerem de volta a Missa Tridentina à paróquia. O arcebispo aceitou. Ir. John Joseph levou o futuro Pe. Beach e seus colegas adolescentes para a Missa Tridentina em São Martinho. Pe. Beach recorda, "eu sempre fui católico e nunca tinha experimentado a Missa daquele jeito. Eu não imaginava que tal Missa existisse. Fiquei encantado por ela".
Ele se viu atraído pela atmosfera pacífica e meditativa da forma mais antiga da Missa. Ele gostou de seu "teocentrismo" e do fato de ser ad orientem (com o sacerdote voltado para o Oriente, na mesma direção do povo. "As orações são orientadas para Deus, com o sacerdote falando em nome do povo", explica.
Para Pe. Beach, celebrar a Missa ad orientem era a maior diferença entre as duas formas. Ele diz que celebrar ad orientem resultou num menor foco no sacerdote. "Quando celebro a Missa, ela tem pouco a ver comigo, sacerdote, e mais a ver com Deus", diz. "A cruz é a imagem que vemos, que dá um sentimento de sacrifício enquanto nos aproximamos do topo do Calvário".
Pe. Beach pediu a seus pais que o levassem regularmente para São Martinho, e ele começou a servir na Missa Tridentina. Aos 17 anos, entrou no seminário e foi ordenado aos 25 anos em 2001. Durante seu tempo no seminário, aponta, ele teve que diminuir a ênfase de seu interesse pela Missa Latina, já que demonstrar um elo tão forte poderia ter sido um impedimento à ordenação.
Um rodízio de padres mais velhos celebrou a Missa Tridentina em São Martinho, mas numa época sobrou apenas um sacerdote. Pe. Beach perguntou ao Arcebispo Kelly, em 2005, se ele poderia celebrar a Missa em São Martinho. O arcebispo aceitou e eventualmente Pe. Beach tornou-se o pastor de São Martinho.
Ele teve que aprender a celebrar a forma mais antiga da Missa por is mesmo, já que antes do Summorum Pontificum não havia workshops, como hoje. Ele afirma que de ter servido na Missa Antiga, quando adolescente, e estar familiarizado com o Latim foram coisas que o ajudaram.
Hoje, a maioria das Missas que Pe. Beach celebra são na Forma Ordinária, e celebra na Forma Extraordinária nos fins de semana. Cerca de 250 pessoas participam regularmente da Missa na Forma Extraordinária em São Martinho, e a maior parte é composta por pessoas de sua idade ou mais jovens. "Há quem se surpreenda pelo fato de atrairmos tantos jovens", diz ele. "Pensam erroneamente que as pessoas vêm para a Forma Extraordinária por razões nostálgicas".
Ele realiza bem mais batismos e casamentos do que funerais na paróquia, e acrescenta: "com um monte de bebês gritando".
São Martinho é uma das paróquias mais belas da arquidiocese. Seu interior contém um magnífico altar mor de mármore, janelas com vitrais coloridos, estatuário tradicional e relíquias de São Magno e São Bonosa. A igreja está aberta 24h por dia, com seguranças de prontidão. Há sete hospitais localizados nos limites da paróquia, diz Pe. Beach, logo pode-se encontrar pessoas rezando na igreja em todas as horas do dia.
O Arcebispo Joseph Kurtz está à frente da Arquidiocese de Louisville desde 2007. Um dos bispos de melhor perfil da nação, ele também é presidente da Conferência Católica dos Bispos dos Estados Unidos. Embora D. Kurtz não celebre a Missa na Forma Extraordinária, ele tem sido um grande amigo da paróquia, diz Pe. Beach. Visitou-a várias vezes e tem dado apoio aos sacerdotes que desejam aprender a Forma Extraordinária.
Pe. Beach acredita que alguma tensão que houve em torno da celebração da Missa antiga já foi abrandada. Entre seus irmãos presbíteros na arquidiocese, de fato, ele tem visto interesse de alguns padres da mesma idade e mais jovens em celebrá-la.
"Os católicos que queriam a Missa na Forma Extraordinária já foram vistos com desconfiança; eram vistos como cismáticos ou não aceitando os ensinamentos do Vaticano II", disse. "Mas houve uma normalização da Forma Extraordinária, um reconhecimento de que se trata de uma parte da riqueza da tradição da nossa Igreja".

