domingo, 30 de outubro de 2011

Batina - algumas perguntas e respostas

(Atualizado em 30/10 às 20h10, com uma citação do Concílio de Trento)

Pax et bonum!

Não tenciono publicar um "Pequeno Catecismo da Batina", mas algumas dúvidas têm surgido sobre quem a pode ou deve vestir e quando. Críticas, perguntas, 'leis'... Diante de tudo isso pretendo ser objetivo, bem objetivo, apoiado, como não podia deixar de ser, no magistério da Igreja. Para tal, vou me utilizar do bom método de perguntas e respostas.

***

O que é batina?
É uma veste talar (que chega ao tornozelo, de um modo geral, aos pés) com mangas longas, normalmente abotoada de cima a baixo com 33 botões e 5 em cada manga. Seu nome vem do latim vestis abbatina (veste de abade). Também é chamada de sotaina.

Para que serve a batina?
Entre os cristãos, a batina é um hábito (uma roupa habitual, cotidiana) masculino.

Mas não para todos os homens...
A batina, enquanto hábito masculino, é normalmente usada por clérigos. Usam-na também alguns religiosos, a não ser que disponham de hábito próprio (ex: dominicanos, carmelitas, franciscanos, etc.). Ela também é usada por algumas pessoas que assumem alguns ministérios durante as ações litúrgicas, mesmo que leigas.

Que cor tem a batina?
A cor comum é preta. A cor violácea é para os bispos. A cor vermelha é para os cardeais. A cor branca é para o papa e também é usada em países de missão. Permite-se também outras cores claras para climas mais tropicais.

Da batina enquanto hábito clerical

Para os clérigos existe apenas o hábito cotidiano, seja qual for a situação?
Pelo Cerimonial dos Bispo (cf. 1199-1204), pode-se falar de três hábitos: o coral, o nas circunstâncias solenes fora das celebrações litúrgicas e o cotidiano.

O que é o hábito coral?
É o hábito usado no coro (parte de uma igreja com bancos ou assentos entre a nave e o santuário usada para a oração comum das Horas Canônicas). Atendem ao coro os cônegos dos cabidos e os religiosos em suas casas, conventos e mosteiros.

O que é o hábito nas circunstâncias solenes fora das celebrações litúrgicas?
Hábito usado para ocasiões festivas que não estão ligadas ao coro e nem relacionadas à ação litúrgica.

E o hábito cotidano?
O modo habitual de vestir-se no dia-a-dia.

Desde quando se usa a batina na Igreja como hábito cotidiano?
A legislação da Igreja acerca do hábito eclesiástico tem amadurecido sobretudo do séc. VI ao séc. XVI, passando de normas locais a normas universais. Uma das primeiras medidas para o hábito cotidiano foi proibir as excentricidades, as muitas cores, os muitos adornos, exigindo também que a veste fosse talar. A obrigatoriedade do hábito clerical, por exemplo, pode-se encontrar no Concílio de Trento (1545-1563) e na bula Cum sacrosanctam, de Sisto V (1589), que o obriga desde a Primeira Tonsura, cerimônia de corte dos cabelos que acontece antes da recepção das chamadas Ordens Menores (Ostiariato, Leitorato, Exorcistato e Acolitato).

Mas por acaso é o hábito que faz o monge? O que dizer do ditado?
Deixo a resposta à Igreja, com o Concílio de Trento (Sessão XIV, Decreto sobre a reforma, cân. VI):
Embora o hábito não faça o monge, é todavia necessário que os clérigos portem sempre o hábito conforme o seu próprio estado, de modo que as vestes exteriores manifestem a honestidade interior dos costumes. Hoje, por outro lado, a temeridade e o desprezo pela religião, da parte de alguns, foi tão longe que, sem estima alguma pela própria honra e pela própria dignidade clerical, usam vestes de leigos, até publicamente, tendo os pés sobre campos diversos: um nas coisas divinas e outro nas coisas carnais.
Usa-se a batina, então, como hábito cotidiano desde o seminário?
Na Forma Extraordinária do Rito Romano, o seminarista passa pela chamada Recepção da Batina. No Brasil existe a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, erigida canonicamente em 2002, que tem como forma ritual exclusiva a forma vigente antes das reformas pós-conciliares, ou seja, a Forma Extraordinária do Rito Romano. Lá o seminarista recebe a batina preta, para usá-la como hábito cotidiano, após a segunda metade do 1º ano da Filosofia.
A batina preta foi obrigatória desde a entrada no estado clerical. Para a Forma Extraordinária do Rito Romano, isto se dá com a Primeira Tonsura (Codex Iuris Canonici [1917], cân. 108). Para a Forma Ordinária do Rito Romano,  isto se dá com a Ordenação Diaconal (Codex Iuris Canonici [1983], cân. 266), que se dá apenas após concluído o 5º ano do curso filosófico-teológico (Idem, cân. 1032).

O hábito clerical ainda é obrigatório?
Sim. Ele o foi de acordo com o cân. 136 do Código de Direito Canônico de 1917, e continua sendo de acordo com o cân. 284 do Código de Direito Canônico de 1983, conforme as normas dadas pela Conferência dos Bispos e com os legítimos costumes locais. A Legislação Complementar ao Código de Direito Canônico, emanada pela CNBB (1986), diz que os clérigos devem usar "um traje eclesiástico digno e simples, de preferência o 'clergyman' ou 'batina'". No Brasil, o costume sempre foi o uso da batina preta.
A Sociedade Brasileira de Canonistas confirma esta obrigação, como se vê num artigo de 2009.

Mas os padres têm em larga escala abandonado o traje eclesiástico e trajado apenas vestes comuns como as dos leigos. O Magistério nunca falou nada a respeito. A legislação mudou depois de 1986?
A Legislação não mudou de modo algum e a Santa Sé não ficou em silêncio. Em 1994, 11 anos depois do novo Código de Direito Canônico, a Congregação para o Clero dedicou um artigo do Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros ao assunto, sob o título "Obrigação do hábito eclesiástico" (n. 66).

