quinta-feira, 30 de junho de 2011

"O Portão para a Eternidade" - parte 3/3

3. Sacrifício de Louvor e Redenção

Tendo examinado o Rito Romano à luz da perspectiva humana, estamos bem cientes do fato de que outro ponto de vista é muito mais importante, se quisermos compreender a forma Clássica da Liturgia. A Sagrada Eucaristia é frequentemente chamada de Santo Sacrifício da Missa. Este título é mais apropriado como expressão do dogma da Igreja acerca da identidade entre o Sacrifício do Calvário e o Sacrifício do Altar. “A Eucaristia é primeiramente um Sacrifício”. Estas palavras de João Paulo II em seu documento Dominicæ coenæ resume a doutrina da Igreja repetida pelos Romanos Pontífices e pelos Concílios Ecumênicos ao longo da história. O Sacrifício da Cruz é o centro do plano da salvação. A raça humana sozinha não poderia cumprir o restabelecimento do equilíbrio Divino na criação, destruído pela orgulhosa desobediência. Este ato de reparação teve que ser realizado num ato misericordioso de auto-doação pelo Deus uno e trino, cuja segunda Pessoa tornou-se homem a fim de expiar pelos nossos pecados num sacrifício de amor. Seria um dos piores mal-entendidos acreditar que foi um deus tirano que pediu um sacrifício humano para aplacar sua ira. Pelo contrário, somente porque o próprio Deus tornou-se envolvido no sacrifício, pela Encarnação, é que um ato humano seria suficiente para afastar a maldição que o orgulho humano moldou para si, desde quando o homem se afastou de seu Criador. É através do Deus-homem Jesus Cristo que a Divindade torna possível a verdadeira salvação, em que a humanidade não é simplesmente algo imposto, mas toma parte desta salvação pela natureza humana de Cristo, no poder redentor da divindade. O Amor Divino agiu pelo Sacrifício da Cruz a fim de garantir a liberdade humana no plano final de nossa libertação do mal.

Pela Divina Vontade, o Sacrifício da Cruz esteve já presente na Última Ceia, quando o Senhor instituiu a Sagrada Eucaristia, e está presente todas as vezes em que a Igreja celebra o Sacramento do Altar, segundo a forma confiada a ela pelo Senhor bendito. A intenção sacrifical, que transformou a morte humana sobre a Cruz num sacrifício para a nossa salvação, é uma perfeita união entre a vontade humana de Jesus e a vontade divina da segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Por isto ele é atemporal e pode ser atualizado em qualquer momento histórico onde for celebrado o Rito, ao qual a intenção sacrifical foi unida para sempre pelo poder divino. A juventude e a atemporalidade do Rito, já mencionados antes, têm sua origem primeira nesta realidade sacrifical que está para além da história e que está no ponto mais central da Igreja e de sua vida litúrgica. O amor de Deus por nós nunca cessa. Este amor tornou-se visível em Jesus Cristo, cujo supremo ato de caridade, o Sacrifício da Redenção, permanece para sempre vivo em sua Igreja, tornada instrumento da Redenção continuada.

Como uma consequência, o supremo ato litúrgico da Igreja é uma efetiva re-presentação do Sacrifício de Cristo. Renovado sob os sinais sacramentais da cerimônia eclesiástica, o Sacrifício não é multiplicado, mas tornado presente além do tempo e do espaço. A presença de Cristo que veneramos sob as espécies Eucarísticas do pão e do vinho é a presença sacrificada do Cordeiro em seu Corpo e Sangue. O Rito Romano Clássico da Missa não pode ser confundido com outras coisas. É um Sacrifício. Todos os outros elementos que ele possa ter, ou vêm disso ou levam para isso. A necessidade de purificação, o louvor dos feitos de Deus nos textos litúrgicos e escriturísticos solenemente proclamados, a preparação ritual do altar, do sacerdote, dos dons e de tantos outros elementos indicam que a Igreja vai representar o Sacrifício de Cristo. Mais uma vez, não podemos discutir todos os detalhes da dimensão sacrifical da Santa Missa, mas os três elementos seguintes poderiam claramente denotar o peso dos acima mencionados.

O ofertório do Rito que celebramos foi comparado ao Cânon ou Oração Eucarística da Missa. De fato, a partir do momento em que o sacerdote apresenta os dons do pão e do vinho a Deus, a intenção sacrifical da Igreja torna-se evidente. Quando ele eleva a oblação do pão, também chamada de hóstia, que vem da palavra latina hostia, significando vítima sacrifical ou simplesmente sacrifício, o sacerdote diz: “Recebei, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, esta hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, vos ofereço, ó meu Deus vivo e verdadeiro, (...) a fim de que, a mim e a eles, este sacrifício aproveite para a salvação na vida eterna”. Novamente, quando eleva o cálice com vinho, o celebrante reza: “Nós vos oferecemos Senhor, o cálice da salvação, (...) para salvação nossa e de todo o mundo”. Ele então inclina-se profundamente e continua: “Em espírito de humildade e coração contrito, sejamos por vós acolhidos, Senhor, e assim se faça hoje este nosso sacrifício em vossa presença, de modo que vos seja agradável, ó Senhor Nosso Deus”. Em seguida, o sacerdote invoca com um gesto o Espírito Santo e abençoa as oferendas dizendo: “Vinde, ó Santificador, Deus eterno e todo-poderoso, e abençoai este sacrifício preparado para o vosso santo nome”. Por fim, tendo apresentado a oblação da Igreja à Santíssima Trindade, ele se volta para os fieis e os convida à oração com as seguintes palavras: “Orai, irmãos, para que o meu e vosso sacrifício seja aceito por Deus Pai todo-poderoso”, ao que o povo responde: “Receba o Senhor por tuas mãos o sacrifício, para louvor e glória do seu nome, para nosso bem e também de toda a sua santa Igreja”. Assim, torna-se patente que a Igreja compreende sua oblação como iniciação do único misterioso Sacrifício de Cristo, oferecido para a glória de Deus, o qual nos traz salvação e bem-estar. Os gestos que acompanham todas estas orações mostram, de modo semelhante, um caráter sacrifical palpável, que se entrevê no fato de os fieis e o sacerdote olharem para a mesma direção quando apresentam juntos, embora de forma diversa, as oferendas a Deus.

Uma segunda marca do sacrifício que a Igreja celebra durante a Santa Missa deve ser encontrado na própria oração que envolve o ato de consagração – o Cânon ou Oração Eucarística, cujas palavras remontam ao alvorescer da Igreja. Logo no início deste venerável texto, que por cerca de um milênio foi o único Cânon utilizado pelo Missal Romano, a Igreja implora a bênção de Deus em termos marcadamente sacrificais: “A vós, então, Pai clementíssimo, por Jesus Cristo, vosso Filho, Senhor nosso, pedimos e rogamos suplicantes que  aceiteis e abençoeis estes dons, estas oferendas, estes santos e ilibados sacrifícios”. Pouco depois ela acrescenta a razão do ato sacrifical: “vos oferecem este sacrifício de louvor por si e por todos os seus, pela redenção de suas almas, na esperança da salvação e da segurança de suas vidas”. Depois de ter pedido a graciosa aceitação da oblação, para ser livre da condenação eterna, a Igreja implora a bênção e a ratificação de Deus sobre ela, a fim de que se torne o Sacrifício de Cristo, seu Corpo e Sangue. Agora a ação Divina começa. A Igreja relata ainda as circunstâncias da Última Ceia, mas aí vem o Senhor bendito, ele mesmo, e fala diretamente e na primeira pessoa pela voz do sacerdote: “Tomai todos e comei, [pois] isto é o meu corpo... [pois] este é o cálice do meu sangue... que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados”.

O sacrifício está pronto e agora a Igreja se apressa em apresentar a Vítima à Divina Majestade: “nós, vossos servos, oferecemos a hóstia pura, a hóstia santa, a hóstia imaculada, o Pão santo da vida eterna e o Cálice da perpétua salvação”. Em seguida, ela compara este eminente sacrifício aos sacrifícios antigos e pede a Deus que o aceite pelos mortos e os vivos em comunhão com os santos. A Vítima do Sacrifício Supremo torna-se uma bênção para a Igreja que, num gesto final, eleva a hóstia e o cálice novamente no desejo de, por Cristo, dar glória a Deus. O Cânon inteiro transmite o sentido de sacrifício mais do que o óbvio. O Filho, que livremente se ofereceu para reconciliar os pecadores com o Pai, restabelece por este ato a honra e a glória à Trindade na criação e possibilita à Igreja combinar o sacramento do altar num sacrifício de honra, louvor, expiação e invocação a Deus por toda a raça humana.

Um elemento conclusivo entre vários outros ainda pode ser mencionado, porque nem sempre nos damos conta dele. Através do Rito, torna-se também muito aparente que a Sagrada Comunhão possui um significado sacrifical. Certamente, os traços de um banquete, seguindo o molde da Última Ceia, são mais marcantes nesta última parte da cerimônia, mas a preparação para isto, pelo sacerdote e pelo povo, mostra que até o banquete da comunhão toma a forma de continuação do sacrifício. A Oração do Senhor, não uma oração de comunhão, mas um paralelo ao prefácio e, portanto, parte do enquadramento solene do Cânon, é recitada apenas pelo sacerdote. Inicia-se com ela o segmento litúrgico da comunhão sacrifical e, de modo muito significante, inicia-se com a fração da hóstia seguida da invocação do misericordioso Cordeiro de Deus, que pouco antes foi sacrificado. Em duas das subsequentes orações silenciosas que preparam para a comunhão do sacerdote, o Corpo e o Sangue de Cristo são mencionados, cuja separação sacramental o Papa Pio XII identificou como o sinal do sacrifício. Uma vez mais, o assistente faz uma confissão pública dos pecados, seguida de duas absolvições para preparar os fiéis para a recepção do Cordeiro imolado, que é solenemente mostrado e anunciado como aquele “que tira os pecados do mundo”. Até a forma secular de comungar ajoelhado e na boca revela que o banquete não é mundano e que pertence ao rito sacrifical como um todo. A oração supracitada, anterior à bênção final do sacerdote, recapitula como num sumário este teor sacrifical de toda ação da Missa e reafirma seu efeito expiatório: “tornai este sacrifício, que eu acabo de oferecer, digno de ser aceito por vós e, pela vossa misericórdia, seja causa de propiciação para mim e para todos aqueles por quem o ofereci”.