Um sacrifício, não apenas um memorial
Pe. Peter Carota é um dos vigário da Paróquia Santa Catarina de Sena, em Phoenix, Arizona. Ele celebra ambas as formas da Missa na pobre paróquia, majoritariamente hispânica.
"A Missa Tridentina me transformou", disse. "Gosto de sua reverência e ela ajudou-me a ver a Missa como um sacrifício, não apenas um memorial".
Pe. Carota cresceu perto de Santa Cruz, no norte da California. Ele é um de 19 filhos, 13 dos quais foram adotados. A família participava da "extremamente progressista" Paróquia da Ressurreição em Aptos, California, e muito de seu catolicismo tinha um "foco em justiça social". "Tínhamos liturgias selvagens", ele lembra. "Você teria visto mulheres junto ao altar, fazendo a fração da Hóstia consagrada".
Pe. Carota diz que foi "muito liberal" em sua juventude, inclusive sendo "pró-escolha" na questão do aborto. Ele queria ser sacerdote quando menino, "mas o mundo sugou-me". Ele tornou-se um corretor de imóveis bem sucedido, mas mantinha um ativo interesse na Igreja Católica. Por nove anos operou a Cozinha Católica de São Francisco, que alimentava pessoas sem lar.
Ele fez extensas leituras e eventualmente "converteu-se" para o catolicismo tradicional. Ultimamente, decidiu vender as propriedades que tinha adquirido e entrar no seminário da Diocese de Stockton, California.
Quando se tornou pastor da Igreja de São Patrício em Ripon, uma pequena paróquia rural na diocese de Stockton, Pe. Carota passaria seus dias estudando livros sobre liturgia, Vaticano II e tópicos relacionados. Ele diz que "nunca tinha sabido nada daquilo". Ele começou a celebrar a Missa Tridentina em São Patrício.
Com o apoio de seu bispo, Pe. Carota veio para Phoenix em 2013 para ajudar um sacerdote amigo, Pe. Alonso Saenz, pastor da Paróquia Santa Catarina. Pe. Saenz queria um sacerdote que quisesse celebrar a Missa ad orientem, e Pe. Carota queria celebrar regularmente a Missa na Forma Extraordinária e oferecer os sacramentos na forma litúrgica mais antiga.
Pe. Carota deseja fundar uma nova comunidade com o nome do Papa Pio V, que possa fomentar "a beleza da Missa Latina, a beleza dos sacramentos da forma como antes eram celebrados, e a beleza da arte que é parte de nossa tradição católica".
"90% dos católicos de hoje não teve experiência da Igreja antes do Vaticano II", explica. "Eles não conhecem sobre sua arte, arquitetura ou liturgia tradicionais. Eu quero iniciar uma ordem para espalahar pelo mundo nossa maravilhosa tradição".
A maioria dos fiéis em sua comunidade da Missa Latina são pobres imigrantes mexicanos, diz ele, que têm sido recetivos para com a "Missa antiga" e sua perspectiva tradicional. Ele devota duas a três horas diárias a seu blog, http://www.traditionalcatholicpriest.com/.
Entre seus conhecidos estava o Pe. Kenneth Walker, da Fraternidade de São Pedro, que ficava numa paróquia próxima e que foi assassinado por um intruso no dia 11 de junho [de 2014]. Pe. Walker celebrava a Missa na Forma Extraordinária em Santa Catarina quando Pe. Carota estava ausente.
Pe. Carota admite que foi difícil deixar a bela paisagem do norte da California pelo ambiente de uma paróquia urbana que é "feio, barulhento e cheio de drogas e prostituição", mas "servir esta paróquia tem me dado muita alegria", diz ele.

