quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Celebração da Palavra de Deus na ausência do presbítero

Pax et bonum!

Recordando a citada V Semana de Liturgia de uma paróquia teresinense, recebemos o material disponibilizado ontem (dia 29), que aborda a Celebração da Palavra de Deus na ausência do presbítero.
O texto, de autoria de Ângelo Rodrigues Domingues (veja também seu testemunho sobre a participação na Missa na Forma Extraordinária), membro da ARS, apresenta várias citações do Diretório para Celebrações Dominicais na ausência do Presbítero, documento da Congregação para o Culto Divino, que infelizmente parece ser pouco conhecido. Em seu lugar, muitas vezes citado como única referência no que diz respeito a estas celebrações, existem as Orientações para a Celebração da Palavra de Deus (Documento 52), da CNBB, que também são citadas no presente texto.
O tema, que já desejávamos tornar objeto de uma postagem, providencialmente nos vem abordado nesta louvável iniciativa da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré.
Sendo uma realidade constante para muitos fiéis brasileiros (a celebração dominical na ausência do presbítero) desejamos que a leitura deste texto seja de grande proveito para todos.
Igualmente indicamos, sobre o mesmo tema, uma recente postagem do sempre bom Salvem a Liturgia!
O texto está disponível no Scribd (incorporado abaixo) e no Gloria.TV.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Imperdível: download da obra "Missarum Sollemnia" do Pe. Josef Jungmann, SJ (em inglês)!

Pax et bonum!

No ano de 1949 vinha a lume uma das obras que se tornou uma das mais famosas e consultadas atualmente sobre a história da Missa do Rito Romano. Trata-se de "Missarum Sollemnia", de Pe. Josef Andreas Jungmann, SJ, sacerdote jesuíta austríaco, nascido em 1889 e falecido em 1975.
Pe. Josef passou maior parte de sua carreira lecionando Teologia Pastoral na Universidade de Innsbruck. É conhecido pela promoção do interesse em práticas antigas da Igreja que integravam o culto e a catequese. Enquanto ele foi bastante conhecido no âmbito da catequese, atualmente seu nome parece ser mais recordado quanto ao estudo da liturgia, tendo sido ele um dos peritos do Concílio Vaticano II e membro da comissão que redigiu a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium.
Em português, no Brasil, o Missarum Sollemnia foi publicado pela Paulus.
Em inglês, a obra foi digitalizada e disponibilizada para download, o qual foi noticiado em postagem do último dia 26, do ótimo New Liturgical Movement.
O arquivo está hospedado no blog Corpus Christi Watershed, muito conhecido pela dedicação à causa do canto sacro.

Por Luís Augusto - membro da ARS

Congratulações pela V Semana de Liturgia da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré (Teresina-PI)

Pax et bonum!

A ARS gostaria de parabenizar a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, com Matriz no Conjunto Bela Vista, na zona sul de Teresina-PI, pela realização de sua V Semana de Liturgia.
A Semana de formação iniciou na noite desta segunda-feira (27/01) e se estende até a próxima sexta-feira (31/01).
O tema geral deste ano é "A Celebração da Eucaristia e a Palavra de Deus na Sagrada Liturgia", onde as palestras se voltarão para a Palavra de Deus na Santa Missa, incluindo, todavia, a Celebração da Palavra.
Os temas diários são:

27/01 - A Celebração Eucarística e a Palavra de Deus na Liturgia - Parte I
28/01 - A Celebração Eucarística e a Palavra de Deus na Liturgia - Parte II
29/01 - A Celebração da Palavra de Deus
30/01 - A Liturgia e a Palavra de Deus, segundo a Exortação Apostólica Verbum Domini
31/01 - Disposições gerais

A bela iniciativa é do pároco, o Pe. Francisco das Chagas Santos Martins, que assim cumpre o que se pediu no Concílio Vaticano II: "Procurem os pastores de almas fomentar com persistência e zelo a educação litúrgica e a participação ativa dos fiéis, tanto interna como externa, segundo a sua idade, condição, gênero de vida e grau de cultura religiosa, na convicção de que estão cumprindo um dos mais importantes múnus do dispensador fiel dos mistérios de Deus. Neste ponto guiem o rebanho não só com palavras mas também com o exemplo" (Sacrosanctum Concilium, 19).
O último dia contará com a celebração da Santa Missa às 19h, na Matriz da Paróquia.
Os interessados por conhecer a Semana e possivelmente participar das formações restantes podem contactar a paróquia:

PARÓQUIA NOSSA SENHORA DE NAZARÉ – Bela Vista
Quadra 12, Casa 05, Bela Vista I - Fone: (86) 3211-4191
CEP 64030-030 / Teresina -PI

Fazemos nossos votos de que todos os participantes possam haurir, das formações, o ensino genuíno da Igreja em matéria litúrgica, e possam pôr em prática o que ali for aprendido, desenvolvendo "aquele amor suave e vivo da Sagrada Escritura de que dá testemunho a venerável tradição dos ritos tanto orientais como ocidentais" (Sacrosanctum Concilium, 24).

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Promovendo a Forma Extraordinária da Santa Missa

1.  Por que restaurar a Missa Latina Tradicional?
Vivendo num mundo secularizado, a Forma Extraordinária da Missa ajuda-nos a manter nossas raízes na tradição e na herança da Igreja. A Missa Latina Tradicional ajuda os católicos a santificar suas vidas numa era dessacralizada.
A forma antiga da Missa Romana fomenta um senso de respeito pelas sagradas tradições da Igreja. Este elo vital com o Sacrifício da Missa é uma âncora segura e uma garantia de que não nos afastamos daquele alicerce da Fé Católica.
Na atmosfera sagrada que se experimenta na celebração da Forma Extraordinária, os fiéis são bem dispostos para dar ao nosso Deus Uno e Trino o culto que lhe é devido.
O tesouro da música sacra da Igreja, especialmente o canto gregoriano e a polifonia sacra, é fortemente promovido na celebração da Missa segundo o Missal Romano de 1962.
E a promoção do uso do latim, a língua própria da igreja, em seu culto, ensino e administração, é assegurada na celebração da Missa "Tridentina".