E o que lá se diz?
Pela sua grande importância, transcrevo na íntegra:
Numa sociedade secularizada e de tendência materialista, onde também os sinais externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer, sente-se particularmente a necessidade de que o presbítero — homem de Deus, dispensador dos seus mistérios — seja reconhecível pela comunidade, também pelo hábito que traz, como sinal inequívoco da sua dedicação e da sua identidade de detentor dum ministério público. O presbítero deve ser reconhecido antes de tudo pelo seu comportamento, mas também pelo vestir de maneira a ser imediatamente perceptível por cada fiel, melhor ainda por cada homem, a sua identidade e pertença a Deus e à Igreja.
Por este motivo, o clérigo deve trazer um hábito eclesiástico decoroso, segundo as normas emanadas pela Conferência Episcopal e segundo os legítimos costumes locais. Isto significa que tal hábito, quando não é o talar, deve ser diverso da maneira de vestir dos leigos e conforme à dignidade e à sacralidade do ministério. 
O feitio e a cor devem ser estabelecidos pela Conferência dos Bispos, sempre de harmonia com as disposições do direito universal.
Pela sua incoerência com o espírito de tal disciplina, as praxes contrárias não se podem considerar legítimas e devem ser removidas pela autoridade eclesiástica competente.
Salvas excepções completamente excepcionais, o não uso do hábito eclesiástico por parte do clérigo pode manifestar uma consciência débil da sua identidade de pastor inteiramente dedicado ao serviço da Igreja.
Mas há inúmeros padres que se vestem habitualmente como leigos, tornando-se exteriormente irreconhecíveis! O que dizer deles? A legislação não terá sido alterada posteriormente?
Somente a ignorância ou a desobediência consciente o justificam. Nove meses depois do Diretório, o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos emitiu uma Nota Explicativa sobre o artigo acima. A Nota (n. 4) diz: 
No que se refere concretamente ao art. 66 do "Diretório para o Ministério e a Vida dos Presbíteros", este contém uma norma geral complementar ao cân. 284 do Código de Direito Canônico, com as características próprias dos Decretos gerais executórios (cfr. cân. 31). Trata-se, portanto, de uma norma à qual se quis claramente atribuir exigibilidade jurídica, como se deduz também do teor do próprio texto e do lugar em que foi inserido: sob o título "A obediência" [que contempla os nn. 61-66].
Então esta norma prossegue sendo assim?
Sem dúvida alguma. Dez anos depois, em 2004, a Congregação para os Bispos publicou o Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos. No número que vai sob o título "Atenção às necessidades humanas dos presbíteros" se diz o seguinte (n. 80):
O Bispo velará pela correção no vestir dos presbíteros, mesmo religiosos, segundo a lei universal da Igreja e as normas da Conferência Episcopal, de modo que seja sempre notória a sua condição sacerdotal e haja também no traje testemunhos vivos das realidades sobrenaturais que eles são chamados a comunicar aos homens.
O Bispo dará o exemplo trazendo fielmente e com dignidade a veste talar (debruada [com filetes, no caso dos bispos, violáceos] ou apenas preta), ou, em circunstâncias, pelo menos o fato de clérigo com cabeção romano [= traje formal, com blazer e calça, usando o colarinho romano].
Entrando no estado clerical pelo diaconato, o que dizer dos diáconos permanentes? Estão obrigados a usar traje eclesiástico?
Não estão obrigados a isso. Em 1998, a Congregação para o Clero publicou o Diretório para o Ministério e a Vida dos Diáconos Permanentes. Lá se diz (n. 10):
Os diáconos permanentes não são obrigados ao hábito eclesiástico, como, pelo contrário o são os diáconos candidatos ao presbiterado, para os quais valem as mesmas normas previstas em toda a parte para os presbíteros.
Então os diáconos que serão padres estão igualmente obrigados ao traje eclesiástico?
Certamente.

Pode-se concluir que é ilegítimo um padre andar habitualmente vestido com trajes comuns leigos?
Sim, com toda certeza.

Como um clérigo deve vestir-se para participar de uma celebração litúrgica sem exercer funções ou ministérios?
Se o diácono ou presbítero está apenas participando da celebração, deve usar o equivalente ao hábito coral, ou seja, a sobrepeliz sobre a batina.

O que é a sobrepeliz?
Uma túnica branca de meio tamanho com mangas largas, que se veste sobre o hábito talar.

Quando mais o padre usa a sobrepeliz sobre a batina?
Segundo o Rituale Romanum [1925], utiliza-a, com a estola de cor conveniente, segundo cada celebração, na administração dos sacramentos, exceto na Reconciliação (Penitência, Reconciliação) ou se o lugar ou o costume sugerirem outra coisa. Este uso também é feito para os sacramentais. Aqui é o que deve ser observado para a Forma Extraordinária do Rito Romano.
Os Rituais do Batismo [1969], da Penitência [1973], da Confirmação [1971], do Matrimônio [1989], das Exéquias [1969], do Exorcismo [1998], da Comunhão e do Culto Eucarístico fora da Missa [1973], da Unção dos Enfermos [1972], da Iniciação Cristã de Adultos [1972] e de Bênçãos [1984], normalmente estabelecem como veste do sacerdote ou diácono a alva ou a sobrepeliz (sobre a batina ou hábito) com a estola, quando as celebrações acontecem fora da Missa. Aqui é o que se deve observar para a Forma Ordinária do Rito Romano.

Que conselho daria aos clérigos que usam a batina?
"Convém saber trazer em toda parte e com grande dignidade o hábito talar, nobre e distinto: imagem da túnica de Cristo: Christus sacerdotum tunica, sinal esplendente da veste interior da graça" (João XXIII).

Da batina enquanto veste particular na Liturgia

Fora os clérigos que apenas participam, alguém mais usa batina e sobrepeliz durante as ações litúrgicas?
Segundo o Ritus Servandus in Celebratione Missæ [1570~1962] (II.1 e VI.8), o ministro (aquele que serve ao altar junto do sacerdote) usa sobrepeliz (subentende-se, portanto, o uso de batina ou hábito religioso). 
Também o faz o Leitor (ou seja, que recebeu a Ordem Menor do Leitorato), para cantar a Epístola numa Missa Cantada sem diácono e subdiácono (isto se observa na Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano).
Que esta seja a veste tradicional dos ministros (cf. significado acima) ainda que leigos, confirma-se pelo costume  litúrgico plurissecular, jamais proibido ou ao menos criticado pela legítima autoridade.

Sendo um hábito eclesiástico, não seria melhor que os ministros usassem apenas a alva?
Eis aqui um erro frequente. O conjunto sobrepeliz e batina significa algo de inferior em relação à alva. A Instrução Geral sobre o Missal Romano [2002] diz que a alva é a veste [sagrada] comum para os ministros ordenados e instituídos (n. 336). Todavia, seu uso é permitido e estendido para outros ministros, inclusive leigos (nn. 119c e 339). Portanto, se a alva é permitida, mais ainda o é a sobrepeliz sobre a batina.

Este costume é apenas permitido?
Não somente permitido, mas muito louvável. Paulo VI, num discurso pascal de 1967 aos iuvenes ministrantes europeus, diz que as cândidas sobrepelizes dos coroinhas lembram as multidões de neófitos, cujo fé e piedade animavam a Igreja durante a Páscoa. João Paulo II, mais tarde, na Páscoa de 1985, num discurso para um congresso de coroinhas da Europa, retoma o mesmo pensamento de Paulo VI e diz: "A vossa presença desperta na memória o belo título que esta semana trazia outrora: 'in albis' - a semana das vestes brancas. A veste com que muitos de vós hoje estais aqui presentes, a sobrepeliz branca, que é o distintivo mais evidente do vosso serviço ao altar, permite recordar o uso que existia nos séculos antigos aqui em Roma. Os recém-batizados, no decorrer da Vigília Pascal, participavam, durante a semana da Páscoa, das diferentes liturgias que se celebravam nas basílicas romanas, e o faziam em vestes brancas. Era todo um movimento de candura que era saudado com os apelativos mais delicados".

Além dos coroinhas, alguém mais usa batina e sobrepeliz?
O mestre de cerimônias pode usar alva ou batina e sobrepeliz (cf. Cerimonial dos Bispos [1984], n. 36).