Do rock cristão para a Missa Latina
O carmelita Pe. Mark Kristy reside na Casa de Oração Carmelita de Oakville, na Diocese de Santa Rosa, California. Ele celebra a Missa na Forma Extraordinária na Casa de Oração Carmelita e noutros lugares do norte da California.
Pe. Kristy cresceu em Whittier, no sul da California. Nos anos 70 foi baterista de uma banda de rock cristão, a banda Shalom, que tocava em Missas no Novus Ordo. Ele conheceu um sacerdote carmelita que lhe sugeriu considerar a possibilidade de unir-se aos carmelitas. Por volta da mesma época ele leu a Noite Escuta de São João da Cruz, um frade carmelita, que também o influenciou para entrar no Carmelo.
"Eu visitei a comunidade carmelita em Oakville e decidi entrar", diz Pe. Kristy.
Ele foi ordenado sacerdote em 1985, e tornou-se psicotepeuta. Ele trabalhou em paróquias em Tucson e na Arquidiocese de Los Angeles antes de ir para Oakville. Ele ainda oferece conselhos profissionalmente para seus clientes.
Enquanto esteve no norte da California, ele participou de uma Missa Latina oferecida pelo Pe. John Rizzo da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, cujos membros celebram exclusivamente a forma mais antiga dos sacramentos. "Depois de vê-lo celebrá-la, eu amei a Missa Latina. Ele perguntou-me: 'Por que você não a aprende?'"
Pe. Rizzo treinou-o, e Pe. Kristy tem passado a última década celebrando a Missa na forma mais antiga. "A Missa tradicional é dirigida a Deus Pai através de seu Filho Jesus Cristo", diz Pe. Kristy. "Ela também tem uma ênfase no sacrifício de Jesus Cristo".
Algumas dos irmãos carmelitas de Pe. Kristy não entendem sua ligação com a Missa antiga, diz ele, mas o apoio que recebeu de seus superiores fizeram-no continuar a celebrá-la todos os dias na Casa de Oração Carmelita. "Muita coisa mudou na Igreja nos últimos 50 anos", ele disse, "mas uma coisa negou-se a mudar, e esta é a Missa Latina".

Autor: Jim Graves
Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 19 de maio de 2016

19 de maio - Fr. Daniel de Samarate - o "Damião de Veuster" adotado pelo Brasil

Pax et bonum!

Estamos na Oitava de Pentecostes ou, segundo o calendário da Forma Ordinária, de volta ao Tempo Comum.
Estamos ainda com recordações vivas dos últimas dias pascais, desde a Solenidade da Ascensão do Senhor.
E ainda segue o Ano da Misericórdia.
Passamos um bom tempo sem postagens no blog, algo que lamentamos. Voltamos há poucos dias com uma postagem sobre a Ressurreição do Senhor, o Tempo Pascal.
Hoje queremos fazer jus ao que diz o Salmo 111:
Como luz, se eleva, nas trevas, para os retos, o homem benfazejo, misericordioso e justo.
Feliz o homem que se compadece e empresta, que regula suas ações pela justiça.
Nada jamais o há de abalar: eterna será a memória do justo.
Não temerá notícias funestas, porque seu coração está firme e confiante no Senhor.
Sim, queremos ajudar a manter viva e brilhante a memória do justo. Hoje, 19 de maio, este justo em particular não é nenhum dos santos que já honramos na data hodierna e que constam no Martirológio Romano. Trata-se de um frade capuchinho italiano, que, missionário, viveu e morreu no Brasil, entre o Nordeste e o Norte.

Há 92 anos atrás morria Fr. Daniel de Samarate, OFMCap (15/06/1876 ~ 19/05/1924). Não tinha 48 anos. Missionário ardoroso, entregou a alma bela, pura, santa, estando carcomido pela lepra.
Mas quem é este que, mesmo aqui no Nordeste, parece tão pouco conhecido? Quem sabe, a ignorância a que me refiro seja somente minha... Contudo, realmente este grande homem parece merecer ser muito mais conhecido em nosso Nordeste, em nosso País. E é com alegria que tentaremos impulsionar este nome que, Deus sabe quando, virá precedido de um "São" e seguido de um "Rogai por nós".

