sábado, 4 de março de 2017

Breve NON AMBIGIMUS, de Bento XIV, sobre a observância do jejum quaresmal

Pax et bonum!
Primeiramente a ARS deseja a todos os membros, amigos e leitores uma muita santa Quaresma. Todos sabemos como a vivência deste Tempo é importante para bem celebrarmos o vindouro Tempo Pascal.
Desde o ano passado encontramos este interessante documento do Magistério tratando da importância da observância do jejum quaresmal e dos males que nos advêm de uma quaresma relaxada.
Recomendamos a leitura para estimular a generosidade nas obras de penitência. Obviamente deve-se estar atentos à disciplina corrente quanto às penitências quaresmais.
A última postagem, com vídeos do Revmo. Pe. Paulo Ricardo sobre estes temas, pode ajudar bastante.

Breve
NON AMBIGIMUS
de Sua Santidade
o Papa Bento XIV

Não temos dúvida, veneráveis irmãos, que aqueles que aderem à Religião Católica sabem como toda a Igreja, que se espalhou por todo o mundo cristão, considera necessário incluir o jejum quaresmal entre os principais baluartes da verdadeira doutrina.
Um período de tempo primeiramente esboçado na Lei e nos Profetas, consagrado pelo exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, transmitido aos apóstolos, prescrito pelos cânones sagrados em toda parte, tem sido aceito e observado por toda a Igreja desde o seu começo. Certamente, como nos foi transmitido pelos antigos Padres, com o estabelecimento deste remédio comum para nós que pecamos diariamente, nós também, unidos à Cruz de Cristo, somos capazes de fazer algo naquilo que ele adquiriu para nós.
Ao mesmo tempo, purificados pelo jejum no corpo e na alma, preparamo-nos para comemorar, de maneira mais digna dos sagrados Mistérios de nossa Redenção, através da recordação da Paixão e da Ressurreição, que são celebradas com a maior solenidade, especialmente no período quaresmal. Com o jejum, quase uma marca de nossa milícia, distinguimo-nos dos inimigos da Igreja, desviamos o raio da divina vingança e, com o auxílio de Deus, somos protegido do Príncipe das trevas no curso dos dias.
Vossa falha em obedecer a isto resulta em uma não insignificante ofensa à glória de Deus, uma vergonha não negligenciável para a Religião Católica e um perigo certo para os fiéis; é certo, de fato, que a origem dos apuros dos povos, das desgraças morais, públicas e privadas, não se encontra noutro lugar. Quão distante, quão diferente, quão contraditório é o comportamento atual dos que jejuam em relação à persuasão e ao respeito pela santíssima Quaresma e pelos outros dias dedicados ao jejum, profundamente enraizados nos corações de todos os católicos; como se desvia da verdadeira doutrina do jejum e da prática observada sempre, em todo lugar e por todos.
Vós, veneráveis irmãos, que estais familiarizados com os usos e costumes do povo confiado ao vosso cuidado, particularmente por vossa percepção, vedes tudo isto com mais evidência do que qualquer um. Certamente, desde que nós, que fomos colocado neste eminente observatório de Governo Apostólico, recebemos relatos de notícias dos povos, como poderíamos não lamentar que a sacratíssima observância do jejum da Quaresma tenha sido quase completamente eliminada devido à excessiva facilidade de dispensa, por toda parte, indiscriminadamente, por razões triviais e não urgentes, de modo a causar as justas queixas daqueles que seguem a ortodoxa religião, enquanto os seguidores da heresia zombam e exultam?
Estamos muito aflitos porque a esta péssima corrupção da multidão vós acrescentais a licença, que chegou a tal ponto, sem levar em devida conta os ensinamentos apostólicos e as sagradas provisões, de promover impunemente banquetes num tempo de jejum, bem como festas proibidas em público de maneira degradante. Levados, portanto, por uma preocupação sincera e incômoda, voltamo-nos para vós, veneráveis irmãos: não nos é possível, devido à alta tarefa do sagrado apostolado concedida a nós, não solicitar que vosso ardente zelo encontre um remédio contra esse males, e disponha leis apropriadas para cortar tais abusos pela raiz.
Portanto, veneráveis irmãos, nossa alegria e nossa coroa, considerando que não há nada mais aceitável a Deus, nada mais apropriado ao ministério pastoral, nada mais útil para o rebanho confiado ao vosso cuidado, feitos precursores por palavra e exemplo, inflamemos no coração dos fiéis o desejo de continuar com maior convicção tal exercício salutar de penitência e devoção, o desejo de permanecer constantemente fiéis e cumprir com isto de acordo com as provisões estabelecidas. Procuremos, com todo cuidado e com todo o zelo, fazer com que o povo permaneça fiel diante de Deus, por uma mais austera observância dos jejuns, como deve ser feito nas mesmas Festas Pascais.
Sendo assim, o serviço que cabe à vossa paternal solicitude e caridade requer que informeis a todos que ninguém está permitido a conceder dispensas sem boa razão e sem o conselho de duas pessoas doutas. Dispensa do jejum da Quaresma para uma inteira população, para uma cidade ou para uma categoria de pessoas sem distinção só pode ser requerida de forma excepcional no caso de uma necessidade urgente e mais grave, com o devido respeito a esta Sé Apostólica, onde possa ser necessário conceder esta dispensa, sem dela apropriar-se de maneira resoluta e atrevida, nem pedindo-a à Igreja de maneira altiva e arrogante, como sabemos ser o caso em certos lugares.
Mesmo se não houver razão para explicar qual seja a necessidade mais séria, queremos que saibais bem que em tal situação, uma pessoa inicialmente pode fazer uma refeição simples. Aqui também, em Roma, enquanto estamos procedendo com uma dispensa para o ano corrente, por razões urgentes, expressamente declaramos que nem festas proibidas e nem legítimas podem ter lugar sem discernimento. Portanto, assim como estamos convencidos de que é necessário proceder com grande cuidado na concessão de indulgências, e não poderia ser de outro modo, porque teremos que dar contas ao Supremo Juiz, também neste caso pensamos que vós deveis cuidar disso segundo vossas consciências.
Ao mesmo tempo, pedimos a vossas paternidades, e admoestamos-vos no Senhor, que exorteis os que não podem observar a disciplina penitencial comum a todos os fiéis, para que, como a devoção de cada um puder sugerir, não negligenciem outras obras de piedade, expiem seus pecados e peçam perdão a Deus.
Com verdadeiro fervor possam procurar descobrir o melhor caminho para curar as feridas abertas na frágil natureza humana, e se estão incapacitados de curá-las por jejuns purificadores, possam remir das faltas incorridas pela fragilidade humana com obras de piedade, o sufrágio das orações e a doação de esmolas.
Enquanto esperamos de vosso zelo e caridade pastorais um repouso e um conforto para nossa pesada aflição, de que não nos privareis, com todo nosso coração vos concedemos, veneráveis irmãos, a Bênção Apostólica, cheia de graça celeste, a ser estendida aos vossos povos. Também desejamos cópias desta, também impressas, assinaladas por um notário público e trazendo o selo de uma personalidade da igreja, para ter a mesma autoridade que a original e para ser reconhecida como tal onde quer que se faça pública.
Dada em Roma, em Santa Maria Maggiore, sob o Anel do Pescador, em 30 de maio de 1741, no primeiro ano de Nosso Pontificado.