O uso se estende a mais alguém além dos que estão servindo no presbitério?
São Pio X, falando dos cantores, dos quais em seu tempo estavam excluídas as mulheres, disse: "será conveniente que os cantores, enquanto cantam na igreja, vistam hábito eclesiástico e sobrepeliz" (cf. Motu proprio Tra le sollecitudini, 14). Um exemplo disso é a Cappella Musicale Pontificia Sistina.

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Referência bibliográfica

Braun, Joseph. "Surplice." The Catholic Encyclopedia. Vol. 14. New York: Robert Appleton Company, 1912. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/14343d.htm.

Thurston, Herbert. "Clerical Costume." The Catholic Encyclopedia. Vol. 4. New York: Robert Appleton Company, 1908. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/04419b.htm.

SBC - Sociedade Brasileira de Canonistas. "O Dever do Hábito Eclesiástico". 2009. Disponível em:
Codex Iuris Canonici. Liber Secundus. 1917. Disponível em: 

Código de Direito Canônico. 1983. Disponível em:

Congregação para os Bispos. Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos. 2004. Disponível em:
http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cbishops/documents/rc_con_cbishops_doc_20040222_apostolorum-successores_po.html

Congregação para o Clero. Diretório para a Vida e o Ministério dos Presbíteros. 1994. Disponível em:

Congregação para o Clero. Diretório para a Vida e o Ministério dos Diáconos Permanentes. 1998. Disponível em:

Congregação para o Culto Divino. Cerimoniale dei Vescovi. 1984. Disponível em:
http://www.liturgia.it/Cerimoniale.pdf (italiano)
http://www.regiaolapa.org.br/site/?secao=sender&sub=downloadArquivo&cod=11 (português)

Missale Romanum. Ritus Servandus in Celebratione Missæ. 1962. Disponível em:

Missale Romanum. Institutio Generalis Missalis Romani. 2002. Disponível em:

Rituale Romanum. 1925. Disponível em:
http://laudatedominum.net/files/freddofrog.pdf

Rituale Romano. 1969-1989. Disponível em:
http://www.maranatha.it/rituale/00ritualeindex.htm#R

Sisto V. Bula Cum Sacrosanctam. 05/01/1589. Disponível em:
http://www.documentacatholicaomnia.eu/01p/1585-1590,_SS_Sixtus_V,_Bullarium_Cherubini_vol_2_ff_490-696),_LT.pdf

Pio X. Motu Proprio Tra le sollecitudini. 22/11/1903. Disponível em:
http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-proprio_19031122_sollecitudini_po.html

João XXIII. Exortação Apostólica A Quarantacinque Anni. 21/04/1959. Disponível em:

Paulo VI. Discorso ai gruppi europei di "Iuvenes Ministrantes". 30/03/1967. Disponível em:

João Paulo II. Discorso al Convegno dei Ministranti d'Europa. 10/04/1985. Disponível em:

Obs: possíveis atualizações serão feitas diretamente na postagem.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Discurso aos bispos no Chile" - Card. Ratzinger (13/07/1988)

Pax et bonum!

Um famoso texto, conhecido e citado em muitos idiomas. Passados mais de 20 anos o Discurso continua atual.
Os grifos e os textos entre colchetes são nossos.


Discurso aos bispos no Chile

Joseph Cardeal Ratzinger
13 de julho de 1988

Estimados e queridos irmãos!

Em primeiro lugar queria agradecer de coração vosso convite tão amável para visitar vosso país e também por me oferecerdes esta ocasião de encontro e de diálogo fraterno. Não tenho a ilusão de que se possa conhecer um país com uma estadia de poucos dias, entretanto, é muito importante para mim a oportunidade de poder ver os lugares onde vós trabalhais e, em alguma medida, ter a experiência desse ambiente da vida na Igreja nesta terra.
A finalidade das minhas palavras é fomentar o diálogo que devemos ter mutuamente. De modo geral, devo aproveitar as ocasiões que me oferecem estes encontros para expor brevemente algumas das questões de maior importância do trabalho na Congregação para Doutrina da Fé. Entretanto, o cisma que parece abrir-se com as ordenações episcopais do dia 30 de junho leva-me a apartar-me, no momento, desse costume. Hoje queria simplesmente comentar algumas coisas sobre o caso que diz respeito ao Monsenhor Lefebvre [1]. Mais do que deter-se no ocorrido, parece-me que se pode ter maior transcendência avaliando os ensinamentos que a Igreja pode tirar, para o hoje e para o amanhã, do conjunto dos acontecimentos. Para isso, queria antecipar, em primeiro lugar, algumas observações sobre a atitude da Santa Sé nas conversas com Mons. Lefebvre, e continuar depois com uma reflexão sobre as causas gerais que originam esta situação e que, para além do caso particular, afetam a todos nós.

I. A atitude da Santa Sé nas conversas com Lefebvre

Nos últimos meses temos investido uma boa quantidade de trabalho no problema de Lefebvre, com um empenho sincero de criar para seu movimento um espaço vital adequado no interior da Igreja. Criticou-se a Santa Sé de muitos lugares. Se há dito que havia cedido à pressão do cisma, que não havia defendido com a força devida o Concílio Vaticano II, que, enquanto atuava com grande dureza contra os movimentos progressistas, mostrava demasiada compreensão com a rebelião restauradora. O posterior desenrolar dos acontecimentos tem refutado suficientemente estas declarações. O mito da dureza do Vaticano, face dos desvios progressistas, tem resultado em uma elucubração vazia. Até o momento, se há emitido, fundamentalmente, admoestações e, em nenhum caso, penas canônicas no sentido próprio. O fato de Lefebvre ter denunciado ao final o acordo firmado, mostra que a Santa Sé, apesar de ter feito concessões verdadeiramente amplas, não lhe concedeu a licença global que desejava. Na parte fundamental dos acordos, Lefebvre havia reconhecido que devia aceitar o Concílio Vaticano II e as afirmações do Magistério pós-Conciliar, com  a autoridade própria de cada documento. É contraditório que sejam exatamente aqueles que não deixaram passar nenhuma ocasião para gritar em todo o mundo a desobediência [de Lefebvre] ao Papa e às declarações do Magistério nos últimos 20 anos, os que julgam esta postura tíbia demais e pedem que se lhe exija uma obediência absoluta para abraçar o Vaticano II. Também se pretendia que o Vaticano havia concedido um direito a Lefebvre para discordar, o que se nega persistentemente aos componentes de tendência progressista. Na realidade, o único que se afirmava no acordo, seguindo a Lumen Gentium em seu n. 25, era o simples fato de que nem todos os documentos do Concílio tem o mesmo alcance.
No acordo previa-se também explicitamente que se devia evitar a polêmica pública, e se solicitava uma atitude positiva de respeito às medidas e declarações oficiais. Concedia-se, assim mesmo, que a Fraternidade pudesse apresentar à Santa Sé – deixando intacto o direito dessa decisão – suas dificuldades nas questões de interpretação e de reformas no âmbito jurídico e litúrgico. Tudo isso certamente mostra suficientemente o quanto Roma tem unido, neste difícil diálogo, a generosidade em tudo o que é negociável, com a firmeza no que é essencial. É muito reveladora a explicação que o mesmo Mons. Lefebvre deu sobre a retratação de seu assentimento. Declarou que agora havia compreendido que o acordo assinado objetivava apenas integrar sua fundação na “Igreja do Concílio”. A Igreja Católica em comunhão com o Papa é, para ele, a “Igreja do Concílio”, que se desprendeu de seu próprio passado. Parece que ele não consegue ver que se trata simplesmente da Igreja Católica com a totalidade da Tradição, à qual também pertence o Concílio Vaticano II