Não pode haver dúvida sobre a natureza sacrifical do Rito Romano, que poderia ser mostrada ainda em facetas mais detalhadas, mas que já aparece com clara evidência durante o ofertório, o Cânon e a Sagrada Comunhão. O Rito Clássico anuncia nitidamente que o núcleo da liturgia sacramental da Igreja é o Sacrifício da Cruz, e isto com tal precisão que todos aqueles que historicamente rejeitaram a identidade entre o Sacrifício do Altar e o Sacrifício da Cruz finalmente se viram constrangidos a rejeitar a Liturgia da Missa Católica como um todo. Esta inequívoca afirmação sacrifical, por outro lado, parece também ser a razão por que tantos fundaram a fé em Cristo e em sua redenção simplesmente por participar do Santo Sacrifício da Missa. O surpreendente fenômeno de pessoas trazidas à fé no amor misericordioso de Deus, através dos mistérios litúrgicos celebrados pela Igreja, não pertence apenas ao passado. Pelo contrário, hoje, o número de jovens, sobretudo, tocados pela graça divina enquanto presentes, mesmo pela primeira vez, no Rito Romano Clássico, é esmagador e crescente todo dia. Este impressionante poder do Rito tira sua influência sobre as almas de sua inconfundível identificação com o supremo sacrifício de Cristo.

Conclusão: culto teocêntrico

Como conclusão de todas estas características do Rito Romano Clássico emerge o seu teocentrismo, que significa sua concentração em Deus como centro, causa e meta. Já as características menos típicas do Rito, como a língua litúrgica e a posição do altar, insinuam o fato de que a esfera humana é transcendida em outro domínio e rumo a uma meta mais alta. O significado dos sinais e detalhes usados é obviamente alterado do nível de nossa experiência cotidiana para o mundo sobrenatural onde todo gesto reflete eternidade. O realismo do Missal Romano não termina nas necessidades básicas da humanidade, mas volta-as para Deus e coloca-as numa visão maior da necessidade de salvação pelo Senhor. O elo com a Divindade é o pensamento-chave do Rito, mesmo se este traz nossas necessidades e desejos para a atenção do Todo-poderoso. A dimensão sacrifical é ainda outra e talvez a mais potente expressão da mesma direção teocêntrica do Rito, dado que o sacrifício restabelece a glória divina em sua Criação donde vem nossa redenção.

O Rito desdobra-se, de fato, num sentido ascendente através das orações preparatórias, a leitura dos feitos poderosos de Deus, o oferecimento da hóstia imaculada até o sublime momento da consagração, quando nossa realidade humana torna-se vaso da sua divina presença. Assim, a recitação do Gloria, do Credo e do Sanctus aparecem como partes coerentes de um evento ritual inteiro, cuja meta é levar o adorador ao encontro último com o Divino, que toca o mundo por ele criado. Também depois da consagração não cessa o foco do Rito na Divindade, porque, que outra meta tem a Sagrada Comunhão se não fazer o fiel tomar parte na divina união entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo? O fato de o momento glorioso da íntima participação ser envolvido pelo humilde gesto da receptividade de joelhos somente sublinha uma vez mais que Deus é a fonte de toda ação na celebração litúrgica. Os movimentos anabático e catabático, que são a direção tanto para cima quanto para baixo do Rito Clássico da Missa, estão intrinsecamente focados na Presença Divina que é primeiramente preparada, depois realizada e, por fim, gratamente recebida.

É inquestionável a importância do Rito para a existência humana, e indiscutível a divinização dos vários sinais e símbolos humanos. Absolutamente não há dúvidas quanto à profundidade antropológica dos elementos humanos do Rito e a dependência que eles têm da natureza humana e seus requisitos. Todavia, é o aperfeiçoamento do lado humano do Rito que repousa no Divino e não o contrário, porque foi Deus que criou a raça humana, foi Deus que estabeleceu o caminho para sua redenção final e foi Deus novamente que formou um Rito adaptado para re-presentar as graças da Redenção durante a história humana. É o mérito do Rito Romano, combinando todas as características discutidas numa sublime harmonia, não omitir nada que contribua para realçar a glorificação do Divino neste mundo, sem em nada diminuir a dignidade do humano. O Rito da Missa continua o Mistério da Encarnação que deve ser encontrado na origem primeira da noção de um sacrifício teocêntrico. Penetrando a realidade humana com poder divino, a Encarnação do Senhor bendito elevou para sempre esta realidade. Assim, tudo no Rito proclama que a celebração do Santo Sacrifício da Missa tenciona abrir nossas mentes, corações e sentidos para o Senhor que é o Rei imortal, o Deus a quem pertencem toda honra e toda glória pelos séculos dos séculos.

***

Logo devo disponibilizar este belo texto em arquivo pdf no Gloria.TV. Uma postagem futura o mostrará.
Espero que tenham apreciado. Críticas sobre a redação? Mande-nos um email ou comente a postagem.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

"O Portão para a Eternidade" - parte 2/3

II. Características essenciais do Rito Romano Clássico

A descrição da atmosfera geral que desenvolveu o Rito Romano, e em que ele tem vivido desde então, é apenas parte de seu atrativo único. Se tantos têm pedido por liberdade para participar do Rito que a Igreja cunhou como expressão de sua própria essência, esta surpreendente demanda também está ligada às características do próprio Rito nos vários passos em que ele se desdobra diante do espectador. Nossa apresentação seria incompleta, se não discutíssemos no mínimo alguns dos elementos mais importantes mostrados na celebração do Santo Sacrifício da Missa de acordo com a venerável tradição da Igreja.

a. Dois elementos exclusivos mas não essenciais

Todavia, dissipemos logo no começo alguns equívocos notórios. Duas características normalmente associadas ao Rito do qual estamos falamos são essenciais, mas não são típicas apenas do Rito Romano Clássico, desde que são padrões da liturgia católica até hoje, pelo menos em teoria: a língua litúrgica e a posição do celebrante durante a Missa. Uma Missa em latim não é exclusivamente uma Missa celebrada na forma tradicional, mas pode ser ainda qualquer celebração católica do Mistério do Altar. A Igreja nunca mudou sua convicção de que a língua latina é a mais apropriada expressão da palavra litúrgica na Igreja Latina e considera esta língua, de grandes partes da Igreja Primitiva, como sua própria língua-mãe. Até os dias atuais, o Romano Pontífice celebra a liturgia frequentemente em latim, e é seguido neste costume por um grande número de bispos nas ocasiões mais solenes do ano litúrgico. Nunca um Concílio ou Sínodo aboliu a língua latina como a língua da Igreja, e ainda mais porque os mais importantes documentos da Santa Mãe Igreja, inclusive os decretos do Concílio Vaticano II, estão escritos em latim. Aqui não é o lugar ou o momento de explicar todos os aspectos deste hábito, que certamente é um sinal de longevidade/eternidade, mas deve ser mencionado que pelo latim a Igreja tem sido capaz de preservar sua universalidade extra-nacional, sua ortodoxia, sua unidade, e a profundidade de sua qualidade cultural por cerca de dois mil anos.

O latim da Missa é claro, sóbrio e bem estruturado. Pelo fato de os textos fundamentais serem repetidos cotidianamente, até aqueles que não têm um conhecimento mais profundo desta língua clássica podem reconhecer o significado das palavras e participar da Missa independentemente das circunstâncias ou dificuldades nacionais ou culturais. Ao mesmo tempo, pelo uso do latim como língua litúrgica, o caráter sobrenatural dos Santos Mistérios é sublinhado e sua celebração é salvaguardada de mudanças arbitrárias ou preferências e gostos puramente subjetivos. Além disso, muitos consideram a música eclesiástica baseada nos textos da Missa latina – cantados na forma gregoriana ou em estilo polifônico conforme as famosas composições dos grandes mestres – como cantos que elevam e nutrem a alma. Estas são apenas umas poucas razões por que a Igreja Romana manteve o latim, totalmente independente da questão dos Ritos, como sua língua preferida até hoje.