Fonte: http://www.unamsanctamcatholicam.com/history/79-history/516-non-ambigimus-english-translation.html
No site da Santa Sé: https://w2.vatican.va/content/benedictus-xiv/it/documents/breve--i-non-ambigimus--i---30-maggio-1741--il-pontefice-ricorda.html

Obs: esta postagem tinha sido preparada ainda no ano passado (2016), mas como a tradução só foi concluída no fim da Quaresma, deixei-a para este ano, no qual encontrei o mesmo documento, como sendo um "Breve", no site da Santa Sé, em italiano. Para a tradução ele não foi consultado, contudo recomenda-se a leitura para dissipar qualquer dúvida relacionada a algum possível erro na tradução, quer para o inglês, da qual traduzi, quer para esta em português.

Por Luís Augusto - membro da ARS

A penitência quaresmal & O ensinamento da Igreja sobre jejum e abstinência

Pax et bonum!

Compartilhamos aqui estes dois vídeos do Revmo. Pe. Paulo Ricardo sobre a penitência quaresmal e o ensinamento da Igreja sobre o jejum e a abstinência de carne. Esperamos que isto seja proveitoso para uma melhor vivência da Quaresma.

Deus nos abençoe a todos.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Carnaval - por D. Fernando Rifan

Semana próxima é o Carnaval. Como todos os anos, aproveitamos a ocasião para uma reflexão de ordem histórica e espiritual.
Segundo uma teoria, a origem da palavra “carnaval” vem do latim “carne vale”, “adeus à carne”, pois no dia seguinte começava o período da Quaresma, tempo em que os cristãos se abstêm de comer carne, por penitência. Daí que, ao se despedirem da carne na terça-feira que antecede a Quarta-Feira de Cinzas, se fazia uma boa refeição, com carne evidentemente, e a ela davam adeus. Tudo isso, só explicável no ambiente cristão, deu origem a uma festa nada cristã. Vê-se como o sagrado e o profano estão bem próximos, e este pode contaminar aquele. Como hoje acontece com as festas religiosas, quando o profano que nasce em torno do sagrado, acaba abafando-o e profanando-o. Isso ocorre até no Natal e nas festas dos padroeiros das cidades e vilas. O acessório ocupa o lugar do principal, que fica prejudicado, esquecido e profanado.
O Carnaval poderia até ser considerado uma festa pitoresca de marchinhas engraçadas, de desfiles ornamentados, um folguedo popular, uma brincadeira de rua, uma festa quase inocente, uma diversão até certo ponto sadia, onde o povo extravasa sua alegria. Mas, infelizmente, tornou-se também uma festa totalmente profana e nada edificante, onde campeia o despudor, as orgias e festas mundanas, cheias de licenciosidade, onde se pensa que tudo é permitido, onde a imoralidade é favorecida até pelas autoridades, com a farta distribuição de preservativos, preocupadas apenas com a saúde física e não com a moral.
A grande festa cristã é a festa da Páscoa, antecedida imediatamente pela Semana Santa, para a qual se prepara com a Quaresma, que tem início na Quarta-Feira de Cinzas, sinal de penitência. Por isso, é a data da Páscoa que regula a data do Carnaval, que precede a Quarta-Feira de Cinzas, caindo sempre este 47 dias antes da Páscoa.
Devido à devassidão que acontece nesses dias de folia, muitos cristãos preferem se retirar do tumulto e se entregar ao recolhimento e à oração. É o que se chama “retiro de Carnaval”, altamente aconselhável para quem quer se afastar do barulho e se dedicar um pouco a refletir no único necessário, a salvação eterna. É tempo de se pensar em Deus, na própria alma, na missão de cada um, na necessidade de estar bem com Deus e com a própria consciência. “O barulho não faz bem e o bem não faz barulho”, dizia São Francisco de Sales.
Já nos advertia São Paulo: “Não vos conformeis com esse século” (Rm 12,2); “Já vos disse muitas vezes, e agora o repito, chorando: há muitos por aí que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o ventre, a glória deles está no que é vergonhoso, apreciam só as coisas terrenas” (Fl 3, 18-19); “Os que se servem deste mundo, não se detenham nele, pois a figura deste mundo passa” (cf. 1 Cor 7, 31).
Passemos, pois, este tempo na tranquilidade do lar, em algum lugar mais calmo ou, melhor ainda, participando de algum retiro espiritual. Bom descanso e recolhimento para todos!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ainda sobre o Bem-aventurado Justo Takayama Ukon

Pax et bonum!

Após a postagem da tradução de um texto sobre o Bem-aventurado Justo Takayama Ukon, tirado do site da Conferência dos Bispos Católicos do Japão, gostaria apenas de repassar mais dados históricos de sua biografia e algumas informações sobre a beatificação, bem como compartilhar o vídeo inteiro da Missa.