II. Reflexões sobre as causas mais profundas do caso Lefebvre

O problema apresentado por Lefebvre, no entanto, não termina com a ruptura do dia 30 de junho. Seria demasiado cômodo deixar-se levar por uma espécie de triunfalismo, e pensar que isto deixou de ser um problema desde o momento em que o movimento de Levebvre se separou claramente da Igreja [2]. Um cristianismo nunca pode e nem deve alegrar-se com uma desunião. Ainda que, com toda segurança, não se possa achar a culpa na Santa Sé, é nossa obrigação perguntarmos que erros temos cometido, que erros estamos cometendo. Os padrões que avaliaram o passado, desde a aparição do decreto sobre o ecumenismo do Vaticano II [3], devem, como é lógico, avaliar também o presente. Um dos descobrimentos fundamentais da teologia do ecumenismo é que os cismas unicamente se podem produzir quando, na Igreja, já não se vivem e amam algumas verdades e alguns valores da fé cristã.
A verdade marginalizada torna-se independente, fica arrancada da totalidade da estrutura eclesial, e ao redor dela se forma então o novo movimento. Deve-nos fazer refletir o fato de que não poucos homens, fora do ambiente restrito dos membros da Fraternidade de Lefebvre, estão vendo neste homem uma espécie de guia ou, pelo menos, um instrutor útil. Não é suficiente remeter-se a motivos políticos, ou à nostalgia e a outras razões secundárias de tipo cultural. Essas causas não seriam suficientes para atrair também, e de modo especial, jovens de países bem diversos, e sob condições políticas ou culturais completamente diferentes. Certamente, a visão estreita, unilateral, se nota em todas as partes; no entanto, o fenômeno, em seu conjunto, não seria pensável se não estivessem também em jogo elementos positivos, que geralmente não encontram suficiente espaço vital na Igreja de hoje. Por isso, deveríamos considerar esta situação primordialmente como uma ocasião de exame de consciência. Devemos deixar-nos perguntar seriamente sobre as deficiências em nossa pastoral, que são denunciadas por todos estes acontecimentos. Deste modo poderemos oferecer dentro da Igreja um lugar aos que estão buscando e perguntando, e assim lograremos tornar o cisma supérfluo, a partir do próprio interior da Igreja. Queria enumerar três aspectos que, conforme a minha opinião, têm um papel importante a este respeito.

a) O Santo e o profano

muitas razões que podem ter motivado muitas pessoas a buscar um refúgio na liturgia antiga. Uma primeira e importante é que ali encontram salvaguardada a dignidade do sagrado. Posterior ao Concílio, muitos elevaram intencionalmente a nível de programa a “dessacralização”, explicando que o Novo Testamento tinha abolido o culto do Templo: a cortina do Templo rasgada no momento da morte de Cristo na cruz significaria – segundo eles – o fim do sagrado. A morte de Jesus fora dos muros, isto é, no âmbito público, é agora o culto verdadeiro. O culto, se é que existe, se dá na “não-sacralidade” da vida cotidiana, no amor vivido. Empurrados por esses raciocínios, desprezaram as vestimentas sagradas; livrou-se as igrejas, na maior medida possível, do esplendor que recorda o sagrado; e se reduziu a liturgia, o quanto puderam, à linguagem e gestos da vida comum, por meio de saudações, sinais comuns de amizade e coisas parecidas.
No entanto, com tais teorias e uma tal práxis desconhecia-se completamente a conexão real entre o Antigo e o Novo Testamento; se havia esquecido que este mundo, todavia, não é o Reino de Deus e que “o Santo de Deus” (Jo, 6,69) segue estando em contradição com o mundo; que necessitamos da purificação para nos aproximarmos dEle; que o profano, também depois da morte e ressurreição de Jesus, não chegou a ser santo. O Ressuscitado apareceu só àqueles cujo coração se deixou abrir para Ele, para o Santo: não se manifestou a todo o mundo. Deste mundo se abriu o novo espaço do culto, ao qual agora nos referimos todos; a esse culto que consiste em acercar-se da comunidade do Ressuscitado, a cujos pés prostraram-se as mulheres e o adoraram (Mt 28,9). Não quero neste momento desenvolver mais este tópico, mas tirar diretamente a conclusão: devemos recuperar a dimensão do sagrado na liturgia. A liturgia não é um festival [festa], não é uma reunião prazeirosa [divertida]. Não tem importância, nem de longe, que o pároco consiga levar a cabo idéias sugestivas ou elucubrações imaginativas. A liturgia é o Deus três vezes santo fazer-se presente entre nós, é a sarça ardente, e é a Aliança de Deus com o homem em Jesus Cristo, o Morto e Ressuscitado. A grandeza da liturgia não se fundamenta em oferecer um entretenimento interessante, mas no Totalmente Outro tocar-nos, a quem não poderíamos fazer vir. Ele vem porque quer. Dito de outro modo, o essencial na liturgia é o mistério, que se realiza no rito comum da Igreja; tudo o mais a rebaixa [a liturgia]. Os homens o experimentam vivamente e sentem-se enganados quando o mistério se converte em diversão, quando o ator principal na liturgia já não é mais o Deus vivo, mas o sacerdote ou o animador litúrgico.

b) A não-arbitrariedade da fé e de sua continuidade

Defender o Concílio Vaticano II, contra o Mons. Lefebvre, como válido e vinculativo na Igreja, é e vai seguir sendo uma necessidade. No entanto, existe uma atitude de visão estreita que isola o Vaticano II e que tem provocado a oposição. Muitas exposições dão a impressão de que, depois do Vaticano II, tudo foi mudado e o que passou já não pode ser válido, ou no melhor dos casos, só o será à luz do Vaticano II.  O Concílio Vaticano II não é considerado como parte da Totalidade da Tradição viva da Igreja, mas diretamente como o fim da Tradição e como um recomeçar inteiramente do zero. A verdade é que o mesmo Concílio não definiu nenhum dogma e tem querido de modo consciente expressar-se em um alcance mais modesto, meramente como Concílio Pastoral; no entanto, muitos o interpretam como se fosse quase o superdogma que tira a importância de todo o restante.
Esta impressão se reforça especialmente por fatos que acontecem na vida corrente. O que antes era considerado o mais santo – a forma transmitida pela liturgia –, de repente aparece como o mais proibido e o único que com segurança se deve rechaçar [4]. Não se tolera a crítica às medidas do tempo pós-conciliar; mas onde estão em jogo as antigas regras, ou as grandes verdades da fé – por exemplo, a virgindade corporal de Maria, a ressurreição corporal de Jesus, a imortalidade da alma, etc. –, ou não há reação alguma, ou apenas de forma extremamente atenuada. Eu mesmo pude ver, quando era professor, como o mesmo bispo que antes do Concílio havia rejeitado a um professor irrepreensível, por seu modo de falar um pouco bruto, não se via capaz, depois do Concílio, de rejeitar a outro professor que negava abertamente algumas verdades fundamentais da fé. Tudo isso leva muitas pessoas a perguntarem se a Igreja de hoje é realmente a mesma de antes, ou se a trocaram por outra sem lhes avisar. A única maneira de tornar crível o Vaticano II é apresentá-lo claramente como o que ele é: uma parte da inteira e única Tradição da Igreja e de sua fé.

