segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Aos Bispos do Regional Nordeste I e IV em visita "AD LIMINA APOSTOLORVM"

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS PRELADOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL
DOS BISPOS DO BRASIL DOS REGIONAIS NORDESTE 1 E 4
EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Sala do Consistório
Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009


Caríssimos Irmãos no Episcopado

Sede bem-vindos! Com grande satisfação acolho-vos nesta casa e de todo coração desejo que a vossa visita ad Limina proporcione o conforto e o encorajamento que esperais. Agradeço a amável saudação que acabais de dirigir-me pela boca de Dom José, Arcebispo de Fortaleza, testemunhando os sentimentos de afeto e comunhão que unem vossas Igrejas particulares à Sé de Roma e a determinação com que abraçastes o urgente compromisso da missão para reacender a luz e a graça de Cristo nas sendas da vida do vosso povo.

Queria falar-vos hoje da primeira dessas sendas: a família assentada no matrimônio, como «aliança conjugal na qual o homem e a mulher se dão e se recebem» (cf. Gaudium et spes, 48). Instituição natural confirmada pela lei divina, está ordenada ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, que constitui a sua coroa (cf. ibid., 48). Pondo em questão tudo isto, há forças e vozes na sociedade atual que parecem apostadas em demolir o berço natural da vida humana. Os vossos relatórios e os nossos colóquios individuais tocavam repetidamente esta situação de assédio à família, com a vida saindo derrotada em numerosas batalhas; porém é alentador perceber que, apesar de todas as influências negativas, o povo de vossos Regionais Nordeste 1 e 4, sustentado por sua característica piedade religiosa e por um profundo sentido de solidariedade fraterna, continua aberto ao Evangelho da Vida.

Sabendo nós que somente de Deus pode provir aquela imagem e semelhança que é própria do ser humano (cf. Gen 1, 27), tal como aconteceu na criação – a geração é a continuação da criação –, convosco e vossos fiéis «dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda paternidade no céu e na terra, que por sua graça, segundo a riqueza da sua glória, sejais robustecidos por meio do seu Espírito, quanto ao homem interior» (Ef 3, 14-16). Que em cada lar o pai e a mãe, intimamente robustecidos pela força do Espírito Santo, continuem unidos a ser a bênção de Deus na própria família, buscando a eternidade do seu amor nas fontes da graça confiadas à Igreja, que é «um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Lumen gentium, 4).

Mas, enquanto a Igreja compara a família humana com a vida da Santíssima Trindade – primeira unidade de vida na pluralidade das pessoas – e não se cansa de ensinar que a família tem o seu fundamento no matrimônio e no plano de Deus, a consciência difusa no mundo secularizado vive na incerteza mais profunda a tal respeito, especialmente desde que as sociedades ocidentais legalizaram o divórcio. O único fundamento reconhecido parece ser o sentimento ou a subjetividade individual que exprime-se na vontade de conviver. Nesta situação, diminui o número de matrimônios, porque ninguém compromete a vida sobre uma premissa tão frágil e inconstante, crescem as uniões de fato e aumentam os divórcios. Sobre esta fragilidade, consuma-se o drama de tantas crianças privadas de apoio dos pais, vítimas do mal-estar e do abandono e expande-se a desordem social.

A Igreja não pode ficar indiferente diante da separação dos cônjuges e do divórcio, diante da ruína dos lares e das conseqüências criadas pelo divórcio nos filhos. Estes, para ser instruídos e educados, precisam de referências extremamente precisas e concretas, isto é, de pais determinados e certos que de modo diverso concorrem para a sua educação. Ora é este princípio que a prática do divórcio está minando e comprometendo com a chamada família alargada e móvel, que multiplica os «pais» e as «mães» e faz com que hoje a maioria dos que se sentem «órfãos» não sejam filhos sem pais, mas filhos que os têm em excesso. Esta situação, com as inevitáveis interferências e cruzamento de relações, não pode deixar de gerar conflitos e confusões internas contribuindo para criar e gravar nos filhos uma tipologia alterada de família, assimilável de algum modo à própria convivência por causa da sua precariedade.

É firme convicção da Igreja que os problemas atuais, que encontram os casais e debilitam a sua união, têm a sua verdadeira solução num regresso à solidez da família cristã, lugar de confiança mútua, de dom recíproco, de respeito da liberdade e de educação para a vida social. É importante recordar que, «pela sua própria natureza, o amor dos esposos exige a unidade e a indissolubilidade da sua comunidade de pessoas, a qual engloba toda a sua vida» (Catecismo da Igreja Católica, 1644). De fato, Jesus disse claramente: «O que Deus uniu, o homem não separe» (Mc 10, 9), e acrescenta: «Quem despede a sua mulher e se casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se uma mulher despede o seu marido e se casa com outro, comete adultério também» (Mc 10, 11-12). Com toda a compreensão que a Igreja possa sentir face a tais situações, não existem casais de segunda união, como os há de primeira; aquela é uma situação irregular e perigosa, que é necessário resolver, na fidelidade a Cristo, encontrando com a ajuda de um sacerdote um caminho possível para pôr a salvo quantos nela estão implicados.