Outras incompreensões se levantam frequentemente no que diz respeito à posição do celebrante ao altar. O chamado “altar do Sacrifício” que, via de regra, significa um altar solto no qual o sacerdote fica de frente para a assembleia nunca foi mencionado no Concílio Vaticano II e é atualmente uma introdução posterior. Algumas das rubricas do Rito mais novo parecem ainda pressupor que o celebrante esteja na mesma direção que o povo, esteja num altar solto ou num altar-mor que tenha um retábulo. Em todo caso, importantes estudos têm mostrado que a Igreja primitiva celebrava os Santos Mistérios voltada para o oriente, como sinal da ressurreição de Cristo, simbolizada pelo sol nascente. A assembleia e o sacerdote estariam na mesma posição, não importa se o sacerdote estivesse à frente ou atrás dos fiéis. Esta unidade também mostraria que, de um lado, o sacerdote representa a Igreja que oferece os dons a Deus e, do outro, que ele representa Cristo que se imola pela Igreja. Um dos mais recentes estudos acadêmicos, fundado em vários fatos que favorecem a posição orientada do sacerdote, tem um prefácio do Cardeal Joseph Ratzinger, que endossa a qualidade teológica desta tese. Num nível mais prático, pode-se notar que vários santuários populares pelo mundo ainda usam o chamado altar-mor e que mesmo a Capela Papal privada, no Palácio Apostólico, usada todos os dias por Sua Santidade, não tem um “altar de sacrifício” em que o celebrante fique de frente para o povo. Digo novamente, não é este o lugar para discutir a questão a fundo, mas o que foi dito é suficiente para mostrar que a posição do sacerdote voltado para o oriente junto com a assembleia não é exclusiva do Rito Romano Clássico.

b. Elementos essenciais típicos do Rito Clássico

Enquanto os elementos acima mencionados, o Latim e a posição do sacerdote junto do altar, contra um prejuízo tão espalhado, não são exclusivamente típicos apenas do Rito Romano Clássico, outros elementos estruturais do Rito podem ser reconhecidos como pertencentes mais precisamente à sua essência distintiva. Esta essência está envolta na atmosfera orante da admiração descrita no início deste artigo, mas pode ser identificada nas rubricas e textos do Rito contidos no Missal Romano que, por si, pode ser considerado como um monumento cultural.

1. Crescimento orgânico e detalhe inspirado

Antes de analisarmos algumas das práticas rituais, é importante notarmos que o padrão ritual apresentado nas páginas do Missal Romano, como um todo, não é o resultado do estudo de um indivíduo específico ou de um esforço acadêmico, e não foi concebido em um dado momento histórico por um grupo identificável de pessoas. Ninguém “inventou” a Missa ou quaisquer de suas partes. O desenvolvimento do Missal é o resultado de um processo temporal mais extenso para o qual membros da hierarquia e, notavelmente, os Pontífices Romanos, contribuíram não muito frequentemente através de algumas reorganizações e purificações do Rito, que permaneceu inalterado em geral e mesmo na maioria de seus detalhes. Se assim não foi em alguma parte, foi por mais elementos rituais que foram acrescentados ao todo, por já terem sido aceitos na maior parte das regiões da Igreja como expressões adequadas do Mistério litúrgico.

Historicamente, pode-se notar como o crescimento do Rito é mais um resultado do que chamamos teologicamente de “sensus fidelium”, significando o sentido da verdadeira fé de todos os fiéis sob a guia do Espírito Santo, não limitado apenas a um período específico da história da Igreja. Sob a direção prudente e cuidadosa da hierarquia, este “sensus fidelium” permite uma contínua osmose de elementos litúrgicos durante os séculos e garante a conformidade do Rito à sua base doutrinal na Revelação Divina. Assim, o Rito torna-se uma forma visível da fé cada vez mais fiel, especialmente em se tratando do Sacrifício e da Presença Eucarística do Senhor bendito. Bem recentemente, um livro, novamente bem introduzido pelo Cardeal Joseph Ratzinger, indicou com renovada ênfase que a modelagem do Rito Romano pode ser da melhor maneira sintetizada pela palavra “orgânica”. Em sua recomendação, o então Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, agora Papa Bento XVI, assim se exprime: “Assim como um jardineiro cuida de uma planta enquanto ela se desenvolve, com devida atenção para o poder de crescimento e de vida que existe na planta, e as regras a que isto obedece, a Igreja deve dar um cuidado reverente à Liturgia ao longo dos tempos, distinguindo ações que auxiliam e curam daquelas que são violentas e destrutivas”. O Rito Romano Clássico apresenta a Igreja e todo os seus membros cultivando a Liturgia através do tempo e do espaço com cuidado de quem ama. Assim, o Rito conhece uma continuidade de significado e de ritual que nunca foi rompida. Ele não foi “construído” com concreto pré-moldado como uma construção moderna, mas tem crescido lenta e harmoniosamente no solo da Revelação, sob a luz da graça de Deus, como uma planta que mais ricamente desabrocha ao sol quanto mais profundamente está enraizada no chão.

Como consequência necessária da estrutura orgânica na liturgia acima exposta, o Rito apresenta grande continuidade em seus padrões e reflete um verdadeiro interesse por todos os detalhes. Até na vida humana, tudo que realmente importa tem uma rotina que não muda, e mesmo assim é sempre novo e emocionante. As expressão do amor profundo, as formas de respeito, as cerimônias civis, até o nascimento e a morte têm suas convenções fundamentais, mas nunca perdem sua grandeza e respeito. A repetição só é enfadonha quando se torna banal. O sol nascente, porém, a maré, os ventos e tempestades, as estações do ano e tantos outros fenômenos naturais são quadros de grandeza continuamente repetidos e que nunca cansam porque apontam para o seu autor, o Deus onipotente. Do mesmo modo, o detalhe da folha, a asa da borboleta, a simetria de um cristal são sempre fundamentalmente os mesmos de acordo com as espécies a que pertencem, e é exatamente esta fidelidade ao detalhe repetido sempre e sempre que cria a estonteante beleza de uma floresta, de um enxame de borboletas-monarca ou da neve caindo do céu invernoso. Assim como Deus, seu autor, o que é perfeito não precisa de mudança e sua aparição sempre dá novo prazer.

Por esta razão, a fidelidade ao padrão litúrgico, a repetição diária de palavras, movimentos e gestos idênticos, a leitura dos mesmo textos durante o ano, as festas e tempos litúrgicos recorrentes, a exatidão das rubricas indicando cada detalhe do Rito, a descrição precisa dos altares, dos vasos, dos instrumentos, das vestes e cores a serem usados mostra a perfeição de um Rito amadurecido através da modelagem constante efetuada pelo Divino. Deus é o autor último da Liturgia. Nós sabemos como são tão importantes os detalhes numa relação humana. Um sorriso, o tom da voz, o piscar dos olhos, todos os rituais da afeição humana são rubricas de amizade e amor negligenciadas somente com graves consequências para nossa vida diária. Quanto mais importam os detalhes em nosso relacionamento com Deus, não primeiramente para ele, mas para nós! Seria de espantar ele ter mostrado à sua Igreja como manter são e salvo este relacionamento fundamental, de que tudo depende? Não teria sido ele indiferente e distante deixando-nos sozinhos com nossa incapacidade de encontrar as palavras e os gestos corretos, que já destruiu tantos laços humanos de amor? Mas Deus não é distante e nem indiferente. Ele tornou-se homem para celebrar sobre o Calvário o gesto definitivo de amor redentor, que ele quer que seja repetido de forma sacramental por todo o sempre.

Assim, a forma do sacramento, todo importante para nossa salvação, foi instituída por Ele em seu padrão fundamental, e Ele enviou o seu Espírito para ensinar sua Igreja a como penetrar todos os seus gestos de culto com a mesma perfeição divina pelos séculos. Portanto, a fidelidade imutável ao padrão sacramental geral e ao detalhe litúrgico orgânico não é pobreza espiritual ou falta de criatividade, mas respeito e amor pela presença do divino em formas humanas perfeitas. O Rito cresceu organicamente para uma maior perfeição com o auxílio de Deus e assim o deve fazer, mas não necessita de mudanças diárias ou inovações puramente humanas, pois o Senhor habita nele, ele que “é o mesmo ontem, hoje e sempre”. Cristo é sempre novo e sempre o mesmo, e assim é a Liturgia de sua Igreja.

2. Realismo amoroso

Sendo um espelho da presença de Deus neste mundo e uma tradução de sua perfeição em gestos humanos, o Rito Romano apresenta um amoroso realismo quando trata da condição humana. Glória e Cruz, Graça e natureza, luz e treva são familiares ao padrão e ao detalhe do Rito. Como se tomaria demasiado tempo para explanar toda a riqueza de expressão relacionada a esta verdade, limitaremos nossas reflexões a alguns exemplos notáveis.

Depois de ter iniciado a Missa com o sinal-da-cruz, o Rito Romano Clássico segue com as chamadas “orações ao pé do altar”. Ao invés de imediatamente entrar no santuário, o sacerdote permanece de pé diante do primeiro degrau e, junto com o coroinha, recita um salmo introdutório com uma antífona. O salmo claramente intenta preparar o sacerdote para a celebração daquilo que é sacratíssimo: “Julgai-me, ó Deus, e separai a minha causa da gente ímpia”. Isto se torna mais claro com a recitação alternada do Confiteor com o qual o sacerdote e o coroinha confessam sua condição de pecadores a Deus, à corte celeste, e a cada um. Duas absolvições e uns versículos adicionais mostram que a Liturgia é muito consciente da necessidade de purificação antes que os Santos Mistérios possam ser celebrados de um modo digno. Quando, enfim, o sacerdote sobe ao altar, ele silenciosamente acrescenta uma oração que data da antiga Missa do Romano Pontífice e faz alusão à Capela Papal “Sancta Sanctorum”, no Palácio Lateranense, em Roma, e suas famosas relíquias: “Afastai de nós, Senhor, vos pedimos, as nossas iniquidades, a fim de merecermos entrar de alma pura no Santo dos Santos” e “Nós vos suplicamos, Senhor, pelos merecimentos dos vossos Santos, cujas relíquias aqui se encontram, e de todos os santos, vos digneis perdoar-me todos os meus pecados”. Somente, então ele beija o altar, que também contém relíquias de santos, e prossegue com a Missa.