Retrato oficial do Bem-aventurado Justo Takayama Ukon feito para a Beatificação
Um pouco de história

Takayama Ukon (高山右近, sendo Takayama o sobrenome), nasceu em 1552, em data razoavelmente próxima à morte de São Francisco Xavier (+03/12/1552), em Takayama, Settsu (atualmente distrito de Toyono), Osaka, Japão. Ainda quando criança, em 1558, sua família mudou-se para Haibara, Nara.
Monumento no local aproximado do nascimento de Takayama Ukon, em Toyono
Quando criança era chamado de Higokorô (彦五郎), sendo este, portanto, seu nome de nascimento. Chegando à "idade adulta", passou a ser chamado de Shigetomo (重友). Há ainda outros nomes. "Ukon" é parte de um título honorífico que recebeu posteriormente. Todavia, é o nome pelo qual é mais conhecido.
Seu pai chamava-se Tomoteru (e também era chamado de Zusho), servia a Matsunaga Hisahide e era senhor do castelo de Sawa. A região era a antiga província de Yamato. O castelo pode, então, ser também citado sob o nome de Yamatozawa.
Monumento em honra de Takayama Ukon na região das ruínas do castelo de Sawa
Tomoteru, fervoroso budista, conheceu o cristianismo, converteu-se e foi batizado após perder um debate doutrinal em 1564 (com um Ir. Lourenço, discípulo de São Francisco Xavier), tomando o nome de Dario. Higokorô foi batizado e recebeu o nome de Justo.
Após o envolvimento de Hisahide na situação que pressionou o suicídio do shogun (algo como um líder militar supremo que, de certa forma, governava o país) Ashikaga Yoshiteru, o castelo de Sawa foi perdido e a família Takayama teve que fugir, abrigando-se, porteriormente, em Takatsuki, sob a bandeira de Oda Nobunaga, através de Wada Koremasa, um conhecido da família. Isto ocorreu em 1568.
Em 1571 a família Wada desentendeu-se com Araki Murashige, vassalo de Ikeda Katsumasa, que servia a inimigos de Oda Nobunaga. Murashige cercou o castelo de Takatsuki e Koremasa foi morto no confronto. Sem poder subjugar os Takayama, Murashige permitiu-lhes servir ao sucessor de Koremasa, Korenaga. Este, porém, pretendia assassinar Dario e seu filho Justo. Estes, ao saberem do plano, prepararam-se.
Numa visita ao castelo de Takatsuki, onde vivia a família Takayama, na noite de 12/04/1573, Korenaga atacou os Takayama com mais 15 guerreiros. O castelo foi destruído, mas Korenaga saiu ferido e morreu poucos dias depois. Ukon também ficou gravemente ferido, mas depois recuperou-se.
Oda Nobunaga transferiu o feudo de Takatsuki para os Takayama. Dario, desejoso de dedicar-se mais à religião e às obras de caridade, encarregou seu filho, Justo, do território. Aí começa formalmente a carreira política do novo bem-aventurado. Ele tinha cerca de 21 anos. 

Localização da Igreja de Takatsuki

Vida política e uma grande decisão

Aqui já se fala do zelo apostólico de Ukon no auxílio às obras da Igreja e na difusão da doutrina cristã. Na supervisão da reconstrução do castelo, mostrou seu talento militar. Na administração do feudo, sua sabedoria e liderança.
Estátua de Takayama Ukon próximo à Igreja de Takatsuki
Araki Murashige, que depois passou a servir Nobunaga, rebelou-se, porém, contra este em 1578. Aqui ocorreu a primeira grande prova da vida de Justo Takayama Ukon.
Sendo samurai, ele deveria permanecer fiel a seu senhor imediato, no caso, Murashige. Justo aconselhou-o a não fazer guerra e entregou seu filho e sua irmã como reféns, em prova de sua sinceridade. Murashige, porém, estava decidido.
Nobunaga, que sabia que Justo era católico, enviou-lhe um sacerdote (Pe. Organtino) como mensageiro, avisando que executaria os missionários e destruiria as igrejas em seu domínio se Justo não entregasse o castelo. De um lado a fé, do outro a obediência de samurai, a honra de seu pai (que não queria que ele entregasse o castelo) e a vida de seus familiares. Justo passou horas difíceis em oração para encontrar uma solução.
Justo, então, raspou a cabeça e apresentou-se sozinho e desarmado ante Nobunaga. Diante deste gesto, Nobunaga perdoou Justo e aumentou seu feudo. Murashige também devolveu os familiares sem causar-lhes dano, após Dario pedir-lhe perdão pelo ocorrido.
Estátua de Oda Nobunaga
Justo, a partir deste momento de crise, passou a ser um novo homem, livre do medo e das ambições.
Os anos seguintes foram luminosos para a difusão da fé na região.

Guerreiro e senhor em serviço

Em 1582, aconteceu o assassinato de Nobunaga, em Kyoto, e Justo aliou-se a Toyotomi Hideyoshi contra o exército de Akechi Mitsuhide, o assassino: esta foi a Batalha de Yamazaki, acontecida em 02/07 do dito ano. Hideyoshi e os seus saíram vitoriosos (e isto iniciou conflitos com outros servos do falecido Oda Nobunaga, particularmente Shibata Katsuie). Enquanto isso, Justo nunca escondeu-lhe sua fé, nunca hesitou em mostrar-lhe que ela vinha em primeiro lugar em sua vida. É mencionado o episódio do funeral de Oda Nobunaga, em que Justo, embora presente, não executou os ritos budistas tradicionais, por ser católico.
No meio das tensões entre Hideyoshi e Katsuie, Justo foi encarregado de um forte na região de Iwasakiyama. Em 1583, em confronto, por conta da invasão de um exército de Katsuie liderado por Sakuma Morimasa, Justo teve que deixar o posto e foi para as proximidades de Tagami, região sob os cuidados de um dos irmãos de Hideyoshi.
Houve, então, a Batalha de Shizugatake (entre Hideyoshi e Katsuie), em maio desse ano. Justo foi ferido e também perdeu vários guerreiros, mas as forças de Hideyoshi saíram vencedoras.
Pintura ilustrando a Batalha de Shizugatake

Vieram ainda muitas campanhas em que Ukon participou junto aos demais homens de Hideyoshi. Junto disso, tornava-se cada vez mais exímio na prática da Cerimônia do Chá, sendo considerado um dos melhores discípulos de Sen no Rikyu (tido como o personagem histórico que mais influenciou esta tradição japonesa). Não deixou, porém, de exercer seu apostolado, sendo grande patrono de obras católicas, como a construção do novo seminário de Azuchi em Osaka.
O daimyô (senhor feudal), o cristão e o esteta harmonizavam-se aqui numa só pessoa e Takatsuki tinha se tornado praticamente um feudo todo cristão.