c) A unicidade da verdade

Deixando agora à parte a questão litúrgica, os pontos centrais do conflito são, atualmente, o ataque contra o decreto sobre a liberdade religiosa [5] e contra o pretendido espírito de Assis. Neles, Lefebvre traça as fronteiras entre sua posição e a da Igreja católica de hoje. Não é necessário acrescentar expressamente que não se podem aceitar suas afirmações nesta área. Porém não vamos nos ocupar aqui de seus erros, mas queremos perguntar-nos onde está a falta de clareza em nós mesmos. Para Lefebvre, trata-se da luta contra o liberalismo ideológico, contra a relativização da verdade. Evidentemente, não estamos de acordo com ele de que o texto do Concílio sobre a liberdade religiosa ou a oração de Assis, segundo as intenções queridas pelo Papa, são relativizações. Entretanto, é verdade que, no movimento espiritual do tempo pós-conciliar, se dava muitas vezes um esquecimento, incluindo uma supressão da questão da verdade; talvez apontamos aqui o problema crucial da teologia e da pastoral de hoje.
A “verdade” apareceu de repente como uma pretensão muito alta, um “triunfalismo” que já não se podia permitir. Este processo verifica-se de modo claro na crise em que tem caído o ideal e a práxis missionária. Se não apontamos para a verdade ao anunciar nossa fé, e se essa verdade já não é essencial para a salvação do homem, então as missões perdem seu sentido. Com efeito, deduzia-se e deduz-se a conclusão de que, no futuro, se deve buscar somente que os cristãos sejam bons cristãos, os muçulmanos, bons muçulmanos, os hindus, bons hindus, etc. Mas como se pode saber quando alguém é “bom” cristão ou “bom” muçulmano? A ideia de que todas as religiões são, falando com propriedade, somente símbolos do incompreensível em última instância, ganha terreno rapidamente também na teologia e já entra profundamente na práxis litúrgica. Ali, onde se produz esse fenômeno, a fé como tal fica abandonada, pois consiste precisamente em que eu me confio à verdade enquanto reconhecida. Assim, certamente, temos todas as motivações para retornar ao bom sentido também nisto. Se conseguirmos mostrar e viver de novo a totalidade do que é católico nestes pontos, então podemos esperar que o cisma de Lefebvre não venha a ser de longa duração.

Original em espanhol:
Versão em inglês:

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[1] D. Marcel Lefebvre (29/11/1905~25/03/1991), bispo francês, pertenceu aos Missionários do Espírito Santo, missionário no Gabão e no Senegal (África), padre conciliar do Concílio Vaticano II, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, em 1970, na Suíça.
[2] Por ordenar sacerdotes contra a ordem do papa Paulo VI, foi suspenso em 24/07/1976. Em 30/06/1988 ordenou quatro bispos sem mandato pontifício, o que lhe valeu a declaração de excomunhão latæ sententiæ no dia seguinte, por parte do Papa João Paulo II. A excomunhão aos quatro bispos ordenados foi revogada em 24/01/2009.
[3] Decreto Unitatis Redintegratio.
[4] Fato infelizmente presente ainda hoje, em desobediência ao Motu Proprio Summorum Pontificum e à Instrução Universæ Ecclesiæ.
[5] Declaração Dignitatis Humanæ.

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Traduzido por Bruno Costa e revisado por Luís Augusto - membros da ARS

Profanação no centro de Teresina - 3 imagens destruídas em 6 dias

Pax et bonum!

É com grande repúdio que comunicamos a destruição de duas imagens da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo e de uma imagem da Igreja de São Benedito, ambas no centro de Teresina-PI.
Somente ontem (26/10) tive conhecimento de que na última sexta-feira (21/10) um indivíduo entrou na igreja e lançou ao chão uma imagem da Santíssima Mãe do Senhor Jesus Cristo, figurada como Nossa Senhora das Graças, que fica num altar lateral, diante do qual está a pia batismal.

A imagem de Nossa Senhora das Graças em fotografia do último dia 08/10.

Semelhante profanação aconteceu ontem. Desta vez a imagem destruída foi de Santa Teresinha do Menino Jesus, Virgem e Doutora da Igreja, que estava num altar lateral mais próximo do presbitério.

 A imagem de Santa Teresinha, despedaçada diante do presbitério.

Ambos os episódios aconteceram entre 14h e 15h, horário em que o movimento é bem pequeno na igreja.
O episódio da Igreja de São Benedito ocorreu ontem pela manhã. A imagem era uma de Santa Luzia, Virgem e Mártir, segundo o que nos foi informado.
O autor dos atos possivelmente é algum ateu ou protestante. Acredita-se que se trata da mesma pessoa, a qual eu soube que foi apanhada e levada à polícia. (Qualquer retificação nas informações será feita atualizando esta postagem.)
Este episódio nos lembra um semelhante, acontecido no último dia 15 de outubro em Roma.

Rezemos em reparação dos ultrajes à Santíssima Virgem Maria e às outras duas grandes Virgens, servas de Jesus Cristo.

Por fim, contra o ódio demonstrado, é conveniente lembrar a doutrina da Igreja sobre as imagens, expressa na Sessão VII do Concílio Niceno II (787):
Entrando, como dizíamos, pelo caminho real, seguindo o ensinamento divinamente inspirado de nossos Santos Padres, e a tradição da Igreja Católica — pois reconhecemos que ela pertence ao Espírito Santo, que nela habita —, definimos com toda exatidão e cuidado que de modo semelhante à imagem da preciosa e vivificante cruz se hão de expor as sagradas e santas imagens, tanto as pintadas como as de mosaico e de outra matéria conveniente, nas santas igrejas de Deus, nos vasos e paramentos sagrados, nas paredes e quadros, nas casas e caminhos, as de nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo, da Imaculada Senhora nossa, a santa Mãe de Deus, dos preciosos anjos e de todos os varões santos e veneráveis. Porque quanto mais frequentemente são contemplados por meio de sua representação nas imagens, tanto mais se movem, os que olham para estas, à recordação e ao desejo dos originais e a tributar-lhes a saudação e o culto de honra, de modo algum o da verdadeira latria que, segundo a nossa fé, convém apenas à natureza divina; mas como se faz com a figura da preciosa e vivificante cruz, com os evangelhos e com os demais objetos sagrados do culto, sejam honradas com a incensação e com velas ou lâmpadas, como foi piedoso costume dos antigos. “Porque a honra da imagem, se dirige ao original”, e o que cultua uma imagem, cultua a pessoa nela representada.
(Tradução livre de Enchiridion Symbolorum o Denziger, nn. 600-601, disponível aqui.)