Origens
Felice Rossini nasceu em Samarate (cidade da Província de Varese, região da Lombardia, no norte da Itália), em junho de 1876.
Placa na casa em que nasceu Felice Rossini, em Samarate.
Esta década do séc. XIX viu o Concílio Vaticano I, a tomada de Roma, a unificação italiana, a invasão dos domínios eclesisásticos e o fim dos Estados Pontifícios. Estávamos no pontificado do Bem-aventurado Pio IX, o Papa da proclamação do Dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.
Vivia-se em várias partes do mundo um clima anticlerical, baseado no liberalismo maçônico.
O menino Felice, cujos pais se chamavam Pasquale e Giovanna, nasceu em simplicidade e pobreza, no seio de uma piedosa família.

Vocação e missão
Aos 14 anos deseja seriamente fazer-se frade menor capuchinho. É, pois, a 12/01/1890 que o jovem Felice ingressa no convento, para viver sob a regra destes filhos de São Francisco de Assis. 
Nesta mesma época, ainda era uma criancinha o pequeno Francesco Forgione que, na mesma Ordem, veio a se tornar o mundialmente venerado São Padre Pio de Pietrelcina.
Nosso jovem capuchinho, que tomou para si o nome de Daniel, foi considerado por contemporâneos como um modelo de clérigo estudante capuchinho. Ressaltam sua paixão pela oração, sua pronta obediência, sua firme observância da Regra, seu espírito de liderança, seu empenho nos estudos e sua alegria.
Em maio de 1898, em Milão, presenciou os eventos sociais que levaram à repressão comandada pelo General Bava-Beccaris. Ao que parece, nosso frade e outras pessoas quase entraram no número dos que morreram naquela ocasião.
Nessa época, Fr. Daniel conheceu o superior das missões no Brasil, Pe. Fr. Rinaldo. Fascinado, sem medo das dificuldades da missão, obtém permissão e parte, a 08/08/1898, para o Brasil, com outros três frades.

Na Terra de Santa Cruz
Nosso país tinha cerca de dez anos de quando sofreu o golpe que instaurou a República e expulsou a Família Imperial.
Fr. Daniel e seus companheiros desembarcam no fim do mês (agosto/1898) em Belém-PA, mas logo partem para o então verdadeiro destino: Canindé-CE, onde foi ordenado diácono em 02/10/1898. 
Este sertão cearense, esta cidade e o imponente Santuário de São Francisco das Chagas (como tão bem conhecido é lá o grande São Francisco de Assis), maior santuário franciscano das Américas, são um cenário bastante querido ao povo nordestino. A missão franciscana naquela região teve início ainda no séc. XVIII.
Santuário de São Francisco das Chagas, de Canindé-CE