Mudança de rumo: outra provação

Em 1585, Hideyoshi fez algumas mudanças em seus domínios e Justo foi transferido de Takatsuki para Akashi. A distância de um lugar para outro é pequena e não distante de Osaka. Ambos ficam na província de Hyogo, na região de Kansai.
Após a invasão da região de Shikoku, com mais algumas batalhas, Justo desejava paz e descanso, mas em maio de 1586 Hideyoshi foi instado a intervir em Kyushu, para derrotar o clã Shimazu. Mais uma campanha de muitas batalhas!
No fim do ano, Hideyoshi, que há pouco tinha recebido o título de Kanpaku (algo como regente imperial) foi pessoalmente a Kyushu com o resto de suas tropas. Justo era membro de sua guarda pessoal e acompanhou-o.
Em 1587, Justo já previa uma mudança na sorte da Igreja do Japão e aconselhava prudência a missionários que iam ter com Hideyoshi.
Infelizmente, Hideyoshi mudou sua forma de olhar para os cristãos e tudo indica que a causa desta mudança de rumo recai sobre o Pe. Gaspar Coelho, missionário português, superior e vice-provincial da missão jesuíta no Japão na época. O sacerdote, que era conselheiro de Hideyoshi, adentrava muito nos assuntos políticos e, enfim, cometeu o grande erro de fazer a Hideyoshi promessas que não poderia cumprir.
Hideyoshi enviou, através de um mensageiro, uma ordem a Justo, seu fidelíssimo vassalo em quem agora já não confiava: se quisesse permanecer a serviço dele, o Kanpaku, ele deveria abandonar sua fé cristã. Também havia um questionamento: por quê encorajou tanto o cristianismo entre seus vassalos em Takatsuki? Isto era um ultimato.
A resposta de Justo era: ele obedeceria a seu senhor em tudo que dissesse respeito à sua posição de vassalo, mas não abandonaria sua fé. Quanto à evangelização de seus vassalos, ele considerava isso o maior feito de sua vida.
Era por volta de 25 de julho de 1587. Hideyoshi ordenou a expulsão dos missionários de Kyushu (a ilha mais ao sul do Japão, que inclui as províncias de Fukuoka e Nagasaki, por exemplo). Justo serenamente deu o seu adeus aos seus amigos e deixou Hakozaki (em Fukuoka), onde estavam acampados. Ele agora era um exilado, um sem senhor, sem direitos civis no Japão. Mais do que isso: era agora um homem verdadeiramente livre.
Destituído de seu feudo, Ukon foi para junto de um daimyô cristão, Agostinho Konishi Yukinaga (que futuramente foi executado, após a derrota na Batalha de Sekigahara, tendo se negado a cometer suicídio por ser cristão), em Hyuga, na ilha de Shodo. Neste tempo pensou em abraçar a vida religiosa, mas o famoso Pe. Valignano ajudou-o a entender em que consistia sua vocação.
Estátua de Agostinho Konishi Yukinaga
Hideyoshi ainda ajudou-o, de certa forma, ao confiar Justo aos cuidados de Maeda Toshiie, senhor de Kaga/Kanazawa.
Em 1592, Hideyoshi, pouco depois da morte de seu filho único, retomou a amizade com Ukon, mesmo sem devolver-lhe a posição e as posses. Justo aceitou-o de bom grado, sem ressentimentos. Pode-se entender aqui que passou a morar em Osaka.
Torre principal do Castelo de Osaka, construído por Toyotomi Hideyoshi
Em 1595 e 1596 Ukon dedicou-se muito ao apostolado entre Osaka e Kyoto.
Em 1598 Hideyoshi morreu e Ukon voltou para Kaga. Lá ele pôde exercer livremente seu apostolado por 16 anos.
Castelo de Kanazawa, do clã Maeda, a quem Ukon serviu em seus últimos anos no Japão
Sob Maeda Toshinaga, herdeiro de Toshiie, ele conseguiu recuperar parcialmente a fortuna de sua família. Servia lealmente a seu novo senhor, de quem se tornou um dos principais vassalos e conselheiros, chegando a participar da Batalha de Sekigahara em 1600. Toshinaga era um dos comandantes das forças aliadas de Tokugawa Ieyasu. A vitória de Ieyasu nesta batalha consolidou o seu poder e deu início ao seu governo como shogun.
Pintura ilustrando a Batalha de Sekigahara
Depois disso ainda viveu tempos de sereno progresso espiritual, onde era notado pelos momentos de oração longa e silenciosa.
Em 1608, perdeu a mãe e o filho mais velho. Enfrentou isto com serenidade.

As últimas provações e a ida para o Céu

Em 1614, Tokugawa Ieyasu publicou seu edito de banimento do cristianismo e de expulsão dos missionários e samurais que não renunciassem sua fé. Ukon pacificamente aceitou e teve de deixar o Japão, dando o definitivo adeus aos seu país de origem. Assim, ele não negou sua fé diante dos três grande poderosos generais do Japão: Nobunaga, Hideyoshi e Ieyasu.
Seu novo senhor, Maeda Toshitsune, irmão de Toshinaga, temeu que Ukon pensasse em resistir com as armas. Conta-se que Justo enviou-lhe uma mensagem dizendo: "Eu não luto por minha salvação com armas, mas com paciência e humildade, de acordo com a doutrina de Jesus Cristo, que professo".
O caminho para o exílio ainda foi duro, contando com a travessia de geladas montanhas. Ele o percorreu com a esposa, a filha e cinco netos.
Em Nagasaki passou ainda alguns meses, em que fez um retiro sob a direção do Pe. Pedro Morejon.
Takayama Ukon, em pintura na Catedral de Osaka