2.  O Concílio de Trento afirmou que "as coisas santas devem ser tratadas de forma santa". Como a Forma Extraordinária da Missa Romana promove esta reverência?
Quando celebradas com fé, devoção e adesão à intenção da Igreja, as cerimônias da Missa Latina Tradicional fomentam a beleza, a dignidade, o silêncio e a reverência nos fiéis ao prover um amplo espaço para o recolhimento e a oração privada em meio ao culto público do Sacrifício Eucarístico.
De acordo com a Tradição Cristã, a reverência é fundamental para o culto, ao passo em que ela aumenta o sentido do sagrado e nos permite "ver" o eterno e sobrenatural. O Bem-aventurado Cardeal Newman disse que todo aquele que não tem temor e reverência nunca conheceu a realidade de Deus.
Também é verdade que a reverência pela forma tradicional do culto e o receio de abandoná-lo são fundamentais para a continuidade da Fé. "Lex orandi, lex credendi" (Tal como oramos, assim cremos), acrescenta a sabedoria plurissecular da Igreja.

3.  A Forma Extraordinária é útil para a evangelização?
A Missa Latina Tradicional inspirou incontáveis santos e mártires, nutriu a devoção pela Missa entre sucessivas gerações de féis, aumentou as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa, e atraiu conversões em números sem rivais.

4.  Por que se deveria preservar a Forma Extraordinária da Missa?
A Missa Romana Tradicional é nossa herança de uma grande antiguidade, um dom sublime de Deus e fruto de séculos de pensamento católico inspirado. Ela data, sem mudanças significantes, do séc. VI, quando o Papa São Gregório Magno nos deixou o rito antigo em todo o seu essencial tal qual o temos hoje. (Papa Bem-aventurado João Paulo II)
Esta era a Missa que o Papa São Pio V, em 1570, decretou que deveria permanecer sem mudança perpetuamente. Assim ele não promulgou um novo ordinário da Missa, mas simplesmente deu nova força legal ao rito da Missa que já existia por séculos e que tinha sido protegido pela lei de costumes imemoriais da Igreja.
Em 1984 o Santo Padre promulgou um Indulto para a Missa Latina Tradicional ser celebrada pelo mundo a fora. Num motu proprio intitulado Ecclesia Dei (1988) ele mencionou sua "legitimidade" e manifestou seu desejo de que a permissão para sua celebração fosse concedida de forma "ampla e generosa".

5.  Onde posso experimentar a liturgia Romana na Forma Extraordinária?
Para o Brasil há o site Missa Tridentina, que reúne endereços e contatos dos diversos estados brasileiros.
Existe no Brasil a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, em Campos dos Goytacazes-RJ, erigida canonicamente em 18/01/2002 pelo Papa Bem-aventurado João Paulo II, com finalidades e poderes equiparados aos de uma diocese. Além de suas paróquias próprias, há sacerdotes que assistem outras cidades (incluindo os estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo).
A lista de endereços está nesta página: http://www.adapostolica.org/novo/paroquias-capelas-e-afins/

6.  O que fazer se não há nenhuma Missa [na Forma Extraordinária] na região onde moro?
Graças à sabedoria do Papa Emérito Bento XVI, este problema pode ser resolvido a nível de paróquia, de acordo com o princípio de subsidiariedade. Paroquianos podem encorajar seu pároco a estudar e aprender a Missa Latina Tradicional. Se o pedido não é acolhido, os paroquianos podem entrar em contato com o bispo local pedindo assistência, que é encorajado a acolher este pedido e fazer as provisões necessárias. Se a paróquia ou diocese é incapaz de encontrar uma solução, os paroquianos podem entrar em contato com a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei em Roma, pedindo auxílio:

Pontifícia Comissão Ecclesia Dei
Sua Eminência, Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Presidente
Praça do Santo Ofício 11,
00120 Cidade do Vaticano, Itália

Apêndice
Instrução Universae Ecclesiae, da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, sobre a aplicação da Carta Apostólica Motu Proprio Summorum Pontificum de S. S. o Papa Bento XVI.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Meu testemunho - 3

(Testemunho escrito em 28/12/2013)

Verbum caro factum est et habitavit in nobis!

A exemplo do que fizeram dois outros irmãos da Associação Redemptionis Sacramentum aqui e aqui, também eu venho deixar minhas impressões sobre a Santa Missa segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano, também conhecida como “Missa Antiga”, “Missa Tridentina”, “Missa de São Pio V”, dentre outras denominações.
Chamo-me Ângelo Rodrigues Domingues, casado, 31 anos, esperando nosso primeiro filho enquanto celebramos a vinda do Filho de Deus ao mundo.
A primeira vez que ouvi diante de mim o “Introibo ad altare Dei” (“Subirei ao altar de Deus”) também foi em Fortaleza, na Igreja do Tauape. É claro que foi emocionante e surpreendente, mas embora eu já tivesse visto alguns vídeos e lido vários textos, embora soubesse rezar alguma coisa em latim e já conhecesse um pouco o Missal de 1962, estar lá em pessoa foi outra coisa completamente diferente! Só para ilustrar, eu estava com o Missal na mão, mas quando eu pensava que o padre estava em um parágrafo, ele já estava na outra página e eu completamente perdido!
Voltando a Teresina, e após mais estudo, fui ruminando lentamente sobre o que eu havia presenciado e, inevitavelmente fui fazendo comparações, tentando encontrar continuidade em meio à ruptura estampada por toda parte em cada paróquia. E tudo isso foi me fazendo desejar ter aquela Missa novamente.
Neste ano de 2013, mais precisamente no mês de junho, sabendo de uma viagem que eu teria que fazer a Brasília – DF para um curso de capacitação por conta de meu trabalho, procurei na internet pela existência da Missa Tradicional em Brasília e deparei-me com o blog Missa Tridentina em Brasília. Lá encontrei os locais e horários da Missa. Como o curso era de segunda a sexta-feira, optei pela Missa de 19h30 na capela do Instituto Bíblico de Brasília, celebrada pelo Pe. Sérgio David. 
Procurei antecipadamente o local no mapa e imprimi imagens da rota para me certificar de que eu chegaria ao local certo. Tomei um taxi com relativa antecedência para não ter problemas com o trânsito e cheguei ao Instituto Bíblico cerca de 30 minutos antes do início do Santo Sacrifício. Este tempo foi muito bom, pois pude conversar com dois distintos senhores sobre a Santa Missa, a Tradição e outros assuntos sobre os quais normalmente não encontramos ninguém para falar, nem mesmo na Igreja.