No ano seguinte, na Solenidade de São José, a 19 de março, foi ordenado sacerdote na Catedral de Fortaleza-CE. Celebrará sua primeira Missa, porém, somente no dia 25, Solenidade da Anunciação do Senhor, na franciscana Canindé-CE.
Antiga Catedral de Fortaleza-CE
Uma missão particular
O jovem frade e sacerdote, por conta de suas qualidades, é enviado, em 1900, para uma nova missão: parte do sertão cearense para as florestas paraenses. É enviado para a cidade de Igarapé-Açu-PA, na região nordeste do estado, mais especificamente para o local conhecido como Colônia Agrícola de Santo Antônio do Prata, onde se trabalhava a educação e a evangelização de indígenas.
Foi nessa época, a 13/03/1901, ainda nos primeiros meses do séc. XX, que frades e freiras capuchinhos, junto com bem mais de uma centena de fiéis leigos, em Alto Alegre, no município de Barra do Corda-MA, foram assassinados por indígenas. Fala-se às vezes em influência maçônica por trás do episódio, conhecido como o Massacre de Alto Alegre.
Pintura retratando os mártires de Alto Alegre
Entenda-se, pois, que fazer missão entre os indígenas brasileiros, naquela época, à luz deste episódio, provavelmente tinha se tornado algo amedrontador e, portanto, que exigia coragem, sobretudo se o missionário era frade menor capuchinho, irmão de hábito dos mártires, entre os quais se conta exatamente o Fr. Rinaldo, superior da missão que nosso querido frade conheceu ainda na Itália.
Nosso frade, corajoso e forte, não só se manteve na missão, como teve que assumir a administração da Colônia, tendo somente 25 anos de idade.
Foi uma época de intensa atividade. Fr. Daniel muito teve que viajar para Belém, a capital, e conseguiu implantar muitas melhorias na região, na área da agricultura e noutras. É da época a edificação da Igreja de Santo Antônio, onde certamente o santo sacerdote capuchinho ofereceu o Santíssimo Sacrifício da Missa incontáveis vezes.

Como deve ter se desgastado o padre capuchinho entre os afazeres da Colônia, das escolas, das capelas, das desobrigas... Ainda hoje é fácil verificar as muitas dificuldades em que estão metidos alguns "padres do interior". O que se dirá daquela época?

Leproso com os leprosos
Afirma-se, ainda hoje, que o problema da hanseníase nesse Estado brasileiro permanece algo sério, sendo que lá a média de casos da doença é consideravelmente maior que a média nacional.
Pois bem, foi por volta de 1909 que Fr. Daniel começou a citar algumas suspeitas e a falar de algum mal-estar. Lembra de ter sido chamado a ouvir a confissão de uma portadora de hanseníase, tem suspeitas, mas não sabe, não tem como saber quando foi infectado.
É 1909, Fr. Daniel completa 33 anos, os médicos indicam ser necessário tratar-se na Europa, e ele partirá para a Itália. A insensibilidade à dor já está presente. A doença faz seu caminho, lentamente.

A graça de conformar-se à vontade de Deus
Em agosto viaja. Passa pela Espanha, passa pela França. Em Lourdes, nosso santo frade visita a Gruta das Aparições. Fr. Daniel rezou com fé à Virgem Maria, banhou-se na piscina milagrosa, juntou-se aos enfermos numa procissão eucarística e, ajoelhado para receber a bênção do bispo que levava o ostensório, clamou instintivamente com as palavras do leproso do Evangelho: "Senhor, se quiserdes, podeis curar-me" (Mt 8,2).
Neste momento, acontece um fato que é um marco na vida do nosso protagonista. Ele percebe uma voz interior, misteriosa e bem sensível ao coração dizendo-lhe: "Não quero. Vai em paz. Receberás outra graça. A tua doença será para a maior glória de Deus e para teu maior bem espiritual".
Ajoelhou-se o enfermo que, esperançoso, pediu a Deus a cura. Ergueu-se um novo homem, uma nova criatura, com um senso de indizível conformidade, cheio mesmo de alegria, de duradoura serenidade e que nunca mais elevou a Deus uma prece pela cura da doença. Fr. Daniel bendisse a Deus por tê-lo premiado com a lepra.
Na Itália, passa por Milão e, de lá, mandam-no para Roma. É aí que lhe é dado o diagnóstico inevitável: é lepra. Se poderia haver ainda alguma dúvida, estas se esvaem aí.
Em Roma visitou as catacumbas e foi recebido duas vezes pelo Papa, o grande e santo Pio X.
Ainda visitou Assis, onde celebrou a Santa Missa sobre a tumba de São Francisco no dia 04/10/1909.
Em 14/11 retorna para o Brasil.