Outra pintura de Takayama Ukon na Catedral de Osaka
Em 8 de novembro de 1614 partiu do porto de Fukuda com os missionários expulsos. O destino era Manila, aonde chegaram no dia 21 de dezembro.
No exílio foi muito bem acolhido e respeitado. Dedicou-se, normalmente, ao progresso interior e às obras de apostolado.
Cerca de 40 dias após a chegada, caiu gravemente enfermo. Já no leito de morte exortou seus descendentes a que guardassem a fé. Morreu no Senhor no dia 3 ou 5 de fevereiro de 1615.
Estátua de Takayama Ukon no Japão similar à das Filipinas (ver abaixo)
O mesmo Pe. Pedro Morejon parece ter sido um dos principais personagens nas primeiras intenções de abrir a causa da canonização de Justo Takayama Ukon, o conhecido "Ukon-dono" ou "Dom Justo" dos missionários. O fechamento do Japão, porém, impossibilitava a procura de materiais e a causa parou no tempo.
Mais de 300 anos depois, em 1940, o Arcebispo de Manila delegou ao Arcebispo de Osaka a autoridade para iniciar a causa de Ukon.
Em 1994 Ukon recebeu o título de "Servo de Deus". A causa de Ukon como "confessor" [da fé] poderia vir a demorar para levá-lo à beatificação. A causa então focou-se em sua doença e morte no exílio, o que lhe valeriam o glorioso nome de mártir e, assim, a causa foi mudada.
Em 21/01/2016 o Papa Franciscou publicou o decreto aprovando sua beatificação como mártir. A grande celebração aconteceu, enfim, no dia 07/02/2017, há poucos dias, em Osaka. A Santa Missa foi presidida pelo Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos.

Missa da Beatificação de Justo Takayama Ukon


Logo da Beatificação

A causa e a cerimônia da beatificação de Takayama Ukon contaram com um logotipo criado por uma religiosa japonesa.
Para entendê-lo, conheça-se primeiramente o kamon (brazão de família) de Takayama Ukon:
Kamon da família Takayama. Estes círculos são chamados de estrelas.
 Abaixo o logo da beatificação:
Logo de promoção da beatificação de Justo Takayama Ukon
No logotipo mantém-se as sete estrelas do kamon de Takayama Ukon. Indicam a família de Ukon, que lhe transmitiu a fé, bem como simbolizam os Sete Sacramentos e os sete Dons do Espírito Santo. O contorno verde recorda a esperança na vida eterna.
A cruz é sinal da oferta da vida de Ukon que, seguindo a Cristo, deu-a por ele e pelos outros.
Os três anéis luminosos ao fundo representam a fé que cresce e fortalece o relacionamento com o único e verdadeiro Deus, a Santíssima Trindade, e com os outros.
Estátua de Takayama Ukon na Plaza Dilao, em Manila, Filipinas



Fontes:
https://takayamaukon.com/fate-of-a-christian-daimyo/
https://wiki.samurai-archives.com/index.php?title=Takayama_Ukon
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Yamazaki
https://en.wikipedia.org/wiki/Dom_Justo_Takayama
https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Shizugatake
https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Sekigahara
https://en.wikipedia.org/wiki/Toyotomi_Hideyoshi
https://www.cbcj.catholic.jp/wp-content/uploads/2017/01/20170207mass.pdf
https://www.cbcj.catholic.jp/wp-content/uploads/2016/05/141127rev.pdf
http://www.catholic-takatsuki.jp/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_de_Ky%C5%ABsh%C5%AB
https://en.wikipedia.org/wiki/Gaspar_Coelho
http://www.pddm.org/index.php/en/news/item/1174-logo-per-la-beatificazione-di-giusto-takayama-ukon

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Justo Takayama Ukon - o caminho da obediência

Pax et bonum!

No dia 07 deste mês, em Osaka (Japão), foi beatificado, em Missa presidida pelo Cardeal Angelo Amato, mais um samurai católico, o senhor feudal Takayma Ukon, batizado com o nome de Justo, que viveu entre os séculos XVI e XVII.
Como noutras postagens sobre santos japoneses, repito que o foco da ARS e do blog é a Sagrada Liturgia, mas eu, de modo particular, tenho muita estima pelo Japão e, sobretudo, pelos cristãos que de lá recebem a honra dos altares. De qualquer forma, honrar os santos, especialmente no culto litúrgico, é algo sumamente importante e proveitoso para nós cristãos. Ao falar de seus exemplos, não deixo de tocar numa parte importante da Sagrada Liturgia.
O Concílio Vaticano II assim se expressa: "A Igreja inseriu também no ciclo anual a memória dos Mártires e outros Santos, os quais, tendo pela graça multiforme de Deus atingido a perfeição e alcançado a salvação eterna, cantam hoje a Deus no céu o louvor perfeito e intercedem por nós. Ao celebrar o 'dies natalis' (dia da morte) dos Santos, proclama o mistério pascal realizado na paixão e glorificação deles com Cristo, propõe aos fiéis os seus exemplos, que conduzem os homens ao Pai por Cristo, e implora pelos seus méritos as bênçãos de Deus" (Sacrosanctum Concilium, 104).
Antes dele, o grande Pio XII afirmava: "No decurso do ano litúrgico relembram-se não só os mistérios de Jesus Cristo, mas ainda as festas dos santos, nas quais, se bem que se trate de uma ordem inferior e subordinada, a Igreja tem sempre a preocupação de propor aos fiéis exemplos de santidade que os levem a adornar-se das mesmas virtudes do Divino Redentor. É necessário, com efeito, que imitemos as virtudes dos santos, nas quais brilha, de modo vário, a própria virtude de Cristo, porque dele foram imitadores (...). A liturgia põe diante de nossos olhos todos esses belos ornamentos de santidade, para que salutarmente os olhemos e para que 'nós que gozamos dos seus méritos sejamos inflamados pelos seus exemplos'". (Mediator Dei, 151-152)
Dito, isto apresento uma nova tradução nossa, aproveitando a dita beatificação. O texto está no site da CBCJ - Catholic Bishop's Conference of Japan, cujo link encontra-se ao fim do texto.