Ao contrário da Missa dominical de Fortaleza, esta foi uma Missa semanal do Tempo Comum, sem solenidade, sem cantos e sem homilia. Hoje vemos muitas pessoas que vão à Igreja porque gostam da animação dos cantos, acompanhados por instrumentos musicais variados, embalados por ritmos diversos, ou porque o padre fala muito bem e toca o coração, ou porque há orações poderosas que curam, dessas que quando terminam as pessoas dizem: “Meu Deus, que Missa linda!”... Mas provavelmente se você falar que o centro e ápice da Santa Missa é a renovação do Sacrifício da Cruz, elas dirão que não sabiam ou que é invenção sua!

Pois é, quando me vi desprovido de todos estes elementos, percebi que aquele era o tipo de Missa que só vai quem quer participar “da” Missa, ou seja, quem quer estar diante do Calvário, do Sacrifício Redentor de Cristo Jesus. Na falta do que é acessório (e que às vezes em nada assessora, só atrapalha!), sobrepôs-se o Essencial! Desta vez não me preocupei tanto em saber em que parte do Missal o padre estava, mas em unir-me espiritualmente aos Sagrados Mistérios, embora meu latim estivesse um pouco melhor e eu já não me perdesse tanto como da primeira vez.

Três meses depois, em setembro, por ocasião de outro curso, voltei ao Instituto Bíblico no mesmo dia e horário para mais uma Missa na Forma Extraordinária, e desta vez levei um colega de trabalho. A mesma Missa “sem graça” da outra vez, graças a Deus! Que silêncio, que santidade! Meu colega ficou tão admirado que no outro dia saiu falando da Missa para os outros, e falando bem! E ainda dizem que na Missa Antiga ninguém entende nada... E hoje entendem?

O problema destas minhas Missas “a trabalho” é que, ao retornar a Teresina, bate aquela “depressão pós-Missa”. Pode perguntar para quem já fez esta experiência! Você chega à sua paróquia e ouve “aqueles” cantos, o padre é o primeiro a puxar as palmas; estando voltado para o povo, o padre fala a Deus fazendo caras e bocas para a assembleia de fieis (às vezes tenho até minhas dúvidas se ele sabe mesmo para quem é que ele está se direcionando, inclusive na hora da Consagração); o povo responde a Oração Eucarística só pra “cumprir tabela” e romper o indesejado silêncio; as moças e senhoras vestem-se de qualquer maneira; os fieis recebem a Sagrada Eucaristia sem um pingo de reverência, e por aí vai.
Então depois de uma ou duas semanas você volta ao normal e vai aprendendo a fechar os olhos e enxergar além das aparências, vai aprendendo que mesmo com tudo, ainda assim é a Santa Missa e o Corpo e Sangue de Cristo se fazem presentes no altar. E assim a gente vai gemendo e chorando neste vale de lágrimas, mas com o olhar fixo no céu, aguardando o próximo curso, na espera de dias melhores para nossa arquidiocese.

Por Ângelo Rodrigues Domingues - membro da ARS

O que era um "altar privilegiado"?

Um altar é dito privilegiado ("altare privilegiatum") quando, em adição aos frutos ordinários do Sacrifício Eucarístico, uma indulgência plenária é também concedida sempre que a Missa é aí celebrada, devendo a indulgência ser aplicada à alma individual por quem a Missa é oferecida. O altar privilegiado deve ser um altar fixo ou imóvel, mas num sentido mais amplo, isto é, deve ser estacionário ou permanente, seja construído num fundamento sólido ou preso a uma parede ou coluna, ainda que não seja consagrado, mas tenha meramente uma pedra consagrada (altar portátil, pedra d'ara) inserida em sua mesa. O privilégio está anexado não à pedra do altar, mas à própria estrutura, por razão do título que ela carrega, isto é, o mistério ou o santo em honra de quem ele é dedicado. Assim, se o material do altar for mudado, se o altar for transferido para outro lugar, se outro altar for substituído por ele na mesma igreja, dado que nele permaneça o mesmo título, e ainda que o altar seja dessagrado ou profanado, preserva-se o privilégio. Para ganhar a indulgência, a Missa deve ser uma Missa de Réquiem (exéquias, ou seja, pelos defuntos), sempre que as rubricas o permitam. Se, por conta de precedência da festa do dia, ou por conta da Exposição do Santíssimo Sacramento, ou por outras razões, uma Missa de Réquiem não puder ser celebrada, a indulgência é lucrada celebrando outra Missa (S. C. Indulg., 11 de abril de 1864). Este privilégio é de dois tipos, local (ou real) e pessoal. Ele é local ou real quando está anexado a um altar, como descrito acima. Assim, seja qual for o sacerdote que celebre a Missa neste altar, a indulgência é lucrada. E ele é pessoal quando é inerente ao sacerdote, de modo que não depende do altar, mas do sacerdote que celebra. Daí, seja qual for o altar onde ele celebre, seja fixo ou portátil, e em qualquer igreja que seja, o altar que ele usa torna-se temporariamente um altar privilegiado. No dia 02 de novembro todo altar é privilegiado. Os bispos dos Estados Unidos têm a faculdade (Facultates Extraordinariae C., fac. viii) de declarar privilegiado um altar em qualquer igreja e capela pública ou oratório, seja consagrado ou não, de suas dioceses, na condição de este privilégio não ter sido previamente concedido a nenhum outro altar em tais igrejas sob as mesmas condições.