O sacerdote e o povo estão claramente relembrados de sua necessidade de purificação espiritual, e a liturgia parece mesmo indicar que o celebrante tem necessidade desta purificação de modo mais urgente. Com toda a beleza e a elegância visível no Rito, desde o seu início, não se esquece da condição humana e, enquanto assinala ao sacerdote o papel de seu estado hierárquico como representante da Igreja e de Cristo, ela não o deixa esquecer que ele também é um pecador. O mesmo claro realismo é evidente nas orações do ofertório onde o celebrante fala de si mesmo como um “servo indigno” de Deus, e professa que ele oferece a hóstia por todos os presentes, mas também por seus próprios “inumeráveis pecados, ofensas e negligências”. Novamente, durante a oração silenciosa do Cânon da Missa, este silêncio somente é interrompido quando o sacerdote bate no peito depois da consagração e fala em voz alta: “E também a nós pecadores...” De modo similar, em sua oração privada antes da comunhão, o sacerdote implora a Deus que o livre, pelo seu sacratíssimo Corpo e Sangue, de todas as suas “transgressões” a fim de que o que ele “indignamente” presume receber, não se torne para ele “juízo e condenação”. Até nos últimos instantes da Missa, exatamente antes de dar a bênção final para os fiéis, esta realística visão da fragilidade humana é reiterada quando o celebrante pede ao Todo-poderoso para aceitar o sacrifício oferecido por ele, embora seja ele indigno. Sem nenhum clericalismo, o Rito Romano deixa muito claro que o sacerdócio é dado aos homens que precisam da clemência misericordiosa de Deus, ou seja, todos.

A mesma perspectiva realística sobre a vida é apresentada em todas as instâncias em que o Missal trata da condição humana em geral. Toda necessidade de nossa existência é relacionada, não apenas a comum condição de pecadores contra a qual estamos acostumados a lutar. A graça, a misericórdia, a generosidade e o auxílio de Deus são pedidos em quase todas as Coletas (Collecta) da Missa – como é chamada a oração introdutória depois da preparação aos pés do altar e o Kyrie eleison – e vários assuntos humanos sobre necessidade e indigência espiritual e material são mencionados. É impossível enumerar todas as orações neste contexto.  Basta apontar as Missas especiais e votivas em tempos de guerra, para implorar a paz, para evitar a morte, pelos viajantes e pelos enfermos, para uma boa morte e em ação de graças. Há um grande leque de orações a serem rezadas na Missa, como orações pela Igreja, pelos membros da hierarquia, a família, pelos inimigos e malfeitores, contra a fome, terremotos, furacões, doenças nos animais ou maus pensamentos, orações para implorar chuva, tempo tranquilo, o dom das lágrimas, o perdão dos pecados, orações pelos tentados, pela castidade, humildade, paciência e caridade, e finalmente orações pelos nossos amigos, nossos adversários, pelos que estão na prisão, nos mares e oceanos e por todos os vivos e mortos.

O Rito Romano Clássico, com todas as suas elevadas formas de Culto Divino, não esquece os detalhes da realidade do nosso dia a dia e parece espelhar o cuidado materno da Igreja por seus filhos, não negligenciando, mesmo nas situações mais extravagantes às quais nossa caminhada terrena nos possa levar. Pedidos materiais e espirituais semelhantes estão presentes no Rito, e podemos sentir o amor de Deus encarnado que experimentou a necessidade humana e não falha em recordar nossa condição cheia de privações. O realismo do Rito não é cínico, mas cheio de ternura, e enquanto “o mundo está ficando cada vez mais frio”, como de maneira adequada a Coleta para a Festa da Estigmatização de São Francisco de Assis expressa nosso estado presente, a afabilidade da atenção de Deus por nós, no Rito da Liturgia Clássica, ainda está aquecendo o nosso coração.

***

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"O Portão para a Eternidade" - parte 1/3

Pax et bonum!

Depois de cerca de 4 meses finalmente concluí a tradução do belíssimo artigo The Gateway to Eternity - The Classical Roman Rite and its meaning for the Church, do Mons. Michael Schmitz, vigário geral e superior provincial para os EUA do Institute of Christ the King Sovereign Priest, uma Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício, fundada em Gabon, na África, e cuja casa mãe fica em Florença, na Itália.  Uma de suas metas é a santificação dos sacerdotes e possui certa índole missionária. Parte importante de seu carisma é a adoção exclusiva da Forma Extraordinária do Rito Romano para a vida litúrgica.
Bem, não é que eu demore tanto, mas às vezes a tradução passa por longas pausas, devido a tantas coisas que têm prioridade no cotidiano. Eis a razão para os quatro meses.
O artigo trata do significado da Forma Extraordinária do Rito Romano para a Igreja e beira ao poético, com um notável lirismo que encanta.
Certamente pode haver alguma imprecisão (não sou profissional), mas a intenção foi de oferecer uma tradução boa, fidedigna.
Bom proveito!

O Portão para a Eternidade
O Rito Romano Clássico e seu significado para a Igreja
Por Mons. R. Michael Schmitz


O Rito Romano Clássico, por vários anos escondido e despercebido, a cada dia traz mais e mais jovens pessoas para dentro de sua esfera. O Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote é profundamente grato ao Santo Padre pelos seus planos que intentam a liberação mundial de um Rito que pertence à herança genuína da Igreja.

I. A Atmosfera do Rito Romano Clássico

Para melhor compreender que grande dom é o Rito Romano Clássico para todos, queremos chamar a atenção para alguns pontos fundamentais que dizem respeito ao ritual da Igreja enfatizado por esta última decisão, antes de apresentarmos várias características essenciais do próprio Rito. Como questão de fato, esta permissão – um motu proprio, significando a própria decisão do Romano Pontífice e marcado pela sua autoridade oficial – sublinha algumas características muito importantes da atmosfera geral da vida litúrgica clássica da Igreja: divina liberdade, duradoura juventude, harmoniosa multiplicidade, universalidade transcendente, beleza sobrenatural.

a. Divina liberdade

O Rito Romano remonta ao início da Igreja e passou por um longo desenvolvimento orgânico e frutuoso por cerca de dois milênios. Contudo, o Indulto não trata de algo velho de um passado esquecido ou de uma peça da antiguidade descoberta no porão da Santa Mãe Igreja por um grupo de nostálgicos. Pelo contrário, o Indulto Geral simplesmente estabelece a todos a possibilidade do livre acesso ao pleno tesouro litúrgico da Igreja. Este tesouro nunca envelheceu. Cada vez mais pessoas jovens, e bem jovens, perguntaram às autoridades da Igreja por que este venerável Rito não mais era acessível à maior parte do povo. Se não há razão, eles argumentaram, este Rito é um brilhante monumento de cultura musical, linguística e artística. Grandes mestres como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Mozart, Verdi, Tiepolo, Chagall, Chaucer, Goethe, Tolkien, para nomear apenas uns poucos dentre milhares, foram inspirados por ela ou trabalharam por ela. As gerações mais jovens quiseram não mais estar alheias a esta herança de perfeição, excelência e beleza. Além disso, várias pessoas jovens expostas ao Rito Romano Clássico através de informações na internet ou por uma visita ocasional a uma tal “Missa Latina Tradicional”, sentiram-se espiritualmente elevados e puderam experimentar a admiração e a santidade permeando o Rito Clássico. Ao lado daqueles que ainda guardavam memórias desta fonte única de inspiração, eles insistentemente pediram uma liberação geral do Rito e a aplicação generosa dos passos previamente dados pela Santa Sé para encorajar a permissão para a sua celebração.

Assim, uma permissão mais geral do Rito Romano Clássico só pode ser percebida como um ato de liberdade e recebida com um grande alívio. Seria uma satisfação, para muitos, gozar finalmente de uma verdadeira e plena liberdade litúrgica e participar do Rito que, com poucas mudanças no transcurso dos séculos, tem sido o coração da Igreja por mais de 1500 anos. Agora, todos poderão sentir-se livres para descobrir a continuidade da vida litúrgica na Igreja e estudar a profundidade de seu significado teológico. O Rito Romano Clássico nunca foi proibido ou abolido, mas de alguma forma pareceu ter escorregado naquilo que os romanos chamaram de “damnatio memoriæ”, uma interdição da memória. A memória viva da Igreja, no entanto, é baseada na liberdade da graça. Nada que é divino pode ser apagado dela. A liberdade da graça é mais forte que o prematuro esquecimento ideológico. Com o Indulto, a Divina Liberdade abriu uma porta. Esta porta deve ter ficado bloqueada momentaneamente, mas o tesouro atrás dela esteve sempre vivo e presente.

b. Duradoura juventude

Consequentemente, o Indulto Geral não trata de formas de culto de ontem, mas de uma liturgia divinamente inspirada, ligada à própria juventude da Igreja. Esta liturgia manteve sua juventude inalterada até hoje. A própria Igreja inicia a Missa após o sinal-da-cruz com as palavras: “Introibo ad altarem Dei, ad Deum qui lætificat iuventutem meam; Subirei ao altar de Deus, ao Deus que alegra a minha juventude”.