*****

Um homem que trilhou o caminho da obediência


Justo Takayama Ukon (1552-1615)

A Igreja Católica no Japão, desde seu início, teve uma história única entre outras nações do mundo. O evangelho introduzido por Francisco Xavier em 1549 espalhou-se pela terra e registros mostram que dentro de uns 40 anos o número de fiéis passou de 300.000. Todavia, em 1587, enquanto a Igreja ainda era jovem, o poderoso Toyotomi Hideyoshi (1537-1598) fez do Cristianismo o alvo de uma política de perseguição. Esta política somente ficou mais rígida com o passar dos anos, e no início do séc. XVII, se alguém fosse descoberto por carregar a fé Cristã, não somente ele, mas toda a sua família era executada. Esta política de proibição continuou por mais de 280 anos até 1873. Diz-se que sob esta política mais de 20.000 foram martirizados. Apesar dessas condições, a Igreja no Japão nunca morreu. Desde o início do séc. XVII, quando a perseguição tornou-se intensa, no decorrer dos mais de 200 anos que se seguiram, os fiéis, privados do auxílio de sacerdotes e religiosos, mantiveram sua fé.

A vida de Ukon

O famoso senhor feudal cristão Justo Takayama Ukon (1552-1615) lançou os fundamentos sobre os quais a Igreja descrita acima foi solidamente construída. Ukon é conhecido como um típico senhor feudal ativo em meados do século XVI, durante a última parte do século das guerras civis do Japão. Ukon encontrou-se com missionários jesuítas e foi batizado com a idade de 12 anos, junto com seu pai Dario. Ukon foi um vassalo ativo e de confiança de Oda nobunaga (1534-1582), que finalmente subjugou as longas guerras civis, bem como de Hideyoshi, sucessor de Nobunaga. Esses dois Shogun moveram-se no sentido de concentrar em si o controle sobre todo o Japão. Todavia, embora Hideyoshi tivesse demonstrado compreensão para com a Igreja, em 1587 ele subitamente deu uma reviravolta em sua política religiosa, ordenando a deportação de missionários, destruindo igrejas em Kyoto e Osaka, e impelindo os senhores feudais cristãos a renunciarem sua fé. Ukon, negando-se a renunciar sua fé, foi privado de sua posição e seu feudo foi atacado.
Após a morte de Hideyoshi, a família Tokugawa tomou o controle sobre o país inteiro e estabeleceu seu governo de xogunato em Edo (hoje Tokyo). Eles continuaram seguindo a política de proibir o Cristianismo. O xogunato temia a influência de Ukon, e em 1614 exilou-o para as Filipinas com mais de 300 cristãos. Chegando a Manila, receberam boas-vindas oficiais, mas logo Ukon caiu gravemente enfermo e morreu em Manila durante a noite de 3 de fevereiro de 1615, cerca de 40 dias depois de sua chegada. Foi-lhe dado um funeral com honras oficiais e foi sepultado nas Filipinas. Imediatamente após a sua morte, sua reputação como mártir se espalhou, e a investigação em prol de sua canonização foi iniciada. Naquela época era difícil coletar dados no Japão, de modo que o processo não pôde ser continuado. Hoje, todavia, a Igreja do Japão, em cooperação com a Igreja das Filipinas, perseguem ativamente a causa da canonização de Ukon.

A mensagem de Ukon para nós hoje: o princípio da escolha

Ukon frequentemente foi posto em situações em que escolhas de vida importantes e decisivas tinham de ser tomadas e não poderiam ser evitadas por um comandante militar pertencente à poderosa classe governante. Ele permaneceu na linha de frente quando os valores de Deus e do mundo entraram nos maiores conflitos. Escolhas decisivas que não podem ser evitadas têm de ser feitas por qualquer líder cristão em qualquer época. Ukon manteve princípios claros para escolher o rumo que levaria para Deus e para as decisões corretas. Corresponder ao amor de Deus que, a fim de amar sem limites e salvar a nós, pecadores, tomou sobre si o destino humano até a morte: este era o princípio básico de Ukon. Esta era a única coisa que ele mantinha sob a vista. Somente isto era o padrão das maiores decisões que ele fez durante sua vida. Não havia lugar para compromissos. O que moveu Ukon foi a crença de que permanecer no amor de Deus era o caminho para a felicidade humana.

Em 1578, Araki Murashige, senhor feudal de Ukon, opôs-se a Nobunaga, de quem era aliado. Murashige também impeliu seu poderoso subordinado, Ukon, para a revolta. O dilema de Ukon foi severo. Se ele aderisse a Murashige, a Igreja e os missionários seriam perseguidos por Nobunaga. Se ele aderisse a Nobunaga, as vidas de seu filho e de sua irmã mais nova, tomados como reféns por Murashige, estariam em perigo. Ele foi forçado a entrar em conflito com seu pai Dario, que apoiava Murashige. Como resultado de sua oração face a este sofrimento, Ukon decidiu visitar Nobunaga. Murashige, percebendo sua própria derrota, retornou os reféns para Ukon.

A maior decisão da vida de Ukon foi feita em 1587. O mais poderoso líder da época, Hideyoshi, declarou a proibição do cristianismo. Ao mesmo tempo ele deu estritas ordens a Ukon para abandonar o cristianismo, e se ele assim não fizesse, seu feudo seria confiscado e ele seria banido. Se ele apenas formalmente renunciasse a Igreja, ele receberia mais vantagens. Se ele não renunciasse sua fé, levaria uma deplorável vida de destituição. Ao mensageiro que lhe trouxe esta ordem de Hideyoshi, Ukon disse que visitaria Hideyoshi desarmado e lhe transmitiria seus pensamentos, acrescentando que, se devesse ser morto, estaria muito satisfeito. Ukon foi banido e levou uma vida de andarilho.

Quando Tokugawa Ieyasu chegou ao poder depois da morte de Hideyoshi, ele continuou a reforçar a proibição do Cristianismo e ordenou que Ukon, que ainda mantinha sua fé, deixasse o país. Ele partiu de Nagasaki, em 8 de novembro de 1614. Chegando a Manila, ficou gravemente enfermo e, durante a noite de 3 de fevereiro de 1615, foi chamado para o Senhor. Não apenas banido, mas morrendo no exílio, Ukon ganhou grande honra em Manila como um mártir, imediatamente após a sua morte. Atualmente, a Conferência dos Bispos Católicos do Japão pede sua canonização como um mártir.