Fonte: Schulte, Augustin Joseph. "Privileged Altar." The Catholic Encyclopedia. Vol. 1. New York: Robert Appleton Company, 1907.
Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/01348c.htm.

Apêndice
A concessão do título de altar privilegiado constava como faculdade dos bispos, abades, certos prelados, vigários e prefeitos apostólicos e superiores de religiosos no Cân. 916 do Código de Direito Canônico de 1917. O título era inscrito junto do altar, por exemplo no retábulo.
Com a promulgação das novas normas relativas às indulgências (Constituição Apostólica Indulgentiarum Doctrina, de Paulo VI, 01/01/1967), esta concessão foi abrogada, de modo que os altares que trazem este título não mais o possuem efetivamente.
Na norma 20, a referida Constituição diz:
Pia Mater Ecclesia, de fidelibus defunctis quam maxime sollicita, quolibet privilegio hac de re abrogato, iisdem defunctis amplissime suffragari constituit quovis Missae sacrificio.
(Nossa piedosa Mãe Igreja, em sumo grau solicita pelos fiéis defuntos, resolveu conceder-lhes os seus sufrágios na mais ampla medida em cada sacrifício da missa, ab-rogando por outro lado todo privilégio neste domínio.)
Na norma 3, a mesma Constituição já declara:
Indulgentiae sive partiales sive plenariae possunt semper defunctis applicari per modum suffragii.
(As indulgências, ou parciais ou plenárias, podem sempre aplicar-se aos defuntos por modo de sufrágio.)
A mesma Constituição (n. 8) recorda-nos o que sejam as indulgências e sua utilidade:
Essa remissão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à falta foi chamada propriamente "indulgência" .
Nisso a indulgência apresenta traços comuns com os outros modos ou meios destinados a apagar as consequências dos pecados, mas deles também se distingue claramente. 
Com efeito, na indulgência, usando de seu poder de administradora da redenção de Cristo Senhor, a Igreja não se contenta com rezar, mas por sua autoridade abre ao fiel convenientemente disposto o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos pela remissão da pena temporal.
O fim intencionado pela autoridade eclesiástica na concessão das indulgências é não apenas ajudar os fiéis a pagarem as penas que devem, mais ainda incitá-los ao exercício das obras de piedade, de penitência e de caridade e, particularmente, das obras que conduzem ao progresso da fé e ao bem geral.
Se os fiéis transferem as indulgências a favor dos defuntos, exercem então de maneira excelente a caridade e, elevando seu pensamento para as realidades celestes, tratam as coisas terrestres do modo mais correto.
Enfim, o título que ainda é possível ver inscrito em muitas igrejas, como na Igreja de Nossa Senhora do Rosário (igreja datada de pelo menos 1798), na cidade de Parnaíba (zona norte do Piauí), no retábulo do altar-mor, ainda que não mais válido, é uma piedosa recordação a nos estimular à caridade para com as almas dos féis que estão no purgatório, fazendo-nos orar por elas e lucrar em seu benefício a indulgência do Senhor onipotente e misericordioso.


Altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (séc. XVIII), em Parnaíba-PI
Por Luís Augusto - membro da ARS

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

"A data do nascimento de Jesus"

Pax et bonum!

Segue nossa tradução de um interessante artigo do site da Custódia da Terra Santa.

Geralmente se aceita hoje em dia, entre historiadores e estudiosos, que o ano do nascimento de Cristo não foi calculado corretamente . Isto se refere a um erro cometido pelo monge Dionísio o Exíguo que, no início do séc. VI, recebeu de Roma a tarefa de estender as tábuas cronológicas da data da Páscoa que tinham sido preparadas no tempo do Bispo Cirilo (=São Cirilo de Alexandria).
O monge tomou como ponto de partida a data da encarnação do Senhor. O equívoco de Dionísio está no fato de que ele calculou o nascimento de Jesus tendo lugar depois da morte de Herodes − em outras palavras, quatro a seis anos depois da data em que ela atualmente aconteceu − que corresponderia ao ano 748 depois da fundação de Roma.
Mas de acordo com Flávio Josefo, Herodes o Grande morreu depois de governar por 37 anos, e dado que foi entronizado no ano 40 a.C., o ano de sua morte deve ter sido o ano 4 a.C. Isto também é confirmado por um evento astronômico que o historiador recordou como tendo tomado lugar antes da morte do monarca: um eclipse lunar que teria ocorrido entre 11 e 12 de abril do ano 4 a.C.
Baseado nesta informação, a morte de Herodes deve ter ocorrido no ano 4 a.C. e Jesus não poderia ter nascido depois deste ano. Por outro lado, no que se refere ao mês e ao dia do nascimento de Jesus, a data tradicional parece ser acertada. Para analisar a situação, deve-se levar em conta duas fontes: o Evangelho de Lucas e o calendário solar descoberto em Qumran.
Lucas conta-nos que o anjo Gabriel anunciou a Zacarias que Isabel estaria grávida naquele tempo enquanto ele estava “exercendo diante de Deus as funções de sacerdote, na ordem da sua classe” (Lc 1,8). Usando estes elementos é possível calcular as 24 classes em que as famílias sacerdotais estavam divididas e voltar até a data da classe de Abias, que era a oitava e que era a que Zacarias pertencia, e que estava encarregada do seu serviço do dia 8 ao 14 do terceiro mês, e do dia 24 ao 30 do oitavo mês.
Este último período corresponde ao fim de setembro, nove meses antes do 24 de junho, a data do nascimento de João Batista. Daí o anúncio à Virgem Maria “no sexto mês” (Lc 1,28) da gestação de Isabel corresponde ao 25 de março, de modo que a data de 25 de dezembro para o nascimento de Jesus pode ser visto como historicamente acertada.
Não obstante, comumente se alega que a data tradicional do nascimento de Jesus foi estabelecida pela Igreja a fim de corresponder à festa pagã do Dies natalis solis invicti (=dia do nascimento do sol invicto) que acontecia no dia do solstício de inverno (21 de dezembro), provavelmente para servir como substituto da cerimônia pagã e ajudar na rápida difusão da cerimônia cristã.
Mas é evidente que tão importante dia de festa não poderia ser estabelecido apenas por razões de tal supremacia e que a tradição deve ter tido raízes que seriam mais históricas e reais. E o caso de fato é que a transição da festa pagã para a cristã foi algo muito fácil, em vistas da tradição bíblica que via o Messias como luz e sol: “Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente” (Lc 1,78).