Por Luís Augusto - membro da ARS

sábado, 15 de outubro de 2011

O Decreto vaticano de 1958 para publicação de um Ritual com uso da língua portuguesa

Pax et bonum!

Conforme prometido, segue minha tradução do Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 14 de março de 1958, sob o qual foi publicado o Pequeno Ritual Romano Latino-Português.
Meu latim não é ótimo, mas creio que o texto está inteligível e fiel ao sentido do original latino, que pode ser conferido no Pequeno Ritual. Obviamente estamos abertos a melhoramentos.

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Sagrada Congregação dos Ritos
Nº D. 6/955 e D. 42/957


DAS DIOCESES DO BRASIL

O Excelentíssimo e Reverendíssimo D. Jaime Cardeal Câmara, Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, em nome e na autoridade de todos os Arcebispos e Bispos do Brasil, rogou respeitosamente a nosso Santíssimo Senhor o Papa Pio XII que, de Sua suprema Autoridade, se dignasse conceder benignamente o uso da língua vulgar portuguesa em determinadas orações na administração de alguns Sacramentos, nomeadamente o Batismo, a Extrema Unção, o Matrimônio e também nas Exéquias dos Defuntos, tal qual no exemplar preparado por uma Comissão litúrgica especial, no qual, para a compreensão e a piedade do povo de língua portuguesa, estão colocados os ritos e orações que pareçam mais oportunos. Por oportuna aprovação, tendo julgado a Sagrada Congregação dos Ritos, toma-se reverentemente tal Coleção de Ritos na forma de Apêndice anexo ao Ritual Romano.
A Sagrada Congregação dos Ritos, portanto, no uso das faculdades peculiares a ela concedidas por nosso Santíssimo Senhor [o Papa], tendo estudado atenta e cuidadosamente o Ritual em questão, tendo em mente as circunstâncias dos costumes hodiernos, concede benignamente:
1 - Que se possa produzir um novo Ritual para as Dioceses do Brasil, no qual se ponha o texto latino inteiro e junto dele uma tradução portuguesa, daquilo que é permitido.
2 - Que na administração dos Sacramentos, tendo como fim a compreensão e a piedade do povo, o sacerdote possa usar a língua vernácula como segue:
a) Na administração do Batismo de crianças ponha-se somente em língua latina, e sempre e somente em latim se diga, os exorcismos, todas as fórmulas das unções e das bênçãos, e igualmente a própria forma do Batismo.
b) Na administração do Batismo de adultos, além de atentar ao que foi dito acima, sejam impressos e recitados somente em latim os salmos e as outras preces iniciais.
c) Na administração do Sacramento da Extrema Unção, tenha-se somente em latim a oração com as mãos impostas sobre o enfermo, as palavras da unção e as orações subsequentes.
d) Na celebração do Matrimônio, o sacerdote pode usar a língua vulgar portuguesa para tudo, com exceção da bênção dos aneis e da fórmula: "Ego coniungo..."
Na bênção nupcial fora da Missa, que é dada por indulto apostólico quando não se celebra a Missa pro sponsis, as orações que estão no Ritual Romano podem ser rezadas em língua vulgar portuguesa.
e) Ao se fazerem as Exéquias pelos fiéis defuntos, devem-se recitar somente em língua latina as orações e absolvições. Nada impede, contudo, que, terminado o rito, outras preces sejam acrescentadas em língua vulgar, recitadas pelo sacerdote, segundo o tempo e o lugar determinados pelo Ordinário.
O uso da língua vulgar portuguesa de modo algum pode se estender a quaisquer outras coisas que não estejam expressamente nomeadas neste decreto.
Em nada obstam quaisquer posições em contrário, ainda que dignas de especial menção, observado o que de resto se deve observar.
Além disso, sejam enviados dois exemplares do referido Ritual, após sua edição, à Sagrada Congregação dos Ritos.

Dado em Roma, no dia 14 de março do Ano do Jubileu Marino de 1958.

C. Card. CICOGNANI
Prefeito da S. C. R.

ENRICO DANTE
Substituto

Por Luís Augusto - membro da ARS

Latim ou Português na Forma Extraordinária do Ritual Romano?

Pax et bonum!

Ontem um conhecido levantou a questão sobre o uso do latim e/ou do vernáculo nas celebrações dos Sacramentos e Sacramentais, ou seja, daquilo que se encontra no Ritual Romano.
O Motu Proprio Summorum Pontificum, nos art. 5º e 9º, confirmado pelo n. 35 da Instrução Universæ Ecclesiæ, deixa livre o uso do Rituale Romanum em vigor no ano de 1962.
A edição típica em questão, até onde me consta, é a que vai de Paulo V até Pio XI, ou seja, a de 1925. Numa das primeiras páginas vai a seguinte informação:
RITUALE ROMANUM
Pauli V Pontificis Maximi
JUSSU EDITUM
ALIORUMQUE PONTIFICUM CURA RECOGNITUM
ATQUE AUCTORITATE
Sanctissimi D. N. Pii Papæ XI
AD NORMAM CODICIS JURIS CANONICI
ACCOMMODATUM
EDITIO JUXTA TYPICAM
Tenho um desses, que o antigo monsenhor Joaquim Ferreira Chaves, pároco anterior da Igreja Matriz de Teresina, ganhou em 25/12/1952. Ele não traz nenhum decreto novo da Sagrada Congregação dos Ritos, mas tão somente a Carta Apostólica Apostolicæ Sedi, de Paulo V, de 17 de junho de 1614.
Na internet ele pode ser encontrado aqui (edição Laudate Dominum, que é a edição virtual mais conhecida provavelmente).
Sabemos que os Missais bilíngues existem há pouco mais de um século, se eu não estiver enganado. As duas versões mais conhecidas entre os brasileiros são o Missal Quotidiano e Vesperal de Dom Gaspar Lefebvre e os Missais Dominical e Quotidiano de Dom Beda Keckeisen.