Movimento descendente

Durante os séculos XVI e XVII, quando Ukon viveu, o Japão ainda era violentamente agitado pelas guerras civis. Era um tempo em que poderosos faziam suas manobras para conquistar riqueza, poder e fama. Era um tempo em que a sociedade buscava mover-se para cima. Ukon foi o tipo de pessoa abençoada com a desenvoltura para procurar uma vida melhor. Ukon não se iludiu pelas fortunas palpáveis e visíveis e continuou a manter sua visão puramente fixa na felicidade invisível e verdadeira, ainda que distante. Ukon não se enganou quanto ao caminho a ser escolhido. Foi o caminho do movimento descendente, como um discípulo do Senhor. Naquela época de guerra, em que todos lutavam para subir, Ukon escolheu a via do rebaixamento. Através de suas escolhas em cada conjuntura da vida, Ukon tornou-se visivelmente mais pobre. Todavia, o coração de Ukon tornou-se mais rico. O caminho descendente que Ukon tomou foi o caminho de Cristo, o caminho da cruz. Neste caminho descendente encontra-se Deus, que lá está esperando. Lá se encontra a firme esperança, porque como cristãos sabemos que Deus rebaixou-se e escolher tornar-se pobre para a salvação da humanidade. Ukon subiu com Jesus e foi recebido na presença do Pai.
Aqueles que vivem junto ao chão sabem que Deus está perto. Ukon ensina-nos isto.

Hoje em dia, quando somos levados a fazer escolhas entre vários valores que prometem felicidade, aqueles que aderem a Jesus podem aprender da vida de Ukon a seguir o Senhor diretamente, sem desvio ou erro.

Fonte: https://www.cbcj.catholic.jp/wp-content/uploads/2016/05/141127rev.pdf

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Summorum Pontificum" no Seminário

Pax et bonum!

A matéria é de 2008..., mas o tema é importante e a leitura é recomendável. Trata-se de um bom trabalho que deveria estar presente em muitos outros lugares.
No tempo desta matéria a Santa Sé ainda não tinha falado sobre o assunto, digamos, de forma mais clara. Pois bem, na Instrução Universae Ecclesiae, de 30/04/2011, lemos no item 21:
"Aos Ordinários se pede que ofereçam ao clero a possibilidade de obter uma preparação adequada às celebrações na forma extraordinária, o que também vale para os Seminários, onde se deve prover à formação conveniente dos futuros sacerdotes com o estudo do latim e oferecer, se as exigências pastorais o sugerirem, a oportunidade de aprender a forma extraordinária do Rito".
Portanto, mais do que um empreendimento isolado, solitário ou arbitrário, introduzir e aplicar o Summorum Pontificum nos seminários e casas de formação é algo que segue fielmente o magistério da Igreja.

Nota: atualmente o Arcebispo da Arquidiocese de Filadélfia é D. Charles Chaput, sendo o Cardeal Justin Rigali o arcebispo emérito.

*****

Cardeal Rigali fala sobre introduzir os seminaristas ao Missal de 1962
Por Annamarie Adkins

Philadelphia, 14 de Março, 2008 (zenit.org). Desde que Bento XVI disse que a Missa celebrada de   acordo com o Missal Romano de 1962 promulgado pelo Bem-aventurado João XXIII deveria estar disponível para aqueles que a preferem, seminaristas deveriam ser ensinados a celebrá-la, diz o Cardeal Justin Rigali. 
O Papa esclareceu em sua carta apostólica "Summorum Pontificum" que há duas formas da liturgia no Rito Romano da Igreja Católica: ordinária e extraordinária. 
Para conhecer o que alguns bispos estão fazendo para implementar este documento nos seminários,   ZENIT conversou com o Cardeal Rigali, arcebispo de Philadelphia, sobre seus planos para introduzir os   seminaristas do St. Charles Borromeo Seminary à   forma extraordinária da Missa.
O Cardeal Rigali também sugeriu que padres ainda ativos no ministério deveriam familiarizar-se com o Missal de 1962.

Q: Que passos práticos estão sendo dados para incorporar "Summorum Pontificum" na vida e no   currículo do seminário? 
Cardeal Rigali: Primeiro haverá uma palestra sobre o "motu proprio", que elucida a teologia subjacente ao missal de 1962 de modo que os seminaristas tenham uma compreensão clara do "motu proprio" e da preocupação pastoral do Santo Padre quanto aos fiéis que têm um profundo amor pela liturgia Tridentina. Já que praticamente todos os seminaristas do St. Charles Borromeo Seminary cresceram participando da Missa conforme o "Novus Ordo" - Missal de Paulo VI - é importante oferecer uma exposição da Missa de acordo com o missal de 1962 - Missal do Bem-aventurado João XXIII. Ademais, o trabalho do curso do seminário sobre teologia, liturgia e história da Igreja cobrirá e explanará a iniciativa do Santo Padre. Isto   ajudá-los-á a ver a continuidade entre as duas expressões, mas também possibilitará a oportunidade de abordar as mudanças que tiveram lugar na liturgia seguindo o Concílio Vaticano II. Em algum momento no semestre da primavera, depois da palestra, a Santa Missa de acordo com a forma extraordinária será celebrada para toda a comunidade do St. Charles Borromeo Seminary. Isto demonstrará aos seminaristas a maneira corretamente litúrgica em que a forma extraordinária da Missa deve ser celebrada.

Q: O que no "Summorum Pontificum" levou o senhor a apoiar a incorporação deste documento na vida do St. Charles Borromeo Seminary? O senhor está prevendo uma maior demanda pela forma tradicional   da Missa no futuro? 
Cardeal Rigali: O Santo Padre indicou que a Missa de acordo com a forma extraordinária, bem como a   celebração dos sacramentos, deve estar disponível para os fiéis quando houver uma genuína necessidade pastoral. Vários membros de nosso clero nunca celebraram a Missa ou administraram os sacramentos conforme o missal de 1962 e os outros textos litúrgicos. A fim de prover as necessidades pastorais, quando aparecerem, os atuais seminaristas devem ter a oportunidade de ser adequadamente educados tanto para os rituais envolvidos como para a teologia que existe nestas formas. Atualmente eu não prevejo uma grande demanda pela celebração de acordo com a forma extraordinária da Missa. Na Arquidiocese de Philadelphia os pedidos que recebemos foram bem poucos. A maior parte dos católicos de hoje encontra satisfação espiritual na Missa como celebrada usando o Missal de Paulo VI, e ela permanece como forma ordinária da celebração. Dito isto, somos abençoados por ter duas paróquias, em diferentes áreas da arquidiocese, que celebram a Missa na forma extraordinária, que já ofereciam a Missa com o Missal Tridentino há algum tempo graças ao necessário indulto. Sou agradecido por estas paróquias proverem as necessidades pastorais e espirituais daqueles fiéis que preferem a forma extraordinária.  