Para ajudar as famílias, vos exorto a propor-lhes, com convicção, as virtudes da Sagrada Família: a oração, pedra angular de todo lar fiel à sua própria identidade e missão; a laboriosidade, eixo de todo matrimônio maduro e responsável; o silêncio, cimento de toda a atividade livre e eficaz. Desse modo, encorajo os vossos sacerdotes e os centros pastorais das vossas dioceses a acompanhar as famílias, para que não sejam iludidas e seduzidas por certos estilos de vida relativistas, que as produções cinematográficas e televisivas e outros meios de informação promovem. Tenho confiança no testemunho daqueles lares que tiram as suas energias do sacramento do matrimônio; com elas torna-se possível superar a prova que sobrevém, saber perdoar uma ofensa, acolher um filho que sofre, iluminar a vida do outro, mesmo fraco ou diminuído, mediante a beleza do amor. É a partir de tais famílias que se há de restabelecer o tecido da sociedade.

Estes são, caríssimos Irmãos, alguns pensamentos que deixo-vos ao concluirdes a vossa visita ad Limina, rica de notícias consoladoras mas também carregada de trepidação pela fisionomia que no futuro possa adquirir a vossa amada Nação. Trabalhai com inteligência e com zelo; não poupeis fadigas na preparação de comunidades ativas e cientes da própria fé. Nestas se consolidará a fisionomia da população nordestina segundo o exemplo da Sagrada Família de Nazaré. Tais são os meus votos que corroboro com a Bênção Apostólica que concedo a todos vós, extensiva às famílias cristãs e diversas comunidades eclesiais com seus pastores e todos os fiéis das vossas diletas dioceses.


© Copyright 2009 - Libreria Editrice Vaticana

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

SOLLEMNITAS BEATÆ MARIÆ VIRGINIS PERDOLENTIS


Pax et bonum!

Amanhã, 15 de Setembro, a Arquidiocese de Teresina celebra a Virgem Dolorosa, sua padroeira. Na Igreja Catedral se celebra como Solenidade e nas demais igrejas da Arquidiocese como Festa. No Calendário Romano Geral trata-se de uma Memória obrigatória.

A Festa era celebrada no terceiro domingo de setembro até o Papa São Pio X a transferir para o dia 15, logo após a grande Festa de hoje - a Exaltação da Santa Cruz -, onde ainda permanece.

Uma mensagem de João Paulo II sobre o Papa Pio VII nos fala desta comemoração "que, a 18 de Setembro de 1814, ele quis estender a toda a Igreja, em recordação das dores que afligiram a Igreja na época da Revolução francesa e da dominação napoleônica" (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2000/jul-sep/documents/hf_jp-ii_spe_20000907_congregazioni-benedettine_po.html).
Aqui é interessante pensar na Mãe Santíssima e suas dores pelo seu Filho perseguido no seu Corpo místico, que é a Igreja (como o mesmo Senhor disse ao fariseu Saulo - cf. At 9,4-5).
Isto nos recorda os cristãos no Laos, Camboja e Mianmar, pelos quais o Santo Padre quer que rezemos neste mês de setembro, por causa das grandes dificuldades que muitas vezes encontram.

Todos são convidados para a Oração das Vésperas às 18h na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo, na Praça Rio Branco. Após as Vésperas segue a Procissão rumo à Igreja Catedral e, por fim, a Santa Missa solene.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"Versus orientem é a forma normal da celebração"


Latinista alemão e canonista, o Pe. Gero P. Weishaupt, perito da Pontifícia Comissão para Interpretação dos Textos Legislativos, fez algumas considerações sobre a legislação corrente relativa à direção da celebração da Santa Missa.

A celebração Versus Deum ainda permanece Lei Aplicável

A celebração "versus Deum" - junto com a Comunhão na boca e o latim como língua do culto - não é tópico da "reforma da reforma" da liturgia desejada pelo Papa Bento XVI, mas a implementação da lei aplicável. Debatida aqui, está a correção de um desenvolvimento mal orientado após o Concílio Vaticano II.

Concílio Vaticano II

É bem sabido que o Concílio Vaticano II não fez nenhum pronunciamento quanto à direção da celebração. Nem a constituição Sacrosanctum Concilium prescreve algo sobre a construção de novos altares. O primeiro documento não conciliar que fala algo sobre isso é a Instrução Inter Oecumenici, de 26 de setembro de 1964, que com suas normas alega ser uma concreta execução da Constituição sobre a Liturgia. O texto da instrução segue primeiro em latim e depois em português.