Original em inglês: http://www.bethlehem.custodia.org/default.asp?id=452

Tradução por Luís Augusto - membro da ARS

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A Basílica da Natividade, em Belém

Pax et bonum!

Dos muitos templos que, na Terra Santa, compõem os lugares mais sagrados para nós, cristãos, podemos citar sobretudo as igrejas que se referem aos dois grandes mistérios que dominam os dois ciclos do Ano Litúrgico, a Páscoa e o Natal, ou seja, Morte/Ressurreição e Encarnação/Nascimento: a Igreja do Santo Sepulcro e a Igreja da Natividade.
Nesta postagem queremos aprender um pouco sobre a Igreja da Natividade.

Localização


Ela está localizada na cidade de Belém, na Palestina (Oriente Médio), a 10km ao sul de Jerusalém, sobre uma caverna tradicionalmente apontada como o local de nascimento de Jesus de Nazaré, que reconhecemos e confessamos como Cristo, Salvador, Senhor, Filho de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Origem
A Igreja ou Basílica da Natividade é considerada a mais antiga da Terra Santa e o templo cristão mais antigo em uso. Foi inscrita em 2012 na lista do Patrimônio da Humanidade, da UNESCO. Sua construção foi ordenada em 326 ou 327, por Santa Helena, a mãe do Imperador Constantino, e foi inaugurada em 339. Após um incêndio, conta-se que uma nova basílica foi construída no séc. VI (531), na época do Imperador Justiniano. Tancredo reforçou suas estruturas no ano de 1169.
Em seu lugar, por obra pagã do Imperador Adriano, havia antes um templo dedicado ao deus Adônis, construído no séc. II.

Conservação
É admirável o fato de este templo não ter sido profanado ao longo de tantos séculos passados, diferente de outros ao longo da história da Terra Santa depois de Cristo.
Persas no séc. VII desistiram de incendiá-la ao ver trajes persas representados nos reis magos num mosaico; árabes não a destruíram por conta de Jesus e Maria terem certa importância na crença maometana; Saladino (chefe militar curdo), no séc. XII, permitiu que ela ficasse aberta e fosse usada para o culto cristão.

O único episódio realmente considerável de profanação foi o cerco de 38 dias que ocorreu entre abril e maio de 2002. A hostilidade entre combatentes palestinos (que se refugiaram na Igreja) e soldados do exército israelense deixou sujeira e marcas de alguns projéteis no templo.

A Porta da Humildade


Conta-se que foram os Cruzados que diminuíram a entrada, bloqueando o que seria a porta original, do tempo de Justiniano, e deixando apenas uma pequena entrada de 1,25m de altura, por prudência, para que por ela não entrasse ninguém a cavalo. Esta entrada é chamada de "Porta da Humildade", posto que é preciso abaixar-se para entrar. Por outro lado ela traz em si o simbolismo do aniquilamento, do esvaziamento de Cristo ao se fazer homem.

A planta da Basílica
Passada a fachada austera e a porta pequena, o que se encontra é uma tradicional basílica com arquitetura própria dos séc. IV a VI. São 5 naves, sendo 4 laterais e a central, separadas por 4 colunatas de 11 pilares coríntios cada. Os 44 pilares possuem 6m de altura.



Em certa parte do chão há aberturas por onde se vê o que sobrou do piso de mosaico do período bizantino.

Por certos buracos nas paredes, crê-se que a Igreja originalmente era revestida de mármore.
O teto atual tem linhas de madeira, que eram cobertas de chumbo. O material é do séc. XV (1479) e tem participação da Inglaterra, da Borgonha e de Veneza.

Trabalhos de restauração no teto foram iniciados no segundo semestre de 2013, segundo anunciado pelo Patriarcado Latino de Jerusalém.

O altar principal
O altar principal é separado do restante da igreja por uma iconostase grega (uma espécie de parede de material nobre e/ou precioso, com algumas portas - normalmente 3 - e vários ícones) colocada aí em 1764. Lembramos que a basílica é administrada conjuntamente pelo patriarcado ortodoxo grego, as autoridades apostólicas armênias e o patriarcado latino de Jerusalém (igreja católica).


A Gruta
O ponto mais importante de toda a edificação é o local considerado como lugar do nascimento de Nosso Senhor, segundo a tradição com antiquíssimos testemunhos. 
Ele fica numa caverna, que tem acesso por duas laterais da basílica (lado sul e lado norte), que fica abaixo do santuário ("capela-mor") e do altar principal da basílica.
A caverna é iluminada por 53 lâmpadas, das quais 19 pertencem aos cristãos latinos. O chão e as paredes foram recobertos de mármore. Há preciosos tecidos em algumas paredes.

Abaixo da mesa do altar da Gruta, no chão de mármore branco, encontra-se uma estrela de prata de 14 pontas que marca o local reconhecido como lugar do nascimento de Nosso Senhor. Acima dela, ainda sob o altar, estão 15 lâmpadas, das quais 4 pertencem aos cristãos latinos.