O Instituto de Cristo Rei e Sumo Sacerdote (Institute of Christ the King Sovereign Priest) é um bom exemplo deste espírito jovem da liturgia. Por uma questão de fato, não poderíamos estar mais longe de sermos um bando de saudosistas. A grande maioria de nossos padres está bem abaixo dos quarenta, e temos tantas jovens vocações que não podemos aceitá-las todas no Seminário Internacional. O ramo das irmãs religiosas que apenas acrescentamos ao Instituto não tem nenhuma irmã acima dos trinta. Nós certamente acolhemos todas as idades em nossa liturgia e somos especialmente gratos àqueles que sempre foram fiéis a ela, mas é notável quantas jovens famílias e jovens adultos solteiros vêm às Missas celebradas no Rito Romano Clássico. O número de adolescentes e crianças é semelhantemente impressionante. Muitos nos contaram que sentem que o Rito que celebramos contribui para o rejuvenescimento da Igreja, e os visitantes se impressionam pelos tantos rostos jovens que eles vêem em nossas celebrações dominicais. Mais uma vez, o Rito que celebramos mostra muito claramente que ele não pode ser identificado com um grupo de idade ou a um específico período de tempo do passado. Nada dele é poeirento, mofado ou antiquado. O Rito Romano Clássico aparece tão atemporal quanto uma obra de arte, quanto as imutáveis expressões de amor, quanto o oceano, as montanhas ou o céu estrelado. Os grandiosos e eternos gestos de Deus estão presentes em seus rituais e revelam uma profundidade e uma beleza que não pode diminuir nem desaparecer. A juventude do Rito é um reflexo da juventude de Deus que jamais muda.

c. Harmoniosa multiplicidade

A multiplicidade na unidade é um grande dom. A Igreja Católica, durante sua longa vida, fomentou muitas culturas as quais estiveram todas crescendo no berço da unidade de fé. Um grande número da população dos Estados Unidos, Itália, Espanha, Filipinas, Alemanha, os países da América do Sul, França, Irlanda e tantas, tantas outras nações, adorou na unidade da Fé Católica, sendo ainda suas culturas tão diversas quanto podem ser. Frequentemente, a Igreja tem sido comparada a um grande jardim com muitas árvores, arbustos e flores diferentes, apresentando inúmeras formas, cores e perfumes enquanto todas mostram o mesmo movimento harmonioso em direção a um foco. Os milhares de excepcionalmente heroicos e santos homens e mulheres, grupos e ordens, movimentos e eventos históricos influenciados pela Igreja são prova desta variedade refletindo o insondável abismo da copiosa magnificência de Deus.

O esplendor da vida litúrgica da Igreja revelou a mesma diversidade harmônica em tantas formas possíveis que tornaram-se mais expressivas e ricas no passar dos séculos. O arranjo das expressões litúrgicas entre as chamadas “famílias de Rito” na Igreja Católica é impressionante, se apenas pensarmos nos Maronitas, Ucranianos, Greco-Católicos, Siro-malabares, Caldeus uniatas, Armênios e Coptas. Todos estes ritos são veneráveis monumentos de antiguidade eclesiástica, e eles sobreviveram mesmo sob as mais difíceis circunstâncias e mantêm os fiéis unidos a eles fortes em sua fé e joviais em sua esperança cristã. Até recentemente esta variedade também fez parte do Rito Latino, e muitas dioceses e ordens religiosas tinham seu próprio ritual que eles consideravam como uma outra possibilidade de mostrar a grande riqueza da cultura católica. É verdade que o Rito Romano conheceu uma crescente tendência para unificação, embora nunca excluindo qualquer coisa que fosse “digna e razoável”, mas incluindo mais e mais na diversificada fortuna de expressões litúrgicas no único Rito Romano. Por gerações o Rito Latino foi crescendo para tornar-se um caleidoscópio perfeitamente unificado da multiplicidade Católica Romana, integrada num único Rito através de um processo orgânico que sempre foi compreendido como um dom do Espírito de Deus.

d. Universalidade transcendente

O Rito Romano é universal. Ele sempre teve uma dimensão global no tempo e no espaço. Antes de tudo, ele nunca foi aceito como sendo uma invenção puramente humana. Nada na Igreja é venerado ou mantido simplesmente por ser antigo. A Igreja sempre se relaciona primeiramente com o presente e não com o passado ou o futuro. A presença com que nos relacionamos é a presença de Cristo e sua redenção. É uma presença meta-histórica, significando que o Senhor e sua graça não dependem do tempo ou da história, mas se estendem à imensa eternidade de Deus. O Deus-homem Jesus Cristo não pertence a nenhum período de tempo, mas é o tempo que pertence a ele. Embora tendo vivido verdadeiramente como homem num certo momento da história no qual operou nossa Redenção, sua divindade tornou sua pessoa e suas ações presentes para todos os tempos, que por ele são para sempre mudados. A presença atemporal de Cristo é o próprio Mistério que a Igreja celebra em seus altares. Por esta razão, o Rito de suas celebrações, inicialmente organizado pelo Senhor e seus primeiros discípulos, e logo em seguida desenvolvido sob a guia do Espírito Santo pelo “sensus fidelium”, o harmônico senso da fé da Igreja inteira, revela a atemporalidade de sua Esposa. Pela ação atemporal de Cristo, a Igreja pode torná-lo presente a todos os tempos em seus altares. O seu Rito é como uma janela para a eternidade.

O Rito é celebrado num momento histórico que é transcendido pelo próprio Rito. De modo semelhante, o Rito tem uma dimensão de espaço porque sua celebração depende das circunstâncias locais. Por sua vez, todavia, o local é transcendido, como o tempo, já que o espaço torna-se sagrado porque é consagrado pela Presença de Cristo, através de sua Igreja e seu Rito. O ato supremo de obediência à vontade do Pai sobre a cruz, com o qual o Senhor quis operar a nossa Salvação, é colocado para além do tempo e do espaço pelo poder divino. Por essa razão, esta ação será apresentada a qualquer tempo e espaço, consagrada por Cristo através do Rito instituído por ele e celebrado pela Igreja.

Consequentemente, o próprio Rito, embora rico de elementos individuais de várias épocas e lugares, no todo exala o hálito Divino da presença eterna. Tendo preservado num longo desenvolvimento orgânico apenas as formas mais adaptadas para conter o Divino em sinais e gestos humanos, a estrutura visível do Rito foi transformada num instrumento único da Presença Divina neste mundo. O Rito Romano Clássico ser experimentado como “de outro mundo”, algo percebido também pelo observador inexperiente e talvez estranhado, vem do fato de que o Rito não é moldado seguindo as modas e gostos de certas épocas e lugares, mas aquilo que se realiza e celebra, o Sacrifício da Redenção, celebrado na Cruz por Jesus Cristo, o único que é Sacerdote e Vítima, o Cordeiro apocalíptico de Deus.

e. Beleza sobrenatural

Os elementos acima mencionados criam uma atmosfera de íntima comunicação entre o humano e o Divino. O mistério da Encarnação prolonga-se, assim, no ritual. O próprio Cristo deixou a Igreja como um legado de salvação a ser perpetuado até o fim da história. A natureza humana de Cristo é o “organon divinitatis”, o instrumento da Divindade, como Cirilo de Alexandria formula no séc. IV e Tomás de Aquino explica cerca de oito séculos depois. Não, todavia, um instrumento exterior ao agente, como uma mera ferramenta, um martelo, por exemplo, mas um instrumento unido ao agente pela graça divina, a graça da união, que faz com que a natureza humana de Cristo seja totalmente penetrada pela Divindade, mais que o óleo umedecendo um pedaço de pano ou a chama brilhando numa barra de ferro incandescente, para usar os exemplos dos Padres Gregos da Igreja. Em Cristo, todo o humano é divino, razão pela qual sua vida terrena é a revelação contínua da verdade divina, o sacrifício da Cruz é o preço de nossa salvação, sua ressurreição corporal é o triunfo da vida eterna e seu coração, o altar da Redenção.

Esta lei da Encarnação, da unidade entre natureza e graça, entre humanidade e Divindade, é visível em seu Corpo místico, a Igreja. Não que a graça da perfeita união seja continuada inconsideradamente em todos os seus membros ou ações. A Segunda Pessoa Divina tornou-se um homem histórico e individual; não se encarnou na coletividade. Todavia, sua graça dá uma união indestrutível ao elemento humano na Igreja e é particularmente densa nos momentos em que ele prometeu a presença nas ações dela. Por esta razão, a voz dela é infalível quando ela ensina de modo definitivo em seu nome, suas ações são divinas quando ela fielmente celebra os ritos sacramentais que ele instituiu para a salvação da multidão, e suas leis falam da vontade dele quando ela caminha rumo aos mandamentos. Se o bem-aventurado corpo humano do Senhor foi acertadamente chamado de instrumento de sua divindade, seu Corpo místico com significado não inferior foi referido como o “Cristo expandido na terra”. Tristemente, é bem óbvio que nem tudo que é humano na Igreja pode ser considerado divino, mas o centro de sua vida, sua doutrina divina, sua liturgia e sua lei são sustentadas pela ação sobrenatural de Cristo e gozam da plena consequência da regra da Encarnação, que conectou para sempre a humanidade com a Trindade.

Esta íntima unidade parece diretamente tangível na Igreja através do que tem sido chamado inúmeras vezes de “fonte e cume” de sua vida, que é o Santo Sacrifício da Missa. Aqui, Cristo está substancialmente presente com sua Humanidade e sua Divindade, com seu Corpo e sua Alma. Tudo na vida da Igreja tem como foco esta Presença e a celebração do Sacrifício que torna esta vida possível. Consequentemente, a ação litúrgica que envolve o momento próprio do Sacrifício, nas palavras da consagração instituídas pelo Senhor durante a Última Ceia, revelam o poder divino que transforma sinais humanos em farois de luz celestial. O banal não tem lugar nesta conversão misteriosa. Todas as sílabas, cada gesto, e até os medidos espaços de silêncio, repetidos através dos tempos em obediência à Divina vontade de salvação, têm um significado diretamente ligado à Imensidão do Divino e que foge a todos os disparates humanos.