"Præstat ut altare maius extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit..." (Sacra Congregatio Rituum [1964] 898, N. 91).

"É melhor que o altar mor seja construído separado da parede, a fim de que alguém possa facilmente circundá-lo e a celebração de frente para o povo possa acontecer nele."

A principal colocação do texto é a separação do altar da parede (a pariete seiunctum).

Duas coisas ocorrem nesta sentença:

1. apenas uma recomendação é feita a respeito da separação do altar da parede (præstat = é melhor, é desejável)

2. a possibilidade, apenas, da celebração de frente para o povo é mencionada como propósito da separação do altar da parede (ut ... possit = a fim de que... alguém possa). Neste caso, o ut é interpretado como um "ut" final (a fim de que). Gramaticalmente, porém, uma interpretação consecutiva também é possível: ut = de modo que. Assim alguém pode traduzir como segue:

"É melhor que o altar mor seja construído separado da parede, de modo que alguém possa facilmente circundá-lo e a celebração de frente para o povo possa acontecer nele."

Se alguém, portanto, tomar o ut como consecutivo, o circundar e a celebração seriam uma consequência da separação do altar. Através desta mudança na lógica causal das colocações, a referência à celebração (versus populum) seria mais enfraquecida. O que importa ao legislador é a possibilidade de separar o altar da parede, não a celebração de frente para o povo. A última tem menor importância.

Seja qual for o caso, a instrução de 1964 fala apenas da possibilidade da celebração de frente para o povo. De maneira alguma se trata de uma prescrição. Em outras palavras: a celebração versus populum é permitida pela Inter Oecumenici, mas não prescrita.

O Missal de Paulo VI (o assim chamado "uso ordinário do Rito Romano")

Assim é consistente apenas que as rubricas do Missale Romanum do Papa Paulo VI ("Novus Ordo") não assumam a celebração versus populum, mas a celebração versus orientem (chamada de modo impróprio e teologicamente incorreto de "celebração de costas para o povo") quando dizem que o sacerdote, ao Orate, fratres, ao Pax Domini, ao Ecce Agnus Dei e ao Ritus conclusionis se volta para o povo. Esta indicação seria supérflua se as rubricas do Novus Ordo considerassem a celebração versus populum. Assim também o Missal pós-conciliar de Paulo VI assume que o sacerdote celebra a Missa voltado para o altar e não para o povo.

Antes mesmo da Comunhão do sacerdote ele diz explicitamente "ad altare versus", voltado para o altar. A terceira Editio typica do Missale Romanum revisado mantém essas rubricas (Missale Romanum [2002], Ordo Missæ, 515, No. 28, 600, No. 127, 601, No. 132 f., 603, No. 141).

A Institutio Generalis (Instrução Geral) de 2000

Enfim, neste contexto a Institutio Generalis da terceira Editio typica do Missale Romanum revisado publicado para fins de estudo em 2000 é pertinente. Lá se diz no No. 299:

Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile cirumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile est.

"O altar seja contruído separado da parede, a fim de que" ou: de modo que "alguém possa facilmente circundá-lo e a celebração versus populum possa acontecer nele, o que é útil onde for possível".

Em contraste com a instrução Inter Oecumenici de 1964, a Institutio Generalis de 2000 acrescenta e explica que a construção do altar separado da parede é útil e benéfica (expedit). O benefício está relacionado à posição do altar, não à direção da celebração. Dela é meramente dito que se torna possível pela separação do altar da parede (peragi possit). Aqui, também, por essa razão, nenhum requerimento de uma celebração de frente para o povo é expressado.

Mas isso significa: Não há obrigação alguma de se celebrar versus populum. Isto também claramente resulta de uma resposta da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de 25 de setembro de 2000: "Primeiramente se deve ter em mente que a palavra expedit não constitui obrigação, mas uma sugestão que se refere à construção do altar a pariete sejunctum [separado da parede] e à celebração versus populum [voltada para o povo]". Então, a Congregação explica ainda: "A cláusula ubi possibile sit [onde for possível] se refere a diferentes elementos, como, por exemplo, a topografia do local, a disponibilidade de espaço, o valor artístico do altar já existente, a sensibilidade das pessoas que participam nas celebrações numa igreja particular, etc." A Institutio Generalis de 2000, portanto, considera a celebração versus populum como uma possibilidade, sem excluir a celebração versus orientem, voltada para o oriente.

Conclusão

Legalmente, portanto, a celebração versus orientem é a forma normal da celebração. Por razões de espaço ou de arquitetura, é possível colocar o altar separado da parede, o que torna possível a celebração voltada para o povo, mas deve-se salientar que em tal altar a celebração versus populum não é mandatória, mas é provida como uma possibilidade.

Pe. Gero P. Weishaupt

Fonte (em inglês): The New Liturgical Movement

Traduzido por Luís Augusto - membro da ARS