Os últimos 15 anos
No ano seguinte é enviado para o Retiro de Santo Isidoro. Ainda administra os trabalhos da Colônia, mas um pouco distante, um pouco separado.
No dia 31/01/1913 tem de deixar a Colônia do Prata. Os superiores transferem-no para São Luís-MA. Nesta época terá escrito numa carta: "Deus tudo dispõe suavemente e não será um religioso a subtrair-se à sua vontade".
Morou poucos meses no Anil e em dezembro foi enviado novamente para o Pará.
Em Belém morou também apenas alguns meses no convento. Com quanta dor, em abril de 1914, aos 37 anos, teve que partir para definitivamente encerrar-se no Retiro São Francisco, junto ao Leprosário do Tucunduba. Poderia ter ido morar num hospital de Pernambuco, que lhe teria sido mais cômodo, mas quis ir para o citado leprosário, unicamente com a intenção de empregar sua atividade apostólica em prol do bem espiritual daquelas almas abandonadas. Pe. Fr. Daniel já conhecia a situação dos portadores de hanseníase no Pará.

No leprosário, onde havia cerca de 300 doentes, foi inicialmente tratado como inimigo, intruso. Pouco a pouco é que foi ganhando a confiança e a estima dos seus irmãos de chagas, pouco a pouco foi transformando aquele lazareto num verdadeiro oásis cristão.
Encontrou ainda muitas dificuldades, mas seguiu o calvário da lepra como pastor zeloso daquelas almas.
Celebrou com imensa alegria, já bastante debilitado e macerado pela doença, seus 25 anos de sacerdócio, em 1924.
Em abril do mesmo ano, porém, já não poderá mais celebrar o Santo Sacrifício.
De seu doloroso leito, continuará consumindo sua vida até às 14h30 do dia 19 de maio do mesmo ano, 1924, quando entregará sua alma ao Deus amado.
35 anos antes, entregava a alma a Deus o sacerdote missionário belga São Damião de Veuster, que igualmente consumiu sua vida, feito também vítima da mesma doença, no cuidado dos leprosos da ilha de Molokai, no Havaí.

Que este grande mártir da caridade, apóstolo dos leprosos, grande glória da pequena Samarate, honra dos capuchinhos, alegria de tantos fiéis do norte e nordeste brasileiro, esteja, junto de São Francisco, de São Padre Pio e de São Damião de Veuster, rogando por todos nós, ajudando-nos a realizar as obras que agradam a Deus e que tornam a fé viva.

Bendito seja Deus pelo caridoso e pobre sacerdote, Fr. Daniel de Samarate!

Servo de Deus Fr. Daniel, rogai por nós!

Obs: Recomendamos vivamente a leitura de todas as páginas em português e em italiano que constam no site http://www.padredanieledasamarate.it/indexbr.htm, donde tiramos praticamente todo o conteúdo desta postagem.

Ao ler esta postagem, eleve a Deus uma prece em sufrágio da alma de Fr. Apolonio Troesi, frade que foi vice-postulador da Causa de Beatificação de Fr. Daniel e que faleceu recentemente, no dia 09/05.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A história do Tempo Pascal, por Dom Prosper Guéranger