A clara luz da eterna liberdade, a alegria refrescante da duradoura juventude, a harmonia única da multiplicidade unificada e a transcendência sobrenatural (lit. no original: de outro mundo) de tempo e espaço são fundidas numa ação de beleza indizível que não pode ser reduzida a meras palavras. O sinal sacramental vela e revela o ato do Deus-Homem Jesus Cristo, porque apresenta elementos de sua própria existência concentrados num momento de transfiguração do humano no Divino. O sacrifício da humanidade de Cristo glorifica pela eternidade esta existência e, assim, o Monte Calvário e o Monte Tabor são mesclados num único Momento de Redenção no qual os raios da ressurreição não podem ser obscurecidos pela sombra da Cruz. O esplendor deste instante é capturado pela pureza sóbria de um Rito que toca o divino no silêncio e descobre a verdade do Sacrifício no simples gesto de elevar uma hóstia branca no triunfo da ressurreição.

Deus é beleza. Sua criação fulgura em infindáveis facetas de sua majestade. A Vitória sobre a Cruz, seguida pela triunfante Ressurreição é a exaltação de sua Majestade na face da morte. Nada é de beleza tão essencial quanto este Gesto Redentor do Divino Amor. Este mesmo Divino Gesto, sob a forma de sinais humanos divinizados, é repetido em nossos altares a cada dia. Repentinamente, entende-se por que todo detalhe durante a celebração é de inexorável valor e por que, através de uma influência sobrenatural, a totalidade dos gestos humanos da Missa formam uma inteira ação sacramental cuja beleza não se pode explicar a não ser pela constante intervenção divina. O Sacramento do Altar não pode ser reduzido nem ao seu significado intelectual, nem apenas às suas palavras, suas ações ou ao seu efeito espiritual. O Santo Sacrifício da Missa forma uma unidade em que todos os elementos tomam parte na beleza do todo. A grandeza, mesmo de uma Missa rezada, consiste no fato de que Deus elevou a natureza pela graça, e ainda mais no centro da liturgia que celebra sua glória e nossa redenção. A Beleza, então, não é uma decoração negligenciável para uma ação da qual só importa a validade sacramental, mas uma indicação inconfundível da presença Divina. Esta é a razão pela qual o próprio Deus nos deu uma Missa que é um vislumbre do céu.

***

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

Feliz missão!

Pax et bonum!

Escutei há alguns minutos o canto final da Missa na Basílica de São Pedro. Dom Sérgio da Rocha, que foi arcebispo de Teresina, e Dom Pedro Brito, que foi bispo de São Raimundo Nonato, juntos com outros 39 arcebispos, receberam o pálio das mãos de Sua Santidade, o Papa Bento XVI. Também foi comemorado o 60º aniversário da Ordenação Sacerdotal do Santo Padre.
Que Deus onipotente abençoe, guarde, conduza estes dois arcebispos que deixaram o Piauí e seguem, agora, um para Brasília-DF e o outro para Palmas-TO.

Por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 26 de junho de 2011

Um "Glória" português...

Pax et bonum!

Hoje à tarde recordei-me da campanha do Salvem a Liturgia pelo fim do "Glória Pirata", título que também enquadra um texto, já usado com várias melodias, comumente chamado de "Glória da CNBB" (sic), que possui 5 estrofes (Glória a Deus nos altos céus... Deus e Pai, nós vos louvamos... Senhor nosso Jesus Cristo... Vós que estais junto do Pai... Vós somente sois o santo...).
Procurando conhecer um pouco das composições dos irmãos lusitanos, encontrei um Glória. O texto altera a parte "e paz na terra aos homens de boa vontade" (seria o literal) ou "e paz na terra aos homens por ele amados" (texto do Missal do Brasil) e utiliza um refrão (o que vai contra a composição pura e original do Glória), mas tem uma melodia bela e é tocado em uníssono (exceto por este refrão), acompanhado por um órgão. Todo o resto da letra segue o Missal.
É possível ver ainda o sacerdote de casula romana e o símbolo do canal TVI transmitindo "em directo" (ao vivo). Não sei qual a Igreja e nem qual a localidade de Portugal.
A composição é do Pe. António Azevedo de Oliveira.



Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 21 de junho de 2011

“O poder atrativo da beleza litúrgica”

Entra-se na Igreja por duas portas: a porta da inteligência e a porta da beleza. A porta estreita... é a da inteligência; ela está aberta para  intelectuais e acadêmicos. A porta mais larga é a da beleza. Henri Charlier disse, na mesma linha, que "é necessário perder a  ilusão de que a verdade pode se comunicar frutuosamente sem aquele esplendor que é da mesma natureza que ela e que se chama beleza" (L'Art et  la Pensee).
A  Igreja, em seu  insondável mistério como esposa de Cristo, o Kyrios da Glória,  tem necessidade de uma epifania  terrena (isto é, uma manifestação) acessível para todos: esta é a majestade de seus templos, o esplendor de sua liturgia e a doçura de seus cantos.
Pegue um grupo de turistas japoneses visitando a Catedral de Notre Dame  em Paris. Eles  olham  para  a  altura  dos vitrais, a harmonia das proporções. Suponha que num dado momento, ministros sagrados paramentados com capas de veludo bordadas entram em procissão para as Vésperas solenes. Os visitantes assistem em silêncio; estão extasiados:  a  beleza  abriu-lhes  as  portas.  Ora, a  Summa Theologica  de São  Tomás  de Aquino  e Notre Dame em Paris são produtos da mesma era. Eles dizem a mesma coisa. Mas qual dos visitantes  leu a Summa de São Tomás? O mesmo fenômeno é encontrado em todos os níveis. Os 
turistas que visitam a Acrópolis em Atenas são confrontados com uma civilização de beleza. Mas quem dentre eles pode entender Aristóteles?
E assim  também é com a beleza da  liturgia. Mas do que qualquer outra coisa, é ela que merece ser chamada de o esplendor da verdade. Ela abre tanto para o pequeno como para o grande os tesouros de sua magnificência: a beleza da  salmodia,  os  cantos  e  textos  sagrados,  as  velas,  a harmonia de movimento e a dignidade ao carregar objetos. Com  arte  soberana  a  liturgia  exerce  uma  verdadeira influência sedutora sobre as almas, tocando-as diretamente, antes mesmo de o espírito perceber a sua  influência.

Dom Gerard Calvet, OSB - Four Benefits of the Liturgy


Tradução do inglês por Luís Augusto - membro da ARS

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cantando o Tempo Comum - Canto Gregoriano

Pax et bonum!

Temos pela frente cerca de 22 semanas deste Tempo Comum ("per annum") depois de Pentecostes. É um ótimo tempo para se exercitar com o povo o Canto Gregoriano.
Os livros oficiais nos fornecem duas Missas que não são difíceis. De fato, as melodias mais longas e melismáticas são dos tempos e festas mais solenes.
Pois bem, seguem os links do Saint Antoine Daniel Gregorian Chant Ordinaries, cortesia de Corpus Christi Watershed Liturgical Ministries, para páginas com os cantos (partitura e mp3) para este tempo:


- Missa XI - Orbis factor - In dominicis per annum (para os Domingos)
- Missa XVI - In feriis per annum (para os dias de semana)

Por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 19 de junho de 2011

O Domingo da Trindade


É o primeiro Domingo depois de Pentecostes, instituído para honrar a Santíssima Trindade. Na Igreja primitiva não havia nenhum Ofício ou dia designado para a Trindade Santa. Quando a heresia ariana estava se espalhando os Padres prepararam um Ofício com cânticos, responsórios, um Prefácio e hinos, a serem recitados aos domingos. No Sacramentário de São Gregório Magno (P.L., LXXVIII, 116) há orações e um Prefácio da Trindade. Os Micrólogos (P.L., CLI, 1020), escritos durante o pontificado de Gregório VII (Nilles, II, 460), chamam o Domingo depois de Pentecostes de um Dominica vacans, sem nenhum Ofício especial, mas acrescenta que em alguns lugares se recitava o Ofício da Santíssima Trindade composto pelo bispo Stephen de Liège (903-920). Por outros o Ofício era rezado no Domingo antes do Advento. Alexandre II (1061-1073), e não o III (Nilles, 1. c.), negou uma petição por uma festa especial argumentando que uma tal festa não era do costume da Igreja Romana que diariamente honrava a Trindade Santa pelo Gloria Patri, etc., mas não proibiu a celebração onde esta já existia. Foi João XXII (1316-1334) que ordenou a festa para a Igreja inteira no primeiro Domingo depois de Pentecostes. Um novo Ofício foi feito pelo franciscano John Peckham, cônego de Lião, depois Arcebispo de Cantuária (+1292). A festa era classificada como dupla de segunda classe, mas foi elevada à primeira classe, aos 24 de julho de 1911, por São Pio X (AAS, III, 351). Os Gregos não têm uma festa especial. Desde que foi depois do primeiro grande Pentecostes que a doutrina da Trindade foi proclamada ao mundo, a festa ocorre muito apropriadamente em seguida à de Pentecostes.

Fonte: Mershman, Francis. "Trinity Sunday." The Catholic Encyclopedia. Vol. 15. New York: Robert Appleton Company, 1912. <http://www.newadvent.org/cathen/15058a.htm>.