Na estrela há a inscrição: HIC DE VIRGINE MARIA IESUS CHRISTUS NATUS EST - 1717, ou seja, AQUI DA VIRGEM MARIA NASCEU JESUS CRISTO. 1717 é o ano em que a estrela aí foi posta.


A gruta ainda conta com a capela latina da manjedoura, onde se acredita que ocorreu a adoração dos magos ao Salvador que aí repousava.
A manjedoura em si, o lugar onde os animais comiam ou bebiam, deveria ser de barro ou calcário. Ela toda, pelo que se pode entender, foi coberta com mármore.

Exemplo de uma manjedoura de calcário do séc. IX

Imagem do Menino Jesus sendo colocada pelo Patriarca latino
na cavidade da manjedoura, na noite do Natal de 2013
Junto do Santo Sepulcro, a Gruta da Natividade é parada obrigatória para os que têm a ventura de poder visitar a Terra Santa.

Visita virtual
Depois de poucas descrições e algumas imagens, é importante compartilharmos nesta postagem os links de duas "visitas virtuais" disponíveis. Uma mais simples, mas com imagens reais em 360°, disponibilizada pela Custódia da Terra Santa (Frades Menores, franciscanos), e outra com o ambiente totalmente reconstruído em computador, em 3D, com comentários em áudio (em inglês).
Visita 1: http://www.virtualtourcustodia.org/betlemme/virtual_eng.html
Visita 2 (3D): http://jerusalem.com/tour/nativity_church_3D/web

A relíquia da manjedoura em Roma
Um pouco da santidade deste lugar e do mistério que aí se fez visível repousa nos restos da manjedoura, relíquia que foi levada para Roma e se encontra num relicário de cristal na cripta abaixo do altar-mor da Basília de Santa Maria Maior.



Aos cristãos que não podem visitar a Terra Santa, mas que podem viajar para a Europa e visitar a Cidade Eterna, eis aqui uma parada especial, onde se pode venerar os restos da manjedoura que recebeu o recém-nascido redentor do gênero humano. Esta relíquia consiste de 5 pedaços de madeira de sicômoro que, segundo o que se pode deduzir, eram como que suportes da manjedoura que, como dito, era feita do próprio material da caverna, ou seja, calcário.

A quem não pode visitar estes santos lugares...
Se estes locais são preciosos e importantes pelo contato físico com o corpo do Menino Deus, nada disso é mais sacrossanto que a Comunhão Eucarística, onde recebemos este mesmo Redentor, o mesmo corpo, agora chagado e glorificado, como se fôssemos Belém, como se fôssemos a Virgem Maria, como se fôssemos a manjedoura.
Para reflexão acerca deste mistério, cabe lembrar uma oração de São João Crisóstomo:

Senhor meu Deus, sei que não sou digno de que entres sob o teto do templo da minha alma, pois tudo está vazio e decaído e não tens em mim um lugar digno para repousares a Tua cabeça. Mas assim como do alto Tu desceste para nossa salvação, desce também agora até a minha baixeza, e assim como consentiste deitar-Te numa gruta e na manjedoura de animais mudos, consente também deitar-Te na manjedoura da minha alma irracional e entrar em meu corpo impuro. Assim como não Te recusaste a entrar e cear com os pecadores na casa de Simão, o leproso, concede-me entrares na casa da minha alma leprosa e pecadora. Assim como não rejeitaste a meretriz e pecadora como eu quando ela aproximou-se e tocou-Te, sê compassivo também para comigo quando eu me aproximar e tocar-Te. Assim como não Te enfureceste contra os lábios dela, impuros e indignos, que Te beijaram, também não Te enfureças contra os meus lábios indignos, contra a minha boca abominável e impura, nem contra minha língua poluída e suja. Permite que a brasa ardente do Teu santíssimo Corpo e do Teu precioso Sangue seja para minha santificação e iluminação, saúde para a minha alma e meu corpo, para o alívio da carga de tantos pecados, para a preservação contra as artimanhas do demônio, para a expulsão e a proibição dos meus hábitos vis , para mortificação das paixões, para a manutenção dos Teus mandamentos, para a aplicação da Tua divina graça, para a aquisição do Teu reino. Pois não é com escárnio que me aproximo de Ti, Ó Cristo Deus, mas como alguém que crê na Tua inefável bondade, e para que não me torne presa do lobo espiritual por abster-me da Tua comunhão. Por isto Te rogo, Ó Único Santo: Mestre, santifica a minha alma e o meu corpo, minha mente e o meu coração, meu ventre e meu interior e renova-me inteiramente. Instala em meus membros o temor de Ti, tornando inalienável para mim a Tua santificação. Sê o meu socorro e defesa, guiando a minha vida em paz. Concede-me também estar a Tua direita com os Teus santos, pelas súplicas e intercessões de Tua puríssima Mãe, dos Teus ministros imateriais e hostes imaculadas, e de todos os santos que pelos séculos têm sido agradáveis a Ti. Amém.

Louvor ao que aparece
aos povos em Belém,
unido ao Pai e ao Espírito
eternamente. Amém.

Fontes:
http://www.italiamiga.com.br/artecultura/artigos/a_basilica_da_natividade.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Church_of_the_Nativity
http://vicbethlehem.wordpress.com/tag/basilica-of-the-nativity-in-bethlehem/
http://www.farsinet.com/christmas/nativity_church.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_da_Natividade
http://www.sacred-destinations.com/israel/bethlehem-church-of-the-nativity
http://www.bobmay.info/dec102003nativitychurch.htm
http://oglobo.globo.com/mundo/igreja-da-natividade-declarada-patrimonio-mundial-da-unesco-5354233
http://noticias.uol.com.br/inter/reuters/2002/04/29/ult27u21619.jhtm
http://srv-net.diariopopular.com.br/11_04_02/as100411.html
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1105200203.htm
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=35906
http://triggerpit.com/2011/03/28/church-of-nativity-walk-trough-where-jesus-christ-was-born/
http://architecturalmoleskine.blogspot.com.br/2010/12/church-of-nativity-bethlehem-palestine.html
http://encontrocomcristo.com.br/basilica-da-natividade-em-belem-sera-restaurada/
http://refreshingnews99.blogspot.com.br/2012/06/church-of-nativity-where-jesus-christ.html
http://www.lifeintheholyland.com/bethlehem_church_nativity.htm
http://www.seetheholyland.net/grotto-of-the-nativity/
http://www.newadvent.org/cathen/04488c.htm
http://jerusalem.com/tour/nativity_church_3D/web
http://www.bethlehem.custodia.org/default.asp?id=455
http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/prayers_communion_p.htm