Estes subsídios, ótimos praticamente em todo o seu conteúdo, com boas instruções, trazem textos em português, mas tão somente para melhor compreensão da parte dos fiéis. Não se tratam de textos para uso litúrgico.
Devemos voltar nosso olhar, portanto, para o Pequeno Ritual Romano, cujo nome formal é Collectio Rituum pro Omnibus Brasiliæ Diœcesibus ad instar Appendicis Rituali Romani a Sancta Sede Approbata, do qual já tratamos anteriormente.
Trata-se de um Edição oficial autorizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Este Ritual foi publicado em 1958 e é interessante lermos sua Apresentação, que transcrevo:

A exemplo do que já foi concedido a alguns países, também o Brasil, pelo seu Episcopado, pediu à Santa Sé lhe fosse permitido ter o seu Ritual bilíngue.
Acedendo a tão justo desejo, por Decreto de 14 de Março de 1958, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu ao Brasil o mesmo que a outros países, embora um ou outro tenha alcançado mais faculdades, tomando-se em consideração costumes já tradicionais.
Não sendo mais que um extrato do Ritual Romano, o Ritual latino-português contém os ritos mais em uso com suas rubricas essenciais.
Convém lembrar que as traduções que podem ser lidas em vernáculo em vez do latim, possuem um caráter litúrgico, pelo fato de terem sido aprovadas pela autoridade da Santa Sé; não é, pois, permitida a introdução de alterações por própria autoridade, assim como não o é igualmente no texto latino.
Para que os Reverendos Párocos possam utilizar o presente Ritual com real proveito foi-lhe acrescentada uma coletânea com as bênçãos mais frequentes no desempenho do seu múnus pastoral.
No emprego deste Ritual devem ser observadas as seguintes normas:
1. Quando a tradução portuguesa estiver ao lado do texto latino, basta que seja lido o texto vernáculo.
2. Se, abaixo do latim, houver texto em vernáculo, deve ser sempre lido primeiramente o texto latino, terminado o qual, se o Sacerdote julgar conveniente, pode ler o mesmo em vernáculo, quer em parte, quer integralmente.
3. As fórmulas sacramentais e os salmos sejam lidos somente em latim.
O uso parcial da língua vulgar não dispensa os pastores do dever da catequese lembrado pelo Ritual Romano: "In Sacramentorum administratione eorum virtutem, usum, ac utilitatem, et cæremoniarum significationes, ut Concilium Tridentinum præcipit, ex Sanctorum Patrum et Catechismi Romani doctrina, ubi commode fieri potest, diligenter explicabit." (Rit. Rom., Tit. I, 10).
O Pároco zeloso fará preceder de uma breve catequese a administração dos Sacramentos e demais ritos aqui apresentados. Convém que suas explicações sejam seguras e sóbrias, cuidadosamente preparadas, isto é, livres de uma apressada improvisação.
No estudo atento do Ritual poderá o Pároco encontrar precioso alimento para a sua ação pastoral.

Para ver as partes especificadas, pode-se acessar o Pequeno Ritual Romano no Gloria.TV (o site parece estar com problemas no momento), bem como no Obras Raras do Catolicismo.

Para se conferir a palavra oficial relativa à questão, uma nova postagem trará uma tradução minha do texto do Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos. Aguardem.

Por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Batismo na Forma Extraordinária em Teresina (08/10/2011)

Pax et bonum!

Com muita alegria finalmente postamos as fotos do primeiro Batismo que tivemos em Teresina na Forma Extraordinária do Rito Romano, no último dia 08 (Dia do Nascituro).
O novo cristão é o pequeno João Gabriel, segundo filho de Mauro Sérgio Alves, conselheiro da ARS, com sua esposa Aline Almeida Alves.
O sacerdote foi nosso querido Pe. José de Pinho Borges Filho, coordenador do Setor de Liturgia da Arquidiocese de Teresina e Pároco da Paróquia Nossa Senhora do Amparo.
O Batismo se deu por volta de 18h20, após a Missa das 17h, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo, centro da cidade.

As orações, as súplicas, os exorcismos, a estola roxa, recordam-nos algumas palavras de São Cesário de Arles: "Todos nós, caríssimos, antes do batismo fomos templos do demônio; depois do batismo, obtivemos ser templos de Cristo. E se meditarmos com atenção sobre a salvação de nossa alma, reconheceremos que somos o verdadeiro templo vivo de Deus. Deus não habita somente em construções de mão de homem (At 17,24) nem em casa feita de pedras e madeira; mas principalmente na alma feita à imagem de Deus e edificada por mãos deste artífice. Desse modo pôde São Paulo dizer: O templo de Deus, que sois vós, é santo (1Cor 3,17). E já que Cristo, quando veio, expulsou o diabo de nossos corações para preparar um templo para si, quanto pudermos, esforcemo-nos com seu auxílio para que em nós não sofra injúria por nossas más obras. Pois quem proceder mal, faz injúria a Cristo. Como disse acima, antes que Cristo nos redimisse, éramos casa do diabo; depois foi-nos dado ser casa de Deus. Deus se dignou fazer de nós sua casa" (Trecho do Sermo 229 in Liturgia das Horas, Festa da Dedicação da Basílica do Latrão, Ofício das Leituras).
Questionado sobre os motivos de pedir o Batismo na Forma Extraordinária do Rito Romano, o pai de João Gabriel respondeu:

"Escolhemos o Rito Tradicional do Batismo, devido a toda a riqueza simbólica e pedagógica nele presente. Por exemplo: logo no início, os pais e padrinhos param em frente à porta da Igreja para indicar que o catecúmeno ainda não está inserido na Igreja e será o Batismo que o fará ingressar no Corpo Místico de Cristo, tornando o recém batizado templo do Espírito Santo. As perguntas que o sacerdote, Ministro da Igreja, faz ao catecúmeno são de profundidade e seriedade enormes: 'Que pedes à Igreja de Deus?' e o padrinho responde pela criança: 'A fé!' 'E a fé o que te alcança?' 'A vida eterna'.
A escolha deste rito, não foi, em momento algum, uma rejeição ao novo rito do Batismo, e sim o desejo de desfrutar do benefício generosamente concedido por sua Santidade o Papa Bento XVI no Motu Proprio Summorum Pontificum. Oxalá este seja o primeiro de muitos outros batismos realizados numa liturgia reverente em ambas as formas do Rito Romano".

Início às portas da Igreja

Primeira imposição da mão

Exorcismo do sal


Primeiro Exorcismo
Segunda imposição da mão
Entrada na Igreja
Todos entram rezando o Símbolo dos Apóstolos (Credo) e a Oração do Senhor (Pai nosso)

Segundo Exorcismo
Éfeta


Renúncias
Unção com o Óleo dos Catecúmenos


Deposição da estola roxa


Profissão de fé
"...ego te baptízo...
...in nómine Patris...
...et Fílii...
...et Spíritus Sancti".
Unção com o Santo Crisma
Imposição da veste branca
Entrega da luz


Uma Ave Maria pelos pais e mães tentados a cometer o crime hediondo do aborto

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Documentos do Magistério sobre o Santo Rosário

Pax et bonum!

Já estamos finalizando a primeira quinzena do mês de outubro, dedicado ao Santo Rosário e às Missões.
Pedimos perdão a todos os leitores e visitantes do blog, por conta do período sem atualizações.
Não obstante, ainda há muito tempo para se dedicar a esta oração tão cara ao Céu e tão amada pela Santa Igreja!
Infelizmente ainda há muitos católicos que desconhecem e mesmo desprezam o Rosário, ou que pensam que ele é uma mera devoção de pessoas ignorantes. Por isso mesmo, é-nos conveniente, recordar algumas palavras de alguns Papas sobre esta oração.