***

O Prefácio permaneceu o mesmo com o Novus Ordo Missæ, sendo que na Forma Extraordinária é usado em todos os Domingos comuns, enquanto que na Forma Ordinária ficou restrito à Solenidade da Santíssima Trindade. Segue o texto e a tradução do Missal Quotidiano e Vesperal de Dom Gaspar Lefebvre, OSB:

Vere dignum et iustum est, æquum et salutáre, nos tibi semper et ubíque grátias ágere: Dómine, sancte Pater, omnípotens ætérne Deus: Qui cum Unigénito Fílio tuo et Spíritu Sancto unus es Deus, unus es Dóminus: non in uníus singularitáte persónæ, sed in uníus Trinitáte substántiæ. Quod enim de tua glória, revelánte te, crédimus, hoc de Fílio tuo, hoc de Spíritu Sancto, sine discretióne sentímus. Ut, in confessióne veræ sempiternæque Deitátis, et in persónis propríetas, et in esséntia únitas, et in maiestáte adorétur æquálitas. Quem laudant Angeli atque Archángeli, Chérubim quoque ac Séraphim, qui non cessant clamáre cotídie, una voce dicéntes: Sanctus, Sanctus, Sanctus Dóminus Deus Sábaoth...

É verdadeiramente digno e justo, necessário e salutar que sempre e em toda parte vos demos graças, Senhor, Pai santo, Deus onipotente e eterno, que sois com o vosso Unigênito Filho e o Espírito Santo um só Deus, um só Senhor, não na unicidade duma só pessoa, mas na Trindade duma só natureza. Com efeito, o que, em virtude da vossa revelação, acreditamos com respeito à vossa glória, isto mesmo cremos, sem distinção alguma, do vosso Filho e do Espírito Santo; de tal modo que, ao proclamarmos a verdadeira e sempiterna Divindade, nas pessoas adoramos a propriedade, na essência a unidade, na majestade a igualdade. É esta a quem louvam os Anjos e Arcanjos, os Querubins e Serafins, que não cessam nem um só dia de proclamar, repetindo numa só voz: Santo, santo, santo é o Senhor Deus das milícias celestes...

Ademais, é interessante recordamos hoje o Símbolo Quicumque, cuja leitura recomendo sobretudo para esta Solenidade da Santíssima Trindade.

Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Tiara papal ou Triregnum

É a coroa papal, um rico acessório para a cabeça, ornado com pérolas e pedras preciosas, com a forma semelhante à de uma colmeia, encimada por uma pequena cruz, e circulada por três diademas reais. Por conta dos três diademas é às vezes chamada de triregnum. A tiara é um ornamento não-litúrgico, que, portanto, só é utilizado para ocasiões não-litúrgicas, procissões cerimoniais indo para ou voltando de uma igreja, procissões papais cerimoniais, tal como houve em determinadas ocasiões até Rome ser ocupada pelos piemonteses, e em atos solenes de jurisdição, como, por exemplo, decisões dogmáticas solenes. O papa, como os bispos, usa a mitra em funções litúrgicas pontificais. A tiara é mencionada pela primeira vez na "Vita" do Papa Constantino (708-715) contida no "Liber Pontificalis". Ela aí é chamada de camelaucum e é mencionada no que se chama de "Constitutum Constantini", a suposta Doação do Imperador Constantino, provavelmente inventada no séc. VIII. Dentre a prerrogativas atribuídas ao papa neste documento, há especialmente um ornamento branco para a cabeça chamado phrygium, que o distinguia. Isto naturalmente pressupõe que, no tempo em que o documento foi escrito, era costumeiro o papa usar tal ornamento. Três períodos podem ser distinguidos no desenvolvimento da tiara. O primeiro período vai até o tempo em que esta era adornada com um diadema real; neste período, o ornamento papal para a cabeça era, como claramente se conhece pelo "Constitutum Constantini" e pelo Ordo IX de Mabillon (séc. IX), meramente um chapéu de material branco semelhante a um capacete. Pode ter havido um corte ao redor da borda inferior do chapéu, mas este ainda não tinha de modo algum o caráter de um diadema real. Não é positivamente conhecida a data em que a cobertura de cabeça papal foi adornada com um tal diadema. Na época da Doação de Constantino, isto é, no séc. VIII, a cobertura de cabeça papal ainda não tinha nenhum diadema real, como é evidente, pelo texto do documento. No séc. IX também nenhum diadema parece ter existido. É verdade que o Ordo IX chama o chapéu papal de regnum, mas a descrição que o Ordo dá deste chapéu nada tem de uma coroa, mas apenas que o regnum era um chapéu/boné semelhante a um capacete, feito de material branco. Os resquícios de monumentos não dão pistas quanto ao período em que a cobertura de cabeça papal passou a ser ornada com um diadema real. Até o séc. XII, a tiara era não só raramente representada na arte, mas também é incerto se a faixa decorativa na borda inferior destina-se a representar apenas um corte ou um diadema. Isto é ainda mais verdade quanto à representação da tiara nas moedas de Sérgio III (904-911) e Bento VII (974-983), as únicas representações do séc. X e também as mais antigas. Provavelmente, a cobertura de cabeça papal recebeu a tiara no momento em que a mitra se desenvolveu a partir da tiara, talvez no séc. X, a fim de distinguir a mitra e a tiara uma da outra. Em qualquer caso, a última foi provida de uma coroa por volta de 1130, como se aprende de uma declaração de Suger de Saint-Denis [um famoso abade francês, de importância no tocante à arquitetura gótica]. A primeira aparição comprovada da palavra tiara como designação da cobertura de cabeça papal está na vida de Pascoal II (1099-1118), no "Liber Pontificalis".

O segundo período de desenvolvimento da tiara se estende até o pontificado do Papa Bonifácio VIII (1294-1303). Há um grande número de representações da tiara que pertencem a este período, e destes, as romanas têm, naturalmente, o maior valor. O diadema permaneceu um simples anel, embora ricamente ornamentado, até o começo da segunda metade do séc. XIII; tornou-se então uma coroa antiga ou "dentada" [com pontas para cima]. Os dois lóbulos (caudæ) na parte de trás da tiara são vistos pela primeira vez em pinturas e esculturas no séc. XIII, mas eram, sem dúvida, costumeiros antes disso. Estranho dizer que eram de cor preta, como é evidente, tanto a partir de resquícios de monumentos quando de inventários, e esta cor foi mantida até o séc. XV. Quando a tiara é representada em escultura e pintura como uma peça entrançada, isto parece surgir do fato de que no séc. XIII, a tiara era feita de tiras trançadas juntas. De muita importância para a tiara foi o terceiro período de desenvolvimento que começou com o pontificado de Bonifácio VIII. É evidente a partir do inventário dos tesouros papais de 1295 que a tiara na época ainda tinha apenas um diadema real. A mudança, entretanto, logo apareceria. Durante o pontificado de Bonifácio VIII, uma segunda coroa juntou-se à primeira. Três estátuas do papa, que foram feitas durante a sua vida e sob seus olhos, e das quais duas foram encomendadas pelo próprio Bonifácio, não deixam dúvidas quanto a isso. Duas dessas estátuas estão na cripta de São Pedro, e a terceira, geralmente chamada erroneamente de uma estátua de Nicolau IV, está na igreja do Latrão. Em todas as três a tiara tem duas coroas. O que levou o Papa Bonifácio VIII a fazer essa mudança, se apenas o amor da pompa, ou se ele desejava expressar pela tiara com duas coroas suas opiniões sobre a dupla autoridade papal, nada se pode determinar. A primeira notícia de três coroas está contida em um inventário do tesouro papal do ano 1315 ou 1316. Como para os túmulos dos papas, o monumento de Bento XI (+1304) em Perugia mostra uma tiara do tipo antigo, o túmulo e a estátua de Clemente V, em Uzeste de Gironde [na França, quando o papa morou em Avignon] foram mutilados pelos calvinistas, de modo que nada se pode verificar nelas sobre a forma da tiara. A estátua em cima do túmulo do Papa João XXII é adornada com uma tiara com duas coroas. A primeira representação de uma tiara com três coroas, portanto, é oferecida pela efígie de Bento XII (+1342), cujos restos são preservados no museu em Avignon. A tiara de três coroas é, portanto, a regra para os monumentos da segunda metade do séc. XIV, embora, como um anacronismo, haja casos isolados da tiara com uma coroa por volta do séc. XV. Desde o séc. XV a tiara não recebeu nenhuma alteração digna de nota. Tiaras caras foram feitas especialmente nos pontificados de Paulo II (+1464), Sixto IV (+1484) e, sobretudo, no pontificado de Júlio II, que tinha uma tiara avaliada em 200 mil ducados, feita pelo joalheiro Caradosso de Milão.

Várias hipóteses, algumas bem singulares, foram propostas acerca da origem da cobertura de cabeça papal, discussão aqui desnecessária. O nome mais antigo para o chapéu/boné do papa, camelaucum, bem como a Doação de Constantino, claramente apontam para o Oriente Bizantino [pois camelaucum vem do grego]; Muito dificilmente se duvida que o modelo de onde foi tomado o chapéu/boné do Papa se encontre no camelaucum da idumentária da corte bizantina. A adoção, por parte dos papas, do camelaucum como um adorno para a cabeça no séc. VII ou pelo menos no séc. VIII é suficientemente explicada pela importante posição que eles alcançaram exatamente neste período, na Itália e sobretudo em Roma; embora não pudessem assumir uma coroa, já que não eram soberanos, eles poderiam usar um camelaucum, que era usado pelos dignitários do Império Bizantino.

Fonte: Braun, Joseph. "Tiara." The Catholic Encyclopedia. Vol. 14. New York: Robert Appleton Company, 1912. <http://www.newadvent.org/cathen/14714c.htm>.