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre o Natal do Senhor

Pax et bonum!
Um belo mosaico de tema natalino na Igreja de São João,
paróquia [anglicana] de Bishopstrow e Boreham, na Inglaterra
Eis a nossa primeira postagem do novo ano civil, conforme o tempo foi nos permitindo.
Ainda gozando de mais alguns dias do Tempo do Natal, e estando no que também pode se chamar de Tempo da Epifania (conforme a forma extraordinária do Rito Romano), é conveniente meditarmos e tentarmos haurir ainda mais algumas boas reflexões destas grandes solenidades de nosso Salvador, Jesus Cristo.
Não é preciso falarmos tanto sobre a necessidade de "recristianizarmos o Natal". Todos sabemos o quão este período foi sendo despojado de seu sentido cristão e mesmo religioso (de um modo amplo). As confraternizações encheram muitas bocas de "espírito natalino" ou de "magia do natal", expressões vagas que indicam uma simples embora absurda ignorância ou uma tentativa de apagar da memória humana a recordação e a devida gratidão, além da própria e necessária adoração, diante do Deus que se revestiu de nossa fragilidade, encarnando-se para nos remir de nossos pecados.

Duração
O Natal é um fato, um mistério e uma festa.
Como fato é o nascimento de Jesus de Nazaré, filho de Maria, tendo como pai adotivo José, em Belém da Judéia, na Palestina, no início de nossa Era. Todavia, este nascimento reveste-se de algo diferente, posto que a mãe é virgem e concebeu sem ser por meio de fecundação natural. Assim, o Natal começa a ser visto como mistério. Junto com isto entram as profecias de antes, durante e depois do nascimento e o fato de que o menino nascido é verdadeiro homem, mas também verdadeiro Deus: é o Filho de Deus, tendo a mesma substância/essência/natureza divina; é o Verbo divino pelo qual tudo foi criado.
E pelo fato de isto ser comemorado e atualizado misteriosamente no culto cristão, dizemos que o Natal é uma festa, um tempo e um ciclo da Sagrada Liturgia.
Segundo a classificação do Rito Romano, o Natal (o dia 25/12) é uma Festa de I Classe ou, usando a terminologia da Forma Ordinária, uma Solenidade. Sendo assim, o Natal inicia com I Vésperas (oração da tarde, no caso, no dia 24). Sendo uma das duas maiores solenidades (a outra, inigualável, é a Páscoa), estende-se por uma semana (Oitava do Natal) e nomeia um tempo de cerca de 20 dias. "O Tempo do Natal vai das Primeiras Vésperas do Natal do Senhor ao domingo depois da Epifania ou ao domingo depois do dia 6 de janeiro inclusive" (que é a Festa do Batismo do Senhor, na Forma Ordinária do Rito Romano), é o que nos diz as Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e o Calendário.
O Natal possui 4 missas: Vigília, Noite, Aurora e Dia. A primeira é celebrada logo antes ou depois das I Vésperas, ou seja, no entardecer do dia 24. A segunda é celebrada durante a noite do dia 24. A terceira é celebrada ao amanhecer do dia 25 e a quarta durante todo o dia 25.
Como Ciclo considera-se o ciclo do Natal o período que abrange o Tempo do Advento, do Natal e da Epifania. Algumas obras estendem o ciclo até o 40º dia a partir do Natal, ou seja, o dia 02 de fevereiro - Apresentação do Senhor e Purificação da Virgem Maria.

Os textos do Natal
Do Ofício Divino e do Missal Romano podemos enfatizar alguns belos trechos que nos apresentam o grande mistério do Natal do Senhor Jesus Cristo.
Dentre eles podemos citar:

Ant. 3 das I Vésperas do Natal:
Verbum supérnum, a Patre ante témpora génitum, 
hódie pro nobis caro factum, exinanívit semetípsum.
Versão brasileira: Hoje o Verbo Divino, gerado pelo Pai já bem antes dos tempos,
humilhou-se a si mesmo e, por nós, se fez homem.

Do Hino das Laudes do Natal:
Beátus auctor sæculi
servíle corpus índuit,
ut carne carnem líberans
non pérderet quod cóndidit.
Versão brasileira: Autor feliz deste mundo,
tomou um corpo mortal.
A nossa carne assumindo,
livrou a carne do mal.

Oração das Laudes do Natal:
Deus, qui nos redemptiónis nostræ ánnua exspectatióne lætíficas, præsta, ut Unigénitum tuum, quem læti suscípimus redemptórem, veniéntem quoque iúdicem secúri vidére mereámur.
Versão brasileira: Ó Deus, que reacendeis em nós cada ano a jubilosa esperança da salvação, dai-nos contemplar com toda a confiança, quando vier como Juiz, o Redentor que recebemos com alegria.

Ant. 3 das II Vésperas do Natal:
In princípio et ante sæcula Deus erat Verbum: 
ipse natus est hódie Salvátor mundi.
Versão brasileira: No princípio, antes dos tempos, o Verbo era Deus.
E o Verbo hoje nasceu como nosso Salvador.

Ant. do Cântico Evangélico das II Vésperas do Natal:
Hódie Christus natus est; hódie Salvátor appáruit; 
hódie in terra canunt ángeli, lætántur archángeli; 
hódie exsúltant iusti, dicéntes: 
Glória in excélsis Deo, allelúia.
Versão brasileira: Jesus Cristo hoje nasceu, apareceu o Salvador.
Hoje na terra os Anjos cantam e se alegram os Arcanjos.
Hoje exultam de alegria os homens justos a dizer:

Glória a Deus nos altos céus. Aleluia, aleluia.