Leão XIII - o Papa do Rosário:
Visto que os fatos demonstram o quanto esta oração é agradável à Virgem, e o quanto é eficaz na defesa da Igreja e do povo cristão, em alcançar os divinos favores para os simples indivíduos e para a sociedade inteira, não há de causar nenhuma admiração que também outros Nossos Predecessores, com palavras de fervoroso encômio, se hajam aplicado a incrementá-la. Assim Urbano IV afirmou que "cada dia o povo cristão recebe novas graças por meio do Rosário"; Sixto IV proclamou que esta forma de oração "é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem, mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara"; Leão X disse-a "instituída contra os heresiarcas e contra o serpear das heresias"; e Júlio III chamou-lhe "ornamento da Igreja de Roma". Igualmente Pio V, falando desta oração, disse que, "ao difundir-se ela, os fiéis, inflamados por aquelas meditações e afervorados por aquelas preces, começaram de repente a transformar-se em outros homens; as trevas das heresias começaram dissipar-se, e mais clara começou a manifestar-se a luz da fé católica". Finalmente, Gregório XIII declarou que "o Rosário foi instituido por S. Domingos para aplacar a ira de Deus e para obter a intercessão da bem-aventurada Virgem".
Encíclica Supremi Apostolatus

Efetivamente, agora também se trata de um negócio bastante árduo e importante: isto é, de abater o poder do antigo e astutíssimo inimigo, arrogante na sua força; de reivindicar a liberdade para a Igreja e para o seu Chefe; de conservar e defender os fundamentos sobre os quais deve apoiar-se a segurança e o bem-estar da sociedade. Grande deve ser, nestes tempos tão lacrimosos para a Igreja, a solicitude de manter com piedosa diligência o santo costume do Rosário; sobretudo porque esta oração é composta de modo a evocar sucessivamente todos os mistérios da nossa salvação, e portanto particularmente adequada para fomentar a piedade.
Encíclica Superiore Anno

Que, pois, a própria Rainha do Céu haja ligado a esta oração uma grande eficácia, demonstra-o o fato de haver ela sido instituída e propagada pelo ínclito S. Domingos, por impulso e inspiração dela, em tempos especialmente tristes para a causa católica, e bem pouco diferentes dos nossos, e instituída como um instrumento de guerra eficacíssimo para combater os inimigos da fé.
Com efeito, a seita herética dos Albigenses, ora sorrateira, ora abertamente, invadira numerosas regiões; espantosa descendência dos Maniqueus, repetia ela os monstruosos erros destes, e renovava as suas hostilidades, as suas violências e o seu ódio profundo contra a Igreja. Contra essa turba tão perniciosa e arrogante, já agora pouco ou nada se podia contar com os auxílios humanos, quando o socorro veio manifestamente de Deus, por meio do Rosário de Maria. Assim, graças à Virgem, gloriosa e debeladora de todas as heresias, as forças dos ímpios foram abatidas e quebradas, e a fé de muitíssimos ficou salva e intacta. E pode-se dizer que semelhantes fatos se verificaram no seio de todos os povos. Quantos perigos conjurados! Quantos benefícios alcançados! A história antiga e moderna aí está para o demonstrar com os mais luminosos testemunhos.
Encíclia Octobri Mense

Aqueles que rezam bem o Rosário têm a alma inundada por ele de uma doçura sempre nova, experimentam a mesma impressão e emoção que experimentariam se ouvissem a própria voz de sua dulcíssima Mãe, no ato de lhes explicar esses mistérios e de lhes dirigir salutares exortações. Não poderá, pois, parecer excessiva a Nossa afirmação, se dissermos que a fé absolutamente não deve temer os perigos da ignorância e dos nefastos erros naqueles lugares, no seio daquelas famílias e no meio daqueles povos onde se mantém na primitiva honra a prática do Rosário.
Encíclica Magnæ Dei Matris

Leão XIII talvez tenha sido o papa que mais escreveu sobre o Rosário.
10 Cartas Encíclicas suas estão disponíveis (entre as quais as quatro citadas acima), em português, para download aqui.

Pio XII:
"Essa devoção, veneráveis irmãos, desejamos se faça este ano com o maior fervor de alma, como exigido pelas necessidades do mundo. É que bem sabemos quão grande eficácia e força tem a reza do terço para impetrar o materno auxílio da Virgem santíssima. Porque, embora não seja o único modo de orar capaz de nos atrair esse auxílio, contudo, cremos que o terço de nossa Senhora é meio ótimo e frutuosíssimo, como aliás no-lo indica veemente a sua origem mais celeste que humana, e a própria razão de ser".

João XXIII:
[O Santo Rosário], com efeito, como de todos é sabido, é uma excelente modalidade de oração meditada, constituída à guisa de coroa mística, na qual as orações do Pai Nosso, da Ave Maria e do Glória ao Pai se entrelaçam com a consideração dos mais altos mistérios da nossa fé, pelos quais é apresentado à mente, como outros tantos quadros, o drama da encarnação e da redenção de nosso Senhor. (...)
[É, ele,] ato de piedade mariana que sobretudo desejamos praticar com particular fervor no mês de outubro.

Paulo VI:
Durante o mês de outubro costuma o povo cristão tecer, quais místicas grinaldas, a oração do Rosário, à Mãe de Cristo. E nós, que a exemplo de nossos predecessores aprovamos vivamente essa prática, convidamos neste ano todos os filhos da Igreja a tributar à Bem-aventurada Virgem, especiais testemunhos de piedade.

João Paulo II:
A história do Rosário mostra como esta oração foi utilizada especialmente pelos Dominicanos, num momento difícil para a Igreja por causa da difusão da heresia. Hoje encontramo-nos diante de novos desafios. Porque não retomar na mão o Terço com a fé dos que nos precederam? O Rosário conserva toda a sua força e permanece um recurso não descurável na bagagem pastoral de todo o bom evangelizador.
Penso em vós todos, irmãos e irmãs de qualquer condição, em vós, famílias cristãs, em vós, doentes e idosos, em vós, jovens: retomai confiadamente nas mãos o terço do Rosário, fazendo a sua descoberta à luz da Escritura, de harmonia com a Liturgia, no contexto da vida quotidiana.
Que este meu apelo não fique ignorado!

Bento XVI:
O Rosário é escola de contemplação e de silêncio. À primeira vista, poderia parecer uma oração que acumula palavras, portanto dificilmente conciliável com o silêncio que é justamente recomendado para a meditação e a contemplação. Na realidade, esta repetição ritmada da Ave Maria não perturba o silêncio interior, aliás, exige-o e alimenta-o. Analogamente a quanto acontece para os Salmos quando se reza a Liturgia das Horas, o silêncio sobressai através das palavras e das frases, não como um vazio, mas como uma presença de sentido último que transcende as próprias palavras e juntamente com elas fala ao coração. Assim, recitando as Ave Marias é preciso prestar atenção para que as nossas vozes não "se sobreponham" à de Deus, o qual fala sempre através do silêncio, como "o sussurrar de uma brisa leve" (1 Rs 19, 12).

Ademais, recordamos e recomendamos nossa página com as orações do Rosário em latim e com o áudio da Rádio Vaticana.

Que a Santíssima Virgem nos guarde a todos e abençoe as Missões!

Por Luís Augusto - membro da ARS