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

*****

Significados:

Os autores dão vários significados para as três coroas. Sendo que todos se referem a um triplo poder.
O significado das três coroas evoluiu no decorrer da história. Tradicionalmente, o triplo poder (militar, civil e religioso) era igualmente exprimido por três títulos:
- Pai de reis
- Regente do Mundo
- Vigário de Cristo

A maioria dos autores assim explicam:
- A primeira coroa é símbolo do poder da Ordem Sagrada, pelo que o Papa é Vigário de Cristo sucessor de São Pedro , nomeando os bispos e sendo, por excelência, o grande Pai da Cristandade.
- A segunda coroa representa o poder da Jurisdição, em virtude do poder das chaves, ou seja, o de ligar e desligar na terra e no céu.
- A terceira coroa representa o poder do Magistério, em virtude da infalibilidade papal.

Outros autores dizem que as três coroas expressam as três fases da Igreja: militante (na terra), padecente (no purgatório) e triunfante (no céu).

Outra explicação fala das três funções do papa:
- Sacerdote: (bispo de Roma)
- Rei: Chefe de Estado soberano
- Mestre : árbitro e detentor do magistério supremo, dotado de infalibilidade.

Ainda temos que o Papa é para os cristãos:
- Sacerdote soberano
- Grande juiz
- Legislador

E por fim, outros dividem as coroas pelos poderes:
- Temporal: Chefe de Estado soberano
- Espiritual: Chefe da Igreja
- Moral: superioridade em relação aos outros poderes do mundo

Fonte: http://www.ecclesiaheraldica.com.br/inicio/modules/articles/article.php?id=2

Algumas imagens:


Gregório I com o camelaucum

Inocêncio III

Leão VIII

 
Bonifácio VIII

Bonifácio VIII


Bonifácio VIII


Leão XIII (1878-1903)

São Pio X (1903-1914)


Bento XV (1914-1922, infelizmente foi a única foto que encontrei relativa a ele e sua tiara)

Pio XI (1922-1939)

Venerável Pio XII (1939-1958)

Beato João XXIII (1958-1963)

Servo de Deus Paulo VI (1963-1978), último papa coroado

quarta-feira, 15 de junho de 2011

D. Sérgio da Rocha é nomeado para Brasília


Pax et bonum!

Eu já tinha ouvido falar, por uma fonte, e tinha visto o nome de nosso arcebispo como "cotado", numa notícia de um site jornalístico. Mostra-se, agora, que é fato a nomeação de D. Sérgio da Rocha, arcebispo de Teresina, para Arcebispo de Brasília.
A nós, fiéis da Arquidiocese de Teresina, cabe rezar. Crendo que não haverá uma renúncia ou semelhante (e confesso que não tenho conhecimento profundo das questões canônicas envolvidas), colocamos nas mãos de Deus a vida e o ministério daquele que será eleito para a Cátedra de Teresina.

Deus abençoe D. Sérgio e as Arquidioceses de Brasília e Teresina.

Por Luís Augusto - membro da ARS

terça-feira, 14 de junho de 2011

O "Pequeno Ritual Romano" (latim/português)

Pax et bonum!

Conforme prometido, está disponibilizado no Gloria.TV uma versão digitalizada do PEQUENO RITUAL ROMANO latino português.
O nome completo seria Collectio Rituum pro omnibus Brasiliæ Diœcesibus ad instar Appendicis Ritualis Romani a Sancta Sede approbata.
Trata-se da primeira edição [parcial] do Ritual Romano contendo textos oficiais em português, segundo as permissões da Santa Sé. A aprovação e a publicação ocorreram em 1958.
Para uma edição completa do Ritual Romano, bem como do Ritual de Sacramentos e Sacramentais (uma interessante edição, datada de 1965, não sendo, portanto, a edição exata a ser considerada como Forma Extraordinária do Rito Romano, dadas as alterações realizadas já como reformas a partir da Sacrosanctum Concilium), visitem a seguinte página: http://www.saopiov.org/2008/12/livros-litrgicos-para-santa-missa.html

Esta disponibilização só nos foi possível com a colaboração generosa de Marcos Rodrigo Maichaki, do Paraná, que preparou e nos enviou o arquivo.

Recordamos que não se trata do Ritual Romano completo. Para uma visão mais ampla do escopo da obra, segue o índice:


Por Luís Augusto - membro da ARS

domingo, 12 de junho de 2011

A "Sequência de Ouro": Veni Sancte Spiritus


É a Sequência para [a solenidade de] Pentecostes (a SEQVENTIA AVREA - "Sequência de Ouro"). É cantada na Missa desde Pentecostes até o sábado seguinte [na Forma Extraordinária] e é composta de dez estrofes da seguinte forma:

Veni, Sancte Spiritus, 
Et emitte cælitus 
Lucis tuæ radium.

Alguns hinologistas juntam em uma duas destas estrofes, sem dúvida para completar o esquema rítmico da terceira linha, como no caso de "Lauda Sion" [Sequência da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo] e "Stabat Mater" [Sequência da Solenidade de Nossa Senhora das Dores]. A característica peculiar do "Veni Sancte Spiritus", todavia, é a persistência, no decorrer hino, na mesma conclusão rítmica em 'ium'  em todas as estrofes, uma característica imitada na tradução de Dr. Neale (no "Manual de Orações de Baltimore"). Esta versão do hinologista anglicano só é menos popular que a do Ir. Caswall, que tanto é encontrada em hinários católicos e protestantes e na "Raccolta" (Filadélfia, 1881). Dean Trench e outros seguem Durandus atribuir a autoria da sequência a Roberto II, que reinou na França de 997-1031. Com o Cardeal Bona, Duffield atribui-a a Hermann Contractus e argumenta seriamente a favor desta atribuição. A Squência, de fato, foi achada em manuscritos dos séc. XI e XII, mas escrita por uma mão posterior, e a conclusão que se tira é que data de algum tempo nos meados do séc. XII. Isto torna provável a atribuição a Stephen Langton (cf.), feita por um escritor, que o Cardeal Pitra pensa ser um monge cisterciense inglês, que viveu por volta de 1210. Mais provável é a atribuição a Inocêncio III feita por Ekkehard V em seu "Vita S. Notkeri", escrito por volta de 1220. Ekkehard, um monge de Saint Gall, diz que seu abade, Ulrich, foi mandado a Roma por Frederico II, conversou com o papa sobre vários assuntos, e esteve presente na Missa do Espírito Santo celebrada na presença do Santo Padre. A Sequência da Missa foi "Sancti Spiritus adsit nobis gratia". Nesse ponto Ekkehard observa (o que ele provavelmente aprendeu do próprio Abade Ulrich, quando retornou a Saint Gall) que o próprio papa "compôs uma Sequência do Espírito Santo, chamada Veni Sancte Spiritus". A Sequência mais antiga cedeu, embora gradativamente, à sua rival, que era quase universalmente prescrita para um ou mais dias da Oitava. O Missal revisado de 1570 finalmente assinalou-a para o Domingo de Pentecostes e sua Oitava. A revisão (1634) sob Urbano VIII deixou-a inalterada. Com um bom estilo de escritores medievais, a "Sequência de Ouro" ganhou estima universal. As razões para isto são dadas por Clichtoveus, que em seu "Elucidatorium" considera-a "acima de todos os louvores, por conta de sua maravilhosa doçura, clareza de estilo, agradável concisão combinada com uma riqueza de pensamento (de modo que cada linha é uma sentença), e finalmente a graça e a elegância construtivas, mostradas na hábil e adequada justaposição de pensamentos contrários. Daniel aplaude esta apreciação. Gihr toma não pouco espaço em sua obra sobre a Missa para elogiar o hino, e Juliano paga-lhe um cuidadoso tributo cheio de apreciação.

Fonte: Henry, Hugh. "Veni Sancte Spiritus Et Emitte Coelitus." The Catholic Encyclopedia. Vol. 15. New York: Robert Appleton Company, 1912. 12 Jun. 2011 

Letra:

Veni, Sancte Spiritus,
et emítte cælitus
lucis tuæ radium.

Veni, pater pauperum,
veni, dator munerum
veni, lumen cordium.

Consolator optime,
dulcis hospes animæ,
dulce refrigerium.

In labore requies,
in æstu temperies
in fletu solatium.

O lux beatissima,
reple cordis intima
tuorum fidelium.

Sine tuo numine,
nihil est in homine,
nihil est innoxium.

Lava quod est sordidum,
riga quod est aridum,
sana quod est saucium.

Flecte quod est rigidum,
fove quod est frigidum,
rege quod est devium.

Da tuis fidelibus,
in te confidentibus,
sacrum septenarium.

Da virtutis meritum,
da salutis exitum,
da perenne gaudium,
Amen, Alleluia.

Tradução livre:

Vinde, Santo Espírito,
e enviai dos céus
um raio de vossa luz.

Vinde, pai dos pobre,
vinde, doador dos dons,
vinde, luz dos corações.

Consolador magnífico,
doce hóspede da alma,
doce refrigério.

No labor descanso,
no calor aragem,
no pranto consolo.

Ó luz beatíssima,
enchei o íntimo dos corações
dos vossos fiéis.

Sem vosso auxílio
nada há no homem,
nada de inocente.

Lavai o que está sujo,
regai o que está seco,
curai o que está enfermo.

Dobrai o que é rígido,
aquecei o que está frio,
conduzi o que está errante.

Dai aos vossos fiéis,
que confiam em vós,
os sete dons sagrados.

Dai o mérito da virtude,
dai o êxito da salvação,
dai a perene alegria.
Amém. Aleluia.

Partitura (clique para ver em tamanho grande):
Vídeo:


Traduções por Luís Augusto - membro da ARS