Q: Alguns analistas do "Summorum Pontificum" têm dito que ele é primeiramente dirigido aos   sacerdotes, como um presente para eles. Qual é o ponto de vista do senhor? 
Cardeal Rigali: O "motu proprio" foi dado pelo Santo Padre para todos os católicos. Quanto aos sacerdotes, qualquer afirmação do Santo Padre sobre a liturgia ou qualquer mudança nas formas ou fórmulas litúrgicas dão aos sacerdotes a oportunidade de pensar e refletir sobre os mistérios que eles celebram na liturgia. Vários sacerdotes encontram nestas oportunidades um renovado senso de temor e apreciação pela liturgia e uma oportunidade de recomeçar a celebrar essas liturgia numa maneira mais   refletida, reverente e respeitosa. Neste sentido, "Summorum Pontificum" é um dom para todos os sacerdotes, porque encoraja-os, pela sagrada liturgia, a levar todo o povo para uma mais profunda comunhão de santidade com o Senhor.

Q: Os seminaristas estão no processo de formação, particularmente a formação litúrgica. Que efeito formativo o senhor acredita que terá nos seminaristas o aprender e celebrar a forma extraordinária da Missa? 
Cardeal Rigali: Estudar e aprender a Missa conforme o Missal de 1962 dará aos seminaristas a oportunidade de experimentar a continuidade entre as formas mais antigas e mais novas. Muito de nossa fé está fundamentado na continuidade e na tradição, na transmissão da fé de uma geração para a outra. Algumas vezes os rituais mudam e se desenvolvem, mas na essência permanecem os mesmos. Bento XVI afirmou em sua carta aos bispos, que acompanhava o "motu proprio": "Não existe qualquer contradição entre uma edição e outra do Missale Romanum. Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura. Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar". O treinamento litúrgico que os seminaristas de St. Charles Borromeo recebem forma-os na reverência e na santidade, que por sua vez servirão aos fiéis a quem eles ministrarão quando forem ordenados.  

Q: Celebrar a Missa conforme o Missal do Bem-aventurado João XXIII afetará a maneira com que um sacerdote celebra a Missa segundo o "Novus Ordo"? 
Cardeal Rigali: Qualquer sacerdote que não está familiarizado com a forma extraordinária, ou que não celebrou mais há um certo tempo a liturgia de acordo com esta forma, provavelmente, e de forma muito natural, refletirá sobre a maneira com que ele celebra a Missa de acordo com o "Novus Ordo". Tal reflexão é positiva porque só pode levar a uma celebração mais reverente e digna da liturgia.

Q: O que os sacerdotes podem fazer para incorporar "Summorum Pontificum" em seu ministério sacerdotal?
Cardeal Rigali: St. Charles Borromeo Seminary está oferecendo um curso para sacerdotes que desejam ser educados e treinados quanto à celebração adequada da Missa conforme o Missal do Bem-aventurado João XXIII, para garantir a competência na língua latina e nas rubricas da forma extraordinária. Antes de empreender um experimento "practicum", a teologia por trás da liturgia e o "motu proprio" serão estudados. Tenho encorajado qualquer sacerdote, que possa desejar aprender a celebrar esta liturgia, a procurar as oportunidades educacionais a fim de que a liturgia possa ser celebrada de maneira orante e reverente.

Traduzido por Luís Augusto Rodrigues Domingues

Apêndice:

Página do St. Charles Borromeo Seminary: http://www.scs.edu/
Página da Arquidiocese de Filadélfia: http://archphila.org/

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Fotos da Missa do dia 20/01 - 8 anos da ARS, com Pe. Jorge Luís

Pax et bonum!
Salve Maria!

No último dia 20 rendemos culto ao único e verdadeiro Deus pelo oitavo aniversário de nossa Associação Redemptionis Sacramentum, grupo de fiéis criado em 14/01/2009, sob o impulso do pontificado do Papa Emérito Bento XVI e do Motu Proprio Summorum Pontificum, para fazer eco às palavras de Santo Irineu de Lião: "É preciso amar com extremo amor tudo que é da Igreja", mas especificamente no contexto da Sagrada Liturgia, procurando guardar e fomentar um "espírito litúrgico" que, segundo os dizeres do Servo de Deus Pe. João Baptista Reus, SJ, nosso patrono, "consiste em estudar, estimar, explicar, promover e defender a Liturgia".
É possível que grande parte dos que estiveram conosco nesta Santa Missa nunca tenham participado de uma celebração na Forma Extraordinária do Rito Romano. Pois bem, em ambas as formas, e mesmo em todos os ritos, quer ocidentais quer orientais, não obstante as grande e pequenas diferenças, a intenção da Santa Missa é a mesma: unirmo-nos ao Senhor Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, e nos oferecermos, como seus membros, em sacrifício a Deus Pai: sacrifício de louvor e adoração, sacrifício de ação de graças, sacrifício de propiciação pelos pecados e sacrifício de impetração em que pedimos as graças que nos são necessárias. Sim, tudo isto devemos fazer hoje e sempre com Jesus Cristo Eucarístico, nosso Mediador e Sumo e Eterno Sacerdote, em toda Missa.
Mais do que ouvir e entender, mais do que acompanhar e ler, imolemos nosso coração no altar do Senhor, nesta adoração à Santíssima Trindade.
Agradecemos ao Revmo. Pe. Jorge Luís e ao seio eclesiástico ao qual pertence: a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, pela graça do apoio, da oração, da visita e desta celebração. A Associação Redemptionis Sacramentum o mantém em suas orações.
Pedimos a todos os que estiveram presentes, ou ao menos que desejaram estar, que roguem conosco a Deus para que sejam suscitados mais sacerdotes em nossa Arquidiocese que possam celebrar a Santa Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano, a fim de atender aos pedidos dos fiéis que a desejam, abrindo-lhes, assim, como diz a Santa Sé, este "tesouro precioso a ser conservado".