Oração das II Vésperas do Natal:
Deus, qui humánæ substántiæ dignitátem et mirabíliter condidísti et mirabílius reformásti, da, quæsumus, nobis eius divinitátis esse consórtes, qui humanitátis nostræ fíeri dignátus est párticeps.
Versão brasileira: Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade.

Ressalta-se a eternidade de Cristo, seu aniquilamento e a alegria que tudo isto causa na humanidade que recebe o seu Salvador.
Esta última oração, posta acima, é exatamente a mesma que o sacerdote reza ao abençoar e misturar a água com o vinho, no cálice, durante a Santa Missa segundo a Forma Extraordinária do Rito Romano, apenas acrescentando, antes do pedido, a expressão "pelo mistério desta água e deste vinho".
No Missal, a noite e o dia do Natal são chamados de "santíssima" e "sacratíssimo". Dos três Prefácios podemos ver os seguintes trechos:

Do Prefácio I, que é o Prefácio único no Missal mais antigo:
...ut, dum visibíliter Deum cognóscimus, per hunc in invisibílium amórem rapiámur...
Versão brasileira: E, reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos.

Do Prefácio II:
Qui, in huius venerándi festivitáte mystérii, invisíbilis in suis, visíbilis in nostris appáruit, et ante témpora génitus esse copit in témpore; ut, in se érigens cuncta deiécta, in íntegrum restitúeret univérsa, et hóminem pérditum ad cæléstia regna revocáret.
Versão brasileira: Ele, no mistério do Natal que celebramos, invisível em sua divindade, tornou-se visível em nossa carne. Gerado antes dos tempos, entrou na história da humanidade para erguer o mundo decaído. Restaurando a integridade do universo, introduziu no reino dos céus o homem redimido.

Do Prefácio III:
...dum nostra fragílitas a tuo Verbo suscípitur, humána mortálitas non solum in perpétuum transit honórem, sed nos quoque, mirándo consórtio, reddit aetérnos.
Versão brasileira: No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornarmos eternos.

As lições do Natal
Na Encíclica Mediator Dei, o Papa Pio XII nos diz que a Sagrada Liturgia "na ocorrência do Natal do Redentor parece quase reconduzir-nos à gruta de Belém para que aí aprendamos que é absolutamente necessário nascer de novo e reformar-nos radicalmente, o que só é possível quando nos unimos íntima e vitalmente ao Verbo de Deus feito homem e nos tornamos participantes da sua divina natureza à qual fomos elevados" (n. 141).
O Papa Bento XVI, em sua última homilia da noite do Natal (2012) dizia: "A beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o fato de Deus Se ter feito menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos".
"Vamos até lá, a Belém: diz-nos hoje a liturgia da Igreja. Transeamus – lê-se na Bíblia latina – «atravessar», ir até lá, ousar o passo que vai mais além, que faz a «travessia», saindo dos nossos hábitos de pensamento e de vida e ultrapassando o mundo meramente material para chegarmos ao essencial, ao além, rumo àquele Deus que, por sua vez, viera ao lado de cá, para nós. Queremos pedir ao Senhor que nos dê a capacidade de ultrapassar os nossos limites, o nosso mundo; que nos ajude a encontrá-Lo, sobretudo no momento em que Ele mesmo, na Santa Eucaristia, Se coloca nas nossas mãos e no nosso coração."
"Os pastores apressaram-se… Uma curiosidade santa e uma santa alegria os impelia. No nosso caso, talvez aconteça muito raramente que nos apressemos pelas coisas de Deus. Hoje, Deus não faz parte das realidades urgentes. As coisas de Deus – assim o pensamos e dizemos – podem esperar. E todavia Ele é a realidade mais importante, o Único que, em última análise, é verdadeiramente importante. Por que motivo não deveríamos também nós ser tomados pela curiosidade de ver mais de perto e conhecer o que Deus nos disse? Supliquemos-Lhe para que a curiosidade santa e a santa alegria dos pastores nos toquem nesta hora também a nós e assim vamos com alegria até lá, a Belém, para o Senhor que hoje vem de novo para nós. Amém."
No fim do ano passado, na santa noite do Natal do Senhor, o Papa Francisco disse, em sua homilia: "Com eles [os pastores], detemo-nos diante do Menino, detemo-nos em silêncio. Com eles, agradecemos ao Pai do Céu por nos ter dado Jesus e, com eles, deixamos subir do fundo do coração o nosso louvor pela sua fidelidade: Nós Vos bendizemos, Senhor Deus Altíssimo, que Vos humilhastes por nós. Sois imenso, e fizestes-Vos pequenino; sois rico, e fizestes-Vos pobre; sois omnipotente, e fizestes-Vos frágil."

Concluindo
Será sempre atual e necessário, por fim, recordar a inclinação (na Forma Ordinária) e a genuflexão (Forma Extraordinária) que sempre se faz, por parte de todos na celebração, durante o Símbolo (seja o Niceno-constantinopolitano ou o Apostólico), quando se cita a fé na encarnação do Verbo no seio de Maria Santíssima pela ação do Espírito Santo. Esta adoração ao Deus que se esvazia, se humilha, se encarna é bastante eloquente e deveria ser feita com grande devoção. Infelizmente, nem os ministros ordenados costumam fazê-la... O que se dirá do povo? Na forma ordinária, a inclinação é substituída pela genuflexão no Natal e na Anunciação.
Que a rubrica, enquanto rubrica, seja obedecida. E que a adoração, a Deus somente devida, seja-lhe prestada com coração humilde e alegre, hoje e por todos os séculos. Amém.

Obs: Embora estejamos já chegando ao fim do Tempo do Natal, nosso voto de um santo Natal do Senhor a todos os visitantes e leitores do blog.