Damos o nome de Tempo Pascal ao período entre o Domingo de Páscoa e o Sábado seguinte ao Domingo de Pentecostes (N.T.: considerava-se aqui a Oitava de Pentecostes). É a porção mais sagrada do Ano Litúrgico, para a qual converge todo o ciclo. Facilmente entenderemos se refletirmos sobre a grandeza da Festa da Páscoa, que é chamada a Festa das Festas, a Solenidade das Solenidades, da mesma forma, diz São Gregório, que a parte mais sagrada do Templo era chamada de Santo dos Santos; e o livro da Sagrada Escritura, onde se descrevem os esponsais entre Cristo e a Igreja, é chamado de Cântico dos Cânticos. É neste dia que a missão do Verbo Encarnado atinge o objetivo para o qual incessantemente tendeu até então: a humanidade é erguida de sua queda e reconquista o que havia perdido pelo pecado de Adão.
O Natal deu-nos um Homem-Deus; mal passaram três dias desde que testemunhamos seu Sangue infinitamente precioso derramado em nosso resgate; mas agora, no dia da Páscoa, nosso Jesus não mais é a Vítima da morte: ele é um Conquistador, ele destrói a morte, a filha do pecado, e proclama vida, a vida imortal que ele adquiriu para nós. A humilhação das faixas que o atavam, os sofrimentos de sua Agonia e Cruz, essas coisas passaram; agora tudo é glória, glória para ele e glória também para nós. No dia da Páscoa, Deus reconquista, pela Ressurreição do Homem-Deus, sua criação tal como ela a fez no início; o único vestígio agora deixado de morte, é aquela semelhança do pecado que o Cordeiro de Deus dignou-se tomar sobre si mesmo. Não é Jesus somente que retorna para a vida eterna; toda a raça humana também ressurgiu para a imortalidade junto com nosso Jesus. "Por um homem veio a morte", diz o Apóstolo, "e por um Homem a Ressurreição dos mortos: e assim como em Adão todos morrem, também em Cristo todos viverão" (1Cor 15,21-22).
O aniversário desta Ressurreição é, portanto, o grande Dia, o dia de alegria, o dia por excelência; o dia para o qual todo o ano olha em expectativa, e no qual se forma toda a economia [N.T. da salvação]. Mas sendo o mais santo dos dias, pelo fato de abrir-nos o portão do Céu - no qual deveremos entrar porque ressuscitamos junto com Cristo -  a Igreja deveria fazer-nos chegar até ele bem preparados pela mortificação corporal e pela compunção do coração. Foi para isto que ela instituiu o Jejum da Quaresma, e nos fez olhar, durante a Setuagésima, para a alegria de sua Páscoa e ficarmos cheios de sentimentos apropriados para a aproximação de tão grande solenidade. Nós obedecemos e passamos pelo período de nossa preparação e agora o sol pascal levantou-se sobre nós!
Mas não era suficiente solenizar o grande Dia em que Jesus, nossa Luz, erguei-se das trevas do túmulo: havia outro aniversário que clamava por nossa grata celebração. O Verbo Encarnado ressurgiu no primeiro dia da semana, o mesmo dia em que antes, ele, o Verbo Incriado do Pai, iniciou a obra da Criação, chamando a luz e separando-a das trevas. O primeiro dia foi assim enobrecido pela criação da luz. Ele recebeu uma segunda consagração pela Ressurreição de Jesus, e deste tempo em diante, o Domingo, e não o Sábado, é o Dia do Senhor. Sim, nossa Ressurreição em Jesus, que teve lugar no Domingo, deu a este primeiro dia uma preeminência sobre todos os outros dias da semana: o preceito divino do Sabbath foi abrogado junto com as outras ordenações da Lei Mosaica, e os Apóstolos instruíram os fiéis a santificarem o primeiro dia da semana, que Deus dignificou com esta dupla glória, a criação e a regeneração do mundo. Sendo, pois, o Domingo o dia da Ressurreição de Jesus, a Igreja escolheu este dia, em preferência a qualquer outro dia, para esta comemoração anual. A Páscoa dos Judeus, em consequência de sua fixação no dia décimo quarto dia da lua de Março (aniversário da saída do Egito) caía por sua vez em cada dia da semana. A Páscoa Judaica era apenas uma figura; a nossa é a realidade e põe fim à figura. A Igreja, portanto, desfez este seu último laço com a Sinagoga; e proclamou sua emancipação fixando a mais solene de suas Festas num dia em que jamais cairia aquele, em que os Judeus mantém sua Páscoa agora sem sentido. Os Apóstolos decretaram que a Páscoa Cristã jamais fosse celebrada na décima quarta lua de Março, mesmo que este dia fosse um Domingo; mas que se mantivesse em todo lugar no Domingo seguinte ao dia em que o obsoleto calendário da Sinagoga ainda o marca. (...)
A Igreja põe sobre todos os seus filhos a obrigação de receber a Sagrada Comunhão na Páscoa. Este preceito baseia-se nas palavras de nosso Redentor, que deixou à sua Igreja a missão de determinar o tempo do ano em que os cristãos deveriam receber o Santíssimo Sacramento. Nos tempos antigos, a Comunhão era frequente e, algures, até diária. Pouco a pouco, o fervor dos fiéis para com este augusto Mistério foi decrescendo, como vemos num decreto do Concílio de Ágata (Agde), ocorrido em 506, em que se definia que os fiéis que não se aproximassem da Comunhão no Natal, na Páscoa e em Pentecostes deveriam ser considerados como tendo deixado de ser católicos. (...)
Foi no ano de 1215, no Quarto Concílio Geral do Latrão, que a Igreja, vendo a crescente indiferença de seus filhos, decretou com pesar que os cristãos devessem estar estritamente obrigados à Comunhão somente uma vez por ano, e que esta Comunhão de obrigação deveria ser feita na Páscoa. A fim de mostrar aos fiéis que este era o extremo limite de sua condescendência diante da tibieza, ela declara, no mesmo Concílio, que aquele, que presumir quebrar esta regra, deve ser proibido de entrar numa igreja pelo resto da vida, e deve ser privado de sepultura cristã após a morte, como se tivesse livremente se separado do elo exterior da unidade católica. (...)
E quando refletimos sobre quantos daqueles que fazem sua Comunhão Pascal e que não deram a devida atenção à Penitência Quaresmal, como se não existisse tal obrigação, é impossível não nos entristecermos e não nos perguntarmos, dentro de nós mesmos: até quando Deus suportará tais infrações da Lei Cristã?
Os cinquenta dias entre a Páscoa e Pentecostes sempre foram considerados pela Igreja como os mais sagrados. A primeira semana, que é mais expressamente devotada à celebração da Ressurreição de nosso Senhor, é guardada como uma única Festa prolongada; mas o restante dos cinquenta dias é também marcado por honras especiais. Sem dizer nada da alegria, que é a característica deste período do ano, cuja expressão é o Alleluia, a tradição cristã marcou o Tempo Pascal com duas práticas, que o distinguiam de todos os outros tempos. A primeira é que o jejum não é permitido durante o inteiro intervalo: é uma extensão do antigo preceito de nunca jejuar num Domingo, e todo o Tempo Pascal é considerado como um grande Domingo. Esta prática, que parece ter vindo dos tempo dos Apóstolos, foi aceita pelas Regras Religiosas tanto do Oriente como do Ocidente, mesmo pelas mais severas. A segunda consiste em não se ajoelhar no Ofício Divino, da Páscoa até Pentecostes. As Igrejas Orientais têm mantido esta prática fielmente até hoje. Ela foi observada por muito tempo pelas Igrejas Ocidentais também, mas hoje em dia isto há menos que uma sobra disto. A Igreja Latina já há muito admitiu genuflexões na Missa durante o Tempo Pascal. (...)
O Tempo Pascal, então, é como uma Festa prolongada. (...) Santo Ambrósio falando sobre isso diz: "Se os Judeus não se satisfazem com o Sabbath de cada semana, mas ainda observam um que dura um mês inteiro, e outro que dura um ano inteiro, quanto mais não deveríamos nós honra a Ressurreição de nosso Senhor? Daí nossos ancestrais terem nos ensinado a celebrar os cinquenta dias como a continuação da Páscoa. Há sete semanas, e a Festa de Pentecostes começa na oitava. ...Durante estes cinquenta dias, a Igreja não observa nenhum jejum, como não faz em nenhum Domingo, pois este é o dia me que nosso Senhor ressurgiu: e todos estes cinquenta dias são como vários Domingos" [In Lucam, lib. viii. cap. xxv.]

Tradução parcial do capítulo sobre o Tempo Pascal, da famosa obra "O Ano  Litúrgico", do Servo de Deus Dom Prosper Guéranger.